art criancas na natureza

Download ART Criancas Na Natureza

Post on 11-Jul-2015

53 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

CRIANAS DA NATUREZA1 La Tiriba2 tiribalea@gmail.com Apresentao Um dia a Terra vai adoecer. Os pssaros cairo do cu, os mares vo escurecer e os peixes aparecero mortos nas correntezas dos rios. Quando este dia chegar, os ndios perdero no seu esprito. Mas vo recuper-lo para ensinar ao homem branco a reverncia pela sagrada terra. A, ento, todas as raas vo se unir sob o smbolo do arco-ris para terminar com a destruio. Ser o tempo dos Guerreiros do Arco-ris.(Profecia feita h mais de 200 anos por Olhos de Fogo,uma velha ndia Cree)

Durante sculos acreditamos no mito da natureza infinita: alm de nos oferecer ar puro, gua, terras frteis e bom clima, a Terra seria uma eterna fonte de recursos para a produo dos bens materiais e imateriais que a mente humana tem sido capaz de inventar. Hoje sabemos que o dia anunciado por Olhos de Fogo j chegou. Dados 2010 , revelam que so devastados sete milhes de hectares de floresta por ano; um em cada quatro mamferos corre o risco de desaparecer devido destruio de habitat, caa e mudana climtica; entre 1950 e 2005, a produo de metais cresceu seis vezes, a de petrleo, oito, e o consumo de gs natural, quatorze vezes. No total, 60 bilhes de toneladas de recursos so extradas anualmente As relaes entre sistemas culturais e sistemas naturais ameaam a continuidade da vida no planeta. Por recusarmos esta perspectiva e desejarmos evit-la, nos propomos a transformar profundamente nossa maneira de pensar e de viver. Buscando sentidos para este desafio, frente aos meninos e meninas que recebemos diariamente em creches e pr-escolas, perguntamos: quais so os nossos sonhos de educadores? Que herana - tica, esttica, cultural, ambiental deixaremos para os que viro depois de ns? Numa situao de emergncia planetria, no basta que as crianas aprendam os princpios da democracia, da cidadania, do respeito aos direitos e s1

3

cerca de 50% a mais do que 30 anos atrs.

Elaborado por solicitao da Coordenao de Educao Infantil/COEDI/SEF/MEC, este texto contou com a valiosa colaborao de Alexandra Penna, Christiana Profice, Dilma Pimentel, Isabel Bogea Borges, Leonor Pio Borges e Mariana Couto Rosa, membros do Grupo de Pesquisa Infncias, Tradies Ancestrais e Cultura Ambiental. 2 Professora da UNIRIO; coordenadora do Curso de Especializao Educao Ambiental para Sociedades Sustentveis, NIMA/PUC-Rio 3 Ver Estado do Mundo, 2010: estado do consumo e o consumo sustentvel http://www.worldwatch.org.br/estado_2010.pdf; Acessado em 14/07/2010

Agosto/2010

1

diferenas entre ns, seres humanos. Tambm nosso papel ensin-las a cuidar da Terra. Mas como ensinar a cuidar numa sociedade que submete os indivduos, os povos e a natureza aos interesses do mercado, mobilizando as energias sociais para a produo e a acumulao? Na origem da crise moral e espiritual de nossos dias, est uma falsa premissa de separao radical entre seres humanos e natureza e a iluso antropocntrica de que todos os seres e entes no humanos nos pertencem porque somos uma espcie superior. Nas escolas seguimos transmitindo s crianas uma viso do planeta como fonte inesgotvel de onde os humanos podem extrair indefinidamente; e da natureza como simples matria prima morta para a produo de mercadorias. Opondo o plano cultural ao plano natural, e privilegiando o primeiro, as escolas silenciam a dimenso ambiental da existncia humana. Como as prticas pedaggicas reproduzem esta viso de mundo? Indo alm: se o divrcio entre os seres humanos e natureza est na origem das dicotomias que caracterizam a viso de mundo moderna, como as IEI materializam, em seu cotidiano, este distanciamento do mundo natural? Como, nestas circunstncias, ensin-las a amar e preservar a natureza? Creches e pr-escolas so espaos privilegiados para aprender-ensinar porque aqui as crianas colhem suas primeiras sensaes, suas primeiras impresses do viver. Neste sentido, a dimenso ambiental no poderia estar ausente, ou a servio da dimenso cultural, ambas deveriam estar absolutamente acopladas. Como podemos ter uma educao no-ambiental se desde o dia do nosso nascimento at o dia de nossa morte vivemos em um ambiente? (...)A nica maneira de se entender o conceito de natureza na teoria educacional por meio de sua ausncia. (...)Tudo se passa como se fssemos educados e educssemos fora de um ambiente(Grn, 2003,p.2-3) Diante de uma cultura hegemnica que silencia a unidade e destaca a dicotomia, afirmamos, desde a primeira infncia, a importncia da Educao Ambiental4 enquanto processo que religa ser humano e natureza, razo e emoo, corpo e mente, conhecimento e vida. Educao fundada numa tica do cuidado, respeitadora da diversidade de culturas e da biodiversidade. Educao Ambiental que poltica,

