UMA ESCOLA MAIS BELA, ALEGRE E PRAZEROSA

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  • UMA ESCOLA MAIS BELA,ALEGRE E PRAZEROSA

    PAULO ROBERTO PADILHA1

    Anecessria promoo da ingenuidade criticidade no pode ou nodeve ser feita a distncia de uma rigorosa formao tica ao ladosempre da esttica. Decncia e boniteza de mos dadas.

    Transformar a experincia educativa em algo puramente tcnico amesquinhar o que h de mais fundamentalmente humano noexerccio educativo: o seu carter formador.

    O exerccio da curiosidade convoca a imaginao, a intuio, asemoes, a capacidade de conjeturar, de comparar, na busca daperfilizao do objeto ou do achado de sua razo de ser. Um rudo, porexemplo, pode provocar minha curiosidade.

    Paulo Freire, 1997

    A razo nos d a capacidade da anlise, enquanto o corao a departicipar.

    Coisas to fundamentais como a felicidade no encontram eco maiorna cincia, mas podem ser realadas e realizadas pela sensibilidade flor da pele, capaz de emprestar ao ser humano dimenso muito maisampla e solidria.

    Ao mesmo tempo, a arte liga-se cultura e, como patrimnio histrico,guarda sempre o sentido profundo do cuidar em torno das identidades(...)

    Arte e cultura so, em si mesmas, provas definitivas da mudana, dacapacidade de aprender, mas no se descolam da histria, do lugar, doc o n t e x t o. Mal entendidas, podem puxar parar trs, mas, bementendidas, iluminam o futuro e mantm o humano.

    Pedro Demo, 2000

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  • A o pensarmos na Escola Cidad visualizamos diretamente a possibilidade deconstruirmos ou de reconstruirmos uma instituio educacional mais bela,alegre, prazerosa, feliz, democrtica, participativa e autnoma. Mas logo surgemduas questes que precisamos responder. A primeira, refere-se a como evitar oequvoco de falarmos em escola democrtica e participativa apenas com a criaode Colegiados Escolares. Perguntamo-nos, por exemplo, como o Conselho deEscola (CE) este colegiado normalmente formado por representantes de todosos segmentos da comunidade escolar, que decide sobre aspectos pedaggicos,administrativos, financeiros e comunitrios da escola pode contribuir para aautonomia da escola. A outra pergunta sobre quais seriam as caractersticas daEscola Cidad que nos permitem afirmar que ela uma escola mais bela, alegree prazerosa e como isso pode influenciar na construo do seu projeto poltico-pedaggico.

    Em relao primeira questo, o Professor Moacir Gadotti, em seu livrointitulado Pedagogia da Prxis (1995), afirma que o Conselho de Escola no podeser o nico instrumento de democratizao na escola e deve estar inserido numplano estratgico mais amplo. Um plano que, poderamos completar, incluiria,por exemplo, a eleio direta do dirigente escolar mediante o acompanhamentoefetivo da sua comunidade para que evitemos que esta proposta se torne umprocesso viciado e que se transforme em mais uma mscara democrtica naescola. Outra pergunta diretamente relacionada a esta a de como viabilizarnuma rede ou num sistema municipal, estadual ou federal de ensino a gestodemocrtica efetivamente participativa? Algumas respostas a estas questes, queabaixo sintetizamos, apresentam-se nas obras sobre as quais nos fundamentamos.Veja-se, por exemplo, o livro organizado por Moacir Gadotti e Jos EustquioRomo, intitulado Autonomia da Escola: princpios e propostas (So Paulo,Cortez/IPF, 1997), alm dos livros Planejamento dialgico: como construir op rojeto poltico-pedaggico da escola ( Padilha, Paulo Ro b e rt o. So Pa u l o ,Cortez/IPF, 2001) e Aceita um Conselho? Como organizar os colegiados escolares(Antunes, ngela. So Paulo, Cortez/IPF, 2002).

    Criar Conselhos de Escola no basta. Nem tampouco supor que elesfuncionaro por si s, independentemente da criao de outros espaos departicipao e de convivncia na escola, relacionados sobretudo ao trabalhopedaggico nela desenvolvido. Da mesma maneira que institucionalizar, porexemplo, a eleio de diretores, no garante por si s a mudana de prticasautoritrias, anti-democrticas e centralizadoras, que inviabilizam uma gesto daescola mais democrtica, aberta e coletiva da escola.

