salut deleuze

Download Salut Deleuze

Post on 09-Dec-2015

220 views

Category:

Documents

2 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Salut Deleuze

TRANSCRIPT

  • 2 9 72 0 0 6 - jul.-dez. - A L E T R I ADisponvel em: http://www.letras.ufmg.br/poslit

    FILOSOFIA EM QUADRINHOS

    u m a a n l i s e i n t e r m i d i t i c a d e u m a a n l i s e i n t e r m i d i t i c a d e u m a a n l i s e i n t e r m i d i t i c a d e u m a a n l i s e i n t e r m i d i t i c a d e u m a a n l i s e i n t e r m i d i t i c a d e S a l u t D e l e u z e !S a l u t D e l e u z e !S a l u t D e l e u z e !S a l u t D e l e u z e !S a l u t D e l e u z e !

    Leonora Soledad Souza e PaulaDoutoranda em Literatura Comparada, University of California, San Diego

    RRRRR E S U M OE S U M OE S U M OE S U M OE S U M ONeste trabalho pretendo discutir o dilogo entre discursofilosfico e narrativa grfica na obra Salut Deleuze! Resultadode um processo de apropriao da obra Diferena e Repetio(1968) do filsofo Gilles Deleuze, Salut Deleuze! desenvolve-seatravs de uma experincia de transposio do tema filosficopara a linguagem das histrias em quadrinhos. A repetiodeliberada da mesma cena por cinco vezes indica a estruturanarrativa atravs da qual o enredo construdo e sugere umacriativa reescrita do texto deleuziano ao demonstrar que arepetio , por natureza, algo sempre novo. Em seguida, proponhoobservar o processo de intertextualidade com outras obras ediscutir o lugar das histrias em quadrinhos no universo de prticasculturais elaboradas atravs de uma relao intermiditica.

    PPPPP A L A V R A SA L A V R A SA L A V R A SA L A V R A SA L A V R A S ----- C H A V EC H A V EC H A V EC H A V EC H A V EHistria em quadrinhos, filosofia, intermidialidade,

    repetio, diferena

    Quando discutimos a produo cultural do momento atual, no podemos nosrecusar a considerar o lugar ocupado pelas histrias em quadrinhos no universo deprticas culturais que fazem uso da apropriao de diversas formas de expresso. Osvrios extratos textuais, grficos e culturais contidos nas histrias em quadrinhoscontemporneas refletem os procedimentos intersemiticos e intermiditicosindispensveis para a configurao de texto e imagem tal como encontrada na arteproduzida no momento presente. Em vista disto, a histria em quadrinhos Salut Deleuze!surge como estmulo ao debate envolvendo a experincia de inter-relao entre as mdias.Constituda a partir de um interessante dilogo entre o discurso filosfico e a narrativagrfico-textual, Salut Deleuze! oferece ao leitor um percurso de leitura que se desdobraem vrios nveis de interao, gerando diferentes graus de apreenso. Neste sentido,este trabalho tem como principais objetivos apresentar o texto a ser estudado como umaobra essencialmente intermiditica, identificar a presena do discurso filosfico comointerlocutor na construo da obra, apontar a presena de intertextualidades com outrasobras e discutir o lugar das histrias em quadrinhos no universo de prticas culturaiselaboradas a partir de uma relao intermiditica.

  • A L E T R I A - jul.-dez. - 2 0 0 62 9 8 Disponvel em: http://www.letras.ufmg.br/poslit

    AAAAASSSSS HISTRIASHISTRIASHISTRIASHISTRIASHISTRIAS EMEMEMEMEM QUADRINHOSQUADRINHOSQUADRINHOSQUADRINHOSQUADRINHOS COMOCOMOCOMOCOMOCOMO TEXTOTEXTOTEXTOTEXTOTEXTO MIXMDIAMIXMDIAMIXMDIAMIXMDIAMIXMDIA

    Qualquer definio das histrias em quadrinhos leva em considerao a relaoentre o texto verbal e o texto visual como condio de existncia, podendo ou noexpandir a interao com outros sistemas de signos. Os estudos da intermidialidade,atentos necessidade de definio de textos constitudos a partir de relaes entrediferentes signos e mdias, oferecem interessantes propostas conceituais, no deixandode incluir os quadrinhos. De acordo com a classificao proposta por Leo H. Hoek, ashistrias em quadrinhos podem ser consideradas um texto misto (mixmdia) porexcelncia, uma vez que tal texto se caracteriza por sua composio em pelo menosduas mdias diferentes, fisicamente inseparveis, apresentadas como discurso nico eexperienciado como unidade.1 Neste mesmo sentido, Claus Clver verifica que o textomixmdia contm signos complexos em mdias diferentes que no alcanariam coernciaou auto-suficincia fora daquele contexto 2 e reconhece que as histrias em quadrinhosfazem parte de um grupo de novas formas de arte criadas e/ou desenvolvidas no sculoXX, cuja orientao intermiditica as coloca num lugar indefinido no que se refere aabrigos disciplinares.

    Portanto, a relao congnita entre dois sistemas de signos fisicamenteinseparveis, apresentados como discurso nico e recebidos em simultaneidade, apresenta-se como uma alternativa eficiente em termos de conceituao das histrias emquadrinhos, o que no encerra o extenso debate sobre o assunto. Contudo, estaalternativa considerada a via de acesso que nos conduzir durante o percurso deleitura crtica de Salut Deleuze!

