paulo ramos (unifesp)

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  • 1. TIRAS, GNERO E HIPERGNERO: COMO OS TRS CONCEITOS SE PROCESSAM NAS HISTRIAS EM QUADRINHOS? Paulo Ramos (Universidade Federal de So Paulo) contatopauloramos@gmail.com Introduo O Dicionrio de gneros textuais, de Srgio Roberto Costa, define histria em quadrinhos (ou HQs) como um gnero com trs caractersticas essenciais: 1) integrao entre palavras e imagens; 2) presena do tipo narrativo na maioria dos textos; 3) papel como suporte mais recorrente. A mesma obra traz o verbete tira, entendida deste fora: segmento ou fragmento de HQs, geralmente com trs ou quatro quadros, apresenta um texto sincrtico que alia o verbal e o visual no mesmo enunciado e sob a mesma enunciao. Circula em jornais ou revistas, numa s faixa horizontal de mais ou menos 14 cm x 4 cm, em geral na seo Quadrinhos do caderno de diverses, amenidades ou tambm conhecido como recreativo, onde se podem encontrar Cruzadas, Horscopo, HQs, etc. (op. cit., p. 191-192). As definies dos dois verbetes ajudam a ilustrar uma questo aparentemente contraditria sobre a relao entre os dois termos. Se histria em quadrinhos um gnero e o dicionrio atesta que , como a tira pode ser um gnero das histrias em quadrinhos? Ou, na explicao dada pela obra, um segmento ou fragmento de HQs? Seguida essa linha de raciocnio, sugere-se que exista uma espcie de hierarquia genrica, em que um estaria num patamar acima do outro. Mas como isso seria possvel se ambos so gneros? Esse uso corrente em muitas das menes sobre os dois termos, embora com poucas explicaes a respeito das questes colocadas por ns. Este artigo procura trazer uma possvel resposta, ancorada na articulao entre os conceitos de gnero e de hipergnero propostos por Maingueneau (2004, 2005, 2006, 2010) e na forma como trabalhados por Ramos (2010a, 2011) no escopo das histrias em quadrinhos. Para Ramos, os quadrinhos compem um campo maior, denominado hipergnero, que agrega elementos comuns aos diferentes gneros quadrinsticos, como o uso de uma linguagem prpria, com elementos visuais e verbais escritos, e a tendncia presena de sequncias textuais narrativas, leitura semelhante feita por Costa. Tais caractersticas seriam percebidas em uma gama de gneros autnomos, unidos por esses elementos coincidentes. Nesta exposio, a premissa ser aplicada s tiras. Estas apresentam gneros distintos, como a tira cmica, a tira seriada, a tira cmica seriada e a tira livre, porm com caractersticas compartilhadas e agregadas pelo hipergnero quadrinhos. O recorte de anlise sero trabalhos extrados de autores brasileiros e estrangeiros. Espera-se, com a exposio, contribuir no sentido de permitir um maior aprofundamento do tema, bem como fornecer um arcabouo terico que possibilite uma melhor compreenso do que sejam os conceitos de tira, quadrinhos e hipergnero quando aplicados no processamento textual das histrias em quadrinhos. Conceito de gnero

