Padre cicero poder fe e guerra - lira neto

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1. DADOS DE COPYRIGHT Sobre a obra: A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudos acadmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. expressamente proibida e totalmente repudavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente contedo Sobre ns: O Le Livros e seus parceiros, disponibilizam contedo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educao devem ser acessveis e livres a toda e qualquer pessoa. Voc pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Info ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link. Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutando por dinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo nvel. 2. PADRE CCERO 3. PADRE CCERO PODER, F E GUERRA NO SERTO LIRA NETO 4. Para Renato Casimiro, meu generoso cicerone pelas histrias, pelejas e caminhos do Cariri. 5. H muito acredito que o realismo fantstico Gay Talese 6. SUMRIO PRLOGO Nos bastidores do Vaticano, o futuro papa Bento XVI planeja redimir um padre maldito 2001-2006 Livro Primeiro A Cruz 1. preciso dar um basta anarquia: padres vivem amancebados, lobisomem corre solto no serto 1844-1870 2. Viso da ltima Ceia muda rumo da histria: Belzebu no samba mais no Juazeiro 1871-1889 3. Mistrios no povoado perdido:hstia vira sangue, beata fala com Jesus 1889 4. Beata sangra as chagas de CristoUns dizem que graa de Deus; outros, ardileza de Satans 1890-1891 5. Bispo decreta investigao:Deus sairia da Europa para fazer milagres no agreste? 1891 6. Comissrios do bispo diante da dvida:esse povo enlouqueceu ou se abriram mesmo as portas do Cu? 1891 7. Bispo contesta inqurito: Deus no saltimbanco, santa no mostra lngua a ningum 1891 8. Diocese confisca os paninhos manchados de sangue:Mandaremos pelos ares esse Juazeiro 1892 9. Padre anuncia o fim do mundo: o serto vai repetir a maldio de Sodoma e Gomorra? 1892-1893 10. A Inquisio profere veredito. Qual alucinado ousar discordar do Vaticano? 7. 1893-1895 11. Cinco cabras armados tentam matar o padre rebelde. Devotos clamam pelo Anjo da Vingana 1895-1897 12. Autoridades em polvorosa: o herege do Juazeiro est mancomunado com o luntico de Canudos? 1897-1898 13. Inquisidores interrogam padre ameaado de excomunho. Mas ele quer confabular com o papa 1898-1899 Livro Segundo A Espada 1. Sacerdotes juntam os cobres: com quantos contos de ris se compra um bispado? 1900-1908 2. Padre endiabrado convoca povo para a guerra: Rifle, mais rifle e muito rifle! 1908-1910 3. Aldeia proclama independncia. Paninhos manchados de sangue viram objeto de barganha 1910-1911 4. Quem bebeu no beba mais, quem roubou no roube mais, quem matou no mate mais 1911-1913 5. Mil homens armados iniciam o assalto ao Juazeiro: hora de tocar fogo neste covil! 1913 6. Moedas de bronze so derretidas para fabricar a arma mortal: o canho da Besta-Fera 1913-1914 7. Uma guerra santa tinge de sangue o cho sertanejo:Por meu Padim, vou int pro Inferno 1914 8. Cangaceiro tempera cachaa com os beios do inimigo morto. O que falta para o fim do mundo? 1914-1916 9. Devotos no entendem aquele novo estrupcio: o Padim mandou acabarem as romarias 8. 1916-1920 10. Em nome do progresso, um boi sagrado condenado morte em praa pblica 1920-1926 11. O dia em que Lampio foi convocado para fazer guerra Coluna Prestes 1926 12. O velho padre est quase cego. Mas encontra foras para advertir: Getlio Vargas mensageiro de Satans 1927-1932 13. Cego, atormentado pelas dores, o padre agoniza 1933-1934 EPLOGO Uma nova guerra santa declarada no serto: O padre Ccero antivrus contra evanglicos 2009 CRONOLOGIA AGRADECIMENTOS BIBLIOGRAFIA 9. PRLOGO Nos bastidores do Vaticano, o futuro papa Bento XVI planeja redimir um padre maldito 2001-2006 So nove horas da manh. Como faz todos os dias, o cardeal alemo Joseph Ratzinger, 74 anos, atravessa a p a praa de So Pedro, no corao da Santa S. De batina preta, boina de feltro escuro sobre os cabelos muito brancos, o proeminente telogo ainda no atende pelo nome de Bento XVI. Mas j reconhecido como o mais poderoso interlocutor de Sua Santidade, o papa Joo Paulo II. Ratzinger percorre com passos firmes o caminho de paraleleppedos e, diante do porto de ferro do palcio do Santo Ofcio, recebe a habitual continncia dos dois soldados da guarda sua. Reverentes, estes lhe abrem passagem, com os caractersticos uniformes coloridos em azul, vermelho e amarelo. Aqui, visitantes ocasionais no so bem-vindos. Transposto o prtico principal, chega-se s dependncias da Congregao para a Doutrina da F como desde 1967 passou a ser denominado o Santo Ofcio, mais anteriormente conhecido pelo nome original, que fazia tremer a alma dos acusados de heresia: Inquisio Romana. No interior daquelas paredes de pedra, em pleno sculo XXI, ainda existe um tribunal religioso encarregado de julgar os que professam opinies divergentes das consideradas oficiais pela Igreja. Na condio de prefeito da Congregao, o equivalente contemporneo ao cargo de inquisidor-geral, cabe a Joseph Ratzinger o papel de guardio da ortodoxia catlica. Por isso, alguns dos segredos mais caros ao Vaticano so conduzidos na velha valise de couro negro que ele sempre leva mo direita. Ali vo a agenda de despachos e os documentos para o expediente do dia. No escritrio, em cima da vasta mesa de trabalho, a pilha de papis oficiais com o timbre da Santa S divide espao com um crucifixo de ouro, uma luminria, um porta-lpis e um pequeno calendrio. Neste ltimo, v-se a indicao: a primavera de 2001. O cardeal, sentado em sua cadeira estofada de espaldar alto, prepara mo o esboo de uma carta que ser enviada em carter reservado Nunciatura Apostlica do Brasil. A correspondncia diz respeito a um delicado tema: a pertinncia de uma possvel reabilitao cannica de um sacerdote brasileiro falecido em 1934, aos noventa anos de idade. Algum que levou para o tmulo o estigma de ter sido um proscrito da Igreja. Um clrigo julgado e condenado como insubmisso, contra o qual os inquisidores da poca decretaram a pena de excomunho. Um reverendo maldito, que a despeito disso continua a arrebanhar milhes de peregrinos e devotos, incansveis perpetuadores de sua memria: o padre Ccero Romo Batista. 10. O diligente Joseph Ratzinger, claro, tem notcia dos cerca de 2,5 milhes de fiis que acorrem todos os anos a Juazeiro do Norte, cidade localizada a 520 quilmetros de Fortaleza, no interior do Cear. O nmero de peregrinos que chegam ao local onde viveu padre Ccero, de fato, impressiona. como se metade da populao de uma metrpole como Roma se deslocasse em massa, anualmente, para reverenciar um sacerdote banido das hostes da Igreja. Em Juazeiro, a multido compacta paga promessas, acende velas, renova a f, faz novos pedidos e invoca a proteo de seu guia espiritual. No topo da serra que avizinha a cidade, foi erguida uma imagem gigantesca de padre Ccero, com 27 metros de altura, uma das dez maiores esttuas crists de concreto das Amricas. Prximo capela onde est enterrado o corpo do reverendo, na chamada Casa dos Milagres, o testemunho das centenas de milhares de graas alcanadas arrebatam o olhar de quem chega porta. So os chamados ex-votos: fotografias e esculturas de madeira, cera ou barro, que reproduzem partes do corpo humano. Pernas, braos, mos, cabeas. Muitas cabeas. Foram deixados ali por doentes terminais que juram ter recuperado a sade, aleijados que afirmam ter voltado a andar, cegos que dizem enxergar de novo, loucos que asseguram ter recuperado o juzo. Para toda essa gente, padre Ccero o santo milagreiro, devidamente canonizado pela devoo popular, embora proibido de entrar nos altares oficiais. Difcil encontrar uma casa no serto nordestino na qual no exista uma imagem de padre Ccero. Retratado sempre com o cajado, o chapu e a batina, ele parece onipresente entre os sertanejos. Em Juazeiro, mais ainda. Ele est na fachada das lojas, dos supermercados, dos cartrios, das bodegas, dos comits eleitorais. Esttuas de Ccero de gesso e em tamanho natural adornam at mesmo as agncias das grandes redes bancrias instaladas na cidade. Ele s no est nas igrejas. Para o Vaticano, tal venerao tem se tornado ainda mais eloquente diante da constatao de que a cada ano o catolicismo perde milhares de adeptos no Brasil. Segundo clculos insuspeitos da prpria Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a sangria de fiis considerada alarmante. O pas, na verdade, ainda continua sendo a maior nao catlica do mundo. Mas a ltima dcada assistiu queda vertiginosa no percentual de catlicos brasileiros, enquanto o contingente de evanglicos se multiplicou em idntica proporo. Em ltima anlise, deixar que o culto a padre Ccero permanea margem da liturgia significa negar o acolhimento pastoral a toda uma preciosa legio de devotos. Ratzinger sabe disso. Vigilante como sempre no desempenho de sua funo, ele tem plena cincia da fora do mito em torno do chamado Patriarca do Juazeiro. bvio que o prefeito da Congregao para a Doutrina da F no desconhece tambm as graves acusaes histricas que recaem sobre o homem Ccero Romo Batista. Elas no so poucas. Quando reunidas, constituem notrios obstculos ideia de anistiar, post mortem, as penas que foram impostas ao padre, em vida, pelo Tribunal do Santo Ofcio. A primeira incriminao que incide sobre Ccero a de ter sido ele um mistificador, um aproveitador das crenas do povo mais simples, um semeador de fanatismos. Homem de ideias religiosas pouco ortodoxas, leitor de autores msticos, dado a ver almas do outro mundo e defensor de milagres no endossados pelo Vaticano, Ccero estaria mais prximo da superstio do que da f, disseram dele os muitos adversrios que colecionou no meio do prprio clero. Decorre da 11. outra incriminao, ainda mais incisiva: a de que nas vezes em que fora repreendido por seus superiores eclesisticos agira como um rebelde e cara em desobedincia. Na rgida hierarquia clerical, desobedecer a um superior constitui pecado gravssimo. Almas indceis autoridade de bispos e cardeais no vo para o Cu, assim determina a lei da Igreja. A discutida relao de Ccero Romo Batista com jagunos e cangaceiros tem sido outro entrave possvel anistia cogitada por Ratzinger. Como absolver das penas do Tribunal do Santo Ofcio um padre sobre cujas costas os detratores jogam a responsabilidade pela concesso da patente de capito ao mais feroz de todos os bandoleiros nordestinos, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampio, em troca do compromisso para que o Rei dos Cangaceiros enfrentasse, em 1926, a clebre Coluna Prestes em sua passagem pelo serto? Como indultar um clrigo que mesmo antes disso, em 1914, teria benzido rifles, punhais e bacamartes, aparato blico entregue jagunada para promover uma revoluo armada, uma sedio que envolveu saques violentos a vrias cidades interioranas, provocou a morte de centenas de inocentes e resultou na derrubada de um governo legal? Como redimir as penalidades de um sacerdote que se transformou em lder poltico, fez-se o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, elegeu-se deputado federal, tornou- -se vice-presidente (cargo ento equivalente ao de vice-governador) do Cear e arquitetou um pacto histrico entre os poderosos coronis do serto? Como perdoar um padre que acumulou vasto patrimnio custa das esmolas e das doaes de fiis? Para os algozes de Ccero, no faltariam argumentos contrrios suposta reabilitao cannica. Entretanto, do mesmo modo, no so poucos os que definem a eterna tempestade de acusaes contra Ccero como frutos de inverdades histricas, interpretaes distorcidas e preconceitos elitistas que foram se acumulando, ao longo do tempo, em torno de to controvertida figura. A carta que o cardeal Joseph Ratzinger escreve nesta manh de primavera europeia tem exatamente o objetivo de retomar com a chancela do braso da Santa S uma questo sobre a qual se debatem, por dcadas a fio, apologistas e difamadores de Ccero Romo Batista. Quem foi esse homem misterioso que, mesmo tendo um decreto de excomunho assinado contra si, arrebatou o corao das massas e passou memria coletiva e ao panteo popular como o santo Padim Cio? Era um apstolo visionrio que soube entender a lngua do povo, converteu multides com sua singela pastoral sertaneja, mas ainda assim foi injustiado por um clero intransigente, etnocntrico, refratrio s diferenas? Ou foi um sujeito astuto que usou a batina em seu prprio benefcio, amealhou fortunas em terras, imveis e gado, alimentando a sede de poder com a misria e a ignorncia de seus devotos? No parece ter sido coincidncia. Poucos meses depois de a carta de Joseph Ratzinger ter alcanado o devido destino na sede da CNBB, em Braslia, um novo bispo diocesano desembarca no pequeno terminal de passageiros do aeroporto Orlando Bezerra de Menezes, em Juazeiro do Norte. O homem nomeado por Joo Paulo II para administrar dali por diante a diocese do Crato, qual est subordinada a forania de Juazeiro, um italiano sorridente e de fala serena. Quando perguntado se vem com alguma misso especfica e se tal misso tem relao direta com a possvel reabilitao de padre Ccero , ele silencia. Em alguns casos, 12. dependendo do interlocutor, vai alm: esboa um de seus enigmticos sorrisos. O recm-chegado, dom Fernando Panico, nascido em 1946 na cidade de Tricase, sul da Itlia, exibe um currculo exemplar. Alm de sobrinho de um cardeal com respeitveis servios prestados Santa S dom Giovanni Panico, ex-nncio em Portugal , traz na bagagem os diplomas de bacharel em filosofia pela Pontifcia Universidade Gregoriana e em teologia pelo Pontifcio Ateneu Santo Anselmo, ambos em Roma. Mestre em teologia litrgica e doutor em liturgia, Panico est desde 1974 no Brasil. Aqui, sempre trabalhou em dioceses nordestinas. Primeiro no Maranho, onde foi reitor de seminrio; depois no Piau, como bispo de Oeiras e Floriano. Conhece bem, portanto, o universo e os matizes da religiosidade popular dos sertes. Est familiarizado com as singularidades das manifestaes de f do catolicismo caboclo, que tem em padre Ccero uma de suas maiores referncias. To logo toma posse no comando da diocese, em junho de 2001, dom Fernando Panico demonstra, sem meias palavras, claramente a que veio. Do alto do plpito, durante a homilia que faz na primeira missa como novo bispo do Crato, anuncia o propsito de encorajar e apoiar novos estudos crticos sobre a trajetria de Ccero Romo Batista. Em uma carta pastoral aos fiis, datada de 20 de outubro, reafirma o mesmo propsito, dessa vez em letra de forma: Ele merece nosso carinho, apesar de tudo o que contra ele aconteceu e se tem escrito, observa o bispo, a propsito do ambguo sacerdote. Tais afirmaes causam profundo mal-estar nos membros mais tradicionais do clero do Crato, que tm Ccero na conta de um embusteiro histrico. Padre Ccero chegou ao Juazeiro missionrio, tornou-se visionrio e acabou milionrio, costumava dizer dom Newton Holanda Gurgel, o antecessor de dom Fernando, que se viu compelido a renunciar ao cargo ao completar 75 anos de idade e passar a mitra ao sucessor. Contudo, no h dvidas de que os ventos da Igreja pretendem soprar em outra direo. O que est em cena no uma mera questo paroquial, uma nova frente de batalha na eterna rivalidade entre cratenses e juazeirenses. Nesse mesmo ms de outubro de 2001, dom Fernando embarca para Roma, acompanhado dos demais bispos do Cear e do Piau, por ocasio da visita ad limina ao Vaticano uma obrigao imposta pela Igreja a seus prelados a cada cinco anos, que devem ajoelhar-se diante dos tmulos dos apstolos so Pedro e so Paulo; nessa ocasio, so recebidos pelo papa para reportar o estado pastoral de suas respectivas dioceses. Dom Fernando aproveita a viagem Cidade Eterna e logo obtm uma audincia com o cardeal Joseph Ratzinger, no Palcio do Santo Ofcio. Na pauta do encontro com o prestigioso prefeito da Congregao para a Doutrina da F, o assunto um s: padre Ccero. Dom Fernando escuta de Ratzinger as palavras que provavelmente j esperava ouvir. O cardeal no s o estimula a levar adiante os novos estudos sobre a polmica trajetria de Ccero, como tambm d instrues detalhadas a respeito da forma de conduzir o processo, de acordo com os rituais e procedimentos da Congregao. Como conselho adicional, Ratzinger sugere que as concorridas romarias a Juazeiro do Norte devam ser abertamente incentivadas e acolhidas, ao contrrio do que fazia o bispo anterior, dom Newton. A recomendao do cardeal ser obedecida risca. Algum tempo aps a volta ao Brasil, dom Fernando faz publicar uma segunda carta pastoral aos fiis, sintomaticamente intitulada Romarias e reconciliao. O sinal de distenso entre a Igreja e os romeiros, principal herana deixada 13. pelo sacerdote proscrito, est evidente: Mais do que nunca necessrio reconhecer as romarias de Juazeiro do Norte como uma profunda experincia de Deus e legtima experincia de f, diz a carta do bispo aos diocesanos. Para seguir os desgnios ditados por Roma, dom Fernando organiza uma comisso multidisciplinar de estudos, qual caber mergulhar nos arquivos oficiais da diocese, mas tambm em acervos particulares e de instituies pblicas, para avaliar a possvel reabilitao de Ccero Romo Batista. Pelos trmites da Santa S, reabilitar o padre significaria o primeiro passo a caminho de uma presumvel canonizao. Aps ele ser devidamente perdoado pela Congregao da Doutrina da F, o segundo passo seria a abertura do processo de beatificao, depois do qual Ccero passaria ser declarado um bem- aventurado, o degrau imediatamente inferior ao seu reconhecimento como santo, quando enfim poderia ser elevado honra dos altares. A comisso organizada por dom Fernando, obedecendo s diretrizes de Ratzinger, composta de especialistas, mestres e doutores em diversas reas do conhecimento: antropologia, filosofia, histria, psicologia, sociologia e teologia. Pressionada pela oposio do clero do Crato, os membros se renem tambm em So Paulo, onde recebem a visita de dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal emrito da diocese paulista, que na ocasio se revela simptico causa da reabilitao cannica de padre Ccero. Durante cerca de cinco anos, a comisso de notveis trabalha estrategicamente em silncio, reunindo informaes, acessando papis at ento intocveis, trazendo luz novos elementos para um julgamento pstumo de Ccero Romo Batista. Uma circunstncia inaudita, porm, apanha a comisso no meio do caminho. s 21 horas e 37 minutos de um sbado, 2 de abril de 2005, o papa Joo Paulo II, que nos ltimos dias vinha se alimentando por meio de uma sonda inserida no nariz e respirando por um tubo que bombeava o ar diretamente na traqueia, exala o ltimo suspiro. Os mdicos, aps assistirem durante semanas via-crcis de tremores e febres do ilustre paciente, informam que o organismo de Sua Santidade parou de manifestar os sinais vitais. Joo Paulo II, governante da Igreja por mais de um quarto de sculo, est morto. Dezessete dias depois, o conclave de cardeais reunido no Vaticano autoriza que a fumaa branca seja lanada pela chamin da Baslica de So Pedro. Habemus papam, logo entendem os milhes de catlicos espalhados pelo planeta, que testemunham a tudo com os olhos grudados na televiso. H um novo papa no poder. O cardeal decano Joseph Ratzinger, prefeito da Congregao para a Doutrina da F, eleito o 264o sucessor de Pedro e coroado como Bento XVI. O homem que iniciou o processo de reabilitao de padre Ccero agora o chefe supremo da Igreja Catlica Apostlica Romana. Em 30 de maio de 2006, pouco mais de um ano aps Bento XVI iniciar seu pontificado, uma comitiva brasileira liderada pelo bispo do Crato, dom Fernando Panico, chega ao Vaticano. Leva consigo onze grossos volumes encadernados em capa vermelha e identificados com letras gravadas em dourado. So cpias de documentos religiosos e seculares, incluindo a vasta correspondncia trocada entre os protagonistas da histria tumultuosa de Ccero Romo Batista. Tambm esto ali os relatrios e os pareceres da comisso de especialistas 14. encarregada dos novos estudos em torno do caso. Um volume parte traz cerca de 150 mil assinaturas de populares em prol da reabilitao, s quais se soma um abaixo-assinado no qual se l o nome de nada menos que 253 bispos brasileiros favorveis causa. Uma carta de dom Fernando ao papa completa a papelada. Venho com toda esperana e humildade suplicar a Vossa Santidade que se digne reabilitar canonicamente o padre Ccero Romo Batista, libertando-o de qualquer sombra e resqucio das acusaes por ele sofridas, escreve o bispo. Posso testemunhar, Santidade, que as nossas romarias so um baluarte da f dos pobres, filhos queridos da Igreja Catlica, cuja devoo contm e freia, por assim dizer, o avano das seitas evanglicas na nossa regio, explicita. Na carta, dom Fernando faz questo ainda de recordar que o mesmo Bento xvi, ento cardeal, quem lhe sugerira reabrir os estudos histricos sobre Ccero. A comisso de estudiosos, ao realizar as novas pesquisas, manteve-se numa discrio objetiva das fontes. Congregao para a Doutrina da F compete a anlise de nosso trabalho. E Vossa Santidade a palavra conclusiva. Nas prateleiras empoeiradas do antigo Tribunal do Santo Ofcio, por determinao de Bento XVI, os documentos secretos que resultaram na expulso de Ccero das fileiras da Igreja comeam a acordar de um sono de quase cem anos. 15. LIVRO PRIMEIRO A CRUZ 16. 1 preciso dar um basta anarquia: padres vivem amancebados, lobisomem corre solto no serto 1844-1870 Mais de 1800 anos aps ter sido pregado numa cruz pelos soldados romanos no monte Glgota, em Jerusalm, Jesus Cristo, o homem em cuja memria se fundou a Igreja que congrega mais de 2 bilhes de fiis espalhados por todo o mundo, voltou Terra. Nasceu de novo, na cidade do Crato, interior do Cear. Cristo retornou na forma de um beb sertanejo, com traos nitidamente caboclos, mas de cachinhos dourados e olhos azuis. O Menino Jesus redivivo chegou dos cus em meio a uma exploso de luz, com a fora de mil sis, no meio do serto. Foi trazido por um anjo de asas cintilantes, que na mesma hora levou embora a filhinha recm-nascida de uma catlica fervorosa, a cearense Joaquina Vicncia Romana, mais conhecida como dona Quin. De to intenso, o claro deixou a mulher temporariamente cega, bem na hora do parto, o que a impediu de perceber a troca das duas crianas. Como sinal de que era um iluminado, o menino santo acabava de regressar ao mundo em um 24 de maro, vspera da data em que se celebra a Anunciao de Nossa Senhora, exatos nove meses antes do Natal. Para muitos dos milhes de peregrinos que chegam hoje a Juazeiro do Norte, essa a verdadeira histria do nascimento do padre Ccero. Ele seria a reencarnao do prprio Cristo. A imaginao coletiva, disseminada de boca em boca e de gerao em gerao, encarregou-se de atribuir uma origem sagrada, no carnal, ao protetor dos romeiros. Com pequenas variaes s vezes a prpria Virgem, e no um anjo de luz, quem traz nos braos o Cristo menino de volta Terra a crena na linhagem divina de Ccero foi igualmente reforada por uma das mais autnticas expresses da tradio nordestina: os folhetos de cordel. Para os devotos mais enlevados, no h como pr em dvida aquilo que dizia o poeta Joo Mendes de Oliveira, contemporneo de Ccero e autointitulado historiador brasileiro e negociante, um dos primeiros a enaltecer o sacerdote em rimas e versos: Perante a lei da verdade no vou dizer nada toa Padrinho Ccero uma pessoa da Santssima Trindade. De acordo com o que est disposto nos livros de batismos da Cria do Crato, o menino Ccero Romo Batista nasceu naquela cidade cearense no dia 24 de maro de 1844. A 17. documentao dos cartrios e das sacristias pode ser mais objetiva do que a narrativa mtica. Mas no menos sugestiva de significados nem deixa de ser alvo de controvrsias. H quem aponte, mesmo a, na letra firme do escrivo, a sombra de uma armadilha histrica: Ccero teria nascido no dia anterior, 23, e posteriormente alterado o prprio batistrio para vincular sua origem data litrgica da Anunciao. No h provas, contudo, que corroborem essa acusao especfica de mitomania. O que se sabe ao certo que o filho de dona Quin e do pequeno comerciante Joaquim Romo Batista nasceu um caboclinho de longas orelhas de abano e, de fato, cabelos aloirados e um surpreendente par de olhos azuis caractersticas que ajudaram a associar sua imagem ao Cristo caucasiano das gravuras de origem medieval, mas que na verdade foram herdadas dos antepassados portugueses da famlia, tanto do lado materno quanto do paterno. O pai, Joaquim Romo, era o primognito de um oficial da cavalaria que lutara ao lado das tropas brasileiras nas guerras dos tempos da Independncia. A me, dona Quin, trazia por sua vez a histria de batalhas familiares marcadas por suplcios quase bblicos. Suas seis irms, as tias de Ccero Totonha, Donana, Azia, Teresinha, Tudinha e Vicncia , todas teriam sido defloradas pelo mesmo homem, o coronel Jos Francisco Pereira Maia, o Mainha, juiz de paz, delegado de polcia e deputado provincial pelo Crato. S ela, Quin, teria resistido aos assdios sistemticos do coronel, um garanho que se gabava de ter colocado no mundo 82 rebentos, polgamo assumido desde que fora trado pela primeira esposa, uma mulher com fama de adltera e nome de santa: Clara Anglica do Esprito Santo. Por trs do balco da lojinha da famlia, o pai de Ccero tirava o sustento da casa com a venda de artigos os mais variados, que iam de fechaduras de lato a chapus para senhoras, de parafusos de ferro a gravatas de seda. Com o dinheiro que pingava no caixa, Joaquim Romo sempre cuidou de proporcionar boa educao ao nico varo que o destino lhe concedeu, Ccero, o filho do meio entre as irms Maria Anglica, dois anos mais velha, e a caula Anglica Vicncia, cinco anos mais nova. A tradio oral d conta de um menino Ccero que construa casinhas de barro para as brincadeiras das irms, evitava as tpicas estripulias da infncia e no se juntava aos demais moleques da rua. Mas que gostava de subir em rvores e de pegar passarinhos, especialmente canrios e patativas. Afora isso, vivia enfurnado em uma tenda que armava no quintal de casa, onde ficava sozinho durante horas, silencioso e ensimesmado, como se estivesse a rezar e a conversar com os anjos da guarda. A histria da infncia de Ccero, tema de inmeros folhetos de cordel espalhados pelas feiras do serto, foi sendo construda assim, por meio de relatos posteriores que buscavam abonar o mito e adivinhar indcios de uma hipottica predestinao. Em um velho folheto cuja autoria se perdeu nos desvos do tempo, A vida e os antigos sermes do padre Ccero Romo Batista, o garoto idealizado em um desses instantes de devoo prematura: Ele tinha cinco anos era bem pequenininho, noite a me procurou, no o achou no bercinho, achou-o nos ps duma imagem dormindo ajoelhadinho. 18. Dcadas mais tarde, em Juazeiro do Norte, os futuros romeiros disputariam avidamente uma singela fotografia de Ccero aos quatro anos de idade. Milhares de cpias daquela imagem que se tornou clebre seriam espalhadas no serto, apregoadas pelos vendedores de santinhos como uma relquia sagrada. Nela, v-se uma criana bochechuda que se equilibra em p numa cadeira de palhinha, o cabelo partido ao meio, sapatinhos de verniz, roupa enfeitada com pregas e babados. Seria essa a primeira imagem de Ccero de que se tem notcia, por isso apreciada com afeio especial pelos devotos. A foto, porm, flagrantemente falsa. Quando Ccero completou quatro anos de idade, em 1848, a mquina fotogrfica havia sido apresentada ao mundo apenas onze anos antes, na Europa, pelo inventor francs Louis- Jacques-Mand Daguerre. No Cear, ainda no existia quem houvesse visto um desses maravilhosos daguerretipos, que faziam retratos como em um passe de mgica. Mesmo no Rio de Janeiro, ento a capital do pas, a fotografia ainda era uma espantosa novidade restrita aos membros da corte de d. Pedro II. O menino da foto no podia ser Ccero. Na verdade, era o pequeno Antnio Fernandes de Melo Costa, filho do poderoso coronel Manoel Fernandes da Costa, que viria a ser um dos grandes amigos do padre Ccero em Juazeiro do Norte. O instantneo foi feito j no sculo XX. Quando, em 1945, homem-feito e residente em Macei, Antnio Fernandes viajou ao Cear para visitar o tmulo do pai em Juazeiro, surpreendeu-se ao ver sua foto de criana nas mos dos romeiros, transformada em objeto de culto. Ccero comeou a soletrar as primeiras slabas aos seis anos, sob as vistas e a palmatria do bigodudo professor Rufino de Alcntara Montezuma, respeitado mestre-escola da cidade. Um pouco mais crescido, aos doze anos, o rapazote passou a estudar na escola rgia de um parente prximo da famlia, Joo Marrocos Teles, um padre amancebado e pai de famlia, em cujo sobrado aprendeu a decifrar os segredos do latim. As prdicas do padre e latinista Joo Marrocos, assim como as rezas de dona Quin, deixaram marcas profundas na formao do menino. Tambm exerceram grande influncia sobre ele as pregaes de Jos Antnio Pereira Ibiapina, um ex-advogado criminalista de cenho grave que largara a toga e passara a envergar a batina bem tarde, aos 47 anos de idade. Aps descobrir a vocao sacerdotal, Ibiapina se desfez dos livros jurdicos, trocou o sobrenome Pereira pelo de Maria e conseguiu ser ordenado no Seminrio de Olinda. A partir de ento, padre Jos Antnio de Maria Ibiapina cruzaria os sertes nordestinos a p, de ponta a ponta, erigindo capelas, erguendo escolas, construindo audes, abrindo hospitais para os pobres, sempre em regime de mutiro. Suas chamadas casas de caridade instituies sociais dedicadas a educar e doutrinar meninas rfs, ensinando-as a ler, a adorar a Deus e a desenvolver ofcios manuais espalharam-se por toda a regio. Sempre baseado no binmio orao e trabalho, o padre e educador de pele queimada pelo sol do serto serviu de modelo para a futura prtica pastoral de Ccero. Como este repetiria mais tarde, Ibiapina recrutou homens e mulheres das camadas mais despossudas da populao e, com eles, fundou uma nova ordem religiosa, a dos beatos e beatas, que se proliferou Nordeste afora e seria mantida margem da Igreja oficial. Mesmo sem a devida autorizao, o missionrio fornecia a leigos o hbito caracterstico que nunca mais largariam 19. uma tnica escura e comprida at o cho, com a qual pediam esmolas para ajudar os necessitados, pregavam o Evangelho e cuidavam dos servios sagrados, como a celebrao de novenas e teros. Foi em fevereiro de 1865, na inaugurao da casa de caridade de Misso Velha, vila prxima ao Crato, que o jovem Ccero Romo conheceu pessoalmente o padre Ibiapina. Ficou fascinado pelo verbo eloquente e pelo carisma daquele reformador de costumes. Mas, segundo o prprio Ccero dizia, a vocao religiosa revelara-se para ele bem antes. Um livro que lhe cara nas mos aos doze anos de idade teria mudado, desde ento, os rumos de sua vida. Foi o momento de sua hierofania, o instante em que o sagrado se manifestou a ele pela primeira vez: Pela leitura que nesse tempo fiz da vida imaculada de so Francisco de Sales, conservei a minha virgindade e castidade. Ccero se referia ao livro Filoteia ou Introduo vida devota, a obra mais popular do bispo-prncipe de Genebra que, no sculo XVI, logo aps a Reforma Protestante, se notabilizou por reconverter ao catolicismo milhares de calvinistas. A obra, um manual de iniciao crist destinado educao dos jovens, pregava a necessidade da castidade do corpo e da alma. Os corpos humanos so semelhantes aos vidros que no podem se tocar sem o risco de se quebrarem, e com as frutas maduras que ficam manchadas quando se pem umas sobre as outras, advertia so Francisco de Sales. Aps quatro anos recebendo as lies do padre Joo Marrocos, Ccero acabou sendo enviado ao colgio de outro sacerdote, o padre Incio de Sousa Rolim, um poliglota que recusou a honra de ministrar uma cadeira no Colgio Pedro II, no Rio de Janeiro, para montar sua prpria escola em pleno serto, s margens do rio do Peixe, em torno da qual foi crescendo a cidade paraibana de Cajazeiras, a dezenove lguas cerca de 120 quilmetros do Crato. Ccero permaneceu como aluno interno, sob os cuidados do padre Rolim, por dois anos. Mas, to logo completou dezoito anos de idade, uma notcia funesta obrigou-o a retornar ao Crato: o velho Joaquim Romo havia morrido. O pai de Ccero foi uma das 1100 vidas que uma terrvel epidemia de clera-morbo ceifou no Crato, naquele ano da desgraa de 1862. Com fome insacivel, o clera arrebanhou, ao todo, 11 mil almas pela capital e sertes do Cear. O pnico se estabeleceu entre os sobreviventes, que creditavam a tragdia a um severo castigo dos cus. Havia relatos de doentes sepultados vivos em valas comuns depois de abandonados pela famlia e mandados antes da hora para o cemitrio, por medo de um possvel contgio. Com a falta de coveiros em nmero suficiente para dar conta de tamanha tarefa, o servio de enterramento era feito por condenados pela Justia, em troca de goles de cachaa e do perdo de suas penas. No Crato, a exemplo de outras cidades do interior cearense, o horror diante da molstia incentivava numerosas procisses de penitncia. Noite e dia, viam-se multides de fiis entoando litanias desesperadas pela rua. Uns seguiam com volumosas pedras sobre a cabea; outros se flagelavam, aoitando as prprias costas com chicotes de couro cru, na ponta dos quais eram amarradas as disciplinas, lminas de ferro afiadas e dentadas. Foi nesse cenrio aterrador que o rapaz Ccero Romo, agora rfo de pai, teve de voltar para casa. No retorno ao lar, encontrou a me s voltas com a tarefa de sustentar as duas outras bocas da famlia: Maria Anglica, ento com vinte anos, e a menina Anglica Vicncia, com treze. O falecido Joaquim Romo deixara poucos bens de herana um boi, quatro vacas, 20. duas novilhas, dez bezerros, duas escravas, uma casa de tijolos, a escritura de alguns palmos de cho. E muitas, muitas dvidas na praa. Devia mais de um conto de ris aos fornecedores de bugigangas e mercadorias. No era pouco. Representava um valor equivalente a todo o oramento calculado pelo governo da provncia do Cear para a necessria reforma do cemitrio de Fortaleza, tornado pequeno diante do nmero de mortos deixados pelo clera. Feito o inventrio, constatou-se a cruel aritmtica dos livros-caixa: Joaquim Romo morrera falido, completamente quebrado. Com a morte do marido, a viva Quin no tinha como manter o filho estudando em Cajazeiras, longe do Crato. Tudo levava a crer que a aspirao do jovem Ccero em prosseguir nos estudos viria a ser sepultada na mesma cova em que descansariam, para sempre, os ossos do pai. Foi o padrinho de crisma, o coronel Antnio Luiz Alves Pequeno, quem socorreu o moo naquele instante de incerteza e aflio. Homem poderoso do lugar, rico comerciante, o coronel Alves Pequeno se compadeceu da mngua em que vivia a famlia do falecido compadre Romo. E, em especial, ficou bastante impressionado com uma histria singular, narrada de viva voz pelo afilhado. Ccero contou ao padrinho que naqueles dias, bem tarde da noite, estava deitado no fundo da rede estendida de uma parede a outra da sala quando ouviu o som de leves passos dentro de casa. Erguera-se e, entre o sono e a viglia, com aqueles mesmos olhos que um dia a terra haveria de comer, disse ter visto a imagem do finado Joaquim Romo, ali na sua frente, bruxuleando luz da lamparina. Da eterna manso dos mortos, o velho teria lhe trazido um pedido e, ao mesmo tempo, um consolo em forma de profecia: o filho no deveria desistir, um s minuto que fosse, do bom caminho dos livros. Deus haver de dar um jeito, teria lhe garantido a viso. O coronel Alves Pequeno ficou admirado diante do relato fantasmagrico. Para ele, bastava retirar alguns cobres da algibeira e concretizar o desejo do compadre morto. Dinheiro, tratando-se do coronel, nunca fora problema. E quando andam juntas, diz-se no serto, a f e a boa vontade fazem o longe ficar perto. Foi assim que, devidamente financiado pelo padrinho, graas suposta viso, Ccero arrumou as trouxas, pegou a estrada de terra e tomou de volta o rumo de Cajazeiras, onde concluiu os estudos elementares no colgio do padre Rolim. O coronel Pequeno arrebanhava homens tanto para a cruz quanto para a espada. Em 1865, financiou a ida de vinte jovens cratenses, recrutados no lao, para lutar na sangrenta Guerra do Paraguai. Naquele mesmo ano, ainda sob as asas protetoras do padrinho, o nome de Ccero Romo Batista figurou no livro de matrculas da turma inaugural do Seminrio da Prainha, a primeira escola de nvel superior do Cear. Um casaro de dois pavimentos e solenes janeles voltados para o mar esverdeado de Fortaleza. Ali, o rapaz de 21 anos, acostumado religiosidade popular dos beatos do andarilho Ibiapina, logo entraria em choque com a rigidez de seus novos professores. Quando avistou do mar o porto de Fortaleza, em setembro de 1861, dom Luiz Antnio dos Santos trazia, alm da mitra branca sobre a cabea e do dourado cajado episcopal nas mos, um respeitvel diploma dentro da mala: ele era, aos 44 anos, um dos trs nicos religiosos 21. brasileiros a portar o ttulo de doutor em direito cannico por Roma. Com 25 anos dedicados ao sacerdcio, dom Luiz deixara a reitoria do Seminrio de Mariana, em Minas Gerais, para assumir o cargo de primeiro bispo do Cear. Era um dia histrico para a provncia. At 1854, a Igreja cearense estivera subordinada diocese de Olinda, em Pernambuco. frente do novo cargo e do novo bispado, a misso de dom Luiz no era pequena. As longas distncias entre a antiga sede episcopal e os milhares de cristos desgarrados pelo serto provocaram um vazio nas relaes entre fiis e clero. Raros eram os momentos em que os chamados padres visitadores se dispunham a sair do refrigrio dos centros urbanos, enfrentando os perigos e as extenses sertanejas, para se embrenharem no interior da caatinga, onde reinava a lei do punhal e do bacamarte. Naqueles confins dominados por latifundirios e cangaceiros, quase nunca se rezavam missas ou se ministravam outros sacramentos alm do batismo, pela simples ausncia de um nmero suficiente de procos para faz-lo. Em todo o Cear, s havia 33 padres para cobrir as quase 5 mil lguas quadradas que compreendiam o territrio da provncia. Tal vcuo deu origem a uma religiosidade espontnea no meio do povo, um misticismo rico em manifestaes, mas pouco afeito ao controle e aos rituais da Igreja oficial. O menino Ccero nascera e crescera exatamente naquele mundo, em que prticas medievais como a autoflagelao dos corpos se faziam acompanhar das previses apocalpticas atribudas a so Malaquias a respeito do fim dos tempos. Antigas crenas indgenas, uma vez mescladas tradio lusitana do culto aos santos protetores, geravam uma devoo permeada de livres reinterpretaes da f catlica, baseadas em elementos mgicos e sobrenaturais. As penitncias e o sentimento de expiao dialogavam, sem cerimnias, com as celebraes coloridas e danantes nas festas anuais dos padroeiros. No universo mental dos sertes, havia lugar tanto para a crena em caiporas e lobisomens quanto em anjos da guarda. Existia espao para propaladas aparies tanto de almas penadas quanto de pavorosas mulas sem cabea. Benzedeiras desfaziam quebrantos com a ajuda de rosrios, como tambm de patus e folhas de pinho-roxo. Davam-se notcias de curas extraordinrias, de palestras com mortos e de intervenes miraculosas do Alm. A recorrncia das secas e pestes inclementes ajudava a fazer de cada manifestao da natureza um recado de Deus ou uma artimanha do diabo contra o mundo imperfeito dos homens. Ao mesmo tempo, alm de poucos, os padres no eram nenhum exemplo de cega obedincia s leis da Igreja que representavam. Muitos deles, particularmente aqueles ordenados pelo velho e politizado Seminrio de Olinda, haviam dedicado mais tempo a organizar revoltas do que s obrigaes do altar. Inspirados pelos ecos da Revoluo Francesa, escondiam livros clandestinos por baixo da batina, tramavam insurreies republicanas, organizavam-se em sociedades secretas como a maonaria. E, em especial, faziam vistas grossas ao compromisso do celibato. Ao visitar o Cear em 1839, o ento bispo de Olinda, dom Joo da Purificao Marques Perdigo, ficou preocupado com a quantidade de padres concubinados com que deparou no interior da provncia. Chamei o padre Jos da Costa Barros para imediatamente lanar fora de casa uma mulher, que conservava em sua companhia h muitos anos, irm do vigrio de Quixeramobim, e da qual tem um filho, escreveu o bispo em seu relatrio poca. Chamei tambm o vigrio da freguesia do Cascavel e lhe estranhei a comunicao ilcita e pblica que 22. tinha com uma mulher, e depois de uma larga exortao, prometeu-me faz-la residir na distncia de cinco lguas, anotou o mesmo dom Joo da Purificao. Para o recm-chegado dom Luiz, tratava-se de uma situao inadmissvel. Ele fora alado ao comando da nova diocese com algumas incumbncias capitais. A primeira era justamente moralizar o clero local. Em bom portugus, isso significava, por um lado, dar um basta no catolicismo popular reinante nos sertes, considerado uma imperdovel heresia, e substitu-lo por prticas religiosas mais condizentes com a doutrina e o rito da Igreja. Por outro lado, significava formar novos sacerdotes e exigir deles o modelo de retido moral compatvel com o ofcio, principalmente quanto ao cumprimento do celibato e dos sagrados votos de castidade. A misso de dom Luiz que inclua a fundao de um seminrio na nova diocese fazia parte do esforo da cpula da Igreja brasileira para disciplinar seu rebanho. Pelo que ficara determinado desde o Conclio de Trento a grande reunio de bispos convocada pelo papa Paulo III, ainda no sculo XVI, como resposta Reforma Protestante , os catlicos deveriam manter total obedincia s ordens e orientaes emanadas de Roma. A Igreja do mundo inteiro deveria seguir risca o que determinava um nico centro de deciso, situado por trs dos Alpes europeus de onde se adotou o nome do movimento, ultramontanismo, do latim ultramontanus, para alm das montanhas. Como consequncia, institura-se um s ritual para todos os templos ao redor do planeta, abolindo as variaes locais: a chamada missa tridentina referncia ao nome da cidade de Trento, sede do grande conclio. Fosse na Itlia, na Patagnia ou nos cafunds do Brasil, a missa passara, desde ento, a ser celebrada em latim, com os sacerdotes voltados de frente para o sacrrio, de costas para os fiis. Determinara-se, por decreto, a existncia do Purgatrio e adotara-se como nica verso legtima da Bblia a traduo latina das antigas Escrituras feita em meados do sculo IV por so Jernimo. Entre outras centenas de penas previstas aos maus cristos, o Conclio sentenciara: Se algum disser que na Igreja Catlica no h hierarquia eclesistica estabelecida por ordem de Deus seja excomungado. Com a posse de Pio IX em 1846, o cerco da hierarquia ultramontana contra os herticos se fecharia mais ainda. Um ano antes de Ccero Romo Batista haver palmilhado a longa estrada que o levou do Crato ao Seminrio de Fortaleza, o sumo pontfice publicou a encclica Quanta cura e promulgou o Syllabus errorum, documentos nos quais condenava, de forma contundente, a liberdade de culto, a maonaria e os avanos funestos da modernidade, considerados manifestaes monstruosas do esprito de Satans. Pela nova encclica papal, a liberdade de pensamento equivalia, textualmente, liberdade de perdio. Sob o papado de Pio IX, porm, a religio catlica viria a sofrer um revs histrico: o processo de unificao da nao italiana, entre 1860 e 1870, faria que a Igreja perdesse gradativamente a posse das regies que desde o sculo VIII constituam os chamados Estados Pontifcios, um aglomerado de territrios localizados no centro da pennsula Itlica, considerados patrimnio de so