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Roberto Gomes Camacho

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  • 1. SOC/OLINGUISTICA PARTE II Roberto Gomes Camacho 1.0 QUE SOCIOLINGSTICA?Dizer que a Sociolingustica trata da relao entre lngua e sociedade fazer uma afirmao correta, mas, ao mesmo tempo, excessivamente simplificadora. As ltimas trs dcadas assistiram ao interesse cada vez mais crescente pelo estudo da linguagem em uso no contexto social, mas os diversos enfoques que se abrigam sob o rtulo Sociolingiistica cobrem uma grande variao de assuntos, merecendo, por isso, uma delimitao. o que passamos inicialmente a fazer. Uma das reas de estudos lida com fatores sociais em grande escala, associados linguagem, como decadncia e assimilao de lnguas minoritrias, desenvolvimento de bilinguismo em naes socialmente complexas, planejamento lingustico em naes emergentes. Esse tipo de enfoque, comumente denominado Sociologia da Linguagem, , na realidade, um ramo das cincias sociais, na medida em que encara os sistemas lingusticos como instrumentais em relao s instituies sociais. Outra rea de estudos, a Etnografia da Comunicao, interessa-se em descrever e analisar as formas dos "eventos de fala", especificamente, as regras que dirigem a seleo que o falante opera em funo dos dados contextuais relativamente estveis, como a relao que ele contrai

2. IIiiiK.AO A IINUHMICA melancias do proiilm i i i d i i . iis rogras que diri'. LI i i mi. i.u, . K I verbal em curso. Esses i'n' da i H M i..!,.i, tm-se abrigado recentei . i . l . i '..-. iiiliiiffiifxtica Interacional1.! 11 MI K .< (|iu- |)odemos chamar apropriadamente de . .in,i, t, 'ia M,i, (|iio pretendemos desenvolver aqui: nesse enfoque, i . im n i . MI no contexto social to importante para a soluo de l'i ' i i 11' m i 1'Mipnos da teoria da linguagem, que a relao entre lngua e socieihuli i c In .u .ida c orno indispensvel, no mero recurso interdisciplinar. Como a linj-.imgcm , em ltima anlise, um fenmeno social, fica claro, para um lOCiollngtiista, que necessrio recorrer s variaes derivadas do contexto social para encontrar respostas para os problemas que emergem da variao inerente ao sistema lingustico. Tendo separado a Sociolingstica Variacionista (doravante Sociolingustic) de outras reas afins, resta-nos discutir, agora, como essa abordagem v a relao entre a estrutura lingustica e a social. Para incio de conversa, dois falantes de uma mesma lngua ou variedade dialetal dificilmente se expressam exatamente do mesmo modo, assim como um nico falante raramente se expressa da mesma maneira em duas diferentes circunstncias de comunicao. Sendo assim, o que a Sociolingstica faz correlacionar as variaes existenles na expresso verbal a diferenas de natureza social, entendendo cada domnio, o lingustico e o social, como fenmenos estruturados e regulares. Se um falante enuncia o verbo "vamos" como [vmus] e outro falante o enuncia como | v. n i ui |, podemos afirmar, com base nos postulados da Sociolingstica, que essa variao na fala no o resultado aleatrio de um uso arbitrrio e inconse( | i n nic dos falantes, mas um uso sistemtico e regular de uma propriedade inei i me aos sistemas lingusticos, que a possibilidade de variao. essa regulai iil.it l< c sistematicidade que passaremos a demonstrar. l Ima observao pouco acurada dos usos que se fazem de uma lngua em HM i , . M , comuns de interao poderia levar deduo equivocada de que a Impi.ip-in cm uso uma espcie de caos, uma terra de ningum sujeita ao uso iii l MI i,n 10 ile seus recursos. Uns falam, por exemplo, "Voc leu os livros?". i i i | M . u i i o outros manifestam exatamente o mesmo contedo empregando umal A I-NHC propsito, ver em Ribeiro & Garcez (1998) uma coletnea de textos representativos dessa i r i i i r i n r n l r organizada e publicada no Brasil.SOCIOLINGSTICA: parte 251forma de expresso como "Voc leu os livro?". Como possvel abarcar esses dois enunciados alternativos e igualmente disponveis seleo do falante, numa explicao lingustica coerente e sistemtica? De um ponto de vista lingustico, que o que sempre interessa, mesmo que se estenda a anlise a fatores sociais, comparemos a variao entre ausncia e presena de segmentos sonoros, como o fonema /s/, ora pronunciado s, ora pronunciado z, caracterizado como fricativa alveolar. Para simplificar, simbolizemos a presena desse elemento sonoro como /s/ e sua ausncia como [0]. A variao entre /s/ e [0] pode aparecer marcando o plural em "os livros/ os livro" e em outros tantos substantivos comuns da lngua portuguesa, como "os meninos/os menino", e pode aparecer tambm em nomes prprios, como "Carlos/ Cario", em que ele no marca plural, embora possa ser tambm eliminado. O mesmo segmento sonoro final, a fricativa alveolar [s], pode aparecer, por outro lado, em outras palavras, como "anans", "arroz" etc., sem que seja jamais eliminado. Afinal de contas, ouvir algo como "o anan", "o arr" algo simplesmente impensvel na lngua portuguesa, embora no o seja ouvir algo como "os menino". Nem preciso