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versos de carlos peres feio já publicados entre 2003 3 2008.

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  • 2

    Ttulo: PSM DOIS

    Autor : carlos peres feio

    Capa: Chinesa do Norte Produes sobre desenho de carlos peres feio

    carlos peres feio e chinesa do norte produes , Maio 2008

    Composio, paginao, impresso: chinesa do norte produes, lda Depsito n : 0022305/08

  • 3

    embora irreparvel, porque do que se passou

    no h registos

    fao fora de prazo esta declarao

    de uma saudade grande

    de um amor maior.

    carlos peres feio, in PSM - UM

    por fim sou mais

    do que as clulas permitem

    e o mundo que cabe em mim

    carlos peres feio, in PSM, 15-2-2008

  • 4

    A um anjo

    quando noto que fugimos na bruma

    somos ciganos da longnqua Turquia

    com violinos que nos perseguem

    em sons doces como tmaras

    procuro sempre sonhar contigo, acordado.

    quando tenho tua mo em mim

    sonho mais fundo

    a tua mo a entrada para um outro mundo (1996)

  • 5

    avio de brincar

    as mos que dobram

    folhas de papel

    e as transformam

    em avies de brincar

    feiticeiras com poder

    da transformao

    de um dever

    em prazer imenso

    so as mesmas

    que curam

    pois passando na minha fronte

    removem o negro

    do tdio

    e lanam-me

    no espao do teu cu

    onde sou

    avio de brincar (2001)

  • 6

    natureza

    a minha verdadeira natureza

    no o que parece

    circulo em automtico

    lubrificado

    esquecido de mim

    a minha verdadeira natureza

    encontro-a de vez em quando

    vagueando por Lisboa

    ou outro stio.

    que alegria!

    ento sou eu.

    vejo os detalhes, alm de os olhar,

    reconheo-me,

    sou eu e sinto

    as razes debaixo dos ps.

    mais fraco que h vinte

    anos

    fico com fora para

    percorrer Lisboa

    e o planeta

    ls-a-ls (2006)

  • 7

    da passagem

    felicidade da passagem

    esse fluxo que atravessa as pedras e o tempo

    essa vaga que deixa rasto.

    nos momentos solares

    nas construes de ausncia,

    felicidade, esse factor elevado e subtil

    por vezes mscara de Veneza,

    sempre irreconhecvel.

    quando temos nossa mo

    na sua cintura,

    felicidade,

    sem medida sem forma

    poder finalmente ser,

    tudo o que j fomos? (2006)

  • 8

    testamento

    quando me cortaram a carne

    tive que me reinventar

    ento, porqu o mesmo?

    volto mas sou outro

    deixei pouco para trs

    tenho tanto em frente

    desta vez

    saberei arrumar gavetas vitais

    bom vai ser

    comear do fundo

    o jogo ser

    ter esperana sem futuro

    arquivar o que foi feito

    mostrar a escrita em falta

    palavras soltas no vento

    testamento sem herdeiros

    (2006)

  • 9

    territrio da mente

    viagem pelo territrio da mente

    meta onde a memria deixa

    pousar ainda que brevemente

    queixas com razo de queixa

    a paisagem deste verde alemo

    impregnado de Saxnia

    motor da vontade

    de viver um pouco mais

    no impede o progresso

    da dor que vem do fundo

    misturada com sons musicais

    das canes que agravam

    quer o bem

    quer o mal

    essa dor profunda

    que consome

    o verde e o sol dos campos

    desta terra,

    deixa-nos para sempre

    no azul de Cascais

    a memria de quem

    merecia viver mais. (1998)

  • 10

    pontos brilhantes

    deixa-me mostrar como vejo as coisas

    temos o que nos rodeia,

    algo mais l em cima

    no negro iluminado pelas estrelas,

    s elas contam

    uns sabem de mar

    de grandes espaos

    de verde disperso em folhas

    outros do pano de fundo sem fim

    onde moram os pontos brilhantes

    tambm devemos atender

    quem no olha o cu nas noites de lunrio

    mas traz a lua dentro de si

    sem saber

    existe a pessoa que ilumina a noite

    pela vontade de entrega

    do amor intenso

    de um corao infeliz

    vejo as coisas assim,

    e coloco-te na morada que mereces

    entre os pontos brilhantes. (2006)

  • 11

    ondulado dos montes

    preciso ter velocidade

    para perceber os montes ondulados

    quando parados

    so volumes que nos lembram

    quem vai

    quem fica, quem no existe

    partida

    vi-te afastar

    sem acreditar.

    teu cheiro

    deixou-se atrasar.

    da balada que entoavas

    ficaram notas pousadas

    nos parapeitos

    pintados de verde

    muito escuro

    (ou escureceram

    quando partiste)

  • 12

    tentei chorar

    percebi

    que a comoo seca,

    escurece,

    torna o complicado

    simples

    ter-te no era fcil

    penso agora

    bom seria acompanhar-te

    mas no estado de simplicidade

    em que fui deixado

    agora a srio:

    tens meia hora

    para voltares!

    desconheces que

    a contagem decrescente comeou

    h muito

    tinhas um quarto de hora

    mas ignoravas.

    j no tens tempo algum.

    ao dizer-te isto

    esgotei-me.

    ficas com todo o tempo do mundo,

    deste mundo

    com montes ondulados.