    Entendemos que institucionalizar o Conselho de Escola um passoimportante, mas precisa ser uma medida acompanhada de aes concretas tantoda escola quanto das redes ou sistemas de educao. Isso significa a necessidade

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  • da definio de uma agenda permanente de formao e de valorizao dasiniciativas dos membros deste e dos outros colegiados escolares GrmioEstudantil (GE) e Conselhos de Classe (CC), por exemplo. Pouco adiantaformar sem criar as condies concretas para apoiar o trabalho dos mesmos. Seisso acontece, as propostas de ao desses colegiados so frustradas e, ao invs dec o n t r i b u rem para transformar e potencializar novas iniciativas, acabamdesanimando e criando um clima de pessimismo na escola, que s aumenta asresistncias, o desnimo e as desistncias, sempre presentes num processo demudana.

    Formar os membros desses colegiados para estruturar e conhecer, por dentro,como funciona a escola e os prprios conselhos, significa convidar e noconvocar para o envolvimento e para a convivncia com os mesmos. E umprimeiro cuidado a se ter para viabilizar este processo, procurar trabalhar nadimenso de uma organizao que se preocupe em garantir a satisfao doenvolvimento, porque sem prazer ningum se envolve efetivamente. A gestodemocrtica s acontece dentro da tica do companheirismo, tica esta queimplica na relao interpessoal, dialgica e solidria. Conforme nos fala GeorgesSnyders ousar proclamar a escola, o que eu ousaria chamar, s vezes, de minhaescola, como lugar de satisfao, a escola partindo para a conquista dasatisfao2

    muito difcil trabalhar com algum que se sente obrigado a comparecer eque no sinta prazer em estar presente. Certamente existem muitas obrigaes aserem cumpridas e limites que devem ser estabelecidos dentro da instituioescolar, mas num processo de formao, no qual se pretende orientar os diversossegmentos para o exerccio da democracia ativa, visando a uma ao articuladacom a comunidade escolar, interna e externa, muito melhor trabalhar naperspectiva da satisfao e co-responsabilidade com a elaborao do nossoprojeto do que com a idia de que somos todos obrigados a realizar e aparticipar do projeto da escola.

    Quando a escola consegue criar, aos poucos, uma ambincia favorvel aotrabalho coletivo, alcanada atravs do esforo democrtico e criativo, em que asatribuies de cada segmento escolar so claramente compreendidas por todosporque todos vo compreendendo o sentido prazeroso de se construir juntosuma gesto pblica da escola, ela vai formatando a sua autonomia, semprerelativa. Autonomia aqui entendida como conquista (Pedro Demo) e no doaode algum para outro algum ou de uma instituio para outra.

    O envolvimento com satisfao num projeto qualquer e, principalmente, noprojeto poltico-pedaggico de uma escola, depende da criao de vrios espaose tempos para que ele acontea espaos e tempos para encontros, festas,reunies, confraternizaes, passeios, estudo etc e do estabelecimento de

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  • relaes democrticas, de confiana e de comprometimento com umplanejamento que vai se realizando e com o projeto que se pretende construir.Nesse sentido, estamos ao mesmo tempo realizando o planejamento da escola,que para ns significa um processo para evitar o improviso, prever o futuro,estabelecer caminhos que podem nortear mais apropriadamente a execuo daao educativa, especialmente quando garantimos a socializao do ato deplanejar3. Ao mesmo tempo em que planejamos, no deixamos de considerarque o nosso grande objetivo sermos alegres e felizes, porque o momento parasermos felizes agora. De acordo com um ditado ingls, lembrado por GeorgesSnyders (1988), o lugar para ser feliz aqui. Por isso dizemos sempre que aconstruo de uma Escola Cidad um processo pedaggico em si mesmo, poisao mesmo tempo em que antecipamos o futuro, estamos vivendo o presente.

