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Revista Perspectiva Histrica, janeiro/junho de 2018, N11

Joo Roberto Bort Jnior

VIOLNCIA, CULTURA E NATUREZA NA ENGENHARIA

CONSOLATINA*

Joo Roberto Bort Jnior1

O inferno verde da dcada de 60 tornou-se o pulmo do planeta e sua principal reserva de

biodiversidade; quanto s tribos misteriosas e inquietantes [...] converteram-se em

sociedades de botnicos e farmacologistas atilados (Descola, 1996 p. 243).

Nos ltimos anos, polticos reconhecidos por posies

fundamentadas em princpios religiosos envolveram-se em controvrsias

pblicas tocantes vida e aos direitos dos povos tradicionais. O deputado

federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) est entre os opositores a tais direitos. Ele

mostrou-se mais de uma vez contrrio s demarcaes de terras dessas

populaes2. Em 2013, por exemplo, a Comisso de Direitos Humanos e

Minorias da Cmara dos Deputados colocou em debate o direito do Estado

brasileiro de regulamentar ou no a atuao de missionrios nas reas indgenas. A audincia pblica foi convocada pelo deputado Pastor Eurico

(PSB-PE) que considerava que entidades governamentais impediam o

trabalho de catlicos e evanglicos nas comunidades3. Posturas como essas

so acusadas muito acertadamente de proselitismo e conservadorismo,

porque alimentariam retrocessos no debate sobre a autonomia dos povos

* O artigo um afinamento da reflexo apresentada pelo autor em sua dissertao de mestrado

defendida, em 2012, no Programa de Ps-Graduao em Cincias Sociais da Universidade

Federal de So Paulo (Unifesp), mas que s pde vir a pblico graas s aulas e aos comentrios

do Prof. Dr. Ronaldo de Almeida, agora j no doutorado do Programa de Ps-Graduao em

Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 1 Doutorando em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e

pesquisador discente do Centro de Pesquisa em Etnologia Indgena (CPEI) da mesma

universidade. E-mail: jrbort@gmail.com. 2 Conforme as notcias No podemos abrir as portas para todo mundo', diz Bolsonaro em

palestra na Hebraica, no site Estado (disponvel em

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,nao-podemos-abrir-as-portas-para-todo-mundo-diz-

bolsonaro-em-palestra-na-hebraica,70001725522, acessado em 16 de fevereiro de 2018 s

21h39), e Bolsonaro: Se eu assumir, ndio no ter mais 1cm de terra, no site Dourados News

(disponvel em http://www.douradosnews.com.br/dourados/bolsonaro-se-eu-assumir-indio-nao-

tem-mais-1cm-de-terra/1074774/, acessado em 16 de fevereiro de 2018 s 21h45). 3 Ver notcia disponvel em http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-

HUMANOS/451447-COMISSAO-DISCUTIRA-ATUACAO-DE-MISSOES-RELIGIOSAS-

EM-COMUNIDADES-INDIGENAS.html. Acessado em 17 de fevereiro de 2018 s 10h22.

mailto:jrbort@gmail.comhttp://politica.estadao.com.br/noticias/geral,nao-podemos-abrir-as-portas-para-todo-mundo-diz-bolsonaro-em-palestra-na-hebraica,70001725522http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,nao-podemos-abrir-as-portas-para-todo-mundo-diz-bolsonaro-em-palestra-na-hebraica,70001725522http://www.douradosnews.com.br/dourados/bolsonaro-se-eu-assumir-indio-nao-tem-mais-1cm-de-terra/1074774/http://www.douradosnews.com.br/dourados/bolsonaro-se-eu-assumir-indio-nao-tem-mais-1cm-de-terra/1074774/http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/451447-COMISSAO-DISCUTIRA-ATUACAO-DE-MISSOES-RELIGIOSAS-EM-COMUNIDADES-INDIGENAS.htmlhttp://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/451447-COMISSAO-DISCUTIRA-ATUACAO-DE-MISSOES-RELIGIOSAS-EM-COMUNIDADES-INDIGENAS.htmlhttp://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/451447-COMISSAO-DISCUTIRA-ATUACAO-DE-MISSOES-RELIGIOSAS-EM-COMUNIDADES-INDIGENAS.html

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Revista Perspectiva Histrica, janeiro/junho de 2018, N11

Violncia, cultura e natureza na engenharia

consolatina

tradicionais e sobre a garantia de seus direitos. Sem qualquer empatia

pressuposta com igrejas, questionamos, por outro lado, em que medida se

incorre em risco ao se afirmar genericamente que a atuao das misses [e

dos religiosos] etnocida4. A relativizao dos julgamentos contribui para

compreendermos uma diversidade de atuaes religiosas, em particular a

diversidade de aes missionrias em relao aos povos indgenas?