Pedro. Quando as tropas militares enfim tomassem Roma como capital da nova nao que surgia a Itlia , a soberania do papa seria reduzida cidade do Vaticano. A Igreja perderia propriedades, mas procuraria compensar tal vicissitude 23. com um rigor ideolgico cada vez maior. Do outro lado do oceano, na distante diocese do Cear, caberia a dom Luiz o papel de guardio da Igreja contra as muitas astcias do demo. E a Ccero, o jovem seminarista, competia dobrar os joelhos. Mas no foi exatamente o que ele fez. Ccero logo percebeu que a rotina do seminrio seria marcada pela vigilncia e pela disciplina. O dia comeava cedo, antes do nascer do sol. s 5h15, deveria estar de p, com a cama devidamente arrumada, j cumprida a obrigao das oraes e meditaes matinais. Os dormitrios permaneciam trancados o resto do dia, s sendo permitida a presena ali em casos extraordinrios e, ainda assim, com a devida autorizao e superviso da direo da casa. s cinco e meia da manh, Ccero e os demais colegas seminaristas assistiam missa, de onde saam direto para a sala de estudos ou, se fosse dia marcado para tal, para a sala de banhos, aberta por curtos perodos, sendo rigorosamente fechada depois do horrio determinado. S ento, s sete e meia, iam para o caf isso nos dias em que o jejum no era obrigatrio. O resto da manh de Ccero era dividido entre aulas e momentos de estudo individual, nos quais, ordenava o regulamento, deveria ser observado o mais profundo e respeitoso silncio. Ccero almoava ao meio-dia, rezava o tero e voltava sala de aula, onde, ao lado de matrias como filosofia, retrica, teologia dogmtica, humanstica e direito cannico, recebia lies de liturgia e de canto gregoriano. Em seguida, permanecia em estudos intensivos e obrigatrios at as seis da tarde, quando os seminaristas celebravam a hora do ngelus o instante da anunciao feita pelo arcanjo Gabriel a Maria. No incio da noite, seguiam-se outras duas exaustivas horas de estudos e leituras espirituais compulsrias. Revistas, jornais e livros no religiosos eram expressamente proibidos. Cartas enviadas por parentes eram lidas com olhos de lince pelo reitor, antes de serem entregues aos respectivos destinatrios. Nas horas vagas, Ccero e os outros alunos podiam folhear livremente apenas a Bblia, o Breviarium Romanum e alguns outros poucos ttulos como O caminho do Cu Consideraes sobre as mximas eternas e sobre os segredos e mistrios da Paixo de Cristo Nosso Senhor para cada dia do ms. O regulamento previa ainda que o jantar devesse ser servido s vinte horas, aps o qual era obrigatria a orao noturna. s 21h15, pontualmente, todos deviam estar recolhidos ao silncio e escurido do dormitrio, com exceo daqueles que obtivessem autorizao para estudar luz de vela por mais 45 minutos. Para Ccero e para qualquer outro colega, a privacidade e os minutos de solido eram vetados. Possveis conversas nos quartos ou sob as arcadas dos longos corredores do seminrio eram reprimidas com austeridade. Nos recreios evitaro os gritos desentoados, jogos e brinquedos ofensivos ou grosseiros, determinava o regulamento. Muito riso era sinal de pouco siso, dizia-se. Sadas no autorizadas eram punidas de modo exemplar, com imediata expulso. De modo estratgico, o imenso casaro assobradado, um dos poucos prdios de dois pavimentos de toda a capital cearense, ficava situado distante do ento centro da cidade. O isolamento fsico do prdio garantia total imerso nas obrigaes religiosas. Uma possvel familiaridade com os criados que serviam no seminrio faxineiros, lavadeiras e cozinheiros, por exemplo era repreendida. Havia um intermedirio nomeado 24. especificamente pela direo da casa para receber encomendas vindas de fora, inclusive a roupa limpa, nos sbados tarde. Uma das raras ocasies de contato de Ccero com o mundo exterior se dava nas missas domingueiras realizadas na capela, frequentada por pescadores e peixeiros que viviam na praia ali perto. Internamente, os alunos do curso preparatrio eram separados dos mais adiantados, que frequentavam o curso teolgico e estavam mais prximos da ordenao. Como medida adicional de controle, o primeiro artigo das regras internas proibia, de forma explcita, que fossem cultivadas amizades particulares entre colegas de seminrio. No se estava ali para fazer amigos e camaradas, mas para aprender a servir a Deus. Uma consulta detalhada ao Livro de notas do Seminrio da Prainha evidencia que Ccero foi, poca, um aluno apenas mediano. Ao longo do curso, nas diversas disciplinas que frequentou, recebeu dezesseis vezes o burocrtico conceito Bom, com apenas quatro nicas incidncias de timo. Por onze vezes amargou o conceito Medocre no boletim, especialmente nas aulas de canto gregoriano e eloquncia. Nunca seria, de fato, um grande orador, apesar do decantado carisma pessoal que lhe faria a fama anos depois. Tambm chegaria a receber a mesma avaliao de Medocre em disciplinas fundamentais, como liturgia, histria eclesistica e teologia dogmtica. Crescido em meio ao catolicismo popular dos sertes, era difcil enquadr-lo na rigidez e na ortodoxia ultramontanas do seminrio dirigido pelo reitor Pierre-Auguste Chevalier. O padre Chevalier, que chegara ao Brasil havia oito anos, ostentava o conceito de homem inflexvel. Costumava-se dizer que, de to asceta, nascera desprovido do sentido do paladar: comia apenas para se manter vivo, sem a menor possibilidade de vir a ser seduzido por tentaes mundanas, at mesmo pelos mais frugais prazeres da mesa. Nascido na vila histrica de Saint-Riquier, no norte da Frana, desembarcara no pas em 1857 e, sete anos depois de trabalhar em misses religiosas da Bahia, fora convocado pelo bispo do Cear, dom Luiz Antnio dos Santos, para dirigir o Seminrio da Prainha. A escolha de seu nome no se dera toa. Dom Luiz, formado pelos padres lazaristas do Seminrio de Mariana, um dos principais centros da implantao do ultramontanismo no Brasil, encontrou em Chevalier, igualmente lazarista e rigoroso, algum com o perfil adequado para formar os novos membros da Igreja no Cear. Com efeito, no Seminrio da Prainha, Chevalier parecia nunca baixar a guarda. Ccero sabia que o reitor era sempre o primeiro a acordar, por volta das quatro horas da manh, e o ltimo a deitar, aps constatar que todos j haviam se recolhido a seus respectivos catres. Era Chevalier tambm que, pessoalmente, com a estrepitosa sineta, convocava padres e seminaristas para as horas de orao. Substitua professores ausentes, confessava alunos, rezava missas, fiscalizava correspondncias, vigiava corredores, esquadrinhava dormitrios, perscrutava salas de banho e de estudo. Como reitor do seminrio, presidia o Conselho de Ordenao, que ajuizava o desempenho individual e a disciplina dos jovens seminaristas como Ccero, estabelecendo quais entre eles estavam suficientemente aptos a receber as devidas ordens eclesisticas e, assim, a se tornarem futuros procos. Em 8 de setembro de 1867, aps quase trs anos como aluno, o nome de Ccero Romo Batista apareceu, pela primeira vez, no livro de registros e ocorrncias do Conselho. Aos 23 anos, aluno do curso teolgico, Ccero desempenhava a funo de monitor de 25. seminaristas mais jovens. Apesar disso, sua avaliao no foi muito positiva. Ao contrrio, Chevalier reservou- -lhe severa reprimenda por escrito: Foi dito que ele no receber a ordenao, porque desde muito tempo ele no se confessa na comunidade, constou, em francs, com letra garranchosa e quase indecifrvel, na ata do Conselho. Ele tem muitas ideias confusas; tem muita confiana em sua prpria razo; a primeira tanto mais grave, uma vez que ele exerce cargo no Seminrio, dizia a mesma anotao, que arrematava: Por isto foi dito a ele que, se continuar assim, no poder ocupar-se mais desse ofcio. Era apenas uma advertncia, ainda que j estivesse claro o tom de severa ameaa. Alguns colegas de Ccero no tiveram idntica sorte. Muitos foram os companheiros de turma que, por um ou outro motivo, viram seus nomes na lista de alunos desligados em definitivo da instituio. No ano anterior quela anotao do Conselho sobre Ccero Romo Batista, em julho de 1866, um jovem seminarista havia sido expulso sob a justificativa pouco lisonjeira de preguia e vadiao. Padre Chevalier no podia saber, mas naquele dia defenestrou dos seletos quadros do seminrio da Prainha o futuro historiador Capistrano de Abreu. O jovem Jos Marrocos dois anos mais velho que Ccero e filho de seu antigo professor de latim, padre Joo Marrocos seria outro a ter a matrcula cancelada. No caso, a acusao foi ainda mais grave. Seu nome seria simplesmente apagado, quase por completo, dos registros da casa. A direo da escola decidiu que, por ser filho de padre, Marrocos trouxera uma mancha moral e indelvel desde o nascimento, o que aos olhos e ao conceito ultramontano o tornava um indivduo inadequado ao exerccio do sacerdcio. Marrocos ainda chegou a escrever duas cartas diretamente a dom Luiz, implorando para que o bispo intercedesse a seu favor e o mantivesse no quadro de alunos da casa. Vossa Excelncia, que se aproxima cada vez mais da Divindade, se digne por um rasgo de misericrdia atender benignamente a splica de quem na sinceridade da contrio promete uma conduta em tudo oposta quela que poderia arred-lo do seminrio, rogou. Em vo. Mesmo com aquele pungente apelo instncia superior, a deciso de Chevalier foi respeitada e mantida. Marrocos estava expulso. O reitor, bem verdade, apenas cumpria o papel de zelar pela formao de uma nova gerao de sacerdotes moral e intelectualmente capazes, rigorosos defensores da doutrina catlica. Mas a formao europeia de Chevalier, com sua fidelidade irrestrita s diretrizes de Roma, s podia entender como tola superstio as manifestaes da f sertaneja expressas pelo jovem Ccero. Do seu lado, o rapaz resistia. Palmatria quebra dedo, mas no quebra opinio. Um ano depois da primeira censura partida do Conselho de Ordenao, as desinteligncias entre Ccero e o reitor apenas se agravaram. Ele no frequenta os sacramentos, opinioso e pouco regular, apesar do emprego de confiana que ele tem, constou Chevalier na ata do Conselho datada de 12 de maio de 1868, com a letra tortuosa de sempre. Seis meses depois, em 9 de novembro, o mesmo Conselho tentou selar a sorte de Ccero Romo Batista: No se falou do senhor Ccero, cujo estado era o mesmo e, em razo disto, foi dito que entender-se-iam com o Sr. bispo para rogar que o retirasse do Seminrio. Parecia ser o fim da histria. 26. Em que pese a resoluo de Chevalier, dom Luiz decidiu pela ordenao do seminarista. H quem diga que isso se deveu, mais uma vez, ao direta do padrinho de crisma de Ccero, o coronel Antnio Luiz Alves Pequeno, que teria ido a galope do Crato a Fortaleza para advogar por seu afilhado. Como moeda de troca, diz-se que o coronel teria oferecido polpudos donativos diocese. No existe nenhuma comprovao documental a esse respeito. Mas no h dvidas de que Alves Pequeno e dom Luiz mantinham estreita relao de amizade. Muito provavelmente por causa disso, Ccero sempre tivera o bispo como confessor, desde os primeiros dias de seminrio. Assim, mesmo com a incumbncia oficial de aprimorar o clero sob sua tutela, dom Luiz resolveu dar um voto de confiana ao seminarista que jamais cara nas graas do respeitvel reitor Chevalier. Em 30 de novembro de 1870, por deciso direta de dom Luiz, Ccero Romo Batista foi ordenado sacerdote, aos 26 anos, na antiga Igreja da S, em Fortaleza. Pouco depois de receber as ordens, selou um cavalo e seguiu para o Crato, onde deveria rezar a primeira missa. Uma curiosa ou premeditada? coincidncia marcaria a volta terra natal. Ccero, j padre, chegou justamente na primeira hora, do primeiro dia, do primeiro ms, do primeiro ano de uma dcada que se iniciava. Era 1 hora de 1/1/1871. Para quem, como ele, acreditava em foras misteriosas e mensagens do outro mundo, nada poderia soar como mais cabalstico e premonitrio dos muitos prodgios que ainda estavam por vir. 27. 2 Viso da ltima Ceia muda rumo da histria: Belzebu no samba mais no Juazeiro 1871-1889 Treze homens de barbas e cabelos compridos, ps em alpercatas, entraram no quartinho da escola onde o recm-ordenado Ccero Romo Batista dormia. Vinham vestidos com longas tnicas brancas e se postaram em volta de uma mesa. Um deles, ao centro do grupo, abriu os braos e centralizou a ateno dos demais. A cena, para Ccero, era inconfundvel. Ali estavam, diante dele, os doze apstolos e o prprio Jesus Cristo, tal e qual haviam sido retratados em uma das pinturas mais clebres de todo o mundo: a ltima Ceia, de Leonardo da Vinci. A diferena que Cristo, ao contrrio do simples manto azul sobre a tnica vermelha com que aparecia no famoso mural do pintor renascentista, trazia o peito em chamas, a exemplo das gravuras populares do Sagrado Corao. Quando Jesus comeou a falar aos discpulos reunidos em torno de si, uma multido de sertanejos apontou na porta. Homens e mulheres carregavam trouxas miserveis nos ombros e, sobre o corpo esqueltico, trajavam apenas farrapos. Os muitos meninos que traziam pela mo estavam sujos, remelentos e completamente nus. Jesus Cristo dirigiu-lhes a palavra e prometeu que faria um ltimo esforo para libertar o mundo de tanta iniquidade e sofrimento. Mas era preciso que, para isso, a humanidade mostrasse sincero arrependimento. Do contrrio, os cus mandariam supremo castigo. Viria o Dia do Juzo Final. O mundo iria acabar. Voc, Ccero, tome conta dessa gente, teria dito Cristo ao jovem sacerdote, apontando para a caravana de famintos. * * * Ccero no era homem de desdenhar do mundo dos sonhos. A prpria Bblia estava recheada de referncias a mensagens, profecias e avisos onricos. Deus, diziam as Escrituras, teria aparecido em sonho a Salomo em Gabaon. Jac, ao fazer de uma pedra o travesseiro, vira uma escada celeste que trazia e levava anjos em direo ao Paraso. Jos do Egito soubera ler os tortuosos e enigmticos pesadelos do fara. O profeta Daniel, por sua vez, tivera vises noturnas na forma de misteriosas alegorias. Jos, esposo da me de Jesus, recebera vrias vezes a visita de anjos enquanto dormia. To logo acordou, Ccero no teve dvidas. Tomou o sonho como recado de Deus. At ento, seu destino era indefinido. Ordenado no final do ano anterior, ainda no obtivera autorizao para servir de modo efetivo em nenhuma parquia. Celebrara no dia 8 de janeiro 28. de 1871 sua primeira missa, na matriz de Nossa Senhora da Penha, a mesma onde fora batizado no Crato, 26 anos antes. Depois disso, fora enviado por dois meses ao ensolarado e praiano distrito de Trairi, pertencente antiga freguesia de Parazinho, mais tarde Paracuru, cerca de 120 quilmetros distante de Fortaleza. A sua misso ali era refazer uma srie de casamentos e batizados tornados nulos pela diocese porque haviam sido celebrados por um religioso que, excedendo as funes, se passara por padre, quando na verdade era mero sacristo. Cumprido o encargo em Trairi, Ccero tomou mais uma vez o rumo do Crato, espera de nova incumbncia por parte da diocese. Apesar da notria ausncia de vigrios em toda a provncia, o moo recm-ordenado continuava sem atribuio especfica. Enquanto um cauteloso dom Luiz no se decidia por lhe confiar uma parquia em definitivo, Ccero trabalhou durante todo o ano de 1871 como professor de latim no Colgio Cratense, fundado na cidade pelo amigo Jos Marrocos, logo aps este ter sido expulso do seminrio em Fortaleza. Ccero era um professor rigoroso, que no hesitava em lanar mo da palmatria ento considerada um recurso didtico legtimo, previsto por lei para disciplinar os alunos mais cabeudos. Menino tem couro grosso, diziam os mestres de ento. Moleque, assim como sino, s na base da pancada, fazia coro a sentena matuta. A relao to prxima entre Ccero Romo e Jos Marrocos devia ser encarada com certa desconfiana pelo palcio episcopal em Fortaleza. Afinal, sabia-se da estreita ligao entre Marrocos e o incmodo padre Ibiapina. Desde 1869, o bispo dom Luiz vinha procurando tolher os passos do missionrio andarilho, que apesar de suas recorrentes crises de asma no economizava flego para continuar peregrinando e arrebanhando seguidores junto ao povo do serto. Dom Luiz chegou a enviar um ofcio, datado de 19 de julho de 1871, em que prevenia o proco do Crato, Manoel Joaquim Aires do Nascimento, contra o trabalho social realizado por Ibiapina e suas casas de caridade, apinhadas de beatos. As tais casas, segundo as palavras oficiais de censura do bispo, agiam em detrimento da disciplina eclesistica, da paz e harmonia que devem reinar entre o pastor e o rebanho. Apesar de no citar textualmente o nome do padre Ibiapina, o ofcio do bispado determinava ao proco do Crato de forma taxativa: No permita nem consinta que missionrio algum, de qualquer ttulo e ordem que seja, missione na sua parquia sem licena nossa por escrito. Ao bom entendedor, meia palavra bastava. Enquanto isso, em aberta rebeldia s decises do bispo, Jos Marrocos tratava de incentivar a mstica popular em relao figura de Ibiapina. As pginas do jornal A Voz da Religio no Cariri, que passara a circular desde 1868 com direo do prprio Marrocos, eram prdigas em propagar as maravilhas ocorridas em um distrito da ento vila de Barbalha, vizinha ao Crato. Ali, na serra do Araripe, jorrava um manancial de guas lmpidas, mornas e, segundo constava, milagrosas. Pelo que alardeava o jornal de Marrocos, por obra e graa daquela fonte de guas medicinais com a devida bno de Ibiapina estariam ocorrendo curas admirveis por toda a regio. Remdio de pobre, enfim, deixara de ser o caminho da sepultura. Uma moradora do stio Coit, Teodora da Conceio, vtima de um cancro supurado no peito, banhara-se nos olhos-dgua do Caldas e, com isso, teria ficado completamente s. Um 29. homem, Jos Gomes dos Santos, que viera da divisa da Paraba e trazia o brao paralisado pelo reumatismo, teria recuperado inteiramente os movimentos. Dona Benedita Pinho, senhora residente no stio Sossego que sofria meses seguidos com febres, vmitos e diarreias, teria se libertado para sempre da molstia. O lugar virou rota obrigatria de romeiros e logo recebeu capela, erguida em honra ao Bom Jesus dos Pecadores. Dizia-se que tantas eram as muletas ali deixadas por ex-aleijados, ento reabilitados, que de tempos em tempos era preciso destru- las com o auxlio de grandes fogueiras. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!, exultava Marrocos nos editoriais de A Voz da Religio no Cariri. Sim, louvemo-Lo por tantas e to grandes maravilhas que tem liberalizado s guas do Caldas em benefcio dos pobres e infelizes, pregava o ex- seminarista, aproveitando a fora do jornal para tecer loas s misses do padre Ibiapina na regio. Prximo ao Natal de 1871, nesse ambiente marcado pelas romarias ao Caldas e pela ofensiva de dom Luiz contra as casas de caridade, Ccero foi procurado no Crato pelo professor Simeo Correia de Macedo. O homem, genro de um prspero fazendeiro da regio, o coronel Domingos Gonalves Martins, trazia um convite para que rezasse a Missa do Galo na capelinha de um povoado ali perto. A tal capelinha, erigida em homenagem a Nossa Senhora das Dores, havia algum tempo estava sem sacerdote, assim como Ccero estava sem igreja. Ele aceitou. Conforme confessaria depois, tencionava celebrar a missa naquele lugarejo e, assim que possvel, retornar ao Crato. De l pretendia seguir para Fortaleza, para tentar conseguir dar rumo menos incerto prpria vida. Cogitava inclusive a quase impossvel tarefa de, quem sabe, convencer o reitor Chevalier a lhe conceder vaga de professor no Seminrio da Prainha. Porm, o tal sonho com Jesus e os doze apstolos, no quartinho improvisado nas dependncias da nica escolinha do arrebalde, situada bem em frente capelinha de Nossa Senhora das Dores, viria a lhe mudar inteiramente os planos. Ficaria por ali mesmo, no povoado. Cuidaria daquela gente, conforme sugerira o Jesus do sonho. Levaria consigo a me, dona Quin, e as irms Maria Anglica e Anglica Vicncia. Alm delas, carregaria a escrava Teresa a Teresa do Padre , um dos nicos bens que lhe restaram, uma vez pagas todas as dvidas, do minguado esplio deixado pelo pai. Foi assim que Ccero passou a morar naquele vilarejo que mal constava no mapa: Juazeiro, ou Joaseiro, conforme a grafia da poca. Era um oco de mundo. Das cerca de oitenta casas dali, bem poucas eram erguidas com telha e tijolo. A maioria dos quatrocentos habitantes se arranjava em moradias de taipa, mistura rudimentar de argila e cascalho, com improvisada cobertura de palha. O povoado era composto de apenas dois pedaos de rua. A chamada rua Grande que de grande tinha mesmo apenas o nome fazia esquina com a rua do Brejo. E s. Conhecido valhacouto de beberres e desordeiros, o arraial servia de pouso provisrio para vaqueiros, tangedores de gado e caixeiros-viajantes a caminho do Crato, situado a trs horas de distncia, no lombo de bom cavalo. A capital da provncia, Fortaleza, distava quase oitenta lguas ao norte, cerca de 520 quilmetros, um estiro de terra sem fim, palmilhado em mais de sete dias de viagem e montaria. O nome do povoado, contava a memria dos antigos, viera de trs velhos ps de ju rvore espinhenta e resistente seca, tpica da caatinga que emprestavam a sombra de 30. suas copas ancestrais a tropeiros e mercadores. As terras pertenciam originalmente fazenda Tabuleiro Grande, propriedade do brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, destacado membro da Guarda Nacional que se orgulhava da ascendncia to mestia quanto clebre, iniciada dez geraes antes com a unio do fidalgo portugus Diogo lvares, o Caramuru, com a ndia brasileira Paraguau. No passado mais distante, sabia-se que todo o sul da provncia do Cear fora territrio dos ndios cariris, dizimados pelos colonizadores. O Cariri, vasto arco de serras verdes e vales frteis, uma espcie de osis encravado no meio do rido cho nordestino. Antes dos ndios que lhe deram nome, outros povos mais antigos seguiram o curso dos rios e chegaram quele lugar. Deixaram como testemunho de sua passagem um sem-nmero de inscries e desenhos gravados na pedra. Em tempos ainda mais imemoriais, tudo aquilo fora um nico e imenso oceano. Centenas de milhares de fsseis, muitos deles encontrados em stios arqueolgicos flor da terra, ainda esto ali para comprovar que peixes pr-histricos, ourios-do-mar, moluscos de duas conchas e outras criaturas de gua salgada habitaram o lugar h cerca de 110 milhes de anos, poca bem anterior chegada dos primeiros humanos na Terra. O mar, um dia, virou serto. Foi um neto do brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, o padre Pedro Ribeiro da Silva, sacerdote ordenado pelo Seminrio de Olinda, quem lanou em 1827 a pedra fundamental da histrica capelinha dedicada a Nossa Senhora das Dores, cuja imagem de madeira fora mandada trazer diretamente de Portugal. A capela fazia companhia s outras poucas edificaes da fazenda: a casa principal, a senzala, a casa de farinha e como era comum a todas as grandes propriedades do vale do Cariri o engenho para moer cana e fabricar rapadura, ento base da economia local. Em torno desse ncleo primitivo, nasceu a acanhada povoao do Juazeiro. Quando o professor Simeo Correia de Macedo procurou no Crato um padre para rezar missa no lugarejo, a situao havia chegado a ponto crtico. Meses antes, parte da capelinha quase abandonada havia desabado e as demais paredes apresentavam rachaduras. Os moradores, sem a presena de um representante da Igreja para admoest-los e conduzi-los missa, entregavam-se s festas e bebedeiras. A falta de autoridade policial, por seu turno, dera origem a episdios de violncia e arruaa, com constantes mortes a faca ou a golpes de cacete. Por causa disso, muita gente se admirou quando Ccero, aquele padre vindo do Crato, apareceu por l exortando o povaru a se arrepender de seus muitos e notrios pecados. Apesar de medir apenas 1,60 metro, o novo sacerdote, se preciso, virava um gigante. Acabava pessoalmente com folguedos e sambas, pois acreditava que os batuques herdados dos negros deviam ter parte com Satans. At os mais ardorosos entusiastas de Ccero Romo Batista jamais esconderam que nem s de sermes vivia o padre recm-chegado. Para fazer valer sua autoridade de zelador das almas e dos bons costumes, no hesitava em brandir o temido cajado em direo aos pecadores mais renitentes. Ao mesmo tempo, os desafetos mais ferrenhos reconheciam: Ccero, colrico diante dos incrus, era um capelo afvel com os fiis que frequentavam a igrejinha de Nossa Senhora das Dores. Chamava-os de amiguinhos, do mesmo modo que um dia o apstolo Joo 31. chamara de filhinhos os leitores das clebres cartas atribudas a ele nas Escrituras. Como demonstrao de desapego s coisas do mundo, Ccero vivia vestido sem aprumo, a batina rota, os sapatos gastos e furados na sola. Por muitas vezes, os prprios moradores do vilarejo e os amigos do Crato se cotizavam para lhe fornecer roupa e comida, ou mesmo para lhe mandar fazer a barba e aparar o cabelo que de to desalinhado logo perdia a tonsura, o corte rente e circular na parte alta e posterior da cabea, caracterstica dos clrigos. Dom Luiz no se ops ideia de Ccero permanecer rezando missa no povoado. Ao contrrio, atendeu de imediato petio que fora endereada nesse sentido pelo sacerdote ao palcio episcopal e, em setembro de 1872, nomeou-o capelo oficial da igrejinha. Aos olhos do bispo, talvez aquele lugar ermo e pouco expressivo fosse o local mais adequado para que o jovem padre de 28 anos ordenado com reservas pela direo do seminrio de Fortaleza desse incio a sua misso evangelizadora, sem maiores responsabilidades ou possveis percalos. Contudo, inspirado na ao de Ibiapina, Ccero Romo no demorou a recrutar um grupo de beatas, que passaram a auxili-lo na tarefa de propagar a palavra de Deus junto populao local. Algumas dessas beatas vinham diretamente da casa de caridade do Crato, fundada pelo missionrio Ibiapina. Outras eram senhoras solteironas ou vivas originrias do Juazeiro, que recebiam das mos de Ccero o manto negro da irmandade. Muitas delas passavam a residir na mesma casa em que ele morava, na rua Grande, onde tambm j se encontravam a me, as irms e a escrava Teresa. De Fortaleza, o bispo no deixara de ficar atento persistncia daquele catolicismo popular e legatrio de Ibiapina, considerado semeadouro de fanatismo, bem debaixo de suas copiosas barbas grisalhas. No incio do ano, mandara fechar no Crato a Igreja de So Vicente, na qual um grupo de leigos beatos e beatas estava presidindo novenas revelia do vigrio local. Como sabia que era impossvel mandar cerrar as portas de todas as casas de caridade erguidas custa da f e do suor coletivo de milhares de devotos, o bispo optou por retir-las da rbita de influncia de Ibiapina, passando a exercer controle direto sobre elas. Para tanto, soube utilizar-se de mtodos pouco ostensivos, com o intuito de no provocar a possvel revolta dos fervorosos adeptos do missionrio, como Ccero. Ao que se sabe, no houve nenhum novo ofcio ou portaria do bispado a esse respeito. Mas no parece ser mera coincidncia o fato de que, no final daquele mesmo ano, Ibiapina tenha endereado uma inesperada carta de despedida ao povo de toda a regio. Adeus homens, adeus mulheres, adeus meninos, adeus meninas, adeus moos, adeus velhos, adeus gentes todas dessa terra de onde sou retirado por altos juzos de Deus, escreveu o andarilho. Na mesma carta, comunicava aos devotos que entregara a direo das casas de caridade, de modo definitivo, s mos do senhor bispo. Dom Luiz providenciou tambm a fundao de um seminrio no Crato, onde os jovens vocacionados do lugar se submeteriam aos estudos preparatrios, para depois serem enviados Prainha. Do mesmo modo que fizera na capital da provncia, o bispo lanou apelo sociedade local, pedindo esmolas pblicas para a construo do prdio. Padres de todo o Cear receberam autorizao do palcio episcopal para arrecadar donativos em suas parquias. Pedimos aos procos deste bispado que coadjuvem quanto estiver de sua parte em obra to meritria, a qual toda se refere honra de Deus e civilizao do povo, dizia a 32. circular assinada por dom Luiz aos subordinados. Para acompanhar de perto a tarefa de civilizar o povo e o clero do Cariri, dom Luiz Antnio dos Santos foi ainda mais longe. Chegou a transferir por seis meses, entre janeiro e junho de 1875, a sede do bispado de Fortaleza para o Crato. Ficaria hospedado debaixo do teto do coronel Alves Pequeno, o padrinho de Ccero, que como gentileza adicional doou o terreno onde seria erguido o imponente seminrio, no ento morro do Granjeiro. Para dirigir a instituio, o bispo convocou um homem de sua mais estrita confiana: o padre italiano Loureno Vicente Enrile, lazarista que participara da fundao do Seminrio da Prainha, professor de teologia moral e auxiliar direto do reitor Pierre-Auguste Chevalier. Com isso, o bispo satisfazia um antigo desejo de padre Enrile, ansioso por sair de Fortaleza desde que a sade degenerara por causa de uma tuberculose pulmonar, tendo os mdicos da poca diagnosticado efeitos deletrios da maresia no frgil organismo do religioso. A escolha de Enrile, evidente, obedecia tambm a outro propsito. Era a garantia de que todo o rigor disciplinar exercido na Prainha, aquele mesmo que Ccero bem havia conhecido, fosse devidamente estendido para o seminrio no interior da diocese. Ali as portas tambm teriam olhos e as paredes, ouvidos. Desde o afastamento de Ibiapina da regio, dom Luiz pareceu sentir a situao sob controle. Inclusive em relao a Ccero Romo Batista, o antigo aluno rebelde da Prainha, que ao longo dos anos parecia ter esgotado seu repertrio de teimosias. Prova disso era a extensa correspondncia trocada ao longo de mais de uma dcada entre o bispo e Ccero, na qual este solicitava autorizaes sucessivas quele para continuar rezando missa no lugar, para conceder sacramentos, para benzer imagens, para confessar fiis , todas deferidas sem contestao pela diocese. H por aqui um velho que mora a uma lgua da povoao, de bem setenta anos ou mais, que enviuvou h alguns anos. Tem levado uma vida de compaixo, agora amasiado com uma infeliz moa, comunicou um zeloso Ccero, no dia 2 de agosto de 1887, a dom Luiz. O tal velho foi ameaado at de ser assassinado pelos irmos da sujeita, se no casar, explicou, para em seguida pedir que o bispo permitisse que ele celebrasse o matrimnio entre o casal de amancebados. sua maneira, Ccero sempre encontrava formas de conciliar as normas da Igreja s demandas da gente do Juazeiro. Nas cartas de teor mais pessoal, o tom empregado pelo bispo era ameno, de franca familiaridade em relao a Ccero Romo, que dobrava a marca dos trinta anos sem maiores incidentes em sua carreira sacerdotal. Teria lhe chegado s mos a obra em portugus de Guillois que pelo Simeo lhe mandei?, indagava-lhe dom Luiz. Em retribuio, o capelo de Juazeiro tambm se derramava em gentilezas: Remeto pelo padre Jos Maria uma poro de manac que Vossa Excelncia me pediu, comunicou, explicando ao bispo que o povo do serto costumava utilizar as florzinhas perfumadas na gua morna do banho. Pelo menos at ali, dom Luiz no tinha motivo para queixas. Durante a construo do seminrio, Ccero levou um grupo de juazeirenses para ajudar a assentar os alicerces da obra. E, de mais a mais, dentro dos limites de sua igrejinha, ele tambm contribua com o objetivo supremo do bispo, o de moralizar cada rinco da provncia: o cajado do capelo do Juazeiro continuava a enfrentar os valentes, os desordeiros e as mulheres perdidas com a mesma veemncia dos primeiros dias. A rea em torno da capela deixara de ser o territrio livre 33. onde antes se bebia a meladinha, a cachaa misturada com mel de abelha, e se danava o bate-coxa at alta madrugada. L vem seu padre!, era agora o grito de alarme para os que ainda insistiam em fazer samba em Juazeiro. Ao ouvir a frase, todos batiam em retirada, na mais desabalada carreira. O prprio Ccero gostava de contar a histria do dia em que acabou com um desses sambas na base da bordoada. Quando algum soltou no ar o providencial aviso de que o padre vinha chegando, os tocadores e danadores chisparam do local como um raio. Porm uma prostituta, Francisca Belmira, de to embriagada, no compreendeu o que estava se passando ao redor. Quando eu quero, eu quero; quando eu quero, j, continuou ela, cantando e requebrando as ancas. Ccero teria se aproximado e, cajado em punho, repreendido: O que que voc quer mesmo, mulher? Assustada ao perceber a presena ameaadora do capelo, Belmira caiu de joelhos, atordoada, pedindo arrego: Eu quero me confessar, seu padre. Dom Luiz apoiou com entusiasmo a ideia de Ccero: substituir a pequena e deteriorada capelinha do Juazeiro por uma igreja maior e mais compatvel com o nmero de fiis que, de toda a redondeza, passara a frequentar a missa no lugarejo. Ccero lanava o mesmo chamamento a cada homem e a cada mulher que vinham lhe pedir conselhos e oraes: era chegada a hora de dar uma virtuosa prova de f, erguendo com as prprias mos uma grande morada para abrigar a imagem de Nossa Senhora das Dores, a Mater Dolorosa, a virgem Me de Deus. Nenhum amiguinho cogitava negar um pedido ao padre de olhos azuis que lhes falava das coisas do Cu, bania malfeitores e lhes passara a ensinar o Evangelho. Feita a convocao, eles seguiam em direo ao mato, a fim de derrubar rvores e trazer a madeira necessria para os andaimes, caibros, ripas e portais da construo. Prontificavam-se tambm a extrair e transportar as pedras que serviriam de alicerce ao templo sagrado. Preparavam o terreno, arrancavam tocos e restos de velhos roados, confeccionavam a argamassa com o barro retirado do cho. Pedra sobre pedra, tijolo por tijolo, a edificao foi sendo erguida com a fora do trabalho de todos. Era a reedio dos mutires de Ibiapina. Mas dizem na caatinga que para encontrar o diabo no carece pressa. Em 1877, dois anos aps o incio, o prenncio de uma desgraa iminente diminuiu o ritmo da obra coordenada por Ccero. Como sempre acontece no serto, os profetas da chuva foram os primeiros a ler o mau pressgio nas sutilezas da prpria natureza: formigas que em pleno ms de maro no mudam formigueiros para longe das margens de rios e audes, aranhas que insistem em tecer fios rentes ao solo, rolinhas que ao pr os ovos trocam o galho mais alto das rvores por ninhos junto ao cho. Para a sabedoria matuta, sinais inconfundveis da desdita. No dia de So Jos, 19 de maro, quando os sertanejos acordaram e olharam para o alto, no viram um nico risco de nuvem manchando o azul. Deus os havia abandonado. A data, que coincide com o equincio de outono, sempre funcionou como ltima esperana para a chegada da quadra chuvosa ou o inverno, como dizem os cearenses. Se no chove at aquele dia, o agricultor se desengana, o povo se desespera. Vem pela frente, de novo, mais um tempo de 34. seca e privao. E assim foi. Durante trs anos seguidos, o serto ardeu como uma caldeira do Inferno. Entre 1877 e 1879, o Nordeste viveu uma das maiores e mais dramticas secas de toda a histria. Nem mesmo o osis caririense escapou. Como de costume, as doenas vinham a galope, na garupa da falta de gua e de comida. Uma epidemia de varola elevou o obiturio do trinio, s na provncia do Cear, cifra assustadora das 180 mil almas, contra os pouco mais de 6 mil mortos de toda a dcada anterior. Ccero Romo, que na seca de 1862 perdera o pai para o clera, aos 34 anos viveria nova e dolorosa tragdia pessoal: entre as vtimas da grande estiagem, estava sua irm Maria Anglica, a filha mais velha de dona Quin. Tenho tanto medo, confessou Ccero em carta ao bispo, atribuindo o flagelo fria divina. Nem se pode duvidar que tanta avareza, tanta impudiccia, tanto assassinato, tanto crime em escala nunca vista faam continuar o castigo e aparecer outros maiores, previu. No era s o serto que agonizava. As notcias que chegavam de Fortaleza eram aterrorizadoras. A capital, que possua cerca de 30 mil moradores, recebera 200 mil retirantes, arranchados em praa pblica, em condies insalubres. A varola aproveitou para atacar sem piedade. Em um nico dia, 10 de dezembro de 1878, o cemitrio da cidade recebeu, oficialmente, 1004 corpos. O nmero de mortos devia ser muito maior porque em torno da cidade, pelos matos e valados, inumavam-se cadveres ou se os deixava apodrecer insepultos, testemunhou na poca o mdico e historiador cearense baro de Studart. Na manh seguinte quele que ficaria conhecido como o Dia dos Mil Mortos, Fortaleza amanheceu com uma nuvem negra pairando sobre a cidade. No era nenhum sinal de chuva: eram centenas de urubus que davam rasantes no cu. L embaixo, ces disputavam entre si restos de carne humana. Para Ccero, era como se pelo menos trs dos quatro cavaleiros do Apocalipse a Fome, a Peste e a Morte estivessem solta no Cear. Dom Luiz, apavorado diante daquela matana, apelou para a misericrdia de Deus. Fez uma promessa pblica de que, to logo findasse a seca, mandaria construir um enorme templo em Fortaleza, dedicado ao Sagrado Corao de Jesus, o reparador das indignidades humanas e uma das devoes introduzidas pelo ultramontanismo que logo viria a ser incorporada pela f popular. Trs sacerdotes do Cariri padre Ccero, em Juazeiro; padre Flix Aurlio, em Misso Velha; padre Manoel Joaquim Aires do Nascimento, no Crato recorreram ao mesmo expediente. Em conjunto, organizaram procisses entre uma igreja e outra, levando as imagens dos respectivos padroeiros de cidade em cidade, de vilarejo em vilarejo. Assim como fizera o bispo, prometeram erguer tambm um santurio em honra ao Sagrado Corao. S um milagre pode salvar este povo, desesperou-se o padre Ccero por escrito a dom Luiz. Para grandes males, grandes remdios. Assim como veio, a seca foi embora. Em 1880, houve gua em fartura. To logo os primeiros pingos de chuva caram no cho, levantando no ar o to esperado cheiro de terra molhada, os demnios da peste saciaram sua sede de sangue. A varola cedeu. No Cariri, o povo agradecido teve certeza de que Deus enfim ouvira suas preces. Ccero, revigorado pela f dos juazeirenses, acelerou as obras de reconstruo da capela de Nossa Senhora das Dores. Ao mesmo tempo, comeou a planejar o prometido templo ao Corao de Jesus. A nova capela de Nossa Senhora das Dores ficou pronta apenas em 1884, quando Ccero 35. j completava quarenta anos de idade. Para um povoado to pequeno, aquela edificao de trs naves, com duas altas torres quadrangulares e topos em forma de pirmides apontando para o cu, construda sem verbas oficiais da Igreja, parecia uma verdadeira catedral. Para dom Joaquim Jos Vieira, que substitura dom Luiz no comando da diocese, a construo era um impressionante smbolo de f: admirvel que um sacerdote pobre tenha podido construir um templo vasto e arquitetnico em tempos anormais, ainda mais nestes que atravessa essa diocese, assolada pela seca, fome e peste. Ccero, antes olhado com preveno, passara a ser um aliado do palcio episcopal. Mas no por muito tempo, logo se veria. Que ningum se deixasse enganar pela aparncia. Aos 48 anos, paulista de Itapetininga, o esguio dom Joaquim cuja magreza chamou a ateno dos cearenses que o viram desembarcar do convs do vapor Esprito Santo, em fevereiro de 1884 era homem de ideias firmes. A respeito dele, contavam-se histrias de generosidades beatficas, mas tambm de intrepidez extrema. Comentava--se, por exemplo, a doao que fez da prpria casa da famlia, em Campinas, para o asilo de rfs que fundou naquela cidade, onde ajudou a erguer a matriz e uma famosa Santa Casa de Misericrdia. Mas muito se falava tambm da ruidosa polmica que provocou, ao se recusar a cumprimentar o imperador Pedro II em solenidade oficial. Ao lhe indagarem qual o motivo da descortesia e da insubordinao em relao ao monarca, explicava que jamais prestaria reverncia a um rei que mandava religiosos para a cadeia. Quando ocorreu o tal incidente, dom Joaquim Jos Vieira ainda no havia se sagrado bispo. Ele era apenas o padre Vieirinha, como lhe chamavam os campineiros. E, em sua desabusada resposta, referira-se aos decretos de priso assinados pelo imperador contra dom Vital Maria Gonalves e dom Antnio de Macedo Costa, respectivamente bispos de Olinda e do Par. Os dois haviam sido condenados a quatro anos de trabalhos forados por terem punido padres de suas dioceses que participavam de irmandades manicas. Dom Vital e dom Antnio seguiam risca o que determinara o papa, por meio do Syllabus errorum, o documento do Vaticano que declarara guerra modernidade e maonaria. Ningum desconhecia que existiam maons graduados na alta cpula da Corte, entre eles o prprio Pedro II, que pela Constituio imperial podia interferir em assuntos de natureza eclesistica, uma vez que no Imprio a Igreja era atrelada ao Estado. O episdio no deixava dvidas de que dom Joaquim cerrava fileiras, de forma radical, junto ao movimento ultramontano. Sua gesto frente da Igreja cearense se anunciava, portanto, como um prolongamento do trabalho iniciado pelo atento dom Luiz, que deixara Fortaleza ao ser elevado ao posto de arcebispo da Bahia e, consequentemente, de arcebispo primaz do Brasil desde 1676 aquela arquidiocese era a sede metropolitana da Igreja Catlica no pas. Uma das primeiras providncias de Joaquim como novo bispo do Cear foi exatamente realizar uma peregrinao de visitas pastorais pelo interior da diocese, incluindo o Cariri. Foi quando conheceu Ccero pessoalmente. Em 19 de agosto de 1884, a regio inteira recebeu o bispo com festas e oraes. Dom Joaquim pregou a necessidade de reabertura imediata do seminrio do Crato, fechado 36. precocemente por causa dos trs anos seguidos de seca. Tratou tambm de estender a visita s demais igrejas da regio, o que o levou nova capela do Juazeiro, erguida pelo trabalho de certo padre Ccero Romo Batista. Os moradores do vilarejo ficaram maravilhados ao saber que a consagrao do altar que eles haviam construdo com o prprio esforo seria celebrada por um bispo, com a presena de sacerdotes vindos de todo o Cariri. Ccero causou uma boa impresso inicial aos olhos do novo titular da diocese. Cheio de pacincia e de bondade em suas relaes, suficientemente instrudo e assduo na leitura dos autores ascticos, escreveria dom Joaquim a respeito do capelo do Juazeiro. Entre os escritores da predileo de Ccero referidos pelo bispo estavam os msticos cristos Marqus de Merville e Joseph von Grres. O primeiro, autor francs de um cartapcio de seis volumes, Des Espirits et de leurs manifestations fluidiques, tradutor do Livro negro de so Cipriano e defensor da tese de que Satans espreitava cada passo dos seres humanos. O segundo, Von Grres, era um alemo autor de outra obra volumosa, intitulada exatamente A mstica crist. Mas alm das leituras de Ccero, o bispo notou algumas singularidades no comportamento do sacerdote que lhe causaram espcie: Este padre tem o mau costume de no se deitar para dormir, o que faz que ele adormea sentado ou mesmo em p. Aquela histria de dormir em p j era bem famosa entre os moradores do Juazeiro. Muita gente havia testemunhado a cena. Ccero arriava a cabea sobre o peito e ressonava nas horas mais improvveis. Houve quem o visse entregue ao sono at sobre a sela da montaria, enquanto cavalgava, ou em algum alpendre de fazenda, bem no meio da prosa com os donos da casa. Tais fatos, em vez de depor contra a imagem do padre perante os fiis, s faziam aumentar a curiosidade e a admirao popular a respeito de sua figura. Se o capelo dormia dentro do confessionrio, em pleno sagrado ministrio, era porque estava exausto dos jejuns e do trabalho diuturno de missionrio da f, avaliavam. Alm do mais, casos como aqueles iriam se somar a um extenso repertrio de histrias pitorescas contadas pelo povo, que aos poucos iam ganhando