renúncia - chico xavier

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Aqui, pois, oferecemos-te, leitor amigo, tão velhas recordações. Crê, no entanto, que, por velhas, não são menos preciosas. São heranças sagradas do escrínio do coração, jóias de subido valor que espalharemos a êsmo, recordando que, se muita gente presume haver alcançado os êxitos retumbantes e a felicidade ilusória no campo vasto do mundo, em verdade ainda não aprendeu nem mesmo a estabelecer a vitória da paz, na experiência sagrada que se verifica entre as paredes de um lar. Pedro Leopoldo, 11 de janeiro de 1942. EMMANUEL

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  • NDICE

    VELHAS RECORDAES

    PRIMEIRA PARTECAPTULO 1 = Sacrifcios do amorCAPTULO 2 = Anseios da mocidadeCAPTULO 3 = A caminho da AmricaCAPTULO 4 = A varolaCAPTULO 5 = Na infncia de AlcioneCAPTULO 6 = Novos rumosCAPTULO 7 = Caminhos de luta

    SEGUNDA PARTECAPTULO 1 = O padre CarlosCAPTULO 2 = Novamente em ParisCAPTULO 3 = Testemunhos de fCAPTULO 4 = ReencontroCAPTULO 5 = Provas redentorasCAPTULO 6 = Solido amargaCAPTULO 7 = A despedida

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  • VELHAS RECORDAES

    Quem poder deter as velhas recordaes que iluminam os caminhos da eternidade? Lembramo-nos de Alcione, desde os dias de sua infncia. Muitas vezes a vi, com o Padre Damiano, num velho adro de Espanha, passeando ao pr do Sol. No raro, levantava o semblante infantil para o cu e perguntava, atenciosa: Padre Damiano, quem ter feito as nuvens, que parecem flores grandes e pesadas, que nunca chegam a cair no cho? Deus minha filha dizia o sacerdote. Mas, como se no corao pequenino no devesse existir esquecimento das coisas simples e humildes, voltava ela a interrogar: E as pedras? quem teria criado as pedras que seguram o cho? Foi Deus tambm. Ento, aps meditar de olhos mergulhados no grande crepsculo, a pequenina exclamava: Ah! como Deus bom! Ningum ficou esquecido! E era de ver-se a sua bondade singular, o interesse pelo dever cumprido, dedicao verdade e ao bem.

    Cedo compreendi que a famlia afetuosa de vila se constitua de amizades vigorosas, cujas origens se perdiam no tempo.

    Os anos minutos do relgio da eternidade correram sempre movimentados e cheios de amor. A criana de outros tempos tornara-se na benfeitora cheia de sabedoria. Sua vida no representava um feixe de atos comuns, mas um testemunho permanente de sacrifcios santificantes. Desde a primeira juventude, Alcione transformara-se em centro de afeies, em fonte de luz viva, onde se podiam vislumbrar as claridades augustas do Cu. Sua conduta, na alegria e na dor, na facilidade e no obstculo, era um ensinamento generoso, em tdas as circunstncias.

    Creio mesmo que ela nunca satisfez a um desejo prprio, mas nunca foi encontrada em desateno aos desgnios de Deus. Jamais a vi preocupada com a felicidade pessoal; entretanto, interessava-se com ardor pela paz e pelo bem de todos. Demonstrava cuidado singular em subtrair, aos olhos alheios, seus gestos de perfeio espiritual, porm queria sempre revelar as idias nobres de quantos a rodeavam, a fim de os ver amados, otimistas, felizes.

    Minhas experincias rolaram deva garinho para os arcanos do Tempo, a morte do corpo arrastou-me a novos caminhos e, no entanto, jamais pude es quecer a meiga figura de anjo, em trnsito pela Terra.

    Mais tarde, pude beijar-lhe os ps e com preender-lhe a histria divina. O resultado dsse conhecimento vibra neste esfro singelo, que no tem pretenses a obra literria.

    Este um livro de sentimento, para quem aprecie a experincia humana atravs do corao. Em particular, falar a todos os que se encontrem en-carcerados, sentenciados, esquecidos daquele amor que cobre a multido dos pecados, consoante os ensinamentos de Jesus. A maioria dos aprendizes do Evangelho deixa-se tomar, em sentido absoluto, pelas idias de resgate escabroso, de olho por olho, ou, ento, pela preocupao de recompensas na Terra ou no Cu. Aqui, comentam-se reencarnaes criminosas; ali, esperam-

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  • se to s prantos amargos; alm, existem coraes anelantes de remansado e ocioso pousio. A esperana e a responsabilidade parecem tesouros esquecidos. razovel que se no possa negar o carter incorruptvel da Justia, porm, no se dever esquecer o otimismo, a confiana, a dedicao e tdas as energias que o amor procura despertar no mago das conscincias.

    Para as almas sinceras, que ainda solucem nos laos do desnimo e desalento, a histria de Alcione um blsamo reconfortador. Naturalmente que ela prpria, qual amorosa viso da Espiritualidade eterna, emergir das pginas luminosas da sua experincia, perguntando ao leitor que se sinta oprimido e exausto:

    Por que retns a noo dos castigos implacveis, quando Nosso Pai nos oferece o manancial inexaurvel do seu amor? Por que atribuis tamanha importncia ao sofrimento? Levanta-te! Esqueceste Jesus? J que o Mestre padeceu por todos, sem culpa, onde ests que no sentes prazer em trabalhar, de qualquer forma, por amor ao seu nome?A psicologia de Alcione bem mais complexa do que se possa imaginar ao primeiro exame. Na grandeza da sua dedicao, vemos o amor renunciando glria da luz, a fim de se mergulhar no mundo da morte. Com seu gesto divino, a Terra no apenas um lugar de expiao destinado a exlio amarguroso, mas, tambm, uma escola sublime, digna de ser visitada pelos gnios celestes. Dentro dos horizontes do Planta, ainda vigem a sombra, a morte, a lgrima... Isso incontestvel. Mas, quem seguir nas estradas que Alcione trilhou, converter todo esse patrimnio em tesouros opinos para a vida imortal.