4

Tratado de educao ambiental para sociedades sutentvis e responsabilidade global http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/educacaoambiental/tratado.pdf

Agosto/2010

2

no sentido em que reivindica e prepara os cidados para exigir justia social, cidadania nacional e planetria, auto-gesto e tica nas relaes sociais e com a natureza (Reigota, 2004, p.10) Com base nestas referncias, inicialmente trazemos reflexes sobre os artigos das atuais Diretrizes Nacionais Curriculares para a Educao Infantil (DCNEI), fazendo uma articulao entre as proposies da lei e a perspectiva de construo histrica de sociedades sustentveis5, isto , socialmente justas, economicamente viveis e ambientalmente saudveis. Em continuidade, apresentamos proposies com vistas a contribuir para a qualificao do cotidiano em creches e pr-escolas, considerando que as Instituies de Educao Infantil (IEI) so espaos de viver o que bom, alegra e potencializa a existncia (Espinosa, 1983). As crianas so os novos membros de uma espcie que se renova h milhes de anos sobre a Terra. Elas so seres da natureza e, simultaneamente, da cultura; so corpos biolgicos que se desenvolvem em interao com os outros membros de sua espcie (Vigotski, 1989) mas cujo desenvolvimento pleno e bem estar social depende de interaes com o universo natural de que so parte. A seguir, apontamos trs objetivos para um projeto pedaggico compromissado com a preservao da vida: a) religar as crianas com a natureza; b) reinventar os caminhos de conhecer; c) dizer no ao consumismo e ao desperdcio. O primeiro nos convida a um novo olhar de admirao, desfrute, reverncia e respeito natureza, como fonte primeira e fundamental reproduo da vida. O segundo objetivo nos convoca a rejeitar praticas pedaggicas que propem um conhecimento intelectual e descritivo do mundo natural, entendendo-o como objeto de estudo, domnio de exploraes humanas. O terceiro questiona e combate as prticas consumistas, abrindo espaos e incentivando trocas humanas em que as referncias so os seres vivos, no os objetos. Na parte 4, apontamos referncias para prticas pedaggicas, processos de formao e polticas pblicas comprometidas com a qualidade de vida em relao s ecologias pessoal6, social e ambiental (Guattari, 1990) E, ao final, conscientes de que no h fatalidade, convidamos professoras e professores a aprender com o passado para produzir cuidadosamente o presente e possibilitar o futuro.5

Ver UNESCO, Dcada da Educao das Naes Unidas para um Desenvolvimento Sustentvel: http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001399/139937por.pdf6

Sem prejuzo ao conceito de ecologia mental, formulado pelo autor, utilizamos a expresso ecologia pessoal, por sua abrangncia e por apontar para a superao do dualismo corpo/mente.Agosto/2010

3

2- Diretrizes Se j somos capazes de vislumbrar a necessidade de um respeito diversidade cultural, estamos longe de uma verdadeira considerao pela diversidade biolgica. Sequer nos consideramos como parte da Biodiversidade, uma espcie entre outras, mas seres superiores, com poderes de vida e morte sobre as demais. Por nossa capacidade de interveno, vimos provocando danos profundos no ambiente de que somos parte. As conseqncias dos avanos tecnolgicos de que tanto nos orgulhamos, na verdade no tem colaborado para a preservao deste ambiente. Pelo contrrio, movidos pela ganncia, fascinados pelos objetos, muitas vezes incentivamos as prticas consumistas, esquecendo que a sua fabricao exige, invariavelmente, domnio e controle da natureza, presso sobre o meio em que vivemos. Articulado aos interesses do capital, este processo implicou em expanso de fronteiras, em dominao e em colonizao de outros povos e espcies. No Brasil de nossos dias, em que a lei afirma o direito dos povos indgenas identidade e ao territrio - assim como escolha dos modos de educao de suas crianas de 0 a 5 anos de idade7 - fundamental considerar a imensa sabedoria desse povos, no que diz respeito ao equilbrio entre os humanos e os outros seres vivos, animais ou vegetais; da mesma forma, valorizar e evidenciar os saberes e o papel de agricultores familiares, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, assentados e acampados da reforma agrria, quilombolas, caiaras, povos da floresta, na constituio de novas sociedades sustentveis (Art. 8). Estes saberes esto em coerncia com uma concepo de conhecimento que no fragmenta a realidade, que no v o mundo como mquina, mas como organismo vivo, como uma vasta rede de relaes em que todos os seres esto interconectados (Morin, 1990) Cumprir o princpio de respeito tico ao meio ambiente, afirmado no Artigo 6 das DCNEI, implica compreender que os seres humanos so parte desta rede, cujo equilbrio depende de cooperao entre espcies que se associam, que coevoluem h milhes de anos. Quanto maior a rede de relaes, quanto maior a diversidade de espcies, maior a possibilidade de preservao da Terra. Os sistemas sociais so parte desta grande rede, que busca seu equilbrio atravs de processos de auto-regulao. As intervenes humanas no podem ameaar a sua estabilidade, os seus limites, sob pena de colapsar a capacidade de auto7

Ver Artigo 13 da Resoluo CEB n 3, de 10 de novembro de 1999, que fixa Diretrizes Nacionais para