psicose sarah kane

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Psicose 4h48Sarah KaneTraduo Laerte Mello (Um silncio muito longo.) - Mas voc tem amigos. (Um silncio longo.) Voc tem muitos amigos. O que que voc d aos seus amigos que faz com que eles te apiem tanto? (Um silncio longo.) O que que voc d aos seus amigos que faz com que eles te apiem tanto? (Um silncio longo.) O que que voc d? (Silncio.) ----uma conscincia consolidada reside em um salo de jantar escurecido perto do teto de uma mente onde o cho se desloca como dez mil baratas quando um feixe de luz penetra como todos os pensamentos unidos em um instante de harmonia do corpo no to repelente como as baratas compreendem uma verdade que ningum nunca fala Tive uma noite em que tudo foi revelado. Como posso falar de novo? a hermafrodita destruda que confiou s confiou nela encontra a sala em prolfica realidade e implora nunca acordar do pesadelo e estavam todos l cada um deles e sabiam meu nome como escapei feito um besouro ao longo das costas de suas cadeiras Lembre da luz e acredite na luz Um instante de claridade antes da noite eterna No me deixe esquecer ----estou triste sinto que o futuro desesperanoso e que as coisas no podem melhorar estou chateada e insatisfeita com tudo

sou um completo fracasso como pessoa sou culpada, estou sendo punida gostaria de me matar costumo conseguir chorar mas agora estou alm das lgrimas perdi o interesse em outras pessoas no consigo tomar decises no consigo comer no consigo dormir no consigo pensar no consigo ir alm da minha solido, do meu medo, do meu desgosto estou gorda no consigo escrever no consigo amar meu irmo est morrendo, meu amor est morrendo, estou matando os dois me desloco rapidamente em direo minha morte estou aterrorizada com a medicao no consigo fazer amor no consigo foder no consigo ficar sozinha no consigo ficar com outras pessoas meus quadrs esto muito grandes no gosto dos meus rgos genitais s 4h48 quando o desespero me visita me enforco com o som da respirao de meu amante no quero mesmo morrer me tornei to depressiva por causa da minha mortalidade que decidi cometer suicdio no quero mesmo viver tenho cimes de meu amor adormecido e cobio sua inconscincia induzida

Quando ele acordar vai ter inveja da minha noite sem dormir de pensamentos e discursos sem atrativos por causa dos medicamentos Este ano renunciei a mim mesma pela minha morte Alguns vo chamar isso de auto-satisfao (eles tm sorte de no saber a verdade) Alguns vo conhecer simplesmente a dor Isso est se tornando minha rotina ----100 91 84 81 72 69 58 44 1 2 38 42 28 12 7 ----No foi por muito tempo, eu no estava l por tanto tempo. Mas bebendo caf amargo senti aquele cheiro medicinal em uma nuvem antiga de tabaco e algo me tocou naquele lugar ainda soluante e um ferimento de dois anos atrs se abriu como um cadver e uma vergonha longa e enterrada brandiu sua dor decadente e abominvel. Um quarto de faces inexpressivas que encaram com indiferena a minha dor, to desprovidas de significado que deve haver uma inteno diablica. Dr. Isso e Dr. Aquilo e Dr Oqueisso estavam apenas de passagem e acharam que poderiam entrar no quarto para gozarem da minha cara tambm. Queimando em um tnel quente de desalento, minha humilhao se completa por eu tremer sem razo e por tropear nas palavras e por no ter nada a dizer sobre minha doena que de qualquer maneira s vale para saber que no h significado em coisa nenhuma porque vou morrer. E estou em um beco sem sada levada por aquela voz suave e psiquitrica da razo que me diz que h uma realidade objetiva na qual meu corpo e minha mente so uma coisa s. Mas no estou aqui nem nunca estive. Dr. Isso escreve e Dr. Aquilo tenta um murmrio simptico. Me assistindo, me julgando, cheirando o fracasso e a paralisia que escorrem da minha pele, meu desespero me rasgando e o pnico me consumindo me encharcando enquanto eu no mundo boquiaberta de horror pensando por que todos esto sorrindo e me olhando com um conhecimento secreto da minha vergonha dolorida. Vergonha vergonha vergonha. Se afogando na sua vergonha de merda. Mdicos misteriosos, mdicos sensatos, mdicos excntricos, mdicos que voc pensaria que estavam fodendo pacientes se no lhe mostrassem provas do contrrio, fazem as mesmas perguntas, pem palavras na minha boca, oferecem curas qumicas para angstias congnitas e