contornos de lenda. Numa das mais famosas, dizia-se que, quando jovem, Ccero conseguia ler da janela do seminrio o letreiro dos navios ancorados no alto-mar a quilmetros de distncia. Tambm havia quem jurasse que na falta de cabide apropriado o padre j conseguira a proeza de fixar o chapu, como que por encanto, em plena parede lisa. E no faltava quem repetisse que Ccero sabia respirar at debaixo dgua: certa vez, nos tempos de seminrio, teria se mostrado capaz de mergulhar no mar de Fortaleza e permanecer submerso por um tempo to grande que os colegas, assustados, chegaram a d-lo como morto. Dom Joaquim relevou os famosos acessos de sonolncia do capelo, embora no pudesse ter deixado de reparar na crescente mitologia que, desde ento, j comeava a cercar o padre do Juazeiro. Contudo, atribuiu todo esse rosrio de crendices aos resqucios das pregaes populares do andarilho Ibiapina, que morrera cerca de um ano e meio antes, na Paraba, depois de um derrame cerebral deix-lo paraltico e preso a uma cadeira de rodas. Imaginava- se que, com o desaparecimento definitivo do missionrio, a influncia que exercera nos sertes tenderia a diluir-se na memria dos sertanejos. O bispo s ficou apreensivo quando, em 1886, dois anos aps aquela primeira ida ao Cariri, retornou regio em nova visita pastoral. Dessa feita, dom Joaquim Jos Vieira encontrou-se com Ccero na ento aldeia de Quixar (mais tarde municpio de Farias Brito), 37. localizada poucas lguas ao norte do Crato. O capelo do Juazeiro confidenciou-lhe ento uma histria fora do comum, a respeito de uma das beatas que frequentavam os trabalhos religiosos na capela de Nossa Senhora das Dores. Foi a primeira vez que dom Joaquim escutou o nome de Maria de Arajo, a Maria Preta, lavadeira, costureira e doceira. Uma mulherzinha pequena e cafuza, de lbios grossos e carapinha trazida sempre oculta sob o negrume do vu. Teria sido em novembro, o chamado ms das almas, trs meses aps a primeira visita do bispo ao Cariri. De acordo com o relato de Ccero, Maria de Arajo assistia missa como de costume. De repente, a mulher experimentara estranha sensao. Era como se algum, invisvel, a abraasse fortemente. Na hora, a beata sofrera um desconforto semelhante dor fsica, embora ao mesmo tempo fosse reconfortada por um imenso e at ento desconhecido consolo espiritual. Logo depois, ao conferir o prprio corpo, Maria de Arajo percebera que algo de extraordinrio e inexplicvel acabara de lhe acontecer: uma cruz de sangue fresco teria ficado impressa, de forma ntida, em seu peito. O bispo recomendou prudncia a Ccero. Ordenou-lhe preservar o mais absoluto silncio sobre tal assunto. Era preciso no se deixar enganar pelas aparncias, argumentou dom Joaquim. s vezes, por trs da cruz, escondem-se os artifcios do diabo. Ccero obedeceu e, assim, com o episdio aparentemente esquecido, o bispo continuou a oferecer-lhe seguidas provas de confiana. Concedeu-lhe a prerrogativa para absolver maons em casos de extrema- uno e o nomeou interinamente proco da freguesia de So Pedro futura Caririau , distante menos de cinco lguas (cerca de trinta quilmetros) do Juazeiro. Algum at poderia interpretar tal gesto como uma manobra sutil para retirar Ccero do povoado e, por extenso, furt-lo do contato com as beatas de que vivia rodeado. Entretanto as palavras do bispo eram de aparente ponderao e quase apelo: Sei quanto ama esse Juazeiro; mas a incumbncia que lhe fao no lhe obriga a ir residir em So Pedro; somente para ir dar aporte espiritual quele povo, quando lhe for possvel, explicou o prelado. E ponderou: No sei quanto dista do Juazeiro a So Pedro; se for perto, de modo que Vossa Reverendssima possa celebrar duas missas nos domingos e dias santificados, autorizo-lhe a bisar; isto , a celebrar uma missa no Juazeiro e outra em So Pedro. Mais uma vez, Ccero acatou sem discutir o que ordenava o bispo e chegou a celebrar missas em So Pedro. Porm, cerca de seis meses depois, alegou motivos de sade para abdicar da tarefa. Dom Joaquim molhou a pena no tinteiro e voltou a lhe escrever, no dia 11 de julho de 1888: Tem me incomodado muito a notcia de seu estado de sade, no s porque isto lhe penoso, seno tambm porque a falta de seus bons servios imensamente prejudicial a esse lugar da freguesia de So Pedro. Algumas linhas adiante, o bispo acrescentou: Escreva-me logo que receber esta, dando-me notcias do seu estado. Se precisa de alguns recursos, diga-me com franqueza. Com muito gosto farei tudo que puder por sua pessoa. Por causa da conhecida indigncia em que vivia o padre, dom Joaquim decidiu recorrer aos prstimos de um cratense que desfrutava de boa relao com Ccero. No dia seguinte, o bispo enviou nova missiva ao Cariri, endereada a Joaquim Secundo Chaves, farmacutico e 38. tenente-coronel da Guarda Nacional: Talvez o padre Ccero sofra algumas privaes por no ter coragem de manifest-las. Se assim acontecer, desde j autorizo e peo a Vossa Senhoria a bondade de fornecer tudo o que lhe for necessrio, mandando-me em seguida a conta das despesas feitas, para que eu pague com prontido. No necessrio que o padre Ccero saiba disso, ou antes no convm que lhe chegue ao conhecimento, porque ele talvez recusar. Fique, pois, entre ns. Ao que tudo indicava, o bispo se esforava para resolver a pendncia paroquial e, ao mesmo tempo, procurava demonstrar legtima boa-f com o capelo do Juazeiro. Entretanto, alm de uma declarada debilidade fsica, logo Ccero Romo Batista teria motivos adicionais e bem mais significativos para no querer ficar longe um s minuto do povoado. A partir de ento, os humores de dom Joaquim no tardariam a virar pelo avesso. O bispo ficou profundamente irritado por descobrir indiretamente, por uma notcia de jornal, o que prendia Ccero ao Juazeiro. Algo de muito srio estava se passando por l, sem que o palcio episcopal sequer houvesse sido comunicado: a beata Maria de Arajo, a mesma de quem lhe falara um dia Ccero, teria voltado a manifestar fenmenos sobrenaturais. Desta vez, o assunto era infinitamente mais grave. Era preciso tomar providncias imediatas. A primeira que ocorreu ao bispo foi justamente escrever a Ccero: Escrevo s pressas para aproveitar o correio que deve partir daqui a poucas horas. Refiro-me ao boato que por aqui corre com relao beata Maria de Arajo. Em 1886 Vossa Reverendssima referiu-me alguma cousa acerca de certas maravilhas praticadas por esta devota. Guardei reserva, esperando que o tempo viesse esclarecer o negcio de modo a no deixar dvida. [...] Com franqueza lhe digo: no gostei da histria, porque esses fatos s devem sair luz quando bem averiguados. Agora, porm, o negcio tomou uma feio muito sria. As informaes que partiam do Cariri eram cada vez mais inquietantes. Falavam que o padre Ccero Romo Batista e a beata Maria de Arajo haviam protagonizado um milagre. O maior e o mais admirvel de todos os milagres a que o mundo cristo j assistira. 39. 3 Mistrios no povoado perdido: hstia vira sangue, beata fala com Jesus 1889 Naquela noite escura e sem lua, Ccero levantou as mos para os cus e pediu perdo pelos pecados do mundo. Quem olhasse l de fora em direo s janelas abertas da capela de Nossa Senhora das Dores avistaria, j de longe, o lampejo das centenas de velas acesas cortando o breu. O forte cheiro de cera derretida e o adiantado da hora indicavam que os membros da irmandade de beatos, cerca de vinte deles, haviam passado mais uma madrugada inteira em viglia, em louvor ao Sagrado Corao de Jesus. Meia hora antes do amanhecer, quando os galos se preparavam para anunciar outra escaldante manh de sol no serto, Ccero decidiu que as sete ou oito mulheres ali presentes mereciam receber a comunho antes dos homens, para retornarem s respectivas casas. Elas precisavam descansar o corpo fatigado de to prolongada sentinela em nome da f. Com o vu escuro sobre a cabea e o alvo rosrio entrelaado nas mos magras e morenas, as beatas atenderam ao chamado e se aproximaram em fila indiana, uma a uma. frente delas, ia Maria de Arajo. Com os olhos fechados, ela foi a primeira a se postar diante do padre e entreabrir a boca, contrita. Contudo, quando a hstia lhe tocou a lngua, a beata abriu e revirou os olhos espantados. Parecia ter entrado em estranho transe. E foi ento que se deu o fenmeno: segundo chegariam a jurar sobre a Bblia as testemunhas ali presentes, a hstia na boca de Maria de Arajo mudou de forma e de cor. Transformou-se, inesperadamente, em sangue vivo. O fio de sangue desceu dos lbios da mulher e, como ela tentasse cont-lo, este lhe banhou o dorso da mo esquerda. Depois, escorreu ao longo do brao, at cair no cho da capela, que ficou respingado de vermelho. Com ar aflito, a beata mirava e mostrava ao padre uma toalhinha branca dobrada nas mos, tingida pelas manchas rubras que haviam transbordado da boca e que ela depois procurara enxugar. Foi um alvoroo sem par. Quando os primeiros raios de sol aqueceram a alvenaria da fachada principal do templo, a notcia j corria pelo povoado: na branca capela de Nossa Senhora das Dores, entre os lbios da beata Maria de Arajo, a hstia consagrada pelo padre Ccero havia se materializado no corpo, na carne e no sangue divino de Jesus. Sangue que, a exemplo do que ocorrera dois milnios antes e no alto da cruz, estaria sendo derramado para lavar os pecados e as dores dos homens. Foi no dia 1o de maro de 1889, uma sexta-feira da Quaresma. Como a desafiar a incredulidade dos mais cticos, o episdio se repetiria por meses a fio, sempre s quartas e 40. sextas-feiras. No Sbado de Aleluia, o sangue teria jorrado de novo da boca da beata Maria de Arajo. Numa das ocasies, de to abundante, chegara a atingir e embeber o corporal o tecido branco e quadrangular sobre o qual se coloca o clice com o vinho e a patena, o pratinho de metal com as hstias. Seria impossvel, diante de to insistentes e misteriosas manifestaes, conter o xtase coletivo. De imediato, uma palavra passou a ser voz corrente na regio: milagre. Juazeiro transformara-se em cho sagrado. Moradores das cidades e localidades mais prximas chegavam de forma espontnea ao minsculo povoado, atrados pelas narrativas que davam conta do sangue de Jesus derramado em pleno agreste. Mas foi em 7 de julho, um domingo que marcava o pice da tradicional festa crist do Precioso Sangue, que Juazeiro assistiu pela primeira vez chegada macia e ordenada de milhares de peregrinos. Foi a primeira de todas as romarias. Naquela manh, cerca de 3 mil pessoas quase dez vezes a populao do lugarejo apinharam-se nas estreitas e diminutas ruelas do local. A maioria era proveniente do Crato e vinha sob as bnos expressas do novo reitor do seminrio, monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro. Conhecido pela oratria inflamada, monsenhor Monteiro conduziu uma procisso at a capela de Nossa Senhora das Dores, naquele dia adornada com velas, flores e fitas coloridas. Ao trmino da missa, com sua autoridade clerical e o estilo ardoroso de sempre, Monteiro fez um sermo histrico, durante o qual exibiu, com gestos arrebatados, uma toalha manchada de sangue. Segundo ele, no havia dvidas de que aquele era o verdadeiro sangue de Jesus Cristo. As palavras do reitor do seminrio do Crato contagiaram o corao daquele mundaru de gente. A comoo se propagou como descarga eltrica no meio da multido. Centenas de pessoas se prostraram de joelhos, em choro compulsivo, diante da viso do tecido ensanguentado. Levas de peregrinos se sucederam quela romaria inicial. Vinham sempre aos milheiros, a p ou a cavalo, de perto e de longe, com o nico intuito de adorar os panos considerados sagrados pelo contato com o sangue divino. Colocadas em uma caixa de vidro e postas exposio pblica na capela do Juazeiro sob a guarda de Ccero, as relquias tornaram-se alvo de devoo extremada. No foi tudo. O Cu parecia ter aberto a caixa de milagres. Pouco depois, em 19 de agosto daquele mesmo ano, espalhou-se que outro fenmeno fantstico ocorrera no povoado. Segundo assegurava Maria de Arajo, dessa vez o prprio Jesus Cristo teria lhe aparecido em viso, enquanto ela orava na capela. Dois dias mais tarde, em nova apario beata, em plena celebrao da missa pelo padre Ccero, Jesus teria revelado a ela, reservadamente, que decidira fazer do Juazeiro um portal por onde apenas os puros e justos entrassem no reino dos cus. Monsenhor Monteiro parecia convicto de que a beata falava a verdade: No h dvida de que a beata Maria de Arajo, humilde, pobrezinha, uma santa, uma santa como a histria ainda no registrou! Muitos livros no bastaro para neles se escrever o que h de sobrenatural naquela simples criaturinha de Deus! Os romeiros no ousaram duvidar da nova maravilha. Se, de acordo com o que pregava a Igreja, Jesus teria aparecido em outros tempos para um punhado de bem-aventurados, por que no se revelaria agora para Maria de Arajo, que j teria obtido a suprema graa de abrigar o sangue sagrado no interior de sua boca? Se dois sculos antes, em 1675, Jesus teria mostrado 41. o corao exposto em chamas para a freira francesa Maria Margarida Alacoque em um convento da regio da Borgonha, por que no poderia repetir o mesmo prodgio, tanto tempo depois, numa capela do pequenino Juazeiro, que tinha o piedoso padre Ccero como seu protetor? Todos sabiam que a Igreja Catlica aceitava, como fato, a crena de que Jesus Cristo, com o peito incendiado de sangue e de luz, teria pedido francesa Margarida Alacoque que difundisse mundo afora o culto ao Sagrado Corao, confiando-lhe a misso divina de reparar, pela orao, os sortilgios humanos. Pois para os que acorriam em massa a Juazeiro no era de admirar que o mesmo Cristo houvesse voltado Terra e anunciado a Maria de Arajo, uma devota fervorosa do Corao de Jesus, que iria fazer, por meio dela, um novo chamamento s almas desgarradas do caminho e da palavra de Deus. Padre Ccero, confessor da beata, seria o grande responsvel pelas bnos que estavam se derramando sobre o Juazeiro. Era ele que indicaria a todos o caminho dos cus. No demorou muito para que as histrias espantosas que se contavam a respeito do assunto percorressem lguas e mais lguas, at chegar s letras de forma dos principais jornais do pas. O primeiro peridico a noticiar o caso foi uma importante gazeta da capital do Imprio, o Dirio do Commercio, que tinha redao, escritrio e oficina montados na nevrlgica rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Recebemos a seguinte informao, em carta dirigida da provncia do Cear, anunciava o jornal carioca, na edio de 19 de agosto daquele ano de 1889. Quando o padre Ccero dava a comunho virtuosa beata Maria de Arajo, transformou-se a sagrada forma em sangue, que caiu na toalha e na mura da beata, fato que se foi dando todas as sextas-feiras e depois diariamente. Informava-se ainda que um sem-nmero de habitantes da cidade do Crato, e de toda a circunvizinhana, concorreu de modo que jamais se viu naquela povoao tamanha aglomerao de fiis. Dez dias depois, era a vez de o Dirio de Pernambuco repercutir a notcia, com ainda maior alarde. Fato estupendo, lia-se em negrito nas pginas do prestigioso jornal de Recife. A descrio do proclamado milagre era novamente seguida da informao de que caravanas de peregrinos no paravam de acorrer ao local. provvel que esta fiel exposio de um acontecimento sobrenatural levante a incredulidade, e que esta o comente a seu sabor. Mas o que certo que ele foi testemunhado por mais de 30 mil pessoas; e que o Juazeiro tem se tornado uma nova Jerusalm pela romaria dos povos vizinhos. Uma nova Jerusalm. A senha estava dada. A serra do Catol e seu espinhao de pedra recortando o horizonte do Juazeiro seria o novo monte das Oliveiras. O riacho Salgadinho, que banhava as terras do povoado, o novo Jordo. Jesus Cristo teria escolhido o povo mais simples e o lugar mais remoto do mundo para, sobre ele, derramar de novo sua palavra. Nada mais justo, acreditavam os peregrinos em romaria. Segundo rezava o Novo Testamento, no foram tambm os primeiros apstolos homens do povo, humildes e incultos pescadores de peixe, transformados pela f em pescadores de almas? 42. Ccero no podia ter dvidas de quem era o remetente daquela carta que vinha de Fortaleza, datada de 4 de novembro de 1889, com o selo e as armas eclesisticas gravados no lacre de cera. O bispo do Cear, dom Joaquim Jos Vieira, com a autoridade que lhe competia como chefe da Igreja Catlica Apostlica Romana na provncia, cobrava explicaes a respeito dos muitos boatos que lhe chegavam sobre aquele distante povoado. Com caligrafia rebuscada, o tom da correspondncia era corts, mas firme, como convinha situao e hierarquia que separava autor e destinatrio. Sou amigo de Vossa Reverendssima; confio na sinceridade e na sua ilustrao e por isso o julgo incapaz de qualquer embuste, iniciava, amistosa, a carta do bispo ao padre Ccero Romo. Faa-me, com a maior urgncia, uma exposio minuciosa de todas as circunstncias que precederam, que acompanharam e subseguiram o fato, para que eu possa tomar as providncias atinentes ao caso, ordenava dom Joaquim. Enquanto se espera por esse juzo, probo expressamente a Vossa Reverendssima qualquer manifestao a esse respeito, advertia o prelado, para finalizar: Estou persuadido que Vossa Reverendssima, ilustrado e piedoso como , no se escandalizar com esta minha determinao, pois sabe que me incumbe o dever de velar sobre a pureza da doutrina catlica. Deixo de fazer mais consideraes porque julgo ter explicado bem claramente o meu pensamento. Apesar das ordens cristalinas contidas na mensagem, o bispo recebeu apenas o silncio como resposta. Chegou a enviar uma segunda correspondncia oficial a Ccero, reiterando a mesma cobrana, que ficou igualmente sem retorno. Parece-me ser grande imprudncia chamar a ateno do pblico para a beata Maria de Arajo. Este fato pode trazer a ela sentimentos de vaidade, em detrimento da salvao, insistia dom Joaquim, na segunda carta. Padre Ccero, parece-me prudente no se dar ainda expanso ao fato, porque possvel que mais tarde se verifique ser ele fruto de causas meramente naturais; e ento grande ridculo recair sobre a nossa Santa Religio. Ao contrrio do minucioso relatrio que exigia, dom Joaquim viu-se obrigado a ler pela imprensa uma nova notcia sobre os episdios fantsticos, que no paravam de ocorrer no povoado. Desta feita, o agravo vinha com assinatura e, portanto, assumida autoria. Uma carta escrita de prprio punho pelo monsenhor Francisco Monteiro, o reitor do seminrio do Crato, endereada a um cnego paulista, acabara de ser publicada em um jornal de So Paulo. Nela, falava-se abertamente em novos milagres. Na carta, reproduzida pela folha religiosa Estrela da Aparecida, monsenhor Monteiro dizia que, no dia 22 de agosto, em Juazeiro, a beata Maria de Arajo chegara capela de Nossa Senhora das Dores, pouco antes da missa, com a roupa banhada em sangue. De acordo com o que a mulher explicara, Jesus Cristo havia se revelado de novo a ela, desta vez devidamente paramentado, de sobrepeliz e estola, como se fosse um padre pronto para subir ao altar. Segundo o relato, Jesus oferecera mulher um clice de ouro, cheio de vinho, que de imediato se transformara em sangue. Maria de Arajo bebera a metade do lquido e a outra metade teria sido derramada pelo prprio Jesus sobre a cabea da beata. Quero que bebas o meu Sangue e te banhes com ele, dissera-lhe o Cristo, ainda conforme a carta assinada e tornada pblica pelo reitor do seminrio do Crato. Quero fazer deste lugar, Juazeiro, um chamado para a salvao dos homens. este um esforo de amor do 43. meu corao, acrescentara Jesus beata Maria de Arajo. O bispo se convenceu de que estava diante de um grave caso de indisciplina. Meses antes, recebera em audincia no palcio episcopal, em Fortaleza, o mesmo monsenhor Monteiro, que no lhe fizera a mais leve meno ao assunto. Dom Joaquim sentiu-se ludibriado. Tanto por Monteiro quanto por Ccero. Este, em junho, trs meses depois da primeira ocorrncia dos alegados milagres, chegara a lhe enviar longa carta. Nela, tambm no havia nenhuma palavra sobre o caso. Apenas um dramtico apelo para que o bispado intercedesse junto s autoridades e conseguisse uma possvel ajuda contra a seca que mais uma vez assolava a provncia. Vossa Excelncia Reverendssima, por caridade e por Nossa Senhora das Dores, que dona deste lugarzinho to caro a seu sagrado corao, seja o instrumento de que ela se sirva para nos salvar, implorara Ccero. Eu no sou nada, tenho conscincia do pouco que sou e por isso no me atrevo a dirigir-me aos que governam; so polticos, s com polticos se entendem. Lembrei-me de pedir a Vossa Excelncia, que sabe chorar com os que choram, para se interessar por ns, nos alcanando algum recurso do Governo, dizia a carta. Temos pedido muito a Nosso Senhor e os meus pecados impedem que ele oua! Como posso ver esse pobre povinho que amo tanto, como uma parte de minha alma, desaparecer?, escrevera o padre Ccero. Sobre hstias que se transformavam em sangue, nada. Dom Joaquim sabia que uma circunstncia histrica tornava o assunto ainda mais explosivo e suscetvel de contagiar multides. As notcias sobre o milagre se espalhavam com a mesma velocidade daquelas que davam conta de que, no Rio de Janeiro, um grupo de militares havia acabado de derrubar o imperador dom Pedro II e proclamado a Repblica. Para cristos mais exaltados, a confluncia entre os dois episdios significava um claro sinal de que o fim dos tempos estava prximo. Os republicanos, que estabeleceriam a separao constitucional entre Igreja e Estado e instituiriam o casamento civil, passaram a ser a prpria representao do Anticristo. A Bblia dizia que, quando este chegasse Terra, o fim do mundo estava prximo. O alegado milagre no Juazeiro seria ento a resposta dos cus, a advertncia celeste de que era chegada a hora do arrependimento final. Ccero, que durante os longos primeiros quarenta anos de sua vida havia permanecido um sujeito annimo fora das fronteiras do pequenino Juazeiro, comeava a desfrutar de crescente notoriedade. Para os que acreditavam no milagre, ele era o santo benfazejo do Cariri. Para dom Joaquim, ao contrrio, ele era a ovelha desgarrada, aquela que ameaa pr a perder todo o resto do rebanho. Ao deixar de responder s duas cartas enviadas pelo palcio episcopal, Ccero cara em descrdito perante o julgamento de seu superior imediato. Para o bispo, o indesculpvel silncio equivalia a uma confisso de culpa. No entender de dom Joaquim, o nico remdio que restava era fazer cumprir a proverbial sentena: antes que o mal cresa, corte-se-lhe a cabea. 44. 4 Beata sangra as chagas de Cristo. Uns dizem que graa de Deus; outros, ardileza de Satans 1890-1891 Monsenhor Francisco Monteiro entregou o papel dobrado nas mos de dom Joaquim. O bispo nem mais esperava por aquela carta, vinda do Juazeiro. Nas folhas de papel de seda datadas de 7 de janeiro de 1890, as letras a bico de pena eram firmes e inclinadas direita, as maisculas rebuscadas e redondas. Ao final de dezenove pargrafos, distinguia-se a assinatura de Ccero. Parecia, primeira vista, um rogo de desculpas. No era. Nas linhas iniciais, o bispo leu o pedido de perdo pelo atraso de quase dois meses sem notcias. Com razo, Vossa Excelncia me chama de imprudentssimo, penitenciava-se o remetente. Porm, no pargrafo seguinte, uma frase categrica adiantava o real teor da mensagem. Sobre o alegado milagre protagonizado pela beata Maria de Arajo, Ccero tinha a afirmar, com todas as slabas: No posso duvidar, porque vi muitas vezes. Padre Ccero assegurava ao bispo que na primeira ocasio em que a hstia se transformara em sangue ele estava to compenetrado no ofcio de dar a comunho aos demais devotos que no dera pelo fato. Somente ao final da viglia, quando j depositara a mbula no sacrrio, que deparara com uma aflita Maria de Arajo, a toalhinha branca manchada de vermelho nas mos. Eu que conheo a sinceridade e simplicidade dessa criatura, a confuso e o vexame com que estava, nem sequer tinha dvida da verdade que via, afirmou. O mais inquietante, para dom Joaquim, viria a seguir, ao virar a pgina. A carta informava que, para tirar todas as dvidas a respeito do caso, Ccero mandara a beata orar e indagar a Deus sobre o significado de to misteriosos fenmenos. O Cu, segundo o padre, no demorou a dar resposta: Jesus Cristo teria se manifestado diretamente beata. O Nazareno conversava com Maria de Arajo, ficou sabendo o bispo. A descrio que Ccero fez da suposta conversa de Cristo com a beata era, no mnimo, desconcertante. Ela, simplesinha como uma criana, cheia de aflio, quando Ele apareceu perguntou-lhe se estava zangado com ela. Como um pai desvelado trata uma filha criana que ama muito, Ele disse que no estava no. De acordo com Ccero, Jesus teria ento explicado a Maria de Arajo, em linguagem simples para que a beata pudesse compreender, que tudo aquilo era uma manifestao da imensa caridade e misericrdia divinas. O mais no carecia ela saber. Ao fazer o histrico dos acontecimentos, Ccero era capaz de jurar pela cruz do rosrio que, mesmo estando crente no milagre, fizera de tudo para no dar a mnima publicidade ao 45. episdio. Eu fiz por abafar quanto pude; porm o fato continuou regularmente, alegou. Em pouco tempo, ficara impossvel ocultar o que j se tornara voz corrente no lugar. Mas, se algum era o verdadeiro responsvel pela divulgao macia da notcia, esse algum no seria ele, e sim monsenhor Francisco Monteiro, o fiel portador daquela carta. Foi monsenhor Monteiro quem convocou a primeira romaria a Juazeiro. Ele, Monteiro, que fez o sermo inflamado. Ele, tambm, que mostrou em pblico os paninhos ensanguentados afirmando ser aquele o sangue de Jesus. Quando eu soube, fiquei para morrer de vexame, escreveu Ccero. Desejava sumir-me pelo cho de angustiado. A pobre beata, que humilde na altura das graas que recebe, s no morreu de aflio por milagre. O bispo continuou a ler e tomou conhecimento de que diante da viso dos tais panos o povo inteiro chorara de emoo, em extraordinrio clamor. S eu no chorei, porque a minha aflio era outra, narrou Ccero. Ao longo de todo o texto da carta, Ccero procurava demonstrar ao bispo que no quebrara o devido voto de obedincia a um superior. Tanto que, quando soubera da primeira viagem de Monteiro a Fortaleza, teria sugerido que ele desse detalhada notcia de todos os acontecimentos ao palcio episcopal. Se o reitor no o fizera naquela ocasio, foi por um nico motivo, Ccero queria crer: Monteiro se esqueceu de falar a Vossa Excelncia. Ccero reconheceu que cometera um erro. Mas procurava se justificar: O que eu devia era comunicar tudo a Vossa Excelncia; porm chove de toda parte uma aluvio de gente, que quer se confessar, aos quinhentos, aos mil, aos dois mil, uma cousa extraordinria, famlias e mais famlias, com verdadeiro esprito de penitncia, gente ruim se convertendo. Diante de tanta atribulao para com os muitos peregrinos que chegavam ao povoado, simplesmente no lhe sobrara tempo para sentar e escrever. Por fim, Ccero afianava que Maria de Arajo era mulher abenoada. So tantas misericrdias de Nosso Senhor para com esta sua serva, que se eu tivesse escrito tudo o que Ele tem feito e tudo quanto Ele tem dito a esta criatura, essas conferncias de amor que s Ele sabe dizer, as comunicaes constantes com a Virgem, com os santos, com os anjos de Deus, com as almas, os tremendos combates do Inferno, dariam volumes. Sim, Maria de Arajo, afirmava Ccero, conversava com toda a corte celeste e fazia viagens espirituais ao Cu, ao Inferno e ao Purgatrio: Eu desejava que Vossa Excelncia visse ao menos uma ida dela ao Purgatrio para fazer penitncia pelas almas. Certamente sensvel como Vossa Excelncia, ficaria comovido at as entranhas. Nas ltimas linhas, Ccero reafirmava a disposio de manter o dever de obedincia ao bispo. Dizia inclusive que, desde que recebera a primeira carta de dom Joaquim, mandara proibir o culto aos paninhos ensanguentados. Mas, infelizmente, a medida de nada adiantara. Ainda no cessou a concorrncia do povo, comunicou, antes de assinar a mensagem. Dom Joaquim contou que leu e releu o contedo daquele mao de papel algumas vezes seguidas. Precisava meditar antes de formar qualquer juzo sobre o que significavam tais palavras deitadas ao correr da pena. S depois de muito refletir, o bispo decidiu responder por escrito a Ccero, fazendo do mesmo monsenhor Monteiro o portador da mensagem. Seria uma rplica em tom moderado. No constaria nenhuma vrgula sobre as tais conversaes da beata com Jesus ou sobre as excurses por Cu, Inferno ou Purgatrio, histrias que pareciam 46. ter sado das pginas medievais dos Dilogos de So Gregrio Magno, nas quais o mundo dos mortos aparece em constante confabulao com o dos vivos. O bispo apenas dizia que, de tudo que lera de Ccero e ouvira de viva voz de Monteiro, s conseguira tirar uma nica concluso: Maria de Arajo sangrava pela boca. Isso, ao que parecia, era o nico fato inconteste. Mas, no entender de dom Joaquim, tal circunstncia em nada significava que aquele sangue possusse origem divina. Poderia ser, afinal, o sangue da prpria beata. Qualquer outra ilao a respeito, argumentou o bispo, seria precipitada e hertica. Dom Joaquim deixava evidente que no proibia Ccero de falar sobre o que vira, desde que no atribusse ao episdio o qualificativo de milagre. Por consequncia, tambm no mais permitiria que prosseguisse em Juazeiro o culto pblico de adorao a um punhado de panos ensanguentados. O bispo sugeriu que, na hiptese da ocorrncia de novos fenmenos como aquele, Ccero se cercasse do maior nmero possvel de testemunhas idneas. Gente acima de qualquer suspeita, capaz de depor sob juramento em um possvel inqurito religioso a respeito do caso. S um processo que seguisse todos os ritos da lei cannica poderia avaliar se estavam diante de um milagre ou de uma crendice. Se Deus quiser operar quaisquer maravilhas em favor do Cear, Ele o far de modo que no deixar dvida alguma, avaliou. Era uma resposta judiciosa, ditada pelo comedimento. Contudo, menos de uma semana depois, dom Joaquim tomou atitude mais resoluta. Aps sopesar o assunto, considerou que talvez fosse melhor obter maiores garantias a respeito do caso. No queria que lhe chegassem aos ouvidos problemas mais graves vindos do pequeno mas preocupante Juazeiro. A histria de toda a regio j estava por demais recheada de exemplos de devoes populares que desaguavam em tragdias coletivas. Ainda estava viva na memria de todos a matana de Pedra Bonita, cinquenta anos antes. Em Serra Talhada, Pernambuco, um mstico de nome Joo Ferreira derramara o sangue dos prprios seguidores. Velhos, mulheres e crianas foram degolados ou tiveram o crnio esmagado com paus e pedras. Tudo pelo propsito de desencantar e trazer de volta Terra dom Sebastio, rei portugus desaparecido no sculo XVI em meio a uma batalha contra os mouros nas areias do Marrocos. Segundo Ferreira, o rei teria lhe aparecido em viso e proposto o sangrento ritual de sacrifcio humano para poder retornar ao mundo. Antes, outro visionrio sebastianista, o beato e ex-miliciano Silvestre Jos dos Santos, tambm reunira centenas de seguidores em torno de um povoado, na serra pernambucana do Rodeador. O ingresso em tal comunidade, exigia o beato Silvestre, s era permitido aps uma petio feita pelo pretendente diretamente a Nossa Senhora. Uma vez membro do grupo, havia leis especficas a seguir. Entre elas, o consentimento para saques armados contra fazendas e propriedades vizinhas como forma de debelar a injustia e a fome do povo. Nenhuma daquelas histrias acabara bem. Tanto na serra do Rodeador quanto entre os sobreviventes da Pedra Bonita, os insubmissos foram passados na espada pela represso governamental. Como se no bastassem tais exemplos, existiam ainda acusaes oficiais contra a presumida influncia do falecido Ibiapina na chamada Guerra dos Quebra-Quilos, insurreio deflagrada simultaneamente em quatro provncias nordestinas Alagoas, Paraba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Em fins de 1874 e meados de 1875, o povo sara s ruas contra a adoo do sistema mtrico decimal, que introduzia o metro, o litro e o quilo no pas em substituio s antigas unidades de medida coloniais, como a vara, as canadas e as onas. 47. A insatisfao pela alta de impostos e a grita por causa de uma nova lei de alistamento militar confluram para o mesmo esprito de revolta. Cartrios e coletorias sofreram invases e tiveram toda a sua papelada queimada. Cadeias foram arrombadas e prisioneiros postos em liberdade. Feiras e mercados se tornaram alvo de depredaes. Os novos instrumentos de medida, considerados pelos mais exaltados como apetrechos malignos de Sat, foram destrudos pela turba em fria. Da viera o nome Quebra-Quilos. Em meio balbrdia, gritavam-se vivas a Deus e morte aos maons. Para quem assistia a tudo da posio estratgica ocupada por dom Joaquim, era necessrio imunizar a diocese, antes que ali tambm se inoculasse o germe da rebeldia. A diligncia sempre fora a me do bom xito, ensinava a arte da prudncia. Por vezes, uma nica fagulha era suficiente para atear fogo a uma catedral inteira. Precavido, o bispo escreveu outra carta a Ccero, desta vez com uma determinao objetiva: Maria de Arajo deveria sair do povoado e se recolher, o mais breve possvel, casa de caridade do Crato. A inteno de dom Joaquim era evidente: dar fim ao assunto, que para ele j se estendera alm da conta. De mais a mais, com a beata apartada de Ccero, ficariam afastadas quaisquer suspeitas de que o capelo do Juazeiro fosse o mentor de um provvel embuste. Ou, dito de outro modo, ficaria esclarecido se, de alguma forma, era a presena do padre que provocava a ocorrncia dos fenmenos msticos manifestados por Maria de Arajo. Dando-se os mesmos fatos, em outras condies, verifica-se o negcio e tiram-se todas as objees que razoavelmente se possam fazer, ponderou o bispo. Mal recebeu a deliberao de Fortaleza, Ccero apressou-se em implorar a dom Joaquim que revisse a questo, pois julgava a deciso demasiadamente extrema. Explicou que a beata era mulher de sade frgil sade de passarinho, como se diz no serto. Com certeza, Maria de Arajo iria padecer maus bocados em uma viagem do Juazeiro para o Crato. Quem sabe, coitada, nem sequer resistisse a to exaustiva travessia. E, caso sobrevivesse aos solavancos da montaria, muito pior seria suportar o isolamento forado. Era melhor a pobre criatura permanecer no povoado, entregue aos cuidados dos parentes e dos amigos, sob a responsabilidade e olhares dele prprio, seu confessor e conselheiro espiritual, Ccero Romo Batista. Dom Joaquim, visivelmente contrariado, mandou nova correspondncia ao Cariri, redigida em tom mais impositivo. Fazia ver a Ccero que estava apenas tentando cumprir o que cabia a seu dever de bispo: averiguar os fatos para que se pudesse proclamar sem hesitaes Digitus Dei est hic , numa traduo literal, O dedo de Deus est aqui. Joaquim empenhava sua palavra em que, longe do Juazeiro, no faltariam cuidados a Maria de Arajo. Mas fazia uma ressalva: Se a beata vier a morrer porque me obedece, dar mais uma prova de suas virtudes, a Santa Obedincia. Logo em seguida, vinha o ultimato. O bispado dava cinquenta dias, a contar do recebimento daquela carta, para que Ccero providenciasse a ida da beata ao Crato. Se no me obedecer, nada farei, mas ficarei triste e desconfiado, sentenciou dom Joaquim. A carta era datada de 7 de maro de 1890. Dois meses e meio depois, Maria de Arajo continuava no Juazeiro. Entretanto, as tristezas e desconfianas do bispo em relao a Ccero tinham de esperar. Havia um incndio para debelar bem no corao da diocese. Em Fortaleza, um grupo de seminaristas acabara de 48. rasgar os regulamentos internos. Uma revolta de estudantes explodiu, ruidosa, nos corredores do Seminrio da Prainha. Bebamos o sangue desses franceses! foi o grito de guerra que ecoou no ptio do seminrio. Os estudantes haviam tomado o lema emprestado das pginas da Histria dos girondinos, do escritor Alphonse de Lamartine, para desafiar a tutela dos padres lazaristas e a autoridade do reitor Pierre-Auguste Chevalier. Em 13 de maio, primeiro aniversrio da abolio da escravatura no Brasil, os alunos levantaram da cama dispostos a realizar uma srie de celebraes patriticas ao longo do dia. Mas o reitor recusou-se a decretar feriado no seminrio, exigindo que todos comparecessem s salas de aula como de costume. Os rapazes do curso teolgico liderados pelos seminaristas Antnio Toms e Joo Alfredo Furtado firmaram posio. Recusaram-se a baixar a cabea e obedecer. Se os escravos brasileiros no precisavam mais prestar satisfaes a seus antigos senhores, eles tambm estavam dispostos a quebrar os grilhes que os atavam ortodoxia de Chevalier. O pandemnio logo se estabeleceu. Nenhum professor conseguiu dissuadir os rapazes do protesto e, durante trs dias, do alto da janela de sua sala, padre Chevalier assistiu ao ptio interno do seminrio entregue agitao. O reitor, apesar da conhecida severidade, no encontrou meios para estancar o movimento. No por omisso ou falta de vontade. O vigor e a sade que j no eram mais os mesmos para o velho religioso, fragilizado pela catarata, que lhe foi roubando gradativamente a viso. Os clebres olhos de lince haviam definhado e perdido o poder da argcia. O palcio episcopal precisaria ser acionado. Quando percebeu que o reitor no conseguiria dar cabo da situao sozinho, dom Joaquim decidiu agir. Para tanto, usou mo de ferro. Procedeu a uma interveno radical, sem espao para indulgncias. Suspendeu todos os alunos, decretou que as aulas daquele perodo estavam encerradas e mandou fechar as portas do seminrio por tempo indeterminado. Bem no meio da celeuma provocada pela revolta estudantil, o bispo foi surpreendido por mais uma carta chegada do Juazeiro. Desta feita, a correspondncia no era assinada por Ccero, mas por uma certa Josefa do Sacramento. Dom Joaquim procurou na memria, mas no conseguiu identificar aquele nome. No sabia de quem se tratava. Ao pr os olhos no papel e ler as primeiras linhas, tomaria conhecimento de que a me da beata Maria de Arajo uma analfabeta era a hipottica remetente. Por tudo quanto sagrado e caro ao corao bondoso de Vossa Excelncia, por Nossa Senhora das Dores, meu Santo Bispo, no me separe de minha filhinha. Apoquentado pela rebelio na Prainha, dom Joaquim no se comoveu diante da splica que lhe era endereada. Na verdade, interpretou o pedido de Josefa como atroz insolncia. Ento Maria de Arajo ainda no havia se retirado do Juazeiro, ao contrrio do que recomendara meses antes? E como a me de uma mulher do povo que no deveria ser uma pessoa letrada, a exemplo da filha lhe escrevia uma carta em que se liam at mesmo certos trechos em latim? O bispo adivinhou a mo de Ccero segurando a pena que escrevera tais despropsitos. Quem redigiu a carta estava bem informado. Fazia meno, por exemplo, ao fato de que 49. pouco tempo antes o bispo alegara problemas de sade e declinara do convite de comandar a diocese do Rio Grande do Sul, encaminhando pedido formal Santa S para permanecer no Cear. Ora, se para dom Joaquim era doloroso separar-se do povo cearense, argumentava a mensagem assinada com o nome de dona Josefa, muito mais lastimoso seria para uma me devotada ver-se longe da filha querida. A inusitada comparao, em vez de abrandar as zangas do bispo, s o deixou mais irritado. Maria de Arajo desobedeceu-me!!!, disse Joaquim a Ccero, assim mesmo, em uma resposta cravejada de pontos de exclamao. Para mim, tudo est acabado, no h sobrenaturalidade nos fatos acontecidos com Maria de Arajo. Para o bispo, o clice da tolerncia transbordara de uma vez por todas. Havia um limite depois do qual a pacincia deixava de ser uma santa virtude. Padre Ccero, faa Vossa Reverendssima como entender, proceda Maria de Arajo como quiser: se quiser ir para o Crato, v; se no quiser, no v! meu juzo est formado. Havia espao suficiente no papel para adicionar ainda outra repreenso: Se Maria de Arajo recebe realmente provas do Cu, que as v gozando s, sem perturbar a boa ordem da diocese. O bispo pedia ainda um derradeiro obsquio: Ccero era padre e, por isso, deveria retirar aquela mulher de dentro de casa. Ela tem me, que v para a companhia dela. Quando o mdico Marcos Rodrigues Madeira saiu do Crato e se apeou diante da porta principal da capela de Nossa Senhora das Dores naquela Quinta-Feira Santa, 26 de maro, encontrou Maria de Arajo ajoelhada aos ps do altar, tendo Ccero frente dela. Em torno dos dois, formando um semicrculo humano, o mdico avistou outros padres e um grupo de cerca de trs dezenas de pessoas. A exemplo de todos ali, o doutor Madeira, formado em medicina no Rio de Janeiro e ex-deputado provincial, fora chamado por Ccero para servir de testemunha do alardeado fenmeno: a transformao da hstia consagrada no sangue de Cristo. Madeira, que se dizia absolutamente ctico em relao aos boatos que ouvia a respeito do tal milagre, aproximou-se e assistiu em silncio ao momento em que Maria de Arajo recebeu a comunho das mos de Ccero. O que veio a seguir desafiaria toda a anunciada incredulidade do doutor, ali convocado por sua autoridade de legtimo representante da cincia. Ao entreabrir a boca, a beata deixou que todos vissem a pasta sanguinolenta e vermelha que trazia sobre a lngua. Como sempre, o deslumbre em redor foi geral. Ainda cauteloso, o mdico se aproximou mais um pouco e viu que as bordas da partcula se encontravam avermelhadas, enquanto no centro ainda se podia reconhecer o branco do po consagrado. Era, sem dvida, um enigma. Enquanto todos se acotovelavam para enxergar melhor a cena, o doutor Madeira solicitou a Ccero que pedisse quela gente para se afastar dali. Necessitava de espao e de luz suficientes, a fim de que pudesse averiguar com mais acuidade a ocorrncia. Atendido de imediato em seu desejo, o mdico constatou que a substncia na boca de Maria de Arajo j se encontrava inteiramente rubra, sem vestgios da forma e da cor originais. Um mdico sabe reconhecer um sangramento quando o v. E, para Madeira, no havia dvidas. Aquilo era sangue. O que observava era to evidente quanto incompreensvel: a matria vermelha na lngua de Maria de Arajo assumira o claro formato de um corao humano. Madeira procurou uma 50. explicao razovel para o que seus olhos lhe mostravam, mas que sua formao cientfica se recusava a autenticar. O doutor logo identificou o que procurava: uma lcera de bordas salientes na parte anterior e mdia da lngua da beata. Era por ali, tudo indicava, que o sangue minava. A sensao de triunfo do mdico se esvaeceu em poucos segundos. Ele ficou intrigado ao examinar de novo o local e reparar que o ferimento simplesmente desaparecera, como se nunca houvesse estado ali. Voltou a olhar a lngua de Maria e no conseguiu disfarar o espanto: nenhuma fissura, nenhum interstcio, nenhuma leso aparente. Madeira pediu que Maria de Arajo abrisse ainda mais a boca. Ficou sem palavras ao constatar no haver o menor vestgio da ferida que notara, de forma ntida, havia poucos instantes. A pedido de Ccero, o doutor viu-se compelido a redigir e assinar um atestado formal, no qual narrava tudo aquilo a que acabara de assistir, mesmo reconhecendo que o episdio lhe fugia compreenso. Testemunhara uma inexplicvel transformao da matria. O que atesto a expresso da verdade e o juro em f do meu grau, tantas vezes quantas me forem pedidas, escreveu o pasmo Marcos Rodrigues Madeira. A mesma solicitao foi feita por Ccero aos demais presentes. Queria que todos deixassem devidamente documentado o que haviam observado. As testemunhas assinaram um termo coletivo, no qual tambm diziam ter verificado uma maravilha. O documento, que contou com um total de 27 assinaturas, inclua o jamego das principais figuras da sociedade do povoado ali reunidas, entre comerciantes, religiosos e fazendeiros. Hoje, na Quinta-Feira Santa, na igreja do Juazeiro, vi com meus olhos a Santa Hstia transformar-se em sangue do meio para a ponta da lngua da beata Maria de Arajo, dizia a declarao. Ccero apenas seguia ao p da letra uma das determinaes expressas de dom Joaquim. No fora o prprio bispo quem lhe sugerira que deveria cercar-se do maior nmero possvel de testemunhas na hiptese de o fenmeno vir a se repetir? Pois era exatamente isso o que fazia. Com o mesmo objetivo, convocou o farmacutico e tenente-coronel Joaquim Secundo Chaves para que tambm desse seu depoimento por escrito sobre outra espcie de fenmeno que estaria ocorrendo com Maria de Arajo. O doutor Secundo prontamente atendeu ao chamado do padre. No dia 29 de abril, domingo de Pscoa, com suas longas barbas que o faziam parecer um profeta do Velho Testamento, foi at a casa do amigo Ccero, onde a beata permanecia morando a despeito da reprimenda do bispo. Joaquim Secundo chegou e atravessou a sala mal mobiliada: havia apenas o sof, meia dzia de cadeiras rsticas, uma mesa e uma pequena estante na qual se divisava a lombada de alguns poucos livros religiosos. Nas paredes estavam penduradas imagens de santos e o retrato oficial de Leo XIII, o papa coroado em 1878 aps a morte de Pio IX. O longo corredor conduzia a um pequeno alpendre interno, no meio do qual se avistava a fileira de quartos contguos. Em um deles, encontrava-se Maria de Arajo. O farmacutico encontrou-a deitada em uma rede, as faces coradas, o corpo rgido, quase catatnica. Apesar dos olhos abertos, a mulher parecia no ver e no atentar em nada do que ocorria volta. Estaria em pleno xtase, transportada em esprito para algum outro lugar, fora deste mundo material, explicava Ccero. O mais surpreendente, constatou o doutor Secundo, era que a beata sangrava dos ps cabea. 