    A criao, na escola, de uma ambincia democrtica e dialgica,gradualmente ascendente e mais ampla, que envolva a todos os segmentos nadefinio do seu projeto poltico-pedaggico e de sua proposta pedaggica, alteraa sua dinmica e o seu fazer cotidianos. Isto ressignifica o trabalho pedaggicopara professores, alunos e demais funcionrios que ali convivem diariamente eque vivenciam concretamente o currculo daquela instituio. Mas comocomear este trabalho? Uma possibilidade para alcanarmos este objetivo considerarmos a Escola como jardim. Para Moacir Gadotti, isto significa umaescola visualmente bonita, bem cuidada, festiva, alegre e feliz. Aqui j entramosna dimenso da segunda pergunta que anteriormente apresentamos, ou seja,como possvel tornar esta instituio realmente mais feliz? Nessa direo, sabercuidar (Boff) pressuposto inicial e bsico para a transformao e melhoria daescola que sonhamos e estamos construindo.

    Existem vrias formas de considerarmos a alegria na escola. O filsofoGeorges Snyders, j citado anteriormente, quer encontrar a alegria na escola

    no que ela oferece de particular, de insubstituvel e um tipo de alegria quea escola nica ou pelo menos a mais bem situada para propor: que seriauma escola que tivesse realmente a audcia de apostar tudo na satisfaoda cultura elaborada, das exigncias culturais mais elevadas, de umaextrema ambio cultural. (Snyders, p. 13)

    Esta dimenso da alegria que prope a transformao dos contedos culturais, sem dvida, fundamental que seja considerada. Mas vamos mais alm,pensando tambm nas alegrias da vida cotidiana, reconhecendo na culturaprimeira, como faz Snyders, o seu enorme valor, porque mobilizadora de outrasmanifestaes culturais. Ou seja, concordamos que a alegria no deve ficar nonvel do elementar, conforme afirma aquele autor, mas devemos necessariamentevivenci-las tambm, prazerosa e criticamente, para que possamos reinventar, nasomatria das diferentes culturas, a nossa prpria expresso cultural. Por isso

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  • defendemos, por exemplo, a criao na escola de espaos para as relaesinterculturais, que respeitam a diferena na convivncia direta e intensa delas,sem subordinao de uma cultura sobre a outra.4

    Entendemos que escola bem cuidada aquela onde convivem pessoas que,em primeiro lugar, cuidam-se enquanto seres humanos, individual ecoletivamente. Pessoas que se valorizam, que esto sempre ou quase sempremotivadas e que so capazes de se organizar em torno de desejos comuns. Quemgosta de freqentar uma escola suja, feia, depredada, pichada, com mal cheiro,cheia de muros e de grades? Que prazer sentimos em adentrar numa escola assim?Nesse sentido, sentir-se bem na escola exige inicialmente a preocupao com asua estrutura fsica, com a conservao das suas dependncias e diferentes espaoscomo o seu jardim, as suas possveis reas livres e reas esportivas para que alunos,professores e comunidade possam ocupar, freqentar e explorar prazerosa epedagogicamente. Quanto menos cimento melhor. E se a escola no conta comestes espaos, nestas condies, razo maior possui para que se dedique areivindic-los, a lutar por eles e, por conseguinte, a conquist-los. Nenhumaconquista ou mudana fundamental acontece gratuitamente, sem esforos, semluta e sem conflito. A est a dimenso poltica do ato educativo.

    Para alcanarmos os objetivos aos quais estamos nos referindo desde o inciodesta reflexo, uma proposta importante a realizao de Festas da EscolaCidad, entendidas como momentos de descontrao, de alegria, de encontro ede resgate da cultura popular, que podem se traduzir em atividadespotencializadoras de processos altamente pedaggicos. As festas podem favorecer,por exemplo, um trabalho contnuo de avaliao e de reconstruo do prprioprojeto de vida, de escola, de cidade ou de sociedade da equipe escolar, que convidada a refletir e a observar as diferenas pessoais, grupais ou institucionaisali presente. Demandas permanentes e espordicas da comunidade, dos jovensque esto dentro e fora da escola, tambm podem ser mobilizadas e registradasnas festas, o que facilita a aproximao da comunidade com a escola e melhoraas relaes pessoais e interpessoais, dentro e fora dela. Com isso, as festascontribuem com a criao de novos espaos relacionais, criativos e aprendentes,mais do que transmissores, reprodutivos e ensinantes.

