a criança é performer

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    35(2):115-137maio/ago 2010

    A Criana Performer

    Marina Marcondes Machado

    RESUMO A Criana Performer. Este artigo conversa com a noo de infnciaproposta por Maurice Merleau-Ponty em seus Cursos na Sorbonne sobre a Psicologiae a Pedagogia da criana. O texto tem raiz nos resultados da pesquisa de ps-doutoramento da autora, pesquisa de criao dramatrgica na metodologia de traba-lho em processo cuja totalidade, entre etnografia, estudo das cenas de rua e criaode roteiros teatrais, permitiram-na propor a noo de criana performer. Trata-se deuma contribuio original com base na tradio fenomenolgica, bem como na noode culturas da infncia. O artigo faz interlocuo com o que estudiosos da cena con-tempornea nomeiam performance e performer de modo a propor uma viso de crian-a performer, com foco especialmente voltado para a Pedagogia Teatral e a EducaoInfantil.Palavras-chave: Primeira Infncia. Relao Criana-corpo. Maurice Merleau-Ponty. Perfomance.ABSTRACT The Child is a Performer. The article enters into dialogue with theconcept of childhood that Maurice Merleau-Ponty introduced in his Sorbonne Lectureson child Psychology and Pedagogy. The article stems from the authors post-doctoralresearch on the subject of dramaturgical creation in the methodology of work in process.The fusion of ethnography, the study of street scenes and the creation of theater scriptsled the author to propose the concept of the child as performer, an original insightbased on the phenomenological tradition and the concept of childhood cultures. Thearticle addresses the notion that scholars of the contemporary scene name performanceand performer, proposing a view of the child as performer useful in the fields ofTheater Pedagogy and Childhood Education.Keywords: Early Childhood. Child-bodys Relation. Maurice Merleau-Ponty.Performance.

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    Figura 1 - menino Jonas na rua com sua me Valdir Sarubbi

    Introduo: primeira aproximao

    Este artigo tem como origem a interface de trs momentos de minha vida depesquisadora: o mestrado em Artes, o doutorado em Psicologia da Educao ea volta rea de Artes, em uma recente pesquisa de ps-doutoramento emPedagogia do Teatro (ECA/USP como bolsista FAPESP). Trata-se do amadure-cimento de uma dcada de estudos da Fenomenologia da Infncia, das possibi-lidades do ensino para crianas do teatro na chave do que hoje nomeado oteatro ps-dramtico1 e de procedimentos que evidenciam como a viso deinfncia do professor pode facilitar os processos criativos das crianas.

    Aprendi lendo Gregory Bateson (2000) que os intelectuais americanos cos-tumam escrever position papers: penso que este trabalho um texto deposicionamento, especialmente mediante o trmino de meu ps-doutoramento.Proponho aqui o construto de criana performer: uma viso de infncia, ou ummodo adulto de olhar para a vida infantil, elaborado por mim, cujas premissas econsequncias para a criana e para a relao entre adultos e crianas serodiscutidas ao longo do texto, em interlocuo com a Fenomenologia da Infn-cia revelada por Maurice Merleau-Ponty (1990a; 1990b) e com a Sociologia daInfncia tal como Manuel Jacinto Sarmento (1997; 2004; 2007; 2008) e seuscolaboradores propem.

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    A viso da criana como performer foi lapidada durante minha pesquisade ps-doutoramento em Pedagogia do Teatro, no ano de 2009, em um cami-nho trilhado da observao etnogrfica teoria; tal como enuncia o mtodofenomenolgico, os dados observacionais que provocaram a reflexo eteorizao a posteriori.

    Em minha experincia de quase vinte anos no ensino do teatro para crian-as (especialmente focada na faixa etria dos cinco e seis anos), percebi queseus modos de ser e de estar no mundo ganhavam espao, vitalidade e inme-ras possibilidades expressivas quando lhes era oferecido um ambiente com-posto por contextos sensveis, inteligentes, vivos: algo muito prximo daquiloque, em arte contempornea, nomeiam-se instalaes. Tambm a maneira denarrar as propositivas da aula, contar histrias, sejam elas inventadas ou combase na literatura, enriqueciam-se muito se o adulto abandonasse seu papelpedaggico estrito senso, por assim dizer, para assumir um papel de professornarrador: um professor performer (ou performador) de sua prpria arte e desuas concepes, encarnadas em seu corpo e tornadas visveis em suas atitu-des, condutas, facilidades e dificuldades. Para utilizar uma linguagem prximada Sociologia e da Psicologia de anlise das representaes de papis, haversempre amplos espectros dos efeitos da representao (vises de infncia doprofessor) no representado (as crianas alunas). Posto em linguagem cotidia-na, a cada maneira de olhar a criana corresponde um jeito de ser e de estardo adulto, emoldurando a convivncia entre eles.

