uma escola mais bela, alegre e prazerosa

Download UMA ESCOLA MAIS BELA, ALEGRE E PRAZEROSA

Post on 07-Feb-2017

227 views

Category:

Documents

4 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • UMA ESCOLA MAIS BELA,ALEGRE E PRAZEROSA

    PAULO ROBERTO PADILHA1

    Anecessria promoo da ingenuidade criticidade no pode ou nodeve ser feita a distncia de uma rigorosa formao tica ao ladosempre da esttica. Decncia e boniteza de mos dadas.

    Transformar a experincia educativa em algo puramente tcnico amesquinhar o que h de mais fundamentalmente humano noexerccio educativo: o seu carter formador.

    O exerccio da curiosidade convoca a imaginao, a intuio, asemoes, a capacidade de conjeturar, de comparar, na busca daperfilizao do objeto ou do achado de sua razo de ser. Um rudo, porexemplo, pode provocar minha curiosidade.

    Paulo Freire, 1997

    A razo nos d a capacidade da anlise, enquanto o corao a departicipar.

    Coisas to fundamentais como a felicidade no encontram eco maiorna cincia, mas podem ser realadas e realizadas pela sensibilidade flor da pele, capaz de emprestar ao ser humano dimenso muito maisampla e solidria.

    Ao mesmo tempo, a arte liga-se cultura e, como patrimnio histrico,guarda sempre o sentido profundo do cuidar em torno das identidades(...)

    Arte e cultura so, em si mesmas, provas definitivas da mudana, dacapacidade de aprender, mas no se descolam da histria, do lugar, doc o n t e x t o. Mal entendidas, podem puxar parar trs, mas, bementendidas, iluminam o futuro e mantm o humano.

    Pedro Demo, 2000

    83

  • A o pensarmos na Escola Cidad visualizamos diretamente a possibilidade deconstruirmos ou de reconstruirmos uma instituio educacional mais bela,alegre, prazerosa, feliz, democrtica, participativa e autnoma. Mas logo surgemduas questes que precisamos responder. A primeira, refere-se a como evitar oequvoco de falarmos em escola democrtica e participativa apenas com a criaode Colegiados Escolares. Perguntamo-nos, por exemplo, como o Conselho deEscola (CE) este colegiado normalmente formado por representantes de todosos segmentos da comunidade escolar, que decide sobre aspectos pedaggicos,administrativos, financeiros e comunitrios da escola pode contribuir para aautonomia da escola. A outra pergunta sobre quais seriam as caractersticas daEscola Cidad que nos permitem afirmar que ela uma escola mais bela, alegree prazerosa e como isso pode influenciar na construo do seu projeto poltico-pedaggico.

    Em relao primeira questo, o Professor Moacir Gadotti, em seu livrointitulado Pedagogia da Prxis (1995), afirma que o Conselho de Escola no podeser o nico instrumento de democratizao na escola e deve estar inserido numplano estratgico mais amplo. Um plano que, poderamos completar, incluiria,por exemplo, a eleio direta do dirigente escolar mediante o acompanhamentoefetivo da sua comunidade para que evitemos que esta proposta se torne umprocesso viciado e que se transforme em mais uma mscara democrtica naescola. Outra pergunta diretamente relacionada a esta a de como viabilizarnuma rede ou num sistema municipal, estadual ou federal de ensino a gestodemocrtica efetivamente participativa? Algumas respostas a estas questes, queabaixo sintetizamos, apresentam-se nas obras sobre as quais nos fundamentamos.Veja-se, por exemplo, o livro organizado por Moacir Gadotti e Jos EustquioRomo, intitulado Autonomia da Escola: princpios e propostas (So Paulo,Cortez/IPF, 1997), alm dos livros Planejamento dialgico: como construir op rojeto poltico-pedaggico da escola ( Padilha, Paulo Ro b e rt o. So Pa u l o ,Cortez/IPF, 2001) e Aceita um Conselho? Como organizar os colegiados escolares(Antunes, ngela. So Paulo, Cortez/IPF, 2002).

    Criar Conselhos de Escola no basta. Nem tampouco supor que elesfuncionaro por si s, independentemente da criao de outros espaos departicipao e de convivncia na escola, relacionados sobretudo ao trabalhopedaggico nela desenvolvido. Da mesma maneira que institucionalizar, porexemplo, a eleio de diretores, no garante por si s a mudana de prticasautoritrias, anti-democrticas e centralizadoras, que inviabilizam uma gesto daescola mais democrtica, aberta e coletiva da escola.

    Entendemos que institucionalizar o Conselho de Escola um passoimportante, mas precisa ser uma medida acompanhada de aes concretas tantoda escola quanto das redes ou sistemas de educao. Isso significa a necessidade

    84

    LECCIONES DE PAULO FREIRE, CRUZANDO FRONTERAS

  • da definio de uma agenda permanente de formao e de valorizao dasiniciativas dos membros deste e dos outros colegiados escolares GrmioEstudantil (GE) e Conselhos de Classe (CC), por exemplo. Pouco adiantaformar sem criar as condies concretas para apoiar o trabalho dos mesmos. Seisso acontece, as propostas de ao desses colegiados so frustradas e, ao invs dec o n t r i b u rem para transformar e potencializar novas iniciativas, acabamdesanimando e criando um clima de pessimismo na escola, que s aumenta asresistncias, o desnimo e as desistncias, sempre presentes num processo demudana.

