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  • A Bela e a FeraClarice Lispector

  • SUMRIO

    I

    HISTRIA INTERROMPIDA

    GERTRUDES PEDE UM CONSELHO

    OBSESSO

    O DELRIO

    A FUGA

    MAIS DOIS BBEDOS

    II

    UM DIA A MENOS

    A BELA E A FERA OU

    A FERIDA GRANDE DEMAIS

  • I

    Histria Interrompida

    Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que no desse a entender que seu maior defeito consistia

    na sua tendncia para a destruio. E por isso, dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o

    pelo macio e quente de um gatinho, por isso que sua vida se resumia num monte de cacos: uns

    brilhantes, outros baos, uns alegres, outros como um "pedao de hora perdida", sem significao,

    uns vermelhos e completos, outros brancos, mas j espedaados.

    Eu, na verdade no sabia o que retrucar e lamentava no ter um gesto de reserva, como o

    seu, de alisar o cabelo, para sair da confuso. No entanto, para quem leu um pouco e pensou

    bastante nas noites de insnia, relativamente fcil dizer qualquer coisa que parea profunda. Eu

    lhe respondia que mesmo destruindo ele construa: pelo menos esse monte de cacos para onde

    olhar e de que falar. Perfeitamente absurdo. Ele, sem dvida, tambm o achava, porque no

    respondia. Ficava muito triste, a olhar para o cho e a alisar seu gatinho morno.

    Assim se passavam as horas. s vezes eu mandava buscar uma xcara de caf, que ele bebia

    com muito acar e gulosamente. E eu pensava um pensamento muito engraado: que se achasse

    que andava a destruir tudo, no teria tanto gosto em beber caf e no pediria mais. Uma leve

    suspeita de que W... era um artista, vinha-me mente. Para desculp-lo, respondia-me: destri-se

  • tudo em torno de si, mas a si prprio e aos desejos (ns temos um corpo) no se consegue destruir.

    Pura desculpa.

    Num dia de vero abri a janela de par em par. Pareceu-me que o jardim entrara na sala. Eu

    tinha vinte e dois anos e sentia a natureza em todas as fibras. Aquele dia estava lindo. Um sol

    mansinho, como se nascesse naquele instante, cobria as flores e a relva. Eram quatro horas da tarde.

    Ao redor o silncio.

    Voltei-me para dentro, amolecida pela calma daqueles momentos. Queria dizer-lhe: -

    Parece-me que essa a primeira das horas, mas que depois dela mais nenhuma se seguir.

    Mentalmente ouvi-o responder:

    - Isso apenas uma tendncia sentimental indefinvel, misturada literatura da moda,

    muito subjetivista. Da essa confuso de sentimentos, que no tem verdadeiramente um contedo

    prprio, a no ser o seu estado psicolgico, muito comum em moas solteiras de sua idade...

    Tentei explicar-lhe, combat-lo... Nenhum argumento. Voltei-me desolada, olhei seu rosto

    triste e ficamos calados.

    Foi ento que pensei aquela coisa terrvel: "Ou eu o destruo ou ele me destruir".

    Era preciso evitar a todo custo que aquela tendncia analista, que terminava pela reduo do

    mundo a mseros elementos quantitativos, me atingisse. Precisava reagir. Queria ver se o cinzento

    de suas palavras conseguia embaar meus vinte e dois anos e a clara tarde de vero. Decidi-me,

    disposta a comear no mesmo momento a lutar. Voltei-me para ele, apoiei as mos no parapeito da

    janela, entrefechei os olhos e sibilei:

  • - Essa hora me parece a primeira das horas e tambm a ltima!!

    Silncio. L fora, a brisa indiferente.

    Ele ergueu os olhos para mim, levantou a mo sonolenta e acariciou os cabelos. Depois ps-

    se a riscar com a unha os desenhos em xadrez da toalha de mesa.

    Fechei os olhos, abandonei os braos ao longo do corpo. Meus lindos e luminosos vinte e

    dois anos... Mandei vir caf e com muito acar. Depois que nos separamos, no fim da estrada,

    voltei muito devagar para casa, mordendo um capim e chutando todos os seixos brancos do

    caminho. O sol j se tinha deitado e no cu sem cor j se viam as primeiras estrelas.

    Estava com preguia de chegar em casa: invariavelmente o jantar, o longo sero vazio, um

    livro, o bordado e, enfim, a cama, o sono. Enveredei pelo atalho mais comprido. A relva crescida era

    penugenta e quando o vento soprava forte ela me acariciava as pernas.

    Mas eu estava inquieta.

    Ele era moreno e triste. E sempre andava de escuro. Oh, sem dvida eu gostava dele. Eu,

    muito branca e alegre, ao seu lado. Eu, numa roupa florida, cortando rosas, e ele de escuro, no, de

    branco, lendo um livro. Sim, ns formvamos um belo par. Achei-me ftil, assim, imaginando

    quadros. Mas justifiquei-me: precisamos contentar a natureza, enfeit-la. Pois eu jamais plantaria

    jasmim junto de girassis, como ousaria... Bem, bem, o que precisava era de resolver "meu caso".

    Durante dois dias pensei em cessar. Queria achar uma frmula que mo desse para mim.

