quando finalmente encontramos - .não sou uma pessoa. sou só uma ... ouvir o que eu estou a dizer?

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  • Quando finalmente encontramos aquilo de que estvamos procura nas trevas,

    quase sempre descobrimos que era exatamente isso.Trevas.

    C.G. Reinhart, polcia

  • I

    Sbado, 5 de outubro

    Sexta-feira, 22 de novembro

  • 9

    1

    A cordou e no conseguiu lembrar-se do seu prprio nome.Tinha dores em todo o corpo. Flechas de fogo rodopiavam--lhe na cabea, na garganta, no estmago e no peito. Tentou engolir, mas no passou da tentativa. Tinha a lngua colada ao palato macio. Ardia-lhe, como se fosse feita de cinzas ainda quentes.

    Os olhos latejavam. Ameaavam sair-lhe das rbitas. como quando nascemos, pensou. No sou uma pessoa. Sou s uma

    massa de sofrimento.

    O quarto era feito de escurido. Estendeu a mo livre, a que no estava dor- mente e na qual sentia agora um formigueiro, e comeou s apalpadelas.

    Sim, havia uma mesa de cabeceira. Um telefone e um copo. Um jornal. E um despertador.

    Pegou nele, mas, a meio caminho, o despertador escorregou-lhe por entre os dedos e caiu no cho. Procurou-o com a mesma mo, agarrou-o e levantou-o, at altura do rosto.

    Os ponteiros eram vagamente luminosos. Reconheceu-os.Oito e vinte. Da manh, presumivelmente.E ele no fazia a menor ideia de onde se encontrava.

    ***

  • 10

    hkan nesser

    No lhe parecia que isto j tivesse acontecido antes. Decerto que j se havia levantado da cama sem saber onde se encontrava. Ou que dia era. Mas o nome... Alguma vez o esquecera?

    John? Janos?No, mas era qualquer coisa assim.O nome estava algures num recanto, e no apenas o nome, mas

    tudo o resto... A vida e o estilo de vida e circunstncias to extenuan-tes. Escondidas, espera dele. Atrs de uma fina membrana que teria de ser perfurada, algo que ainda no despertara. Mas ele no se sentia muito preocupado. Em breve o saberia.

    Talvez fosse algo que no desejasse.

    A dor de cabea piorou de repente. Talvez fosse do esforo de pensar. De qualquer modo, estava bem presente, fosse por que mo-tivo fosse. Era como um ferro em brasa, terrivelmente doloroso. Era como se a prpria carne lhe berrasse. E nada mais lhe importava.

    A cozinha ficava esquerda e parecia-lhe familiar. Encontrou facilmente os comprimidos. Comeava a ter cada vez mais a cer-teza de que esta era a sua prpria casa. Tudo se esclareceria a qualquer momento, sem dvida alguma.

    Retrocedeu at ao corredor. Deu um pontap numa garrafa que ficara na sombra de uma estante. A garrafa rolou pelo cho de parquet e foi parar debaixo do aquecedor. Arrastou-se at casa de banho. Rodou a maaneta.

    A porta estava trancada.Inclinou-se para a frente, cambaleante. Ps as mos nos joelhos,

    para se apoiar melhor, e olhou para o indicador do fecho.No vermelho. Ocupada, como pensara.Sentiu a blis a subir-lhe para a garganta. Abre... Tentou gritar mas no conseguiu mais do que emitir

    um grasnido. Encostou a testa madeira fria da porta. Tentou outra vez. Abre! Desta vez quase conseguiu produzir os sons certos. Para sublinhar a gravidade da sua situao, bateu vrias vezes na porta com o punho fechado.

  • 11

    o olhar da mente

    No teve resposta. Nem um som. Quem quer que ali estivesse no dava mostras de tencionar deix-lo entrar.

    Sentiu um novo movimento brusco no estmago. Ou talvez mais abaixo... J era, obviamente, uma questo de segundos. Arrastou-se pelo corredor, de regresso cozinha.

    Desta vez pareceu-lhe tudo muito mais familiar. mesmo a minha casa, pensou, enquanto vomitava no lava-loua.

    Com a ajuda de uma chave de parafusos, conseguiu destrancar a porta da casa de banho. E sentiu, distintamente, que no era a pri-meira vez que o fazia.

    Desculpa, mas tinha mesmo de fazer isto... Entrou e, ao acender a luz, teve a certeza de quem era.E tambm pde identificar a mulher deitada na banheira.Chamava-se Eva Ringmar e era, desde h trs meses, sua mulher.O corpo mostrava-se estranhamente retorcido. O brao direito

    dela pendia da borda num ngulo que no era natural. As unhas, revelando um bom trabalho de manicura, tocavam no cho. O cabelo preto flutuava na gua. Tinha o rosto voltado para baixo e, estando a banheira cheia at borda, no podia haver qualquer dvida de que ela morrera.

    E ele chamava-se Mitter. Janek Mattias Mitter. Era professor de Histria e Filosofia na Escola Secundria de Bunge, em Maardam.

    Era informalmente conhecido por JM.Depois destas revelaes voltou a vomitar no lavatrio. A seguir

    tirou mais dois comprimidos e telefonou para a Polcia.

  • 12

    2

    A cela, em forma de L, era verde. A mesma tonalidade em todo o lado: paredes, cho e teto. Uma mera sugesto de luz do dia penetrava atravs de uma pequena janela junto ao teto, numa das paredes. noite podia ver uma estrela.