    Nos referimos festa como a festa-do-povo, em que o povo dono de suafesta, nela se expressa livremente, (em que) sua condio de oprimido trabalhada pedagogicamente e so anunciadas possibilidades de uma vida queainda no existe (Ribeiro Jnior, Jorge Cludio Noel. A festa do povo pedagogiade resistncia. Petrpolis, Paulo, Vozes, 1982:42-43). A festa aqui entendidacomo ritual tradicional, de inculcao dos princpios pedaggicos elaboradospela cultura do povo e que forma um habitus-de-ser-povo(idem). Portanto, eladesenvolve uma certa pedagogia social, uma ao pedaggica no pasteurizada,

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  • um fazer solidrio no qual o povo encontra alternativas de soluo para os seusproblemas e que, portanto, nesse mecanismo social, se fortelece vivenciando asolidariedade, conforme as palavras do Prof. Jorge Cludio.

    Como se pode observar, estamos falando de uma educao que acredita naformao plena da pessoa e que por isso a respeita como tal e valoriza a culturadaqueles e daquelas que ajudam a transformar a sociedade em que vivem, porquesujeitos curiosos que significam e ressignificam as suas prticas cotidianas dereconstruo permanente do conhecimento.

    Cabe s redes ou aos sistemas municipal, estadual ou federal de ensino (ediramos, de aprendizagem), atualizarem-se enquanto organizaes democrticasque desejam viabilizar a transformao, a mudana das suas escolas. Por isso,precisam readequar as suas prprias estruturas, muitas vezes burocrticas. Ostempos e espaos escolares e pedaggicos passam a ser repensados com base nestanova lgica, a partir desta nova dialogia, que admite no mais uma nica formade organizao nem de aprendizagem e respeita o ritmo de cada pessoa, bemcomo o ritmo de cada escola.

    A escola tambm e sobretudo espao da amorosidade.

    A minha abertura ao querer bem significa a minha disponibilidade alegria de viver. Justa alegria de viver, que, assumida plenamente, nopermite que me transforme num ser adocicado nem tampouco num serarestoso e amargo. A atividade docente de que a discente no se separa uma experincia alegre por natureza (...) Ensinar e aprender no podemdar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria (Freire, Paulo.Pedagogia da Autonomia: saberes necessrios prtica educativa. So Paulo,Paz e Terra, 1997:160).

    A Escola Cidad mais amiga, companheira, bonita, alegre e prazerosa da qualestamos falando, est sendo construda e permanentemente reconstruda combase na ousadia, na criatividade, na vontade, no desejo e na ao poltica depessoas comprometidas com a educao do presente e do futuro, sujeitosconcretos e histricos que desafiam o imobilismo, que no se conformam diantedo descaso com a coisa pblica, que buscam sem cessar repensar as suas prpriasprticas e que so conscientes e crticos na sua cotidianeidade. Esta escola investe,como j dissemos, na educao permanente e continuada, consubstanciadanuma poltica de formao voltada para a prxis dos docentes e dos demaissegmentos escolares, j que todos necessitam de educao durante toda a vida,no s o professor, nem s a direo escolar ou as equipes tcnicas e pedaggicas.

    Sem recursos humanos, financeiros e materiais no se faz a Escola Cidad. Emuito menos sem deciso democrtica sobre a gesto desses recursos e semvontade poltica dos diferentes sujeitos que optam pela sua construo nos

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  • d i f e rentes nveis de deciso sobre poltica educacional. muito comumassistirmos s promessas de mudana de uma escola meritocrtica e excludente,para uma escola efetivamente democrtica e cidad, portanto includente. Adiferena entre as duas est, muitas vezes, tanto na dotao oramentria comona prpria metodologia utilizada para a definio do oramento. No primeirocaso, a deciso sobre o oramento geralmente centralizada e descendenteenquanto que, no segundo, ela descentralizada e ascendente. O que secostumou chamar de Movimento da Escola Cidad (IPF) contribui, justamente,para que fiquemos atentos a estas e a outras experincias, permitindo-nos avaliare refletir sobre elas nos seus xitos e avanos, como tambm sobre os seuseventuais fracassos e recuos.

    Uma outra idia fundamental nesse processo do movimento da escola cidad que estejamos sempre provocando o encontro da cultura com a comunicao,com o dilogo e, portanto com a educao. Superar a dicotomia educao formale informal. At porque a educao feita por grupos que esto dentro e fora daescola.

