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Universidade Estadual de Maring 12 a 14 de Junho de 2013

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REVISTA FON-FON!: RETRATOS DA SOCIEDADE CARIOCA

MODERNA NO INCIO DO SCULO XX

OLIVEIRA, Natlia Cristina de (UEM)

COSTA, Clio Juvenal (Orientador/UEM)

Introduo

O incio do sculo XX marcado por profundas mudanas sociais, econmicas,

culturais e polticas. A sociedade foi movimentada com o impacto das mudanas nas

relaes de e no trabalho, marcando a subjetividade e a sociabilidade humana. Todas as

transformaes ocorridas nesse contexto eram tidas como sinal de progresso, criando o

modelo de como ser civilizado.

No processo de edificao da identidade nacional, na virada do sculo XIX para

o XX, a imprensa utiliza-se da belle poque para divulgar a nova civilizao, atrelada

com a modernidade1. Tanto os jornais quanto os peridicos veiculados, contribuem para

a divulgao miditica da nova vida, em especial a vida carioca, a qual aposta no futuro

promissor e moderno, que divulga e apoia as grandes obras de embelezamento da

capital da Repblica.

Entre 107 e 1945 circulou no Rio de Janeiro a revista Fon-fon!. O seu ttulo

resulta de uma onomatopia da buzina dos automveis que, por sua vez, representava a

industrializao e o desenvolvimento econmico do pas. A populao passou a voltar

suas leituras com cada vez mais ateno ao peridico, impresso semanalmente, que

destacava questes modernas e parlamentares, o que, de modo especial, seria o grande

motor que impulsionava o progresso do pas: a gnese da imprensa industrial. Sendo

1 Entende-se aqui, como modernidade, no to somente o perodo dito como moderno, historicamente iniciado no sculo XVI perpassando os seguintes. Mas, a modernidade que diz respeito emergente vida social no capitalismo industrial, apresentando rupturas com os antigos modelos de vida, marcando a reconstruo urbana em vrios pontos do Ocidente. O desenvolvimento industrial tornou-se grande responsvel por estas mudanas, j que o sculo XIX teve sua ascenso capitalista envolta na era industrial. Assim, compreendemos que aquele sculo marca decisivamente a noo de progresso vital e social.

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assim, o desafio do presente estudo mostrar a forma como a revista em questo

retratava naquele perodo, a populao e a concepo de sociedade.

A revista Fon-fon! parece ter agido no sentido de justificar uma sociedade que

passava a ter, nos confortos do mundo moderno, uma forma burguesa de ser, e, neste

sentido, ela se torna, tambm, um instrumento ideolgico a par de outros movimentos

do perodo. Segundo o peridico, os brasileiros deveriam inserir-se na sociedade

burguesa traduzindo a idia de que a educao era fator importante para o crescimento

pessoal e progresso nacional, porm, desde que estes fossem realizados nos padres

divulgados e executados na Europa.

Desta forma, consideramos em breve anlise, os discursos divulgados pelas

obras da revista Fon-fon! no incio do sculo XX. Alcanamos respostas de como se

dava a sociedade frente s expectativas atuais naquele perodo, as influncias da

modernidade quanto a este processo e o progresso frente ao modelo vital proposto na

poca. Alm do posicionamento do peridico em relao populao no que tange

respeito liberdade de expresso e a considerao ao progresso dos ento leitores na

quela modernidade, veiculada grfica e figurativamente na sociedade burguesa.

A Revista Fon-fon! e a sociedade no incio do sculo XX

A implantao da imprensa no Brasil (sc. XVIII) deu-se com a chegada da

famlia real ao Pas (1808). Porm, o surgimento de exemplares/revistas com caricaturas

e stiras, foram aparecer somente na segunda metade do sculo XIX. A imprensa, por

sua vez, representava a possibilidade de que os cidados pudessem manter-se

atualizados e a par de todos os acontecimentos emergentes na poca de uma forma

diversificada. A revista Fon-fon!, j no incio do sculo XX, era considerada uma das

melhores produtoras de notcias impressas e ilustradas da poca e se sobressaiu em prol

da veiculao da informao de qualidade na sociedade carioca, no que diz respeito a

divulgao de toda e qualquer forma de desenvolvimento. E, para que haja compreenso

do discurso veiculado por este peridico, necessrio tambm abordarmos a sociedade

carioca, neste perodo.

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A Repblica tinha emergente necessidade em mostrar que o Brasil estava

inserido em novos tempos, um tempo moderno. Assim, passa a transformar-se num

cenrio que mostrasse um governo que prezava o progresso do pas, e priorizava a

necessidade de realizar reforma urbanstica, afetando diretamente a populao e seus

costumes.