    Nesse sentido, o professor mostra-se, sempre, modelo para as crianas nadireo de um ou outro tipo de viso de infncia; minha argumentao inicial aqui que, distanciando-se dos esteretipos do que bom para a criana pr-escolar,ou do que so contedo e forma prprios do infantil, e aproximando-se de umaabordagem antropolgica para compreender como as crianas vivem sua vida,seus conflitos, suas dvidas, suas criaes, os professores das crianas de zeroa seis anos podero fazer surgir um espao potencial2 de criao e troca entre elee os alunos, entre o grupo de crianas, entre cada criana e o mundo compartilha-do. Essa aproximao antropolgica se d em gesto e palavra, na medida emque os alunos so parte intrnseca de toda e qualquer performance vivida e/ouproposta por seu professor: momentos da convivncia e da continuidade dosprocessos de conhecimento, nos quais o professor se faz performativo e comu-nica algo aos alunos, seja por meio de diferentes tipos de narrativas ou brincadei-ras teatrais a serem experienciadas pelas crianas.

    A viso de infncia que vou desenhar parte da certeza de que a crianacompartilha o mesmo mundo do adulto: v, percebe, vive o mundo em suaprpria perspectiva, sim, mas nunca ensimesmada ou reclusa em um mundo dacriana: vivemos o mesmo mundo, convivemos no mesmo mundo; essa certe-za advm da obra do filsofo Maurice Merleau-Ponty (1990a; 1990b) bem comode minha vivncia junto a crianas. E, nesse mundo compartilhado, andamacontecendo coisas incrveis no mbito das artes. Saber delas, apropriar-sedessas coisas incrveis uma interessante contribuio que o adulto pode

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    fazer, por meio da iniciao a uma educao esttica, possibilitando crianatransitar no campo da arte contempornea.

    Este artigo vai privilegiar o trabalho do educador com a linguagem teatrala partir de algumas caractersticas do que se nomeia teatro ps-dramtico e dacena contempornea; mas a noo de criana performer pode vir a ser valiosapara se pensar infncia e educao nos mais diversos mbitos.

    Teatro Ps-dramtico e Cena Contempornea

    O teatro nomeado ps-dramtico tem raiz em um tipo de teatro cujadramaturgia apresenta uma frgil fronteira entre teatro, dana, poesia, literaturae a arte da contao de histrias. Trata-se de um modo de pensar o teatro, deescrever para o teatro e de atuar em teatro muito diferente do teatro tradicional,o teatro dramtico. Hoje a cena contempornea no faz distino entre teatro edana, entre encenaes teatrais e contaes de histrias e leituras dramticas,entre teatro e performance. O que essencialmente ps-dramtico a relaoda encenao com o tempo e com o espao: esse modo de fazer teatro nonecessita de um texto dramatrgico pronto, fechado, com comeo, meio e fim radicalizando, prescinde at mesmo do texto o que nos leva a um tipo detrabalho que apresenta uma baguna, por assim dizer, entre comeo, meio e fim;e nessa baguna presenciamos rupturas, repeties, nonsense; no h lgicaformal, diversas lgicas convivem, e isso implica em um tipo de recepo, porparte de quem assiste: o espectador encontra-se mais livre para interpretar, aseu modo, tudo que vive durante um ato performtico. Portanto essa propositivanos oferece uma transgresso dos gneros, abrindo portas e janelas para ou-tros modos de fazer teatro e de usufruir teatro so as linguagens hbridas.

    Em meu percurso, como professora de teatro para crianas, percebi quemuito da esttica nomeada ps-dramtica fazia sentido diante da maneira deser dos meus alunos pequenos: a criana que cria seu faz de conta e que oorganiza durante uma aula de teatro, no exige de si nem do companheiro umalgica formal; seja em termos de tempo, seja em termos de espao, a crianamodifica, quase o tempo todo, seus roteiros de improviso, e aproxima, recorren-temente, suas narrativas teatrais da sua vida cotidiana este, outro marco dacena contempornea: a aproximao entre a arte teatral e a vida, entre criaocnica e Antropologia. A capacidade para a transformao, para a incorporaoda cultura compartilhada, o dom para ler a vida cotidiana de modo imaginativo,tudo isso aproxima fortemente o modo de ser da criana pequena das maneirasde encenao contemporneas.

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    Noo de Infncia: leitura da obra de Maurice Merleau-Pontye correlaes com o pensamento de Manuel Sarmento

    Desde o final de minha graduao em Psicologia, aprofundo o estudo e acompreenso dos Cursos na Sorbonne, aulas proferidas por Maurice Merleau-Ponty na ctedra de Psicologia e Pedagogia da criana, no final dos anos 1940,incio dos anos 1950. Nos Cursos na Sorbonne (registrados por alunos e revi-sados pelo filsofo ainda vivo, publicados no Brasil pela primeira vez pelaEditora Papirus, 1990a e 1990b) Merleau-Ponty conversa com os pressupostosda Psicologia e da Psicanlise tal como pensados at aquele momento, e esbo-a um possvel futuro para a Psicologia infantil, de maior proximidade com osestudos culturalistas fortalecidos naquele momento histrico:

    preciso construir uma psicanlise e uma sociologia que no sejam concebidasem termos de causalidade; a orientao de uma nova psicanlise antropol-gica, o culturalismo, que tende para uma sntese dos dados clssicos (Merleau-Ponty, 1990a, p. 133).

    Somada quela necessri