trançando a palha de trigo: uma experiência associativista ?· 7 trançando a palha de trigo:...

Download Trançando a palha de trigo: uma experiência associativista ?· 7 Trançando a palha de trigo: uma…

Post on 30-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 7

    Tranando a palha de trigo: uma experincia associativista

    Onlia Maria Manenti*

    Sueli Vieira Sarmento Bernardi**

    Eliane Salete Filippim***

    Adriana Marques Rossetto****

    Jos Elmar Feger*****

    Resumo

    Partindo da premissa de que o associativismo consiste em importante estra-tgia para o desenvolvimento sustentvel, o objetivo central deste artigo o de descrever uma experincia de associativismo com base no artesanato em palha de trigo em curso no Meio-Oeste de Santa Catarina. Quanto aos procedimentos metodolgicos, esta pesquisa define-se como qualitativa, por adotar multimtodos para a coleta de dados: a entrevista, o relato histrico e a observao direta. A anlise do caso teve duas frentes de investigao: a bibliogrfica e a pesquisa de campo. No que se refere pesquisa de campo, alguns princpios da pesquisa etnogrfica foram utilizados. O artigo inicia com uma apresentao bibliogrfica sobre desenvolvimento e redes; em se-

    * Especialista em Gesto de Pessoas e MBA em Gesto Estratgica de Empresas pela Universidade do Oeste de Santa Catarina e Analista Tcnica do Sebrae/SC; Rua Getlio Vargas, 311, Centro, 89600-000, Joaaba, SC; onilia@sc.sebrae.com.br

    ** Especialista em Gesto de Programas e Projetos e Gesto Estratgica de Empresas pela Universidade Estcio de S e Universidade do Oeste de Santa Catarina, Coordenadora Regional do Sebrae/SC; sueli@sc.sebrae.com.br

    *** Doutora em Engenharia de Produo e Sistemas pela Universidade Federal de Santa Catarina; profes-sora da Universidade do Oeste de Santa Catarina; eliane.filippim@unoesc.edu.br

    **** Doutora em Engenharia de Produo pela Universidade Federal de Santa Catarina; Coordenadora do Pro-grama de Mestrado Profissionalizante em Gesto de Polticas Pblicas da Univali; arossetto@univali.br

    ***** Mestre em Desenvolvimento Regional pela Fundao Universidade Regional de Blumenau; doutoran-do em Desenvolvimento Regional pelo Programa de Ps-graduao em Desenvolvimento Regional da Universidade de Santa Cruz do Sul; professor da Universidade do Oeste de Santa Catarina; joseelmar.feger@unoesc.edu.br

    RACE, Unoesc, v. 8, n. 1, p. 7-32, jan./jun. 2009

  • Onlia Maria Manenti et al.

    RACE, Unoesc, v. 8, n. 1, p. 7-32, jan./jun. 20098

    guida so apresentados dados contextuais da AMMOC, relato da experincia e os resultados da pesquisa. Por fim, so apresentadas algumas considera-es acerca da experincia da constituio dessa articulao associativista na Regio Meio-Oeste catarinense. Alm da gerao de renda, o processo de constituio de uma associao deve ser visto como estratgia de desenvol-vimento socioeconmico que pode contribuir para alavancar o desenvolvi-mento de uma regio.Palavras-chave: Associativismo. Artesanato. Desenvolvimento. Rede.

    1 INTRODUO

    Em um contexto de debates acerca da promoo do desenvolvimento sustentvel, buscou-se, neste artigo, apresentar e analisar uma experincia de constituio de uma rede que articula artesos que trabalham com palha de trigo na regio do Meio-Oeste catarinense. A regio se caracteriza por uma economia voltada agroindstria, sobretudo de aves e sunos. Ape-sar do crescimento econmico gerado por essa atividade, no se produziu desenvolvimento sustentvel, uma vez que graves problemas ambientais, desigualdade social e forte xodo rural agravam a situao de disparidades inter-regionais. Muitas vezes, desenvolvimento confundido com cresci-mento econmico, que depende do consumo crescente de energia e recursos naturais. Esse tipo de desenvolvimento tende a ser insustentvel, pois leva ao esgotamento dos recursos naturais dos quais a humanidade depende. Diante desse quadro de necessidade em promover melhores ndices de de-senvolvimento, no estado de Santa Catarina (Brasil), as microrregies ad-ministrativas implantaram, por iniciativa da sociedade civil, Agncias de Desenvolvimento Regional (ADRs) ao longo da dcada de 1990. Trata-se de uma rede de parcerias sociais que congrega entidades pblicas e privadas, com o objetivo de somar esforos para gerar desenvolvimento.

    Nesse sentido, por iniciativa de lideranas regionais e do poder pblico, em 1998 foi implantado no Meio-Oeste catarinense um Frum de desenvol-vimento que buscou formar parcerias capazes de superar os limites restritos do municpio e propor alternativas de desenvolvimento que integrassem a

  • Tranando a Palha de Trigo: uma experincia associativista

    RACE, Unoesc, v. 8, n. 1, p. 7-32, jan./jun. 2009 9

    comunidade regional. O Frum implantou em 2002 sua agncia executiva, a Agncia de Desenvolvimento do Meio Oeste Catarinense (ADMOC). Essa agncia, em diagnstico realizado, detectou como uma das alternativas para o desenvolvimento regional, o resgate e incremento do artesanato em palha de trigo por meio da articulao de uma rede de artesos que atuam em tal atividade (AGNCIA DE DESENVOLVIMENTO DO MEIO OESTE CATARI-NENSE, 2002). Com base nesse diagnstico, desenvolveu-se, em uma Uni-versidade Comunitria da regio, uma pesquisa de iniciao cientfica que teve como objetivo mapear o artesanato de palha de trigo ainda remanescen-te, bem como os mestres desse ofcio e as possibilidades de sua associao para produzir, em escala que permitisse gerao de renda. Este artigo objeti-va a apresentao e anlise dessa experincia de artesanato em palha de trigo e discute como ocorreu o processo de organizao de uma rede nesse setor.

