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    Crtilo:RevistadeEstudosLingusticoseLiterrios,UNIPAM,5(1):7791,2012

    OamornaobradeClariceLispector1

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    ROGRIODECASTRONGELOGraduandodo8.perododaUniversidadeFederaldeUberlndia.

    email:rogerio.angelo@gmail.com

    Resumo:NestetrabalhomeproponhoaanalisaratemticadoamornaobradaescritoraClariceLispector.Paratal,numprimeiromomentodiscorrosobreaprpriaClarice,sobresuarelaocomaliteraturaetambmsobrecomoacrtical/leusuaobra;emseguida tratoda temticadoamorna literaturaclariceana.Por fim, teominhasconsideraessobreatemticadoamoremClariceLispector, focandomaisdetalhadamenteaabordagemdaautorasobreoamornocontoAmor,publicadono livroLaosdeFamlia,eemseguida,sobreamesmatemticanaobraUmaaprendizagemouOlivrodosPrazeres.Palavraschave:Literaturacomoexperincia;amor;ClariceLispector.Abstract: In thispaper Ipropose toanalyze the themeof love in theworkofClariceLispector.Thisway,Iwillfirstlymakesomeconsiderationsaboutthewriter,aboutherrelationshipwith literature and also about how critics read or have read herwork;thenIdealspecificallywiththethemeofloveinLispectorsbooks.IwillmakesomefinalconsiderationsaboutthethemeofloveinClarice,byfocusingwithmoredetailsonthe authors approach on love in her shortstory Amor (Love), published in herbookLaosdefamlia(FamilyTies),andthen,aboutthesamethemeinherbookUmaaprendizagemouOlivrodosPrazeres(Anapprenticeship,orThebookorPleasures).Keywords:Literatureasanexperience;love;ClariceLispector.

    ClariceLispectoreaLiteratura

    AescritoraClariceLispectornasceunaUcrnia,noanode1920,massuafamlia (pai,me,Clarice eduas irms)mudouseparaonordestedoBrasilquando elaaindaeramuito jovem (1922).Moraramum tempoemAlagoas;emseguidaemPernambuco.Em1930,quandoClarice tinhaainda10anos,suamemorreu.Em1935afamliamudouseparaacidadedoRiodeJaneiro,entoCapitalFederal.SegundoClaricemesmadisseementrevista,desdequeaprendeualereaescreverelajcomeoua

    1EstetrabalhofoielaboradoduranteadisciplinaNarrativaII,disciplinaoferecidapelaUniversidadeFederaldeUberlndiaeministradapeloProfessorDr.LeonardoFranciscoSoares,nosegundosemestrede2010.

    Crtilo,vol.5n.1,pp.7791maro2012CentroUniversitriodePatosdeMinas2012

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    escreverliteratura;quandoeracrianaainda,comeouaescreverumahistriaquenoacabavanunca.Umdosanosmaissignificativosdesuavidaoanode1943,poisnesseanoelanaturalizousebrasileiraapsmaisdedezmesesdeespera;publicouseuprimeiroromance (Pertodocoraoselvagem);ecasousecomodiplomataMauryGurgelValente,comquemelaviveu,viajandoomundo,atdivorciaremseem1959,anoemqueelavoltouamorarnoRiodeJaneiro.2

    EmsuaescritaliterriaClaricenuncafezconcesses,mantendoasemprenumnvelelevadode trabalhocoma linguagem.Valenotarqueatmesmo seuprimeiroromance,Pertodocoraoselvagem,foirecebidocomespantopelacrticaliterriacomoumaobra impressionantementebemelaborada.Paraexemplificar isso,citamosAntonioCandido,emumartigodomesmoanodapublicaodoromanceacimacitado:

    Raramentedadoencontrarumescritorque[...]procuraestenderodomniodapalavrasobre regiesmaiscomplexasemais inexprimveis,ou fazerda ficouma formadeconhecimentodomundoedas idias.Por isso, tiveoverdadeirochoqueao lero romancediferentequePertodocoraoselvagem,deClariceLispector,escritoraataquicompletamentedesconhecidaparamim.Comefeito,este romanceuma tentativa impressionantepara levarnossa lnguacanhestraadomniospoucoexplorados,forandoaaadaptarseaumpensamentocheiodemistrio,paraoqualsentimosqueaficonoumexerccioouumaaventuraafetiva,masum instrumentorealdoesprito,capazdenosfazerpenetraremalgunsdoslabirintosmaisretorcidosdamente(CANDIDO,1943,p.126127).