Iniciaremos nossa reflexo a partir de uma anlise apresentada

alhures (BORT JR., 2012)5. Trata-se aqui de retomar agncias discursivas

missionrias na produo de categorias identitrias e compreender a sua

relao com a sociedade e a poltica brasileira. Se naquela ocasio detivemo-nos sobre modos missionrios e antropolgicos de conceber os Yanomami,

particularmente entre 1960 e 1990, e de conceber os Outros desses indgenas,

agora sugerimos que a anlise daquelas prticas enunciativas que neste

texto volta-se mais fortemente para a prtica missionria sobre os Outros e

sobre os Outros dos Outros podem iluminar novas tentativas de entendimento

acerca do que tem sido dito mais recentemente sobre direitos e terras

indgenas. Dessa forma, o modo como missionrios escreveram sobre os

Yanomami pode sugerir alguma interpretao sobre como concepes sobre

diferenas so operacionalizadas e, por fim, como essas concepes ainda

alimentam posies favorveis ou no aos direitos indgenas, em especial, o

direito terra.

Primeiramente, apresentaremos os Yanomami que podemos ter

acesso a partir de textos de religiosos do Instituto Missionrio da Consolata

(IMC). A tarefa visa demonstrar que a diversidade religiosa inviabiliza

consideraes generalizantes sobre a totalidade da religio e de seus agentes.

Essa instituio catlica surgiu no incio do sculo XX, em Turim, sendo seu

fundador o beato Jos Allamano (ARAJO, 2006), e estabeleceu misso

entre os Yanomami na dcada de 1960, mais especificamente s margens do

Rio Catrimani, em Roraima.

Num segundo momento, rumo s consideraes finais, esforamo-

nos para sugerir que certa engenharia discursiva consolatina ao longo do

4 Conforme opinio de Felipe Milanez em seu blog na Carta Capital. Disponvel em

https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-milanez/em-defesa-das-almas-indigenas-

9424.html. Acesso em 16 de fevereiro de 2018 s 22h30. 5 Trabalho resultante de pesquisa de mestrado desenvolvida, entre 2010 e 2012, na Universidade

Federal de So Paulo (Unifesp) e no Centro Brasileiro de Anlise e Planejamento (Cebrap) com

financiamento da Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo (Fapesp).

https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-milanez/em-defesa-das-almas-indigenas-9424.htmlhttps://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-milanez/em-defesa-das-almas-indigenas-9424.html

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Revista Perspectiva Histrica, janeiro/junho de 2018, N11

Joo Roberto Bort Jnior

tempo, mas no s de religiosos, revelam usos e sentidos das categorias

violncia, natureza e cultura e que abre a possibilidade de alguma

comparao com posies polticas acerca da questo indgena no presente.

No partimos da alteridade como condio epistmica a priori do

fazer antropolgico. Como num passo atrs, assumimos uma perspectiva que

v a alteridade como produo, que, por sua vez, pode ser observvel em

textos6. O que significou afastar-se metodologicamente de categorias de

traduo do Outro para v-las como parte do processo social e simblico de

objetivao de diferenas. Se a anlise, por um lado, revela que as categorias

violncia, cultura e natureza foram estruturais para descrever, julgar e categorizar indgenas e no-indgenas e suas relaes, por outro lado,

demonstra que os sentidos que so atribudos a elas so temporal e

socialmente especficos. Os modos de descrever, julgar e categorizar os

Yanomami e os seus Outros nem sempre igual nos textos observados,

embora a categoria violncia7 se faa presente, inclusive pela sua negao.

Essas categorias consistem, pois, em um objeto antropolgico na medida em

que podemos compreender como diferenas tnicas so definidas a partir de

usos e significados que atores sociais em disputa, respectivamente, fazem

dela e engendram nela discursivamente. Em hiptese alguma a comparao

entre textos missionrios permite-nos entend-las substantivamente. Seus

usos e sentidos foram constrangidos pelos contextos sociais e polticos que envolviam os autores dos textos, suas escritas e os prprios Yanomami. Fica

notvel como, ainda que estruturante s possibilidades de enunciao sobre

esses amerndios, violncia, cultura e natureza so relacionais, uma vez que

depende de quem fala, em que circunstncias fala, sobre quem e como fala.

Os textos missionrios analisados foram, principalmente, artigos

publicados na revista Misses Consolata entre as dcadas de 1960 e 1990.

Em nossas primeiras anlises (BORT JR., 2012) tambm nos dedicamos aos

textos de antroplogos, particularmente Chagnon (1968), Albert (1985),

Lizot (1988) e Ramos (1990). Desses ltimos pouco falaremos aqui.

Remeter-nos-emos a eles quando permitirem melhores compreenses sobre

textos consolatinos.

6 Montero (2012), por exemplo, a