2. Embora existam diferentes perspectivas sobre o estudo dos gneros, parece haver consenso de que o texto-fonte seja o de Bakhtin (2000). No entender do autor russo, a lngua vista como uma atividade essencialmente dialgica, na qual os sujeitos da interao atuam como seres socio-historicamente situados, em que os diferentes processos de comunicao ocorrem com o auxlio de gneros do discurso, definidos por ele como tipos relativamente estveis de enunciados (op. cit., 2000, p. 279). Nas palavras de Faraco (2004), ao dizer que os tipos so relativamente estveis, Bakhtin est dando relevo, de um lado, historicidade dos gneros; e, de outro, necessria impreciso de suas caractersticas e fronteiras. E acrescenta: Desse modo, Bakhtin articula uma compreenso dos gneros que combina estabilidade e mudana; reiterao ( medida que aspectos da atividade recorrem) e abertura para o novo ( medida que aspectos da atividade mudam (op. cit., 2004, p. 113). Como se v, a constituio do gnero na atividade interacional no algo fixo, mutvel e se molda situao discursiva. um equilbrio entre elementos recorrentes e difusos, que podem, inclusive, consolidar outro gnero. A esse processo Bakhtin chama de foras centrpetas (de estabilidade) e foras centrfugas (de mudana). Cada enunciao concreta do sujeito do discurso constitui o ponto de aplicao seja das foras centrpetas, seja das centrfugas. Os processos de centralizao e descentralizao, de unificao e de desunificao cruzam-se nesta enunciao, e ela basta no apenas lngua, como sua encarnao discursiva individualizada, mas tambm ao plurilinguismo, tornando-se seu participante ativo. (BAKHTIN, 1998, p. 82) Brando (2001) v no raciocnio das foras uma tenso que leva s caractersticas de estabilidade do gnero, ameaadas por constantes pontos de fuga, que levam a uma instabilidade genrica. Essa relao, embora malevel, levaria a um equilbrio, necessrio para a situao comunicativa. Como resume o autor russo, numa citao sempre lembrada quando o assunto abordado, se no existissem os gneros do discurso e se no os dominssemos, se tivssemos de cri-los pela primeira vez no processo da fala, se tivssemos de construir cada um de nossos enunciados, a comunicao verbal seria quase impossvel (BAKHTIN, 2000, p. 302). nesse equilbrio que seriam evidenciadas algumas caractersticas comuns aos gneros. Cada um apresenta uma estrutura composicional, um tema e um estilo, podendo ser de duas formas: primrios ou secundrios. O que caracteriza os primrios serem produzidos em situaes espontneas de comunicao. Os vrios modos de produo do dilogo oral, por exemplo. Os gneros secundrios surgem a partir dos primrios. Aparecem no que Bakhtin chamou de forma de comunicao mais complexa e evoluda, manifestada numa (re)criao dos gneros primrios nos secundrios, o que fica mais ntido na lngua escrita. Um caso a reproduo de um dilogo num romance. Na prtica, as ideias de Bakhtin colocam o tema nas atividades humanas, quaisquer atividades, e no s nas literrias, como vinha sendo feito at ento. E traz, como consequncia, uma pluralidade de gneros nas prticas interativas. Esses princpios tericos influenciaram uma srie de estudos sobre o assunto, ora se aproximando teoricamente do autor russo, ora reavaliando seus conceitos. Marcuschi (2005) comenta que houve inicialmente uma tendncia de abordar os enunciados relativamente estveis, na definio de Bakhtin, com os olhos voltados ao carter estvel. Hoje, a tendncia se volta ao relativamente, ao aspecto malevel e no-rgido dos gneros numa situao scio-comunicativa. 3. Existe uma grande diversidade de teorias de gneros no momento atual, mas pode-se dizer que as teorias de gnero que privilegiam a forma ou a estrutura esto hoje em crise, tendo-se em vista que o gnero essencialmente flexvel e varivel, tal como o seu componente crucial, a linguagem. Pois, assim como a lngua varia, tambm os gneros variam, adaptam-se, renovam-se e multiplicam-se. Em suma, hoje, a tendncia observar os gneros pelo seu lado cognitivo, evitando a classificao e a postura estrutural. (op. cit., p. 18) Maingueneau um dos autores que se enquadram nesse paradigma socio- comunicativo e de particular interesse para esta discusso. Gnero e hipergnero Maingueneau trabalhou a questo dos gneros em dois momentos tericos. No primeiro (2002), defende que um gnero do discurso (termo usado por ele) no se limita apenas organizao textual, embora seja um de seus elementos. H outras caractersticas, igualmente pertinentes e definidoras: finalidade, lugar e momento onde ocorre, suporte material (televiso, dilogo, rdio, jornal), o estabelecimento de parceiros coerentes com a situao (o autor chama de parceiros legtimos). Neste ltimo caso, acrescenta que o locutor e o interlocutor travam um contrato comunicativo, uma espcie de jogo, e que exercem papis definidos na situao comunicativa. O autor francs v o gnero do discurso atrelado a uma cena enunciativa. Para ele, a situao de comunicao funciona tal qual uma encenao. So trs as cenas: Cena englobante a que define o tipo de discurso a que pertence a situao comunicativa. Pode ser, por exemplo, religioso, poltico, publicitrio. Cena genrica o gnero do discurso a que pertence a situao de comunicao. A cena genrica, aliada englobante, define o quadro cnico do texto. Cenografia a forma como o quadro cnico transmitido. Em outras palavras: a prpria cena da enunciao. As trs cenas podem ocorrer ao mesmo tempo. Maingueneau afirma que h uma tenso, um conflito entre elas. O resultado dessa articulao emerge no texto. Um exemplo do autor torna mais fcil o entendimento dos trs conceitos: uma carta feita em 1988 pelo ex-presidente francs Franois Mitterand, ento candidato reeleio. Foi publicada na imprensa. Um trecho: Meus caros compatriotas, Vocs o compreendero. Desejo, nesta carta, falar-lhes da Frana. Graas confiana que depositaram em mim, exero h sete anos o mais alto cargo da Repblica. No final desse mandato, no teria concebido o projeto de apresentar-me novamente ao sufrgio de vocs se no tivesse tido a convico de que nos restava ainda muito a fazer juntos para assegurar a nosso pas o papel que dele se espera no mundo e para zelar pela unidade da Nao. (op. cit., 2002, p. 91) 4. Segundo o modelo de Maingueneau, a cena englobante o discurso poltico, em que os parceiros interagem num espao-tempo eleitoral. A cena genrica a das publicaes. A cenografia a da correspondncia particular prpria de uma carta. Para o autor, nem todos os gneros permitem cenografias diferentes. Por isso, defende a ideia de um continuum. Num extremo, h as que dificilmente permitem uma mudana na cena genrica, como uma receita mdica. No outro extremo, esto os casos que permitem uma gama diferenciada de cenografias, caso das publicidades. Entre os dois plos, estariam os gneros que tendem a usar uma cenografia mais rotineira. O autor ilustra com o caso dos guias tursticos. Num segundo momento terico (2004, 2005, 2006, 2010), Maingueneau acrescentou mais alguns elementos a esse modelo de gnero do discurso. O autor distinguiu os gneros chamados institudos dos conversacionais (que lemos como semelhantes aos

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