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Antropólogo que se dedica ao estudo da Ciência e Tecnologia no Brasil.

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  • IV REUNIO DE ANTROPOLOGIA DA CINCIA E DA

    TECNOLOGIA

    24 a 26 de Setembro de 2013, UNICAMP

    Grupo de Trabalho Corpo, Sade e Tecnocincia

    Sobre os sentidos scio-tcnicos da interao entre o metilfenidato e o

    conhecimento neurolgico do TDA/H

    Autores: Rodrigo Saraiva Cheida Mestre e Doutorando do Departamento

    de Poltica Cientfica e Tecnolgica da UNICAMP, So Paulo, Brasil

    Marko Synsio Alves Monteiro Professor e Pesquisador do Departamento

    de Poltica Cientfica e Tecnolgica da UNICAMP, So Paulo, Brasil

  • Introduo

    O objetivo deste trabalho oferecer uma anlise sobre a crescente nfase dos estudos

    sobre o Transtorno de Dficit de Ateno/Hipercintico (TDA/H) acerca das causas

    neurolgicas do transtorno relacionada com o crescimento de tratamentos que envolvem

    a administrao de frmacos. Diante desse contexto, busca-se interpretar como o

    conhecimento cientfico das neurocincias e sua relao com a terapia farmacolgica

    configura um ponto de encontro de relaes sciotecnicas. O frmaco, ou a sua

    composio qumica que opera mudanas fsicas no crebro e inscreve maneiras

    especficas de atuar no corpo, interpretado como um nexo entre a cincia produzida

    sobre o crebro e as empresas farmacuticas, que investem em pesquisa e na produo

    de frmacos para o tratamento do TDA/H.

    A neurocincia um dos ramos cientficos que vem causando profundos impactos na

    psiquiatria brasileira nos anos recentes. Em um levantamento de artigos cientficos

    publicados no SCIELO sobre o TDA/H, entre os anos de 2007 e 2012, constatamos que

    a maioria dos estudos foi produzida por psiquiatras e neurocientistas que investigam as

    causas neurolgicas do transtorno. Hegemonicamente, tais estudos so financiados por

    indstrias farmacuticas e no horizonte de suas discusses preponderante o debate

    sobre os efeitos fisiolgicos da terapia farmacolgica com o metilfenidato para o caso

    de crianas diagnosticadas pelo transtorno.

    Sugere-se que a legitimidade neurocientfica da patologia dotada de sentido pelos

    atores sociais e instituies que esto ladeados na (con)formao das fronteiras

    biolgicas do dficit de ateno. Legitimidade que interpretada como um fenmeno

    social e cultural fundamental para a produo, divulgao e prescrio do metilfenidato.

    Contextualizando os estudos sobre o TDA/H

    Atualmente o conhecimento cientfico produzido dentre as psicocincias1 sobre uma

    srie de doenas mentais foco de controvrsias, como o TDA/H, a distimia, a dislexia,

    a depresso, o distrbio bipolar, entre outras. O ponto central da discrdia repousa no

    argumento do aumento do diagnstico de indivduos acometidos pelas patologias aliado

    1 Termo utilizado por Nikolas Rose em Inventando nossos selfs (2011) para designar um conjunto de

    disciplinas de radical psi que surgiram de meados ao final do sculo XIX, como a psiquiatria, psicologia e cognatos

  • a um alegadamente exagerado consumo de frmacos que passaram a ser a terapia mais

    indicada para o tratamento dessas patologias.

    A terapia com frmacos toma como base o conhecimento cientfico oriundo das

    diferentes disciplinas que compem a biomedicina e que apontam a causa das doenas

    mentais como consequncia de disfunes orgnicas. Essas disciplinas conformam a

    base cientfica que ampara a prtica clnica dos profissionais que fazem o diagnstico e

    a terapia dos indivduos acometidos pelos diferentes transtornos mentais e meio de

    promoo dos interesses da indstria farmacutica e seus produtos. Desta forma, o

    conhecimento cientfico um meio de legitimar uma complexa relao entre diferentes

    atores sociais, como indstrias farmacuticas e comunidade cientfica, as psicocincias

    que investigam os transtornos e os sujeitos diagnosticados. O ponto central dessa

    discrdia, portanto, a legitimidade do conhecimento cientfico que ampara as prticas

    clnica e a teraputica das patologias mentais.

    Portanto, a utilizao das tcnicas com bases biolgicas de investigao subsidiam o

    diagnstico clnico que implica na administrao de frmacos para a terapia dos

    indivduos com TDA/H, marcando uma relao prxima entre a produo do

    conhecimento e as indstrias farmacuticas. Tal biologizao da patologia tambm

    um dos principais eixos de vinculao entre a psiquiatria brasileira, o campo mdico, o

    Manual Diagnstico e Estatstico de Distrbios Mentais (Diagnostic and Statistical

    Manual of Mental Disorders - DSM-IV/RT), em sua quarta verso revisada e a

    Classificao Internacional de Doenas CID-10 - marcos indicadores de transtornos

    mentais e diagnsticos feitos Associao Americana de Psiquiatria (American

    Psychological Association APA) e pela Organizao Mundial da Sade (OMS),

    respectivamente.

