os Óculos de paula

Download Os Óculos de Paula

Post on 16-Dec-2015

246 views

Category:

Documents

2 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Paula repensa a sua vida de mãe e dona de casa depois de lembrar-se de seu antigo namorado no tempo da faculdade, o Fred, que conquistou a estudante com suas reflexões sobre literatura, filosofia, religião. Reencontra-o através da internet e mantém com ele conversas em que recordam o passado, reacendendo a antiga paixão. Enquanto isso, um escritor famoso se isola para escrever seu próximo romance e discute o processo de criação literária.

TRANSCRIPT

  • Copyright 2014 by Cassionei Niches PetryCopyright desta edio 2014 by Livros Ilimitados

    Conselho Editorial:Bernardo CostaJohn Lee Murray

    IsBn:

    Projeto grfico e diagramao: John Lee Murray

    Direitos desta edio reservados Livros Ilimitados Editora e Assessoria LTDA.Rua Repblica do Lbano n. 61, sala 902 CentroRio de Janeiro RJ CEP: 20061-030contato@livrosilimitados.com.brwww.livrosilimitados.com.br

    Impresso no Brasil / Printed in Brazil

    Proibida a reproduo, no todo ou em parte,atravs de quaisquer meios.

  • 5Os culos de Paula

    ApresentaoNorberto Perkoski

    Doutor em Letras, professor do Mestrado em Letras

    da Unisc Universidade de Santa Cruz do Sul

    O romance Os culos de Paula, de Cassionei Ni-ches Petry, exige um leitor ativo, uma vez que a nar-rativa institui-se como um enigma que potencializa no uma, mas vrias possibilidades de leitura. O texto tanto pode ser lido como um romance de ideias, uma vez que temas polmicos so discutidos no decorrer da trama, entre eles o atesmo e o suicdio, quanto como uma trama passional, porquanto apresenta um trin-gulo amoroso no transcorrer de suas pginas.

    A trade afetiva composta por Fred, Paula e seu marido. Os dois primeiros so os protagonistas da narra-tiva, especialmente a figura feminina de quem um narra-dor onisciente revela a problemtica situao existencial e a falncia de seu casamento. No presente da narrativa, Paula tem conscincia do vazio da sua relao com o es-poso e reata a relao com Fred, que fora seu namorado nos tempos da faculdade. A retomada do envolvimento com Fred ocorre atravs do acesso de Paula ao blog que ele mantm nas redes sociais. Fred, tambm casado e, assim como Paula, com um filho, professor e polemiza atravs da internet a temtica do atesmo e, principal-mente, do suicdio, assuntos para ele obsessivos.

    A complexidade da narrativa se adensa com o apa-recimento de outro narrador que invade a histria, in-trometendo-se de tempos em tempos na narrao. Esse

  • 6 Cassionei Niches Petry

    narrador invasivo um escritor em crise que resolve se isolar para escrever o romance em que est trabalhando.

    A fragmentao existencial das personagens reforada por uma pertinente estratgia de Cassionei Niches Petry atravs da tambm fragmentao da obra com captulos predominantemente curtos. Ressalte-se igualmente o uso da intertextualidade com referncias a diversas obras e escritores consagrados, requerendo do leitor o processo de estabelecer relaes diversas no momento da leitura. Alm disso, so discutidos no trans-correr do texto aspectos da metafico, bem como da au-tofico, revelando um enovelar-se da narrativa e de seu processo de criao sobre si mesma. H, ainda a ressal-tar, o uso da intratextualidade, no caso com o verdadeiro autor do romance: Os culos de Paula o ttulo de um livro comentado no conto nibus, da obra Arranhes e outras feridas, publicada por Cassionei em 2012.

    O final surpreendente da obra implode vrios elementos que pareciam verdadeiros no transcurso do narrado, obrigando o leitor, ao trmino da narrao, a levantar os olhos do texto e se perguntar, espantado: quem conta a histria que acabei de ler? Assim como Paula, o leitor talvez precise de culos novos, ou seja, uma releitura da narrativa para tentar decifrar o mis-trio do romance.

  • 7Os culos de Paula

    Pens: se me han cado las gafas. Pens: hasta hace un momento yo no sa-ba que utilizaba gafas. Pens: ahora per-cibo los cambios. Y eso, saber que ahora saba que necesitaba gafas para ver, me hizo temerario y me agach y encontr mis lentes (qu diferencia entre tenerlos pues-tos y no tenerlos!) (Los detectives salvajes, Roberto Bolao)

    1.Tirou os culos e os acomodou sobre o livro. Os

    olhos se voltaram para a porta, de onde surgiu o vulto do filho com o caderno nas mos. A professora man-dara um bilhete. Reps os culos e leu uma crtica s atitudes do menino em sala de aula. Por ser mais inteligente, terminava as atividades antes de todos e comeava a cantar, atrapalhando os colegas. Paula apenas sorriu, lembrando a menina que entrara na escola sabendo ler. Sua professora, no entanto, man-dava recados de elogio no caderno, no reclamava.

    Assinou o bilhete e tirou os culos. Pensou em

  • 8 Cassionei Niches Petry

    acrescentar uma resposta professora, mas se limi-tou a reprimir o filho, para que ele passasse a ser

    mais obediente. E que aproveitasse o castigo de ir biblioteca como uma oportunidade para ler mais.

    Reps os culos e pensou na aparente incoern-cia no seu discurso. Queria o filho obediente, mas o

    incentivava a ler. Fechou o livro e o ps sobre o criado-mudo.