O comando destas mudanas pertenceu ao governo de Rodrigues Alves (1903-

1907), o qual considerava como necessidade a reconstruo da capital federal, que alm

de consistir em uma ascenso poltica, tornava-se vivel por intermdio de emprstimos

adquiridos pelo governo de Campos Sales (1898-1902). A reforma tinha por meta,

urbanizar a capital, assegurando-a um progresso nacional, na principal cidade do Pas.

Needell (1993, 9. 48) explica que

(...) aceitava-se com naturalidade a precria adoo de tecnologias, costumes e capitais estrangeiros no Rio de Janeiro, reflexo das realidades neocoloniais. Na verdade, os habitantes das provncias pensavam no Rio como uma cidade magnfica, capaz de conferir prestgio urbano a quem a visitasse. Apenas os brasileiros que conheciam o estrangeiro vislumbravam a enorme distncia que separava sua ptria da Civilizao.

Mais tarde, quanto ao progresso da capital brasileira, outras significativas e

principais mudanas ocorridas tiveram como responsvel o Prefeito Francisco Pereira

Passos (gesto 1902-1906), nomeado pelo ainda presidente Rodrigues Alves. Em

adaptao aos feitos de Haussmann (responsvel pela reforma urbana de Paris), o

prefeito Pereira Passos, ao lado de Lauro Mller, Paulo de Frontin e Franscico Bicalho2

realizaram, em consonncia, a grande reforma, tornando a ento capital federal na

popular cidade maravilhosa, com ruas largas, utenslios requintados, retratando

2 Segundo Azevedo (2009), houve duas intervenes no Rio de Janeiro. A primeira conduzida pelo Governo Federal, projeto pelo ministro Lauro Mller e o engenheiro responsvel Francisco Bicalho, e outra pela prpria prefeitura com iniciativa de Pereira Passos. Ambas as reformas tinham como intuito melhorar a imagem da capital, facilitando, sobretudo a imigrao de estrangeiros no Brasil, e auxiliando na crise de mo de obra (causada desde a abolio da escravido). Vale ressaltar que o grupo de engenharia da grande reforma urbana de Rio de Janeiro foi liderado por Paulo de Frontin.

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fidedignamente os ares parisienses e confirmando que ali emergia definitivamente a

belle poque carioca3.

A partir de tais modificaes da capital federal, encontra-se tambm a procura na

readaptao dos hbitos da populao. Civilizar as festas, os carnavais e at mesmo os

passeios, tornou-se forma de colocar a populao nos moldes venezianos.

Principalmente a elite passou a mudar suas vestimentas, bem como selecionar os lugares

onde frequentar e a forma como comportar-se em tal lugar. E quanto aos integrantes da

sociedade de camadas inferiores

A populao mais pobre vivia pelas avenidas e em cortios, que eram os antigos casares deixados pela burguesia que abandonara o centro para as novas reas de expanso da cidade. Diante dessa rea considerada degradada pelas elites brasileira, feia, imunda, perigosa e catica, a identidade urbana do Rio de Janeiro no poderia ser construda. A cidade deveria refletir a imagem do progresso: higinica, linda e ordenada. (...) Cada vez ficava mais ntida a incompatibilidade da estrutura da velha cidade colonial com as novas formas de articulao urbana impostas pela nova ordem econmica, deixando aberto o caminho para a realizao das grandes reformas urbanas que viriam a inserir a cidade e o pas nos novos modelos de modernidade predominantes na Europa do sculo XIX. (MALLMANN, 2010, p. 105)

Fica claro, segundo esta anlise, a necessidade de compreenso da sociedade, no

que tange a reconstruo da capital e a forma como deveria ser veiculada estas

transformaes. Torna-se passvel observar que os privilegiados a terem acesso a

qualquer tipo de informao realizada em prol deste progresso, seriam somente, em

especial, a elite burguesa dominante. Pessoas essas que, letradas, buscavam-se

informaes que contribusse nas formas de progresso e modernidade que efetivasse o

rompimento com o Imprio e as razes patriotas criadas com a Proclamao da

Repblica.

Notamos que, desde principalmente o final do sculo XIX e incio do sculo XX,

a vida urbana, em desenvolvimento, vinha caminhando em busca de vrias formas de

progresso. A agilidade com que os peridicos se difundem imensa, trazendo 3 Mallmann (2010) afirma que Passos inicia, a partir de 1903, um enorme programa de obras nos moldes de Paris,que contemplava trs aspectos: a modernizao do porto, o saneamento da cidade e a reforma urbana.

Universidade Estadual de Marin

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