51. Conforme o atestado que o farmacutico registraria em cartrio poucas horas depois, era como se as chagas do Cristo crucificado se reproduzissem em Maria de Arajo, nos exatos lugares do corpo e com idntica brutalidade. Parecia mesmo que uma coroa de espinhos lhe abrira talhos profundos na testa. Nas mos e nos ps, orifcios semelhantes aos provocados por pregos pontiagudos deixavam mostra a vermelhido da carne exposta. Os joelhos esfolados, por sua vez, remetiam s sucessivas quedas sofridas por Jesus durante a via-sacra. Na altura do peito, esquerda, abria-se a chaga correspondente lana romana que trespassou o corao de Cristo. Diante da hemorragia incontrolvel, o lenol branco com o qual a mulher havia sido coberta estava completamente vermelho. O doutor Joaquim Secundo tomou nota da localizao exata das feridas e enumerou cada um dos sintomas do transe em que se encontrava a beata. To logo a mulher saiu daquele estado de arrebatamento, veio nova surpresa: ao lhe lavar o corpo, o farmacutico constatou que as feridas sanguinolentas de Maria de Arajo haviam desaparecido por completo. Sem deixar sequer a mais leve marca ou cicatriz. Dois dias depois do atestado expedido por Joaquim Secundo, o doutor Marcos Rodrigues Madeira retornou ao Juazeiro e bateu porta do padre Ccero. Estava determinado a viver o seu dia de so Tom. Dessa vez, o mdico examinaria Maria de Arajo detidamente. Apalpou-lhe o ventre para averiguar a posio, o volume e a localizao dos rgos internos. Sondou-lhe cada milmetro da cavidade bucal. Observou-lhe a garganta em busca de inflamaes ou ferimentos. Auscultou-lhe o peito, procura de sinais que denunciassem uma possvel congesto pulmonar. Nada. Tudo parecia em ordem. Era uma mulher de 28 anos, de compleio frgil, mas nada nela justificava os misteriosos sangramentos. A mesma bateria de exames fsicos foi repetida logo no incio da manh seguinte. Como medida adicional, Madeira exigiu que Maria de Arajo procedesse a uma srie de gargarejos na presena dele. A mulher obedeceu, sem demonstrar a mais leve sombra de objeo: fez seguidos bochechos e cuspiu de volta a gua em uma pequena bacia. No havia ali nenhum indcio de sangue ou de qualquer outra substncia corante, averiguou Madeira, que no mais tiraria os olhos da beata durante toda aquela manh. Ele prprio a escoltou at a igreja, onde tambm fez questo de examinar com cuidado as hstias que seriam oferecidas naquele dia multido de fiis. Durante toda a cerimnia, permaneceu de guarda, ao lado de Maria de Arajo, sem descuidar de observar tambm cada mnimo gesto esboado por Ccero. Em especial, assegurou-se de que, na hora de ministrar a Eucaristia, o padre retirava de forma indistinta, sem a menor escolha, as hstias da mbula antes de oferec-las aos que ali se encontravam para obter a comunho. Quando chegou a vez de a beata receber a partcula sagrada, o mdico redobrou a vigilncia. A beata comungou sob o olhar inquisidor de Madeira e, depois, retornou a seu lugar, sempre acompanhada do doutor pelos calcanhares. No demoraria muito para o mdico perceber que algo de anormal comeara a ocorrer: a mulher demonstrava visvel agitao e amparava a cabea no ombro de outra beata. Ao reparar o mesmo fato, Ccero se aproximou. Ordenou que a mulher pusesse imediatamente a lngua para fora. Maria fez um aceno nervoso, 52. como se quisesse dizer que no conseguia abrir a boca, ainda que tentasse. A atmosfera de expectativa tomou conta do templo. Todos j anteviam o que iria acontecer. Ccero se ajoelhou de forma respeitosa diante da mulher, recitando preces em latim. Em seguida, ps as duas mos em concha debaixo do queixo da beata e voltou a pedir que ela, pelo amor e pela honra de Nosso Senhor Jesus Cristo, descerrasse lentamente os lbios. Os que estavam mais prximos viram cair da boca de Maria de Arajo, bem no meio das mos abertas do sacerdote, uma golfada vermelha. O doutor Madeira, que estava postado imediatamente ao lado dos dois, percebeu que ainda era possvel distinguir no meio daquela poro encarnada e viscosa um pequeno pedao alvacento da hstia. Contudo, em questo de segundos, a partcula teria se dissolvido completamente, reduzindo-se a um lquido que tinha a cor, a consistncia e o odor inconfundvel de sangue. Apesar da resistncia do sacerdote, Madeira ainda conseguiu cheirar e tocar o lquido vermelho com a ponta dos dedos. Era sangue, no teve dvidas. Quis ento requisitar o material para um exame qumico definitivo. Ccero, contudo, recusou-se a atend- lo. Tal coisa seria impossvel, argumentou. S uma licena especial do bispo diocesano poderia fazer que a substncia, de origem supostamente divina, fosse submetida a uma anlise de laboratrio. No encontrei explicao cientfica que pudesse satisfazer o meu esprito, pelo que julgo que se trata de um fato inteiramente sobrenatural, para o qual chamo a ateno do Excelentssimo Senhor Bispo Diocesano, atestou o mdico. Aquele testemunho pblico, escrito por um clnico prestigiado como Madeira, fez que ainda mais gente passasse a dar crdito incondicional ao fenmeno. Em Fortaleza, os leitores e assinantes do jornal Cearense, publicao que trazia sob o logotipo a divisa rgo democrtico, leram a ntegra da primeira certido assinada pelo doutor Madeira. Ccero acrescentaria ainda outro atestado documentao que passara a catalogar a respeito do caso. A nova declarao seria assinada por mais um mdico formado pela Faculdade do Rio de Janeiro, Ildefonso Correia Lima. Aps assistir a vrias alegadas transformaes da hstia em sangue, doutor Ildefonso concluiria: Penso que fatos da ordem dos observados no podem ser explicados pelo jogo dos agentes naturais, sendo foroso aceitar a interveno de um agente inteligente e oculto que represente a causa, o qual nos casos em questo acredito ser Deus. Clrigos de toda a regio cruzaram os sertes em direo ao Cariri. O vigrio Ccero Torres, da Paraba, foi um dos primeiros a chegar. Proveniente de Triunfo, em Pernambuco, o padre Laurindo Duettes engrossou a romaria. Da tambm pernambucana cidade do Salgueiro, o padre Manuel Antnio Martins de Jesus juntou-se ao grupo de religiosos que passaram a orbitar em torno do Juazeiro e de Ccero Romo Batista. O mesmo padre Manuel Antnio enviou copioso artigo para a revista catlica Era Nova, de Recife. No texto, afirmava ter assistido por mais de uma vez ao decantado milagre protagonizado por Maria de Arajo. O ttulo do escrito canonizava informalmente a filha de dona Josefa: Uma santa, lia-se no topo do artigo. J no era apenas a gente mais simples do serto que cantava louvores a Juazeiro. Os 53. humildes romeiros, verdade, no paravam de chegar. Rosrios, fitinhas coloridas e pequenas medalhas, depois de tocar a caixa de vidro em que estavam encerrados os paninhos ensanguentados, eram disputados como relquias sagradas. Mas o aval do doutor Secundo, assim como o de dois mdicos graduados no Rio de Janeiro, alm do testemunho de um punhado de outros sacerdotes muitos deles provenientes de parquias de fora do Cear , granjeou a devoo tambm de muita gente grada. O juiz de direito de Barbalha, Joo Firmino de Holanda, foi um dos que quiseram confirmar o prodgio com os prprios olhos. No dia 15 de maio de 1891, uma sexta-feira, antes de o dia clarear, o doutor Firmino tomou a estrada que levava de Barbalha a Juazeiro. Desejava chegar a tempo de assistir missa das sete horas e ver de perto a to afamada beata milagreira. Depois de duas horas e meia de cavalgada, quando enfim chegou capela de Nossa Senhora das Dores, o juiz ficou espantado ao ver o mar de pessoas que se aboletavam dentro e fora do templo. Haviam dito a ele que o lugar andava bem movimentado nos ltimos dias, mas no imaginava encontrar tanta gente assim no povoado. O rame-rame de rezas e de cnticos enchia o ar. Depois de se espremer no meio da multido para chegar um pouco mais perto do altar, o doutor Firmino constatou que a celebrao j estava no fim. Frustrado, procurou o padre Laurindo Duettes, que havia oficiado a missa daquela manh. O juiz, lamentou o padre, perdera a viagem. Mas, de todo modo, diante da honraria de to ilustre visita, chamaria o colega Ccero Romo Batista para se haver com ele. No demorou mais do que alguns minutos para Ccero deixar a sacristia e vir ao encontro do doutor Firmino. De acordo com o que testemunharia mais tarde o juiz de Barbalha, ao v-lo, Ccero demonstrou um ar expansivo de incontida alegria. Porm, durante o encontro, o magistrado no deixou de reparar a batina velha e um tanto quanto suja envergada pelo sacerdote. A primeira ideia que lhe veio foi a de que estava diante de um luntico. Tal juzo se avolumou quando Ccero lhe falou sobre uma voz misteriosa que ouvira certo dia, enquanto meditava sobre as coisas do Cu: chegado o fim dos tempos, a voz teria lhe soprado aos ouvidos. A minha Igreja vai entrar em provas e cruis perseguies. Meu rebanho ficar reduzido, mas vou derramar o sangue do meu corao para salvar o gnero humano, teria dito a fala vinda do Alm. Ccero contou ainda ao juiz que algum tempo antes, ao receber Maria de Arajo em confisso, ela teria lhe comunicado que observara, em uma viso mstica, o imperador Pedro II sendo desterrado para pases longnquos, enquanto a religio era perseguida pelos republicanos, os novos donos do poder no Brasil. Maria de Arajo previra a Proclamao da Repblica antes de ela ter ocorrido. Para o padre, no poderia haver melhor prova da verdade de tantos prodgios vividos por aquela mstica criatura. A conversa entre Ccero e o doutor Firmino, testemunhada pelas dezenas de romeiros que sempre costumavam estar ao redor do padre, foi interrompida naquele momento por uma das beatas. A mulher trazia um recado ao padre. Maria de Arajo, que estava sentada a um canto da igreja, envolvida em um manto preto, clamava pela presena de seu confessor. Ccero pediu licena ao visitante, foi sozinho at o local, inclinou a cabea para ouvir o que Maria tinha a lhe dizer e, em seguida, retornou. Ao reaproximar-se do doutor Firmino, o padre afirmou que o juiz ficasse tranquilo. No perdera a viagem. Ia ter a chance de presenciar o 54. milagre. Aps receber a comunho na missa daquela manh, Maria de Arajo no manifestara o extraordinrio fenmeno, esclareceu Ccero. Mas at aquela hora no conseguira tambm engolir a hstia, que ainda permanecia em sua boca. Firmino estranhou a inslita explicao, mas o padre assegurou que isso j se tornara fato corriqueiro: nem sempre o milagre ocorria instantaneamente. Vrias vezes a beata ficara com a hstia durante horas na boca, sem que estranhamente a partcula se dissolvesse e sem que tambm se deixasse ser engolida. Ao dizer isso, Ccero acenou e chamou Maria de Arajo. A beata veio at ele e se ajoelhou diante do altar. Ao colocar uma salva de prata sob o queixo da mulher, ela abriu a boca e despejou ali uma boa quantidade de sangue, acompanhada de uma hstia quase intacta. Doutor Firmino ficou desconfiado. A cena pareceu-lhe uma armao grosseira. Entretanto, com receio de provocar a fria de todos ali que se diziam maravilhados, fingiu acreditar. Mas logo o juiz se mostrou intrigado ao ver que, no instante imediatamente seguinte, a beata mostrou-lhe a lngua completamente limpa, sem marcas de sangue. Enquanto o juiz ainda conjecturava sobre o ocorrido, Ccero ponderou que, como Maria de Arajo no ingerira a primeira hstia, era necessrio que comungasse novamente. Foi a que Firmino pde acompanhar todo o processo, desde o princpio. Conforme declararia mais tarde, viu a segunda partcula se transformar em sangue bem ali, diante de seus olhos arregalados. Dom Joaquim no estava alheio aos ltimos acontecimentos do Juazeiro. Mesmo em Fortaleza, ele se mantinha ciente do que se passava no Cariri por meio de um solcito informante no Crato, o padre Antnio Fernandes da Silva Tvora. Em uma missa dominical, padre Fernandes chegara a advertir os catlicos da cidade para que no dessem ouvidos s notcias de milagres vindas do povoado vizinho. Segundo determinara o Conclio de Trento, ningum deveria acreditar em algo sobre o qual a maior autoridade da Igreja na diocese, o bispo dom Joaquim, ainda no reconhecera como legtimo e, portanto, ainda estava longe de ser autenticado como dogma de f. No meio do sermo, padre Fernandes lembrava que, em casos semelhantes, a Igreja costumava proceder verificao dos fatos com toda a prudncia e cautela que se faziam necessrias, antes de se decidir por um pronunciamento oficial. O vigrio do Crato prevenia os fiis de que o demnio era capaz de se manifestar mesmo no meio das coisas mais sagradas, com o capcioso objetivo de deturpar a verdadeira religio de Jesus Cristo, semeando a superstio entre os homens de boa-f, mas de discernimento curto. Como agravante, por aqueles dias passou a circular no sul do Cear um panfleto rodado numa tipografia de Caic, Rio Grande do Norte, com o ttulo de Os milagres do Joaseiro ou Nosso Senhor Jesus Cristo manifestando sua presena real no divino e adorvel sacramento da Eucaristia. Publicado sem o devido imprimatur, a licena eclesistica para a divulgao de escritos de natureza religiosa, o livreto afirmava de forma peremptria que o sangue derramado por Maria de Arajo durante a comunho era mesmo o sangue de Cristo. Estaria assim sendo cumprida a profecia de uma segunda Redeno, um novo derramamento do sangue de Deus no mundo terreno. O Armagedom estaria prximo. Ao mesmo tempo que acautelava os cratenses sobre os perigos de dar crdito a teses 55. teolgicas no abonadas pela Santa S, padre Fernandes continuava a prover o bispo de informaes detalhadas a respeito da excitao mstica que passara a reinar na regio. impossvel conter mais o povo, que neste negcio no se importa mais com a deciso de bispo nem de papa, alertava ele. O Juazeiro ou h de acabar como o mais clebre santurio do mundo ou ento acabar muito mal, dando muito trabalho ao governo ou prpria Igreja, preconizou padre Fernandes. A publicao dos atestados do doutor Madeira na imprensa de Fortaleza e a adeso de vrios sacerdotes nordestinos causa do Juazeiro eram entendidas como indcios de um possvel cisma, em pleno andamento, na Igreja do Cear. Dom Joaquim convocou Ccero a Fortaleza imediatamente. Ele teria de prestar satisfaes oficiais de suas atitudes. Era acusado de incentivar o fanatismo e de pregar ideias esdrxulas diante do altar. O capelo do Juazeiro deveria ser alvo de um rigoroso interrogatrio, um auto de perguntas conduzido pessoalmente pelo bispo. A Santa Igreja tem leis especiais para estes casos, e eu devo cumpri-las, prometeu um severo dom Joaquim. 56. 5 Bispo decreta investigao: Deus sairia da Europa para fazer milagres no agreste? 1891 Ccero ps a mo direita sobre a Bblia e jurou dizer somente a verdade. Bem frente dele, dom Joaquim, vestido em trajes solenes, estava ladeado por outras duas circunspectas autoridades religiosas. Uma era o quase septuagenrio vigrio-geral do bispado, monsenhor Hiplito Gomes Brasil. A outra, o secretrio oficial do Pao Episcopal, padre Clycrio da Costa Lobo, considerado uma das sumidades intelectuais da Igreja cearense. Era a manh de 17 de julho de 1891, uma sexta-feira. No dia anterior, a informao da chegada do modesto capelo do Juazeiro a Fortaleza aparecera estampada nas pginas dos principais jornais da cidade. Desde algum tempo, o at ento obscuro povoado passara a ser notcia constante na imprensa da capital. Os fortalezenses alimentavam uma justificvel curiosidade a respeito do sacerdote sertanejo e do milagre de que ele era arauto e, dizia-se, o principal artfice. Porm as paredes imponentes da sede do bispado um palacete de dois pavimentos, com amplo jardim e pomar murado, s margens do riacho Paje, afastado do bulcio do ento centro da cidade trataram de manter o padre abrigado do olhar dos bisbilhoteiros e, ao mesmo tempo, de desestimular qualquer possibilidade de comoo pblica diante de sua presena. Mesmo antes de iniciado o interrogatrio, Ccero deveria ter plena conscincia de que seria exposto a uma saraivada de perguntas implacveis. Alm da j assumida reserva de dom Joaquim em relao aos episdios do Juazeiro, o currculo dos demais interrogadores no deixava margem a dvidas. Dificilmente ele escaparia ileso daquela sala decorada com mveis sbrios, situada no andar superior do palcio episcopal, junto biblioteca e bem contgua ao escritrio do bispo. Ccero seria sabatinado pelos membros mais graduados do clero cearense, homens fiis a Roma e ortodoxia. O venerando monsenhor Hiplito Brasil, 69 anos, alm de responder pela funo de vigrio-geral da diocese cargo que equivalia a uma espcie de vice-bispado , havia sido vereador de Fortaleza, diretor de Instruo Pblica do Cear e, em 1881, chegara a vice- presidente da provncia. Exercera interinamente o comando da diocese por vrios momentos, especialmente entre a partida de dom Luiz e a posse efetiva de dom Joaquim. Poderoso, bem relacionado, prestes a comemorar seu jubileu sacerdotal, aquele homem no arriscaria um fio da prestigiosa batina em troca de qualquer gesto de condescendncia para com um clrigo interiorano, acusado de amea-ar a pureza da f catlica nos rinces mais distantes da diocese. 57. Padre Clycrio da Costa Lobo, 52 anos, tambm desfrutava de elevada reputao. Ordenado na Bahia, foi o brao direito de dom Luiz poca da fundao do Seminrio da Prainha, no qual pontificou como um dos primeiros professores. Por isso mesmo, conhecia Ccero de longa data, pois fora mestre de canto gregoriano do ento jovem e desafinado seminarista. Reverendo Clycrio era tido e havido como o crebro por trs do Snodo Diocesano de 1888, evento que reunira todo o clero cearense para adequ-lo, de modo impositivo, s diretrizes do Vaticano. O arrazoado de regras e proibies contidas no documento resultante daquele encontro oficial as Constituies Sinodais era fruto da pena erudita de padre Clycrio. Por reconhecimento a tamanho zelo e semelhante ilustrao, dom Joaquim o convidara para o posto de secretrio do palcio episcopal, funo que j exercera de bom grado na gesto de dom Luiz. Aps o juramento de Ccero sobre o livro sagrado, a torrente de indagaes teve incio. Como previa o ritual daquele tipo de sesso, o auto de perguntas comearia por questes protocolares. A primeira delas, feita em tom cerimonial, embora a resposta j fosse mais do que sabida, era se por acaso o padre Ccero Romo Batista conhecia certa mulher de nome Maria de Arajo. Ccero obviamente respondeu que sim, acrescentando que a conhecia desde que ela completara oito anos de idade e, na poca, dera-lhe a primeira comunho. Seguiram-se outras interpelaes, todas burocrticas, a respeito da filiao, estado civil, profisso e idade da beata. Cada uma delas foi atendida com informaes objetivas e lacnicas por parte do sacerdote. Era preciso medir o peso de cada palavra, pois uma nica hesitao, uma slaba escorregadia, uma frase mal colocada poderia dar margem a interpretaes e indisposies por parte dos inquiridores, o que resultaria na consequente autocondenao do interrogado. Na condio de secretrio do bispo, padre Clycrio tomava notas em um grosso compndio, transcrevendo uma a uma as palavras de Ccero: Maria de Arajo era filha de Ana Josefa e de Antnio de Arajo, j falecido. Nascera na povoao do Juazeiro. Tinha 28 anos. Trabalhava com costuras e outros servios domsticos. Era solteira. Em companhia de quem reside essa senhora? foi a questo imediatamente seguinte, na qual j se poderia adivinhar, por trs da aparente formalidade, um indisfarado matiz de reprovao. Ccero, contudo, no titubeou. Disse que at 1889 a beata morara com a me. Aps aquela data no por acaso o ano em que comearam a ocorrer os fenmenos em Juazeiro passara a residir na casa do prprio padre, na companhia da me e da irm dele, dona Quin e Anglica Vicncia. O bispo quis saber se aquela mulher que morava na casa de um padre, em algum tempo ou situao, apresentara sintomas de qualquer espcie de enfermidade. Ccero informou que, de fato, quando criana, Maria sofrera espasmos frequentes, seguidos de ataques de nervos que a deixavam prostrada, a ponto de faz-la perder os sentidos. Este estado mrbido comeou desde menina e continuou com maior ou menor intermitncia, at o ano de 1889. Como no poderia deixar de ser, a resposta mereceu a devida ateno do bispo, que logo decidiu aprofund-la. Dom Joaquim iria direto ao ponto: j ocorrera, em meio a um dos tais espasmos ou acometimentos nervosos, o fato de Maria de Arajo expelir sangue? Ccero, cauteloso, respondeu que no tinha plena certeza disso. Mas logo se viu obrigado a remendar a prpria frase e reconhecer que, em certas ocasies, ela chegara a vomitar sangue durante os ataques de 58. que era vtima. Ressalvou, contudo, que isso se dera muitos anos antes dos fenmenos extraordinrios que ora se manifestavam em Juazeiro. Apesar da ressalva, dom Joaquim pareceu ter ouvido exatamente o tipo de informao que queria extrair do auto de perguntas. Mas foi adiante. Para que fosse dirimida uma srie de dvidas previamente anotadas pela mesa, indagou, entre outras mincias, se o padre Ccero sabia algo a respeito da regularidade do fluxo menstrual de Maria de Arajo. Diante da questo um tanto quanto embaraosa, a resposta foi curta. Pelo que lhe constava, a menstruao da beata era bem regular, afirmou Ccero. Embora uma ou outra vez possa ter havido algum excesso no dito fluxo, registrou a ata, redigida por padre Clycrio, sempre reproduzindo textualmente a resposta do interrogado. Depois da talvez estudada indiscrio, a prxima pergunta faria Ccero entrar em uma contradio flagrante. Quando lhe foi perguntado se Maria de Arajo sofria de alguma outra espcie de enfermidade, ele revelou que a beata padecia de ligeiras perturbaes do estmago. Desta vez, alongou-se um pouco na resposta: no seria nada grave, tanto que isso no tiraria de todo as foras da pobre mulher, a ponto de ela poder ir do Juazeiro cidade do Crato, sem maiores sacrifcios. O detalhe, lgico, no passaria despercebido a dom Joaquim: no foi exatamente aquilo o que escreveu o mesmo Ccero em uma das cartas ao bispo. Na ocasio, o padre argumentara que, diante da sade frgil de Maria de Arajo, uma viagem de tal natureza poderia vir a custar a vida da beata, de to enfermia que era. Dom Joaquim no demorou a perguntar ento por qual motivo Ccero no cumprira a ordem que lhe havia dado com todas as letras: a de que afastasse Maria de Arajo do Juazeiro e a enviasse, sem demora, para a casa de caridade do Crato. Foi um dos instantes mais tensos do interrogatrio. Ccero tentou explicar que a doena a que se referira na carta era uma febre intermitente, que felizmente fora tratada pelo farmacutico do povoado. Argumentou ainda que, ao agir daquela forma, no julgava ter cometido nenhum ato de grande desobedincia a seu superior, ao contrrio do que o bispo parecia estar convencido. Para reforar seu ponto de vista, acrescentou que, como a beata vivia sofrendo tentaes particulares do demnio, era prudente que tivesse seu confessor e diretor espiritual sempre por perto. No caso, ele prprio, Ccero. O bispo j poderia ter se dado por satisfeito a respeito do caso. Mas era preciso cumprir toda a pauta do interrogatrio e, ademais, dom Joaquim mostrou-se intrigado a respeito de outro fato que chegara a seu conhecimento e que exigia o devido esclarecimento. Dizia-se que o padre Laurindo Duettes, que viera de Pernambuco e passara apenas cerca de onze dias no Juazeiro, teria assistido transformao da hstia em sangue, na boca da beata, nada menos de 31 vezes. Como era possvel tamanho nmero de ocorrncias em um perodo to curto de tempo? Ccero explicou que Maria de Arajo nem sempre conseguia comungar efetivamente, pois a partcula sagrada no se deixava ser ingerida aps a transformao. Por causa dessa circunstncia, ele oferecia o mesmo sacramento vrias vezes seguidas beata. Para que outras pessoas confiveis pudessem testemunhar o fenmeno, como lhe recomendara o prprio bispo, ele no hesitava em repetir o processo at trs ou quatro vezes por dia. Da existirem tantas partculas e tantos paninhos ensanguentados em seu poder, todos guardados na urna de vidro na capela do Juazeiro. A explicao deixou o bispo estarrecido. As instrues contidas na lei 59. cannica eram claras a esse respeito: os fiis s podiam comungar mais de uma vez no dia excepcionalmente, no caso de participarem de mais de uma missa sagrada na mesma data. A nica exceo regra era se o cristo estivesse correndo perigo de morte e, por esse motivo, desejasse receber a hstia consagrada pela ltima vez, antes de entregar a alma a Deus. Pela interpretao de dom Joaquim, portanto, as comunhes sucessivas de Maria de Arajo constituam uma ostensiva transgresso religiosa. O bispo no podia tambm aceitar a ideia de que os tais paninhos manchados continuassem a ser guardados em uma urna de vidro transparente, como relquias sagradas expostas devoo popular. Quis saber se esse abuso ainda ocorria na capela de Nossa Senhora das Dores, ao contrrio das determinaes anteriores do palcio episcopal. Ccero admitiu que sim. O povo supe que aquele o sangue verdadeiro do Nosso Divino Redentor, justificou. Antes de dar a sesso por encerrada, o bispo ainda questionou se o padre Ccero confirmava oficialmente que Maria de Arajo apresentava frequentes estados de xtase. Em caso positivo, queria saber desde quando esse tipo de fenmeno comeara a se manifestar. A resposta foi rpida e afirmativa: desde 1884 a beata entrava em xtases constantes, inclusive em pblico. Tais xtases chegavam a durar at cerca de cinco horas, especialmente durante as grandes celebraes religiosas. Haveria, portanto, testemunhas em profuso a esse respeito. Por ltimo, Ccero assegurou ao bispo que, em certas ocasies, ao tirar da boca de Maria de Arajo a hstia ainda parcialmente banhada em sangue, a transformao se completava ali, no cncavo de sua mo esquerda. Era verdade. Ele mesmo vira e dava f. Para dom Joaquim, parecia mais do que suficiente. No precisava ouvir mais nada. Para evitar desmentidos posteriores e assegurar que o dito naquela sala no evaporasse no ar, o bispo exigiu que Ccero Romo Batista redigisse uma exposio circunstanciada de todos os fatos ocorridos com Maria de Arajo at aquela data. Junto ata que estava sendo lavrada pelo padre Clycrio, tais apontamentos deveriam compor a documentao oficial a respeito do caso. O auto de perguntas chegara ao fim. O interrogatrio servira para que o bispo confirmasse sua opinio inicial a respeito daquela estranha histria de hstias que se transformavam no sangue de Jesus dentro da boca de uma beata do Cariri. Dom Joaquim estava mais convicto do que nunca. Para ele, no havia interveno divina em Juazeiro. No havia milagre. Tudo no passaria da mais absurda invencionice. Um dia depois, o bispo recebeu o relato escrito de Ccero, conforme exigira ao trmino do interrogatrio. Era um texto detalhista, que em certos trechos parecia ter sido escrito por uma imaginao delirante. Dividido em nove longos tpicos, narrava episdios da vida da beata desde os oito anos de idade, quando o padre a conhecera durante a confisso para a solenidade de sua primeira comunho: Notando eu as melhores disposies daquela menina para a vida interior, aconselhei-a a se consagrar ao Nosso Senhor, o que ela executou do modo mais ntimo e perfeito, considerando-se desde aquela data como uma verdadeira esposa de Jesus Cristo. No teriam faltado, contudo, percalos vida imaculada de Maria de Arajo. Ccero contou que, por volta dos dezoito anos, ela passara a ser vtima de graves 60. tentaes e perturbaes de esprito. O texto no explicitava quais tentaes seriam exatamente aquelas, apenas mencionava, de relance, que elas haviam sido contrrias santa virtude da castidade. Pelo que se podia depreender das palavras do relatrio, quando adolescente, a beata supostamente teria sido vtima dos apelos do demnio, que a provocara com sua luxria satnica. Maria de Arajo teria resistido aos caminhos da perdio e, heroicamente, reafirmado sua fidelidade e seu amor a Deus. J ela conhecia os ardis do Inimigo, sugeriu Ccero. Desde ento, a beata passara a experimentar uma srie de vises e consolaes celestiais, primeiro com a mediao da Virgem Maria; depois, com a interveno direta do prprio Jesus Cristo. Em uma dessas alegadas aparies, teria sido ordenada a solicitar a seu confessor Ccero que celebrasse um consrcio espiritual entre ela, Maria de Arajo, e Ele, Jesus. O que se efetuou, com grande solenidade, informou o relato. Vestida de branco, como uma noiva, a beata casara espiritualmente com Cristo. Mas nem assim Satans teria deixado a beata em paz para se dedicar sua f. Quanto mais intimamente se comunicava ela com o Divino Esposo, mais graves tentaes e perturbaes sofria da parte do Inimigo, o que era compensado por maiores consolaes, relatou Ccero. Os colquios que ela entretinha com o Divino Esposo eram tais que, com muita propriedade, podiam comparar-se ao Cntico dos Cnticos, aludia o relatrio, referindo-se ao livro do Antigo Testamento atribudo a Salomo, um poema lrico, espcie de cano de amor de linguagem to sensual que por vezes chegou a ter questionada sua pertinncia como texto bblico: Ah! Beija-me com os beijos de tua boca! Porque os teus amores so mais deliciosos que o vinho, consta, por exemplo, em um dos primeiros versculos. Ao citar os estigmas que apareceriam no corpo de Maria de Arajo de modo semelhante aos do Cristo crucificado, Ccero terminava o relato esclarecendo sua posio pessoal em relao a todos aqueles inacreditveis episdios: como homem temente a Deus e obediente ao bispo, tomara o cuidado de recolher os testemunhos fidedignos de religiosos e leigos, para posterior averiguao. Guardo o registro de mais de mil pessoas que foram testemunhas presenciais, contabilizou. Ao final, deixava uma derradeira observao: Maria de Arajo nunca se glorificara com a publicidade de tais fatos: Muito ao contrrio, ela experimenta com isso o maior tormento. Ao entregar aquele texto ao juzo de dom Joaquim, Ccero pediu permisso para fazer sua pequena mala e retornar de imediato a Juazeiro. No teria tempo sequer para conferir as modernidades que haviam chegado a Fortaleza desde seus tempos de seminarista na Prainha: a linha frrea, os primeiros telefones movidos a manivela, os bondes urbanos puxados a burro. Precisava retornar ao Cariri com urgncia. Alegou que a me, dona Quin, era uma mulher doente e, por certo, haveria de estar aflita sem notcias do filho ausente. O bispo aquiesceu. O padre podia se preparar para tomar o rumo de casa. O palcio episcopal no demoraria a proferir uma resoluo a respeito do assunto, com instrues detalhadas a ser observadas por todas as partes envolvidas. Palavra empenhada, sentena cumprida. Menos de 24 horas depois, antes mesmo que Ccero houvesse juntado os poucos apetrechos para a travessia do serto, dom Joaquim proferiu uma deciso interlocutria, publicada e assinada com data de 19 de julho de 1891. 61. Como talvez fosse fcil prever, as notcias no eram nada boas para o padre Ccero Romo Batista. A deciso do bispo vinha antecedida de uma nota elogiosa: Declaramos que reconhecemos na pessoa do reverendssimo Ccero Romo Batista um sacerdote de costumes puros, regularmente instrudo, zeloso e em extremo dedicado Santa Religio que professamos. Incapaz, portanto, de qualquer embuste, ou de pretender enganar a quem quer que seja. Em seguida, porm, lia-se a ressalva: O que no o impede de poder iludir-se. Dom Joaquim determinava que, seguindo o disposto pelo Conclio de Trento para casos do gnero, deveria ser aberto um inqurito eclesistico para investigar, com rigor, os acontecimentos do Juazeiro. Amparado nos dispositivos cannicos, o bispo procurava evitar quaisquer insinuaes de que estivesse sendo intolerante com os protagonistas do episdio. Uma comisso de altssimo nvel, representando diretamente o bispado, seria nomeada para ir ao povoado e proceder averiguao in loco. Ao mesmo passo, algumas instrues prvias j haviam sido deliberadas. O bispo baixava, desde ento, quatro ordens categricas. A primeira delas proibia, de forma definitiva, qualquer espcie de culto ou devoo aos paninhos ensanguentados. A caixa de vidro em que eles se encontravam guardados, junto com seu contedo integral, deveria ser imediatamente retirada de exposio pblica e abrigada em segredo at a chegada ao povoado da comisso de inqurito. A segunda ordem era mais constrangedora para Ccero: ele deveria se desdizer em pleno plpito da capela do Juazeiro, diante da multido de fiis. O padre teria de afirmar que avanara perigosamente contra a pureza da f em seus sermes anteriores e deveria garantir, de modo peremptrio, que aquele no era o sangue verdadeiro de Jesus Cristo. A terceira determinao referia-se diretamente a Maria de Ara-jo: desta vez, no seriam aceitas desculpas de nenhuma natureza para que no se realizasse o imediato afastamento da beata do Juazeiro. Seria dado o prazo impretervel de oito dias, contados a partir da chegada da comisso de investigao, para que a mulher fosse recolhida casa de caridade do Crato, sem mais delongas. A quarta e ltima ordem era que Ccero deveria prestar obedincia e auxlio aos membros da comisso de inqurito em tudo o que fosse necessrio para que se chegasse verdade. Dois dias depois da publicao daquela deciso, foi baixada uma portaria diocesana, nomeando como presidente do inqurito o padre Clycrio da Costa Lobo o mesmo que participara do interrogatrio de Ccero e lavrara a ata do auto de perguntas poucos dias antes. A portaria reconhecia em padre Clycrio a envergadura teolgica para tal e, por isso, o revestia de plenos poderes para proceder ao encargo. Como secretrio e auxiliar direto, Clycrio iria contar com outro sacerdote to culto e confivel para o bispado quanto ele, o padre Francisco Ferreira Antero. Com seus culos de grau de armao metlica, padre Antero, aos 36 anos, trazia o ttulo de proeminente doutor em teologia, formado pelo Colgio Pio Latino-Americano, de Roma. A misso dos padres Clycrio e Antero era clara: desnudar a presumida fraude que cercaria os fenmenos extraordinrios do Juazeiro. Dom Joaquim tinha a mais absoluta certeza 62. de que a iletrada Maria de Arajo no conseguiria manter sua fama de milagreira diante de dois dos melhores quadros intelectuais da diocese. Ao exigir que Ccero se desmentisse publicamente desde logo, o bispo mais uma vez deixava patente que j possua uma opinio formada a respeito do assunto, antes mesmo de qualquer investigao. Para dom Joaquim, tudo parecia agora ser apenas uma questo de tempo. Desmascarada o que julgava ser uma farsa, no demoraria muito para que ningum mais sequer falasse de milagre, de beata, de hstias transformadas em sangue. Consummatum est. Estava consumado. Para Ccero, as decises da diocese chegaram junto com uma carta lacrada, escrita por dom Joaquim, remetida em carter reservado. O bispo tentava convenc-lo de que as resolues que tornara pblicas nada tinham de pessoais; apenas correspondiam aos interesses maiores da sagrada instituio a que ambos pertenciam. Atenda-me bem e no desobedea mais; os fatos extraordinrios do Juazeiro exigem mxima prudncia e grande circunspeco, de modo que no se anuncie doutrina nova, no se d culto novo sem permisso da Igreja, recomendava o prelado. Quando Ccero estivera em Fortaleza, dom Joaquim procurara argumentar que sob nenhuma hiptese o sangue que se dizia derramar das hstias em Juazeiro poderia ser o sangue verdadeiro de Cristo. Naquela nova carta, o bispo lembrava que tivera o cuidado de descer das estantes da biblioteca do palcio episcopal vrios livros e tratados teolgicos com o objetivo de corroborar sua tese. Mas Ccero, opinioso como fora desde a juventude, no teria lhe dado ouvidos ou o brao a torcer. A principal fonte teolgica na qual dom Joaquim buscava apoiar-se era Santo Toms de Aquino, o frade italiano que, tendo vivido no sculo XIII, era considerado o mais santo dos sbios e o mais sbio dos santos. Ao fazer uma sntese do cristianismo com as ideias do grego Aristteles, Toms de Aquino proporcionou ao pensamento cristo o surgimento de uma vigorosa filosofia. Em sua monumental Suma teolgica, o santo sbio debruou-se sobre uma gama de temas relativos f. Entre eles, a Eucaristia. A Suma teolgica o Cu visto da terra, definiria mais tarde o papa Pio XI. Pela leitura que dom Joaquim fazia da obra de Toms de Aquino, mesmo que se desse crdito ideia de que as hstias se transformavam realmente em sangue no Juazeiro e ainda que isso fosse obra de uma genuna interveno divina , esse sangue jamais poderia ser o de Cristo. O sacrifcio de Cristo um s, Jesus Cristo no derramar mais seu sangue como outrora, mas permanecer na sagrada Eucaristia, velado sob as espcies de po e de vinho, explicava dom Joaquim a Ccero, esforando-se para manter um tom didtico e ainda minimamente afvel. Todavia, a sombra ntida da impacincia ficava evidente nas linhas posteriores da carta: No pretendo fazer um tratado sobre este ponto to delicado, to misterioso; o que quero dizer que nada se deve dizer de novo sem se ouvir a Igreja, resumia. Ccero, segundo o bispo, pecara pela imprudncia ao no se opor prontamente ideia de que uma nova Redeno estaria prxima e que era chegada a hora do fim dos tempos. A Igreja o autorizou a pregar tal novidade?, ralhava dom Joaquim. 63. Havia controvrsias, mesmo do ponto de vista estritamente religioso. A seu favor, Ccero poderia evocar uma srie de outros episdios endossados pelo Vaticano com a denominao genrica de milagres eucarsticos. O mais famoso deles era o chamado milagre de Lanciano, registrado por volta do ano 750, no Mosteiro de So Legoziano, dos monges basilianos, na Itlia. Conta-se que um monge, mais afeito vida mundana do que palavra de Deus, duvidara da presena do corpo de Cristo na hstia consagrada. Em certa manh, durante a celebrao da missa, o religioso de f vacilante encontrava-se mergulhado no mais profundo de suas dvidas quando teria testemunhado, para seu espanto e alumbramento, o po se transformar em carne viva. E o vinho, em sangue. Os catlicos sempre sustentaram, com a chancela oficial de Roma, que a histria no se tratava de mera lenda ou mitologia. As relquias de Lanciano foram preservadas e submetidas a exames de laboratrio, realizados cerca de 1200 anos depois, pelo mdico Odoardo Linoli, livre-docente de anatomia e histologia patolgica e de qumica e microscopia clnica, e Ruggero Bertelli, professor emrito de anatomia humana da Universidade de Siena. Os dois cientistas chegariam a uma misteriosa concluso: alm de serem carne e sangue verdadeiros, as substncias apresentavam caractersticas tpicas da matria viva, sem sinais fsicos de decomposio, mesmo quase treze sculos depois do ocorrido. Na suntuosa Baslica de Santa Maria del Vado, em Ferrara, tambm na Itlia, estariam igualmente conservados os traos de outro suposto milagre referendado pelo Vaticano: um jato de sangue teria jorrado de uma hstia consagrada no ano de 1171. As manchas nas paredes em volta do altar teriam ficado como testemunhas para os peregrinos que transformaram a baslica em um dos principais santurios catlicos do mundo. No extremo, at mesmo uma bula papal poderia ser advogada em defesa de Ccero e Maria de Arajo. Em 1228, o papa Gregrio IX citara no documento Fraternitatis tuae a histria de uma jovem italiana da vila de Alatri, que mantivera na boca uma hstia consagrada e, aconselhada por uma senhora malfica, a escondera posteriormente envolta em um pano. Trs dias depois, a jovem teria ficado aterrorizada ao constatar que a partcula havia se transformado, conta-se, em um pedao vivo de carne. Cerca de quatro dcadas adiante, em 1264, outro papa, Urbano IV, endossou um milagre eucarstico que teria ocorrido na Igreja de Santa Cristina, em Bolsena, Itlia. Mais uma vez, diz-se que a hstia deixara cair gotas de sangue sobre o altar sagrado, o que alis estava na origem de uma das principais datas do calendrio catlico, a festa de Corpus Christi em latim, Corpo de Cristo , ritual que celebra exatamente a presena do sangue de Jesus na Eucaristia, institudo por Urbano IV no ano seguinte. No faltariam outros precedentes. O Mosteiro de Santa Rita, na vila italiana de Cssia, preservava a folha delicada de um brevirio, livro de leituras e oraes cotidianas, no qual uma hstia fora utilizada por certo padre como um prosaico marcador de pginas. A hstia, segundo acredita a tradio catlica, transformara-se em um cogulo de sangue para expressar a insatisfao divina. Entre outros tantos relatos aceitos pela Igreja, havia ainda o chamado milagre de Bagno de Romagna. Em 1412, o prior de um mosteiro dos camaldulenses, ordem religiosa pertencente famlia dos beneditinos, disse ter testemunhado o vinho consagrado espumar inexplicavelmente, subir at a borda do clice e dali transbordar, convertido em 64. sangue. O corporal manchado foi conservado na Igreja de Santa Maria, em Bagno de Romagna, comuna da provncia de Forli-Cesena, na regio central da Itlia, sendo a partir da objeto de venerao dos fiis. Os xtases e as vises que Maria de Arajo assegurava receber tambm possuam inmeros relatos similares na tradio crist. Alm disso, as chagas manifestadas no corpo de so Francisco de Assis no monte Alverne, na provncia de Arezzo, Itlia, constituam o antecedente mais clebre de estigmatizao, devidamente corroborada pela Igreja e retratada em obras consagradas de mestres das artes, como Giotto e Alonso Cano. Quanto s alegadas tentaes satnicas contra a castidade de Maria de Arajo, a histria do catolicismo tambm era frtil em casos de santos que travaram batalhas pessoais com o demnio para manter a alma e o corpo imaculados. As vises de Maria de Arajo eram tributrias diretas das decantadas aparies da Virgem Maria na cidade francesa de Lourdes. Em 1858, portanto apenas trs dcadas antes dos ditos fatos extraordinrios do Juazeiro, a Virgem teria aparecido, em nada menos de dezoito oportunidades, pequena Bernadette Soubirous, jovem camponesa que permanecera analfabeta at os catorze anos de idade. Por afirmar que falava com a me de Jesus, a moa foi alvo de severos interrogatrios eclesisticos at que, em 1862, o bispo de Tarbes, monsenhor Bertrand Svre Laurence, declarou como oficialmente autnticas as aparies de Nossa Senhora de Lourdes. O lugar se transformou em um centro de peregrinao universal e, anos depois de sua morte, Bernadette seria declarada santa pelo Vaticano. Para os crdulos, toda aquela galeria de milagres eucarsticos e de santos visionrios, permeando a histria da Igreja atravs dos sculos, poderia testemunhar a favor de Maria de Arajo e, ao mesmo tempo, desafiar as resistncias de dom Joaquim. Apesar disso, o bispo permaneceria firme em seu ceticismo quanto aos episdios que cercavam o pequenino Juazeiro. No mnimo, Joaquim podia replicar que as principais narrativas de intervenes miraculosas se perdiam nas dobras do tempo. E, mesmo os episdios ento mais recentes, como as aparies em Lourdes, haviam acontecido a milhares de quilmetros dali, do outro lado do oceano. Na lgica da Igreja cada vez mais hierarquizada e centralizada pelas resolues de Roma, era difcil aceitar a ocorrncia de um milagre na periferia do mundo, admitir uma manifestao de Deus nascida em meio ao catolicismo popular dos sertes. Para o bispo, zeloso no trabalho de combater o sincretismo da diocese, s haveria mesmo uma palavra para definir o que estava acontecendo em Juazeiro: fanatismo, o casamento da devoo mais sincera com a mais perigosa ignorncia. A esse respeito, uma sentena historicamente atribuda a Pierre-Auguste Chevalier, o ex- reitor do Seminrio da Prainha, resumiria toda a questo. O velho sacerdote francs, destitudo do cargo desde a revolta dos seminaristas, ainda acumularia as disciplinas de moral, liturgia e direito cannico. J praticamente cego, achacado pelo reumatismo e por outros males da idade, Chevalier era uma espcie de conselheiro informal da diocese. Para ele, sobre aquele assunto de hstias que sangravam e se transformavam em carne em pleno Cariri, s uma coisa podia ser dada como certa: Nosso Senhor no iria deixar a Europa para fazer milagres no Brasil. 