SIMMEL, Georg - Roma, Florença, Veneza

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Dossier Simmel: A esttica e a cidade

CARLOS FORTUNA Simmel e as cidades histricas italianas Uma introduo GEORG SIMMEL Roma. Uma anlise esttica Florena Veneza

Revista Crtica de Cincias Sociais, 67, Dezembro 2003: 101-127

Dossier

SIMMEL: A ESTTICA E A CIDADECARLOS FORTUNA

Simmel e as cidades histricas italianas Uma introduoOs trs ensaios de Georg Simmel que a seguir se publicam, dedicados a trs cidades histricas italianas, so preciosas reflexes filosficas e sociolgicas sobre a arte, a esttica e a sua relao com a cidade. Trata-se de um conjunto de temas caros a Simmel, alis j enunciados na sua dissertao sobre a filosofia kantiana em 1881, sobre os quais, como se sabe, o autor haveria de continuar a reflectir at ao final da sua vida em 1918 (Frisby, 1992). No momento, quando se multiplicam as aces e as reflexes sobre a histria, a memria e os patrimnios da humanidade e se redobra a preocupao com as dimenses estticas e culturais das cidades, ganham relevo estes textos centenrios de Simmel. So, a vrios ttulos, textos pioneiros. Desde logo porque, ao surgirem num momento de intensa transformao poltica e cultural na Europa, obrigaram a reconsiderar os termos da reflexo poltica e acadmica sobre a relao indivduo-sociedade, ao chamar a ateno para a articulao da arte e da esttica com o esprito e a vida da cidade. No domnio das cincias sociais e humanas, o contributo de Simmel perdurou e teve impacto nos trabalhos de ilustres pensadores e analistas. Nomes consagrados e to variados como os de John Ruskin, Alos Riegl, David Lowenthal ou Franoise Choay, mas tambm Walter Benjamin ou Siegfried Kracauer, so alguns dos intelectuais e estudiosos que, cada um a seu modo, tambm eles se depararam com preocupaes em todo semelhantes s que dominam nestes textos de Simmel, ou actualizaram mesmo a reflexo sobre o lugar da esttica, da arquitectura e da organizao e usos dos espaos da cidade na construo da modernidade. O carcter pioneiro destes textos decorre ainda da alternativa que constituiram face literatura de viagem, tal como esta se desenvolvera nos primrdios do sculo XVIII, isto , olhando as cidades e as outras culturas de forma fundamentalmente descritiva, impessoal e centrada no relato de factores pitorescos (Boyer, 1998). No decurso do sculo XIX, a narrativa de viagem ganhou contornos mais imaginativos e os seus autores passaram a

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narrar tambm as emoes e os sentimentos pessoais que a visita a lugares distantes lhes suscitava. Com os contributos de Simmel, contudo, este gnero de narrativa sofreu um aprofundamento epistemolgico e filosfico em torno do significado das cidades histricas que ampliou os termos da avaliao dos fundamentos e dos desafios da vida na modernidade em construo. Apesar das suas qualidades, os textos de Simmel sobre as cidades histricas italianas tm sido pouco tratados na comunidade acadmica portuguesa, ou referidos de forma episdica, em regra a partir de fontes secundrias e do trabalho dos comentadores. Nestas circunstncias, parece-nos decisivo o resgate do texto original, pelo que enorme o relevo deste dossier da Revista Crtica de Cincias Sociais, para os leitores de lngua portuguesa. Entre os numerosos aspectos que Simmel traz nossa compreenso com estes trs ensaios Roma. Uma anlise esttica (de 1898); Florena (de 1906) e Veneza (de 1907) ressalta a escolha da cidade como objecto esttico, em vez de qualquer outro objecto artstico clssico, como um monumento, uma escultura, uma pintura ou uma msica. Pode dizer-se que esta escolha consentnea com a prpria filosofia simmeliana, que atribui ao esprito da cidade e dimenso urbana um estatuto singular, arquetpico da excepcional riqueza e complexidade da vida humana. A cidade, como objecto artstico, s pode ser compreendida enquanto totalidade. Mas sempre que aspira a enunciar a natureza esttica da cidade enquanto totalidade, o modelo de Simmel engloba, alm da obra de arte, tambm a prpria sociedade, enquanto experincia esttica (Janklvitch, 1988; Waizbort, 2000). Deste ponto de vista, a cidade de Simmel, tanto a cidade histrica como a metrpole, na sua plenitude, constitui-se em categoria alegrica da sociedade mais ampla. Compreende-se deste modo a validade da opo de Simmel pela cidade como obra de arte (Ducret, 1989). Os textos que aqui se divulgam so todos eles, com destaque para Roma..., subsidirios da reflexo que Simmel acabara de produzir sobre a esttica e as suas inter-relaes com a cultura e a sociedade. No seu muito apreciado Esttica sociolgica, de 1896 (Simmel, 1968), Simmel advoga o princpio do pantesmo esttico, pelo qual a beleza da obra de arte brota apenas da sua totalidade, isto , da configurao resultante do modo como se interrelacionam os diferentes elementos que a constituem (Frisby, 1985; 1992). Como resulta das palavras iniciais de Roma...:O mais forte atractivo da beleza consiste porventura no facto de ela constituir sempre a forma de elementos que, em si, so indiferentes e alheios beleza e que s juntos adquirem valor esttico. [...] [T]alvez que isto tenha a sua explicao na-

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quela indiferena esttica dos elementos e tomos do mundo, que s so portadores de beleza um em relao com o outro, e este apenas na relao com o primeiro, de modo que ela lhes inerente, certo, mas no inerente a nenhum deles isoladamente.

