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ALBERTI, Verena. A existncia na histria: revelaes e riscos da hermenutica. Estudos histricos Historiografia, Rio de Janeiro, v.9, n 17, p.31-57, 1996.

A EXISTNCIA NA HISTRIA: REVELAES E RISCOS DA HERMENUTICA

Verena Alberti

Este texto tem origem na preparao para o exame oral Rigorosum que prestei como requisito para a obteno do diploma de doutor na Universidade de Siegen (Alemanha).1 "Hermenutica" foi um dos temas da prova de teoria da literatura, e, de seu estudo, resultou um material bastante exaustivo, que agora sistematizo. Condicionado por esse ponto de partida, este artigo tem um carter acima de tudo informativo, ou seja, busca as respostas pergunta "O que hermenutica?" e, dentre elas, discute aquelas que constituem alguma relao com a histria. Em outras palavras, estarei destacando aqui aquela "parte da hermenutica" - pressupondo-se que isso exista - que, enquanto historiadores e cientistas sociais, devemos conhecer. H trs justificativas para essa investida. Em primeiro lugar, creio que a hermenutica por demais importante no campo das cincias humanas para que no nos ocupemos dela. Em segundo lugar, ela um assunto complicado e confuso, sendo louvvel tentar desconfundi-la, ou, pelo menos, torn-la menos estranha. Por fim, a relao entre histria e hermenutica exerce uma atrao especial, sem dvida nenhuma, mas no deve ser aclamada sem reservas.2

1 - O que hermenutica

1.1 - Trs movimentos Tratando-se de tema de difcil apreenso, creio que a melhor forma de nos aproximarmos da hermenutica - se no a nica - atravs dos autores tradicionalmente identificados a ela. Poderamos dividir a "tradio hermenutica" em trs movimentos ou modos de abordagem. Em primeiro lugar, aquele que considera a hermenutica como aConclu meu doutorado em Literatura pela Universidade de Siegen em julho de 1993, graas a uma bolsa de doutorado no exterior concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq) e licena de dois anos e dez meses que me foi dada pelo Centro de Pesquisa e Documentao de Histria Contempornea do Brasil da Fundao Getlio Vargas (CPDOC-FGV). 2 Por um acaso feliz, a redao deste texto coincidiu com o perodo em que o professor Hans Ulrich Gumbrecht, da Universidade de Stanford (EUA), ministrou o curso "Ps-histrico e ps-hermenutico", baseado em seu prximo livro, Non-hermeneutics, no Programa de Ps-Graduao em Histria Social da Cultura da Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro. Tomo a liberdade de retomar aqui algumas das idias desenvolvidas pelo professor Gumbrecht, com base nas minhas anotaes de aula. O curso de 30 horas foi ministrado em 10 sesses entre 13 e 24 de maio de 1996. Agradeo ao Programa de Ps-Graduao do Departamento de Histria da PUC-RJ a oportunidade de t-lo assistido.1

cincia da interpretao de textos, independentemente (ou menos dependentemente) de uma concepo filosfica que lhe seja atrelada. Este me parece ser o movimento principal dos esforos de interpretao da Reforma e, anteriormente, da hermenutica teolgica medieval, bem como de Schleiermacher, entre outros. O segundo movimento diz respeito hermenutica filosfica, mais radical, digamos, do que o primeiro, na medida em que toma a compreenso hermenutica como pressuposto da existncia humana, ou melhor, como cooriginal ao Dasein - sendo "filosfico" aqui principalmente "ontolgico". Entre os dois movimentos poderamos situar Wilhelm Dilthey, que foi sem dvida o autor que mais contribuiu para a fixao dos laos entre a hermenutica e a histria. Sua abordagem ultrapassa a questo da interpretao de textos, na medida em que estabelece os fundamentos das cincias humanas, mas isso no permite identific-la hermenutica filosfica de Heidegger e Gadamer, por exemplo. A hermenutica de Dilthey muito mais uma hermenutica epistemolgica - o que, em alguma medida, tambm poderia ser dito da de Karl-Otto Apel -, porque ela constitui o pressuposto do exerccio das cincias humanas. O terceiro movimento seria o da adoo da hermenutica no como teoria ou mtodo, e sim como um "modo de pensar" difundido e praticado em diversos campos - no cotidiano, em todo tipo de texto, na histria, na psicanlise etc. - graas sua pretenso ao universal. Esse movimento no pode ser ancorado a autores definidos, mas pode ser identificado toda vez que aquele "modo de pensar" aparece em produes que no se classificam como "hermenuticas", mas que j mergulharam, por assim dizer, na forma do pensar hermenutico. Ou seja: produes que buscam o sentido "mais profundo" ou "mais elevado" de textos, de acontecimentos, de sonhos etc. H uma certa tendncia em se relacionar a maior ou menor difuso desse "modo de pensar" a configuraes culturais. Assim, por exemplo, haveria, na Europa, uma nfase em se colocar o tempo, o passado e as tradies em uma estrutura significativa, tanto para a conservao do passado quanto para o propsito de poder, ou ainda com vistas a uma "verdade histrica". J nos Estados Unidos, o peso recairia sobre o pragmatismo, e a reinterpretao do passado dispensaria procedimentos simblicos, de modo que a hermenutica enquanto "modo de pensar" no seria to difundida.3 Talvez esse "fundamento cultural" explique tambm a predominncia de autores alemes entre aqueles tradicionalmente identificados hermenutica. De todo modo, a possibilidade de se relacionar aquele "modo de pensar" com determinadas culturas mais um passo no sentido da distino desse terceiro movimento, compensando seu carter generalizante. Enquanto "modo de pensar", ento, a hermenutica estar tambm l onde no aparece especificamente como interpretao de textos, fundamentos epistemolgicos ou imperativos ontolgicos. E isso significa: nos meios de comunicao, nos livros, nosEssa a opinio de Karl Ludwig Pfeiffer, professor de anglstica e de teoria da literatura na Universidade de Siegen de 1979 at pelo menos 1993, e meu argidor na disciplina teoria da literatura. Quando me preparava para o exame, o professor Pfeiffer gentilmente me cedeu suas anotaes sobre hermenutica que serviram de base para um curso que ministrou na Universidade de Houston, nos Estados Unidos, em 1985, e das quais tambm lano mo neste texto. , alis, de sua autoria a expresso "modo de pensar" (mode of thought) que tomo emprestada para caracterizar esse terceiro movimento.3

