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  • OLIVER SACKS

    O OLHAR DA MENTE

    Traduo:LAURA TEIXEIRA MOTTACompanhia das Letras2010

    Para David H. AbramsonSUMRIOPrefcio

  • Leitura primeira vistaChamada de volta vidaUm homem de letrasCegueira para rostosStereo SuePersistncia da viso: um dirioO olhar da mentePREFCIOCresci numa casa cheia de mdicos e conversas sobre medicina meu pai e meus irmos mais velhos eram clnicos gerais, minha me, cirurgi. Na hora do jantar inevitavelmente se falava muito sobre assuntos mdicos, mas nunca apenas sobre "casos". Um paciente podia ser um caso desta ou daquela doena, mas nos dilogos de meus pais os casos tornavam-se biografias, a histria da vida de pessoas enquanto reagiam a molstias, leses, estresse ou reveses. Talvez fosse inevitvel que eu viesse a me tornar mdico e contador de histrias.Quando O homem que confundiu sua mulher com um chapu foi publicado em 1985, um renomado neurologista acadmi-co fez uma resenha muito gratificante do livro. Os casos eram fascinantes, ele escreveu, mas ele tinha uma ressalva: achava que eu estava fingindo ao apresentar pacientes como se da primeira vez que eu os vira no tivesse nenhuma idia preconcebida, nenhum conhecimento prvio da doena que apresentavam. Seria mesmo verdade que eu s fora me inteirar da literatura cientfica pertinente depois de atender um paciente com uma determinada doena? Decerto eu comeara tendo em mente um dado tema neurolgico, ele

  • pensou, e ento fora procurar pacientes que o exemplificassem.Mas eu no sou um neurologista acadmico, e a verdade que a maioria dos mdicos praticantes, afora sua abrangente educao em medicina, tem poucos conhecimentos em profundidade sobre muitas doenas, especialmente aquelas consideradas raras, para as quais no compensa alocar muito tempo de ensino na faculdade. Quando nos aparece um paciente com uma dessas doenas, precisamos pesquisar e, especialmente, recorrer a descries originais. Assim, tipicamente meus relatos de caso comeam com um encontro, uma carta, uma batida porta a descrio que o paciente faz do que ele est sentindo que estimula a explorao mais completa.Trabalhando como neurologista geral principalmente em instituies para idosos, atendi milhares de pacientes nas ltimas dcadas. Cada um me ensina alguma coisa, e gratificante cuidar deles. Em alguns casos, vemo-nos regularmente, como mdico e paciente, por vinte anos ou mais. Nas anotaes clnicas que fao, desdobro-me para registrar o que est acontecendo com eles e refletir sobre o que vivenciam. Ocasionalmente, com permisso do paciente, minhas anotaes evoluem para um ensaio.Depois que comecei a publicar relatos de caso, a contar de 1970, com Enxaqueca, passei a receber cartas de pessoas que buscavam entender seus problemas neurolgicos ou comentar sobre eles, e essa correspondncia tornou-se, de certo modo, uma extenso da minha prtica. Portanto, algumas das pessoas que descrevo neste livro so pacientes; outras me escreveram depois de ler um dos meus relatos de caso. Sou grato a todas por consentirem em compartilhar suas histrias, pois elas ampliam nossa imaginao e nos

  • mostram o que frequentemente se oculta na sade: o complexo funcionamento do crebro e sua assombrosa capacidade de se adaptar e superar deficincias sem falar na coragem e na fora que os indivduos podem mostrar e nos recursos internos que conseguem mobilizar diante de problemas neurolgicos que para o resto de ns so quase impossveis de imaginar.Muitos de meus colegas do passado e do presente partilha-ram comigo generosamente seu tempo e seus conhecimentos, conversando sobre as ideias deste livro ou oferecendo comentrios sobre suas vrias verses. A todos (e aos muitos que omito aqui) sou imensamente grato, em especial a Paul Bach-y-Rita, Jerome Bruner, Liam Burke, John Cisne, Jennifer e John Clay, Bevil Conway, Antonio e Hanna Damsio, Orrin Devinsky, Dominic ffytche, Elkhonon Goldberg, Jane Goodall, Temple Grandin, Richard Gregory, Charles Gross, Bill Hayes, Simon Hayhoe, David Hubel, Ellen Isle e o Jewish Braille Institute, Narinder Kapur, Christof Koch, Margaret Livingstone, Ved Mehta, Ken Nakayama, Grel Kristina Nslund, Alvaro Pascual-Leone, Dale Purves, V. S. Ramachandran, Paul Romano, Israel Rosenfield, Theresa Ruggiero, Leonard Shengold, Shinsuke Shimojo, Ralph Siegel, Connie Tomaino, Bob Wasserman e Jeannette Wilkens.Eu no teria concludo esta obra sem o apoio moral e financeiro de vrias instituies e indivduos, e tenho uma imensurvel dvida para com eles, entre os quais devo mencionar especialmente Susie e David Sainsbury, a Universidade Columbia, a MacDowell Colony, o Blue Mountain Center e a Alfred P. Sloan Foundation. Tambm agradeo a New York Review of Books, The New Yorker, ao