    Quanto aos procedimentos metodolgicos, esta pesquisa define-se como qualitativa, por adotar multimtodos para a coleta de dados: a entre-vista, o relato histrico e a observao direta, conforme Godoy (1995). O mtodo utilizado foi o estudo de caso, que de acordo com Yin (2001, p. 32), uma [...] investigao emprica que investiga um fenmeno contempor-neo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenmeno e o contexto no esto claramente definidos. A anlise do caso teve duas frentes de investigao: a bibliogrfica e a pesquisa de campo. No que se refere pesquisa de campo, o mtodo utilizado foi o da pesquisa etnogrfica, que, segundo Fetterman (apud GODOY, 1995, p. 28), pode ser entendida como [...] a arte e a cincia de descrever uma cultura ou grupo. A pesquisa etnogrfica abrange a descrio dos eventos que ocorrem na vida de um grupo (com especial ateno para as estruturas sociais e o comportamento dos indivduos como membros do grupo) e a interpretao do significado desses eventos para o grupo.

    A pesquisa teve uma coleta de dados em 2002, quando se fez um diagnstico de quantos artesos existiam na regio e qual o seu grau de interesse em participar de uma iniciativa associativista de artesanato. Uma segunda coleta de informaes ocorreu em 2008, por meio de entrevistas semiestruturadas com nove sujeitos, sendo seis artess lderes dos ncleos produtores do artesanato em palha de trigo, dois atores envolvidos no pro-

  • Onlia Maria Manenti et al.

    RACE, Unoesc, v. 8, n. 1, p. 7-32, jan./jun. 200910

    jeto e um tcnico que fornece assistncia ao projeto. Os dados foram anali-sados em relao aos pontos relevantes para a compreenso da experincia como espao associativista.

    O processo de constituio da rede teve incio em 2005, com a ins-talao de um ncleo produtor da matria-prima, com produtores rurais de Catanduvas e gua Doce; seis ncleos produtores do artesanato, com sede nos municpios de gua Doce, Capinzal, Catanduvas, Joaaba, Luzerna e Ouro e um ncleo de armazenagem da matria-prima, em Luzerna. Somente em novembro de 2006 foi concluda a constituio da associao, com a inaugurao do ncleo administrativo, central de vendas e uma loja.

    O artigo inicia com uma apresentao bibliogrfica sobre desenvolvi-mento e redes, para, em seguida, serem apresentados dados contextuais da regio da AMMOC, relato da experincia e os resultados da pesquisa que foram analisados seguindo pontos considerados, pela literatura, importantes a experincias associativistas ligadas ao desenvolvimento:

    articulao e envolvimento dos parceiros locais na elaborao do a) projeto;etapas da implementao do projeto;b) estrutura organizacional;c) desenvolvimento de produtos de matriz cultural e ecologicamente d) sustentveis;questes de acesso ao mercado; e) a participao dos artesos.f)

    Por fim, so apresentadas algumas consideraes acerca da experin-cia da constituio de uma rede na Regio Meio-Oeste catarinense.

    2 A FORMAO DE REDES COMO ESTRATGIA PARA O DESENVOLVIMENTO REGIONAL

    Pensar o desenvolvimento uma tarefa difcil que tem instigado aca-dmicos e agentes polticos ao longo do tempo. Contudo, para alm da re-

  • Tranando a Palha de Trigo: uma experincia associativista

    RACE, Unoesc, v. 8, n. 1, p. 7-32, jan./jun. 2009 11

    flexo terica, h que se alcanar [...] meios de se passar dos conceitos ao concreta. (SACHS, 1994, p. 47). Esse movimento da reflexo para a prtica requer o conhecimento da realidade sobre a qual se quer fazer a interveno e considervel esforo em [...] pesquisa das razes endgenas dos modelos de modernizao. (SACHS, 1994, p. 53).

    A definio de uma regio no neutra ou natural. resultado de um processo, nem sempre pacfico, de construo de laos e interesses (BOUR-DIEU, 1988). O que caracteriza uma determinada regio so alguns traos de identidade comuns construdos no processo de definio de suas frontei-ras. O fato de a regio do Meio-Oeste catarinense ser constituda pelos atu-ais treze municpios resulta de uma srie de opes, negociaes, incluses e excluses, consequncia de relaes sociais construdas na sua trajetria histrica. A definio das fronteiras dessa regio no esttica, est em contnua mudana.

    Um territrio pode ser desenvolvido desde que adote estratgias sus-tentveis para as atuais e futuras geraes. Nesse sentido, projetos que con-templem o resgate da cultura regional, que gerem renda, formem o asso-ciativismo, preservem o meio ambiente e busquem superar as disparidades cidade/campo, acabam por atender a critri