    Aqui, pois, oferecemos-te, leitor amigo, to velhas recordaes.Cr, no entanto, que, por velhas, no so menos preciosas. So heranas

    sagradas do escrnio do corao, jias de subido valor que espalharemos a smo, recordando que, se muita gente presume haver alcanado os xitos retumbantes e a felicidade ilusria no campo vasto do mundo, em verdade ainda no aprendeu nem mesmo a estabelecer a vitria da paz, na experincia sagrada que se verifica entre as paredes de um lar.

    Pedro Leopoldo, 11 de janeiro de 1942.

    EMMANUEL

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  • PRIMEIRA PARTE

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  • 1Sacrifcios do amor

    Captulo 10, item 11

    A paisagem era formada de sombras, numa regio indefinvel na linguagem humana. Substncias diferentes das que compem o solo terrestre constituam a sua crosta sulcada de caminhos tortuosos entre arbustos mirrados, semelhana dos cactos prprios das zonas ridas. Os horizontes perdiam-se ao longe, nas linhas escuras do quadro melanclico, como se aquela hora assinalasse pesado crepsculo.

    Fazia frio, agravado pelas rajadas fortes do vento mido, que soprava rijo, deixando no espao vaga expresso de doloroso lamento. O lugar dava a impresso de triste pas de exlio, destinado a criminosos condenados a penas ingratas.

    Entretanto, ouviam-se vozes que a ventania quase abafava, como de prisioneiros cheios de expectao e de esperana.

    Em singular e sombrio recncavo, pequeno grupo de espritos culposos comentava largos projetos de atividades futuras. Suas tnicas exticas e grandes capuzes pareciam identific-los como estranhos ministros de um culto ignorado na Terra. Alguns se revelavam inquietos, taciturnos, outros deixavam transparecer nos olhos enorme desalento.

    Agora dizia um que evidenciava posio de relvo necessitamos renovar ideais, imprimir novo impulso nossa volio enfraquecida. O passado vai longe e faz-se imprescindvel arregimentar tdas as fras para as lutas que vm perto. A providncia misericordiosa do Todo-Poderoso nos concede ensanchas de novas experincias na Terra. Meditemos em nossas quedas dolorosas no redemoinho das paixes do mundo e firmemo-nos nos santos propsitos de triunfo. Quantos anos temos perdido em amarissimos sofrimentos, no plano dos remrsos devastadores?... Recordemos as angstias da via expiatria e agradeamos a Deus o ensejo de voltar s tarefas purificadoras. Esqueamos a vaidade que nos envileceu o corao; a ambio e o egosmo que nos torturam a alma ingrata, e preparemo-nos para as experincias justas e necessrias.

    A voz do locutor, porm, embargava-se afogada em lgrimas. A lembrana dolorosa do passado empolgava o grupo de antigos sacerdotes desviados do nobre caminho que o Senhor lhes havia traado.

    Iniciara-se a troca de impresses entre todos. Alguns expunham dificuldades ntimas, outros comentavam a inteno de trabalhar devotadamente, at vitria.

    O que mais me impressiona proclamava um companheiro o fantasma do esquecimento que nos obscurece o espirito, l na Terra. Antes da experincia, arquitetamos mil projetos de esfro, dedicao, perseverana; somos nababos de preciosas intenes, mas, chegado o momento de as exe-cutar, revelamos as mesmas fraquezas ou incidimos nas mesmas faltas que nos compeliram aos desfiladeiros do crime e das reparaes acerbas. Mas, onde estaria o mrito explicava o amigo a quem eram dirigidas aquelas observaes se o Criador no nos felicitasse com sse olvido temporrio? Quem poderia aguardar o xito desejvel, defrontando velhos inimigos, sem o blsamo dessa bno celestial sbre a chaga da lembrana? Sem a paz do esquecimento transitrio, talvez a Terra deixasse de ser escola

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  • abenoada para ser ninho abominvel de dios perptuos. Entretanto objetava o interlocutor semelhante situao me

    atemoriza. Sinto enorme angstia s em pensar que perderei novamente a memria, que ficarei quase inconsciente de meu patrimnio espiritual, ao palmilhar as estradas terrestres, qual enterrado vivo a quem fsse subtraida a faculdade de respirar.

    Mas, como aprenderias a humildade com as reminiscncias ativas do orgulho? Poderias, acaso, beijar um filho, sentindo nele a presena de um inimigo figadal? Conseguirias, de pronto, a fora precisa para santificar, pelos elos conjugais, a mulher que manchaste noutros tempos, induzindo-a ao meretrcio e s aventuras infames? No percebes, no olvido terreno uma das mais poderosas manifestaes da bondade divina para com as criaturas criminosas e transviadas? Concordo em que a experiencia humana para quem observou, mesmo de longe, como aconteceu a ns outros, as resplendncias da vida espiritual, significa, de fato, a reparao