65. Dezenas de lguas distante dali, em Juazeiro, arregimentava-se um intenso movimento em defesa de Ccero. Um abaixo-assinado com o nome de nove sacerdotes e 28 cidados residentes no povoado e no Crato protestava contra as ordens de dom Joaquim. O documento, que ficou conhecido como Petio de Apelao, solicitava o cancelamento de todas as decises diocesanas relativas ao caso, sob o argumento de que elas feriam de morte, e de forma injusta, a causa do Juazeiro, pois as punies haviam sido desferidas antes do tempo necessrio para que fosse elaborada a necessria defesa. Ao afirmar, sem nenhuma averiguao prvia, que o sangue nas hstias no poderia ser o sangue de Cristo, o bispo teria atropelado o andamento normal da investigao e feito um prejulgamento. Na linguagem do povo, posto a carroa adiante da parelha de bois. Os que assinavam a petio, incluindo no topo da lista o prprio Ccero, diziam pretender realizar uma srie de consultas a diversas autoridades religiosas, telogos de reconhecida competncia no Brasil e, se possvel, no estrangeiro. Queriam ouvir fontes gabaritadas a respeito da possibilidade de que o tipo de fenmeno registrado em Juazeiro, aps uma exaustiva verificao, pudesse vir a ser autenticado como milagre. O abaixo- assinado citava o prprio Conclio de Trento para justificar uma possvel apelao ao Vaticano, baseada no direito de que o processo deveria seguir as formalidades legais exigidas pela lei cannica: quem era acusado de heresia e de conspurcar a f crist haveria de merecer a mnima oportunidade de defesa. Se necessrio, os juazeirenses se diziam dispostos a recorrer ltima e mais sagrada instncia sobre a Terra: Sua Santidade, o papa. No rodap do documento, dom Joaquim podia discernir as assinaturas do reitor do seminrio do Crato, monsenhor Francisco Monteiro, e de dois destacados professores daquela mesma escola, os padres Quintino Rodrigues de Oliveira e Joaquim Sother de Alencar. Assinavam ainda a petio o vigrio e o coadjutor de Misso Velha, respectivamente Flix Aurlio e Nazrio de Sousa Rolim; o capelo da Igreja do Rosrio da antiga vila caririense de Milagres, elevada categoria de cidade no ano anterior, padre Manoel Furtado de Figueiredo; e o reverendo Manuel Antnio Martins de Jesus, o vigrio da cidade pernambucana de Salgueiro. Entre os leigos, ao lado das rubricas de fazendeiros, comerciantes e artesos, vinha o nome de cinco senhoras, o que deixaria dom Joaquim visivelmente aborrecido. E ele contestou: Se quiserem apelar, no metam mulheres no meio, isso ridculo; pois mulheres conhecem teologia a ponto de poderem discutir com o bispo?! Apelem os padres, levem o negcio a Roma. Eu no lhes tolherei os passos; mas sejam prudentes, no haja escndalos contra a autoridade diocesana. Mal recebeu a petio, dom Joaquim mandou arquiv-la, recusando-se a apreci-la. Se os amigos de Ccero queriam fazer qualquer reclamao diocese, que a encaminhassem a seu representante legal naquele caso, o padre Clycrio da Costa Lobo. Alm disso, o que deixou o bispo particularmente irritado foi a carta pessoal de Ccero que acompanhava o abaixo- assinado. Nunca me vi em condies to aflitivas, iniciava a mensagem de Ccero. Deus testemunha do grandssimo embarao em que me vejo, da grande repugnncia que sinto e das graves apreenses que se apoderam do meu esprito ao ver-me na dura necessidade de escrever uma carta sobre um assunto que Vossa 66. Excelncia Reverendssima pensa de um modo diverso do que est em minha conscincia. Ccero tentava valer-se da comiserao que porventura pudesse restar a seu superior. Dizia-se um homem em conflito, imerso no dilema insolvel entre a obedincia que devia ao bispo e aquilo que estaria ditando a sua f: Senhor bispo, a minha conscincia que reclama que eu continue a estar convencido. Tenho certeza que Deus quer que eu assim proceda, crendo, como creio, firmemente, que o que aqui se tem dado uma grande manifestao que Nosso Senhor, por um esforo do Seu corao e de Sua misericrdia, quer fazer para a salvao dos homens em uma poca de tanta descrena. Diante do fato de que tantos milhares de pecadores, incluindo dezenas de malfeitores, jagunos e cangaceiros, estavam chegando a Juazeiro e se convertendo f crist, Ccero estaria convicto de que tudo aquilo s poderia ser mesmo uma graa dos cus. Por isso, argumentava, remetera anexo aquele abaixo-assinado, em forma de petio ao bispo, submetendo-o sua benevolncia. Peo a Vossa Excelncia, humildemente, como a um pai compassivo e bondoso, que na complicao em que me vejo me d conveniente orientao a fim de que a religio, a f e a salvao de tantas almas no venham a ser prejudicadas. Para que dom Joaquim se persuadisse da necessidade suprema que Ccero teria de levar aquela demanda adiante, a carta encerrava com uma inusitada confidncia. Ccero jurava que aquilo que narraria a seguir era a mais pura das verdades. Para o bispo, o padre apenas perdera de vez o juzo ou o senso de ridculo. Mas, segundo argumentava Ccero, aquela era a prova definitiva: to logo chegara de Fortaleza aps ser interrogado no Pao Episcopal, ele teria pedido em orao, perante a hstia consagrada, que Deus o amparasse, que lhe concedesse um conforto para tamanha provao pela qual vinha passando. Implorara por um sinal qualquer, uma comprovao de que no incorria em sacrilgio. Naquele instante, de pronto, teria soado no ar uma voz, que dissera, de forma clara e no mais inconfundvel latim: Ego sum Jesus, hostia sancta, hostia pura, hostia imacullata Eu sou Jesus, hstia santa, hstia pura, hstia imaculada. Veja Vossa Excelncia Reverendssima se vista de testemunho desta ordem eu poderia deixar de crer e afirmar que o sangue manifestado aqui nas sagradas formas o sangue de Jesus Cristo. A mesma voz teria voltado a se manifestar no dia seguinte. Dessa vez, Ccero explicou que teria sido mais precavido. No confiando em minha memria, interrompi, pedindo-lhe que me permitisse ir ver um lpis e papel para escrever, contou. Quando acontecia de eu errar a palavra, Ele repetia, corrigindo, jurou. Ccero procurava convencer o bispo de que Jesus Cristo ditava revelaes em voz alta para que ele as anotasse. Ah! Senhor bispo! S Nosso Senhor sabe quanto sofro, me vendo obrigado a andar com essas cousas... Eu desejava sepultar-me onde nem sequer se soubesse de meu nome, lamentou. A resposta de dom Joaquim quele apelo com inflexo de quase desespero, lida pelo prelado como uma confisso pattica de logro ou fanatismo, no tardou a chegar. O bispo continuava irredutvel: No queria passar por semelhante desgosto, mas j agora sou o primeiro interessado que se prossiga em tal negcio, avisou, antes de lanar um novo ultimato, no qual estava contida desta vez uma grave ameaa: Exijo que Vossa Reverendssima cumpra minha ordem dentro de oito dias depois da recepo desta carta, sob 67. pena de suspenso. A exigncia chegaria a Juazeiro praticamente junto com a comisso encarregada do inqurito. Os padres Clycrio e Antero recolheram-se a um retiro espiritual de trs dias antes de dar incio investigao. Nesse meio-tempo, pediram inspirao e discernimento Providncia, pois tinham um longo e consciencioso trabalho pela frente. Precisavam intimar e interrogar dezenas de pessoas, supervisionar as comunhes de Maria de Arajo, elaborar um relatrio esmiuado para o bispo, escrito nos termos da lei cannica. Os dois eminentes comissrios sabiam que o objetivo final de sua misso era desmontar o que a diocese considerava um grotesco teatro, uma burla Igreja, um insulto ao nome de Deus. Porm, a douta competncia de Clycrio e Antero estava prestes a ser confrontada com o mistrio, com as entranhas do inexplicvel. 68. 6 Comissrios do bispo diante da dvida: esse povo enlouqueceu ou se abriram mesmo as portas do Cu? 1891 Ccero soube que Maria de Arajo seria a primeira intimada a depor. Como se encontrava recolhida casa de caridade do Crato por ordem do bispo, a beata obteve autorizao especial para viajar de volta ao Juazeiro enquanto ali estivessem instalados os membros da comisso. Ela era uma das mais de duas dezenas de pessoas convocadas para os interrogatrios do caso e, por motivos bvios, testemunha central. O encontro entre a beata e os representantes diocesanos padres Clycrio e Antero deu-se no consistrio da capela de Nossa Senhora das Dores, logo aps a missa matinal celebrada por Ccero naquela quarta- feira, 9 de setembro de 1891. O confronto entre dois mundos to opostos semeou perplexidades e estranhamentos mtuos. De um lado estava a sertaneja Maria de Arajo, que desconhecia os segredos da cultura letrada e nunca havia posto os ps fora do Cariri, embora afirmasse conversar diretamente com Jesus. Do outro, dois doutores em religio, senhores viajados, que levavam consigo no s a gravidade de suas vistosas batinas, mas tambm os pressupostos de uma vivncia religiosa acadmica e citadina. Tanto Clycrio quanto Antero eram descendentes de famlias interioranas, mas suas experincias pastorais haviam transcorrido, at ali, sem maiores contatos com as manifestaes do catolicismo popular dos sertes. Desde o primeiro minuto da audincia com Maria de Arajo, o abismo entre o universo dos interrogadores e o da interrogada se tornou patente. O depoimento da beata, cuja transcrio foi assinada na forma de cruz pela condio de analfabeta da testemunha, seria o mais desconcertante relato que os venerveis padres Clycrio e Antero poderiam imaginar ouvir. Quando o calhamao com a ntegra daquele depoimento fosse lido mais tarde por dom Joaquim, ficaria sedimentada no Pao Episcopal a ideia de que tudo aquilo que se dizia do Juazeiro no passaria mesmo da mais bizarra encenao ou, quando menos, fruto de mentes doentias e delirantes. Como mandava o protocolo, coube ao padre Clycrio conduzir o inventrio de perguntas, enquanto padre Antero, no posto de secretrio da comisso de inqurito, tomaria nota de tudo a bico de pena. Por obrigao processual, tais anotaes deveriam primar pela absoluta objetividade. S depois de ouvidas todas as testemunhas e averiguadas as manifestaes do professado milagre seria possvel aos comissrios estabelecer uma concluso, posteriormente remetida ao bispo para o devido julgamento final. Portanto, no documento 69. resultante daquela inquirio no haveria lugar para se tecer o mais tnue juzo de valor sobre as aparentes excentricidades que, a cada resposta dada, escapariam da boca de Maria de Arajo. Aquela mulher, com sua linguagem simples e de poucos recursos retricos, recitou uma ladainha infinda, um vasto repertrio de relatos pessoais a respeito de vises, aparies divinas, revelaes e profecias que teriam sido recebidas por ela diretamente do Alm. Eram tantas e to indescritveis as graas alegadas pela beata que, caso fossem creditadas como legtimas pelo clero, por certeza viriam a igualar Maria de Arajo a outras msticas famosas do catolicismo, como Ana Catarina Emmerich ou Teresa de vila, consideradas luminares da cristandade. Maria de Arajo chegou a afirmar durante o interrogatrio que, desde criana, aos oito anos, era capaz de ver o Anjo da Guarda e, quela poca, brincava quase todos os dias com o Menino Jesus. Cerca de um sculo depois da camponesa alem Ana Catarina Emmerich jurar ter passeado de mos dadas com o pequeno Cristo pelos jardins e prados da germnica Westflia, a beata caririense dizia que tivera a oportunidade de pajear o Deus-menino pelos quintais e ruelas do Juazeiro. Assim como Maria de Arajo, Ana Catarina Emmerich fora uma mulher de pouca instruo, trabalhara por algum tempo como costureira, manifestara os estigmas da Paixo e, segundo se afirmava, tambm tivera uma cruz de sangue impressa misteriosamente no peito. As confluncias entre as duas histrias eram evidentes. As descries que a beata fazia de seus presumidos colquios divinos muito se assemelhavam aos relatos atribudos a Ana Catarina, que afirmara ter celebrado um matrimnio espiritual com Jesus, descrito por ela como um jovem resplandecente, de inigualvel beleza, e a quem tratava por Divino Esposo. Tal expresso no seria, ao contrrio do que alguns poderiam admitir, apenas uma metfora religiosa de uso corrente, para simbolizar a fidelidade e o compromisso incondicional de uma mulher em relao a sua f. Pelo menos, no era assim que entendia Maria de Arajo. Tanto que, segundo jurou aos comissrios, recebera do noivo celeste um belo anel de ouro, uma aliana que o prprio Jesus lhe introduzira no dedo da mo esquerda, em um gesto doce e solene. A cerimnia do casamento espiritual teria contado com testemunhas privilegiadas: Foi na presena de Maria Santssima, de so Jos, de coros de anjos e de virgens, detalhou a beata aos padres Clycrio e Antero. No consta na ata do depoimento que os interrogadores tenham cogitado pedir para pr os olhos na tal aliana dourada. Os divinos prazeres, os gloriosos delrios e os embriagadores martrios de que tanto falava o livro de memrias da monja espanhola Teresa de vila tambm guardavam imediata correspondncia com os xtases narrados por Maria de Arajo. Ao contrrio de Ana Catarina Emmerich, Teresa de vila mais tarde conhecida como santa Teresa de Jesus foi mulher ilustrada, de famlia aristocrtica do sculo XVI, mas que tambm dizia ter celebrado npcias de luz com Jesus Cristo. Durante seus xtases e transverberaes, chegava a emitir suspiros e gemidos de dor e de prazer, segundo alegava, provocados pela flecha de ouro, ferro e fogo disparada por um anjo que lhe trespassava o corao. A imagem desse gozo mstico de Teresa ela de olhos fechados, corpo contorcido e lbios entreabertos ficaria eternizada em mrmore, na escultura do italiano Gian Lorenzo Bernini. 70. Por sua vez, os declarados colquios amorosos de Maria de Arajo com a divindade estariam cada vez mais frequentes e ntimos, segundo ela afirmou aos interrogadores. De acordo com o que a beata disse, Jesus Cristo tiraria partculas do prprio corao exposto e as ofertaria para que ela comungasse diretamente de Sua carne. Jesus se queixaria com frequncia, sempre em tom amargo, da profunda ingratido dos homens para com o chamado Pai Eterno. Mas, antes de desaparecer envolto em uma intensa luz, prometia conceder ao mundo a chance do ltimo chamado salvao. Por isso, afirmou a beata, Jesus fizera de Juazeiro aquele portal aberto para o Paraso. E, dela, Maria de Arajo, apenas um instrumento do perdo divino. Padre Ccero que seria o enviado dos cus para o bom encaminhamento das almas antes do Juzo Final. Era isso, expunha a beata, o que Cristo lhe revelara. A hstia transformada em sangue serviria para reavivar o calor da f, que havia amornado no corao das pessoas. Ao curso de to inslito depoimento, Maria de Arajo disse por mais de uma vez que ainda viveria acossada por demnios. Com o propsito de embaraar os desgnios divinos, Satans prosseguiria a tent-la, querendo arrast-la ao mundo da perdio. Muitas vezes, o Prncipe das Trevas chegaria a aoit-la violentamente. Em certas ocasies, tentava ludibri- la com os disfarces mais capciosos. A Besta-Fera lhe apareceria ora exibindo a feio virginal de Nossa Senhora, ora o feitio de um belo anjo aureolado. No raro, para lhe amolecer o corao e lhe turvar o juzo, tambm no lugar da estampa tradicionalmente atribuda aos demnios olhos vermelhos, par de chifres retorcidos e horrendas patas de bode , o diabo teria se mostrado a ela com o semblante e os olhos azuis de Ccero Romo Batista. Para auxiliar Maria de Arajo a combater as visagens e os seres infernais, Jesus lhe ensinara uma nova orao, uma jaculatria que dizia ser infalvel contra os mal-assombros do Tinhoso: Louvadas sejam a morte e paixo de Jesus Cristo e as dores da Imaculada sempre Virgem Maria. Meu Pai, abenoai a mim e as almas do Purgatrio, e tudo que Jesus, Maria e Jos queiram abenoar; que sejam todos abenoados e salvos pelo Sagrado Corao de Jesus e seu preciosssimo sangue. O erudito padre Antero copiou a singela orao, linha a linha, na transcrio do interrogatrio, enquanto o colega Clycrio prosseguia na sabatina. Indagou beata se ela confirmava que era capaz de transportamentos para fora do corpo, de empreender fantsticas viagens espirituais ao Cu, Inferno e Purgatrio. Maria de Arajo disse que sim. Era a mais verdadeira das verdades, jurou. Em tais voos msticos, com a ajuda de Jesus, ela j teria inclusive libertado dezenas de almas do Purgatrio, algumas das quais pertencentes a gente que fora muito prxima dela, pessoas dali mesmo, do Juazeiro, que conhecera quando vivas. Era por esse motivo que se manifestavam no seu corpo os estigmas de Cristo, tentava Maria de Arajo explicar aos comissrios do bispo. S assim, unida no sofrimento e na clemncia divina, tornava-se possvel interceder pelos espritos, purific-los com o adjutrio de Jesus e salv-los da condenao ao eterno fogo do Inferno, dizia. 71. As muitas semelhanas entre o depoimento de Maria de Arajo e o contedo dos antigos relatos de Ana Catarina Emmerich e Teresa de vila eram por demais evidentes para passar despercebidas, especialmente por parte de dois aplicados estudiosos da religio como Clycrio e Antero. Parcela considervel da Igreja sempre tratou os relatos msticos com cuidadosa desconfiana. Aceitar a possibilidade de que havia encontros diretos entre seres humanos e a divindade significaria o mesmo que dispensar a Igreja de seu papel de intermediria entre o mundo terreno e os mistrios de Deus. Para essa ala da Igreja Catlica, mesmo os relatos bblicos a respeito de aparies divinas e emissrios anglicos deveriam ser interpretados como admirveis parbolas, criadas pela sabedoria humana sob inspirao divina, para transmitir ao mundo a palavra de Deus. Por isso, ao longo dos sculos, visionrios autodeclarados foram alvo de controvrsias e, em tempo de intolerncias, de graves perseguies. Muitos, particularmente mulheres, chegaram a ser queimados nas fogueiras da Inquisio, acusados de heresia e bruxaria. Mas havia ali uma srie de questes a ser elucidadas por uma comisso de inqurito eclesistico. Seriam as muitas coincidncias entre o relato de Maria de Arajo e os de outros msticos histricos uma armao bem urdida ou, ao contrrio, o padro de uma manifestao divina que atravessaria os tempos? Seriam tais semelhanas um sinal reconhecvel das mensagens celestiais, reservadas apenas aos visionrios, ou o claro indicativo de uma impostura? Maria de Arajo, com a orientao de algum minimamente versado na histria da mstica crist talvez Ccero, leitor de autores como o Marqus de Merville e Joseph von Grres , concebera tudo aquilo a partir de casos antigos e notrios, livremente reinterpretados pela viso mgica do catolicismo sertanejo? Em meio quela verdadeira rapsdia celeste, Maria de Arajo no perdeu a oportunidade de tentar esclarecer um pormenor que havia levantado suspeies do bispo durante o auto de perguntas dirigido a Ccero em Fortaleza. Era verdade, reconhecia ela, que sofria de ligeiros incmodos de estmago e que desde os dois anos de idade fora vtima constante de ataques nervosos. Mas a nica vez que vomitara sangue durante um desses acessos se deu por causa de uma queda repentina. Tal fato nunca mais teria tornado a acontecer a mesma verso que Ccero corroboraria aos membros da comisso. Portanto, no haveria, segundo Maria de Arajo, nenhuma ligao entre o episdio daquela nica vomio sangunea e a transformao miraculosa da hstia; muito embora ela mesma no pudesse afirmar se a partcula, alm de sangue, se transformava tambm em carne viva ou se as espcies consagradas tomavam a forma de um corao humano. Isso ela nunca vira. Nem poderia, justificou: ficava sempre to transtornada durante tais ocorrncias que perdia a noo dos acontecimentos. Mas pelo que afianavam todos os testemunhos, incluindo o do prprio padre Ccero, isso haveria de ser uma santa verdade, outra das supremas maravilhas do Cu. Ao final, caberia a padre Clycrio fazer a clssica pergunta: Deus teria enviado algum outro sinal, uma prova mais evidente da natureza divina dos fatos que estariam ocorrendo no Juazeiro? A resposta de Maria de Arajo foi categrica: para se acreditar em todas as graas que Deus estaria derramando sobre seu povo no carecia enviar do Cu mais nenhuma prova, nenhum sinal. O prprio Jesus dissera por mais de uma vez a ela que, para tanto, bastava que todos O amassem de modo sincero. 72. A rplica da beata poderia ser interpretada como providencial escapadela pergunta original. Mas, ao mesmo tempo, havia de se admitir que do ponto de vista teolgico era correta. De todo modo, qualquer que fosse a verdade, muito em breve ela deveria vir luz. A primeira verificao do fenmeno j apregoado abertamente como milagre pelos cantadores de feiras e poetas populares do serto estava marcada para o incio da manh seguinte. Veritas filia temporis. A verdade filha do tempo. * * * Antes de os sinos da capela de Nossa Senhora das Dores chamarem os fiis para a missa das seis horas, os padres Clycrio e Antero j estavam espera de Maria de Arajo. Ao raiar daquele 10 de setembro, a beata comungaria em carter reservado. Se houvesse realmente um milagre, se o dedo de Deus estivesse presente, os comissrios saberiam reconhec-lo. Caso contrrio, se nada de sobrenatural ocorresse ou, mais ainda, se percebessem o menor vestgio de fraude, seriam os primeiros e os mais aptos a denunci-lo. Foram convocadas para a averiguao 23 testemunhas juramentadas, entre elas dois sacerdotes os padres Manoel Francisco da Frota, vigrio da cidade de Ic, e Jos Jacome de Fontes Rangel, residente na povoao de Misso Nova. Sob os olhos de Antero e as ordens de Clycrio, com as slidas portas da igreja ainda fechadas para os demais fiis, Ccero chamou Maria de Arajo em sua presena e lhe ofereceu a Eucaristia. Fez-se o suspense. Dois minutos depois de receber a hstia, a mulher dobrou os joelhos e pareceu desfalecer. Cairia ao cho no fosse amparada ltima hora pelas mos de padre Frota. Por mais de um quarto de hora, Maria de Arajo se manteve imvel, acudida pelas outras beatas vestidas de negro. No papel de diretor espiritual da devota, Ccero se aproximou e ordenou que a mulher revocasse daquele estado de aparente xtase. No obteve, todavia, nenhuma efetiva resposta. De princpio, a beata ainda esboou tmida reao, mas voltou a esmorecer pesadamente. Maria de Arajo s recobrou os sentidos de modo inconteste quando padre Clycrio lhe tomou a frente e exigiu que, em nome de Deus, de Jesus Cristo e da Igreja Catlica Apostlica Romana, ela abrisse os olhos e se ajoelhasse, de imediato, bem ali diante dele. Maria de Arajo pareceu recobrar as foras e enfim obedeceu. Mas permaneceu de lbios cerrados, gesticulando com nervosismo, como se quisesse dizer que no conseguia abrir a boca, por mais que padre Clycrio assim determinasse. Ccero estendeu mulher as duas mos em forma de concha, a exemplo do que fizera em outras tantas ocasies. Muitos j haviam visto, em momentos semelhantes, o sangue escorrer copioso da boca de Maria de Arajo. Porm, daquela vez, nada aconteceu. A beata se recomps e disse que no sabia explicar exatamente o porqu, mas justamente diante da vigilncia dos dois comissrios, a hstia no se modificara, no se transformara no sangue de Jesus. To logo as portas da igreja se abriram de par em par, os juazeirenses souberam que a primeira missa da manh seria rezada pelo forasteiro padre Clycrio. Quando o sacerdote j se dirigia ao altar principal de Nossa Senhora das Dores, Ccero foi ter a seu encontro. Sugeriu que, de forma excepcional, concedesse licena para que Maria de Arajo recebesse a 73. Eucaristia novamente, desta feita dentro da prpria celebrao coletiva, frente da multido de fiis e pelas mos insuspeitas do comissrio diocesano. Clycrio assentiu. Estava ali para proceder a uma investigao e precisava ter o maior nmero possvel de elementos para incorporar aos autos do processo. Ficou decidido que a beata receberia nova comunho. Assim foi feito. E, mais uma vez, a hstia no sangrou. Ao final da missa, quando j tirara a casula cerimonial de sobre a tnica branca, padre Clycrio foi chamado de volta nave da igreja. Maria de Arajo estaria, como antes, em pleno xtase. Imvel, alheia ao que ocorria em sua volta, em tudo parecia repetir a malograda cena anterior. Mas, desta vez, quando a beata abriu a boca, era possvel distinguir sobre sua lngua a substncia avermelhada, ainda em vias de transformao. Ccero imediatamente pediu que ela deitasse a hstia em uma salva de prata guarnecida com o chamado sanguinho, o tecido utilizado pelos clrigos para enxugar o clice no qual servido o vinho consagrado. Quando ela assim o fez, a mancha rubra foi pouco a pouco envolvendo a partcula em leves borbulhas, at se converter inteiramente em um lquido encarnado, quase violceo, tingindo a alvura do tecido. Era sem dvida impressionante, mas ainda assim duvidoso. Transcorrera um perodo de tempo considervel entre o final da missa e a suposta transformao, o que teria dado chances para artifcios e manipulaes. Era preciso tirar a prova, entendeu Clycrio. Como em tese a beata no havia comungado, pois no chegara a engolir a partcula, o padre considerou que poderia lhe oferecer uma segunda hstia consagrada. Antes, quis certificar-se de que a boca de Maria de Arajo se encontrava completamente limpa, sem resqucios de nenhuma sanguinolncia. Ao final da segunda comunho, deu-se idntico fenmeno, ento de forma instantnea, segundo as anotaes meticulosas de padre Antero: Pouco a pouco se ia transformando a hstia consagrada, divisando-se ao princpio alguns glbulos de sangue, que foram crescendo. Ccero mandou que a beata passasse tambm aquela segunda partcula dos lbios para a salva de prata, na qual teria se completado a transformao do po em sangue. E de modo ainda mais distinto, ressalvou padre Antero. Padre Clycrio achou que era o caso de administrar a comunho a Maria de Arajo uma terceira e ltima vez, para que no restassem dvidas sobre o fenmeno. Diante dos dois comissrios do bispo, a hstia teria tornado a sangrar. Maria de Arajo no se ausentara dali, no tivera oportunidade de introduzir sorrateiramente nenhuma possvel substncia qumica entre os lbios. Se no era um milagre, era no mnimo extraordinrio, concluiriam os comissrios. Mal haviam testemunhado o estranho acontecimento, Clycrio e Antero tiveram a oportunidade de observar outro fenmeno. No final daquela mesma manh, encontravam-se na casa do padre Ccero, sentados mesa espera do almoo, quando padre Sother de Alencar, professor do seminrio do Crato, adentrou de repente a sala. Agitado, Sother pediu que o acompanhassem rapidamente at o quarto onde repousava Maria de Arajo. Clycrio e Antero lanaram-se em direo ao estreito corredor que levava aos fundos da casa. L, em um acanhado cubculo, encontraram a beata deitada em uma rede armada diante de um pequeno 74. santurio, no qual uma fileira de velas acesas iluminava as muitas imagens de santos. Maria de Arajo, com os olhos imveis e estatelados em algum ponto indefinido, sangrava em abundncia. Padre Antero tomou nota do que viu. Como sempre, sua narrativa foi objetiva, despida de aparatos e adjetivos: De sua fronte gotejava tanto sangue que ensopava o vu que ela trazia na cabea e corria pela face abaixo; em suas mos e em seus ps, divisava-se sangue em forma de chagas, a correr em fitas. Durante trs dias consecutivos 10, 11 e 12 de setembro de 1891 , a comisso repetiu a mesma experincia da transformao da hstia. De acordo com o relatrio oficial assinado por padre Clycrio e apresentado mais tarde ao bispo, em todos os trs dias, sem razo explicvel, o po eucarstico teria sangrado. No terceiro deles, a partcula chegara a se transformar em carne viva. Na manh do dia 11, logo aps a segunda verificao da experincia, Maria de Arajo retornou de forma espontnea ao consistrio da capela de Nossa Senhora das Dores. Com um gesto que denotava autoconfiana, pediu para depor novamente aos dois comissrios da diocese. Argumentou que havia esquecido de esmiuar certas passagens no primeiro dia e, por isso, fazia empenho de que os padres doutores soubessem de tudo, da forma mais amiudada possvel. Se o depoimento inicial parecera extravagante ao extremo, o seguinte se mostrou ainda mais arrebatado. Entre outras afirmativas, a beata jurou que teria mesmo o dom de prever o futuro. Tanto que, muito antes de ser nomeado como novo reitor do seminrio do Crato, ela j teria sabido que monsenhor Francisco Monteiro viria a ser anunciado como administrador da casa. Quem lhe dera a notcia explicou Maria de Arajo com a singeleza habitual fora o verdadeiro dono do seminrio e de todas as igrejas que existiam no mundo: Jesus Cristo. Do mesmo modo, tempos antes, durante uma viso, a Virgem Maria teria lhe dado notcias antecipadas da grande seca que calcinou o Cear por trs anos seguidos, de 1877 a 1879. Para que a chuva e o verde pudessem retornar terra, Nossa Senhora ento recomendara que todos orassem, fizessem novenas e organizassem viglias em honra das chagas do filho, Jesus. Maria de Arajo dizia no ter dvidas de que o Cu dedicava ouvidos atentos s oraes terrenas. Os habitantes da corte celeste estariam bem mais prximos aos homens do que se costumava acreditar. Por vrias vezes a beata afirmava j ter visto coros de anjos adentrando em procisso a capela do Juazeiro. Precedidos de Jesus e Maria, os anjos portariam tochas ardentes e entoariam cnticos de jbilo em direo ao altar, para onde se dirigiam com a inteno de adorar o sangue de Cristo. Numa dessas ocasies, Jesus teria se achegado beata e profetizado que, assim como faziam aqueles seres anglicos, romeiros vindos de todo lugar tambm um dia encheriam a mesma igreja com suas oraes e milhares de velas acesas. As descries que Maria de Arajo fazia dos presumveis habitantes da corte celestial uma Virgem Maria representada como uma rainha dos cus, de coroa dourada na cabea, secundada por guardies alados que cantavam hinos de louvor a Deus eram nitidamente influenciadas pela iconografia herdada da arte sacra medieval. As representaes religiosas e as cenas paradisacas retratadas em antigas iluminuras, retbulos e vitrais da Idade Mdia 75. haviam se disseminado e popularizado em toda a cristandade por meio de gravuras e livros devocionais. O principal exemplo era a clebre Misso abreviada para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar o fruto das misses, escrita pelo padre portugus Manoel de Gonalves Couto, a obra mais continuamente editada em lngua portuguesa ao longo do sculo XIX. Exemplares da Misso abreviada circulavam pelas mos de beatos, pregadores e profetas populares do serto nordestino, que tinham tal livro na conta de um guia espiritual e, ao mesmo tempo, de um manual de bons costumes cristos. Vinham das pregaes baseadas naquela espcie de Bblia das aldeias as referncias que Maria de Arajo tinha em relao ideia de Cu um lugar formoso, resplandecente, amplo e seguro, onde todos cantam hinos de alegria, todos se alegram, todos honram, louvam e glorificam a Deus e tambm de Inferno um lugar no centro da Terra; numa caverna profundssima cheia de escurido, de tristeza e horror, cheia de labaredas de fogo e de nuvens de espesso fumo, conforme as sugestivas descries da Misso abreviada. Mas nem tudo era motivo de regozijo em Juazeiro, lastimava a beata em seu novo depoimento aos comissrios do bispo. A Virgem j teria advertido que, exatamente por causa do propalado milagre, padre Ccero passaria por grandes agonias ao longo da vida. Ela tambm, Maria de Arajo, deveria se preparar para grandes padecimentos que estavam por vir. Nunca mais teria paz e alegria enquanto vivesse neste mundo de Deus. Dizia-se conformada com o calvrio que lhe era reservado: os martrios da vida terrena seriam passageiros e devidamente recompensados pelas supremas maravilhas que a aguardariam na eternidade, quando porventura viesse a adentrar as portas eternas da Ptria Celestial. A beata garantia que vinha sendo preparada para o tempo das provaes extremas: houvera ocasio em que at o leite e o ch que bebia teriam se transformado em sangue. Enquanto Maria de Arajo discorria, padre Antero preenchia calhamaos inteiros de papel. Diversos trechos do novo depoimento encontrariam endereo certeiro. Segundo a beata, Jesus Cristo estaria bem decepcionado com homens poderosos que, mesmo fazendo parte da Igreja, teimavam em no acreditar no milagre da hstia. Ento eu no posso fazer milagres como na primitiva Igreja?, teria indagado Jesus, conforme Maria de Arajo. Mas, ainda segundo ela, estaria escrito: muito em breve todos os padres e bispos deveriam orar e mandar rezar missa pelas hstias ensanguentadas. Pois se havia quem se recusasse a aceitar aquele mistrio, explicara-lhe Jesus, era porque se tratava de um mistrio novo, ainda desconhecido inclusive dos mais sbios telogos do mundo. De acordo com a beata, era preciso que todos se convertessem devoo do Corao de Jesus, do qual finalmente jorrariam o necessrio conhecimento e a devida crena no novo mistrio. A vontade divina proveria para que se fundasse uma ordem religiosa no Juazeiro, que ficaria encarregada do culto perptuo Santssima Trindade e da louvao ao Precioso Sangue. Por isso, alertava Maria de Arajo, qualquer demora no processo de investigao do milagre seria considerada por Deus um abuso de graas. Ela mesma, a beata, dizia j ter sido transportada espiritualmente a Roma, por trs oportunidades, para tratar com o papa Leo XIII exatamente sobre o assunto. Como os comissrios quiseram saber a presumvel resposta do sumo pontfice a essa alegada interlocuo espiritual, a beata afirmou que no se lembrava, ao certo, o que Leo XIII 76. teria lhe falado. No sabia ao menos se o papa ouvira bem o que ela dissera. No podia afirmar sequer se ele prestara alguma ateno em sua visita mstica Cidade Eterna. Enquanto isso, um personagem mantinha intensa movimentao nos bastidores e agia, por conta prpria e pelas sombras, paralelamente conduo oficial do inqurito. Jos Marrocos, o antigo amigo de infncia de Ccero que havia sido expulso do seminrio, desde o fim de agosto enviava do Crato uma srie de cartas para telogos e autoridades eclesisticas de todo o Brasil. Marrocos tornara-se jornalista de renome, sendo um dos principais editorialistas do fortalezense O Libertador, jornal fundado originalmente em 1881 para defender a causa abolicionista e que reunia em seus quadros alguns dos mais destacados intelectuais cearenses da poca. Era, portanto, um significativo aliado de Ccero. Dirigente e professor do tradicional Colgio Cratense rebatizado por ele de Colgio Venervel Ibiapina, em homenagem ao antigo andarilho religioso , Marrocos logo se mostrou um dos maiores propagandistas dos fenmenos do Juazeiro. Por meio dele, notcias sobre o episdio atravessariam as guas do Atlntico e seriam publicadas at mesmo em peridicos religiosos de Portugal, a exemplo do Novo Mensageiro do Corao de Jesus, editado pelos jesutas na cidade do Porto. Louvores a Deus, que nestes tempos de incredulidade assim revela no mistrio da Eucaristia milagres assombrosos, escreveu Marrocos tambm na prestigiada Revista Catlica, da lusitana Vizeu. Em sua cruzada para obter pareceres positivos causa do Juazeiro, as cartas de Jos Marrocos escolheriam respeitveis destinatrios. Entre eles, o frei Manoel de Santa Catarina Furtado, abade do Mosteiro de So Bento, no Rio de Janeiro; o cnego Jos Marcelino de Souza Bittencourt, da parquia de Santa Maria, Rio Grande do Sul; e dom Toms Gomes de Almeida, bispo da diocese portuguesa da Guarda. Em tais correspondncias, o jornalista caririense fazia trs interrogaes, cujas respectivas respostas deveriam fundamentar uma possvel apelao ao Vaticano. A primeira indagao de Marrocos a seus interlocutores era se seria teologicamente indiscutvel afirmar que a Eucaristia guardava realmente o corpo, o sangue e a divindade de Jesus. Nenhum sacerdote catlico, claro, ousaria dizer o contrrio a respeito de um dos dogmas essenciais da Igreja. A segunda questo, decorrente direta da anterior, era um pouco mais complexa: se Jesus Cristo est mesmo presente na hstia e no vinho consagrados, ento ele poderia, para confirmar a f catlica, tornar visveis Seu corpo e Seu sangue aos olhos humanos? A terceira e ltima interrogao vinha coroar a linha de argumentao de Marrocos: se na transubstanciao tudo to miraculoso e sobrenatural, o sangue que estava aparecendo nas partculas sagradas em Juazeiro no poderia perfeitamente ser o sangue de Cristo, do mesmo modo como se admitiu s-lo em Bolsena, no pontificado do papa Urbano IV? Com a ausncia, na poca, de um sistema efetivo de correio, as cartas necessitavam de portadores confiveis para sair das mos do remetente at chegar a seus destinatrios e, da, fazerem o mesmo e longo caminho de volta. Mas, quando as respostas finalmente comearam a chegar ao Cariri, no pareceriam de todo animadoras para Jos Marrocos. Do Mosteiro de So Bento, o abade Manoel de Santa Catarina Furtado escreveu-lhe para dizer que a Cristo tudo era possvel e que, assim, a simples pergunta sobre se Ele poderia tornar-se visvel aos 77. olhos humanos era no mnimo absurda. O abade tambm considerava factvel que o sangue que estava sendo derramado nas hstias em Juazeiro fosse o verdadeiro sangue de Jesus. Porm, se de fato , somente pode ser averiguado ou por uma comisso mista de mdicos de muita ilustrao e critrio e de sacerdotes de muito saber e piedade ou vista do processo regularmente instrudo, para o que me parece prematuro qualquer juzo a respeito. Dom Toms, bispo da Guarda, foi ainda menos receptivo consulta, que julgou ser um ato de escandalosa desobedincia. A resposta seria grafada em tom de reprimenda a Marrocos. O juiz da f, da moral e da disciplina o bispo diocesano e o seu veredicto deve ser respeitosamente acatado, escreveu. Jesus Cristo est na Eucaristia de um modo incruento e seu corpo somente em substncia, no sendo, por isso, apto a produzir o sangue, argumentou dom Toms. Por fim, advertia: O que nos parece conveniente que se faa silncio em volta deste assunto, que se no obra de especulao ou embuste, pode-o ser de alucinaes ou iluso, e d ocasio a motejos dos mpios. Das terras gachas, o cnego Marcelino ponderava que a transformao da hstia poderia at ser encarada como um fato sobrenatural, mas se recusava a afirmar que, em casos semelhantes, o sangue ali presente fosse o verdadeiro sangue de Jesus. Esta a sentena de Santo Toms de Aquino e a sentena comum dos telogos, confirmada pela experincia que mostra que aquilo que parecia ser sangue e carne, no decurso do tempo, muda-se e corrompe, coisa que no se pode atribuir carne e ao sangue de Jesus Cristo. Por fim, cnego Marcelino sugeria que Marrocos devesse se submeter candidamente ao julgamento do seu superior, dom Joaquim. A deciso cabe ao senhor bispo do Cear, sentenciou. Por aqueles dias, Jos Marrocos recebeu outra carta, endereada de Fortaleza e assinada por um amigo da capital, o padre Joo Augusto da Frota, doutor em filosofia por Roma e futuro scio-fundador do Instituto Histrico do Cear. Padre Frota afirmava que faria tudo o que lhe estivesse ao alcance para o bom encaminhamento da questo junto diocese. Mas discordava de Marrocos em um ponto crucial: a exemplo do cnego Marcelino, admitia a hiptese de que estivesse realmente ocorrendo um milagre no Juazeiro, manifestado dos cus por meio da humilde Maria de Arajo. Contudo, achava imprudente afirmar que o sangue que jorrava dos lbios da beata fosse o sangue de Jesus. Padre Frota deixava uma recomendao ao amigo, a qual indiretamente confirmava o mal-estar provocado no palcio episcopal pela apelao que fora assinada, semanas antes, por leigos e uma poro de beatas. Quando apresentarem a alguma reclamao, recurso ou apelao, ser conveniente dispensar as assinaturas de mulheres e pessoas no entendidas. Padre Clycrio e padre Antero logo souberam que, no pequenino Juazeiro, Maria de Arajo no era a nica mulher a sofrer arrebatamentos e a dizer que recebia vises e comunicaes celestes. Todas as demais beatas que moravam com Ccero e que foram chamadas a depor no inqurito relatariam histrias particulares de enlevos, revelaes ou aparies msticas. Fossem fruto de imaginaes exaltadas, reflexos de um processo de histeria coletiva ou reverberaes de uma credulidade ingnua e sincera, o fato que a excessiva segurana de todos os depoimentos impressionou os comissrios do bispo. S havia uma explicao: ou aquele povo havia de todo enlouquecido ou, sabia-se l, haviam sido 78. mesmo abertas as portas do Cu. Os relatos eram to fantsticos que beiravam o humor involuntrio. A beata Jael Wanderley Cabral, de 31 anos, disse-lhes, por exemplo, com toda a naturalidade de que era capaz, que tambm uma vez se transportara em esprito a Roma, no para manter conferncias com o papa como Maria de Arajo, mas para receber a sagrada comunho das mos do sumo pontfice. Na ocasio, Leo XIII teria supostamente lhe perguntado quem ela era e da parte de quem vinha. Da parte de Deus, respondera a mulher, acrescentando que fora transportada espiritualmente ao Vaticano para que o papa tivesse cincia da veracidade dos milagres do Juazeiro. Outra beata, Maria das Dores do Corao de Jesus, de apenas quinze anos e que tambm vivia sob o teto de Ccero, no ficou atrs. Sem a mais leve sombra de temor diante da possibilidade de ser acusada de perjrio, a moa disse comisso ter visto um dia a mbula em que o padre guardava as hstias transbordar rios de sangue. Jesus Cristo teria aparecido nessa mesma hora com o corpo inteiramente ensanguentado e dado a comunho