    Nossa condio de servirmos aos outros sem falar nada, pensou.

    2. Com essas filosofices voc vai acabar indo para

    o inferno disse sua me, na verdade o padre pela boca de sua me.

  • 9Os culos de Paula

    3.Paula acordou no quarto do rapaz, o mesmo que

    na noite anterior havia colocado uma questo muito importante no debate.

    O que nos faz ser de alguma religio? J para-ram para pensar sobre isso? Qual foi o ponto de par-tida? A resposta mais frequente ser: Porque minha famlia segue essa religio. O que nos provoca outra pergunta: E por que sua famlia segue essa religio?

    Para provocar ainda mais, proponho um exerc-cio de imaginao. Se voc tivesse nascido em outro pas, com uma cultura diferente e cuja religio pre-dominante diferente? Ser que seguiria a mesma crena? E se nascesse no seio de uma famlia que no acreditasse em um deus, voc acreditaria nele?

    Quando a pessoa fica acuada com essas questes,

    ela j diz que tem um lado espiritual independente de qualquer religio, expresso que se popularizou nos sites de relacionamento da internet. Mas esse lado es-piritual surgiu do nada? Lgico que no, pois nasceu de um processo de questionamento. um passo para a descrena, talvez, no fosse a necessidade pessoal de crer ou a presso da sociedade para crer.

    No estou com isso querendo destruir nenhuma crena, mas mostrar que ela um atributo pessoal do ser humano que no deve ser imposto a outros. Querer impor sua verdade desrespeitar o seu se-melhante, e o respeito um dos fatores da tica que devem ser mantidos para o convvio na sociedade.

  • 10 Cassionei Niches Petry

    4.Tirou os culos antes de tomar o caf quente,

    pois a fumaa os embaciava sempre. Quando o filho

    apareceu na cozinha, pediu a bno e ela respondeu deus lhe abenoe, sem olhar para o menino. Depois, o marido saiu para trabalhar, no sem antes lhe dar um beijo na testa. Ela disse v com deus, auto-maticamente, assim como foi a resposta do marido: amm.

    5.O rapaz deu bom-dia e tentou beij-la. Ela se

    esquivou porque no tinha escovado os dentes ainda. Hbitos arraigados, disse o rapaz, gente como voc nunca os perde, no ?

  • 11Os culos de Paula

    6.O menino tambm saiu. Dessa vez ela no reco-

    mendou v com deus e nem ele sentiu falta.

    7.Ao voltar para casa, sua me a repreendeu, disse

    que no ia ficar pagando a faculdade para ela ficar s

    de namoro, a faculdade custava caro, ora essa. Nessas horas, ela colocava as mos nos ouvidos, fechava os olhos e a boca, o que a fazia lembrar-se da clssica imagem dos trs macacos.

    Nem na missa vai mais, onde j se viu!

  • 12 Cassionei Niches Petry

    8.Ps os culos e continuou a leitura. Deixou a

    loua suja sobre a pia. O livro a estava fazendo re-fletir depois de anos de certo marasmo intelectual.

    Lembrava-se de algo com respeito reflexo, reflexo

    no espelho, olhar para dentro de si mesmo. Encontrar um espelho como esse, anos depois de outro ser que-brado, despertava o Crbero dentro dela.

    9.Paula, pensa comigo, no estaria o inferno den-

    tro de ns mesmos? Estamos sempre querendo ver o cu ou o inferno em um alm-tmulo, mas a paz ou o conflito no esto dentro de nosso prprio crebro?

    No toa que na mitologia grega o mundo dos mor-tos era protegido pelo co de trs cabeas chamado Crbero, que controlava a sada do Hades.

    Note a semelhana entre o nome do monstro e a palavra crebro. Pois cada cabea desse ser mitolgico

  • 13Os culos de Paula

    pode simbolizar as divises do inconsciente, de acordo com Sigmund Freud: o id, que so nossos instintos e desejos mais primitivos, relacionados busca pelo prazer; o superego, que representa a censura que a cultura impe ao indivduo, as represses aos dese-jos do id; e o ego, que o equilbrio, controlando o comportamento, pois nem o id nem o superego podem prevalecer um sobre o outro, caso contrrio acontecem os distrbios mentais.

    Ento, quem se deixa dominar pelos seus dese-jos mais recnditos pode ser tachado de pervertido. Quem se deixa ser controlado em demasia pode se tor-nar um fantico religioso, por exemplo.

    O inferno, portanto, no um lugar alm-tmulo fictcio, tampouco o nosso mundo o , muito menos

    so as outras pessoas, como escreveu Sartre. O in-ferno est dentro de cada um de ns, e, como disse Juan Pablo Castel, personagem do romance O tnel, do argentino Ernesto Sabato, os muros deste inferno sero, assim, cada dia mais hermticos. Se as pessoas deixassem de acreditar nesse inferno que no existe e se voltassem para si prprias, o mundo seria muito melhor. Mas, claro, s minha opinio, fica com a

    sua, ou melhor, com a que lhe enfiaram goela abaixo

    durante toda sua vida.

  • 14 Cassionei Niches Petry

    10.Paula tirou os culos e foi lavar a loua.

    11.Paula ps os culos pela primeira vez e foi como

    se um novo mundo surgisse na sua frente. A primeira coisa que lhe chamou a ateno foi poder enxergar o letreiro dos nibus. Uma vez quase perdera sua linha, pois ficava aguardando at o ltimo instante o veculo

    se aproximar da parada para ler o destino. Agora, de longe, podia ver. Logicamente