    Os manuais so usados por companhias de seguro, indstrias farmacuticas e

    parlamentos do mundo todo. Configuram-se como arranjos institucionais internacionais

    que estabelecem diretrizes para a prtica clnica das psicocincias e na produo do

    conhecimento cientfico sobre patologias mentais inclusive no Brasil. Os critrios

    diagnsticos estabelecidos pelo DSM-IV/RT e pelo o CID-10 so historicamente

    contingentes e possuem sentidos que sedimentam o atual discurso cientfico da

    patologia.

  • Muitos autores (AGUIAR, 2004; ROUDINESCO, 2000; BIRMAN, 1999; GUARIDO,

    2007; LEGNANI & ALMEIDA, 2008) chamam a ateno para o fato de os manuais

    diagnsticos cada vez mais influenciaram as pesquisas sobre sade e doena mental em

    muitos pases e os diagnsticos psiquitricos, baseados nos manuais, possuem bases

    biolgicas de anlise em vez da descrio causal dos sintomas sentidos pelos sujeitos. O

    mal-estar dos indivduos (BIRMAN, 1999), fruto da relao em diversos nveis de

    estruturas da vida social que se apresenta de forma comportamental, deslocado para a

    descrio cientfica das doenas em bases biolgicas, genticas, hormonais e

    neurolgicas. Os manuais, alm de orientarem a prtica mdica, so referenciais para a

    produo cientfica e dos frmacos e estabelecem critrios de como diagnosticar as

    doenas classificadas (AGUIAR, 2004; ROUDINESCO, 2000; BIRMAN, 1999).

    Sendo assim, tais doenas passam a ser cientificamente investigadas partindo-se de

    causas biolgicas, o que subsidia o diagnstico e ampara os tratamentos baseados em

    frmacos que buscam equilibrar a qumica do crebro, ou atuar de outras formas no

    corpo fisiolgico. O fato de muitas pesquisas a respeito dessas patologias serem

    financiadas pelas empresas farmacuticas que produzem os psicofrmacos utilizados

    nesses tratamentos levanta questes importantes a respeito das formas sociais de

    construo desse conhecimento na relao que estabelecida entre instituies de

    pesquisa, empresas farmacuticas e pacientes.

    neste contexto que as pesquisas sobre o TDA/H, entre 2007 e 2012 no Brasil, se

    enquadram. Segundo dados da Associao Brasileira de Dficit de Ateno (ABDA),

    entre 3% a 5% das crianas brasileiras sofrem com o TDA/H, das quais 60% a 85%

    permanecem com o transtorno na adolescncia. um transtorno neurobiolgico de

    causas genticas, reconhecido oficialmente pela OMS (Organizao Mundial da Sade),

    atravs do CID-10 (Classificao Internacional de Doenas)2. O grupo epidemiolgico

    de crianas (mas tambm vem sendo diagnosticado em adultos). Caracterizado por

    quadros de agitao, impulsividade, dificuldade de ateno, o distrbio

    frequentemente associado ao mau desempenho escolar de crianas de 3 a 5 anos e com

    maior prevalncia em meninos. O principal tratamento a administrao teraputica de

    frmacos com metilfenidato que busca aperfeioar e corrigir a secreo qumica dos

    neurnios responsveis pela modulao da ateno deficiente.

    2 Disponvel em

  • Os atores hegemnicos na produo do conhecimento do TDA/H

    Nesta pesquisa, para investigar o conhecimento cientfico de forma interdisciplinar,

    sustento-me na referncia terica da Sociologia do Conhecimento Cientfico (Sociology

    of Scientific Knowledge SSK). Esta rea de pesquisa dos Estudos Sociais da Cincia e

    Tecnologia (ESCT) um campo que se tornou frtil para as pesquisas envolvendo a

    Sociologia da Sade Mental. O objetivo de utilizar tal arcabouo terico sustenta a

    possibilidade de investigar a produo do conhecimento em determinadas reas da

    cincia a partir de mtodos sociolgicos. Neste sentido, argumenta-se que possvel

    compreender a vertente organicista de doena mental da psiquiatria brasileira e suas

    influncias sociais atravs da anlise sociolgica e histrica da prpria construo do

    conhecimento cientfico sobre o transtorno.

    Diante da contextualizao dos aspectos controversos do nvel biolgico da produo do

    conhecimento sobre o TDA/H e do mtodo sociolgico de pesquisa que foi adotado, o

    objetivo foi compreender quais atores sociais esto ladeados na produo do

    conhecimento biolgico, neurolgico ou fisicalista3, do TDA/H no Brasil4. Foi

    desenvolvida uma busca em artigos cientficos da rea de Psicologia5 do Qualis, entre

    2007 e 2012. Esse recorte foi definido dessa forma, pois essa tradio de pesquisa que

    mais publicou sobre o transtorno. Com base nessa pesquisa com as publicaes, foi

    possvel investigar as fontes de financiamento dos estudos, que so claramente ligadas a

    empresas farmacuticas que desenvolvem frmacos.

    Do levantamento emprico feito