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  • SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros MEDRADO, B., LYRA, J., and AZEVEDO, M. 'Eu No Sou S Prstata, Eu Sou um Homem!': Por uma poltica pblica de sade transformadora da ordem de gnero. In: GOMES, R., org. Sade do homem em debate [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2011, pp. 39-74. ISBN 978-85-7541-364-7. Available from SciELO Books .

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    Todo o contedo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, publicado sob a licena Creative Commons Atribio 4.0.

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    2 - 'Eu No Sou S Prstata, Eu Sou um Homem!' Por uma poltica pblica de sade transformadora da ordem de gnero

    Benedito Medrado Jorge Lyra

    Mariana Azevedo

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    'Eu No Sou S Prstata, Eu Sou um Homem!'Por uma poltica pblica de sade

    transformadora da ordem de gneroBenedito Medrado, Jorge Lyra e Mariana Azevedo

    A frase Eu no sou s prstata, eu sou um homem! foi produzida,durante um grupo focal, por um homem de 37 anos, residente emcomunidade de baixa renda de So Paulo, no contexto de um estudomulticntrico intitulado Investigating the role of men in womensreproductive and sexual health (Arrow, 2002).1 O grupo focal aconteceuem 2000, mas este enunciado nos parece bastante atual diante da eminenteinstitucionalizao de uma poltica integral de ateno aos homens nasade. A frase sintetiza um conjunto de aspectos conceituais e simblicosque pretendemos explorar neste captulo, de modo a contribuir para osesforos de implementao desta poltica.

    Nosso objetivo produzir uma breve reviso da maneira comoestudos e intervenes sociais com homens e/ou sobre masculinidade vmsendo desenvolvidos, no campo da sade e direitos sexuais e reprodutivos,

    2

    1 No incio dos anos 90, o International Reproductive Rights Research Action Group (IRRRAG)conduziu uma investigao qualitativa multicntrica internacional que teve por objetivoidentificar de que modo mulheres, de diferentes contextos socioculturais, compreendiam evivenciavam as injunes de gnero no campo da sexualidade e da reproduo. Esta pesquisaevidenciou a necessidade de um estudo voltado escuta das necessidades e demandas doshomens nesse campo. Assim, entre 2000 e 2001, foi realizado o estudo multicntrico comhomens, em cinco pases: Brasil, Filipinas, Malsia, Mxico e Nigria. No Brasil, o trabalhofoi desenvolvido em Pernambuco, Rio de Janeiro e So Paulo. Participaram da pesquisa umcentro universitrio de pesquisa e ao social Programa Eicos, da Universidade do Estadodo Rio de Janeiro (Uerj) , um centro de pesquisa e educao Fundao Carlos Chagas e quatro organizaes no governamentais SOS Corpo, Instituto Papai, Promundo eColetivo Feminista Sexualidade e Sade.

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    SADE DO HOMEM EM DEBATE

    para contribuir na definio e implementao de estratgias e programasde ao destinados populao masculina. Para isso, estruturamos nossosargumentos a partir de: 1) uma breve contextualizao da trajetria polticae conceitual dos debates que situam a masculinidade como construo degnero e a perspectiva feminista como aporte terico fundamental;2) uma anlise sobre a visibilidade de dados epidemiolgicos sobreadoecimento e morte da populao masculina como estratgia discursivaque justifica polticas, define prioridades e produz sujeitos; 3) uma leituracrtica sobre os investimentos recentes em torno da construo de umdocumento-marco para a poltica de sade do homem, na interface comas polticas nacionais voltadas mulher e aquelas dirigidas aoenfrentamento da homofobia.

    Masculinidade como campo de produoacadmica e de reflexo poltica

    Buscando organizar essas produes, especialmente as publicadasentre 1995 e 2002, Robert (agora Rayween) Connell,2 Jeff Hearn e MichaelKimmel editaram, em 2005, o Handbook of Studies on Men andMasculinities. Nesse trabalho, os autores abordaram o que denominamdesenvolvimento do campo de pesquisas sobre masculinidades,focalizando o modo como os estudos e pesquisas tm construdo essecampo: desde um olhar mais amplo e global at a expresso mais ntimae pessoal (Connell, Hearn & Kimmel, 2005: 7). O campo , segundo osautores, constitudo a partir de produes que apresentam objetos emnveis distintos de anlise:

    1) a compreenso do modo como os homens entendem e expressamidentidades de gnero;

    2) as masculinidades como produtos de interaes sociais dos homenscom outros homens e com mulheres, ou seja, as masculinidades comoexpresses da dimenso relacional de gnero (que apontam tendncias,desafios e desigualdades);

    3) a organizao social das masculinidades em suas inscries ereprodues locais e globais;

    2 Robert Connell submeteu-se a cirurgia para mudana de sexo e, mais recentemente, vempublicando ou reeditando suas produes, com assinatura de Rayween (seu nome atual) ousimplesmente R. W. Connell.

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    'Eu No Sou S Prstata, Eu Sou um Homem!'

