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  • 71Cadernos de Letras da UFF Dossi: Amrica Central e Caribe: mltiplos olhares no 45, p. 71-91

    SiNCErAmENTE, SuA: CArTAS ANNimAS Em roSArio FErr

    Stelamaris Coser

    RESUMO Aps breve anlise do gnero epistolar e a especificidade da carta annima, com exemplos da literatura brasilei-ra, focalizam-se as cartas inseridas no conto La bella durmiente/Sleeping Beauty, de Rosario Ferr (origi-nal 1976). Conjugando anlise textual e contextualiza-o sociocultural, este trabalho associa as cartas anni-mas condio feminina e situao marginal de Porto Rico como estado/nao.

    PALAVRAS-CHAVE: La bella durmiente, carta an-nima, feminino.

    When my love swears that she is made of truth I do believe her though I know she lies

    William Shakespeare, Soneto 138

    Uma carta traz vivas marcas do ausente, o cunho autntico de sua pessoa.

    Sneca1

    Descoberta por Colombo e reivindicada pela Coroa espanhola desde 1493, a ilha de Porto Rico2 foi cedida pela Espanha aos Estados Uni-dos em 1898, quando o antigo colonizador europeu perdeu a guerra e 1 SNECA apud SUSSEKIND, Flora. Cabral-Bandeira-Drummond. A voz e a srie. Belo

    Horizonte: Sette Letras: UFMG, 1998. p. 263.2 Chamada Barikn pelos indgenas aruaques que a habitavam, foi a princpio denominada

    Ilha de San Juan Baptista por Colombo, nome depois encurtado para designar a capital, San Juan.

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    Sinceramente, sua: cartas annimas em rosario ferr

    a disputa pelos territrios sob seu domnio, sendo substitudo pelo novo poder imperial que se impunha. Com localizao privilegiada (e cobiada) entre o Oceano Atlntico e o Mar do Caribe, a ilha (que integra um arquiplago de vrias pequenas ilhas) considerada, desde 1952, parte dos Estados Unidos na condio ambgua de Estado Livre Associado, territrio dependente e sem carter jurdico preciso, nem estado nem pas com legitimidade clara. Um espao que interessa ao centro hegemnico e, ao mesmo tempo, o incomoda, com um povo e uma cultura cuja identidade escapa a classificaes ntidas, homogneas e padronizadas.

    De certa forma, as cartas annimas, em foco neste trabalho, compartilham algumas das caractersticas que acabam de ser atribudas ao contexto porto-ri-quenho: certa conotao de ilegitimidade ou desprestgio e a marginalizao dentro de padres estabelecidos que, no caso das cartas, so as linhas delimita-doras do gnero epistolar. Esse gnero se encontra nas bases fundadoras da fico europeia, no sculo XVIII, com grandes nomes, como Richardson, Rousseau e Goethe, entre outros, e vem sendo periodicamente retomado, adaptado e reno-vado por autores dos mais variados estilos e procedncias. As cartas annimas, como ilustram as que se destacam no conto La bella durmiente/Sleeping beauty, da escritora porto-riquenha Rosario Ferr, seguem o formato bsico de uma carta comum ao conterem destinatrio, endereamento, local e data, uma saudao e o texto da missiva escrito em primeira pessoa. Contrastam, porm, pela falta de assinatura e identificao de um remetente explcito, proporcionan-do efeitos de mistrio e suspense, para o leitor, e ameaa, medo e/ou dio, para o personagem receptor, alm de levantar dvidas sobre o estatuto de registro de indiscutveis verdades3 que costuma ser imputado s cartas pessoais.4

    De...... Para.......: As cartas e suas caractersticas

    Para assegurar privacidade e confiabilidade, uma carta normalmente colocada em envelope endereado, fechado e selado e, em lugar dos antigos

    3 Termos usados em PERES, Ciomara Breder. Remexendo cartas novas e velhas, encontrando o inesperado: uma anlise comparativa de Mariana, Ovdio e as trs Marias. http://www.ufop.br/ichs/conifes/anais/LCA/lca2903.htm. 10/09/2002.

    4 Por questo de espao e foco, o recorte escolhido para este trabalho limita-se a cartas no formato tradicional.

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    mensageiros, enviada atravs de servio postal regulamentado por lei contra possvel violao, dano ou subtrao. Mesmo assim, seu percurso no difere de outras viagens; pode apresentar atropelos e ambiguidades e suscitar dvidas e disputas, como, por exemplo, at quando o autor/remetente dono da carta e poder reinvindic-la. No artigo A quem pertence uma carta?, Lejeune aborda controvrsias legais envolvendo cartas comuns, mas nelas h sempre pelo menos duas pessoas geograficamente separadas, um remetente, de um lado, e um interlocutor/destinatrio, de outro.5