    QQQQQUADRINHOSUADRINHOSUADRINHOSUADRINHOSUADRINHOS CONTEMPORNEOSCONTEMPORNEOSCONTEMPORNEOSCONTEMPORNEOSCONTEMPORNEOS

    Embora consideremos a eficcia da formulao acima, h de se reconhecer uma intensadiversidade no que se refere s formas e gneros dos quadrinhos. Todavia, levando-se emconta que este estudo se desenvolve acerca de uma publicao contempornea, as discussessero a concentradas.

    Neste contexto, observamos que o fenmeno de relao intermiditica presentena construo das histrias em quadrinhos contemporneas encontra afinidade com osmais recentes paradigmas de produo e criao artsticas, em virtude da interao dediversos sistemas de signos no processo de formao dos textos. Entretanto, reconhecera contemporaneidade de Salut Deleuze! no se reduz a uma tarefa meramente cronolgica,mas implica observar outros aspectos. Para tanto, necessrio identificar algumascaractersticas comuns encontradas nessas publicaes. Claude Due, no artigo L ole mot se fait image et o limage se fait mot: Nouvelle bande dessine et bande dessinedavant-garde, apresenta o que ela chama de nova histria em quadrinhos comouma sofisticada criao cujo processo de constituio parte da apropriao de um pr-

    1 HOEK. La transposition intersemiotique, p. 73. Cf. o esquema na p. 30 desta revista.2 CLVER. Estudos Interartes: Introduo crtica, p. 8.

  • 2 9 92 0 0 6 - jul.-dez. - A L E T R I ADisponvel em: http://www.letras.ufmg.br/poslit

    texto, gerando dois graus de leitura do texto final. Segundo Due, os artistas quetrabalham com este tipo de quadrinhos investem em uma intensa relao com outrasmanifestaes e tomam esta relao de integrao como material de criao para suasobras.

    Assim, a convivncia da nova histria em quadrinhos com outras produesculturais se constri a partir de um criativo processo de ressignifio de recursosempregados anteriormente; nas palavras de Due, ela inclui um segundo grau, sob aforma de imitao, aluso, intertextualidade.3 Portanto, a transformao desse materialatua como recodificao dos signos anteriores em novos elementos de criao utilizadosnum processo de construo de um novo cdigo que, por definio, constitudo devrias camadas. Esse processo de deslocamento se desenvolve como uma representaorelativamente ampla (mesmo que jamais completa) do texto-fonte composto num sistemasgnico diferente, numa forma apropriada, transmitindo certo sentido de estilo e tcnicae incluindo equivalentes de figuras retricas,4 assim como descrito por Clver. Emoutros termos, o processo criativo elaborado a partir de uma obra e/ou conceito jexistente, de maneira que a re-apresentao desse material passe pelo trabalho deressignificao dos elementos constituintes do texto-fonte e alcance uma outraapresentao.

    Como resultado deste processo de construo em camadas, o texto oferece aoleitor pelo menos duas experincias de leitura: a leitura em primeiro grau da narrativagrfico-textual, assim como apresentada nas pginas da histria em quadrinhos; e aleitura em segundo grau do pr-texto presente na narrativa, que requer do leitor umamplo repertrio de informaes. Lembrando Grard Genette e a noo de palimpsesto,Due argumenta que no processo de leitura de uma nova histria em quadrinhos, mesmoque o leitor no tenha conhecimento prvio que possa conduzi-lo ao hipotexto, elecompreende do que se trata. 5 Logo, possvel reconhecer nessas obras um espao deinteratividade privilegiado no s no que se refere a seu processo de construo comotambm quanto participao do leitor, que vir ativar o texto em suas vrias dimensesquaisquer que sejam suas experincias de leitura.

    De acordo com o exposto acima, possvel aproximar as histrias em quadrinhoscontemporneas do conceito de nova histria em quadrinhos, uma vez que ambos os termoscompartilham aspectos comuns. Quando falamos de quadrinhos contemporneos, levamosem conta um texto formado atravs de um processo de interao entre sistemas de signosdesenvolvidos durante a segunda metade do sculo XX, cuja constituio leva a mltiplosnveis de leitura. Portanto, podemos considerar Salut Deleuze! uma publicao que se aproximadas caractersticas dos quadrinhos contemporneos, uma vez que se observa uma forte relaointersdiscursiva no que se refere a seu processo de construo, gerando diferentes graus depercepo da narrativa.

    3 DUE. L o le mot se fait image et o limage se fait mot, p. 242.4 CLVER. Estudos Interartes: Conceitos, termos, objetivos, p. 42.5 DUE. L o le mot se fait image et o limage se fait mot, p. 241.

  • A L E T R I A - jul.-dez. - 2 0 0 63 0 0 Disponvel em: http://www.letras.ufmg.br/poslit

    SSSSSALUTALUTALUTALUTALUT D D D D DELEUZEELEUZEELEUZEELEUZEELEUZE!!!!!

    Originalmente publicada na revista Strapazin (no. 45/1996), numa primeira versoonde aparecia somente a primeira das cinco repeties que viriam a ser o lbum, SalutDeleuze!, ainda indita no Brasil, resulta de um trabalho de co-autoria entre Jens Balzer(argumento) e Martin tom Dieck (arte) nessa curiosa experincia grfico-textual.

    Elaborado a partir da apropriao de um conceito chave presente na obra dofilsofo francs Gilles Deleuze, sobretudo em Diferena e repetio, Balzer e Di