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  • DADOS DE COPYRIGHT

    Sobre a obra:

    A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com oobjetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudos acadmicos, bem comoo simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

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    Sobre ns:

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    "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutando pordinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo nvel."

  • SUMRIO

    APRESENTAO

    1 - O PRIMEIRO LIVRO

    2 - UM LIVRO LUZ DE VELAS

    3 - O JARDIM SECRETO

    4 - T VENDENDO PICOL?

    5 - O MEU ANJO DA GUARDA

    6 - LER 10 LEIA FAVELA

    7 - NA CORDA BAMBA

    8 - DORMINDO COM LYGIA BOJUNGA, RUTH ROCHA E ZIRALDO

    9 - GUERREIRO DA LITERATURA

    10 - ONDE ESTAR DON GATN?

    EPLOGO: A LIBERTAO

    O AUTOR

  • Agradecimento

    Aos meus pais, grandes incentivadores. A todas as crianas das periferias do Brasil, em especial as dos Complexos da Penha e do Alemo. Tambm para Ricardo Gomes Ferraz, que transformou sua casa localizada numa favela domangue, no Recife, na Livraria Guardi, nico espao de leitura da comunidade. Uma inspirao!

  • As 25 crianas estavam sentadas na lona azul e nas duas esteiras de praia que estendi no chode uma sala de aula do Espao Ibiss, na Vila Cruzeiro. A Vila Cruzeiro uma comunidade doRio de Janeiro famosa pelo histrico de violncia e por ser onde nasceu o jogador AdrianoImperador. Tinha acabado de contar uma histria para as crianas e agora todas estavamentretidas com os livros distribudos para leitura. Acho que poucos ouviram o primeiro tiro. Maso estampido me deixou preocupado. Os tiros foram se sucedendo e as crianas comearam a ficarapavoradas. Olhavam, assustadas, para os lados e pela janela.

    Olha o caveiro! algum gritou l de fora.Era o carro blindado da PM que estava se aproximando. Tive de interromper a leitura e levei

    as crianas para um lugar mais seguro. Nem deu tempo de recolher os livros.Os confrontos foram se repetindo naquele ano de 2007. No conseguia mais reunir os

    garotos. Nenhuma me queria ver os filhos fora de casa e o meu projeto Ler 10 Leia favelaficou ameaado de acabar.

    Quem mora ali no morro sabe que h medo, h angstia, h desespero. Mas tambm h umdesejo enorme de superao. Superar a violncia, superar o preconceito de morar num dos locaismais violentos do Rio de Janeiro, superar a falta de perspectivas. O Complexo do Alemo temuma populao de 140 mil pessoas e abrange 20 comunidades. So 14 grandes favelas na zonaNorte da cidade, que ganharam o nome da maior delas. Eu nasci e moro at hoje no Morro doCaracol, no Complexo da Penha (vizinho do Complexo do Alemo), uma dessas 14. A VilaCruzeiro outra delas. Vejo homens armados por todos os lados, j tive amigos aliciados porcriminosos, e uma bala perdida invadiu a minha casa, deixando uma marca na parede em cima daminha cama. O que nunca vi foram cadveres.

    Naquele maldito ano de 2007, os conflitos ficaram acirrados. Era bala pra cima, bala prabaixo. Fiquei sem sair de casa vrios dias. Por ironia, foi o perodo em que mais produzi.Escrevia, escrevia, escrevia para esquecer a tenso. Escrevia para no morrer sufocado.

    De todos os morros do Rio, o Alemo era considerado aquele com maior ausncia do poderpblico. Meu bair-ro foi construdo sobre a Serra da Misericrdia. Ele faz vizinhana comRamos, Inhama, Olaria e Bonsucesso. Na dcada de 1920, um imigrante polons chamadoLeonard Kaczmarkiewicz comprou terras aqui. Nessa poca, um curtume (lugar em que seprocessa o couro dos animais) foi aberto ali e vrias famlias de operrios se instalaram no local.Sem entender a lngua dele, os operrios passaram a trat-lo como Alemo. Por isso que area ganhou o nome de Morro do Alemo. Poderia ter sido Morro do Polons... A rea comeou

  • a ser invadida em 1951, quando Kaczmarkiewicz loteou o terreno para vend-lo em partes.Eu nem era nascido quando o trfico de drogas co-meou a ganhar fora no Rio de Janeiro.

    O que eu sei que uma das primeiras favelas a ser dominada pelo trfico foi justamente a doMorro do Alemo, junto com a da Man-gueira e a do Jacar, na dcada de 1970. O Brasil virourota da droga que saa dos pases da Amrica do Sul em direo Europa. Havia uma ofertagrande, e os bandidos, que antes assaltavam bancos, descobriram na cocana um mercado maislucrativo. Por isso, o negcio cresceu to depressa. Mas ningum fica contando essas histrias pora. como se a droga j fizesse parte do nosso cotidiano desde sempre. Nasci com eladisseminada por todos os cantos. Na favela, todas as crianas conhecem desde cedo a gria dopessoal, que fica ligado.

