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  • Psicologia.pt

    ISSN 1646-6977 Documento publicado em 22.10.2017

    Renato Caio Silva Santos Lucas Matheus Grizotto Custdio

    1 Siga-nos em facebook.com/psicologia.pt

    PSICO ONCOLOGIA PEDITRICA E DESENVOLVIMENTO:

    CONSIDERAES TERICAS SOBRE O ADOECIMENTO E

    OS LUTOS DECORRENTES DO CNCER INFANTIL

    2017

    Renato Caio Silva Santos

    Professor de Psicologia Universidade Metodista de So Paulo, Brasil

    Mestre em Cincias e Sade Pblica FSP USP, Brasil

    Especialista em Neuropsicologia Faculdade de Cincias Mdicas da Santa Casa de So Paulo, Brasil

    Especialista em Sexualidade Humana - Faculdade de Medicina da USP, Brasil

    Aprimoramento em Psicologia Hospitalar Instituto de Infectologia Emlio Ribas, Brasil

    Lucas Matheus Grizotto Custdio Psiclogo FMU-SP, Brasil

    E-mail de contato:

    psico_resantos@yahoo.com.br

    RESUMO

    Este artigo terico objetiva compreender e analisar o desenvolvimento do luto vivido tanto

    pelos familiares quanto pela criana hospitalizada. Considera-se que a situao de adoecimento

    implica ao paciente a elaborao de um processo de luto, seja pela sua vida antiga, ou pela perda

    de atributos fsicos, intelectuais e sociais. Entretanto, todo esse processo pode ser amenizado

    atravs do fornecimento de certas condies que mantenham a possibilidade de um

    desenvolvimento saudvel, tais como: presena e afeto de familiares, disponibilidade afetiva por

    conta dos trabalhadores da sade, fornecimento de informaes relativas ao tratamento para a

    criana, atividades recreacionais, entre outras. Com base nisso, pretende-se mostrar a importncia

    de trabalhar o processo de luto, tanto em quem est doente, quanto a famlia do paciente.

    Palavras-chave: Cncer infantil, cuidados paliativos, desenvolvimento humano, psicologia

    hospitalar, luto.

    Copyright 2017.

    This work is licensed under the Creative Commons Attribution International License 4.0.

    https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/

    https://www.facebook.com/psicologia.ptmailto:psico_resantos@yahoo.com.brhttps://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/

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    INTRODUO

    Toda doena um capitulo na biografia de um individuo, e, de certa forma, apresenta um

    sentido na histria da pessoa, que dado, conforme as determinantes histricas da vida

    emocional do paciente. Alm do risco da morte, o paciente vivencia diversos lutos decorrentes da

    doena e das perdas advindas desta.

    O cncer uma doena que se destaca para alm das outras, devido premissa popular de

    significado de morte. Possivelmente, devido a esta crena, o cncer quase sempre atribudo a

    uma doena de adultos. Em todas as fases da vida, porm principalmente na infncia, o

    diagnstico de cncer vivido como uma enfermidade cruel e secreta. Uma fatalidade que

    elimina o futuro e aproxima a criana de uma possibilidade de morte completamente inesperada.

    Derivado da palavra grega Karkinos (caranguejo), a simbologia ao redor da morte notada,

    inclusive, na etiologia da palavra cncer. Esta associao entre a doena e o caranguejo, feita

    primeiramente por Hipcrates - pai da medicina, foi usada devido descrio das tumoraes

    que pareciam invadir os tecidos vizinhos, de modo parecido com as patas de um crustceo. Este

    animal, de carter noturno e que vive quase sempre em profundidade e invisvel, se desloca de

    maneira rpida e caracterstica: de lado, mal coordenado e imprevisvel. Quando aprisiona uma

    presa, o caranguejo apodera-a em suas presas e a tortura at a morte.

    CNCER INFANTIL

    O termo cncer utilizado genericamente para representar um conjunto de mais de 100

    doenas, incluindo tumores malignos de diferentes localizaes, que tm em comum, o

    crescimento desordenado de clulas, que invadem tecidos e rgos, podendo espalhar-se para

    outras regies do corpo. De acordo com estimativa realizada pelo Instituto Nacional de Cncer

    (INCA), no binio 2008/09, seriam diagnosticados cerca de 9.890 casos por ano em crianas e

    adolescentes com at 18 anos de idade (INCA, 2008).

    No mbito mundial, o cncer representa de 0,5% a 3% de prevalncia entre as crianas, se

    comparadas populao em geral. No Brasil, a partir dos dados obtidos do registro de cncer de

    base populacional, observou-se que o cncer infantil varia de 1% a 4,6%. Nos Estados Unidos, o

    cncer infantil est entre as principais causas de mortalidade na faixa etria de 1 a 14 anos,

    enquanto que no Brasil as neoplasias malignas apresentam-se como terceira causa de morte,

    sendo superadas por mortes decorrentes de causas externas e acidentes. No Estado de So Paulo,

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    essas estatsticas mudam uma vez que os tumores so a primeira causa de bito entre 5 e 14 anos

    (Borges et al, 2009).

