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    Maria Lusa Pedroso de Lima* Anlise Social, vol. XLIII (1.), 2008, 7-28

    Tragdia, risco e controlo: uma releiturapsico-social dos testemunhos do terramotode 1755**

    Este artigo analisa relatos sobre o que se passou a seguir ao terramoto que se fez sentirem Lisboa em 1755 e procura interpret-los com os conceitos e teorias utilizados paracompreender o pensamento leigo sobre o risco ssmico nos dias de hoje. Em particular,recorre-se a perspectivas psicolgicas da percepo de riscos e da adaptao cognitiva,a alguns conceitos da teoria cultural e ao modelo da amplificao social do risco parailustrar os processos de construo social de significado para o desastre. Salienta-sea funcionalidade destas interpretaes em 1755, quer a nvel individual de gesto domedo, quer a nvel colectivo de reforo das identidades.

    Palavras-chave: percepo de risco; adaptao cognitiva; terramoto de 1755.

    This article analyzes reports of what happened after the earthquake which struckLisbon in 1755 and seeks to interpret them with the concepts and theories usedto understand lay thought on modern-day earthquake risk. In particular, this articleadopts psychological approaches to risk perception and cognitive adaptation,concepts from cultural theory, and the social amplification of risk model toillustrate how the meaning of the disaster is socially constructed. Emphasis is placedon the functionality of these interpretations in 1755, both at the individual levelof managing fear and at the collective level of reinforcing identities.

    Keywords: risk perception; cognitive adaptation; 1755 earthquake.

    INTRODUO

    As grandes catstrofes, agora como no passado, so momentos em queas pessoas e as sociedades so obrigadas a reflectir sobre si prprias e o seufuturo. Este artigo parte de perspectivas tericas da psicologia social, utili-zadas na compreenso das adaptaes de indivduos e grupos a ameaas edesastres actuais, para analisar as respostas ao sismo de 1755 atravs dostextos produzidos pelas pessoas que viveram o terramoto (o material de base

    * Departamento de Psicologia Social e das Organizaes do Instituto Superior de Cinciasdo Trabalho e da Empresa e Centro de Investigao e Interveno Social (CIS/ISCTE).

    ** Este texto baseia-se na apresentao realizada no colquio internacional O terramotode 1755: impactos histricos.

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    Maria Lusa Pedroso de Lima

    neste percurso1). A questo fundamental que percorre este texto prende-se,assim, com a adequao das teorias e modelos produzidos numa sociedadede risco (Beck, 1992) para entender uma outra que estava a entrar namodernidade. Indo para alm das semelhanas evidentes com catstrofes daactualidade nas reaces iniciais dos habitantes de Lisboa aps o terramoto,procuraram-se outras formas de pensar e interpretar o sismo. Deste modo,comea-se por descrever a forma como so vistos os sismos hoje e porextrapolar as dimenses de anlise para o sculo XVIII, salientando as seme-lhanas e as diferenas. Depois, recorrendo teoria da adaptao cognitiva,analisa-se a forma como, agora e ento, as pessoas gerem o medo associado ameaa ssmica, desenvolvendo crenas ilusrias de controlo sobre aameaa, com vantagens individuais de diminuio da ansiedade. Utilizando osconceitos da teoria cultural, mostra-se em seguida como estas formas decontrolo secundrio se associam em vises do mundo partilhadas socialmen-te. Finalmente, analisam-se alguns sinais de amplificao social do risco nostempos que se seguiram ao terramoto e a forma como foram geridos.

    TERROR E AFLIO A PERCEPO DO RISCODE TERRAMOTOS

    Os estudos sobre a percepo de riscos mostram que nem todas asameaas tm, para os cidados, o mesmo carcter inaceitvel e potencial-mente mobilizador da opinio pblica. Muitos estudos das cincias sociaistm mostrado (e. g., Slovic, 1987 e 2001; v. Lima, 2005, para uma reviso)que o risco que se associa a um conjunto muito vasto de tecnologias eactividades no se relaciona directamente com o nmero de mortes queprovoca, mas com dimenses qualitativas, tais como o seu carcter devas-tador (se incontrolvel, se representa um perigo para as geraes futuras,se assustador) ou o grau de conhecimento existente sobre o risco (se umrisco novo, se as suas consequncias so visveis, se conhecido para acincia). Assim, perigos percebidos como desconhecidos e de consequn-cias terrveis (como os que associamos hoje energia nuclear) so vistoscomo particularmente inaceitveis, apesar de serem a causa de morte demuito menos pessoas do que outros riscos menos temidos (como os aciden-tes de automvel). Pelo contrrio, riscos mais conhecidos e familiares ten-dem a ser normalizados, perdendo o poder de mobilizar e assustar a opinio

    1 As fontes principais foram Malagrida (1756), Ratton (1813), Mendona (1758) eCavaleiro de Oliveira (1756), os testemunhos britnicos recolhidos por Sousa e Nozes (1990),as cartas do padre Portal (in Sousa, 1919) e cartas publicadas na altura com a descrio dosucedido (e. g., as de Tavares, Morganti, Trovo e Sousa).