colega Maria de Arajo, retirando para isso uma hstia da mbula que continuaria a sangrar. A jovem beata tambm garantiu ter visto por vrias vezes Nossa Senhora na capela do Juazeiro, com a coroa dourada na cabea, ora em adorao caixa de vidro com os paninhos ensanguentados, ora acompanhada por quatro anjos que voavam a seu redor. Na vspera da chegada da comisso, a Virgem teria feito nova apario e recomendado beata Maria das Dores que comungasse na inteno dos padres enviados pelo bispo ao povoado. Mas o depoimento mais surpreendente e detalhado seria mesmo o concedido por Maria Leopoldina Ferreira da Solidade, uma beata de 29 anos, moradora da casa de Ccero como as outras. Beijando os dedos em cruz, ela afirmou aos padres Clycrio e Antero ter recebido dos cus a revelao de que o sangue na hstia era o sinal da volta iminente de Jesus Terra. Eu hei de ser novamente trado, blasfemado, injuriado, odiado, escarnecido e vilipendiado, ainda mais do que antes, dizia ter ouvido Leopoldina dos lbios do prprio Jesus. De outra feita, em uma manh na qual acabara de receber a comunho das mos do padre Ccero, a beata tambm teria chegado a discernir um grupo de anjos no interior da igreja. Trs deles haviam inclusive se apresentado protocolarmente a ela, revelando os respectivos nomes celestiais: Testis Fidelis, Reverentia e Maravilha. Havia mais. Na antevspera do Natal, aps confessar-se ao padre Ccero, a beata Leopoldina teria recebido em honra do preciosssimo sangue de Jesus, das dores de sua Me Santssima e maior glria da Santssima Trindade a penitncia de tomar sobre si mesma as penas infligidas s almas de trs papas que se encontrariam recolhidas ao Purgatrio. Deus, contudo, considerando a questo, no lugar do trio de papas teria preferido purificar a alma de dois bispos e de um cardeal, mortos mais recentemente. No mesmo dia, afirmou a beata, as tais almas penadas teriam aparecido para assistir placidamente missa na capela de Nossa Senhora das Dores. De acordo com o depoimento da beata Leopoldina, pelo menos dois daqueles espritos teriam se anunciado. Um seria Joachinus, ex-arcebispo da Bahia; outro Petrus, ex-bispo do Rio de Janeiro. Os nomes em latim no ocultariam a conjecturada identidade das fantasmagorias: Joachinus seria dom Joaquim Gonalves de Azevedo, 18o bispo da 79. Arquidiocese de Salvador, morto em 1879; Petrus, dom Pedro Maria de Lacerda, dcimo bispo da Arquidiocese de So Sebastio do Rio de Janeiro, falecido em novembro de 1890. Quanto ao terceiro esprito, o do cardeal, este por enquanto no revelara seu nome terreno, explicou a beata Leopoldina. S o faria algumas semanas depois, emendou. At o Dia de Reis, 6 de janeiro, as trs almas no teriam deixado de comparecer uma nica vez missa em Juazeiro, declarou Leopoldina aos comissrios. J no dia seguinte ao Natal, a alma do cardeal, inflamada com as chamas do amor que emanariam misteriosamente do sacrrio da capela de Nossa Senhora das Dores, prostrara-se diante do altar principal e, com a face cingida ao cho, fora envolvida por uma imensa chuva de sangue. Dois dias depois, durante a missa, a beata teria visto o cardeal elevar as mos aos cus, enquanto seu rosto se desfazia em chamas: Oh! Levita do Santurio, tenro arbusto sacerdotal, vaso de eleio, chamado a serdes sentinela em Israel; vs, doce esperana de nossos gozos e resplendores eternos, chegai-vos a este vulco de amor, teria dito o esprito flamejante, apontando para a caixa de vidro na qual repousariam os paninhos ensanguentados do Juazeiro. Em 5 de janeiro, um dia antes da ltima apario coletiva daquele hipottico trio de almas, padre Ccero teria ordenado ao esprito do cardeal que, enfim, revelasse quem ele fora em vida. Ego sum Cardinalis Pecci (Eu sou o cardeal Pecci) o esprito teria respondido. Leopoldina no entrou em pormenores, mas por certo os padres Antero e Clycrio conheciam bem a histria de certo cardeal Giussepi Pecci, ex-prefeito da Congregao para Estudos do Vaticano, falecido havia menos de um ano. O irmo de Giussepi, Gioacchino, estava vivo. E, sem dvida, era bem mais conhecido por todos os cristos ao redor do mundo: desde 1878, Gioacchino Pecci fora coroado e atendia pelo ttulo de papa Leo XIII. Segundo Leopoldina, portanto, o finado irmo do papa salvara-se do Purgatrio por obra e graa dos mistrios do Juazeiro. Depois de ouvirem as primeiras onze testemunhas no inqurito, os padres Clycrio e Antero decidiram que era chegada a hora de se deslocarem para o Crato. Deixariam para trs o alumbramento das beatas e o clamor das multides de peregrinos arranchados pelas ruas do Juazeiro. No meio da papelada produzida nos vinte dias que permaneceram no povoado, levavam um inusitado documento assinado por Ccero, apontamentos que o capelo do Juazeiro jurava conter a transcrio de um esclarecimento sobre o milagre ditado a ele diretamente por Jesus Cristo: Para satisfazer o desejo ardente que consumia o meu corao, para de novo manifestar-me aos homens, foi necessrio eu despojar-me da fora de meu brao e multiplicar as mais espantosas maravilhas, vindo derramar de novo o meu sangue entre vs. [...] Do mesmo modo que me entreguei aos homens, permanecerei at o fim dos sculos. Assim como a minha palavra infalvel, do mesmo modo as minhas obras sero permanentes. Portanto no h nada aqui nestas novas manifestaes que seja contrrio ao ensino da Igreja e dos telogos. Os comissrios eclesisticos tambm carregariam consigo para o Crato a beata Maria de Arajo e a caixa de vidro com os paninhos ensanguentados. Obedeciam assim a uma dupla determinao do bispo. Primeiro, punha-se fim idolatria dos panos manchados de sangue. Depois, as novas verificaes dos fenmenos seriam feitas a uma conveniente distncia da 80. influncia de Ccero. Mas nem mesmo depois de instalada na casa de caridade do Crato a comisso ficou livre do clamor pblico em torno do assunto. Quando se soube que Maria de Arajo estava na cidade acompanhada pelos dois representantes do bispo, a populao cratense acorreu em massa ao prdio. No meio da multido, quem no conseguiu forar a entrada pelo porto principal deu um jeito de saltar as grades, escalar os muros e, de um modo ou de outro, arranchar-se nos sales e corredores da casa, na contagiante esperana de ver e tocar a beata tida como milagreira. Impossvel afirmar em que ponto exato da investigao padres Clycrio e Antero passaram tambm a considerar a hiptese de que realmente pudessem estar diante de um milagre. Porm seguro dizer que, se haviam ou no ficado desassossegados com tudo o que viram e ouviram no Juazeiro, os acontecimentos no Crato os arrastariam de vez para o corao do enigma. Maiores e derradeiros mistrios estariam prontos a desafi-los entre as paredes brancas da casa de caridade. Ao ousar conceder a tais mistrios o benefcio da dvida, os dois comissrios logo estariam ateando fogo sua imaculada reputao. 81. 7 Bispo contesta inqurito: Deus no saltimbanco, santa no mostra lngua a ningum 1891 Maria de Arajo obedeceu. Bochechou durante alguns minutos a soluo de percloreto de ferro, cuspiu aquele lquido cor de caf ralo em um vaso de porcelana e s ento se posicionou para receber a comunho oferecida por padre Clycrio. Os mdicos convocados pela comisso de inqurito asseguravam: se fosse de natureza orgnica, o fenmeno seria desmascarado pelo poderoso coagulante ferroso, uma substncia altamente txica, mas utilizada na poca para conter hemorragias em cirurgias odontolgicas. To logo reagisse ao contato com a soluo, o sangue sado da boca da beata deveria apresentar colorao enegrecida e exibir a presena de cogulos. Caso isso ocorresse, ficaria provado que o sangramento era de natureza humana, descartando assim a hiptese de que se tratava de uma substncia com propriedades divinas e, portanto, incorruptvel. Na capelinha da casa de caridade do Crato, por volta das seis e meia da manh daquele 24 de setembro, padre Clycrio benzeu as hstias e ps uma delas entre os lbios grossos e entreabertos da beata. Pelo que constou no relatrio oficial dos comissrios, Maria de Arajo, que parecia disposta a contradizer as leis do bispo, agora teria passado a desafiar as leis da qumica: mesmo aps os gargarejos com percloreto de ferro, o sangue que lhe escorreu da boca foi mais abundante do que o de costume e de um vermelho ainda mais intenso. Na manh seguinte, ainda sob a superviso dos mdicos e com a mesma administrao de coagulante, a hstia tornou a sangrar. Os doutores Igncio de Sousa Dias e Marcos Madeira este ltimo o mesmo que j expedira um atestado a respeito do episdio foram encarregados pela comisso de escrever a quatro mos o relatrio clnico que seria anexado ao inqurito e remetido apreciao do bispo em Fortaleza. No documento, atestaram que Maria de Arajo s conseguia consumir a hstia, sem sangramentos, quando padre Clycrio recitava o Misereatur em latim: Misereatur tui omnipotens Deus, et dimissis peccatis tuis, perducat te ad vitam ternam. (Que Deus onipotente se apodere de ti, que te perdoe os pecados e te conduza vida eterna.) 82. Restariam algumas hipteses a ser consideradas pelos dois mdicos para tentar esclarecer, luz da cincia, tanto o fenmeno da hstia quanto os estigmas de Maria de Arajo. Havia relatos na literatura mdica a respeito de crises de histeria que resultavam em sangramentos pelo corpo. Existiam notcias clnicas de indivduos que em situaes de grande presso mental apresentavam hematidrose, a constrio involuntria das glndulas sudorparas que de to pressionadas acabam por se romper e provocam a mistura do suor com o sangue. Isso serviria para explicar clinicamente at mesmo a cena do Novo Testamento na qual Cristo, na iminncia de ser preso pelos centuries romanos, passa a suar gotas de sangue no monte das Oliveiras. Mas, ao contrrio do que acontecia nos casos patolgicos de transes histricos, os xtases da beata no a deixavam extenuada. Em vez disso, pareciam revigor-la. Para os dois mdicos a servio da comisso, a tese de que ela seria uma histrica se tornava desse modo insustentvel: Logo aps os xtases, ela fica calma como dantes, sem denunciar na sua fisionomia nem nos movimentos nenhuma alterao nos seus hbitos, entrando logo em suas ocupaes dirias como se nada tivesse sucedido, conservando tambm a mesma regularidade na conversao e modo de tratar. Os mdicos ainda rechaaram oficialmente a possibilidade de que os sangramentos pela boca seriam provenientes de alguma enfermidade fsica da qual Maria de Arajo fosse portadora. No podemos atribuir este sangue a uma leso da laringe ou pulmo, pois estes fatos se reproduzem h trs anos e ela no tem sofrido na sua constituio e temperamento, alm de no ter a menor tosse ou febre; e pelo exame que fizemos no encontramos indcio de uma leso interna que pudesse ser a origem de tais hemorragias. Uma ltima hiptese para explicar o fenmeno pelo olhar cientfico seria a de um possvel hipnotismo da beata por parte de seu diretor espiritual, Ccero Romo Batista. Contudo, sem a presena de Ccero, que ficara a quase uma lgua de distncia, no Juazeiro, Maria de Arajo continuava a converter hstias em sangue ao receber a comunho das mos do prprio comissrio do bispo. Mesmo nos primeiros dias em que ficara confinada casa de caridade do Crato, antes da chegada dos dois comissrios ao Cariri, o mesmo j ocorrera: Clycrio e Antero foram comunicados da existncia, na sacristia da capelinha da casa, de uma caixa de vidro, de quinze centmetros de comprimento por dez centmetros de altura, idntica quela que havia na capela do Juazeiro, abarrotada de paninhos e toalhas manchadas de sangue. Por isso mesmo, para esclarecerem o caso, os comissrios precisavam convocar para depor todos os que haviam mantido contato com Maria de Arajo durante o retiro compulsrio no estabelecimento. O primeiro a ser ouvido, na manh do dia 27 de setembro, foi o padre Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, jovem professor do seminrio do Crato, assduo visitante da casa de caridade. Com 28 anos incompletos, padre Quintino era tido como um moo ilustrado, a despeito de suas assumidas idiossincrasias e prevenes pessoais em relao a duas espcies de gente: as pessoas de lbios grossos e os estrbicos em geral. Para ele, aqueles de boca carnuda e sangunea eram costumeiramente dados lascvia, por isso julgava uma temeridade 83. alist-los entre os pretendentes ao sacerdcio. J o estrabismo, para padre Quintino, era a marca clara de predisposio a defeitos de ordem moral. Leitor compulsivo desde os tempos de estudante na Prainha, aos dezessete anos Quintino j havia traduzido um bom nmero de autores latinos, bibliografia seleta que trazia na ponta da lngua, citando-a na verso original, na forma de sentenas e aforismos sempre que a ocasio se mostrasse oportuna. Descrito pelos contemporneos como dono de uma personalidade metdica, tinha um modo de caminhar caracterstico, em passos simtricos e compassados, o que era entendido como a marca mais visvel de sua decantada rigidez interior. Em 1887, to logo recebera a ordem de presbtero, bafejado pelas predilees de dom Joaquim, fora enviado ao Cariri levando uma carta de recomendao escrita pelo bispo e endereada ao vigrio de Misso Velha, padre Flix Aurlio: Envio a Vossa Reverendssima, para coadjutor, um anjo, a prola do meu seminrio. Pois dom Joaquim no gostaria nada de saber que aquele sacerdote promissor, o pupilo favorito, a prola de seu seminrio, andava dando crdito s notcias sobre os transportamentos espirituais de Maria de Arajo. Pelo menos foi o que padre Quintino deixou patente aos comissrios durante o depoimento. Em seu testemunho, tambm confirmou que j tivera a ocasio de dar a comunho beata e verificado pessoalmente o fenmeno da transformao da hstia em sangue. Mostrava-se do mesmo modo impressionado com o fato de a iletrada Maria de Arajo dizer sentir dores e gozos espirituais profundos, sempre que algum lia para ela trechos da Paixo de Cristo e do Cntico dos Cnticos. No mesmo dia em que tomaram o depoimento de padre Quintino, os comissrios ouviram o padre Sother de Alencar, outro prestigioso mestre do seminrio do Crato, um sacerdote que privava da amizade de Ccero e figurava entre os mais fervorosos adeptos da tese da sobrenaturalidade dos fenmenos vividos pela beata. Sother era vice-reitor do seminrio e, at ali, homem de total confiana do bispo dom Joaquim. As respostas dele comisso foram praticamente decalcadas do depoimento de padre Quintino: ambos no cogitavam a hiptese de uma fraude, eram testemunhas das experincias msticas de Maria de Arajo e viam com regozijo as converses em massa que estavam ocorrendo no Juazeiro por causa delas. Estava evidente: o seminrio do Crato, fundado para funcionar como o guardio ultramontano da pureza da f no Cariri, havia se transformado em um foco de irradiao do chamado milagre do Juazeiro. O reitor da casa, monsenhor Francisco Monteiro, o prximo a ser ouvido pelos comissrios naquele dia, era de longe o mais entusiasmado defensor da causa. Monteiro no apenas confirmou em seu depoimento que Maria de Arajo empreendia incurses espirituais ao Cu, Inferno e Purgatrio como assegurou que por vezes tais viagens msticas seriam realizadas sob seu mandado. Por concesso especial de Deus, o monsenhor se dizia capaz de conversar espiritualmente com a beata, mesmo quando Maria de Arajo se encontrava a lguas de distncia. Aquela mulher era abenoada com o dom da profecia e da clarividncia, explicou o reitor aos comissrios do bispo. Tanto que conseguiria saber com miudezas de detalhes o contedo das correspondncias que ele, monsenhor, mantinha trancafiadas na gaveta de seu escritrio e ainda no havia mostrado a ningum. Monteiro fez afirmaes semelhantes, por escrito, em documento oficial entregue comisso e anexado ao processo. Detesto cavilaes, e querendo a glria de Deus e a posse dos cus, no farei escadas com degraus de mentiras, escreveu. Temos passado por 84. sacerdotes ilusos, ignorantes, fanticos... O Brevirio aprovado pela Igreja no diz que santa Brgida, na idade de dez anos, viu Jesus todo ensanguentado? O mar sem fundo do corao de Jesus, quem poder sond-lo? Na opinio de monsenhor Monteiro, a sombra cruel do preconceito impedia que se desse f aos acontecimentos de Juazeiro. Diante dos comissrios, de viva voz, confidenciou ter assistido a uma cena misteriosa, que o deixara absolutamente convicto da natureza transcendental dos episdios que envolviam Maria de Arajo. O fato teria se dado na manh de 27 de abril do ano anterior, 1890, no Juazeiro, nas dependncias da casa do padre Ccero. A beata havia lhe pedido naquele dia algumas palavras de consolao, pois precisava renovar as foras diante dos muitos embates que estaria travando contra espritos infernais. Maria de Arajo encontrava-se ajoelhada quando Monteiro lhe estendeu o crucifixo de bronze, para que ela orasse tendo a imagem de Cristo entre as mos. To logo o monsenhor se ajoelhara ao lado dela, percebera que a beata se mostrava trmula, a ponto de mal poder segurar a cruz em meio aos dedos vacilantes. Quando tornou a pr os olhos no crucifixo, Monteiro teria ficado abismado com a viso: um filete lquido de sangue escorria do bronze. Durante outros dois dias, o fenmeno se repetira. Ao examinar de perto o crucifixo, Monteiro teria notado que o fio de sangue saa do pequeno cravo que perfurava os ps de bronze de Jesus. Mais adiante, em maio, teria se dado nova manifestao do episdio, e em maior volume. Do lado esquerdo da imagem do corpo do Cristo, altura do peito, o sangue teria jorrado abundante, a ponto de encharcar dois panos grandes e parcela de um leno. Em novembro de 1890, o atnito monsenhor decidira enfim tirar uma prova a respeito do assunto. Apresentara outro crucifixo de bronze beata e pedira para que ela intercedesse a Deus para que uma marca daquela imagem ficasse impressa na palma da mo direita dele. Os cus teriam atendido prontamente: Como eu pedi, houve derramamento de sangue e a graa que eu desejava. No seria essa ainda a maior de todas as maravilhas, jurava Monteiro em depoimento. Havia poucos dias, ele fora at o povoado e, em um incio de tarde, estivera mais uma vez com a beata. Dessa feita, o reitor suplicara aos cus por uma evidncia de que o sangue aparecido nas hstias e naqueles dois crucifixos de bronze seria o verdadeiro sangue de Jesus. Como resposta, de imediato, a beata entrara em xtase. Segundo o monsenhor, das mos magras de Maria de Arajo, entre o polegar e o indicador, teriam se materializado, no ar, duas hstias ensanguentadas. Deus as mandara para que reitor e beata comungassem do sangue de Jesus, dissera a mulher. Monteiro contou ainda que os comissrios no precisariam esperar muito para assistir tambm a prodgios iguais quele. O reitor alegava ter cincia de que uma assombrosa maravilha estaria reservada para o dia seguinte, ali mesmo na casa de caridade do Crato, bem na presena dos dois membros da comisso episcopal. Assegurou que os padres Antero e Clycrio teriam a prova definitiva do carter divino de tudo o que vinha ocorrendo no Cariri. Depois de testemunharem o que estava por vir, prometeu o reitor, os comissrios teriam a certeza de que o dedo de Deus estava, sim, realmente ali. Havia quem pensasse exatamente o oposto. No estava ali o dedo santo de Deus, mas a 85. mo horrenda de Lcifer. Tudo o que vai pelo Juazeiro uma farsa habilmente representada pelos homens ou pelo demnio. Foi o que leu dom Joaquim em carta que recebera de um eminente colega. O remetente, que advertia ser Satans o possvel autor dos fenmenos, no era um religioso qualquer. Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, que mais tarde viria a ser o primeiro cardeal de toda a Amrica Latina, tinha um ilustrado currculo. Ex- bispo de Gois, aos 41 anos, Arcoverde era possuidor de uma distinta coleo de diplomas acadmicos, todos emoldurados em seu gabinete de ento professor do colgio jesuta So Lus, em Itu, So Paulo. Entre eles, o de bacharel em letras pelo Colgio Pio Latino- Americano, o de doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e o de especialista em cincias naturais pela Sorbonne, de Paris. V-se que um mau esprito paira sobre essa gente mal dirigida e mal aconselhada pelo incauto e imprudente padre Ccero Romo Batista, deduziu Arcoverde. A respeito de Maria de Arajo, tambm possua opinio formada: Essa mulher pe a lngua em verdadeira exposio para ser examinada vista por quem quer que seja, o que contra a modstia e humildade das pessoas visitadas de modo extraordinrio por Deus. Alm do qu, sobremodo ridcula essa exposio de lngua, sui generis e nunca vista em pessoas de santidade e celestialmente inspiradas. Ora, o esprito de Deus no se presta ao ridculo. Arcoverde escrevera para alertar o bispo cearense sobre o fato de Jos Marrocos ter lhe enviado correspondncia com impertinentes indagaes. Junto missiva propriamente dita, Marrocos tivera a ousadia de remeter-lhe um exemplar do livreto Os milagres do Joaseiro ou Nosso Senhor Jesus Cristo manifestando sua presena real no divino e adorvel sacramento da Eucaristia, aquele que fora publicado em Caic sem a devida licena eclesistica. Arcoverde explicava a dom Joaquim que era abominvel a ideia de que Deus estivesse manifestando-se por meio de espetaculosas golfadas de sangue, sadas da boca de uma beata. Ora, isso fazer de Deus um saltimbanco, simplesmente horroroso. Dom Arcoverde informava ainda que decidira responder as interrogaes de Marrocos em outra carta, to categrica quanto severa, e da qual mandava ao bispo cearense uma cpia: Nunca, em nenhuma parte do mundo cristo se venerou sangue sagrado que tivesse sado da boca de algum [...]. Nosso Senhor nunca fez papel de prestidigitador [...]. Houve santo, verdade, que alguma rara vez, e sem o pedirem, recebeu a comunho por ministrio anglico ou divino; nunca, porm, se leu andarem eles mostrando vaidosamente ao devoto pblico a lngua com a sagrada forma; isto por demais grotesco, e bem revela a origem espria de tais milagres do Juazeiro. O dia no qual deveria ocorrer a suprema maravilha prometida por monsenhor Monteiro aos comissrios do bispo, 28 de setembro, comeou agitado. Cinco novas testemunhas, todas mulheres, receberam notificao para comparecer naquela data a uma sala reservada da casa de caridade. Se as beatas do Juazeiro haviam alardeado fenmenos inacreditveis, devidamente juramentadas sobre a Bblia, as devotas do Crato no seriam mais comedidas. Pelo que se podia deduzir de tudo o que disseram aos padres Clycrio e Antero, Maria de Arajo no seria a nica milagreira da regio. Cada uma daquelas cinco senhoras narrou um novo rosrio de histrias a respeito de visitas anglicas, comunhes miraculosas, descries paradisacas, palestras com o Cu. 86. A srie de novos relatos conflua para o mesmo ponto: em nome da redeno dos pecados e da salvao dos puros de esprito, o Paraso teria estabelecido um canal de comunicao imediata e efetiva com o Cariri. Para as beatas, no existiria mais um mundo sobrenatural, que se opunha noo de um mundo natural. Cu e Terra estariam unidos por obra e graa de Deus. O invisvel tornara-se visvel, os vivos falavam com os mortos, os anjos e santos desciam Terra com a mesma facilidade com que as beatas subiam ao Cu. O dia j avanava com o sol a pino enquanto os comissrios ainda aguardavam, com curiosa ansiedade, a manifestao divina anunciada por monsenhor Monteiro. Por volta da uma hora da tarde, quando iniciavam a tomada de depoimento de mais uma beata, Antnia Maria da Conceio, trinta anos, os padres Antero e Clycrio viram abrir-se atrs de si, de supeto, a porta dos fundos da sala onde procediam aos interrogatrios. Uma das beatas entrou esbaforida no aposento, trazendo um recado urgente da parte de monsenhor Monteiro: o reitor pedia que os comissrios do bispo fossem imediatamente at a sacristia, onde se encontrava Maria de Arajo. Fizessem o obsquio de deixar de lado tudo naquele mesmo minuto e fossem at l. O prometido prodgio acabara de ocorrer. Antero e Clycrio largaram o interrogatrio de Antnia pela metade e apressaram-se a vencer as poucas dezenas de passos que os separavam da sacristia. Ao chegarem, viram Maria de Arajo sentada, imersa em mais um de seus tpicos estados de xtase. De joelhos diante dela, monsenhor Monteiro segurava entre os dedos da mo direita duas hstias, inteiramente cobertas de sangue. Segundo afirmava o reitor, elas teriam aparecido, minutos antes, miraculosamente, na palma da mo de Maria de Arajo. Nosso Senhor mandou estas partculas para que os padres da comisso vissem e comungassem, explicou a beata, ao ser revocada do transe pelo reitor. Como o sangue havia grudado uma hstia outra, Monteiro no conseguiu separ-las. Por isso decidiu lev-las prpria boca, fazendo em seguida o respeitoso sinal da cruz. Depois, dirigiu-se novamente a Maria de Arajo e sugeriu que ela indagasse a Jesus Cristo se era da vontade de Deus que fossem enviadas do Alm outras duas hstias, para que enfim os padres Antero e Clycrio pudessem comungar do sangue milagroso. Atendendo ao reitor, a beata prostrou-se diante do tabernculo e comeou a rezar em voz baixa. Ns, posto que unidos tambm em orao, estvamos em tudo bem atentos ao que se passava, descreveria pouco mais tarde Clycrio oficialmente a dom Joaquim. Depois de um quarto de hora mais ou menos, eis que a beata, tomada de um rapto exttico, levantando um pouco a mo direita, deixou ver outras duas hstias ensanguentadas, que monsenhor Monteiro tomou entre os dedos e passou aos nossos, anotaria Clycrio. Notamos bem distintamente que o sangue que corria de cima a baixo das partculas era fresco, tingindo nossos dedos. As duas hstias continuariam a sangrar, mesmo nas mos dos dois representantes do bispo. Nessas circunstncias, houve razo para que tomssemos tais partculas por miraculosas, divinas, e as recebemos em comunho. Nada poderia ser mais simblico e, ao mesmo tempo, mais estranho hierarquia da Igreja Catlica: uma mulher, e ainda por cima negra e analfabeta, acabara de dar a comunho a trs padres: um deles, reitor de um seminrio; os outros dois, respeitveis doutores em teologia. Aquela mulher, Maria de Arajo, alm de provocar uma ruptura no monoplio 87. masculino da Igreja, no apenas dispensava a intermediao da instituio eclesistica para se relacionar com Deus como tambm se colocava na posio de mediadora entre os sacerdotes e a divindade. Quando viesse a saber do episdio, dom Joaquim ficaria escandalizado. Vossa Reverendssima foi infeliz, infelicssimo, diria o bispo a padre Clycrio. Adorar partculas de origem ignorada, como se fossem consagradas! Triste e lamentvel idolatria!!!, censurou, por carta. Ainda sob o impacto da misteriosa ocorrncia, Antero e Clycrio tiveram de retornar sala de interrogatrios, para continuar a tomar o depoimento da beata Antnia da Conceio. Mas to logo dirigiram a ela a primeira pergunta, a mulher tambm foi tomada de aparente xtase e, levantando a mo direita, mostrou quatro hstias que, de acordo com o que asseguraria o relatrio final dos comissrios, teriam surgido milagrosamente no ar. Nosso Senhor Jesus Cristo me manda entregar estas quatro partculas ao meu confessor [monsenhor Monteiro], para que ele comungue comigo e os padres da comisso, disse-lhes Antnia. Foi a vez de Antero e Clycrio mandarem chamar Monteiro imediatamente. Como haviam acabado de fazer em relao a Maria de Arajo, os trs religiosos ajoelharam-se junto beata Antnia e obedeceram alegada orientao celeste. De novo, comungamos, admitiria o relatrio final, assinado por Clycrio. As posies haviam se invertido: os comissrios podiam ser os enviados oficiais do bispo. Mas, para eles, as beatas haviam assumido o papel de enviadas de uma autoridade infinitamente superior: a vontade de Deus. Depois de um longo ms de trabalho, a comisso deu a investigao por encerrada. A vasta papelada entregue pela dupla de comissrios ao bispo inclua a ntegra de 23 depoimentos, o relato de cinco verificaes da transformao da hstia em sangue e a autenticao de duas verificaes dos estigmas de Maria de Arajo. Alm dos atestados assinados pelos peritos mdicos, o apndice da documentao listava uma eloquente coleo de nada menos de 27 graas obtidas por populares, atribudas intercesso do Precioso Sangue. Entre tais concesses divinas, figurava o caso de Rosa Maria da Conceio, mulher que alegava ter ficado estril por uma enfermidade uterina, mas voltara a engravidar logo aps seguir em romaria, a p, do serto do Paje, em Pernambuco, at Juazeiro. Havia tambm o relato do vaqueiro Henrique Ferreira Parnaba, que tivera o olho direito varado por um pedao de pau de meio palmo de comprimento. Depois de desenganado por dois mdicos, teria voltado a enxergar aps colocar em volta do pescoo uma fita que tocara a urna de vidro na qual repousavam os paninhos banhados em sangue, exposta na capela do Juazeiro. O relatrio final trazia ainda documentos relativos abertura da urna de vidro encontrada na casa de caridade do Crato. No texto, padre Clycrio declarava que assistira ao exato instante em que, ao abrir a caixa transparente, monsenhor Monteiro aspergira gua benta sobre uma toalha de linho cuidadosamente engomada, utilizada para forrar a gaveta para a qual seriam transferidos os paninhos que estavam na urna. De acordo com padre Clycrio, as gotas de gua benta derramadas sobre o linho branco teriam se transformado, ato contnuo, em manchas de sangue. Tudo foi verificado pelo reverendssimo comissrio e pelas testemunhas presentes, descrevia o relatrio. 88. Nas oito pginas finais do inqurito, liam-se as concluses de padre Clycrio: Em abono da verdade, sou obrigado a declarar aqui, querendo cumprir o juramento que prestei de ser fiel misso que me foi confiada, que todo aquele que bem estudar o esprito de Maria de Arajo, [...] como procuramos faz-lo, excluir toda a ideia de artimanha e de embuste nessas comunhes miraculosas ensanguentadas. Dom Joaquim julgou que aquele documento no passava de uma montoeira de disparates. Para ele, uma coisa era saber da existncia de narrativas mgicas, propagadas por beatas e procos provincianos, gente que talvez pudesse confundir imaginao arrebatada com verdadeira experincia religiosa. Outra, bem distinta, era aceitar relatos ainda mais extraordinrios vindos da parte de sacerdotes eruditos, enviados como representantes oficiais da diocese. O bispo considerou que seus comissrios haviam renunciado ao senso crtico e se mostrado ingnuos ao ser enredados na trama. Caram miseravelmente nas ciladas das beatas, deixaram-se enganar como crianas!!!, avaliou dom Joaquim, com seus j habituais pontos de exclamao. Padres Clycrio e Antero fizeram constar ainda do documento um inesperado acrscimo ao depoimento inicial da beata Jael Wanderley Cabral, no qual a autoridade do bispo se viu vilipendiada e alvo de ridicularias. Pouco antes de partirem do Cariri e retornarem a Fortaleza, os comissrios haviam aceitado ouvir novamente aquela beata, em Juazeiro. A mulher contou que, depois de haver se confessado ao padre Ccero, vira Jesus Cristo se materializar diante dela. Cristo teria lhe oferecido a mo e feito o seguinte convite: Vamos casa do bispo. Jael jurava sobre a Bblia que tinha viajado espiritualmente at Fortaleza, de mos dadas com Cristo, e batido porta do palcio episcopal. De acordo com a narrativa de Jael aos comissrios, por uma, duas, trs vezes, Jesus Cristo teria chamado dom Joaquim, que nem sequer se dera conta da presena de to ilustre visita. Est vendo? a terceira vez que chamo. Vamos embora, dissera Cristo beata, antes de desistir da visita e desenhar uma cruz com as mos sob a porta do palcio episcopal. Seria a prova de que no poderiam contar com as boas graas do bispo. Naquele mesmo dia, Jael dizia ter visto Nossa Senhora, toda vestida de verde, que ento lhe recomendara: Remetam o processo ao papa. Depois disso, o principal interlocutor de dom Joaquim, o bispo Arcoverde, dizia-se convencido de que por trs de toda a questo estavam as articulaes de Ccero Romo Batista: Quanto mais leio, mais asco me causa o procedimento do padre Ccero, sendo ele a causa de que tantas irreverncias se cometam diante do Santssimo Sacramento. De Fortaleza, padre Clycrio achou por bem advertir o colega Ccero a respeito das primeiras reaes do bispo ao relatrio final. Achei o bispo bem prevenido contra os negcios do Juazeiro, avisou, em carta sigilosa, datada de 16 de novembro de 1891. Aps receber a ntegra do inqurito, dom Joaquim no camuflara a insatisfao em relao ao que lera. Ele mostrou abertamente no dar maior valor ou merecimento ao mesmo processo; no acha ele provada a transformao das hstias, no reconhece nas beatas que figuram no processo o dom da contemplao, lamentou Clycrio. Conhece-se muito pouco a teologia mstica em nosso pas. A sociedade mais culta, em sua grande maioria, no est preparada 89. para tais coisas. No precisou muito tempo para que dom Joaquim tomasse as providncias que julgava cabveis. Uma das primeiras medidas foi destituir monsenhor Monteiro do cargo de reitor. Iria ainda alm, diante da constatao de que os principais membros do seminrio do Crato eram unnimes em defender a tese de milagre: simplesmente decretou o rompimento do rgo em relao diocese. Pode Vossa Reverendssima continuar a dirigir, sob sua nica responsabilidade, este estabelecimento, o qual deixar de ter ento o carter de seminrio e tomar o nome com que Vossa Reverendssima quiser design-lo, indicou, em despacho a Monteiro. Quanto a Ccero, o bispo informou que ele estava proibido de ouvir confisses de mulheres noite, bem como de fazer qualquer espcie de viglia com beatas na capela de Juazeiro o que na prtica significava o fim das sesses da irmandade. Fora durante uma dessas sesses que se dera, pela primeira vez, o fenmeno com Maria de Arajo. O bispo lembrava ainda a Ccero que era terminantemente proibida a impresso de livros e folhetos a respeito de presumveis milagres sem prvio exame e aprovao da diocese. Caso desobedecesse a qualquer uma daquelas recomendaes, estava sujeito imediata suspenso de suas ordens eclesisticas. Dom Joaquim exigiu que Ccero mandasse de volta, por um urgente mensageiro, todas as cartas que havia lhe enviado, explicando que no fizera cpia de nenhuma. Iria precisar delas para se documentar a respeito do caso. Nunca pensamos, padre Ccero, que em um processo de verificao de milagres se levantasse to grande escarcu contra o bispo diocesano, repreendeu Joaquim. Ele censurava o fato de Jos Marrocos ter enviado consultas a diversas autoridades religiosas revelia do curso normal do inqurito. Contudo, como ltima prova de boa vontade, o bispo solicitava que Ccero indicasse nomes dos telogos que bem desejasse, a quem seriam feitas novas consultas a respeito do caso, agora com a devida chancela do bispado. A resposta de Ccero s reprimendas iniciais do bispo, escrita nove dias antes do Natal daquele ano de 1891, foi a mais reverente possvel. Em vez de insurgir-se contra as determinaes de seu superior, o padre redigiu a dom Joaquim uma carta dcil, em tom de franca submisso, na qual soube utilizar-se de toda a cautela e de toda a diplomacia que a situao exigia. Nunca pensei, nunca quis nem quero causar desgosto a pessoa alguma, quanto mais a Vossa Excelncia; Deus o sabe, desculpou-se o padre Ccero. Vendo quanto Vossa Excelncia est contrariado e desgostoso, no sei dizer da amargura que sofro. Se acaso no correr dos negcios aqui alguma coisa houve que Vossa Excelncia no achou correto e se d por ofendido, peo pelo amor de Deus que me perdoe, pois a minha inteno no ofender a Vossa Excelncia nem de leve; e sobretudo quando se trata de uma causa de Deus. A carta terminava com a mesma inflexo respeitosa: Faa o que quiser de mim. No quero ter vontade. Fao em tudo a vontade de Deus. Apesar disso, Ccero continuava a afirmar sua crena no milagre: Senhor bispo, eu estou persuadido que estas coisas daqui so de Deus, e so verdade, por isso quisera que Ele encarregasse outro que fosse um instrumento mais apto para sua honra, glria e vontade, e no a mim que nem sei falar e me falta tudo. Por fim, vinha a reafirmao do princpio da obedincia, seguida da evocao de que os cus 90. seriam o melhor juiz de toda aquela questo: Submeto-me de todo o meu corao a qualquer deciso da Santa Igreja, e peo e espero que Nosso Senhor dar triunfo de sua causa. Louvado seja Deus que to justamente me fere. Enquanto Ccero tentava abrandar as irritaes de dom Joaquim, Arcoverde incentivava o colega no sentido exatamente contrrio. Para ele, Joaquim fora condescendente demais com Ccero e com as beatas do Juazeiro. Da, na sua opinio, os fatos terem chegado a tal nvel de ebulio. Dom Arcoverde considerava que o capelo de Juazeiro havia muito deveria ter sido suspenso, junto com monsenhor Monteiro, o primeiro a proclamar, no altar, a ideia de milagre. Estivesse no lugar de dom Joaquim, j teria ordenado o recolhimento de Maria de Arajo a Fortaleza, sob pena de excomunho. Assim teria evitado todos os escndalos que se tm dado, e a celeuma que se vai levantando, opinou. Arcoverde recomendou a dom Joaquim que, por mais tarde que pudesse parecer, era chegada a hora de tomar uma deciso implacvel para pr uma pedra sobre o assunto. O bispo deveria mandar queimar tudo o que existia a respeito dos episdios do Juazeiro: panos, toalhas e lenos manchados de sangue. Que se fechem em um ba de lata e se remetam a Vossa Excelncia, que os far queimar sua presena, sugeriu. Como medida adicional, aconselhou que dom Joaquim no perdesse mais tempo e enviasse o caso para ser apreciado por quem era responsvel pela represso aos hereges: Mande o processo para Roma, para ser julgado pela Inquisio. 91. 8 Diocese confisca os paninhos manchados de sangue: Mandaremos pelos ares esse Juazeiro 1892 Quando, por volta das onze e meia daquela manh, Ccero deixou a capela de Nossa Senhora das Dores e rumou para casa, foi avisado de que havia uma visita esperando-o para o almoo. Quem estava ali sentado pacientemente, j havia cerca de uma hora, era o padre Antnio Alexandrino de Alencar, o novo vigrio do Crato, recm-nomeado pela diocese. No bolso da batina, o visitante trazia uma correspondncia para o capelo de Juazeiro, com a recomendao de que deveria ser entregue em mos. Alexandrino acabara de ser transferido para o Cariri com a misso de dar cabo, em definitivo, dos assuntos do Juazeiro. Se dois insignes doutores, padres Clycrio e Antero, no haviam conseguido realizar a tarefa, dom Joaquim esperava que um sacerdote com o perfil de Alexandrino, menos ilustrado, porm mais afeito disciplina, pudesse vir a faz-lo sem demora. Ex-proco de Quixad, cidade do serto central cearense, o novo vigrio chegara a ocupar uma cadeira na Assembleia Provincial entre 1886 e 1887, mas aos 44 anos de idade, depois de 25 anos de efetivo sacerdcio, continuava a ser um simples proco de aldeia, com passagem pelas modestas freguesias de Lavras e Araripe, de onde fora acanhado coadjutor. Formalizados os cumprimentos de praxe, Alexandrino no revelou de imediato a Ccero o motivo daquela inesperada visita. Conversaram amenidades, trocaram gentilezas protocolares, comeram lado a lado. Contudo, no houve tempo sequer para o quilo, a providencial digesto aps o almoo. Ao pr os talheres de lado, o vigrio do Crato pediu que ambos se recolhessem em particular ao consistrio da igreja. Trazia mensagem oficial, urgente, da parte de dom Joaquim. Aqueles dois homens de batina negra atravessaram a rua, entraram na capela e trancafiaram-se no aposento reservado. Antes de entregar a Ccero as duas folhas de papel dobradas que trazia no bolso, Alexandrino apressou-se a comunicar que por ordens do bispo no deveria haver, naquele ano, cerimnias religiosas durante o transcurso da Semana Santa no Juazeiro. Estavam proibidas quaisquer manifestaes pblicas ao longo do perodo, bem como a bno de peregrinos que chegassem ao povoado para celebrar a Paixo de Cristo. Nada de representaes da Via Sacra, procisses noturnas com velas acesas e desfiles de andores cobertos de roxo em sinal de luto pela morte de Jesus. A dor e a f teriam de ser exercidas em respeitosa contrio, no mbito dos lares ou na capela, de modo estrito, apenas durante o horrio regular das missas. Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz, 92. sugeria Alexandrino, dando razo ao dito popular. Dom Joaquim exigia que tal resoluo fosse rigorosamente atendida, para evitar surtos histricos de beatos e beatas, o alastramento de catarses coletivas e novas demonstraes de fanatismo. As notcias escandalosas que chegavam do Juazeiro capital haviam ultrapassado todos os limites do razovel. Feita aquela primeira advertncia, Alexandrino puxou do bolso as folhas de papel e passou-as s mos de Ccero. Ali estava redigida outra determinao diocesana, ainda mais austera, tanto que o bispo decidira comunic-la por escrito, para no deixar margem a equvocos. Ccero desdobrou o papel e viu no alto das pginas timbradas o braso eclesistico, ao lado da observao grafada a mo: Reservado. De imediato, reconheceu no corpo da carta a caligrafia de dom Joaquim, disposta como sempre em linhas perfeitamente regulares, apesar da ausncia de pautas na folha. Era um ofcio datado de 12 de janeiro, embora j estivessem em 25 de fevereiro. Alexandrino explicou que recebera o documento em Fortaleza, no incio do ano, quando estivera em audincia com o bispo, bem antes de tomar a estrada para assumir a parquia do Crato. No obstante ter se instalado havia cerca de quinze dias no Cariri, padre Alexandrino no encontrara at ento a oportunidade favorvel para fazer o ofcio chegar imediatamente ao destinatrio, como recomendara dom Joaquim. Ele at esperara por uma visita de Ccero ao Crato, mas, como o capelo de Juazeiro no se dignara a aparecer na cidade a no ser no dia da posse de Alexandrino como novo vigrio , ele prprio decidira ir ao povoado para cumprir com a obrigao e entregar a correspondncia. Dom Joaquim fora econmico nas palavras, mas bem explcito em suas intenes. O ofcio, constatou Ccero, era de uma inescapvel objetividade: Fortaleza, palcio episcopal do Cear 12 de janeiro de 1892 Ao reverendo Ccero Romo Batista Reverendssimo Senhor, Haja Vossa Reverendssima de entregar ao reverendo padre Antnio Alexandrino de Alencar, proco dessa freguesia do Crato, a caixa de vidro existente nessa capela do Juazeiro com todo o contedo da dita caixa, conforme consta das folhas 29 e 30 do processo instaurado sobre os fatos extraordinrios sucedidos com Maria de Arajo. Essa entrega Vossa Reverendssima a far dentro de oito dias impreterivelmente depois de recebido este ofcio, nas seguintes condies: Vossa Reverendssima, depois de entender-se com o reverendo proco acerca do dia em que determinar fazer a entrega, tomar a dita caixa, a envolver em um vu ou em uma toalha, e sem nada comunicar a quem quer que seja, a conduzir pessoalmente ou a entregar a algum sacerdote para conduzi-la, sem aparato algum, at a Matriz do Crato, onde ser recebida pelo mesmo proco que passar o respectivo recibo. No permitido de modo nenhum dar-se qualquer culto a tal caixa. O que acima fica dito, Vossa Reverendssima o cumprir sob pena de suspenso ipso facto no caso de desobedincia. Abenoe Deus a Vossa Reverendssima. Dom Joaquim, bispo diocesano De acordo com os relatos minuciosos que Alexandrino faria daquele encontro, Ccero mostrou-se bem abalado aps receber o ofcio. Chegou a ler o mesmo documento trs vezes seguidas, antes de pronunciar qualquer slaba a respeito. Depois de minutos imerso em silncio, enfim recobrou a fala e afirmou, transtornado, que no entregaria a ningum a urna de 93. vidro com os paninhos manchados de sangue. Nem a Alexandrino nem ao bispo. No esperassem dele tal coisa. Alexandrino insistiu: o ofcio assinado por dom Joaquim no deixava lugar para interpretaes ou recusas. No havia o que discutir. Desobedecer seria atitude inconsequente. Acossado, Ccero tentou explicar que, caso entregasse os paninhos, imaginava que o bispo ordenaria que eles fossem sumariamente destrudos. Como tinha convico de que o sangue de Cristo estava ali presente, Ccero no poderia consentir que as relquias fossem profanadas. Alexandrino retrucou. Seria insensato, um desatino, desrespeitar um ofcio como aquele, assinado pelo superior eclesistico. Por vrias ocasies dom Joaquim j discorrera sobre a impossibilidade de o sangue de Jesus Cristo estar presente naquele amontoado de panos: Cristo derramara seu sangue uma nica vez, havia quase 2 mil anos, e na cruz. No lera o que j cansara de escrever o bispo, baseado na leitura da teologia de Santo Toms de Aquino? Ccero se disse determinado. S se curvaria a Santo Toms de Aquino ou a qualquer outro telogo se algum lhe provasse que Jesus, autor de tantas maravilhas, fosse incapaz de fazer jorrar de novo seu sangue, se assim bem o quisesse, e da forma que bem entendesse. Ao pressentir que a conversa no prometia chegar a bom termo, padre Alexandrino apresentou suas despedidas. Mas avisou que, no Crato, o padre Sother de Alencar recebera uma ordem semelhante: deveria entregar a caixa idntica, que se encontrava na casa de caridade, no prazo estipulado por dom Joaquim. Antes de partir, Alexandrino ainda recomendou que Ccero refletisse melhor sobre o assunto, pusesse a mo na conscincia e cumprisse os votos de obedincia devidos ao bispo. Conforme dispunha o texto do ofcio, Ccero ainda tinha oito dias para entregar a urna, a contar daquela data. Portanto, o prazo final para que mudasse de ideia era 3 de maro, uma quinta-feira. At aquele dia, folhinha aps folhinha do calendrio, Alexandrino aguardaria por notcias, na sede da parquia. Depois disso, caso o capelo de Juazeiro insistisse na perigosa teimosia, seria obrigado a comunicar a dom Joaquim que a ordem episcopal no fora cumprida. A pena, Ccero havia lido, era bem severa: suspenso. Se tal ocorresse, ele no poderia mais rezar missa, confessar fiis, ministrar sacramentos. Seria um pria dentro da Igreja. O seminrio do Crato continuava de portas fechadas. Tamanho era o abandono do lugar que os formigueiros ameaavam tomar conta dos terrenos que circundavam o prdio, de acordo com um relatrio enviado por padre Alexandrino ao bispo. A ideia de que o estabelecimento pudesse continuar aberto, desde que permanecesse desligado da diocese, logo foi revista por dom Joaquim, que decretou a interrupo das aulas. O reitor, monsenhor Francisco Monteiro, depois de destitudo do cargo, foi transferido da regio e estava oficialmente proibido de pregar na cidade ou localidades vizinhas. Isolado em Iguatu, cerca de 23 lguas 154 quilmetros ao norte do epicentro dos fenmenos que tanto propagandeara, Monteiro escrevia cartas suplicantes ao bispo: Peo a Vossa Excelncia que por caridade consinta que eu volte logo para o Crato [...]