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  • DUNKER, C. I. L. - Descartes e o Mtodo Psicanaltico. Estudos Lacanianos. , v.1, p.169 - 186, 2008.

    Descartes e o Mtodo Psicanaltico

    Christian Ingo Lenz Dunker1

    Resumo

    Lacan faz referncia ao pensamento de Descartes em vrios momentos de sua obra.

    Geralmente o sentido desta importao de conceitos e problemas interpretado no

    contexto de fundamentao epistemolgica da psicanlise, sobretudo, pela inferncia

    suposta de que o sujeito cartesiano o sujeito da cincia e de que o sujeito da

    psicanlise o sujeito cartesiano. O objetivo deste artigo mostrar que a par desta

    relao preciso verificar como a relao entre a experincia cartesiana, como exerccio

    tico particular do mtodo e da meditao, guarda proximidades com a prtica do

    mtodo psicanaltico. Pretende-se demonstrar esta relao pelo exame circunstanciado

    da narrativa contida nos textos axiais de Descartes, bem como pela afinidade entre os

    movimentos cartesianos, em sua teoria da constituio do sujeito, e os movimentos do

    tratamento psicanaltico, como conjunto de operaes de separao do sujeito em face

    do Outro.

    Palavras Chave: Descartes, Lacan, mtodo

    Introduo:

    Lacan faz referncia ao pensamento de Descartes em vrios momentos de sua

    obra. Geralmente o sentido desta importao de conceitos e problemas interpretado no

    contexto de fundamentao epistemolgica da psicanlise, sobretudo, pela inferncia

    suposta de que o sujeito cartesiano o sujeito da cincia e de que o sujeito da

    psicanlise o sujeito cartesiano. O objetivo deste artigo mostrar que a par desta

    relao preciso verificar como a relao entre a experincia cartesiana, como exerccio

    1 Psicanalista, professor Livre Docente do Departamento de Psicologia Clnica do Instituto de Psicologia da USP.

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  • DUNKER, C. I. L. - Descartes e o Mtodo Psicanaltico. Estudos Lacanianos. , v.1, p.169 - 186, 2008.

    tico particular do mtodo e da meditao, guarda proximidades com a prtica do

    mtodo psicanaltico. Pretende-se demonstrar esta relao pelo exame circunstanciado

    da narrativa contida nos textos axiais de Descartes, bem como pela afinidade entre os

    movimentos cartesianos, em sua teoria da constituio do sujeito, e os movimentos do

    tratamento psicanaltico, como conjunto de operaes de separao do sujeito em face

    do Outro.

    Parte-se da curiosa afirmao de Lacan de que a condio necessria para a

    posio de analisante de natureza ctica. Examina-se assim as origens e o sentido do

    ceticismo na relao entre Montaigne e Descartes. A tese aqui de que o ceticismo em

    Montaigne compe um aspecto da recuperao, no incio da modernidade, de um

    conjunto de prticas filosficas conhecidas como cuidado de si2. A idia de que a

    filosofia pode ser entendida como uma espcie de medicina ou de cura da alma,

    preserva-se principalmente na exposio cartesiana, que dissociada de suas teses nos

    forneceriam um bom exemplo das prticas de valor formativo para o mtodo

    psicanaltico.

    Contudo a recuperao da relao entre a forma de exposio com os

    fundamentos do mtodo pode ser intuda no uso que Lacan faz do pensamento de

    Descartes no apenas no contexto do desenvolvimento de sua prpria teoria da

    constituio do sujeito, mas iluminar porque quando se trata de expor ou formalizar o

    percurso de uma psicanlise, o exerccio de seu mtodo, Lacan tambm recorre a

    Descartes. Ou seja, entre Lacan e Descartes possvel dirimir no apenas uma relao

    terica, mas tambm prtica.

    1. O Ceticismo como Condio para uma Psicanlise

    Um exemplo particularmente significativo da preservao das antigas prticas do

    cuidado de si na modernidade representado pela vida e obra de Montaigne (1533-

    1592). Aos 37 anos, acometido por clculos renais, Montaigne retira-se para sua

    propriedade rural onde passa o resto da vida dedicado escrita. Ele inventa uma nova

    2 Foucault, M. A Hermenutica do Sujeito.Martins Fontes, So Paulo, 2006.

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  • DUNKER, C. I. L. - Descartes e o Mtodo Psicanaltico. Estudos Lacanianos. , v.1, p.169 - 186, 2008.

    forma literria, o ensaio, e estabelece um novo tema narrativo: Eu sou a matria de

    meu livro. Misturando senso comum e a alta literatura, experincia e descrio, o

    ensaio tem um compromisso firmado no com a autoridade, mas com a liberdade. Se o

    universo infinito, a imaginao ilimitada. Mas o movimento crucial que

    encontramos em Montaigne no est apenas nesta abertura para a escrita de si, mas na

    sua curiosa combinao com uma posio narrativa peculiar: a posio de auto-ironia.

    Para tanto, recupera-se uma das correntes que compunham o cuidado de si, o ceticismo,

    especialmente na corrente derivada de Pirro (318-272 a.C.).