    AindasobreaquestodacrticaliterriasobreClariceLispector,em1979,doisanosapsamortedaescritora,OlgadeSescreveuolivroAescrituradeClariceLispector,noqualelanosmostra comoaobradeLispector foi lidapela crticae tece suasprpriasconsideraes.SegundoS(1979,p.24):OdiriocrticodeSrgioMillietoprimeirodentreosdocumentosimportantesparaavaliarareceptividadedacrticabrasileiraobradeClariceLispector.SrgioMillietsoubereagir,comsensibilidadeeinteligncia,estreiadaficcionista.

    ElanosmostraqueaosedepararpelaprimeiravezcomPertodocoraoselvagem,Milliethaviapensadoquesetratavademaisumadessasmocinhasqueprincipiamcheiasdequalidade,queagentepodeatelogiardevivavoz,masquemorreriamdeataquedeumacrticasria(MILLIETapudS,1979,p.24).

    Econtinua:Ia enterrarovolumena estante,quando, acordada conscinciaprofissional, l aoacasoapgina160eachaaexcelente:sbriaepenetrante.Acontinuaoda leituranoodecepciona.A linguagemenveredapor inesperadosatalhos,atingeopotico,

    2Asinformaesbiogrficasforamretiradasdesitessobreaautora.Disponvelem:e.Acessoem20nov.2010.

    ROGRIODECASTRONGELO

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    usa solues inditas, sem cair no hermetismo ou nosmodismosmodernistas (S,1979,p.24).

    OutroautorcitadoporOlgadeSEduardoPortella(1960),quefazumaleiturainteressantedeClarice:Seuexpressionismo,defabricaopessoal,desconcertouoscrticosacostumadosaoscontadoresdehistriasesimbolizaumnovoestgiodaculturabrasileira(PORTELLAapudS,1979,p.36).NostrechosselecionadosporS,EduardoPortellanosmostraqueClariceLispectormanifestaumadecididaconscinciaartesanalerenovadora[daliteratura](PORTELLAapudS,1979,p.35).

    Quantoaessarenovaodaliteratura,sobretudodaliteraturabrasileira,pensoque,decertaforma,ClaricepodeserassociadaaautorescomoJamesJoyce,KatherineMansfield,dentreoutros,paraosquaisa literaturaeramuitomaisdoqueumamimetizaodarealidade.AposturadeClariceLispectoremrelaoliteraturasealinhacomopensamento,porexemplo,doescritoretericodeliteraturaMauriceBlanchot,quevaliteraturacomoumaexperinciacomapalavra.

    Sobreessavisodeliteraturacomoexperincia,podemoscitaroquedizLciaCastelloBranco,emseutextoAmortedoltimoescritor:

    PoisoprprioBlanchotquemnosensinaqueaobra literriasserealizaquandoaquelequealidizeud lugaraumavozvindadeoutro lugar, transformandoseemumele sem rosto.E a literatura, essapalavra esquiva,quepresta servioaosmanuais, entendidaporBlanchotno exatamente comooprodutodo escritor,mascomo sua experinciamesma a experincia literria, afinal sempre caminhoupara si prpria, para a sua essncia, que o seu desaparecimento (CASTELLOBRANCO,2004,p.10).