. Eu sou amigo particular do Alexandrino, viveremos bem [...]. J prometi a Vossa Excelncia e garanto em f do meu carter sacerdotal no dizer mais uma palavra sobre os negcios do Juazeiro. 94. O bispo no se sensibilizou. Mas decidiu que no enviaria ainda o caso a Roma, para ser submetido ao Santo Ofcio, como sugerira Arcoverde. Dom Joaquim avaliava que o processo instrudo por Clycrio e Antero estava to atulhado de absurdos, contaminado que fora pelo catolicismo rstico das beatas, que poderia vir a ser entendido como uma zombaria pelos bispos e cardeais do Vaticano. Joaquim resolvera s enviar alguma documentao a Roma quando tivesse provas contundentes contra o caso. Somente depois disso seria conveniente levar o inqurito a uma instncia superior, imaginava. Por enquanto, trataria de apertar o torniquete em volta dos nimos dos partidrios do milagre. A primeira iniciativa nesse sentido foi enquadrar o padre Quintino Rodrigues, aquele a quem at ento o bispo tivera na conta de prola do seminrio da Prainha. Desgostoso com a leitura que fez do depoimento de Quintino nas pginas do inqurito, dom Joaquim enviou-lhe, em segredo, uma consulta por escrito, na qual pedia esclarecimentos sobre pontos especficos do interrogatrio que lhe soaram bizarros. No tem encontrado em Maria de Arajo alguma contradio, alguma falta de verdade, alguma impostura ou ostentao?, indagava. O bispo queria que ele confirmasse se realmente assistira transformao da hstia e se de fato vira crucifixos verterem sangue, como afirmara antes a Clycrio e Antero. Quintino, mediante a perquirio de dom Joaquim, capitulou. Retratou-se. Em tom de confidncia, alegou que no vira propriamente o exato momento em que a imagem de bronze comeara a sangrar, pois durante alguns segundos Maria de Arajo a encobrira com o manto. Do mesmo modo, no podia assegurar que a hstia se tingia de vermelho sem nenhuma interferncia externa, pois ao comungar a beata tambm cobrira o rosto com o vu. A respeito de Maria de Arajo discernir palavras em latim, Quintino agora dizia desconfiar que a mulher apenas reconhecia sons de certos vocbulos, com pronncia assemelhada ao do portugus. Por fim, assegurava que em pelo menos uma ocasio flagrara Maria de Arajo em evidente mentira, justamente quando Quintino indagara a ela a respeito de uma das supostas comunicaes espirituais. Ao pression-la para que desse detalhes do dito episdio, a beata teria deixado escapar um sorriso encabulado e a revelao de que no estaria dizendo a verdade. Em suma, ao contrrio do que afirmara no depoimento oficial, Quintino traou reservadamente ao bispo o retrato de uma Maria de Arajo dissimulada e embusteira. Uma mulher capaz de mentir para padres, de ludibriar os mais incautos, de forjar prodgios por baixo do manto negro de beata: a cruz nos peitos, o diabo nos feitos. Dom Joaquim considerou as novas declaraes de seu pupilo um atestado de arrependimento sincero e voltou a inclu-lo no rol dos aliados. Comunicou-lhe que, quando decidisse reabrir o seminrio, faria dele o novo reitor. Para o bispo, as mscaras dos arautos dos milagres estavam comeando a cair. Era chegada a hora de recuperar as ovelhas extraviadas. No conceito de zelo apostlico de dom Joaquim, Clycrio e Antero haviam sido benevolentes em excesso, quem sabe com o objetivo de abrir um canal de dilogo mais pacfico entre a Igreja e a mstica popular. Agindo de boa-f, qui apenas buscassem facilitar a transmisso da mensagem crist ao povo mais simples do serto. Podiam no ter pecado na inteno, mas haviam errado na direo e na medida. Por cogitar tal hiptese, aps enquadrar 95. Quintino, o bispo ainda no desistira de reaver tambm os prstimos dos dois proeminentes membros da primeira comisso de inqurito. bem verdade que padre Clycrio, que presidira a investigao, era tido como um caso quase perdido pela diocese. Trocara o elevado cargo de secretrio do palcio episcopal por uma proviso no pequeno e ento recm-criado municpio de Unio (futura Jaguaruana), antes conhecido pela prosaica denominao de Catinga do Ges, desmembrado de Aracati, cidade litornea do Cear. O coitado do padre Clycrio, exaltado pelos embustes das beatas do Juazeiro, ferido em seu amor-prprio porque no aprovamos o seu parecer, retirou-se para as praias, lamentava o bispo a seu interlocutor cada vez mais constante, o colega Arcoverde. Quanto a padre Antero, dom Joaquim alimentava real expectativa de v-lo o quanto antes reintegrado ao rebanho. Enxergava nele uma rs extraviada pela m influncia do parceiro de inqurito, mas um discpulo ainda perfeitamente passvel de recuperao. Com esse intuito, escreveu-lhe cartas amistosas, sempre tentando traz-lo de volta para as hostes palacianas. Meu bom amigo, esta questo do Juazeiro tem me feito perder o sono muitas vezes, por causa do mal que est resultando das imprudncias do padre Ccero, comentava. O bispo chegou at a acenar com a possibilidade de Antero assumir um cargo na alta hierarquia episcopal. A troca de correspondncia entre dom Joaquim e padre Antero revelava um curioso duelo intelectual, no qual se confrontavam posies teolgicas francamente antagnicas. O sangue do Juazeiro, quer dos panos, quer das partculas, um sangue morto, seco, coagulado e sujeito corrupo, logo no pode ser o sangue real de Nosso Senhor Jesus Cristo, argumentava dom Joaquim, ao sustentar que era Maria de Arajo, uma mulher tida e havida como doente dos nervos, talvez epilptica, que provavelmente sofria escarros de sangue. Antero contestava. Os mdicos haviam descartado a hiptese de enfermidades na mulher e ele prprio tinha presenciado as transformaes. Vira a hstia branca mudar-se em uma substncia lquida e vermelha. Se admitirmos que o sangue seja de Maria de Arajo, devemos tambm admitir um outro milagre sui generis atribuir ao sangue dela a propriedade de converter instantaneamente uma substncia em outra. Sobre a promessa de vir a assumir um cargo episcopal, Antero apresentava polidas evasivas para declinar da oferta: Se Vossa Excelncia me desejar algum bem, como acredito, faa com que tal coisa nunca suceda; alm de me faltarem todos os predicados perante Deus, gozo de to pouca sade, como bem sabe Vossa Excelncia. Enquanto isso, Arcoverde continuava a cobrar mais energia de dom Joaquim, pois chegara a seu conhecimento que o recalcitrante Jos Marrocos, com a provvel conivncia do padre Ccero, prosseguia fazendo publicidade dos alegados milagres. Arcoverde lera uma matria sobre o assunto em uma revista religiosa portuguesa, a Programmo Catholico, editada na cidade lusitana de Guimares, em cujos pargrafos identificara o estilo do ex-seminarista. No sei se j chegaram a Roma tais declaraes do senhor Marrocos. Creio que ali o homem naufragar desastrosamente e com ele todos os mais que levianamente concorrem para dar corpo e aparatosa publicidade a semelhantes fenmenos, escreveu Arcoverde ao bispo do Cear. Em confiana irrestrita ao destinatrio, dom Joaquim confidenciava que certos aspectos do inqurito o deixaram realmente impressionado. Os milagres so possveis, e os fatos do Juazeiro so extraordinrios; estou convencido, plenamente convencido, de que no so 96. sobrenaturais, mas preciso prudncia na direo do negcio, explicava. Vossa Excelncia diz que eu devo mandar vir a Maria de Arajo para a capital... no, no penso assim... pois hei de mandar vir de distncia de cem lguas uma pobre moa epilptica, filha de uma pobre mulher paraltica, sem recursos?, ponderava. De seu lado, Arcoverde insistia em um ponto capital: Ccero, Maria de Arajo, Jos Marrocos, monsenhor Monteiro ou qualquer outro ente mortal no seriam os verdadeiros responsveis pelos rumos que tomara o caso do Juazeiro. Ao ler a ntegra da cpia do inqurito que lhe fora enviada por dom Joaquim, tivera reforada a crena pessoal de que o diabo estava administrando os espritos do lugarejo. Arcoverde pressentia um funesto cheiro de enxofre no ar: Vossa Excelncia havia dito que esses fatos no eram de Deus nem do demnio. Esta proposio me pareceu arriscada. Acho difcil, agora com os depoimentos em mo, poder qualificar de meras iluses e embustes os fenmenos que se tm dado no Juazeiro e no Crato. Como dizer que so meras iluses as celebrrimas e estupendas comunhes dos padres da memorvel comisso?, indagava Arcoverde, referindo-se ao episdio das hstias ensanguentadas que teriam aparecido no ar e, em seguida, consumidas por Antero e Clycrio. Olhe, aqui para ns, difcil encontrar uma coleo de padres do calibre que compunham a tal comisso que Vossa Excelncia enviou ao Crato, reconhecia, convicto de que s Satans seria capaz de ludibriar homens preparados como aqueles. De todo modo, Arcoverde aprovava as ltimas resolues de dom Joaquim: o fechamento do seminrio, a proibio da permanncia de monsenhor Monteiro no Crato, o confisco dos paninhos e a ameaa de suspenso de Ccero. Previa que, com apenas um pouco mais de dispndio de tempo e de severidade, toda a dissidncia e toda a fora maligna seriam dissipadas: Que gostosas risadas havemos de dar quando tivermos a sorte de nos encontrar. Ento mandaremos pelo ar todo esse Juazeiro que tanto trabalho tem dado ao corao de Vossa Excelncia, resumiu. Foi uma semana inteira de exasperao. No oitavo dia, a fatdica data-limite imposta pelo bispo, Ccero finalmente cedeu. A contragosto, comunicou a Alexandrino que decidira entregar-lhe a urna de vidro. Abalado, Ccero pediu apenas que o vigrio, ao remeter os paninhos diocese, escrevesse ao bispo implorando por tudo o que era mais sagrado neste mundo que as relquias no fossem atiradas, como simples trastes, ao apetite do fogo. Alexandrino, claro, no ousaria repassar semelhante demanda a dom Joaquim, mas tratou de comunicar a splica que lhe fizera Ccero a quem ento descreveu como um indivduo deprimido, cado no mais profundo abatimento. Para os crticos do milagre, a hesitao de Ccero em entregar os panos era vista como um comportamento suspeito, altamente comprometedor. Estaria ele querendo evitar um possvel exame qumico nas tais relquias, sob a autorizao diocesana? questionariam os adversrios. Ccero refutava tal acusao. Na verdade, cuidava para que no fossem suprimidas as provas mais eloquentes e hipoteticamente sagradas do milagre do Juazeiro. De todo modo, de acordo com a determinao de dom Joaquim, Alexandrino envolveu de cuidados a entrega da urna, despindo a ocasio de qualquer solenidade ou aparato, para evitar testemunhas inoportunas. Orientou Ccero a lev-la ao Crato em plena 97. meia-noite, sozinho, sem dar conhecimento do fato a ningum. Por esse motivo, Juazeiro inteira dormia quando o pesaroso capelo selou a montaria e pegou a estrada de p at a cidade, protegido dos olhares mais curiosos pela escurido da noite. Ao receber a caixa de vidro envolvida em uma toalha, Alexandrino agradeceu, elogiou o gesto de Ccero e disse que a guardaria em lugar seguro, at que dom Joaquim mandasse novas orientaes a respeito. De posse da urna, dispensou Ccero e, previdente, mandou-o embora de volta ao Juazeiro. Dali por diante, era com ele, Alexandrino. Somente ele, ningum mais, saberia onde ficaria depositada a caixa de vidro. Ainda na calada da noite, o vigrio esvaziou a urna e transferiu seu contedo para o sacrrio do altar principal da matriz do Crato, onde os paninhos permaneceriam trancados, aninhados uns sobre os outros. Deveriam ficar ali at o dia em que o proco viajasse para Fortaleza e, conforme o combinado, pudesse entreg-los pessoalmente ao bispo. Mergulhado na penumbra da igreja, Alexandrino fechou a portinhola do sacrrio e guardou a chave no bolso. No mais tiraria aquela chave de perto de si, zelando por ela como quem guarda a prpria vida. A urna de vidro, j vazia, seria enterrada em lugar ignorado, cumprindo outra das deliberaes do bispo. Pelo que reconhecia a correspondncia de Alexandrino a dom Joaquim nessa poca, aqueles foram dias bem difceis para Ccero e para os juazeirenses em geral. Apesar do inverno generoso, das chuvas abundantes que ento caam no Cariri, a atmosfera era de absoluta desolao. A notcia de que dom Joaquim confiscara a urna com as relquias provocou indignao nos peregrinos e nas beatas, mas tambm esmorecimento. A proibio das celebraes da Semana Santa, que se aproximava, contribua para alquebrar ainda mais os espritos. O fato de o seminrio permanecer fechado aumentava o desgosto da populao, uma vez que muitas famlias, inclusive as bem situadas, tiveram de ver seus filhos interromperem bruscamente os estudos. Nos longos sermes dominicais, do alto do plpito, padre Alexandrino refutava a tese de milagre e, intensificando uma pastoral baseada no medo, ameaava os mais resistentes com a danao eterna. Com isso, angariou a antipatia dos juazeirenses. Alexandrino tornou-se a encarnao do inimigo. Que importa que aquela gente toda esteja furiosa com voc? Eles no sabem o que fazem, incentivava-o dom Joaquim a prosseguir no cumprimento da rdua misso. Para completar o quadro de consternao coletiva no Cariri, espalhou-se a notcia de que Alexandrino iria comandar uma nova comisso para investigar o fenmeno das transformaes da hstia em sangue. Ou seja: tudo o que haviam feito Clycrio e Antero, as verificaes, os interrogatrios, os depoimentos, os atestados mdicos, nada daquilo fora levado em considerao pelo bispo. Padre Alexandrino convidou Ccero para participar como testemunha dos trabalhos dessa segunda comisso, presidida por ele, Alexandrino, e secretariada pelo padre Manoel Cndido dos Santos, 38 anos, ex-promotor do bispado e ento vigrio de Barbalha. Era, sem dvida, uma dupla bem menos refinada intelectualmente do que a primeira. Dom Joaquim retirara a conduo do caso das mos de dois doutores eruditos para coloc-la sob a superviso de dois curas de provncia. Ccero, consternado com o rumo dos acontecimentos, rejeitou a hiptese de tomar parte no assunto. Comunicado de tal recusa, dom Joaquim achou por bem no pression-lo. At achava prudente mant-lo afastado das novas experincias com Maria de Arajo. Por outro 98. lado, j que Ccero e as beatas diziam falar com Jesus Cristo, o bispo exigia que o capelo de Juazeiro consultasse os cus e remetesse respostas a quatro perguntas bsicas: 1) O que se dar no Brasil, dentro de um ano, quanto ordem poltica?; 2) Quais sero os bispos nomeados para os novos bispados?; 3) Quem ser nomeado arcebispo da Bahia?; 4) Em que ano e em que ms se dar a reunio dos bispos brasileiros em um Conclio? Ora, justificava dom Joaquim, se era verdade que existia gente em Juazeiro capaz de ter colquios com a Corte Celeste, no haveria dificuldade nenhuma para satisfazer a tais questes. Perto da razo, longe da culpa, supunha. Entretanto, no houve resposta. Quanto s profecias, sinto no poder satisfazer a Vossa Excelncia Reverendssima, e me acho com to pouca f que no tenho nimo de pedir a Nosso Senhor que me conceda esta graa, desculpou-se o padre Ccero. O desejo de dom Joaquim em desmascarar um presumvel embuste era to manifesto que, no af de abreviar o caso, acabariam sendo atropeladas algumas formalidades cannicas. Se a primeira comisso havia respeitado todos os rituais protocolares, a segunda seria estabelecida de modo quase informal, sem decreto ou portaria eclesistica que a respaldasse. Em vez da tomada de dezenas de testemunhas e de detalhados termos de verificao, a recomendao de dom Joaquim era de que fosse levada a efeito uma espcie de rito sumrio: Alexandrino deveria oferecer a comunho beata Maria de Arajo em trs dias consecutivos, sempre nas dependncias da casa de caridade do Crato, cuidando para que, desta feita, ela no portasse nenhum manto sobre a face nem fechasse a boca antes de receber ordem em contrrio. A ideia era que, sem poder esconder o rosto e sem cerrar os lbios, ficariam afastadas as possibilidades de a beata vir a cometer algum tipo de fraude. Alexandrino tinha a tarefa de desconstruir, em apenas trs dias, tudo o que a primeira comisso coletara em mais de um ms de trabalho. Espero em Deus que no tardarei a ver desmascarados os fanticos desta terra, prometeu Alexandrino. Toda moeda servia. Quem no possua dinheiro vivo podia deixar um bem qualquer, por menor que fosse o valor. Anis, pulseiras, cordes. Uma galinha, uma cabra, um cabrito, um jumento. Tudo seria revertido para a causa, a grande corrente de esmolas e donativos organizada por Ccero para custear a viagem de um representante ao Vaticano. O bispo ficaria bem desapontado quando soubesse quem seria o advogado e embaixador dos milagres junto Santa S: padre Antero. Ele, que continuava a trocar cartas educadas com dom Joaquim, prontificou-se a representar os interesses do Juazeiro no tribunal do Santo Ofcio, como fiel procurador do padre Ccero. proporo que a populao se mobilizava para obter o dinheiro necessrio empreitada, Antero queimava pestanas e passava noites em claro preparando a documentao que deveria levar na viagem. Marrocos traduzia cartas e outros escritos para o latim e o italiano, enquanto o prprio Antero produzia uma cpia fidedigna do primeiro inqurito, com a ntegra do depoimento de todas as testemunhas. Da distante cidade de Unio, padre Clycrio escrevia a Ccero e a Jos Marrocos para orient-los a respeito dos passos que deviam ser tomados na defesa da questo. Como o bispo 99. ainda no remetera nenhuma deciso final a Roma, no era o caso de fazer uma apelao protocolar, mas uma prvia comunicao formal, para que a Santa S tivesse cincia de todos os acontecimentos inclusive do risco de uma possvel eliminao de provas, caso os paninhos fossem incinerados pelo bispo diocesano, como se temia. Do mais humilde juazeirense aos proprietrios de terra mais grados da regio, centenas de pessoas atenderam ao chamado de Ccero. Padre Antero calculara que seriam necessrios pelo menos cerca de dois contos de ris para pagar as despesas da viagem, ento o equivalente a dois anos de salrios de um funcionrio pblico, no nvel de amanuense, em uma repartio de Fortaleza. O volume de recursos arrecadados em Juazeiro superou todas as expectativas, o que patenteava o j enorme prestgio de Ccero, inclusive para alm das fronteiras do Cariri. O coronel Andrelino Pereira da Silva, rico fazendeiro pernambucano, que se empavonava do ttulo de baro do Paje, doou para a causa, sozinho, a quantia de 300 mil- ris em espcie, alm de trezentas cabeas de gado. Mas o grosso das doaes vinha mesmo das pequenas ofertas, sadas do bolso raso dos peregrinos. O povoado, convertido categoria de solo sagrado revelia do bispo, estava a cada dia mais coalhado de gente. No h documentos confiveis que indiquem, com preciso, o nmero de pessoas que desde ento se fixaram no lugar, embora as meticulosas cartas de Alexandrino denunciassem as crescentes multides de fiis que, atrados pelas histrias dos milagres, iam em busca dos conselhos e da bno de Ccero, o diretor espiritual e o confessor da beata Maria de Arajo. Juazeiro se transformara em um formigueiro humano. Abriam-se novas ruas, construam-se mais casas. O povoado crescia em torno da f popular. Ao passo que a beata mergulhava em temeroso e forado isolamento, Ccero agigantava- se na admirao dos peregrinos. As aes do bispo, entendidas pelos romeiros como injusta perseguio, estavam fazendo do padre do Juazeiro um mrtir, algum cujo infortnio e padecimentos em nome da causa santa a defesa do milagre despertavam a adeso piedosa das massas. Segundo Alexandrino, uma frase se tornara cada vez mais comum entre o povaru do Cariri: Acredito mais no padre Ccero do que no bispo; porque tudo o que o padre faz mandado por Deus, com quem inclusive conversa; e o bispo, no. Durante torturantes dezesseis minutos, Maria de Arajo permaneceu de boca aberta, a hstia mantida sobre a lngua imvel, diante do olhar rspido de padre Alexandrino. Por mais de um quarto de hora, ela no se mexeu, no ousou mudar de posio. As dores no maxilar e o adormecimento da mandbula logo se tornaram insuportveis. Mas a beata tinha ordem de no cerrar os lbios enquanto tal no lhe fosse autorizado. Relgio em punho, o vigrio do Crato acompanhou o lento deslocamento dos ponteiros, um olho no mostrador, outro em Maria de Arajo. Ao final do 16o minuto, quando constatou que no havia o mais leve sinal de sangue sobre a hstia, Alexandrino enfim ordenou que a beata mantivesse os lbios fechados por exatos dois minutos, ao trmino dos quais deveria escancarar novamente a boca. Alexandrino apontou vitorioso para a lngua da mulher, sem nenhum indcio de hemorragia sobre a partcula consagrada. A hstia lentamente se desmanchava, em meio saliva. Naquele 20 de 100. abril de 1892, a segunda comisso nomeada por dom Joaquim, tendo o arrependido padre Quintino como testemunha, comemorou o que julgava ser o incio do desmonte da farsa. Alexandrino demorara mais de dois meses para proceder quela verificao. No o fizera antes porque Ccero argumentara que a beata se encontrava gravemente enferma, sem condies fsicas de se submeter a novas provaes. Para no parecer intransigente, o vigrio do Crato aguardou o restabelecimento de Maria de Arajo. Sabia que era impossvel Ccero protelar o assunto por muito tempo, pois do contrrio provocaria uma ao mais decidida por parte de dom Joaquim. O bispo j estava suficientemente irritado e, todos sabiam, no convinha alimentar ainda mais suas zangas. No dia 21, seguindo o roteiro preestabelecido, repetiu-se a cena. s sete da manh, na casa de caridade do Crato, Maria de Arajo, sem o habitual vu escuro sobre a cabea, ficou de boca aberta durante tempo ainda maior: ininterruptos vinte minutos. Como na vspera, nada de sangue. No se deu nenhuma transformao. Padre Alexandrino ordenou que ela fechasse os lbios e contou outros sete minutos no relgio de algibeira. Ao final, ordenou que a beata abrisse mais uma vez a boca. A fina hstia se desmanchava normalmente sobre a lngua. Branca, redonda, inalterada. Nenhum prodgio, nenhuma maravilha. No dia 22, Maria de Arajo permaneceu de boca aberta por novos quinze minutos aps receber a Eucaristia. Mais uma vez, nada. Nenhum milagre. Alexandrino considerou a misso cumprida. Os defensores dos fenmenos contra- argumentavam que, nas condies constrangedoras a que fora submetida a beata, teria sido impossvel ocorrer a interferncia da mo divina. Manter Maria de Arajo com a boca aberta e a lngua exposta por to longos intervalos de tempo seria uma desumanidade, um desrespeito e uma irreverncia incompatveis com o sacramento da Eucaristia. As acusaes, porm, ricocheteavam de lado a lado. Dom Joaquim considerava que a nica forma de evitar fraudes era aquela. Se havia um milagre verdadeiro, a hstia teria de se transmutar de forma instantnea, aos olhos de todo mundo, sem subterfgios. Desde o comeo recomendara o mesmo procedimento a Clycrio, que jamais o cumprira. Alexandrino fizera o que tinha de ser feito, declarou o bispo. A explicao que a desalentada Maria de Arajo encontrou para a ausncia do milagre provocaria a exploso de Alexandrino: Os padres da comisso no se encontram em estado de graa, acusou a beata. Isso significava dizer que Alexandrino e seu assistente, o vigrio Manoel Cndido dos Santos, estavam imersos em pecado mortal: os representantes do bispo teriam deliberadamente ofendido a Deus e, por esse motivo, caso no se arrependessem e pagassem penitncia, suas almas estariam condenadas a queimar nos quintos dos infernos. A declarao da beata valeria uma violenta corrigenda: Alexandrino submeteu Maria de Arajo palmatria, castigando-a com uma sesso de doze doloridas pancadas na palma da mo direita. Santas no mentem, no cometem aleivosias, no levantam falso testemunho, justificou o vigrio do Crato. Com isso, deu o caso por encerrado. Mal houve tempo para Alexandrino celebrar a vitria. Na mesma manh em que preparava a comunicao oficial ao bispo a respeito dos sucessos da comisso, descobriu que algo de muito grave acabara de ocorrer bem debaixo das barras de sua batina. Algum entrara 101. durante a noite na nave da matriz, p ante p caminhara at o altar e, diante das imagens sacras, praticara um crime. A nica pista estava no resduo de cera branca deixado em volta do buraco da fechadura do sacrrio, o que explicava a ausncia de sinais de arrombamento na portinhola. Quem quer que fosse o autor da faanha, providenciara um molde de parafina e depois, com ele, fabricara uma chave falsa. No havia levado os castiais de ouro, nem a patena de lato coberta de prata. O ladro no estava atrs de metais ou objetos preciosos. Tudo permanecia no mesmo lugar de antes, com exceo de um nico e decisivo detalhe: o interior do sacrrio estava vazio. Todos os paninhos manchados de sangue haviam sido roubados. 102. 9 Padre anuncia o fim do mundo: o serto vai repetir a maldio de Sodoma e Gomorra? 1892-1893 luz do sol que avermelhava o poente, Ccero ajoelhou-se. Ps as mos sobre o solo, inclinou o corpo para a frente e, em um gesto simblico, beijou o cho do Juazeiro. Ao levantar, pronunciou uma nica frase, em entonao humilde: Eu ofereo o meu sofrimento a Nosso Senhor. Ccero acabara de ser comunicado, por meio do padre Alexandrino, que o bispo decidira decretar sua suspenso dos quadros da diocese. Por ser considerado o principal suspeito do roubo dos panos ensanguentados, o sacerdote do Juazeiro estava proibido de confessar fiis, batizar crianas, crismar jovens, fazer casamentos, dar extrema-uno a moribundos e, tambm, de oferecer a comunho a quem quer que fosse, em qualquer templo do bispado. S lhe restava a prerrogativa de rezar missa, ainda assim sem o direito a fazer sermes durante a celebrao. Quando a noite caiu, a informao tirou o sossego do povoado. Diante da notcia de que seu conselheiro e lder espiritual estava suspenso da Igreja, as beatas saram rua em desespero, entregando-se ao choro convulsivo, levando as mos ao rosto e atirando splicas em direo ao Cu. Era como se aquelas mulheres vestidas de negro da cabea aos ps houvessem acabado de receber a notcia do fim do mundo. Atordoado com o alarido das beatas, Alexandrino decidiu que o melhor a fazer era ir embora o quanto antes, para evitar possveis hostilidades contra si. Alegou compromissos urgentes no Crato e, montado em seu cavalo, sumiu na poeira da estrada. Ia a galope acelerado, tangido pelo receio de que os devotos de Ccero o seguissem pelos calcanhares e quisessem descontar nele a enorme decepo que os abatia. Talvez me estrangulassem, chegou a imaginar, conforme revelou em carta ao bispo. Ao contrrio do que temia, Alexandrino teve o pescoo preservado. Escapou ileso aps cumprir a misso de entregar a Ccero a portaria datada do dia 6 de agosto de 1892, na qual dom Joaquim enumerava os sete motivos oficiais que haviam levado a diocese a decidir pela punio: segundo o documento, Ccero incutira no esprito dos devotos uma srie de doutrinas temerrias; no teria o indispensvel critrio para dirigir as conscincias dos fiis; havia exposto ao ridculo a f catlica, propagara pretensos milagres; perturbara a paz das famlias, exaltara a fantasia de moas fracas e, em especial, contribura para que se cometesse um abominvel sacrilgio, ou seja, o furto ao sacrrio da matriz do Crato. 103. Ccero negava todas aquelas acusaes, particularmente a ltima. Virgem Nossa Senhora, quem mais vai sofrer por causa disso sou eu, teriam sido suas primeiras palavras ao ser notificado do roubo, segundo testemunho do prprio Alexandrino. Mas, para dom Joaquim, mesmo que no fosse o autor material do crime, Ccero o incentivara, direta ou indiretamente, ao permitir que os paninhos manchados de sangue fossem cultuados como relquias sagradas. Seria ele, em ltima anlise, o principal responsvel pelo fato. Estava suspenso. Ponto final. Extra ecclesiam nulla salus: Fora da Igreja no h salvao. A lista de principais suspeitos inclua tambm padre Antero, que estivera de passagem por Juazeiro para recolher o dinheiro necessrio ida a Roma. Alexandrino ruminava a hiptese de Antero estar de posse dos paninhos, talvez para lev-los na viagem e, quem sabe, apresent-los como possvel prova junto Santa S. Ainda no pude saber quem os tirou do sacrrio, mas para mim lquido e certo ter havido conivncia de padre Antero no roubo dos panos, conjecturava Alexandrino. Quando cobrado pelo bispo, Antero repeliria a acusao com veemncia: Assevero a Vossa Excelncia, debaixo de juramento se me exigir, que nunca soube de tal roubo, seno depois de praticado e quando j estava na lngua do povo. Jos Marrocos, o maior apologista dos fenmenos, era outro que inspirava srias desconfianas em Alexandrino. Quase todo o povo desta cidade atribui o roubo a Jos Marrocos. Dizem que s ele seria capaz de semelhante atentado, conferenciava a dom Joaquim. Se este homem, que um verdadeiro gnio do mal, no estivesse aqui desde o comeo da questo do Juazeiro, as coisas teriam tomado outro caminho, argumentava Alexandrino, que se sentia em evidente dvida com o bispo por no ter conseguido manter os paninhos sob custdia. Na vida tentativa de obter alguma pista, Alexandrino passou a pressionar os beatos mais prximos a Ccero, na certeza de que um deles bateria com a lngua nos dentes. Um desses beatos mais conhecidos era o velho Francelino, um negro que fora pajem do andarilho Ibiapina e que passara a viver em Juazeiro do Norte. Tnica comprida, cordo amarrado na cintura, Francelino era a figura do beato tpico do serto. Mo direita sobre a Bblia, jurou que no sabia de nada sobre o caso, para desalento de Alexandrino. No relato que fez ao bispo a respeito do interrogatrio do beato Francelino, o vigrio do Crato mostrou-se chocado ao constatar que aquele homem de aparncia extica, vestido de penitente e cajado na mo, no tinha em boa conta a augusta pessoa de dom Joaquim: Este infeliz chegou a afirmar que no reconhecia Vossa Excelncia como superior. Assim se tem formado o esprito do povo desta terra. Todas as ofensivas de Alexandrino mostravam-se infrutferas. Na verdade, s serviam para levantar contra ele ainda mais os nimos no Juazeiro. Tanto que, ao retornar ao povoado dias depois, chegou a ser ameaado por um grupo de romeiros, que o cercaram de faces em punho. Quando achou que havia chegado a hora de entregar a alma a Deus, Alexandrino foi salvo por uma mo inesperada. O padre Ccero, sabendo do ocorrido, foi em pessoa cont- los; o que conseguiu, contou ao bispo, aliviado. O contingente de peregrinos prosseguia maior do que nunca. Devo declarar que a suspenso no produziu o efeito que Vossa Excelncia esperava. Continuam as romarias em larga escala e o dinheiro que deixam no Juazeiro incalculvel, relatou. H poucos dias, na 104. minha presena, uma mulher que me parecia pobre deu ao padre Ccero um rosrio de ouro de no pequeno valor, dizendo ser para Nossa Senhora das Dores. Alexandrino levantava suspeitas sobre o destino que Ccero oferecia a tais donativos espontneos. O padre, muitas vezes, recebendo esmolas dos romeiros, dizia-lhes: Recebo-as exigindo dos senhores que me facultem gast-las como achar mais conveniente. No sei o que isso quer dizer, ironizou. Dom Joaquim ficou ciente tambm de que, proibido de pregar na igreja, Ccero passara a lanar mo de um astucioso estratagema. Todas as tardes abria a janela de casa e falava ao povo dali mesmo, brao estendido, espalhando bnos, distribuindo graas. Sempre havia centenas, s vezes milhares, de pessoas para ouvi-lo. Aquele mar de gente se acotovelava para ter uma viso melhor do pequeno sacerdote, para receber dele um aceno, uma palavra de conforto. Tm vindo romeiros de Alagoas, Pernambuco, Bahia, Amazonas e at da fronteira do Peru, alarmava-se Alexandrino. Ccero continuava no sendo propriamente um grande orador. Mas a fala simples, cheia de referncias prprias da f sertaneja, arrebatava e comovia multides. Moralista, insistia em pregar contra as danas, o feitio, a cachaa. Apocalptico, advertia os pecadores sobre o fim dos tempos e alertava contra a chegada iminente do Anticristo. Se vocs no deixarem de fazer pecado feio e mortal, Deus abreviar os tempos e acabar o mundo mais cedo, sentenciava. Abreviar, meus amiguinhos, diminuir, explicava, com o didatismo que lhe era prprio. Os romeiros sabiam que o sacerdote estava suspenso por deciso do bispo, mas no arredavam um milmetro em sua venerao. Nosso Senhor me enviou esta grande prova para eu sofrer, dizia Ccero, encontrando eco imediato na devoo popular. Afinal, imaginavam os romeiros, no eram os santos alguns poucos mortais privilegiados, escolhidos pelo Cu para padecer em nome de Deus? Apesar da vigilncia episcopal, vigrios de outras regies chegavam a enviar ao povoado supostos endemoniados, para que Ccero os exorcizasse. Foi o que fez, por exemplo, o padre Flix Aurlio, de Misso Velha, ao despachar para o Juazeiro um alcolatra empedernido, que chegara s raias da loucura por causa do vcio, mas cujas costumeiras arruaas na cidade eram atribudas ao fato de estar com o diabo no corpo. Tenho at medo de confessar tal pessoa, reconheceu padre Flix ao colega Ccero. No me julgo com habilitao alguma para converter quem se acha em to difcil estado. Mas nem s das demandas do Cu e do Inferno cuidava Ccero. Desavenas mais terrenas, de ordem familiar, tambm eram resolvidas com a devida intermediao dele. Certa feita, escreveu um bilhete de advertncia para uma senhora do Juazeiro que havia abandonado a casa e deixado o esposo para trs. Senhora Maria das Dores, a caridade me obriga a fazer esta carta porque a vejo em perigo certo de condenar a sua pobre alma. Tenha juzo, a senhora bem sabe que no pode deixar o seu marido sem incorrer em grande pecado, atemorizou. Logo que receber esta carta, volte e venha viver em paz como Nosso Senhor manda, e v confessar-se. Cuide de sua salvao enquanto tempo de remdio e Deus est lhe chamando. Se no fizer caso do meu conselho, tenha certeza que Deus lhe castiga. A Santssima Virgem abenoe e lhe d o temor de Deus. Pouco antes da suspenso clerical, chegara-lhe tambm entre tantos outros casos de pendenga familiar o que envolvia a pureza de uma sobrinha do baro de Paje, o mesmo que 105. doara 300 mil-ris em dinheiro e mais trezentas cabeas de gado para a causa do Juazeiro. A sobrinha do baro, filha de uma viva, havia sido raptada por um vaqueiro, morador da pernambucana Vila Bela. O poderoso e contrariado fazendeiro, em nome da honra domstica, mandou trs jagunos no encalo do sujeito, com a orientao de que lhe arrancassem o couro e, por certo, algumas coisinhas a mais. Afinal, no serto, nesses casos de roubo de donzela, a vingana geralmente consistia, no mnimo, na castrao do atrevido raptor. Depois de roubar a sobrinha do baro, o rapaz pusera a namorada na garupa de seu alazo e galopara em disparada, dia e noite, at alcanar o Juazeiro, com o objetivo de beijar as mos e pedir a proteo do padre Ccero Romo Batista. Aos ps do sacerdote, o esbaforido vaqueiro jurou que tinha as melhores intenes possveis: queria casar com a moa, a quem honraria como esposa pelo resto da vida. Para decidir o rumo que daria questo, Ccero quis saber se antes de chegar ao Juazeiro, em algum lugar no meio do caminho, o rapaz fizera mal menina ou se ela continuava donzela, to casta como quando viera ao mundo. Ela est no mesmo estado em que saiu de casa, jurou o moo. Era o suficiente. Certo da sinceridade do vaqueiro, Ccero esperou pelos trs jagunos do baro e ordenou que voltassem a Pernambuco. Ordem do milagreiro padre Ccero nem o mais sanguinrio jaguno punha em questo. Embainharam o punhal e deram meia-volta na estrada. Para pr bom termo histria, Ccero escreveu me da mocinha uma carta de prprio punho, que teve como portador ningum menos do que o vaqueiro candidato a genro. A mulher se recusou a olhar para o homem que lhe desencaminhara a filha; mas como a mensagem era da parte do padre Ccero, aceitou receb-la. Soube ento que a herdeira se encontrava em segurana, no Juazeiro, sob a proteo do sacerdote, e que a famlia estava sendo chamada por ele ao Cariri para tratar do assunto. Dez dias depois, cinquenta parentes do baro de Paje e do vaqueiro selavam a paz, soltavam rojes e festejavam o casrio, celebrado na capela branca do Juazeiro. Mas aquele tipo de ocorrncia se dera antes da suspenso, objetava Alexandrino. Sem poder mais ministrar sacramentos, inclusive o matrimnio, a figura do capelo do Juazeiro tenderia a perder fora e influncia junto aos romeiros. Nada mais enganoso, logo se viu. Se no podia celebrar batismos, Ccero passaria a receber insistentes pedidos para apadrinhar crianas, tanto de filhos de casais juazeirenses quanto de forasteiros. Tornou-se compadre de quase todos os peregrinos e, por consequncia, padrinho de uma profuso de novos devotos espalhados pelo Nordeste. Padre Ccero padrinho da metade das crianas que ali se batizam, queixava-se Alexandrino ao bispo, referindo-se ao Juazeiro. Tais queixas no tinham motivao apenas religiosa. No consentirei mais que o padre Ccero, com seu apadrinhamento quase universal de meninos, me esteja prejudicando. Nesta semana, recebi vinte assentos de batizados e apenas dez mil-ris, sendo que de dez meninos foi o padre Ccero padrinho e nada pagou, lamuriava-se Alexandrino. Apesar dos protestos do colega, aos poucos, mais do que padre, Ccero Romo Batista viraria o padrinho de toda aquela gente. Ficaria conhecido como o padrinho padre Ccero. Uma expresso que na fala do povo logo se converteria na variao Padinho Padi Ccero. Ou numa forma ainda mais reduzida e afetiva, logo adotada entre os romeiros: Padim Cio. Valei-me, meu Padim Cio! era esse o novo rogo que saa da boca dos homens e mulheres do serto. 