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filmes, em toda produo que privilegie um trabalho simblico do passado tendo em vista o presente. Esse terceiro movimento a meu ver um dos responsveis pela dificuldade de se pensar a hermenutica e de se trat-la enquanto tema, porque natural que algumas das teses dos autores sejam consideradas por demais evidentes, j que ns mesmos estamos mergulhados naquele "modo de pensar". Ou seja, difcil tomar as devidas distncias com relao ao tema, razo pela qual creio ser melhor investig-lo l onde se torna mais concreto: atravs da "histria da hermenutica".

1.2- A "histria" da hermenutica

1.2.1 - As "origens" Etimologicamente, hermenutica remonta ao verbo grego hermeneuein, geralmente traduzido por "interpretar", e ao substantivo hermeneia, "interpretao", objeto do tratado Peri hermeneias, "Da interpretao", de Aristteles.4 O termo aparece tambm em Plato e na maior parte dos escritores antigos mais conhecidos, como Xenofonte, Plutarco e Eurpedes. O deus Hermes - no se sabe se seu nome deu origem ao termo, ou vice-versa era associado, segundo Palmer, funo de transmutar aquilo que estivesse alm do entendimento humano em uma forma que a inteligncia humana pudesse compreender. Munido de chapu e sapatos alados, Hermes era mensageiro e arauto dos deuses. No so poucas as histrias da mitologia grega em que aparece enviado por Zeus, seu pai, para transmitir uma mensagem ou indicar caminhos.5 De acordo com Palmer, os gregos creditavam a Hermes a descoberta da linguagem e da escrita e sua funo de mensageiro sugere, na origem da palavra hermenutica, o processo de trazer para a compreenso algo que estivesse incompreensvel. Mas parece que a jurisdio do deus alado era to diversificada e mutante quanto a prpria hermenutica: conhecido por sua astcia, Hermes era deus dos caminhos e das ruas, do comrcio, dos oradores, dos pastores e dos ladres (Antolykos, mestre entre os ladres, av de Odisseus, era seu filho). Alm disso, guiava as almas pelo caminho para o mundo subterrneo e conduzia os homens para o sono e para o sonho - tanto que, com seu basto de arauto, podia inicialmente fazer adormecer e sonhar.6 Dir-se-ia que a pretenso ao universal da hermenutica tem uma explicao "de origem"... Richard Palmer destaca trs acepes do verbo hermeneuein no seu antigo uso: dizer (to say), no sentido de "exprimir em voz alta", explicar (to explain), e traduzir (to translate), no sentido no apenas de passar de uma lngua para outra, mas tambm de traduzir "historicamente"- como, por exemplo, "traduzir" os mundos de Homero ou do Velho Testamento, que nos so estranhos. As trs vertentes bsicas do verbo grego so equivalentes, segundo Palmer, ao ingls to interpret e, podemos dizer tambm, ao verbo4 5

Para a maioria das informaes deste item, ver Palmer, 1969. Ver Gustav Schwab, 1937. 6 Ver Schwab, id. e Meyers groes Taschen-Lexikon, 1983.

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interpretar do portugus. A primeira acepo, passvel de gerar alguma dificuldade, pode ser facilmente resgatada pela idia de "interpretar uma cano": o substantivo hermeneia podia referir-se a uma recitao oral de Homero, portadora da mensagem do poeta. Tal significado encontra-se tambm no cristianismo, diz Palmer: o padre interpreta a palavra de Deus, ou seja, seu portador, proclama algo do divino e est entre Deus e o homem. Ainda segundo Palmer, em seu Peri hermeneias, Aristteles define a interpretao tanto como enunciao - sugerindo, portanto, a primeira acepo de hermeneuein -, quanto como uma fala na qual h verdade e falsidade - o que j nos remeteria ao segundo significado, o de "explicar". O importante a notar, contudo, que a interpretao permanece dissociada da lgica. Enquanto esta ltima resulta da c