w. somerset maughan - o véu pintado

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The Painted Veil é o nome da obra literária de William Somerset Maugham, que mais tarde foi adaptado ao cinema em O Despertar de Uma Paixão.

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  • O VU PINTADO W. SOMERSET MAUGHAN CRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 01051 So Paulo, Brasil Edio integral Ttulo do original: "The painted veil" Copyright 1980 by the executors of the Estate of The late Traduo: Amlcar de Garcia Layout da capa: Natanael Longo de Oliveira Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Distribuidora Record de Servios de Imprensa S.A.

    Venda permitida apenas aos scios do Crculo Composto pela Linoart Ltda. Impresso e encadernado pelo Crculo do Livro S.A. "... o vu pintado a que os vivos chamam vida"

  • Prefcio

    Esta histria me foi sugerida pela seguinte estrofe de Dante: "Deb, quando tu sarai tornato al mondo, E riposato della lunga via, Seguito il terzo spirito al secondo, Ricorditi di me, che son la Pia: Siena mi f; disfecemi Maremma: Salsi colui, che, innanellata pria, Disposando m'avea con la sua gemma". "Ah, quando ao mundo retornares, j da longa jornada

    repousado, lembra-te de mim, a que chamavam Pia; Siena me fez, Maremma me desfez: bem o sabe quem me havia ornado com seu anel nupcial, preciosa gema."

    Em umas frias da Pscoa, quando estudante de medicina, tive

    seis semanas minha disposio. com a roupa na maleta e vinte libras no bolso, pusme a caminho. Contava vinte anos. Fui a Gnova, Pisa e, finalmente, Florena. Tomei um quarto na Via Laura, e de minha janela podia ver a formosa cpula da catedral: achava-me instalado no apartamento de uma senhora viva, me de uma jovem, que me ofereceu hospedagem (depois de muito regatear) a quatro liras por dia. Creio que ela no fazia bom negcio, pois meu apetite era enorme e eu podia devorar sem cerimnia uma montanha de macarro. Tal senhora possua um vinhedo nas colinas da Toscana, e tenho lembrana que de l recebia o melhor chianti que bebi na Itlia. A filha dava-me todos os dias uma lio de italiano. Parecia-me, ento, que era madura, mas no creio que contasse mais de vinte e seis anos. Tivera dissabores. O noivo, oficial do exrcito, morrera na Abissnia, e ela fizera voto de castidade. Era coisa resolvida que, morrendo a mie (aquela senhora grisalha, jovial e bem-nutrida, que no pensava em morrer nem um dia antes que Nosso Senhor assim o desejasse), Ercilia iria para um convento. E era com alegre disposio que ela esperava o momento de vestir o hbito. Muito nos divertamos durante o almoo e o jantar, embora ela levasse as lies a srio e me batesse nos dedos com uma rgua preta quando eu no lhe prestava ateno ou no a compreendia. Eu deveria indignar-me por ser tratado como uma criana, mas aquilo me

  • lembrava os professores antiga, que eu conhecera pelos livros, e me fazia rir.

    Eram dias de bastante trabalho. Comeava-os traduzindo

    algumas pginas de uma pea de Ibsen, a fim de adquirir domnio da tcnica e fluncia no dilogo; depois, de Ruskin em punho, examinava as belezas de Florena. Admirava, de acordo com as instrues, a Torre de Giotto e as portas de bronze de Ghiberti. Entusiasmava-me corretamente com os Botticelli nos Uffizi e, com o desdm prprio dos verdes anos, voltava as costas para o que o mestre desaprovava. Findo o almoo, tomava minha lio de italiano e saa mais uma vez a visitar igrejas e a devanear ao longo do Arno. Aps o jantar, saa cata de aventuras, mas tal era minha inocncia, ou, pelo menos, a minha timidez, que sempre me recolhia to virtuoso quanto sara. A signora, apesar de me haver dado uma chave, suspirava, aliviada, ao ouvirme entrar e fechar a porta, pois receava que eu me esquecesse disso; e eu voltava leitura dos guelfos e gibelinos. Sabia, com amargura, que os escritores do perodo romntico no procediam com semelhante mtodo, mas duvidava que algum deles pudesse viver seis semanas na Itlia com vinte libras, e muito me alegrava com minha vida sbria e diligente.

    J lera o Inferno (auxiliado por uma traduo, mas procurando

    no dicionrio, conscienciosamente, as palavras que no conhecia), e com a ajuda de Ercilia encetei a leitura do Purgatrio. Ao chegarmos estrofe acima citada, contou-me ela que Pia fora uma fidalga de Siena cujo marido, suspeitando-a de adltera e no podendo mat-la por temerlhe a famlia, levara-a para seu castelo de Maremma, onde, segundo confiava, os vapores insalubres acabariam com ela; mas Pia tanto demorava em morrer, que ele se impacientou e atirou-a pela janela. No sei onde Ercilia aprendera tudo isso; no meu Dante os comentrios eram menos pormenorizados; mas a histria, por uma razo qualquer, me prendeu a imaginao. Revolvi-a na mente, e por muitos anos, de tempos a tempos, meditava nela durante dois ou trs dias. Costumava repetir o verso: "Siena mi f; disfecemi Maremma". Este, porm, era um entre os muitos assuntos que me ocupavam a fantasia, e por longos perodos eu o esquecia. Naturalmente eu o via como uma histria moderna, mas no mundo contemporneo no me ocorria um ambiente em que tais sucessos fossem plausveis. E

  • somente vim a encontr-lo quando fiz uma demorada viagem pela China.