    4) a dimenso institucional das masculinidades, ou seja, o modo comoas masculinidades so construdas em (e por) relaes e dispositivosinstitucionais.

    No Brasil, os esforos de reflexo terica e poltica sobre homens emasculinidades, a partir do enfoque de gnero, tambm ganham maiorvisibilidade a partir da dcada de 1990. Na primeira metade desta dcada,os estudos abordaram especialmente temas como identidade masculinaou crise da masculinidade (Nolasco, 1993; 1995; Hamawi, 1995; Jablonski,1995). Localizam-se, portanto, no primeiro nvel de anlise descrito.

    A partir da segunda metade dos anos 90, os investimentos tericose polticos buscam avanar nos demais nveis de anlise, especialmentecom o advento da Conferncia Internacional de Populao eDesenvolvimento (Cairo, 1994) e da Conferncia Internacional da Mulher(Pequim, 1995). Inauguram-se, assim, iniciativas de carter terico-polticomais coletivo, a partir de eventos e publicaes conjuntas, que tomamcomo ponto de partida o dilogo e as tenses entre as produes polticase conceituais feministas e as produes acadmicas que adotam gnerocomo conceito fundamental.

    De fato, como destaca Snia Corra (2002), o texto resultante daConferncia de Populao e Desenvolvimento do Cairo foi o primeiro autilizar o termo gnero em documentos oficiais das Naes Unidas.O objetivo, segundo a autora, era dar visibilidade s demandas porigualdade de gnero, equidade de gnero e empoderamento das mulheres.Corra destaca, assim, o potencial subversivo e de transformao doconceito de gnero e aponta sua progressiva legitimao nas produesacadmicas e no discurso poltico das sociedades e das instituies.

    Essa tenso entre os usos conceituais e polticos da categoria gnero,orientou no Brasil a fundao, em 1995, do Grupo de Estudos sobreSexualidade Masculina e Paternidade (Gesmap) organizado pela Ecos Comunicao em Sexualidade, ONG de So Paulo, com apoio da FundaoFord. Este grupo reunia mensalmente em torno de 20 profissionais, homense mulheres, orientados por perspectivas, temas e campos de formao eatuao variados (ONGs, ncleos acadmicos e centros de pesquisa eeducao), que estavam, poca, iniciando estudos, pesquisas e projetosde interveno sociopoltica voltados aos homens, nos campo da sade erelaes de gnero, sexualidade e reproduo.

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    SADE DO HOMEM EM DEBATE

    Entre 27 e 28 de abril 1998, o Gesmap organizou no CentroUniversitrio Maria Antnia, So Paulo, o primeiro SeminrioInternacional Homens, Sexualidade e Reproduo, no qual foi lanadauma coletnea de textos produzidos pelos integrantes do grupo, intituladaHomens e Masculinidades: outras palavras (Arilha, Unbehaum & Medrado,1998). Na introduo da obra, os organizadores deixam claro que:

    ao tematizarmos homens e masculinidades, no estamos inventando aroda, mas, ao contrrio, estamos trilhando por caminhos j abertos emoutros momentos, por outros atores sociais, nos planos tericos e polticos,no Brasil e internacionalmente.

    (...)

    Portanto, em nossa perspectiva, torna-se vital compreender que a histriapoltica e acadmica das feministas, gays e lsbicas tem uma influnciadireta na forma como as ideias sobre masculinidade se constituram aolongo das ltimas dcadas, bem como na definio do conceitocontemporneo de masculinidade e no incentivo aos estudos sobre acondio masculina. No entanto, necessria uma confluncia dos estudosfeministas, das reflexes sobre homossexualidade e homofobia e dasprticas heterossexuais masculinas para compreender como homens emulheres se relacionam e produzem sentido em torno da sexualidade eda reproduo em suas diversas culturas. (Arilha, Unbehaum & Medrado,1998: 15, 17)

    Balizados em referncias histricas do campo dos estudos de gneroe feminismo, investimentos coletivos como o Gesmap nos mostram que ompeto de promover mudanas sociais traz diversos desafios no campoconceitual e da formulao de aes pblicas, exigindo reflexo e trocasconstantes entre teoria e prtica poltica. Indicam tambm que sonecessrios espaos que, de maneira contnua, fluida e afetiva, permitamuma produo dialgica e crescente de conhecimentos. Comoconsequncia desse processo de reflexo terico-poltica, foram fundados,em 1997, o Instituto Papai e, em 1998, o Ncleo de Pesquisas em Gneroe Masculinidades (Gema) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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    'Eu No Sou S Prstata, Eu Sou um Homem!'

    Nos ltimos anos, a equipe e a estrutura do Instituto Papai foramampliadas, o Gema adquiriu nova configurao3 e o debate sobre homens emasculinidades no Brasil foi-se consolidando a partir de espaos de trocade conhecimento, especialmente em seminrios nacionais e internacionais,realizados em territrio brasileiro, tais como descritos a seguir:

    2000 - Workshop: Homens e Polticas Pblicas reflexes e prticassociais, em Recife, entre 10 e 11 de agosto. Organizao: Instituto Papaie