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  • Toms de Aquino e a Metafsicadas Lnguas Bantu e Tupi

    Luiz Jean Lauandjeanlaua@usp.br

    Fac. Educ. Univ. So Paulo

    Metafsica Bantu

    Em diversas outras ocasies temos feito referncia ao conceito lohmanniano de sistema lngua/pensamento, aplicado ao caso das lnguas semitas e s indo-europias. Neste estudo, consideraremos as classes gramaticais/metafsicas, um fato peculiar s dezenas de lnguas bantu, lnguas da frica subsaariana (dando particular destaque ao kimbundo[1], a lngua africana que mais influenciou o portugus do Brasil).

    Se toda lngua traz consigo uma viso de mundo, no caso das lnguas bantu, com suas classes, este fato ainda mais acentuado. E a filosofia bantu (uma filosofia no escrita, "uma filosofia sem filsofos", no dizer de Tempels), a lngua e os provrbios aparecem como elementos especialmente privilegiados: a lngua, como a prpria base sobre a qual se edifica o pensamento; os provrbios, como sua primeira elaborao.

    Assim, aps apresentar alguns aspectos da lngua/pensamento bantu - relativos, sobretudo, nona classe e aos conceitos de Deus (Nzambi) e de Criao -, iremos estabelecendo (a partir de sugestivos provrbios africanos) um confronto com os mesmos temas na tradio filosfico-teolgica clssica ocidental[2], aqui representada por Toms de Aquino. Precisamente a acentuada diversidade dessas perspectivas torna ainda mais interessantes as coincidncias.

    As classes bantu

    H um trao marcante nas lnguas bantu, que imediatamente desperta a ateno do filsofo: a diviso dos substantivos em classes nominais, geralmente dez, que, ao contrrio das declinaes latinas (por exemplo), no se limitam a agrupar gramaticalmente as palavras. Transcendendo a gramtica, as classes estabelecem uma autntica diviso metafsica: a primeira slaba de cada palavra um classificador: indica em que setor da realidade[3] (ser humano, animal, rio, categoria abstrata, instrumento, etc.) situa-se[4] o ente designado[5].

    http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn5#_ftn5http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn4#_ftn4http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn3#_ftn3http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn2#_ftn2http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn1#_ftn1mailto:jeanlaua@usp.br

  • Exemplificaremos, a seguir, com o kimbundo. No kimbundo - como em geral nas lnguas bantu - encontramos dez classes nominais[6]. Os classificadores de singular e plural so:

    Classe Classificador

    (slaba inicial)

    singular plural

    1a. mu a

    2a. mu mi

    3a. ki i

    4a. ri ma

    5a. u mau

    8a ku maku

    9a. variado ji

    10a. ka tu

    Alguns exemplos sobre esse sistema de classes.

    A primeira classe - cujo classificador mu/a - a dos entes racionais, as pessoas. A palavra-chave desta classe mutu ou muntu, pessoa (da o plural: bantu), da qual, evidentemente, derivou o classificador mu. Assim, as palavras desta classe so, na verdade, contraes: mukongo, caador = mu (tu), pessoa + (ku) kongo, caar. Desta classe, passaram para nossa lngua, palavras como mukama e muleke[7].

    J a oitava classe, ku/maku, a dos termos verbais: ku semelhante ao to do infinitivo verbal do ingls[8]. Penetraram no portugus do Brasil: Kuxila, dormitar (Mendona); Kufundu, penetrar, enterrar (Mendona). J em Cannecattim (196, 207), encontramos nfundu, escondido, secreto. Da kafund e kafun (ao carinhosa dos dedos no cabelo). Xinga, insultar (Quinto, 35); sunga, puxar (Quinto, 35). Samba rezar (Cannecattim, 206). Quando Vinicius de Moraes diz que "o bom samba uma forma de orao", est afirmando algo estritamente rigoroso do ponto de vista etimolgico.

    De especial interesse para as comparaes que faremos com o pensamento clssico ocidental a nona classe: seu classificador plural ji e

    http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn8#_ftn8http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn7#_ftn7http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn6#_ftn6

  • apresenta singular variado, mas freqentemente iniciado por n (ng, nd, nz) ou m (mb) . A consoante que se segue ao n da classe " eufnica, a fim de evitar que o n entre em contato direto com a vogal do radical" (Kagame, 136). de decisiva importncia a observao de Ntite Mukendi (Mukendi, 103): o classificador n um indicador de ser. N, no caso, indicaria "o que...", "aquele que..." por excelncia, ostensiva ou tipicamente, exerce tal ao. Assim, da ao de nadar (zoua), procede a palavra para pato (nzoue, aquele que, por excelncia, nada); de longa (carregar), ndongo (canoa, a que carrega); de lula (ser amargo), ndululu (fel, o que, tipicamente, amargo); de enda (andar), ngenji (viajante) etc. (Quinto, 109,110).