    O uso do formato epistolar, onde a primeira pessoa, o eu que escreve e assina o texto, interpela o outro que recebe e l a carta, contribui para a im-presso de sinceridade ou autenticidade do que revelado. No surpreende o fato de a fico ter-se alimentado tanto da epistolaridade, j que tambm deseja obter a confiana do leitor. Kte Hamburger argumenta que a es-sncia da fico literria parecer como realidade (como disse Theodor Fontane, por ela citado, j em 1875), conseguir mostrar aparncia de real por meio do enunciado. Ao realar a iluso do real, a narrativa em primeira pessoa um dos recursos adotados por escritores para induzir o leitor a acreditar naquilo que l. O efeito se intensifica se o sujeito aparece como eu e enuncia o real numa carta, j que, como ressalta Hamburger, a percepo comum assevera que a carta sempre um documento histrico, que tes-temunha sobre uma pessoa individual.6 O escritor Luiz Ruffato comenta esse efeito de suposta transparncia alcanada pelo gnero epistolar, ainda mais eficaz que o mero uso do narrador em primeira pessoa: A narrativa tradicional, mesmo em primeira pessoa, seletiva o leitor desconfia que o autor est escondendo algo dele. Na epistolografia, no, a sensao de que nada nos est sendo omitido.7

    Em conhecida obra sobre as caractersticas do gnero epistolar na li-teratura, Janet G. Altman (1982) define epistolaridade como o conjunto

    5 LEJEUNE, Phillipe. O pacto autobiogrfico: de Rousseau Internet. Org. Jovita G. Noro-nha. Belo Horizonte: UFMG, 2008. p. 253.

    6 HAMBURGER, Kte. A lgica da criao literria. So Paulo: Perspectiva, 1975. p. 24-41 (Coleo Estudos).

    7 RUFFATO apud CARPINEJAR, Fabrcio. Um amor por escrito. Revista da Cultura, 12, So Paulo, julho 2008. http://www2.livrariacultura.com.br/culturanews/rc12/index2.asp?page=reportagem01. 25/07/2008.

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    Sinceramente, sua: cartas annimas em rosario ferr

    de fatores que confere significado obra de fico atravs da aplicao de estruturas e do potencial especfico da carta, ainda que a obra no seja construda primordialmente com base em cartas e se desvie do entendimen-to tradicional de romance epistolar.8 Altman ressalta os efeitos de envol-vimento e complexidade conseguidos pelo escritor ao explorar nveis varia-dos de confiana quando o destinatrio tratado como confidente (de tipo amigo ou amoroso), algum que o remetente procura seduzir para algum tipo de projeto ou parceria. Na carta annima, pode-se acrescentar aqui, o remetente tenta colocar-se como simpatizante ou amigo do destinatrio, a quem trata como confidente escolhido para ouvir um segredo, procurando seduzi-lo com astcia e induzi-lo a uma ao decorrente da leitura do texto revelador.9

    Como recurso literrio, ainda segundo Altman, o uso das cartas pode su-gerir um jogo de enganos e dissimulaes, de modo que a diferena entre ami-go e amante, por exemplo, se torne confusa e ambivalente, ou que, em outro contexto, um estranho ou inimigo se passe por solcito confidente. As cartas do tipo confessional, que revelam algum segredo importante, so sempre fonte de suspense e interesse na literatura de carter epistolar. Outra caracterstica da carta apontada pelo filsofo Rubem Alves o carter de objeto concreto e palpvel que a diferencia do telefonema, por exemplo. Ao comentar o quadro de Vermeer A mulher que l, Alves observa como a carta de amor pode ser marca de presena carinhosamente tocada e preservada:

    [...] a mulher tem nas mos uma carta. A carta um objeto. Se no tivesse podido recolher-se sua solido, ela poderia t-la guardado, no bolso, na deliciosa espera do momento oportuno. O telefone no pode esperar. A carta paciente. Guarda as suas palavras. E, depois de lida, poder ser relida. Ou simplesmente acariciada. Uma carta contra o rosto poder haver coisas mais eterna? Uma carta mais que uma mensagem. Mesmo antes de

    8 ALTMAN, Janet Gurkin. Epistolarity: approaches to a form. Columbus: Ohio State Uni-versity, 1982. p.5, 48-49, 60-71. https://ohiostatepress.org/index.htm?/books/book pages/altman epistolarity.html. 21/12/2011.

    9 A traduo livre de trechos de obras originalmente em lngua inglesa ou espanhola, aqui citados em portugus, de responsabilidade da autora deste artigo.

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    ser lida ainda dentro do envelope fechado, tem a qualidade de um sacramento: presena sensvel de uma felicidade invisvel.10

    Sentimento bastante oposto ao descrito aquele despertado por uma carta annima acusatria que incita dio e vingana. De toda maneira, cartas recebidas podem ser roubadas e desviadas, como no conto de Poe,11 amassa-das, rasgadas, descartadas, ou guardadas e relidas, espera de alguma reao do leitor/receptor.

    O gnero discursivo carta, aqui pensada como interlocuo que se ser-ve da linguagem escrita para envio de uma mensagem, apresenta variaes em relao a aspecto formal, nvel de tratamento, objetivo, modo de envio e recepo. Assim, temos bilhetes, lembretes, cartes postais, cartes de cum-primento, convites etc.12 H, certamente, as cartas abertas de explicao, protesto ou denncia publicadas em jornais e endereadas, de forma pblica, a todos os leitores; existem cartas comerciais, oficiais, polticas e profissionais, que seguem padres formais de maior r