    Creio que este meu nico romance cujo incio foi uma histria e

    no uma personagem. difcil explicar a relao entre personagem e enredo.

    No se pode conceber uma personagem no ar; no instante em que

    ela nos surge, imaginamo-la em alguma situao, fazendo alguma coisa, de sorte que essa personagem e as suas aes mais tpicas parecem resultar de um ato simultneo da imaginao. Neste caso, porm, as personagens foram escolhidas para a histria que eu ia aos poucos formando, e construdas a partir de pessoas conhecidas em pocas e circunstncias diversas.

    Tive com este livro algumas das dificuldades que comumente se

    deparam a um autor. De incio dei ao heri e herona o sobrenome Lane, bastante comum, mas surgiram pessoas com esse nome em Hong Kong. Essas pessoas moveram-me uma ao, que os editores da revista onde meu romance era publicado em srie liquidaram por duzentos e cinquenta libras - e eu mudei o nome para Fane. Depois, o assistente do secretrio do governo colonial, julgando-se difamado, ameaou-me com um processo. Isto me surpreendeu, porque na Inglaterra podamos levar ao palco ou transformar em personagem de romance um primeiro-ministro, o arcebispo de Canterbury ou o lorde chanceler, sem que os titulares desses altos postos se considerassem atingidos. Pareceu-me estranho que o detentor provisrio de cargo to insignificante pudesse julgar-se visado, mas para evitar complicaes troquei Hong Kong pela colnia imaginria de Tching-Yen. A edio original, publicada antes do incidente, foi retirada das livrarias. Certo nmero de crticos astutos, sob vrios pretextos, no devolveram os exemplares recebidos. Estes adquiriram com o tempo algum valor bibliogrfico: creio haver ao todo uns sessenta, que agora os colecionadores compram a preos elevados.

    I

    Assustada, ela gritou. - Que foi? - perguntou ele.

  • No obstante a escurido do quarto, de persianas fechadas, ele

    viu-lhe o rosto subitamente perturbado pelo terror. - Algum quis abrir a porta. - Quem sabe no foi a sua criada ou um dos empregados? - Nunca vm a esta hora. Sabem que costumo dormir depois do

    almoo. - Quem mais poderia ser? - Walter - murmurou ela, com os lbios trmulos. Apontou-lhe os sapatos. Ele tentou cal-los, mas, j nervoso com

    o susto dela, atrapalhou-se, e alm disso os sapatos eram um tanto apertados. com um ligeiro suspiro de impacincia, ela lhe deu uma caladeira. Enfiou-se num quimono e, descala, dirigiu-se para o toucador. Comps o desalinho dos seus cabelos curtos antes que ele tivesse amarrado o segundo sapato. Alcanou-lhe o palet.

    - Como que vou sair? - Espere um pouquinho. vou ver se no h ningum. - No pode ser Walter. Ele no sai do laboratrio antes das cinco. - Mas quem , ento? Falavam agora aos cochichos. Ela tremia. Vendo-a naquele

    estado, ocorreu-lhe que ela no poderia enfrentar uma emergncia sem perder a cabea; e, de sbito, teve raiva dela. Se no era seguro, por que diabo lhe havia dito que era? Ela suspendeu a respirao e segurou-lhe o brao. Ele seguiu-lhe o olhar. Achavam-se diante das janelas que davam para a varanda. As janelas estavam fechadas, e os ferrolhos, corridos. Viram que a maaneta branca girava lentamente. No tinham ouvido passos na varanda. Era aterrador ver aquele movimento silencioso. Por um instante no houve o menor rudo. Depois, lvidos como fantasmas, viram que a maaneta de porcelana da outra porta

  • girava da mesma maneira furtiva, silenciosa e horripilante. Aquilo era to apavorante que Kitty, j no podendo dominar os nervos, abriu a boca para gritar; vendo, porm, o que ela ia fazer, ele rapidamente tapou-lhe a boca, e o grito foi sufocado.

    Silncio. Ela apoiou-se nele, com os joelhos tremendo, e ele

    receou que ela fosse desmaiar. Franzindo o cenho, de mandbulas cerradas, ele levou-a at a cama e f-la sentar-se. Kitty estava branca como lenol, e o rosto dele, apesar de bronzeado pelo sol, tambm estava plido. Em p, ao lado dela, ele olhava fascinado para a maaneta. Ambos no diziam palavra. Ento ele viu que ela chorava.

    - Por amor de Deus, no faa isso! - murmurou, irritado. - O que

    tiver de acontecer que acontea. Agora enfrentar o que vier. Vendo que ela procurava o leno, alcanou-lhe a bolsa. - Onde est seu chapu? - Deixei-o l embaixo. - Deus do cu! - Escute aqui, voc precisa dominar-se. No pode ser Walter. H

    s uma probabilidade contra cem. Por que diabo voltaria ele e a esta hora? Ele nunca vem para casa depois do almoo, no ?

    - No, no vem. - Aposto o que quiser que foi sua criada. Ela esboou um sorriso.

    A voz dele, cheia e envolvente, tranqilizou-a; ela tomou-lhe a mo e apertou-a carinhosamente. Ele concedeu-lhe um momento para que se refizesse. Depois, disse-lhe:

    - Olhe aqui, no podemos ficar toda a vida neste quarto. Voc

    capaz de ir varanda dar uma espiada? - Acho que no posso ficar em p. - No h conhaque por