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  • ISSN 2177-8892 904

    ANARQUISMO E ESTTICA: APONTAMENTOS HISTRICOS E

    CONCEITUAIS EM EDUCAO INTEGRAL.

    Gabriel Otoni Calhau Martins

    NEPHEB/PPGEDU/UNIRIO

    gabrielotoni@gmail.com

    Jos Damiro de Moraes

    NEPHEB/PPGEDU/UNIRIO

    jdamiro@gmail.com

    Introduo.

    Essa comunicao tem como objetivo apresentar, ainda que de forma inicial,

    reflexes sobre o pensamento anarquista e sua relao com a arte e educao. O

    anarquismo uma teoria sociopoltica que se articulou no sculo XIX, no seio do

    movimento operrio, como proposta de superao da propriedade privada e da

    sociedade capitalista. A fundao da Associao Internacional dos Trabalhadores (AIT),

    tambm conhecida como Primeira Internacional, em 1864 tambm foi um marco para a

    construo das relaes anarquistas internacionais e do aprofundamento dos conceitos

    de educao integral, anti-estatismo, federalismo, ao direta, autogesto. Para o

    socialista libertrio, outra forma de denominao, todos devem ser livres e capazes de

    gerir a sociedade diretamente, sem o Estado. Nessa direo, a autonomia individual e

    autogesto so alguns dos princpios do anarquismo que possibilitam um tipo especial

    de democracia participativa, que questiona a representatividade e considera que todos

    devem ser ativos na sociedade.

    Alm de outros temas, como a educao integral, no interior do movimento

    anarquista a cultura sempre foi considerada de extrema importncia para a formao de

    sujeitos libertrios. Neste sentido, essa comunicao procura realizar um estudo das

    abordagens sobre arte de alguns anarquistas como Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865),

    Mikhail Bakunin (1814-1876), Liev Tolsti (1828-1910), e Pietr Kropotkin (1842-

    1921). E buscar compreender como esse pensamento influenciou as prticas

    educacionais anarquistas em suas experincias escolares utilizando a prtica de

    atividades artstica no Orfanato de Prvost em Cempuis, Oise, Frana..

  • ISSN 2177-8892 905

    Os anarquistas e a arte: por uma esttica libertria.

    Em A esttica anarquista, Andr Reszler apresenta uma interessante viso

    sobre a relao arte e anarquismo. No primeiro captulo do livro, o autor discute um

    pouco sobre o que seria o conceito de uma esttica libertria. Os anarquistas de maneira

    geral priorizam o nascimento de uma arte nova nunca antes vista pelo homem e que no

    se destine a reproduzir os padres da sociedade capitalista. A arte considerada como

    experincia e no como um dom ou coisa que surge naturalmente. Cada indivduo um

    artista criador em potencial. Rejeita-se a arte de museu e as salas de concerto em prol de

    uma arte de situao, que dialoga com o momento poltico existente e se posiciona

    diante dele.(Reszler s/d, p. 7-8)

    Para Reszler, os anarquistas se apropriam das teorias romnticas da sntese das

    artes para dar a elas uma dimenso poltico-social e esttica. Arte no ser apenas a arte

    do povo e para o povo, mas tambm pelo povo. Richard Wagner, msico de destaque na

    historiografia musical, relata o encanto de Mikhail Bakunin, uma das grandes

    referncias do anarquismo, por uma obra romntica. Ele conviveu com Bakunin durante

    a insurreio de Dresden, 1849. Nessa ocasio, Wagner regeu a Nona Sinfonia de

    Beethoven no domingo de ramos de 1849. Bakunin assistiu apenas ao ensaio geral, pois

    estava na cidade escondido da polcia, pois era perseguido pelo governo austraco por

    ter participado da revoluo de Praga em 1848. Ao final da execuo, ele se aproximou

    de Wagner e da orquestra e disse que se toda msica fosse condenada a desaparecer,

    deveramos salvar essa sinfonia, mesmo pondo em risco nossas vidas.

    A 9 Sinfonia lana provavelmente uma ponte entre a idade do ouro da

    infncia e o futuro que o revoltado desespera de conhecer um dia. O

    grito do andamento final prenuncia o desejo da harmonia libertria.

    dentro da tica bakuniana que Wagner apresenta a sinfonia coral em A

    Obra de Arte do Futuro. Beethoven liberta a msica da sua

    temporalidade para revigorar nas prprias fontes da arte universal.

    Segundo Adolf Reichel, msico e amigo de sempre de Bakunin, o

    eterno vagabundo do socialismo viu na obra de Beethovem a

    impossvel mediao entre o sonho da destruio universal e a

    recordao do paraso perdido. Observa: Bakunin abandonava-se aos

    acordes da sinfonia porque esta no permitia qualquer pergunta nem

    necessitava qualquer resposta (RESZLER, s/d, p. 32).