    Formar os membros desses colegiados para estruturar e conhecer, por dentro,como funciona a escola e os prprios conselhos, significa convidar e noconvocar para o envolvimento e para a convivncia com os mesmos. E umprimeiro cuidado a se ter para viabilizar este processo, procurar trabalhar nadimenso de uma organizao que se preocupe em garantir a satisfao doenvolvimento, porque sem prazer ningum se envolve efetivamente. A gestodemocrtica s acontece dentro da tica do companheirismo, tica esta queimplica na relao interpessoal, dialgica e solidria. Conforme nos fala GeorgesSnyders ousar proclamar a escola, o que eu ousaria chamar, s vezes, de minhaescola, como lugar de satisfao, a escola partindo para a conquista dasatisfao2

    muito difcil trabalhar com algum que se sente obrigado a comparecer eque no sinta prazer em estar presente. Certamente existem muitas obrigaes aserem cumpridas e limites que devem ser estabelecidos dentro da instituioescolar, mas num processo de formao, no qual se pretende orientar os diversossegmentos para o exerccio da democracia ativa, visando a uma ao articuladacom a comunidade escolar, interna e externa, muito melhor trabalhar naperspectiva da satisfao e co-responsabilidade com a elaborao do nossoprojeto do que com a idia de que somos todos obrigados a realizar e aparticipar do projeto da escola.

    Quando a escola consegue criar, aos poucos, uma ambincia favorvel aotrabalho coletivo, alcanada atravs do esforo democrtico e criativo, em que asatribuies de cada segmento escolar so claramente compreendidas por todosporque todos vo compreendendo o sentido prazeroso de se construir juntosuma gesto pblica da escola, ela vai formatando a sua autonomia, semprerelativa. Autonomia aqui entendida como conquista (Pedro Demo) e no doaode algum para outro algum ou de uma instituio para outra.

    O envolvimento com satisfao num projeto qualquer e, principalmente, noprojeto poltico-pedaggico de uma escola, depende da criao de vrios espaose tempos para que ele acontea espaos e tempos para encontros, festas,reunies, confraternizaes, passeios, estudo etc e do estabelecimento de

    85

    PAULO ROBERTO PADILHA

  • relaes democrticas, de confiana e de comprometimento com umplanejamento que vai se realizando e com o projeto que se pretende construir.Nesse sentido, estamos ao mesmo tempo realizando o planejamento da escola,que para ns significa um processo para evitar o improviso, prever o futuro,estabelecer caminhos que podem nortear mais apropriadamente a execuo daao educativa, especialmente quando garantimos a socializao do ato deplanejar3. Ao mesmo tempo em que planejamos, no deixamos de considerarque o nosso grande objetivo sermos alegres e felizes, porque o momento parasermos felizes agora. De acordo com um ditado ingls, lembrado por GeorgesSnyders (1988), o lugar para ser feliz aqui. Por isso dizemos sempre que aconstruo de uma Escola Cidad um processo pedaggico em si mesmo, poisao mesmo tempo em que antecipamos o futuro, estamos vivendo o presente.

    A criao, na escola, de uma ambincia democrtica e dialgica,gradualmente ascendente e mais ampla, que envolva a todos os segmentos nadefinio do seu projeto poltico-pedaggico e de sua proposta pedaggica, alteraa sua dinmica e o seu fazer cotidianos. Isto ressignifica o trabalho pedaggicopara professores, alunos e demais funcionrios que ali convivem diariamente eque vivenciam concretamente o currculo daquela instituio. Mas comocomear este trabalho? Uma possibilidade para alcanarmos este objetivo considerarmos a Escola como jardim. Para Moacir Gadotti, isto significa umaescola visualmente bonita, bem cuidada, festiva, alegre e feliz. Aqui j entramosna dimenso da segunda pergunta que anteriormente apresentamos, ou seja,como possvel tornar esta instituio realmente mais feliz? Nessa direo, sabercuidar (Boff) pressuposto inicial e bsico para a transformao e melhoria daescola que sonhamos e estamos construindo.

    Existem vrias formas de considerarmos a alegria na escola. O filsofoGeorges Snyders, j citado anteriormente, quer encontrar a alegria na escola

    no que ela oferece de particular, de insubstituvel e um tipo de alegria quea escola nica ou pelo menos a mais bem situada para propor: que seriauma escola que tivesse realmente a audcia de apostar tudo na satisfaoda cultura elaborada, das exigncias culturais mais elevadas, de umaextrema ambio cultural. (Snyders, p. 13)

    Esta dimenso da alegria que prope a transformao dos contedos culturais, sem dvida, fundamental que seja considerada. Mas vamos mais alm,pensando tambm nas alegrias da vida cotidiana, reconhecendo na culturaprimeira, como faz Snyders, o seu enorme valor, porque mobilizadora de outrasmanifestaes culturais. Ou seja, concordamos que a alegria no deve ficar nonvel do elementar, conforme afirma aquele autor, mas devemos necessariamentevivenci-las tambm, prazerosa e criticamente, para que possamos reinventar, nasomatria das diferentes culturas, a nossa prpria expresso cultural. Por isso

    86

    LECCIONE