Entre a publicao de Roma... e os restantes Florena, em 1906, e Veneza, meses depois, Simmel produziu o seu mais conhecido ensaio sobre a cidade e a metrpole da era industrial A metrpole e a vida do esprito (1997 [1903]) que representa a segunda grande influncia sobre os textos das cidades antigas. A metrpole... um ensaio de matriz vincadamente sociolgica e psicossociolgica que tem subjacente duas das principais metrpoles europeias da poca (Berlim e Viena), sujeitas ambas, no entender do autor, aos princpios ordenadores da racionalidade capitalista e do anonimato. Ser que, semelhana das cidades antigas, que alis funcionam como o outro da metrpole moderna, tambm esta metrpole tem uma esttica que condiciona a vida dos sujeitos? Esta , talvez, a grande interrogao que Simmel faz a si prprio quando recorre anlise das cidades italianas do passado. Em contraponto ao seu A metrpole..., Simmel imprime aos textos sobre as cidades italianas uma lgica analtica diferenciada, de feio puramente esttica e simblica. No significa isto que se opere uma separao radical, digamos, epistemolgica, entre os textos sobre as cidades italianas e A metrpole.... Podemos admitir, alis de acordo com alguns especialistas (cf. Jonas, 1992), ser mais adequada compreenso do pensamento simmeliano sobre a cidade e a cultura a juno das lgicas interpretativas diversas que presidem a uns e a outros destes escritos. Para ser fiel sua prpria estratgia metodolgica, dir-se-ia que todos eles, sua maneira, so fragmentos sub specie da anlise do esprito da cidade e da dimenso urbana. Este contraste interpretativo deliberado e condicionado pelo entendimento que Simmel tem do lugar do elemento histrico-temporal na configurao da cidade e da cultura urbana. No caso dos textos sobre as cidades histricas em que impera uma preocupao com a dimenso histrica, tal opo metodolgica revela-se de uma pertinncia heurstica superior. Como afirma o prprio Simmel,[S]o quase s as cidades antigas, crescidas sem um plano premeditado, que oferecem um tal contedo forma esttica; aqui, formas que nasceram de finalidades humanas e que aparecem como simples materializaes do esprito e da vontade representam pela sua conjugao um valor que est inteiramente para alm destas intenes e lhes vem acrescer como um opus supererogationis.

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A vantagem civilizacional da cidade antiga e, em particular, de Roma a cidade eterna que ela pode, ou por efeito directo da natureza, ou como mais puro acaso, reconciliar as tenses que dilaceram o mundo, sejam elas as oposies entre esprito e natureza ou entre o presente e o passado. Em manifesto contraste com a metrpole moderna, para Simmel, na sua unidade espantosa, Roma uma cidade nica, no apenas do ponto de vista da criao artstica e esttica, mas tambm, e sobretudo, em vista da sua capacidade para reordenar e re-harmonizar o mundo: que as distncias entre as pocas, os estilos, as personalidades, os contedos vitais, que aqui deixaram as suas marcas so to amplas como em nenhum outro stio no mundo e, no entanto, esto entretecidas numa unidade, harmonia e afinidade como em nenhum outro stio do mundo.

Esta ideia da redeno pela arte surge de novo nos textos sobre Florena e Veneza, embora com marcas e efeitos distintos. Roma, dir-se-ia, uma relquia, histria em bruto, plena de memrias e de reencontros de diferentes pocas, estilos e personalidades. Florena e Veneza, ao contrrio, destacam-se mais enquanto, digamos, cidades-museu. Menos sujeitas ao ordenamento esttico do acaso ou da natureza, so tratadas como lugares cenografados, alinhados de acordo com critrios e princpios tcnicos especializados, mais do domnio da museologia ou da arqueologia. Em Florena Simmel coloca-se abertamente num denso estilo ensastico e filosfico, dissertando sobre a relao natureza/esprito e a filosofia da vida numa linguagem to severa quanto bela. Florena para Simmel uma unidade misteriosa, em que natureza e esprito parecem harmonizar-se: Aqui, a natureza tornou-se esprito, sem renunciar a si prpria. Trata-se de uma simbiose manifesta e exclusivamente esttica (No h talvez mais nenhuma cidade cujo efeito de conjunto (...) gere no observador de modo to vincado uma impresso de obra de arte), em que a prpria natureza apresentada sob a forma de cultura, isto , subordinada a esta ltima. Tudo em Florena, de Giotto a Michelangelo, dos jardins aos palcios, as igrejas, tanto como o Arno, e as prprias colinas florentinas, tudo a alma e a manifestao da alma tem uma harmoniosa forma artstica e quer persuadir-nos de que as partes da realidade se fundem num sentimento do ser. Esta