    Queria achar a frmula que pudesse salv-lo. Sim, salv-lo. E essa idia me era agradvel porque

    justificaria os meios que empregasse para prend-lo. Tudo me parecia porm estril. Ele era um

  • homem difcil, distante, e o pior que falava francamente de seus pontos fracos: por onde atac-lo

    ento, se ele se conhecia?

    O nascimento de uma idia precedido por uma longa gestao, por um processo

    inconsciente para o gestante. Assim explico a minha falta de apetite no jantar magnfico, minha

    insnia agitada numa cama de lenis frescos, aps um dia atarefado. s duas horas da madrugada,

    enfim, nasceu ela, a idia.

    Sentei-me alvoroada na cama, pensei: veio depressa demais para ser boa; no se

    entusiasme; deite-se, feche os olhos e espere que venha a serenidade. Levantei-me porm e,

    descala para no acordar Mira, pus-me a andar pelo quarto, como um homem de negcios

    espera do resultado da Bolsa. Porm cada vez mais parecia-me que achara a soluo.

    Com efeito, homens como W... passam a vida procura da verdade, entram pelos labirintos

    mais estreitos, ceifam e destroem metade do mundo sob o pretexto de que cortam os erros, mas

    quando a verdade lhes surge diante dos olhos sempre inopinadamente. Talvez porque tenham

    tomado amor pesquisa, por si mesma, e se tornem como o avarento que acumula, acumula apenas,

    esquecido da primitiva finalidade pela qual comeou a acumular. O fato que com W... eu s

    conseguiria qualquer coisa pondo-o em estado de "shock".

    E eis como. Dir-lhe-ia (com o vestido azul que me fazia muito mais loura), a voz suave e

    firme, fixando-o nos olhos:

    - Tenho pensado muito a nosso respeito e resolvi que s nos resta...

    No. Simplesmente.

  • - Vamos nos casar?

    No, no. Nada de perguntas.

    - W..., ns vamos casar.

    Sim, eu conhecia os homens. E sobretudo conhecia-o fundamente. Ele no teria o recurso

    do gesto preferido. E permaneceria esttico, atnito. Porque estaria diante da Verdade... Ele gostava

    de mim e talvez porque s a mim no conseguira destruir com suas anlises (eu tinha vinte e dois

    anos).

    No consegui dormir durante o resto da noite. Estava to desperta que o ressonar de Mira

    me enervava, e at a lua, muito redonda, cortada ao meio por um galho de folhas finas, parecia-me

    defeituosa, com uma inchao do lado excessivamente artificial. Queria abrir a luz, mas ouvia de

    antemo as queixas de Mira a mame, no dia seguinte.

    Levantei-me com a disposio de uma mocinha no dia do seu casamento. Cada ato meu era

    preparatrio, cheio de finalidades, como parte de um ritual. Passei a manh muito agitada,

    pensando na decorao do ambiente, na roupa, nas flores, frases e dilogos. Depois disso, como

    arranjar a voz suave e firme, serena e meiga? A continuar naquela febre, eu correria o riso de receber

    W... com gritos nervosos: "W... vamos casar imediatamente, imediatamente". Peguei numa folha de

    papel e enchi-a de alto a baixo: "Eternidade. Vida. Mundo. Deus. Eternidade. Vida. Mundo. Deus.

    Eternidade..." Essas palavras matavam o sentido de muitos de meus sentimentos e deixavam-me

    fria por umas semanas, to minscula eu me descobria.

    Mas na verdade eu no queria ficar fria: desejava viver o momento at esgot-lo. Precisava

    apenas conquistar um rosto menos afogueado. Sentei-me para uma longa costura.

  • A serenidade foi pouco a pouco voltando. E com ela, uma profunda e emocionante certeza

    de amor. Mas pensei, no existe mesmo nada, nada por que eu troque os instantes que vm! S

    duas ou trs vezes na vida experimenta-se tal sensao e as palavras esperana, felicidade, saudade, a

    ela se ligam, descobri. E fechava os olhos e imaginava-o to vivo que sua presena se tornava quase

    real: "sentia" suas mos sobre as minhas e uma ligeira tontura me atordoava. ("Oh, meu Deus, me

    perdoe, mas a culpa do vero, a culpa de ele ser to bonito e moreno e eu to loura!").

    A idia de que eu estava sendo feliz me enchia tanto que eu precisava fazer alguma coisa,

    alguma bondade, para no ficar com remorsos. E se eu desse a golinha de renda a Mira? Sim, o que

    uma golinha de renda, embora bonita, diante de... "Eternidade. Vida. Mundo...Amor"?

    Mira tem quatorze anos e muito exagerada, quando entrou esbaforida no quarto e fechou a porta

    atrs de si, com grandes gesto, eu disse:

    - Beba um copo d'gua e depois conta como a gata teve trinta gatinhos e dois cachorrinhos

    pretos.

    - Clarinha disse que ele se matou! Se matou com um tiro na cabea... verdade, ?

    mentira, no ?

    E repentinamente a histria se partiu. Nem teve ao menos um fim suave. Terminou com a

    brusquido e a falta de lgica de uma bofetada em pleno rosto.