    Andra (2008) relata que, os tumores infantis se diferenciam dos adultos, pois, enquanto as

    neoplasias infantis tm origem nos folhetos embrionrios, mesoderma (leucemias, linfomas,

    tumores renais e sarcomas) e ectoderma (no sistema nervoso central e sistema nervoso

    simptico), os tumores adultos, tm, em sua grande maioria, origem no ectoderma ou endoderma

    (carcinomas, tumores de mama, do colo do tero, estmago, intestino e pulmo).

    Entre as crianas, os tipos mais freqentes de neoplasias so as leucemias, tumores do

    sistema nervoso central, neuroblastomas, tumor de Wilms, tumores sseos e os linfomas. A

    leucemia o mais comum entre menores de 15 anos, principalmente a leucemia linfoctica aguda

    (LLA). Os tumores do sistema nervoso central tm como seus tipos mais comuns o astrocitoma e

    o meduloblastoma; predominam no sexo masculino, ocorrem principalmente em crianas

    menores de 15 anos, com um pico de idade de 10 anos, e representam cerca de 20% dos tumores

    infantis. Os linfomas so responsveis pelo terceiro tipo de neoplasias malignas peditricas, com

    destaque para o no Hodgkin (Valle & Ramalho, 2008; Mutti, Paula & Souto, 2010).

    Do ponto de vista clnico, os tumores peditricos apresentam menores perodos de latncia,

    e em geral, crescem rapidamente e so mais invasivos. Porm, respondem melhor ao tratamento e

    so considerados de bom prognstico. Atualmente, 70% das crianas acometidas de cncer

    podem ser curadas se diagnosticadas precocemente, e se tratadas em centros especializados. A

    melhora das taxas de sobrevida e cura das neoplasias da infncia reflexo, sobretudo do

    diagnstico precoce, e do avano na descoberta e implementao dos medicamentos oncolgicos

    (INCA, 2010).

    O tratamento dos tumores infantis compreende trs modalidades principais: a quimioterapia

    - uso de substncias qumicas para o tratamento de doenas causadas por agentes biolgicos, a

    radioterapia - uso teraputico das radiaes ionizantes, e a cirurgia. Cada uma dessas

    modalidades aplicada de forma individual, de acordo com a extenso da doena e do tipo de

    tumor. Entretanto, dificilmente um paciente passa ileso pelo tratamento.

    De acordo com Lopes, Camargo e Bianchi (2000) e Perina, Mastelaro e Nucci (2008), com

    o aumento da taxa de sobreviventes de cncer, se tornaram capazes os estudos que visam o

    impacto dos efeitos tardios do tratamento na qualidade de vida dos pacientes. Alm dos

    comprometimentos fsicos como, problemas de crescimento e hipotireoidismo, devido

    radioterapia, insuficincia renal, cardimiopatia e perda da audio, devido quimioterapia, os

    indivduos com histrico de cncer na infncia apresentam 10 a 20 vezes maior risco de

    desenvolvimento de um segundo cncer em relao populao geral. De fato, 3 a 12 % das

    crianas desenvolvem novos tumores nos primeiros 20 anos. Os autores tambm relatam uma

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    piora da funo psicolgica, que pode ser secundria a toxicidade do tratamento ou atribuda a

    desmotivao por perda de energia, e uma diminuio do desempenho escolar e social, que

    podem resultar de dficits neuropsicolgicos atribudos toxicidade da quimioterapia ou do

    isolamento que o paciente sofreu durante a doena e seu tratamento.

    Aps o trmino do tratamento, os acompanhamentos mdicos e retornos ao hospital so

    freqentes, principalmente nos dois primeiros anos. As chances de recada da doena vo se

    tornando menores na medida em que os anos passam, sendo que os maiores ndices de recada

    ocorrem no primeiro ano ps tratamento. Esses retornos servem no somente para verificar se a

    doena est controlada, mas tambm, para verificar e reparar os possveis danos causados pelo

    tratamento. Hoje o cncer considerado uma doena crnica, o que resulta grande numero de

    pacientes curados ou vivendo muitos anos com a doena, podendo control-la e tratando os

    sintomas.

    A CRIANA HOSPITALIZADA

    Como j abordado, o paciente oncolgico, independente de sua idade, confronta-se, a partir

    do momento do diagnstico, com uma nova realidade, experienciada at ento, somente por

    outras pessoas. Com o i

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