    Dessa classe -nos familiar Ngambi, o linguarudo (de amba, falar). interessante observar que o sufixo verbal -ela (Quinto, 83; Valente, 207) indica finalidade, motivao; da deriva ngambela, engambelar, falatrio para obter algo; falar e falar a fim de...

    Deus, criao e falar no pensamento de Toms de Aquino[9]

    As teses de Toms sobre o falar e a Criao permitir-nos-o estabelecer interessantes relaes com as concepes de Deus e da Criao na filosofia bantu.

    Locutio est proprium opus rationis (I, 91, 3 ad 3); "falar -diz Toms- operao prpria da inteligncia". Ora, entre a realidade designada pela linguagem e o som da palavra proferida, h um terceiro elemento, essencial na linguagem, que o conceptus, o conceito, a palavra interior (verbum interius, verbum mentis, verbum cordis), que se forma no esprito de quem fala e que se exterioriza pela linguagem, que constitui seu signo audvel (o conceito, por sua vez, tem sua origem na realidade).

    Mas, se a palavra sonora um signo convencional (a gua pode chamar-se gua, water, eau etc.), o conceito, pelo contrrio, um signo necessrio da coisa designada: nossos conceitos se formam por adequao com a realidade. E a realidade, cada coisa real, tem um contedo, um significado, "um qu", uma verdade que, por um lado, faz com que a coisa seja aquilo que e, por outro, torna-a cognoscvel para a inteligncia humana. precisamente isto o que Toms designa por ratio. Assim, indagar "O que isto?" ("O que uma rvore?", "O que o homem?") significa, afinal das contas, perguntar pelo ser, pelo "qu" (quid-ditas, whatness, qididade), pela ratio, pela estruturao interna de um ente que faz com que ele seja aquilo que . Da a sugestiva forma interrogativa do francs: Qu'est-ce que..., "que este qu?", "que qu isto?".

    Esta ratio que estrutura, que plasma um ente a mesma que se oferece inteligncia humana para formar o conceito, que ser tanto mais adequado,

    http://www.hottopos.com/notand6/jean.htm#_ftn9#_ftn9

  • quanto maior for a objetividade com que se abrir realidade contida no objeto.

    Dentre as muitas e variadas formas de interpretao da expresso "Deus fala"[10], h uma especialmente importante nas relaes entre Deus e o homem: no por acaso que Joo emprega o vocbulo grego Logos (Verbum, razo, palavra) para designar a segunda Pessoa da Ssma. Trindade que "se fez carne" em Jesus Cristo: o Verbum no s imagem do Pai, mas tambm princpio da Criao (cfr. Jo 1,3). E a Criao deve ser entendida precisamente como projeto, design feito por Deus atravs do Verbo. Numa comparao imprecisa[11] com o ato criador divino, considero o isqueiro que tenho diante de mim. Este objeto produto de uma inteligncia, h uma racionalidade[12] que o estrutura por dentro. precisamente essa ratio que, se por um lado, estrutura por dentro qualquer ente, por outro, permite, como dizamos, acesso intelectual humano a esse ente[13]. No caso do isqueiro, a ratio que o constitui, enquanto isqueiro, o que me permite conhec-lo e, uma vez conhecido, consert-lo, trocar uma pea etc.

    Guardadas as devidas distncias[14], nesse sentido que o cristianismo fala da "Criao pelo Verbo"; e por isso tambm que a Teologia - na feliz formulao do telogo alemo Romano Guardini - afirma o "carter verbal" (Wort-charakter) de cada ser. Ou, em sentena de Toms: "Assim como a palavra audvel manifesta a palavra interior[15], assim tambm a criatura manifesta a concepo divina (...); as criaturas so como palavras que manifestam o Verbo de Deus" (I d. 27, 2.2 ad 3).

    Assim, para Toms, no s Deus , por excelncia, Aquele que fala, mas as prprias criaturas so "palavras" proferidas por Deus.

    Essa concepo de Criao como fala de Deus, a Criao como ato inteligente de Deus, foi muito bem expressa numa aguda sentena de Sartre, que intenta neg-la: "No h natureza humana, porque no h Deus para conceb-la". De um modo positivo, poder-se-ia enunciar o mesmo desta forma: s se pode falar em essncia, em natureza, em "verdade das coisas", na medida em que h um projeto divino incorporado a elas, ou melhor, constituindo-as.

    A "natureza", especialmente no caso da natureza humana, no entendida pela Teologia como algo rgido, como uma camisa de fora metafsica, mas como um projeto vivo, um impulso ontolgico inicial[16], um "lanamento no ser", cujas diretrizes fundam