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    Uma releitura dos testemunhos do terramoto de 1755

    pblica (Lima, Barnett e Vala, 2005). O potencial catastrfico de um risco(e no o nmero de mortes a ele associadas) funcionaria, assim, como umabase importante da percepo de riscos: um sinalizador do que no aceitvel que venha a acontecer e, por isso mesmo, frequentemente, associa--se ao pedido de interveno das autoridades no sentido de regularem osriscos com estas caractersticas (Slovic, 1987).

    Actualmente, nesta estrutura de percepo de riscos, o risco ssmico visto como particularmente devastador, mas como mais conhecido do quemuitos dos riscos associados a actividades humanas, tais como a utilizaoda energia nuclear, da manipulao gentica, etc. (Lima, 1994). Com efeito,o facto de se tratar de um risco natural e antigo, sobre o qual se tem acu-mulado conhecimento cientfico, dando origem a normas de construo anti--ssmica, faz com que este risco seja hoje visto como menos aterrorizadordo que riscos novos a que esto associadas polmicas cientficas e sobre osquais ainda no so consensuais as estratgias para a sua gesto.

    No entanto, possvel que, no sculo XVIII, o risco ssmico fosse vistocomo algo to aterrorizador como hoje uma guerra nuclear: tratava-seento de uma ameaa percebida no s como devastadora e incontrolvel,mas igualmente desconhecida (uma vez que a cincia no tinha conhecimen-tos, instrumentos de descrio ou de previso que permitissem aumentar ograu de informao sobre o fenmeno). Este risco teria, portanto, um poten-cial aterrorizador mais elevado. Mas, para alm disso, trs outros factoressituacionais contriburam para fazer com que o terramoto de 1 de Novembrode 1755 se tornasse uma experincia extrema de terror: os habitantes de Lisboaenfrentaram outras catstrofes naturais (o tsunami, furaces2) e provocadaspelo homem (o incndio que consumiu Lisboa durante diversos dias e osroubos que aumentaram a insegurana), viram os seus lugares de segurana(Fried, 2000) perdidos (a casa, os smbolos do poder temporal e espiritual a Baslica Patriarcal, o Palcio da Inquisio e o Pao da Ribeira eespaos habitualmente associados ao refgio igrejas, o castelo, o novocais) e tiveram de viver muito tempo com a ameaa (as rplicas sucederam--se durante mais de um ano3, as mars estiveram desconcertadas durantemeses4 e as runas e os cheiros eram uma lembrana constante do terramo-to). Compreende-se, assim, que esta altura da nossa histria seja associadaa uma ideia mxima de temor e que as descries da situao na poca sejamterrveis: Consternados os homens com tanto perigo, vagueavam como

    2 V. Sousa (1919, p. 770).3 O padre Portal relata que at ao fim do ano de 1756 a terra tremeu mais de 600 vezes

    (in Sousa, 1919, p. 780).4 V. Sousa (1919, p. 762).

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    Maria Lusa Pedroso de Lima

    loucos, buscando os campos sem descanso algum (Mendona, 1758, p. 117);Os intrpretes das leis, os ministros dos altares, as mulheres, as crianas,cobertos de sangue e de poeira, correndo sem saberem para onde, metendo--se no perigo cuidando evit-lo (Pedegache, 1756, p. 23). Resumia o padreManoel Portal: Enfim, tudo era pobreza, terror e aflio (in Sousa, 1919,p. 760).

    PENSO QUE NO TENHO MOTIVOS PARA DESESPERAR:ADAPTAO COGNITIVA AMEAA

    O estudo das reaces das pessoas em situaes de ameaa e de sofri-mento tem um aspecto fascinante: a constatao da extraordinria capacida-de de adaptao a situaes de adversidade. A percepo de controlo sobreo que nos rodeia corresponde a uma necessidade humana bsica (e. g.,Langer, 1983) e a exposio continuada a situaes adversas vistas comoincontrolveis pode levar a sentimentos de depresso e desespero aprendido(Seligman, 1975); nestas situaes, os indivduos saudveis psicologicamen-te tendem a reagir desenvolvendo formas de restaurar os sentimentos decontrolo sobre o ambiente (Taylor, 1983; Taylor e Brown, 1988). Quandoo controlo directo sobre a ameaa no possvel (como sucede no caso dossismos), observa-se a utilizao de uma estratgia de sobrevivncia psicol-gica atravs do desenvolvimento de crenas ilusrias de controlo ou estra-tgias de controlo secundrio (Rothbaum et al., 1982). De facto, diversosestudos com pessoas que vivem em situao de ameaa incontrolvel mos-tram que aqueles que evidenciam sinais de maior bem-estar psicolgico emelhor ajustamento situao de ameaa so os que desenvolveram ilusesde controlo sobre essa ameaa (Lima, 1994 e 2005).

    por esta razo que se observam em populaes expostas a ameaasincontrolveis (como so os sismos) sinais de normalizao do risco, acom-panhados por crenas de que possvel controlar o que incontrolvel.Estudos sobre as estratgias cognitivas utilizadas para lidar com a ameaassmica (em residentes de Lisboa e dos Aores que tinham j tido experinciade sismos) identificam trs destas formas de controlo (Lima, 1994): crenasde controlo religioso sobre os sismos (a aceitao da possibilidade de interven-o divina na ocorrncia dos terramotos