  • ISSN 2177-8892 906

    A esttica anarquista d incio ao primeiro grande ataque moderno a dois

    milnios de cultura europeia. Para Reszler, o primeiro autor a propor um pensamento

    esttico anarquista foi William Godwin (1793) ao perguntar se a obra de arte tal como o

    Estado ou a propriedade privada, no uma manifestao de autoridade. Em seu livro

    A justia poltica abordou crticas sociedade e educao, alm de revelar seu anti-

    estatismo no final do sculo XVIII. Os temas que aparecem em suas reflexes o

    colocam como um dos primeiros anarquistas junto com francs Pierre-Joseph Proudhon.

    Ao fazer apontamento sobre a arte, Godwin valorizava tanto a criao que acreditava

    que a repetio de ideias era um aprisionamento, e que chegaria um tempo em que um

    msico se recusaria a cantar composies que no fossem suas. Sua posio chega a ser

    extrema ao negar qualquer forma de repetio, mas serviu como base para a reflexo de

    uma arte que no reproduza as estruturas sociais. (RESZLER, s/d, p. 8/9).

    No clssico Deus e o Estado, Mikhail Bakunin tambm fez um apontamento

    analisando a cincia e o papel da arte. Nesse escrito, Bakunin crtica ao uso da cincia

    por seguidores de Augusto Conte e seguidores do comunismo alemo. O que ele

    chamou de revolta da vida contra a cincia ou contra a governao da cincia.

    Em seu entendimento, a cincia compreende o pensamento da realidade, mas no a

    realidade, compreende o pensamento da vida, mas no a vida. A cincia nada cria, ela

    constata e reconhece as criaes da vida (BAKUNIN, 1988, p. 62). Toda vez que os

    homens da cincia saem do mundo abstrato e se envolvem com a criao real da vida

    propem algo ridculo e abstrato. O governo da cincia ou dos homens da cincia, s

    poder ser algo extremamente autoritrio, opressivo e explorador. Os homens da cincia

    no tm sentido nem corao para os seres individuais e vivos. A cincia no pode sair

    da esfera das abstraes. Em relao a isso, ela muito inferior arte (BAKUNIN,

    1988, p. 63). A arte tem o poder de agir em nossas individualidades, no que a cincia

    ignore o princpio da individualidade, mas ela o tem como princpio e no como fato. A

    arte, ainda que no seja a vida propriamente dita, nos traz as lembranas e os

    sentimentos da vida. A arte tem o poder da criao, ao contrrio da cincia que de

    alguma maneira est sempre submissa natureza (BAKUNIN, 1988, p. 62-64).

  • ISSN 2177-8892 907

    Para Pierre-Joseph Proudhon, a arte ao mesmo tempo realista e idealista, pois o

    ideal no existe sem o real. Toda idealizao parte de uma realidade ou ao menos

    pretende uma realidade. A finalidade do artista no apenas reproduzir objetos, ele

    tambm passa uma impresso desse objeto. Se fosse apenas para imitar a natureza, qual

    seria a funo do artista? O que a arte teria de diferente? A arte dessa maneira, s existe

    pelo ideal. A palavra ideal se diz de qualquer objeto que rena o mais alto grau de toda

    perfeio, essa perfeio existe apenas pela representao. O industrial obrigado a

    seguir rigorosamente as leis da geometria, da mecnica e do clculo de forma absoluta.

    O artista pode se afastar mais do seu arqutipo, esse afastamento que produz na arte a

    variedade e a vida. Mesmo no sendo capaz de reproduzir o ideal fisicamente, temos a

    faculdade de alterar, de reproporcionar de refazer e de criar. Desta forma,

    O que o artista faz, portanto, continuar a obra da natureza,

    produzindo por seu turno imagens segundo certas ideias que tem a

    respeito dela e que deseja comunicar-nos. Essas figuras so mais ou

    menos belas, significativas, expressivas, segundo o pensamento que as

    anima: fao aqui abstrao da execuo. Para esse efeito, pode-se

    dizer que o artista dispe de uma escala infinita de tons, de figuras,

    que vo desde o ideal at o ponto em que o tipo deixa de ser

    reconhecvel (PROUDHON, 2009, p. 24).

    O artista tem por objetivo nos fazer sentir atravs de palavras ou signos. Assim

    Proudhon apresenta a sua definio de arte: Uma representao idealista da natureza e

    de ns mesmos com vistas ao aperfeioamento fsico e moral da nossa espcie

    (PROUDHON, 2009, p. 27.)

    Outro terico do anarquismo, Liev Tolsti em um texto de 1896, O que arte?

    considerou que a arte no apenas um meio de prazer, mas sim uma forma de

    comunicao e, portanto, condio da vida humana. Assim como as palavras transmitem

    o pensamento dos homens, a arte transmite os sentimentos. Quando uma pessoa

    experimenta um sentimento, seja um sofrimento, um prazer, e capaz transmitir esse

    sentimento de maneira que o outro possa se contagiar e vivenciar o sentimento que ela

    vivenciou esta pessoa est fazendo arte. Essa capacidade de transmitir sentimentos

    torna possvel acessar outras experincias que a humanidade experimentou no mbito

    dos sentimentos antes de ns (TOLSTI, 2011, p. 95). Neste sentido, a capacidade das

  • ISSN 2177-8892 908

    pessoas de se contagiar com o sentimento de outras pessoas se fundamenta a