ser especialista para verificar que as condies da variao, que no caso fonolgica ou sonora, no esto sujeitas ao acaso, nem ao livre arbtrio do falante. Muito pelo contrrio, acham-se fortemente marcadas por motivaes emanadas do prprio sistema lingustico que o falante constrangido a seguir sem escolha. Vejamos por qu. Selecionar uma palavra com a ausncia ou a presena de uma fricativa alveolar depende de estar esse segmento numa slaba tona final, como em "livros", "meninos" e "Carlos". J o simples fato de incidir sobre uma slaba tnica, como em "anans", impede a variao entre /s/ e [0], embora esse contexto seja condio para outros processos, como a insero ou no da semivogal antes da fricativa alveolar, o que forneceria casos como "ananais", "arroiz" etc. Esses exemplos poderiam ser questionados com o argumento de que, nas condies a que a variao est sujeita, como a posio de slaba tona final para a alternncia [s] e [0], o caos se instala na lngua, j que o espao privilegiado para o falante agora exercer livremente o arbtrio. Contra-argumentemos tambm contra essa objeo e a prpria lngua aqui novamente o depsito onde se buscam os melhores dados. Observe-se, por exemplo, a diferena entre "meninas" e "Carlos", numa sentena como "Carlos enganou as meninas na troca de figurinhas". Observando-se a forma de "Carlos" em comparao com a de "as meninas", deduz-se que seria muito mais natural que os falantes eliminassem mais a fricativa alveolar | s | do nome prprio que a do nome comum de "as meninas". De um ponto de 3. INTRODUO LINGUSTICA52vista morfolgico, o [s] final de "Carlos" no exerce funo alguma, j que no passa de um segmento fonolgico que, juntamente com os demais, constitui a forma da palavra em questo. J no se pode dizer o mesmo do [s] do substantivo "meninas" de "as meninas": trata-se do mesmo segmento fonolgico que, coincidentemente aqui, constitui sozinho a marca gramatical de plural, conforme a segmentao menina-s. Esses dados mostram que a variao entre [s] e [0] apresenta diferentes estatutos nos dois casos: se o segmento fonolgico manifesta um valor semntico, como a pluralidade que se deseja veicular ao interlocutor, mais lgico que se mantenha integralmente sua forma de expresso; trata-se de um processo que incide sobre o sistema gramatical da lngua. , por conseguinte, mais natural que a incidncia de variao na fricativa [s] em finais tonos de palavras seja estatisticamente maior nas palavras em que o processo de variao s fonolgico do que naquelas em que afeta o sistema gramatical. No entanto, as motivaes do sistema lingustico impedem mais uma vez que essa correlao se estabelea de modo absoluto no uso real. Ocorre que a categoria de nmero redundantemente marcada no sintagma nominal em portugus, mediante uma regra sinttica de concordncia: assim, em termos informacionais, tanto faz dizer, por um lado, "Carlos" ou "Cario" quanto, por outro, dizer "os meninos espertos" ou "os menino esperto"; neste sintagma nominal complexo, o valor de pluralidade j est assegurado no primeiro constituinte de modo que os demais podem prescindir dessa marcao.TABELA 1.1 Presena do /s/ marcador de plural de acordo com a posio da palavra no sintagma nominal Informantes escolarizados53SOCIOLINGSTICA: parte 2Evidncias estatsticas mostram que a posio inicial de sintagmas nominais no plural , de longe, a preferida para o emprego da variante [s], sendo as demais as preferidas para o uso de [0]. Observe a Tabela 1.1. Os dados da Tabela l. l mostram que o sistema lingustico do portugus falado se reorganizou, elegendo a primeira posio do sintagma nominal para bloquear o avano do processo fonolgico de eroso das consoantes em posio de slaba tona final e preservar a funo morfolgica de indicao de pluralidade do segmento sonoro /s/. A frequncia com que os falantes eliminam a fricativa, quando exercendo marca de plural em sintagmas nominais, como "os meninos espertos", obedece a regras impostas novamente pelo sistema lingustico, em termos do esforo do falante pela manuteno das funes semnticas veiculadas pelas categorias gramaticais. Uma comparao com o espanhol ser um tanto til para se entender o alcance desse princpio funcional. "O menino" se traduz, em espanhol, por "el nino" (expresso, alis, j um tanto saturada ultimamente em virtude da atuao do renomado efeito de correntes trmicas no Pacfico). Em espanhol, o artigo no plural "los"; da, "los ninos" traduz "os meninos". Comparado com o singular "el nino", a ausncia de [s], mesmo no artigo "los", mantm a integridade da informao de nmero no sintagma nominal pluralizado em "Io nino". No sendo possvel contar com a oposio [s] x [0], em funo da eroso das consoantes finais na fala, o falante lana mo de outra oposio funcional com o mesmo sucesso: "el" x "Io". J no feminino, o fenmeno se iguala ao portugus, como se pode observar a partir da oposio "Ia nina" x "Ias ninas". Se o falante eliminar o segmento [s] do sintagma no plural, eliminar concomitantemente a marcao de nmero. Evidncias estatsticas sobre a eliminao do [s] no espanhol porto-rique