    (1999)

  • 13

    imaginao em verde

    durante uma viagem

    concreta com paisagens

    perdi a viso das coisas

    uma luz fortssima

    tornou tudo branco

    preparando o mergulho

    no profundo negro

    pensei: ora s mais uma inconscincia

    o que se desenhou

    vindo do negro

    nada tinha a ver!

    fragmentos de passado

    colados

    sobe o pano verde

    da esperana

    formaram

    um quadro irreal

  • 14

    com um p no cho

    outro no sonho

    ainda identifiquei

    a lua

    fiz um grande esforo

    para abrir os olhos cansados

    e focar o pensamento

    era o fim da viagem

    sem qualquer gravura

    restava o verde. (2004)

  • 15

    mexe comigo

    mexe comigo imaginar-te

    e de mexer no paro.

    mexe comigo receber teus escritos

    imaginando tuas ideias fixas

    mexe comigo teu provocar respostas

    mexe comigo tua oculta imagem

    onde te vejo para l dos espelhos

    tambm mexe comigo

    tua poesia tua escrita mexe comigo o desenho dos teus cabelos

    nas tuas fotos

    mexe comigo o meu desejo de ti

    acrescentado ao que de ti emana

    conhecer-te foi meu Destino. (2006)

  • 16

    alimentar o sonho

    alimentar o sonho

    sem o contaminar

    com reflexos que nos ceguem

    acreditar ainda ser possvel

    uma total entrega

    s difceis palavras

    faz-las chegar

    ao bom porto

    de uma alma nobre

    assistir entre a multido

    ao seu voltar da cabea

    ter os olhos nos olhos

    a minha misso

    impossvel (2006)

  • 17

    informao

    a m

    influncia que temos

    sobre ns prprios

    pode ser curada

    pelo remdio do passado

    agora

    s devo escrever

    o que me passa

    pela cabea

    sem qualquer outra

    considerao

    se uma seta

    me atingir em qualquer momento

    quero estar bem (1985)

  • 18

    Crebro

    o crebro humano

    essa mquina mais antiga que o arado

    ideia que vem do escuro para a luz

    perdida por vezes no percurso

    onde tudo se passa

    esse responsvel por poetas e carrascos

    devia ser o nico projecto da humanidade

    cruzada para o tornar bom

    mas ele prprio determinou

    o objectivo ltimo de ser medocre

    deixando ao computador

    a tarefa possvel

    de um dia atingir

    bondade e perfeio. (2006)

  • 19

    no existes

    (para ouvir com Chopin em fundo qualquer pea)

    tu no existes

    mas Chopin tambm no

    amo os dois de maneira diversa

    mas esforada

    respiro o ar da noite

    sinto Lisboa ao longe

    mas a cidade no existe

    tudo aquilo de que gosto

    s existe no engarrafamento

    dos sentimentos no meu crebro

    azinheira pinheiro e castanheiro

    passam a ser locais onde me acolherei

    faa sombra ou abrigo

    para me sentir protegido

    pelas arvores e por quem as inventou

    de vero lembrarei sempre a oferta

    para meu resguardo

    de inverno pedirei que um raio me atinja

    para morrer em xtase

    ser a nica maneira de num segundo

    lembrar todos os beijos recebidos

    numa fraco sentir como final

    um beijo raio de luar (2006)

  • 20

    os teus versos

    (nota de culpa)

    ao l-los senti que se despistavam

    saiam da rota

    sem traves

    ou inibies

    vieram berma

    levantaram poeira adormecida

    e derraparam

    contigo aos comandos

    em alta rotao

    sem sinais de travagem

    entraram em terreno semeado

    de sonho

    eu estava sentado

    na zona claro-escuro

    sem caminho de fuga

    fui por eles arrasado

    deste incidente marcou-me

    o foco do teu olhar

    aceso no escuro

    apontado ao firmamento

    nessa noite com estrelas (2000)

  • 21

    estragos em trnsito

    histria aluada

    viagem sem rumo por pases inventados

    sempre achei os dirios de viagem

    tbuas preciosas

    condio de exploradores

    afirmo at

    sem