    Por outro lado, no sentido da avaliao anteriormente citada, que oConselho de Escola, o Conselho de Classe e o Grmio Estudantil se transformamem instncias articuladoras de todo este processo, mas no as nicas capazes dedecises democrticas. Nesta ao comunitria a escola acaba descobrindo novasorganizaes coletivas na comunidade, que j desenvolvem aes que vm aoe n c o n t ro daquelas propostas por esta instituio escolar democrtica eparticipativa quanto gesto, pblica e comunitria quanto destinao e estatalquanto ao financiamento. E completamos: bela, alegre e prazerosa quanto s suasvivncias e experincias.

    Falamos de uma escola viva, festiva, sria, tica e esteticamente ressignificada.Ela considera o conhecimento historicamente acumulado fundamental para ocrescimento do ser humano e possibilita a reviso tambm histrica, pelosdiversos sujeitos educacionais, com base nos contextos em que vivem, numadimenso local e ao mesmo tempo planetria. Por isso falamos de Ecopedagogia(Gutierrez), de Pedagogia da Terra (Gadotti), de Pedagogia da Sustentabilidade(Antunes), de Pedagogia do Encontro (Padilha) e da existncia de um CurrculoIntercultural na escola. esta a educao do futuro que j estamos praticando esolidariamente vivenciando.

    A Escola Cidad vive a experincia tensa da democracia (Paulo Freire) ecompartilha as diferentes emoes do encontro entre as pessoas, semprerespeitosa com a cultura delas, um respeito que integra e viabiliza a troca deexperincias, ao invs de isolar, afastar e apenas diferenciar. Uma escola ondeeducadoras e educadores, educandas e educandos, re j u ve n e s c e mpermanentemente na percepo, no contato e na troca de experincias com o

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  • outro, porque eternos aprendizes, sujeitos ao mesmo tempo individuais ecoletivos, a favor de uma escola criativa, ousada, democraticamente organizada. uma escola de comunidade e de companheirismo, como afirmou PauloFreire. uma instituio escolar, por isso mesmo, integrada e inteirada com a suacomunidade, com a sua cidade, com o seu pas, com o mundo em que vive: porisso uma escola movimentada, cheia de eventos, de encontros, de gente que queraprender e ensinar de forma dinmica e feliz.

    Escola do encontro, do dilogo comunicativo e interativo entre as pessoasque, juntas, reconstroem no cotidiano a sociedade que todos buscamos: maisjusta, solidria, ativa, participativa, alegre, dinmica e esperanosa porque possuium projeto de mudana que visa emancipao humana e a retomada dorespeito natureza e a todas as formas de vida existentes no planeta.

    Como comear esta transformao na escola, visando ao seu projeto poltico-pedaggico? Invertendo o que geralmente tem sido proposto, um caminhopossvel iniciarmos organizando e provocando os diferentes encontros evivncias na escola, aos quais j nos referimos. De acordo com o ritmo de cadaunidade escolar e de cada comunidade. Respeitando o seu tempo e o seu espao,a sua experincia e o seu sonho, incentivando a realizao das festas populares naescola e as diferentes manifestaes artsticas, sejam elas manifestaes culturaisou ento processos de educao e formao continuada (tipo oficinas). Eventostais como festivais de msica, festas populares, potencializando na escola e nacomunidade, por exemplo, teatro crtico, grupos folclricos, manifestaes dacultura local, trazendo a comunidade para dentro da escola,, reunies dediscusso dos problemas do bairro, chamamento de todos a contribuir com amelhoria da qualidade de vida e do ambiente em que vivemos, realizar mutiresde limpeza, de coleta e seleo do lixo, construir jardins e hortas na escola e nacomunidade, trabalhar com projetos de vida, com os ciclos de vida, criarsituaes de encontro e de mobilizao comunitria, incentivar cursos na escolademandados pela comunidade e patrocinados pelo Estado em parceria com aSociedade Civil etc.