  • numeroso pessoal da Alfred A. Knopf, Picador UK, Vintage Books e meus outros editores no mundo todo.Vrios correspondentes contriburam para este livro com idias ou descries, entre eles Joseph Bennish, Joan C, Larry Eickstaedt, Anne E, Stephen Fox, J. T. Fraser e Alexandra Lynch.Sou grato a John Bennet, da New Yorker, e a Dan Frank, da Knopf, excepcionais editores que melhoraram este livro em muitos aspectos, e a Allen Furbeck por sua ajuda com as ilustraes. Hailey Wojcik digitou muitos dos rascunhos e contribuiu com pesquisas e praticamente todos os outros tipos de ajuda, sem falar em seu trabalho de decifrar e transcrever quase 90 mil palavras dos meus "dirios do melanoma". Kate Edgar tem em minha vida, h 25 anos, a posio nica de colaboradora, amiga, preparadora de texto, organizadora e muito mais. Ela me instigou, como sempre, a pensar e escrever, a ver de diferentes perspectivas mas sempre retornar ao centro.Acima de tudo, deixo aqui meu reconhecimento a participantes de experimentos e aos pacientes e suas famlias: Lari Abraham, Sue Barry, Lester C., Howard Engel, Claude e Pamela Frank, Arlene Gordon, Patrcia e Dana Hodkin, John Hull, Lilian Kallir, Charles Scribner Jr., Dennis Shulman, Sabriye Tenberken e Zoltan Torey. Eles no s me autorizaram a escrever sobre seus casos e citar suas descries, mas tambm comentaram os rascunhos, apresentaram-me a outras pessoas e recursos, e, em muitos casos, vrios se tornaram grandes amigos.Finalmente quero expressar minha imensa gratido a meu mdico, dr. David H. Abramson, a quem dedico este livro.O.W.S. Nova York

  • Junho de 2010O OLHAR DA MENTE

    LEITURA PRIMEIRA VISTAEm janeiro de 1999 recebi a seguinte carta: Caro dr. Sacks,Meu problema (muito incomum), em uma frase e em termos leigos, : no consigo ler. No consigo ler msica nem qualquer outra coisa. No consultrio do oftalmologista, posso ler individualmente todas as letras da tabela optomtrica at a ltima linha. Mas no sou capaz de ler palavras, e para ler msica tenho o mesmo problema. Venho lutando com isso h anos, procurei os melhores mdicos e nenhum foi capaz de ajudar. Eu ficaria imensamente feliz e grata se o senhor pudesse marcar-me uma consulta. Atenciosamente, Lilian KallirTelefonei sra. Kallir pareceu-me mais acertado, embora normalmente eu responda por escrito porque mesmo aparentemente sem ter dificuldade para escrever uma carta, ela afirmou ser incapaz de ler. Falei com ela, e marcamos uma consulta na clnica neurolgica onde eu trabalhava.A sra. Kallir veio logo depois clnica. Era uma senhora de 67 anos, culta e vivaz, com forte sotaque de Praga. Contou-me sua histria com muito mais detalhes. Era pianista, disse; de fato, eu a conhecia de nome, como brilhante intrprete de Chopin e Mozart (fizera sua primeira apresentao em pblico aos quatro anos, e o clebre

  • pianista Gary Graffman elogiou-a dizendo ser ela "uma das pessoas mais naturalmente musicais que j conheci".O primeiro indcio de que havia algo errado, ela contou, surgira em 1991, durante uma apresentao. Ela estava tocando concertos para piano de Mozart e houve uma mudana de ltima hora no programa, do Concerto no 19 para o no 21. Mas quando abriu a partitura do Concerto no 21, ficou atnita: achou-o ininteligvel. Ela via as pautas, as linhas e as notas individualmente com perfeita clareza e nitidez, mas nada daquilo parecia combinar, fazer sentido junto. Sups que o problema estivesse relacionado aos seus olhos. Mesmo assim, foi em frente, executou de memria o concerto com perfeio e descartou o estranho incidente pensando "so coisas da vida".Vrios meses depois o problema tornou a acontecer, e sua capacidade para ler partituras tornou-se instvel. Quando estava cansada ou doente quase no conseguia ler coisa alguma, mas se estivesse descansada sua leitura primeira vista era rpida e fcil como sempre fora. De modo geral, porm, o problema se agravou, e embora ela continuasse a lecionar, a gravar e a se apresentar no mundo todo, passou a depender cada vez mais de sua me-mria musical e de seu vasto repertrio, pois agora se via impossibilitada de aprender novas msicas em partituras. "Eu tinha uma fantstica leitura primeira vista", ela disse, "podia facilmente tocar primeira vista um concerto de Mozart, e agora no sou mais capaz".Ocasionalmente, Lilian (como ela me pediu que a chamas-se) sofria lapsos de memria em concertos, mas, sendo exmia improvisadora, em geral conseguia suprir a deficincia. Quando estava vontade, entre amigos ou alunos, sua execuo parecia boa como sempre. E assim,

  • por inrcia, medo ou uma espcie de adaptao, era possvel para ela desconsiderar seus singulares problemas com a leitura de msica, pois no tinha outros proble