    Havia um canto para a higiene, com um lavatrio e uma retrete. Uma cama presa parede. Uma mesa bamba, com duas cadeiras. Um candeeiro no teto. Outro na mesa de cabeceira.

    O resto eram rudos e silncio. E o cheiro do seu prprio corpo.

    O advogado chamava-se Rger. Era alto, assimtrico e coxeava da perna esquerda. Tanto quanto Mitter conseguia perceber, estaria na casa dos 50 anos, sendo pouco mais velho do que ele. Podia ter conhecido o filho dele na escola. At o podia ter tido como aluno. Um jovem plido, com um rosto cheio de borbulhas e longe de ser o mais inteligente dos alunos, academicamente, se bem se lembrava. Oito ou dez anos antes.

    Rger estendeu-lhe a mo. Apertou a que Mitter tambm lhe ofe-receu, com fora e demoradamente, fitando-o com uma expresso sria e, ao mesmo tempo, benevolente. Para Mitter era evidente que ele frequentara um tipo de curso qualquer sobre o relacionamento advogadocliente.

  • 13

    o olhar da mente

    Janek Mitter?Mitter acenou afirmativamente com a cabea. Uma coisa horrvel. Rger desembaraou-se do sobre-

    tudo. Sacudiu-o da gua e pendurou-o no gancho junto porta. O guarda deu duas voltas chave antes de se afastar pelo corredor fora.

    L fora est a chover. Est-se melhor aqui dentro, para dizer a verdade. Rger tirou um mao de cigarros do bolso do casaco. Tire os que quiser. No compreendo porque que nem sequer o deixam fumar.

    Rger sentou-se mesa e deps nela a sua pasta de cabedal fina. Mitter acendeu um cigarro, porm, manteve-se de p.

    No se senta? No, obrigado. consigo.Rger abriu um dossi castanho. Tirou algumas pginas impres-

    sas e um bloco de notas. Ps e tirou, por vrias vezes, a tampa de uma esferogrfica, com os cotovelos apoiados na mesa.

    Isto horrvel, como lhe disse. Quero que fique completa-mente ciente de como esto as coisas, desde o primeiro momento.

    Mitter ficou espera. Tem uma srie de coisas contra si. por isso que importante

    que seja sincero comigo. Se no tivermos plena confiana um no outro, no serei capaz de o defender to bem como... Bem, est a ouvir o que eu estou a dizer?

    Sim. Parto do princpio de que no deixar de dar a conhecer o seu

    ponto de vista... Ponto de vista? Sobre como deveremos proceder. Eu delinearei as estratgias,

    naturalmente, mas voc que est na ponta da navalha. Tanto quanto percebo, voc um homem inteligente.

    Estou a compreender. timo. Quer contar-me o que aconteceu, ou prefere que eu

    faa perguntas?

  • 14

    hkan nesser

    Mitter esmagou o cigarro no lavatrio e sentou-se mesa. A nico-tina pusera-o um pouco tonto e, de repente, sentiu-se assoberbado por uma sensao de exausto.

    Sentia-se cansado. Da vida. Do advogado corcunda que tinha sua frente, da cela, incrivelmente feia, do sabor desagradvel na boca e de todas as inevitveis perguntas e respostas que o aguardavam.

    Extremamente exausto. J falei com a Polcia. No tenho feito outra coisa nos dois dias

    que aqui passei. Eu sei, mas tenho de lhe pedir para fazermos isto mais uma

    vez. uma parte essencial do jogo, como decerto compreende.Mitter encolheu os ombros. Tirou outro cigarro do mao, antes

    de responder: Penso que seria melhor se fizesse perguntas.O advogado recostou-se na cadeira e inclinou-a para trs, ajus-

    tando o bloco de notas no joelho. A maior parte dos advogados usa gravador, mas eu prefiro

    tomar notas explicou. Penso que cria menos tenso no cliente...

    Mitter acenou afirmativamente com a cabea. Alm disso, eu tenho acesso s gravaes da Polcia, se precisar

    delas. De qualquer modo, antes de comearmos com os porme nores, tenho de lhe fazer a pergunta obrigatria. Vai ser, provavelmente, acusado do homicdio, pelo menos involuntrio, da sua mulher, Eva Maria Ringmar. Perante isso, como que tenciona declarar-se? Culpado ou inocente?

    Inocente. timo. No deve haver dvidas relativamente a esse ponto.

    Nem da sua parte nem da minha. Rger fez uma pausa e fez a esferogrfica rolar por entre os dedos. H alguma dvida?

    Mitter suspirou. Tenho de lhe pedir que responda minha pergunta. Tem a

    certeza absoluta de que no matou a sua mulher?Mitter ficou em silncio por alguns segundos, antes de res-

    ponder. Tentou perscrutar o olhar do advogado numa tentativa de

  • 15

    o olhar da mente

    deduzir o que ele realmente pensava, mas em vo. O rosto de Rger era to inescrutvel como uma pedra.

    No, claro que no tenho a certeza. Sabe-o bem.O advogado tirou notas. Dr. Mitter, tenho de pedir-lhe que no considere o facto de eu

    ter lido a transcrio do seu interrogatrio. Tem de fazer de conta que est agora a contar-me a sua histria pela primeira vez. Tente colocar-se nessa situao.

    que no me lembro. Sim, eu percebi que no se lembra do que aconteceu. por

    isso que devemos ser meticulosos sobre a necessidade de comear-mos pelo princpio. A sua memria no despertar se no tentar vol-tar a essa noite. E sem qualquer tipo de preconceito. Est de acordo?

    E o que que acha que

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