    O que assusta de verdade quem mora aqui o aumento da violncia. Nos anos 1990, osgrupos armados comearam a brigar entre si pelos melhores pontos de venda. Eles se armavampara enfrentar as outras gangues. Viravam pequenos exrcitos. Para revidar, o outro grupoprecisava ficar mais forte, com armas mais potentes. isso que os jornais chamam de guerra dop. Mesmo presos, alguns chefes continuavam dando ordens de dentro da cadeia. O Estadosempre demorou muito a agir. De vez em quando, as favelas so invadidas pela polcia. Numadessas megaoperaes, em 2007, a polcia invadiu o Alemo e matou 19 pessoas. Houve muitascrticas ao dos policiais.

    Dentro das comunidades, alguns traficantes mantm certo assistencialismo em troca derespeito. Do presentes para as crianas (nunca livros!), compram botijes de gs para as famlias,ajudam com material de construo para os barracos. Por isso, a delao o maior dos pecadosque um morador pode cometer. sinal de ingratido com seu benfeitor. O delator chamadode X-9 na gria da favela. Quando isso acontece sua morte sentenciada sim, ele serexecutado com requintes de crueldade. Precisa servir de exemplo.

    Em 2008, o governo criou um negcio chamado UPP (Unidade de Polcia Pacificadora) paratrazer a polcia para dentro da favela. Comeou no Morro Santa Marta, na zona Sul. Era umatentativa de brecar o domnio territorial dessas gangues. Outras 12 favelas tambm receberamsuas UPPs. Com a chegada das Unidades, os servios sociais nas comunidades beneficiadasaumentaram. Preocupados com a chegada da polcia, as gangues armadas partiram para o ataquenuma onda de violncia que abalou o Rio de Janeiro e fez eco em todo o mundo. Tudo issoaconteceu em novembro de 2010, um ms para entrar para a Histria.

    Mas, ao contrrio do que muita gente imagina, eu amo a minha vida aqui. Posso dizer que

  • tive uma infncia feliz e que hoje me sinto realizado ao fazer um trabalho de incentivo leituracom gente da minha comunidade. Sei, por experincia prpria, que as crianas daqui tm umaviso muito estreita do mundo. Quase no saem da favela. Tudo perto. A escola, a igreja, ocampo de futebol, o mercadinho, as ONGs. Muitas nem conhecem a praia. Ficam presas aquidentro. Foi a leitura que me libertou dessa priso. Tudo isso me levou a receber o Prmio FazDiferena, do jornal O Globo, em dezembro de 2008. A reportagem tambm estampou o apelidopelo qual muita gente me identifica hoje em dia: O Livreiro do Alemo. Uma histria quecomea no meio de um monte de sacos de lixo.

    Otvio Jnior

  • Era uma vez um menino de oito anos. Como a histria minha, eu queria que ela comeassecom era uma vez. Todas as manhs, eu, minha me, Joana DArc, e minha irm, Jucilene, entocom cinco anos, amos at a igreja, que ficava a seis quadras de casa. Descamos uma pequenaescadaria e virvamos direita. Estava de bermuda, camisa e sapato. O culto durouaproximadamente uma hora, como de hbito. No caminho de volta, eu sempre dava um jeito dedesviar pelo campinho de futebol. Os donos do campo j estavam l. Quando a turma de 16,17 anos chegava, as crianas tinham de sair imediatamente. A senha era sempre a mesma. Umdeles chutava a bola para o alto com muita fora e anunciava:

    Acabou o juvenil!As crianas, incluindo eu, saam correndo na mesma hora. S nos era permitido ficar na

    beirada, vendo o jogo.Naquela manh, os grandes estavam jogando. Era difcil ver a bola dente de leite, velha e

    surrada. De to gasta, ela j tinha perdido os desenhos que imitavam gomos pretos. Tinha amesma cor da terra do campo. O entorno era um grande depsito de lixo. No havia servio decoleta na comunidade. Todo o lixo era queimado ali mesmo. Para no invadir o terro, fuicaminhando pela sujeira. De repente, vi uma caixa cheia de brinquedos quase novos. Devo terdado um grito de surpresa, de espanto, alguma coisa assim. Esse foi o meu erro. Todos queestavam em volta do campo ouviram e correram em minha direo. Os brinquedos s podiam serde um menino com melhores condies de vida, que morava no p do morro. Deu tempo apenasde pegar o livro que estava ali: Don Gatn. No sei como explicar, mas tive olhos apenas para olivro, e no para os brinquedos, que foram rapidamente atacados. Depois da batalha, leveiaquele exemplar como um trofu para casa. Estava comeando a viver ali o meu conto de fadas.(Entendeu por que a minha histria tinha mesmo que comear com um era uma vez?)

  • Naquele mesmo dia, no comeo da noite, uma chuva muito forte acabou com a luz no morroe em nos-sa casa. Minha me acendeu duas velas, suficientes para iluminar o nico cmodo queservia de sala, quarto e cozinha. Ficamos sem o captulo da novela Vamp, com o Ney Latorraca,em nosso pequeno televisor em preto e branco. Lembrei do livro, que estava guardado numapilha com os meus cadernos de escola.