    E ao vivenciarmos estas e outras experincias, realizarmos processualmente asistematizao das mesmas, para que possamos contar e registrar, de formasimples, o vivido. Ou seja, durante e depois do fazer, escrevermos sobre aexperincia, de forma bem simples, descritiva, tentando responder basicamentea algumas perguntas, tais como: O que, com quem e como nos organizamos parafazer o que fizemos? O que foi mais fcil ou mais difcil? O que planejamos e noconseguimos fazer? Por qu? O que no planejamos e acabamos fazendo? Quaisos conflitos que vivenciamos? Quais os avanos e eventuais retrocessos? O queaprendemos e o que ensinamos? E, fundamentalmente, quais as descobertas maissignificativas da experincia, quais os problemas que precisamos enfrentar e

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  • resolver, o que desconhecamos na comunidade que agora j sabemos? Quais assensaes, as emoes? O que deu mais prazer e mais medo? E comoconseguimos superar as dificuldades e os problemas surgidos? Quais os nossosmaiores xitos? O que devemos fazer de novo e o que no vale pena repetir?

    Ao respondermos s questes acima, estaremos tambm nos preparando paraa escrita do projeto poltico-pedaggico da escola e reunindo elementosconcretos, contextualizados e sobretudo vivenciados sobre como est a nossaescola, como est relao da escola com a comunidade, o que precisamos mudarpara melhorar a escola, de que mundo queremos fazer parte, que mundo e queescola queremos para ns, para os nossos filhos e para as futuras geraes? A,sim, teremos dado os passos iniciais e criado as condies para a definio dosprincpios, das diretrizes e das propostas de ao do nosso projeto de escola, decidade, de sociedade e de mundo. Teremos nas mos, no corao e na mentematria-prima suficiente para a construo de uma Escola Cidad que catalisadora da vida social e, portanto, mais bela, alegre e prazerosa.

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  • BIBLIOGRAFIA

    Antunes, ngela 2002 e Aceita um Conselho? Como organizar o colegiadoescolar (So Paulo: Cortez/Instituto Paulo Freire).Antunes, ngela 2002 L e i t u ra do Mundo no contexto da planetarizao: por umapedagogia da Su s t e n t a b i l i d a d e. Tese de doutoramento. So Paulo, FE-USP, 2002.Antunes, ngela & Padilha, Paulo Ro b e rto Projeto poltico-pedaggico, leitura domundo e a festa da escola cidad (So Paulo: Instituto Paulo Fre i re) Mi m e o. 13.Boff, Leonardo 1999 Saber cuidar: tica do humano, compaixo pela terra(Petrpolis: Vozes).Demo, Pedro 2000 Saber Pensar (So Paulo: Cortez/IPFD).Freire, Paulo 1997 Pedagogia da Autonomia: saberes necessrios prticaeducativa (So Paulo: Paz e Terra).Gadotti, Moacir 1995 Pedagogia da Prxis (So Paulo: Paz e Terra).Gadotti, Moacir 2000 Pedagogia da Te r ra (So Paulo: Ed. Fundao Pe i r p o l i s ) .Gadotti, Moacir & ROMO, Jos Eustquio 1997 (Org.) Autonomia daEscola: princpios e propostas (So Paulo, Cortez/Instituto Paulo Freira). Gutierrez, Francisco & Prado, Cruz Ecopedagogia e cidadania planetria (SoPaulo: Cortez/Instituto Paulo Freire).Padilha, Paulo Roberto 2002 Pedagogia do Encontro: relaes interculturais naescola. Tese de doutoramento (em andamento) (So Paulo: Faculdade deEducao da USP, 1999-2002).Padilha, Paulo Roberto 2001 Planejamento dialgico: como construir o projetopoltico-pedaggico da escola (So Paulo: Cortez/Instituto Paulo Freire).Ribeiro Jnior, Jorge 1982 Cludio Noel. A festa do povo pedagogia deresistncia (Petrpolis, Paulo: Vozes).Snyders, Georges 1988 A alegria na escola (So Paulo: Ed. Manole).

    NOTAS1 Me s t re e Doutorando da Faculdade de Educao da USP, diretor pedaggicoe coordenador do Movimento da Escola Cidad do Instituto Paulo Fre i re. 2 Conforme Snyders, Georges. A alegria na escola. So Paulo, Ed. Manole,1988:14).3 Conforme Padilha, Paulo Roberto. Planejamento dialgico: como construir oprojeto poltico-pedaggico da escola. So Paulo, Cortez/IPF, 2001:45).4 Mas esta uma outra discusso, que estamos fazendo em nossa tese dedoutoramento intitulada provisoriamente de Pedagogia do En c o n t ro :relaes interculturais na escola (FE-USP, 1999-2002), que noconseguiramos aprofundar nos limites destas pginas.

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