cobrem os rabos um dos outros at eu querer gritar por voc, o nico mdico que me tocou voluntariamente, que olhou nos meus olhos, que riu com humor mrbido com uma voz vinda de dentro do meu tmulo recm-aberto, que tirou um sarro da minha cara quando raspei minha cabea, que mentiu e disse que era legal me ver. Que mentiu. E disse que era legal me ver. Confiei em voc, amei voc, e no perder voc que me machuca, mas sim sua falsidade fodida e descarada disfarada em notas mdicas. Sua verdade, suas mentiras, no as minhas. E enquanto eu acreditava que voc era diferente e que voc talvez at sentisse a aflio que s vezes oscilava pela sua face e ameaava irromper, voc estava cobrindo seu rabo tambm. Como qualquer outro mortal cuzo estpido. Na minha cabea isso traio. E minha cabea o tema desses fragmentos desorientados. Nada pode extinguir meu dio. E nada pode restaurar minha f. Esse no um mundo que eu deseje viver. ----- Voc fez algum plano? - Tomar uma overdose, cortar meus pulsos depois me enforcar. - Tudo isso de uma vez? - E sem que fosse interpretado como um grito por socorro. (Silncio.) - No daria certo. - Claro que daria certo. - No daria certo. Voc se sentiria sonolenta por causa da overdose e no teria foras para cortar os pulsos. (Silncio.) - Eu estaria em p numa cadeira com uma corda enrolada no pescoo. (Silncio.) - Se voc estivesse sozinha voc acha que voc faria mal a voc mesma? - Estou muito assustada. - Isso no seria uma defesa? - Sim. o medo que me mantm longe dos trilhos dos trens. S espero de Deus que a morte seja mesmo a porra do fim. Me sinto como se tivesse oitenta anos de idade. Estou cansada da vida e minha mente quer morrer. - Isso uma metfora, no realidade.

- como se fosse. - Isso no realidade. - No uma metfora, como se fosse, mas ainda que fosse uma metfora, a definio caracterstica de uma metfora que ela real. (Um longo silncio.) - Voc no tem oitenta anos de idade. (Silncio.) Tem? (Silncio.) Tem? (Silncio.) Ou tem? (Um longo silncio.) - Voc despreza todas as pessoas infelizes ou s especificamente a mim? - Eu no desprezo voc. Voc no tem culpa. Voc est doente. - Eu no acho. - No? - No. Estou deprimida. Depresso dio. o que voc fez, voc que estava l e voc que est se culpando. - E quem voc est culpando? - A mim mesma. ----Corpo e alma nunca podem se casar. Preciso me tornar quem j sou e bradarei para sempre esta incongruncia que me mandou para o inferno A esperana insolvel no me mantm de p. Eu me afogarei na dysphoria em uma lagoa negra fria de mim mesma o fosso da minha mente irrelevante Como posso voltar forma Agora que meus pensamentos formais se foram?

No uma vida que eu possa aceitar. Eles me amaro por aquilo que me destri a espada nos meus sonhos a poeira dos meus pensamentos a doena que se reproduz nos cantos da minha mente Todo elogio tira um pedao da minha alma Uma crtica expressionista Nas cadeiras centrais entre dois bobos Ele no sabem nada sempre andei livre Continua numa longa linha de cleptomanacos literais (um tempo honrada tradio) Roubo um ato sagrado Sobre uma trilha destorcida para expressar Uma superabundncia de pontos de exclamao escreve um eminente colapso nervoso Uma nica palavra na pgina e existe um drama Eu escrevo pelos mortos que esto por vir Depois das 4h48 eu no devo falar mais Alcancei o fim desse conto triste e repugnante De um senso internado em uma carcaa aliengena Inchada pelo esprito maligno da maioria que prega a moral estive morta por um longo tempo De volta s minhas razes canto sem esperana no meu limite ----RSVP ASAP ----s vezes me viro e sinto seu cheiro e no posso seguir uma porra e no posso seguir sem expressar essa dor fsica terrvel to fodidamente horrorosa e grandiosamente fodida que sinto por voc. E no posso acreditar que posso sentir isso por voc e voc no sente nada. Voc no sente nada? (Silncio.) Voc no sente nada? (Silncio.) E saio s seis da manh e comeo minha procura por voc. Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estao vou l. E espero por voc.

(Silncio.) Sabe, me sinto como se estivesse sendo manipulada. (Silncio.) Nunca tive problemas na vida dando a outras pessoas o que elas querem. Mas ningum ainda foi capaz de fazer isso por mim. Ningum me toca, ningum se aproxima de mim. Mas agora voc me tocou em algum lugar to fodidamente profundo que no consigo acreditar e no consigo fazer isso por voc. Porque no consigo te achar. (Silncio.) Como ela ? E como vou saber que ela quando eu conhec-la? Ela vai morrer, ela vai morrer, porra ela s vai morrer. (Silncio.) Voc acha que possvel uma pessoa nascer em um corpo errado? (Silncio.) Voc acha que possvel uma pessoa nascer em uma poca errada? (Silncio.) Foda-se. Foda-se. Foda-se por me rejeitar nunca estando l, foda-se por me fazer me sentir uma merda, foda-se por sangrar a porra do amor e da vida, foda-se meu pai por ter fodido minha vida e foda-se minha me por no o ter deixado, mas acima de tudo, foda-se Deus por ter me feito amar algum que no existe, FODA-SE FODA-SE FODA-SE ----- Ah querida, o que aconteceu com seu brao? - Me cortei. - Isso foi muito imaturo, procurar chamar a ateno desse jeito. Te aliviou de alguma forma? - No. - Aliviou sua tenso? - No. - Te aliviou de alguma forma? (Silncio.) - Te aliviou de alguma forma? - No.

- No entendo por que voc fez isso. - Ento pergunte. - Aliviou sua tenso? (Um longo silncio.) Posso ver? - No. - Queria olhar, para ver se infeccionou. - No. (Silncio.) - Achei que voc teria feito isso. Muita gente faz isso. Alivia a tenso. - Voc j fez? - ... - No. um porra so e sensato. No sei onde voc leu isso, mas no alivia a tenso. (Silncio.) Por que voc no me pergunta por qu? Por que cortei meu brao? - Voc quer me falar? - Sim