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Alexandre Milagres

PSICOSE APROPRIADO Deslocamentos e transformaes

de uma imagem do cinema pelo vdeo

.

Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Filosofia e Cincias Humanas

Belo Horizonte Junho de 2009

2

Alexandre Milagres

PSICOSE APROPRIADO Deslocamentos e transformaes

de uma imagem do cinema pelo vdeo

Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Comunicao Social, rea de Concentrao Comunicao e Sociabilidade Contempornea, Linha Meios e Produtos da Comunicao, da Faculdade de Filosofia e Cincias Humanas da Universidade Federal de Minas Gerai, como requisito parcial para obteno do Ttulo de Mestre em Comunicao Social, sob orientao da Prof Dr. Patrcia Moran.

Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Filosofia e Cincias Humanas

Belo Horizonte Junho de 2009

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Agradecimentos Aos meus pais, Missias e Terezina, e aos meus irmo, Bruno e Rodrigo,

pelo apoio contnuo, pelo carinho, pela convivncia harmoniosa, pelas

cantorias e pela conversa fiada.

Luciana, por conseguir conciliar projeto de mestrado e projeto de vida,

pelo companheirismo, pela pacincia, pela alegria, e, com certeza, por todo

amor, que torna tudo mais leve e possvel.

A todos os professores do Programa de Ps-graduao em

Comunicao, por todo aprendizado que me proporcionaram, e principalmente

minha orientadora, Patrcia Moran, por me trazer de volta aos estudos do

vdeo. AO CNPq, por conceder a bolsa que me permitiu realizar esta pesquisa.

A todos os colegas e companheiros de mestrado, por toda amizade

durante esses dois anos. Aos eternos amigos Elias Mol, Filipe Freitas, Felipe

Rossi, Tatiane Motta, Rodrigo Lisboa e Csar Silveira, por todo suporte e por

ligarem de vez em quando, e principalmente Fernanda Duarte, por ter ligado

para dar a notcia de que eu havia entrado no mestrado. Aos amigos Fernanda

Maciel, Dario Velasco, Slvia de Paiva e Francisco, por todas as partidas de

Mster.

Andria, pelas boas energias e pelos conselhos sempre to acertados.

Aos alunos da disciplina de Montagem e Edio, por toda a curiosidade e por

quererem assistir at o fim aos vdeos que analiso aqui nesta pesquisa.

4

Ah, tem uma repetio, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas e no meio da travessia no vejo! s estava era entretido na idia dos lugares de sada e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem no muito perigoso?

Joo Guimares Rosa Grande Serto Veredas

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Resumo

Nesta dissertao, investigamos as apropriaes do cinema pelo vdeo a

partir das obras: 24 Hours Psycho (1993), de Douglas Gordon, Schizo

Uncopyrighted (2004), de Diego Lama e Psycho(s): A Live Remix (2006), de IP

Yuk-Yiu. Em todos esses trs vdeos, reconhecvel uma mesma imagem,

tomada como referncia em suas apropriaes: a imagem do filme Psicose

(1960), de Alfred Hitchcock, sendo que, em dois dos trs vdeos, h tambm a

presena das imagens de seu remake, o Psicose (1998) de Gus Van Sant. A

abordagem que fazemos em relao aos trs vdeos tem como intuito entender

a forma como cada vdeo se apropria do cinema, assim como o tipo de imagem

que criam ao deslocarem as imagens do filme Psicose. A partir das reflexes

de Arthur C. Danto (2006), Hans Belting (2006), Nicolas Bourriaud (2007) e

Philippe Dubois (2004), traamos, nesta pesquisa, um perfil dos tipos de

apropriao que se do no contexto da arte contempornea em geral,

especificamente nas apropriaes do cinema pelo vdeo, com o objetivo de

compreendermos as apropriaes que se do nos vdeos de Gordon, Lama e

Yuk-Yiu. Ao final, retomamos as noes de imagem-movimento e imagem-

tempo em Deleuze, para, por meio de seus fundamentos, esboarmos uma

reflexo sobre a imagem que esses vdeos criam ao se apropriarem do filme

Psicose.

Palavras-chave: apropriao; vdeo; cinema; imagem-movimento; imagem-tempo

6

Abstract

This investiges the films appropriations that are made by video, in works:

24 Hours Psycho (1993), by Douglas Gordon, Uncopyrighted Schizo (2004), by

Diego Lama and Psycho (s): The Live Remix (2006), by IP Yuk-Yiu. In all this

three videos is identified the same image, taked as reference in their

appropriations: the image of the movie Psycho (1960), of Alfred Hitchcock, and

two of three videos have also images by his remake, the Psycho (1998), of Gus

Van Sant. The approach we do about the relation of this three video is made to

understand the way how each video appropriate the cinema, as well as the type

of image they create when transform the images from the Psycho movie. Using

the reflections of Arthur C. Danto (2006), Hans Belting (2006), Nicolas

Bourriuad (2007) and Philippe Dubois (2004), we construct in this dissertation a

profile of the types of appropriation that occurs in the general context of

contemporary art, and specifically the films appropriations made by video, that

helps to understand the appropriations made by Gordon, Yuk-Yiu and Lamas

videos. In the end, we taking up the ideas of moving-image and time-image in

Deleuze, tracing through its grounds what we consider to be the image that

these videos create when appropriate the Psycho film.