    O ceticismo teraputico recusa o fim crtico e meramente negativo da filosofia;

    ele procura descrever nossa vida comum sem ultrapassar os limites da experincia. Isso

    faz da teraputica ctica uma crtica das teraputicas tradicionais. uma teraputica que

    visa acabar com toda aspirao integrativa, metafsica ou catrtica baseada na converso

    ou no compromisso narrativo. Ela se coloca claramente no plo clnico das estratgias

    de cura, inspirando o que Montaigne chama de anatomia da alma, ou seja, um discurso

    que suspende metodologicamente as aspiraes de exclusividade, necessidade e

    universalidade prprias do discurso filosfico, e as substitui pela pluralidade,

    contingncia e singularidade que constitui uma experincia. Emana da a profunda

    afinidade entre a noo de clnica e a noo de experincia.

    A psicanlise uma dialtica, no sentido do que Montaigne chamava de arte de

    conferir 3. Haveria, ento, uma espcie de desistncia de todo teorizar. O ctico no

    aquele que derroga a verdade, pois isso seria admitir a existncia do falso, mas aquele

    que continua a procur-la ao mesmo tempo que afirma sua impossibilidade. O ctico

    deve abandonar toda aspirao a um eu geral e abstrato, pois isto pressupe que seria

    possvel conhec-lo. Ele troca tal crena pela mera constatao de que h um eu pessoal,

    indissoluvelmente ligado ao corpo 4. Correlativamente, os seguidores de Sexto

    Emprico se caracterizam como uma filosofia do reconhecimento do mundo e do saber

    comum (no sentido de saber partilhado) que nele vigora.5 muito surpreendente que

    Foucault, em sua anlise do cuidado de si, tenha concedido to pouco espao aos

    3 Lacan, J. Os Escritos Tcnicos de Freud (1953). SI:317. 4 Smith, P.J. Terapia e vida comum, in Do Comeo da Filosofia e outros ensaios, Discurso, So Paulo, 2005:49-88. 5 Porchat Pereira, O. Vida Comum e Ceticismo, Brasiliense, So Paulo, 1993:112.

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  • DUNKER, C. I. L. - Descartes e o Mtodo Psicanaltico. Estudos Lacanianos. , v.1, p.169 - 186, 2008. cticos

    os ver se podes

    gozar d

    , pois neles se verifica admiravelmente a disjuno entre conhecer a si e cuidar

    de si.

    Surpreendentemente essa atitude ctica que, segundo Lacan,6 a psicanlise

    exige de algum que quer fazer uma anlise: uma atitude pirroniana. Alguns quiseram

    ver nessa afirmao um elo com o tema da suspenso do juzo, da ao e da crtica,

    presente na associao livre e, correlativamente, na ateno flutuante. Mas a questo

    mais estrutural que deontolgica. A posio de verdade, abrigada de qualquer saber,

    imediatamente ocupada pelo gozo7. Agora te ofereo o meu gozo; vam

    isso. Faze de mim um masoquista que se enamora de tua angstia este seria

    o enunciado subseqente tomada de posio pirrnica do analisante 8.

    Montaigne pode ser colocado como legtimo herdeiro e representante da prtica

    do cuidado de si helenista em sua vertente meditativa. Sua prtica assemelha-se bastante

    de Marco Aurlio, principalmente na idia de que a meditao uma forma de

    controlar o discurso interno.9 Ele procura uma arte de viver que cultive a independncia

    e o afaste da tutela das instituies e dos contratos,10 conforme a frmula no

    emprestar-se aos outros, dar-se somente para si-mesmo. Todavia, encontramos nesta

    viragem para si uma retirada do mundo e uma orientao para este mundo. Nela, o eu se

    reduz a uma posio enunciativa, no a um ponto de partida para o conhecimento: eu

    nada tenho a dizer de mim slida, simples e inteiramente, sem confuso e sem

    mistura.11 a experincia de fragmentao, de mistura, e no identidade a si que

    compe a matria-prima de seus escritos. Se, na superfcie que rene Agostinho e

    Plutarco, h um privilgio da leitura, em Montaigne este privilgio se dirige escrita, a

    escrita de si. Em seus Ensaios,12 Montaigne realiza uma semiologia dos estados da alma

    (medo, solido, tristeza, envelhecimento, clera, crueldade), uma diagnstica da

    intencionalidade humana (a incerteza dos juzos, o acaso das paixes, a loucura da

    razo, a indolncia, a vaidade e o egosmo como motivaes). Alm disso, percebe-se a

    permanncia do veio retrico, agora no mais dedicado ao estudo e classificao das

    6 Lacan, J. O Objeto da Psicanlise (1963), SXII. 7 Ferreyra, N. A Experincia da Anlise, Companhia de Freud, Rio de Janeiro, 2004:18. 8 Lacan, J. O Objeto da Psicanlise (1963), SXII. 9 De Santi, P.L.R. A Crtica ao Eu na Modernidade em Montaigne e Freud, Fapesp-Casa do Psiclogo, So Paulo, 2003:166. 10 Willemart, P. A Idade Mdia e a Renascena na Literatura Francesa.Anna Blume, So Paulo:56-59. 11 Montaigne, M. Do domnio da prpria vontade, in Ensaios, Coleo Os Pensadores, Abril Cultural, So Paulo, 1973: 455. 12 Montaigne, M. Ensaios, Coleo Os Pensadores, Abril Cultural, So Paulo, 1973