    Claricetemessaposturadeliteraturapelaliteratura,semquererqueelasirvaparaalgumacoisa.Umposicionamentoqueachei interessantedaautoracomrelao literaturasooscomentriosqueela fazsobreumdeseuscontosnasuanicaentrevistatelevisiva.CitoaquiabiografiadeLispectorintituladaClarice,umavidaqueseconta,deNdiaGotlib,daqualextraostrechosaseguir:

    ClaricecompareceuaosestdiosdaTVCulturadeSoPaulo,emfevereirode1977,noprogramaintituladoPanoramaespecial,paraumaconversacomoentrevistador[JlioLerner]arespeitodesuaatividadeliterria.[...]PanoramaEntreosseusdiversos trabalhos,sempreexiste, issonatural,um filhopredileto.Qualaquelequevocvcommaiscarinhoathoje?ClariceLispectorOovoeagalinha,queummistrioparamim.UmacoisaqueeuescrevisobreumcriminosochamadoMineirinho,quemorreucomtrezebalas,quandoumasbastava[...]P.EmquemedidaotrabalhodeClariceLispector,nocasoespecficodeMineirinho,podealteraraordemdascoisas?C.L.Noalteraemnada.Noalteraemnada.Euescrevosemesperanaqueoque

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    euescrevoalterequalquercoisa.Noalteraemnada[...]nofundoagentenoquetquerendoalterarascoisas.Agentetquerendodesabrochardeummodooudeoutro,n?(GOTLIB,1995,p.452458).

    FinalizoessaprimeirapartesobreaescritoraClariceLispector,tecendoalgumasconsideraessobreumacaractersticamarcantedesuasobras,queadesevalorizarodelicadodavida:sualiteraturasevoltaparaointerior,nofocagrandesacontecimentosnombitoexterior;dessaforma,osmomentosmaisrelevantesdeseuscontos,romances,etc.somomentosepifnicos,momentosemqueaparentementenadaacontecenoexterior,masquesomomentosderevelaoparaospersonagens,queentramemumestadodeiluminaorepentino.

    PodemoscitarOlgadeS(1979),quenumapartedoseulivrojcitadoAescrituradeClariceLispector,discuteumartigodeMassaudMoiss(1960),dizendoqueele:

    [...]reconhecequeaunidadedramtica,nocasodeClarice,nopreenchidaporumaaoexterna,progressivamenteaceleradaatopice,masporao interna[...]Semusaro termo epifania,MassaudMoiss refereseaoinstante existencial, emqueaspersonagensclariceanas jogamseusdestinosevidenciandoseporumasbitarevelao interior,queduraumsegundofugaz,comoa iluminao instantneadeum farolnas trevasequepor issomesmo recusa serapreendidopelapalavra. [...]Essemomentoprivilegiadonoprecisaserexcepcionalouchocante,bastaquesejarevelador,definitivo,determinante(S,1979,p.39).

    Passemosagorasegundapartedesteartigo,emquetrataremosdoamornaliteratura de Lispector, para que possamos, num terceiromomento, discutir como oamorabordadoporelanocontoAmoreno livroUmaaprendizagemouo livrodosprazeres.

    OamornaobradeClariceLispector

    UmavezquemeproponhoatrabalharnestaparteatemticadoamornaobradeClariceLispector,discutireibrevementealgumasconcepesdeamorna literaturadeummodogeral,edepoisdiscorrereisobrecomooamorabordadonaobraclariceana.

    Primeiramente,vale lembrarquea ideiadeamor talqualaconcebemoshoje,(amorsintomticonoqualocoraodispara,asmossuam,etc.)umaconstruoculturalquenascenaGrciaantiga,na lricaarcaica,comumadasprincipaisescritorasgregas, SafodeLesbos, que tempoemas belssimos sobre o amor, tentandodizer oamor.nessalricaarcaicaqueoamoraparececomosintoma,feitodepequenasreaesdocorpo.

    AindanaGrcia,ofilsofoPlatoescreveuoBanquete,obraemquetemosvrioshomens tentandodefiniroamor.Umdosmitosmais significativos omitodo

    ROGRIODECASTRONGELO

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    Andrgino,noqualnosapresentadaaimagemdeumserquemasculinoefemininonomesmoser,equeeraredondo,porqueeracompleto.ComooAndrginosesentiamuitoplenoeleprovocaosdeuseseentoZeusdecidepartiressafiguraredondaaomeio.A