Keywords: appropriation; video; cinema; motion-image; time-image

7

Sumrio Apresentao 8 Captulo 1. Arte e apropriao 11

1.1. A instabilidade da arte contempornea 12

1.2. O leva e traz das apropriaes na arte contempornea 19

1.3. Os tipos de apropriaes 27

Captulo 2. Vdeo e apropriao 34 2.1. Travessias pelo vdeo 34

2.2. O vdeo apropriador 41

2.3. Os tipos de apropriaes do cinema pelo vdeo 48

2.4. Psicose: a imagem apropriada 54

2.4.1. Douglas Gordon 57

2.4.2. Diego Lama 64

2.4.3. IP Yuk-Yiu 72

Captulo 3. Das imagens-movimento s imagens-tempo 80 3.1. Psicose e a imagem-movimento 81

3.2. A quebra do sensrio-motor e a imagem-tempo 91

3.3. As imagens de Deleuze no cinema e no vdeo 100

Captulo 4. Anlises dos vdeos 106

4.1. Uma busca por imagens ticas e sonoras puras e a verificao de uma quase-pureza das imagens nos vdeos

108

4.2. Uma busca por imagens-cristais e a verificao da transformao dos falsrios nos artistas dos vdeos

130

Consideraes finais 146

Bibliografia 150

8

Apresentao

Nuno Ramos Cascos (vdeo, 2004)

No vdeo Cascos (2004), de Nuno Ramos, v-se dois barcos na beira do

mar, quebrando-se lentamente um ao outro devido movimento das ondas,

como se pudessem se transformar em um s ou em outra nova forma que

somente nesse embate poderiam formar. Segundo o prprio artista, o que lhe

interessa exatamente essa passagem, esse momento em que uma coisa vai

virar outra mas ainda a mesma. (RAMOS, 2009). Em parte, os barcos j no

so mais barcos, pois, furados e quebrados, perderam sua funo de

transporte, mas, ao mesmo tempo, os barcos enquanto cascos, enquanto

vestgios do que eram, ainda persistem. Se trocarmos os barcos por filmes

conhecidos e a beira do mar pela tela do vdeo, adentramos temtica desta

pesquisa, em que uma mesma passagem, um mesmo processo de

transformao parece ocorrer. Filmes que so re-editados, recortados ou

desacelerados, transformando-se em uma nova obra por meio do vdeo, sem,

no entanto, perderem todos os elementos que nos possibilitariam continuar

reconhecendo-o.

9

Esse processo de transformao define muito bem o que chamamos

nessa pesquisa de apropriao, e que ser aqui analisada especificamente a

partir dos vdeos 24 Hours Psycho (1993), do escocs Douglas Gordon, Schizo

Uncopyrighted (2004), do peruano Diego Lama e Psycho(s): A Live Remix

(2006), do chins IP Yuk-Yiu. Esses vdeos instigam pelo fato de se

apropriarem, ou seja, de proporem transformaes a um mesmo filme, Psicose

(1960), de Alfred Hitchcock, sendo que, nos vdeos de Lama e de Yuk-Yiu, as

apropriaes se estendem no somente ao filme de Hitchcock, mas tambm ao

seu remake, o filme Psicose (1998), de Gus Van Sant.

Sobre esses vdeos especficos e sobre as apropriaes do cinema pelo

vdeo de forma geral, interessa-nos saber o qu?, dentro dos filmes, os vdeos

deslocam, como e a partir de quais tcnicas executam tais apropriaes, e

em qu?, a partir de suas intervenes, tentam transformar os filmes e suas

imagens.

Porm, antes de comearmos a responder a tais perguntas nesta

dissertao, desenvolvemos um primeiro captulo com um estado da arte das

apropriaes artsticas, guiando-nos pelas leituras de Arthur C. Danto (2006),

Hans Belting (2006) e Nicolas Bourriaud (2007) acerca da arte e das

apropriaes, de forma a contextualizar esse gesto dentro da arte

contempornea e em suas diferentes vertentes.

No segundo captulo, tratamos das apropriaes que se fazem por meio

do vdeo, contextualizando-o tambm dentro