106. * * * Os temores de dom Joaquim de que o exemplo de Juazeiro se alastrasse diocese afora estavam se materializando. Em Unio, a situao parecia fora de controle. Em meados de julho de 1892, padre Clycrio anunciou naquela cidade que beatas sob sua orientao espiritual haviam recebido uma revelao de Deus a respeito de um grande cataclismo que estaria prestes a ocorrer. Segundo Clycrio, os moradores do lugar tinham apenas duas semanas para se arrependerem de todos os pecados. Caso contrrio, a cidade inteira receberia o mais severo castigo dos cus, como nos tempos bblicos se dera com Sodoma e Gomorra, segundo as Escrituras destrudas pelo fogo de Deus devido imoralidade e ao desregramento de seus habitantes. Os municpios vizinhos enfrentavam idntica polvorosa, fomentada pelo mesmo padre Clycrio. De Unio, ele escrevia cartas amedrontadoras para os vigrios de pelo menos trs cidades prximas: Aracati, Cascavel e Limoeiro alm de enviar outra para o vigrio-geral de Fortaleza, monsenhor Hiplito Brasil. Em todas, anunciava que a ira de Deus se abateria sobre o povo daquelas localidades, caso os pecadores no mudassem de procedimento e no passassem a honrar o que prescrevia a f crist. De acordo com Clycrio, para escapar da destruio, o povo teria de rezar o rosrio, entoar ladainhas para todos os santos, entregar-se penitncia. Nas cartas aos colegas de sacerdcio, afirmava que fora encarregado diretamente por Deus de pregar o aviso fatal. O resultado das prdicas de Clycrio foi devastador. Segundo informou a edio de 9 de agosto de 1892 do jornal cearense A Repblica, a populao entrou em desespero. O correspondente do Aracati informava que o municpio estava entregue ao completo desvario. Esta terra, estes ltimos dias, tem sido teatro de horripilantes acontecimentos. Um magote de beatas de Unio tem dado revelaes de que o Aracati e Cascavel sero arrasados, se antes os povos incrdulos no se arrependerem e fizerem penitncia, tendo para isso o prazo de quinze dias. As notcias davam conta de fugas em massa das cidades, pessoas se descabelando pelas ruas, gente alucinada perambulando pelas estradas com trouxas de roupas na cabea, todos na inteno de escapar do raio de sete lguas de terra que, segundo se anunciava, compreenderia a destruio. O povo em grande pnico, especialmente as mulheres, cabeas indomveis, retirou-se de seus lares, abandonando casa, criaes e tudo, para no ser apanhado pelo tal castigo, noticiava A Repblica. A continuar essa ordem de coisas, teremos de lamentar muitas desgraas; pois consta que algumas mulheres tm abortado, outras vagam e correm feito idiotas, e muitas, indignadas com os maridos, propalam deix-los, se persistirem em ficar aqui. Como no era de se estranhar, a carta que Clycrio enviara ao vigrio-geral de Fortaleza foi parar nas mos de dom Joaquim. Posto a par da fonte dos distrbios ocorridos na diocese, o bispo apressou-se em aplicar a pena de suspenso tambm a padre Clycrio. Quando soube da punio do colega, Alexandrino lastimou, embora concordasse integralmente com a medida: Os fatos de Aracati me causaram espanto. Ao mesmo tempo me encheram de comiserao com o padre Clycrio. Nunca supus que ele casse no ridculo, como aconteceu; 107. Santo Deus, acode-nos. O vigrio de Unio, Jos Agostinho Santiago, relatou ao bispo que as tais revelaes das beatas da cidade incluam uma inusitada profecia: a de que estavam surgindo no Juazeiro os novos apstolos de Cristo, do modo exatamente igual ao ocorrido na antiga Jerusalm. Por isso Juazeiro iria tomar o nome de Nova Jerusalm. O padre Ccero seria um novo Joo Batista entre os homens. Nosso Senhor lhe havia concedido favores to extraordinrios como no havia concedido iguais a nenhum outro homem, exps padre Agostinho, que logo depois seria afastado da parquia e mandado para outra cidade, Russas, por ordem do bispo. Tambm era do conhecimento de dom Joaquim que uma das beatas mais arrebatadas de Unio chegara ao Cariri, enviada sob as recomendaes de padre Clycrio. A mulher, Maria Caminha de Anchieta Gondim, a exemplo de Maria de Arajo, tambm transformaria hstias em sangue durante a comunho. Depois de abandonar a casa dos pais, atravessara o estado de norte a sul para se fixar na casa de Ccero. No caminho, tornou-se alvo da ateno popular e foi adorada como santa. O bispo, indignado com o fato, ordenou que Alexandrino estabelecesse rigorosa vigilncia sobre o comportamento de Maria Caminha junto s demais beatas do Juazeiro. Nosso Senhor tem sido muito ultrajado pelas miserveis beatas daquele lugar; o tempo provar o que afirmamos, mas a culpa dos sacerdotes que se deixaram mistificar por mulheres ignorantes, acreditando [em] quantas asnidades lhes vm cabea delas, desabafou o bispo. Enquanto o governo da provncia precisava lanar mo da fora policial para conter os tumultos em Aracati e Unio, a situao no Juazeiro parecia avanar gravemente para destino semelhante. Pouco aps a suspenso de Ccero, desencadeou-se no vilarejo uma sequncia de episdios que o bispo julgou serem deliberados e orquestrados para desafiar a autoridade do palcio episcopal. Contavam-se histrias cotidianas a respeito de crucifixos que sangravam por toda parte, de imagens de santos que suavam sangue nos altares particulares, de hstias miraculosas que brotavam inesperadamente de dentro dessas mesmas imagens e nas quais apareceriam as iniciais de Jesus Cristo tingidas de vermelho vivo. Reina no Juazeiro uma verdadeira confuso. As beatas, cada uma por sua vez, so acometidas de sncopes, que chamam de estado de xtase, dizem palavras em latim e exibem os seus crucifixos ensanguentados, horrorizava-se o juiz da comarca do Crato, Joo Batista de Siqueira Cavalcanti. Onde iremos parar, se a autoridade no aparecer?, indagava. Segundo ele, at mesmo um estandarte com a imagem pintada de Ccero teria aparecido completamente banhado em sangue. Nunca vi um amontoado de tantos absurdos e tolices. Parece incrvel. O Juazeiro terra endmica. Reina ali a alucinao com carter epidmico: todos os que vo l apanham infalivelmente o mal da terra: tenho d daquela boa gente, diria o bispo de Olinda, Joo Fernando Santiago Esberard, ao tomar conhecimento do que ocorria na diocese vizinha. No lugarejo, que a essa altura j contava com um contingente de 12 mil moradores, tambm corriam boca mida srias imprecaes contra dom Joaquim, acusado pelos beatos e beatas de no acreditar nos milagres pelo fato de ser supostamente um maom infiltrado na Igreja. Beatas prximas a Ccero passaram a vaticinar a morte iminente do bispo e houve at quem levantasse a hiptese de que o prelado teria rompido os votos de castidade e colocado 108. no mundo um filho amaldioado, fruto do pecado da luxria. A esse respeito, alastrava-se entre os romeiros do Juazeiro um boato do qual ningum sabia precisar a origem. Dizia-se que Ccero havia estado em Fortaleza, na presena de dom Joaquim, que ento lhe mostrara um beb e em seguida lanara o desafio: Padre Ccero, dizem que voc ressuscita os mortos e faz outros milagres. Pois ento me diga de quem filho este menino... De acordo com a histria fantasiosa contada pelas esquinas do Juazeiro, Ccero teria passado a mo pela fronte da criana e afirmado que ela prpria responderia questo sobre quem seria o seu pai: o bispo!, teria balbuciado o recm-nascido. Alexandrino apressou-se em denunciar a onda de boataria a dom Joaquim: Esta histria, naturalmente sada e inventada no Juazeiro, tem corrido mundo. Os romeiros, onde quer que cheguem, contam tal histria e dizem: a est por que o bispo no gosta do padre Ccero, pois descobriu-lhe os podres. Dom Joaquim desdenhava. Eu sei que no Juazeiro me chamam de protestante, ateu e no sei o que mais, e que as beatas desejam at a minha morte. Mas isso no me incomoda. So intrigas miserveis de pessoas que no tm o que fazer. Em vez de contribuir para consolidar a hiptese de uma natureza divina dos fenmenos do Juazeiro, todo aquele turbilho de novos acontecimentos incluindo o roubo dos panos, as aleivosias contra o bispo e os tumultos em Unio apenas serviu para desacreditar ainda mais a imagem de Ccero perante a diocese. No estou fazendo delao de meu colega, a quem prezo muito, procurava justificar-se Alexandrino. S me parece estar ele com as faculdades um pouco alteradas. O bispo tinha opinio parecida a respeito do caso: Estou de acordo com o padre Alexandrino no respeito s virtudes do padre Ccero, que um santo, mas santo teimoso e desobediente, e inovador, que conversa com Nosso Senhor quando quer e obtm resposta sempre de acordo com o seu modo de pensar. Os prprios apologistas de Ccero foram obrigados a concordar que o assunto enveredara por caminhos constrangedores. Houve, do meio para o fim dessas manifestaes extraordinrias, diversas beatas que entenderam que Maria de Arajo no era mais do que uma habilssima artista de truque religioso e que a igreja de Cristo no era mais do que um teatro, reconheceu Manuel Diniz, advogado, amigo pessoal de Ccero e seu futuro primeiro bigrafo. De acordo com Diniz, o sangue derramado das hstias, imagens e estandartes naquele momento especfico, no qual outras beatas procuravam imitar Maria de Arajo e saam s ruas anunciando o fim do mundo, era grotescamente falso. No passava de uma espcie barata de tinta vermelha, comprada nas bodegas do Crato. Para agravar a situao, um dos mdicos que atestaram a sobrenaturalidade dos fenmenos ocorridos com a beata Maria de Arajo decidiu retratar-se. verdade que assinei os ditos documentos considerando os fatos como sobrenaturais. Mas sou forado a confessar que o fiz sem os necessrios dados e somente pela especialidade das circunstncias em que me encontrei, desculpou-se o doutor Igncio de Sousa Dias em correspondncia oficial ao bispo. Segundo o mdico, ele assinara os atestados por causa da presso em que se encontrava, alegando ter fortes razes para recear desacatos de um povo cujo fanatismo transluzia em todas as suas aes e palavras. 109. DomArcoverde no tinha dvidas. Padre Antero sair de Roma corrido e envergonhado do triste papel que foi representar, previu ele, que acabara de ser distinguido, em agosto de 1892, com o cargo de bispo auxiliar da Arquidiocese de So Paulo. Arcoverde informou a dom Joaquim que eles podiam dormir tranquilos. Prevenira certas pessoas no disse exatamente quem, mas deixava entender que se tratava de integrantes da alta cpula da Congregao do Santo Ofcio a respeito de todos os detalhes do caso do Juazeiro. Os cardeais inquisidores do Vaticano no dariam f s maluquices de beatas ou insensatez de padres fabricantes de fingidos milagres, garantiu. Ccero, por sua vez, depositava todas as esperanas na viagem de padre Antero. O colega partira no incio de julho, e as notcias demoravam a chegar. A ausncia de informaes confiveis deu margem para as mais variadas suposies. Espalhava-se no Juazeiro a histria de que padre Antero j tivera audincia at com o prprio papa Leo XIII. A verso que se propalava no Cariri era a de que o papa chorara, comovido, ao saber que o padre Ccero teria ajudado a salvar a alma do irmo dele, o falecido cardeal Giussepi Pecci, libertando-a do Purgatrio e elevando-a ao Cu. Na verdade, ao contrrio do que divulgavam os juazeirenses, o padre Antero no estivera com Leo XIII. E de modo diverso do que imaginava Alexandrino, tambm no estava de posse dos panos roubados do sacrrio da matriz do Crato. Mas era fato que em sua estada em Roma o padre Antero se hospedara na sede do Colgio Pio Latino-Americano e fora recebido pelo cardeal Raffaele Monaco la Valletta, 65 anos, que ento respondia pelo cargo de secretrio da Congregao do Santo Ofcio. Por orientao do cardeal Monaco, Antero apresentou uma defesa por escrito, lavrada em italiano, ao comissrio-geral da Congregao, o cardeal inquisidor Vincenzo Leone Sallua. Uma curiosa circunstncia relacionava, indiretamente, o cardeal Sallua aos acontecimentos do Juazeiro. Catorze anos antes, com a autoridade de grande inquisidor, ele chancelara uma biografia laudatria da italiana Catarina Mattei, uma mstica piemontesa que vivera no sculo XV e, segundo conta a tradio catlica, tinha vises msticas do Cu e apresentava os estigmas de Cristo, motivo pelo qual foi acusada de exibicionismo e embuste. Mas a Igreja revira sua posio e, desde 1808, o ento papa Pio VII proclamara que Catarina era uma bem-aventurada. Ao referendar a biografia da mstica Catarina, o cardeal Sallua a classificara como uma portentosa herona da cristandade. Faria ele o mesmo em relao a Maria de Arajo? Pelo sim, pelo no, junto traduo italiana do inqurito e da defesa escrita, Antero anexou papelada entregue ao cardeal Sallua um cauteloso ofcio, desculpando-se pelas possveis falhas que contivessem aqueles documentos. Reconhecia que alguns fatos narrados nos depoimentos das beatas do Cariri pareciam fantsticos em demasia. No acreditamos que a Santa S aprove tais fatos, admitia o procurador de padre Ccero. Mas Antero ressaltava que o grande objetivo que o levara at o Vaticano era a aprovao eclesistica do suposto milagre da transformao da hstia em sangue. Isto um fato certo, observado e examinado por milhares de pessoas, entre sacerdotes, mdicos e peritos, assegurava aos inquisidores, reforando a tese de que as converses numerosas de pecadores 110. era a maior prova da necessidade de confirmar o milagre do Juazeiro como verdadeiro. Para os olhos de censura de dom Joaquim, aquela viagem do padre Antero estava cercada de subterfgios. Antero teria se aproveitado da ausncia do bispo que se encontrava no Par, em visita pastoral diocese de Belm e de forma capciosa conseguira autorizao do substituto legal, o vigrio-geral de Fortaleza, monsenhor Hiplito, para ir a Roma sob falso pretexto. Oficialmente, padre Antero alegara a doena de um sobrinho, aluno do Colgio Pio Latino-Americano, para fazer a viagem, financiada pelos donativos e esmolas recebidos por Ccero. A justificativa para obter a licena era de uma fragilidade flagrante. O tal sobrinho enfermo j se encontrava no Brasil, em Recife, onde inclusive Antero o encontrou antes de tomar um vapor e zarpar em direo Europa. No obstante esta circunstncia, o senhor prosseguiu sua viagem, sem nos deixar uma cartinha e nem um recado sequer, reprovou o bispo. Dom Joaquim opunha outras restries atitude de padre Antero. No havia dado permisso para que ele fizesse uma traduo oficiosa do inqurito e muito menos que passasse os documentos diretamente s mos dos cardeais do Vaticano, sem a devida tramitao pela diocese. Quem lhe forneceu cpia do processo? No autorizamos ningum a d-la, repreendeu mais uma vez o bispo, acusando-o de ter surrupiado um documento eclesistico. Como repreenso adicional e no menos veemente , criticava Antero por no ter levado em considerao a nova posio de um dos mdicos citados como testemunha no inqurito. Fez Vossa Reverendssima ver Congregao que o doutor Igncio Dias se havia retratado? A concluso de dom Joaquim era uma s: Tem-se feito advocacia de roa com o processo do Juazeiro. Padre Antero no poderia deixar aquelas acusaes sem resposta. To logo retornou ao Brasil, cobrado por dom Joaquim, cuidou de escrever ao bispo, explicando que no havia feito nenhuma consulta formal a Roma sobre o caso do Juazeiro. Mas admitia que estivera em audincia com o secretrio da Congregao do Santo Ofcio, o cardeal Monaco. Este o ouvira com ateno e em seguida o encaminhara ao inquisidor-geral, Vincenzo Leone Sallua. Por exigncia do mesmo cardeal Sallua, entregara a ele uma cpia em italiano do processo e, feito isso, dera por encerrada a visita. O que Antero por certo no podia assumir que realmente seria impossvel providenciar a traduo de um calhamao de quase trezentas pginas sem que a verso italiana j tivesse sido preparada com bastante antecedncia, ainda no Brasil. Antero tentou tambm se justificar pelo fato de ter embarcado para a Europa apesar de o sobrinho j ter retornado ao Brasil: Quem no continuaria a viagem, principalmente um antigo aluno do Colgio Pio Latino-Americano, achando quem lhe fornecesse as despesas necessrias?. Quanto ideia de que estava fazendo papel de advogado de roa a mando do padre Ccero, rebatia, com dose tamanha de indignao que dom Joaquim interpretaria a frase como uma redobrada insolncia. Advocacia de roa me parece afirmar que Deus Nosso Senhor no deixa a Frana para fazer milagres no Brasil, revoltou-se Antero. Pressionado pela embaixada de padre Antero junto aos inquisidores, dom Joaquim precisava providenciar de imediato uma contraofensiva. Agora que a Santa S tomara 111. conhecimento do caso por meios tidos como inconvenientes, era preciso municiar a Inquisio de elementos que colocassem Ccero e seus seguidores em m situao perante os cardeais da Santa S. O caso se tornara uma querela institucional de contornos e consequncias imprevisveis. Aos interlocutores mais prximos, Ccero expressava sua mais aberta confiana de que a tramitao do litgio fosse favorvel ao Juazeiro: Tenho certeza de que Nosso Senhor no deixar que dom Joaquim o vena, dizia, em relao ao processo que corria em Roma. Por isso mesmo, ficou bem transtornado ao tomar conhecimento da Carta Pastoral emitida por dom Joaquim aos fiis no dia 25 de maro de 1893. O documento, que deveria ser lido obrigatoriamente pelos procos de toda a diocese durante a celebrao das missas, demarcava a posio oficial do palcio episcopal em relao aos fatos envolvendo Ccero e Maria de Arajo. A assero que o reverendssimo padre Ccero Romo Batista avanou no Juazeiro, dizendo que Nosso Senhor derramava de novo Seu sangue para operar nova Redeno, contrria f que professamos, enunciava um dos trechos iniciais da Carta Pastoral. Uma mulher reconhecidamente doentia, recebendo a comunho, inquietou-se, agitou-se, fez contraes. Afinal, lanou uma poro de sangue nas mos do padre Ccero. Haver coisa mais natural que isto?, indagava dom Joaquim no documento, para sustentar a tese de que no se estava, sob nenhuma hiptese, diante de um milagre ou prodgio divino. Como reforo para amparar sua argumentao, relembrava que todas as presumveis transformaes da hstia ocorreram aps Maria de Arajo permanecer por algum tempo com a boca fechada, o que dera ensejo a possveis artifcios. Com argcia, dom Joaquim escarafunchava contradies nos testemunhos oficiais de Ccero. Em uma das primeiras correspondncias ao bispo sobre o assunto, o padre dissera-lhe que as transformaes eram de tal modo intensas que ele, Ccero, chegara a sentir enjoos e nuseas por causa do cheiro ativo do sangue. Para dom Joaquim, nada mais denunciador de que o dedo de Deus no estava ali: Seria um ultraje ao Glorioso Redentor da humanidade supor-se que um sangue nauseabundo possa ser o Sangue Divino. De acordo com a Carta Pastoral, portanto, no havia milagre e todo o resto da histria era apenas fruto da ignorncia, da m-f e do fanatismo. Os outros fatos o aparecimento de crucifixos ensanguentados nas mos de algumas mulheres chamadas beatas so artifcios dessas pobres criaturas de imaginao enferma, que talvez no tenham sido inteiramente responsveis pelos disparates que ho praticado, dizia o documento do bispo, deixando entender que havia um autor intelectual por trs daquelas ocorrncias: Ccero. Grosseiramente supersticioso ser, portanto, todo ato religioso que de qualquer modo se refira aos pretensos milagres de Juazeiro, entendeu dom Joaquim. As romarias, por exemplo, estavam oficialmente condenadas. O bispo ressalvava que a crena em milagres era inerente f catlica: A religio crist uma obra essencialmente miraculosa, definiu. Contudo, para discernir entre verdadeiros e falsos milagres, a Igreja seguiria regras austeras e tomaria precaues rigorosas. Por isso cabia to somente aos bispos a responsabilidade de instruir processos nos casos de alegao de milagres para depois envi-los ao julgamento da Santa S. Ao conduzir a causa ao Vaticano revelia do bispado, padre Antero cometera falta grave: Grande imprudncia, se 112. no falta de bom senso, cometeria qualquer particular, mesmo sacerdote, que pretendesse sorrelfa ir a Roma tratar de reconhecimento ou aprovao de novos milagres. O documento condenava ainda o recebimento de esmolas e donativos por parte daqueles que proclamavam milagres ainda no reconhecidos ou aprovados pelo Vaticano, como vinha fazendo Ccero. Dom Joaquim chegou a evocar o disposto em uma bula papal emitida por Urbano VIII ainda em 1625, documento de trao medieval que previa severos corretivos aos eventuais transgressores da norma. As penas previstas na tal bula aos acusados de se beneficiarem da f alheia variavam conforme a gravidade do ato. Nos casos mais leves, previam-se multas pecunirias. Nos mais graves, a prtica de castigos corporais aos recalcitrantes. No Cariri, a leitura obrigatria da Carta Pastoral de dom Joaquim durante as missas provocou reaes extremadas. No municpio de Assar, distante poucas lguas do Juazeiro, o vigrio local, padre Joo Carlos Augusto, cumpriu a obrigao de divulgar oficialmente o documento, mas o fez avisando aos fiis que ia l-lo apenas com os lbios e no com o corao. Aps a leitura, uma das beatas invadiu a sacristia e tentou arrancar os papis das mos do sacerdote, como se investisse contra um texto sado da lavra do prprio demnio: Seu padre, me d esta porqueira que eu quero rasgar!, gritou a beata, enquanto avanava sobre a cpia da Carta Pastoral assinada por dom Joaquim. No Juazeiro, como era de se supor, a divulgao do documento desencadeou uma onda de indignao ainda mais intensa. Jos Marrocos ficou como um co danado, querendo morder a todos, descreveu ao bispo o padre Manuel Flix de Moura, proco de Serra Talhada, em Pernambuco, de passagem pelo Cariri. No caso de Ccero, a reao variou do mais profundo abatimento mais patente insatisfao. Trs dias depois, apareceu o padre Ccero no Crato, triste e abatido, mas disposto a reagir, preveniu Moura a dom Joaquim, acrescentando que as articulaes de Marrocos eram a raiz de todo o mal que irradiaria do Juazeiro. Desconfio que o Jos Marrocos conduzir o padre Ccero ao fundo do abismo. Por outro lado, os partidrios de dom Joaquim situados no alto escalo do clero brasileiro aplaudiram com entusiasmo a Carta Pastoral. Vossa Excelncia cortou a cabea do embuste de Juazeiro, festejou dom Arcoverde, na diocese de So Paulo. O reitor do seminrio de Mariana, em Minas Gerais, padre Joo Chavanat, tambm se congratulou com o bispo do Cear: Em vista da deciso solene que Vossa Reverendssima d sobre os fatos do Juazeiro, a iluso desaparecer, previu. O bispo de Olinda, dom Joo Fernando Santiago Esberard, comparou dom Joaquim a um Hrcules vitorioso. Para dom Joo Fernando, Juazeiro seria uma espcie de Hidra de Lerna, o monstro mitolgico com corpo de drago e vrias cabeas de serpente que se regeneravam depois de decepadas: Vossa Excelncia esmagou a Hidra da superstio, assim no renascero as cabeas malditas. Enquanto o roubo dos paninhos manchados de sangue permanecia um enigma, dom Joaquim anexou a Carta Pastoral ao original do primeiro inqurito conduzido pelos padres Clycrio e Antero, aos relatrios da segunda comisso dirigida por padre Alexandrino e retratao do doutor Igncio Dias. Depois despachou o volume para a Inquisio, em Roma, tendo como fiel portador o bispo do Par, dom Jernimo Tom da Silva, que estava em 113. Fortaleza, cumprindo escala de uma viagem a caminho da Santa S. Dom Jernimo, que pouco depois voltaria com a notcia de sua nomeao como arcebispo de Salvador e de arcebispo primaz do Brasil, entregou a documentao diretamente nas mos do cardeal Raffaele Monaco la Valletta, o secretrio inquisidor. Naquela manh de junho de 1893, no momento em que o cardeal Monaco recebeu os papis remetidos por dom Joaquim, a sorte de Ccero comeou a ser selada por detrs dos grossos muros de pedra e do imenso porto de bronze que abrigam o centro do poder catlico no mundo, o Vaticano. Nas salas de reunio do portentoso Palcio do Santo Ofcio, erguido em 1571 pelo papa Pio V e localizado a poucos passos da praa de So Pedro, os cardeais do temido tribunal da Santa Inquisio debruaram-se sobre o caso de um sacerdote do interior do Brasil, acusado de acobertar o roubo de um sacrrio e de forjar um milagre. No retrato dele pintado por dom Joaquim, Ccero era um padre amalucado e de imaginao exaltada, que pregava uma segunda Redeno, vivia em uma casa entupida de beatas e dizia tomar notas a lpis de animadas conversas com Cristo. Tenho vergonha, quando penso no conceito que em Roma se far do clero do Cear depois da leitura do processo que Vossa Excelncia remeteu para l, escreveu padre Alexandrino a dom Joaquim. 114. 10 A Inquisio profere o veredicto. Qual alucinado ousar discordar do Vaticano? 1893-1895 Mais de mil homens montados a cavalo foram recepcionar o padre Antero na entrada do Juazeiro. Ccero e monsenhor Monteiro seguiam como abre-alas da caravana. A expectativa pela chegada do sacerdote era enorme. Seria a primeira vez que Antero pisaria o solo do Cariri aps o retorno da viagem a Roma. Todos, claro, ansiavam por notcias. Por volta das duas da tarde daquele 3 de julho de 1893, ele finalmente apontou numa curva da estrada. Foi saudado ento por aplausos, gritos de entusiasmo e chapus para o alto. Quando se juntou comitiva, seguiu ao lado de Ccero, conduzindo a montaria em trote compassado na direo do povoado. Juazeiro os aguardava em festa. Duzentos arcos feitos com folhas de palmeira e troncos de carnaba adornavam as ruas. Viva o padre Antero!, dizia uma faixa estendida em um dos arcos enfeitados de guirlandas. Viva o padre Ccero!, lia-se em outra, logo adiante. Eram tantos os fogos de artifcio pipocando no ar que o lugar foi envolvido em uma nuvem de fumaa, como se uma nvoa espessa houvesse descido do cu. Quando padre Antero apeou do cavalo, Ccero fez sinal para que um grupo de moas e meninos vestidos de branco se aproximasse para cumprimentar o visitante. Beijaram-lhe a mo e entregaram-lhe ramalhetes de flores silvestres. Para marcar a data, uma missa solene foi realizada na capela de Nossa Senhora das Dores, celebrada pelo padre Flix Aurlio, proco de Misso Velha, com direito a sermo do prprio Antero, no qual ele trazia a boa-nova: a questo de Juazeiro estava praticamente resolvida, com ganho de causa para os defensores do milagre. A viagem ao Vaticano fora bem-sucedida, ele garantiu. Faltava muito pouco para a Santa S endossar o prodgio da hstia transformada em sangue, prometeu. Oculto em meio multido, um espio observava tudo. Cada minuto da recepo a Antero seria descrito mais tarde, com detalhes, ao padre Alexandrino. Este se encarregou de reproduzir o mesmo relato, por escrito, ao bispo. No fui testemunha ocular do que ocorreu durante a recepo, porque no quis com a minha presena dar importncia a ela. Mandei pessoa de minha confiana observar o que se passou e esta me contou o que vai escrito, explicou a dom Joaquim. Oito padres achavam-se nesse dia no Juazeiro, denunciou. Pessoa daqui do Crato me disse que a recepo foi acintosa Vossa Excelncia. No afirmo isso, mas me parece ter sido assim mesmo. Para que nenhuma outra cerimnia pudesse soar como retaliao diocese, pouco tempo depois dom Joaquim decretou a completa interdio da 115. capela de Nossa Senhora das Dores. Uma portaria datada de 10 de novembro de 1893 proibia todos os padres do bispado de celebrar missa ou qualquer outra festa religiosa no templo. Juazeiro, que j estava sem capelo, ficou sem capela. O que o bispo no sabia pelo menos ainda que o otimismo alardeado por Antero no dia da chegada ao Juazeiro se fazia acompanhar de uma silenciosa articulao de bastidores. Com o devido aval de Ccero, estabeleceu-se um plano tido como infalvel para minar as imposies do palcio episcopal. Uma srie de textos produzidos pela pena talentosa de Jos Marrocos estava sendo enviada em surdina at o Rio de Janeiro, para que de l chegasse s mos de dom Girolamo Maria Gotti, internncio apostlico no Brasil, o equivalente a uma espcie de embaixador do Vaticano no pas. A sigilosa operao foi arquitetada com o intuito de ganhar as simpatias do representante da Santa S, transformando- o em aliado estratgico na tramitao do processo em Roma. Na papelada, Marrocos sustentava a necessidade do envio de uma comisso do Vaticano para averiguar o caso in loco, no Cariri. A principal justificativa era que os fatos extraordinrios do Juazeiro representavam um entrave ao avano do cientificismo e de outros ismos que proliferavam naquele final de sculo XIX pelo mundo: o positivismo dos republicanos, o darwinismo dos evolucionistas, o espiritismo dos kardecistas, o anarquismo e o comunismo do nascente movimento operrio. Marrocos sugeria: Quando por todas as partes se fundam sociedades anarquistas e noutras o pensamento ateu desacata Jesus Sacramentado, a diocese do Cear a nica de todo o mundo que apresenta o mais assombroso dos milagres, o supremo esforo de Deus para a salvao dos homens. Os documentos ao internncio dom Gotti, em forma de memorial, pediam ainda a revogao da punio imposta a Ccero ou, quando menos, a nomeao de um padre isento, enviado tambm diretamente de Roma, para substituir o capelo suspenso. Essa seria uma forma de neutralizar a autoridade do bispo sobre o caso e de reverter a interdio da capela. Marrocos argumentava que a proibio estava provocando srios constrangimentos aos cristos juazeirenses: Crianas esto morrendo sem a uno batismal, os adultos esto vivendo na perdio sem o corretivo salutar dos sacramentos, os justos esto privados da graa que lhes fortifica a f, os moribundos esto sem socorros espirituais, atirados ao perigo e desgraa de uma morte eterna. Coube ao monsenhor Monteiro a tarefa secreta de levar os textos produzidos por Marrocos at o Rio de Janeiro. L, o primeiro depositrio dos papis foi o padre Clycrio. Considerado persona non grata na diocese do Cear por causa dos tumultuosos episdios de Unio, ele passara a responder pela capelania do Hospital de Nossa Senhora da Sade, mais conhecido pelos cariocas como o Hospital da Gamboa. Como estava morando no Rio, Clycrio ficou encarregado de fazer a ponte diplomtica com Petrpolis, onde se localizava a sede oficial da nunciatura. O plano foi executado com milimtrica preciso. Monteiro partiu do Cariri com os papis por terra at Recife e de l pegou um vapor para o Rio de Janeiro. Clycrio no teve dificuldades para conseguir uma audincia com dom Gotti e logo lhe entregou a pasta com os documentos. Contudo, todo aquele esforo de logstica parecia ter 116. sido em vo. Dois meses aps receber o memorial escrito por Marrocos, o internncio no havia dado respostas mais efetivas a respeito do assunto. Uma segunda remessa de textos, enumerando as centenas de graas alcanadas por peregrinos no Juazeiro, foi enviada a dom Gotti, com a inteno de reforar a primeira. Mas, dessa feita, Clycrio encontrou problemas para cumprir a misso. Naquele exato momento, explodira no Rio de Janeiro a Revolta da Armada, a histrica rebelio de oficiais da Marinha contra o governo do presidente da Repblica, Floriano Peixoto. Sem poder sair rua para honrar a incumbncia, Clycrio apressou-se em dar a Ccero a m notcia: Pelo estado de desordem que vai na cidade, no posso ir pessoalmente levar os ditos papis ao internncio. Vou faz-lo por intermdio de um amigo, justificou. Mas aqueles no estavam mesmo sendo dias fceis para a populao do Rio de Janeiro, que se encontrava sob fogo cruzado. Os bairros litorneos haviam sido evacuados, depois de as areias da Guanabara tremerem debaixo dos bombardeios disparados pelos navios da Marinha. A resposta da artilharia em terra dava-se com idntica ferocidade. J h mais de oito dias espero pelo amigo que levar os papis, mas est me parecendo que ele no vir, por causa da revolta do senhor Saldanha da Gama, que atira balas para o corao da cidade, lamentou Clycrio. Escrevo-lhe aos tiros de canho da esquadra revolucionria. Eis o resultado dos governos sem Deus. Outro tipo de guerra, bem mais silenciosa, estava sendo travada no Cear. O palcio episcopal era o centro nervoso das operaes. O desconhecimento de dom Joaquim a respeito das articulaes juazeirenses no se sustentara por muitos dias. Uma carta assinada por ele e enviada ao internncio, com seis pginas e datada de 14 de novembro de 1893, comprova que o bispo do Cear realmente possua informantes privilegiados. Sei que algum tem ocupado o precioso tempo de Vossa Excelncia Reverendssima com a histria de falsos milagres no Juazeiro, capela da freguesia do Crato, desta diocese, dizia dom Joaquim a dom Gotti. Os quatro sacerdotes mistificados [Ccero, Monteiro, Clycrio e Antero] chegaram a receber hstias das mos de beatas, sem saber de onde provinham, ilustrou. Uma das beatas, Maria Caminha, em Unio, fez partculas em forminha de corao, pintou-as de tinta vermelha simulando uma cruz de sangue e deu-as a padre Clycrio, que as recebeu como se tivessem vindo do Cu, reprovou o bispo dom Joaquim. Nada receio, mas meu dever informar a Vossa Excelncia Reverendssima sobre o caso. auxiliar dos tais sacerdotes um senhor de nome Jos Joaquim Marrocos, antigo seminarista expulso no tempo do meu antecessor. No h dvidas de que era padre Alexandrino quem continuava a manter o bispo informado de todos os passos de Ccero e seus aliados no Juazeiro. No mesmo dia em que monsenhor Monteiro seguiu viagem para o Rio de Janeiro, uma correspondncia sigilosa de Alexandrino partiu simultaneamente em direo a Fortaleza, dando notcias a respeito de tudo. Alexandrino construra uma eficiente rede de informaes, muitas vezes baseada em denncias annimas: O capito Raymundo de Alcntara, pessoa saliente desta cidade, ouviu de outra pessoa de todo critrio, mas cujo nome no quis declinar, que monsenhor Monteiro seguiu para o Rio de Janeiro armado de documentos em favor da questo do Juazeiro. O fim principal dessa viagem ver se conseguem do internncio a demisso ou a retirada de Vossa Excelncia dessa diocese. 117. Outra sria revelao logo cairia nos ouvidos do bispo. Mesmo suspenso das ordens, Ccero continuaria a benzer crucifixos e imagens trazidos pelos peregrinos que chegavam em romaria ao Juazeiro: No sei em que teologia se baseia ele para benzer um objeto qualquer, sendo os sacramentos um exerccio das ordens. Parece-me que, estando suspenso, no pode faz-lo. Mais grave ainda, comunicava o vigrio do Crato, que estavam circulando no Cariri milhares de retratos e de medalhinhas de bronze com a efgie de Ccero, mandadas cunhar na Europa. As medalhas, de grande apelo popular, eram vendidas aos romeiros como relquia religiosa. Em algumas delas, na face oposta onde estava gravada a imagem de Ccero, via-se uma representao da beata Maria de Arajo vestida como uma santa, as mos espalmadas como quem derrama graas a seus devotos. Isso um escarro contra a religio!, indignou-se Alexandrino. A traficncia e a especulao, no Juazeiro, chegou ao auge. Enquanto no Brasil seguia a batalha de informaes e contrainformaes, os cardeais inquisidores do Tribunal do Santo Ofcio decidiram a data em que o caso do padre Ccero Romo Batista e da beata Maria de Arajo seria tratado e julgado pela congregao: 4 de abril de 1894. Coincidentemente, menos de duas semanas depois de Ccero ter completado cinquenta anos de idade. Naquele dia, aps vrias discusses preliminares, o assunto foi analisado de forma definitiva na tradicional reunio semanal dos cardeais, s quartas--feiras. Os inquisidores deram seu voto e imediatamente em seguida o Santo Ofcio expediu a deciso na forma de decreto. Roma locuta, causa finita. Roma falou, a causa est terminada. Decreto Na Congregao de quarta-feira, 4 de abril de 1894, discutidos os fatos que sucederam no Juazeiro, diocese de Fortaleza, os Eminentssimos e Reverendssimos padres da Santa Igreja Romana, cardeais inquisidores gerais, pronunciaram, responderam e estaturam o seguinte: Que os pretensos milagres e outras coisas sobrenaturais que se divulgam de Maria de Arajo so prodgios vos e supersticiosos, e implicam gravssima e detestvel irreverncia e mpio abuso Santssima Eucaristia; por isso o Juzo Apostlico os reprova e todos devem reprov-los, e como reprovados e condenados cumprem serem havidos. Mas para dar cabo de tais excessos e a tempo de evitarem maiores males que deles podem nascer, decide-se: 1) Maria de Arajo seja imposta uma grave e longa penitncia, e o quanto antes seja colocada em uma casa piedosa ou religiosa, onde permanea a critrio do bispo, sob a direo de um confessor piedoso, prudente e instrudo sobre os antecedentes dessa mulher. 2) O bispo de Fortaleza e os outros do Brasil probam por todos os meios ao seu alcance o concurso de peregrinos, ou as visitas e acessos dos curiosos a Maria de Arajo e s outras mulheres incursas na culpabilidade da mesma causa. 3) Quaisquer escritos, livros ou opsculos publicados ou por publicarem-se em defesa daquelas pessoas e daqueles fatos, tenham--se por condenados e proibidos, e sejam quanto possveis recolhidos e queimados. 4) Todo e cada um dos sacerdotes, bem conhecidos do bispo, tanto os que trataram de modo execrvel a Santssima Eucaristia como os seus cmplices, sejam obrigados a exerccios espirituais pelo tempo determinado pelo bispo e, de acordo com a gravidade do crime, sejam pelo mesmo punidos gravemente, ficando proibido qualquer relacionamento deles com a citada mulher, nem mesmo por carta. Seja-lhes proibida tambm toda direo das almas, pelo tempo e a maneira que forem determinados pelo bispo. 5) Tanto aos sacerdotes como aos leigos seja-lhes defeso tratar por palavra ou por escrito dos pretensos milagres supracitados. 6) Os panos ensanguentados e as hstias de que se falou, e de todas as outras coisas ou relquias conservadas, o mesmo bispo as tome e as queime. Congregao do Santo Ofcio Cardeal Monaco 118. O Vaticano foi taxativo. Em sntese, Maria de Arajo teria de sair de vez do Juazeiro, as romarias estavam proibidas, todos os escritos a respeito do caso deveriam ser destrudos, Ccero e seus cmplices seriam exemplarmente punidos e, para que no restasse posteridade nenhuma marca do episdio, os paninhos manchados de sangue teriam de ser sumariamente queimados. Uma cpia daquele decreto foi imediatamente enviada ao Brasil, endereada ao internncio dom Gotti. Este, seguindo determinao dos cardeais inquisidores, enviou a ntegra do documento a dom Joaquim, anexando-a a uma carta em que dava orientaes de como as decises deviam ser cumpridas. Era preciso evitar possveis insurreies por parte dos condenados. Por isso, nem tudo poderia ser revelado publicamente. Quod vis taceri, cave ne cuiquam dixeris o que no quiseres que saibam, cuida de no o dizer a ningum. A carta do internncio, que ficaria arquivada na Arquidiocese de Fortaleza, orientava dom Joaquim a sonegar do conhecimento pblico dois itens, o primeiro e o quarto, que constavam do decreto original do Santo Ofcio. O documento no deve ser publicado na ntegra, como jaz. Publique-se retirando o nmero 1 e o 4, determinou dom Gotti ao bispo do Cear. A inteno era evitar clamores em torno do confinamento definitivo de Maria de Arajo em instituio religiosa fora do Juazeiro, como dispunha o item 1. Deve-se proceder nesse assunto com prudncia e cautela especial, levando em conta as circunstncias de tempo e as pessoas. Se Vossa Excelncia pressentir resistncia de Maria de Arajo ou de seus pais e da famlia, de modo a razoavelmente se temerem perturbaes, reclamaes e talvez mesmo invectivas da imprensa, ento no prossiga e faa- nos comunicao minuciosa. Quanto ao item 4, que proibia qualquer contato, mesmo por carta, com Maria de Arajo, a orientao era para que o bispo comunicasse a deciso a Ccero apenas verbalmente, sem deixar determinao escrita que tambm pudesse ser alvo de possveis alvoroos e futuras contestaes nas pginas dos jornais. Dom Gotti sugeria ainda que dom Joaquim elaborasse uma nova carta pastoral aos fiis, na qual deixaria patente a todos os catlicos da diocese a resoluo do Vaticano. O documento redigido pelo bispo, datado de 25 de julho de 1894, lamentava que um padre experiente e piedoso como Ccero, outrora filho obediente da Igreja, mas infelizmente extraviado dela, houvesse abusado da boa--f e da simplicidade do povo mais pobre. A longa carta pastoral acusava Ccero de atrair e de acobertar espertalhes que estavam construindo fortunas pessoais custa da ignorncia alheia: Os depositrios das esmolas dadas ao padre Ccero negociam com o dinheiro e fazem papel de arautos das tais maravilhas. Para mais animarem o comrcio, canonizaram em vida o padre Ccero e Maria de Arajo, e estes se prestaram a fotografar-se. Os respectivos retratos so disputados pelos romeiros, que desejam conservar as efgies de novos santos descobridores de novos mistrios. Dom Joaquim condenava, particularmente, as medalhinhas que circulavam com o rosto de Ccero e da beata. Procurou a ganncia comercial derramar pelos sertes desta e de outras dioceses circunvizinhas ridculas medalhas. Quem sabe quantos inocentes foram iludidos? 119. Ao fim da carta pastoral, o bispo reproduziu o decreto do Vaticano suprimindo os itens 1 e 4, conforme recomendara dom Gotti e sentenciou: A ltima palavra j foi solenemente proferida. No h mais lugar para evasivas; no h mais apelao. A carta do bispo aos fiis encerrava com trs determinaes extensivas a todos os cidados, homens e mulheres, da diocese. Primeiro, o bispo solicitava que no fossem mais feitas romarias ao Juazeiro e informava que todos os votos e promessas na inteno das graas de Ccero ou de Maria de Arajo eram considerados oficialmente reprovados pela Igreja, portanto tidos como nulos e supersticiosos. Incorreria em grave pecado quem ousasse pensar o contrrio. Depois, exigia que qualquer pessoa que guardasse em casa alguma espcie de escrito, fosse impresso ou manuscrito, a respeito do alegado milagre tratasse imediatamente de queim-lo, conforme determinara o Vaticano. Por fim, estabelecia que quem tivesse em seu poder os panos ensanguentados roubados da Matriz do Crato os devolvesse no prazo de trinta dias, impreterivelmente. Se no o fizesse, estava sujeito pena de excomunho. Ao mesmo tempo, dom Joaquim convocou Ccero a Fortaleza, para que ele fosse oficialmente notificado de todos os termos do decreto do Santo Ofcio. Aproveitando a ocasio em que Ccero estaria fora do Juazeiro, o bispo confiou a seu fiel informante no Cariri, padre Alexandrino, a melindrosa tarefa de simultaneamente mandar a beata para longe. O bispo redigiu orientaes meticulosas nesse sentido, que deveriam ser seguidas com exatido, tambm a fim de evitar comoes por parte de peregrinos e moradores. Pelas ordens do bispo, Alexandrino deveria tentar convencer Maria de Arajo, primeiro com prudncia e suavidade, a se recolher casa de caridade de Barbalha, onde deveria permanecer por seis meses. Ao longo desse perodo, ela tomaria como conselheiro espiritual, em vez de Ccero, o padre Manoel Cndido dos Santos, o secretrio da segunda comisso de inqurito eclesistico. Caso Maria de Arajo opusesse alguma resistncia, Alexandrino deveria conceder a ela quatro dias para que refletisse sobre a necessidade de obedecer ordem do Vaticano. Findo o prazo, se a mulher permanecesse inflexvel, Alexandrino deveria intim-la a abandonar o hbito religioso de beata, avisando-a de que ficaria proibida de receber os sacramentos a partir de ento, por tempo indeterminado. Todos os padres da diocese seriam advertidos de que ela no poderia mais, por exemplo, comungar e se confessar enquanto durasse a proibio. Dom Joaquim queria mais de Alexandrino. Ele deveria chamar em sua presena tambm todas as beatas do Juazeiro que haviam prestado depoimento no inqurito conduzido pelos padres Antero e Clycrio. Diria ento a elas que, caso resolvessem confessar que haviam mentido durante os interrogatrios, estariam plenamente perdoadas. O bispo, de acordo com o que lhe facultava o Vaticano, dava a elas aquela ltima chance. Se assumissem que haviam armado uma farsa, poderiam continuar levando a vida normalmente, depois de pagar penitncias, embora no mais lhes fosse permitido envergar o hbito religioso de beatas. Caso insistissem em manter a tese de milagre, ficariam proibidas de receber sacramentos at que decidissem confessar que haviam participado de um embuste. Do mesmo modo, de acordo com as ordens do bispo, Alexandrino deveria comunicar s beatas da casa de caridade do Crato que elas tambm tinham a derradeira oportunidade de escapar condenao. Se assumissem que haviam sido cmplices de uma mentira e que o aparecimento de hstias 120. ensanguentadas que se materializavam no ar, por exemplo, no passava de um truque barato , elas poderiam permanecer ali, na casa de caridade, onde estavam havia anos. Do contrrio, Alexandrino tinha autorizao para enxot-las. As determinaes de dom Joaquim eram claras: Em caso de se recusarem a revelar suas faltas, o senhor ordenar superiora da casa que expulse imediatamente do estabelecimento aquelas impostoras, escrevera o bispo. Enquanto Alexandrino se preparava para cumprir tais deliberaes, Ccero obedeceu convocao e seguiu em direo a Fortaleza, acompanhado de monsenhor Monteiro, que tambm recebera intimao no mesmo sentido. Antes de partir, Ccero teria feito comentrios pouco prudentes a respeito do caso, segundo denncias de outro informante do palcio episcopal, o padre Quintino Rodrigues aquele mesmo que defendera o milagre e depois mudara de lado, acusando Maria de Arajo de mentirosa, sendo nomeado ento reitor do seminrio do Crato to logo este foi reaberto, em 1893, conforme lhe prometera o bispo. De acordo com Quintino, Ccero orientara os fiis a no deixarem o Juazeiro para se confessarem nas parquias vizinhas enquanto ele estivesse fora, pois acreditava que a capela do povoado em breve seria reaberta. Ainda conforme o padre Quintino, Ccero sustentava que a deciso do Vaticano poderia ser revista, j que fora decidida pela Congregao do Santo Ofcio e no pelo papa, que era o verdadeiro representante de Deus na terra. O bispo foi imediatamente comunicado de tal ocorrncia. O povo ignorante, ouvindo dizer que no foi o Santo Padre quem falou, h de suspeitar que a deciso seja coisa sem valor, inconformou-se Quintino. Para muita gente, a ltima palavra ser mesmo a do padre Ccero, rematou, apreensivo. Alexandrino, por seu turno, avisou a dom Joaquim que continuava grande a afluncia de romeiros ao Juazeiro, apesar da proibio imposta pelo decreto de Roma e pela carta pastoral. Segundo Alexandrino, quando eram advertidos de que contrariavam ordens do papa, os peregrinos apenas retrucavam: Nosso papa o padre Ccero. Aquela alma queria reza. Anglica Vicncia no gostou nada de ver padre Alexandrino ali, na casa do irmo dela, Ccero, a pretexto de fazer visita de cortesia a dona Quin. Ainda mais que Ccero estava ausente do Juazeiro, de viagem para Fortaleza, por ordem do bispo. Para Anglica, Alexandrino era o capeta em forma de gente. No era bem-vindo naquela morada. O vigrio tentou fazer-lhe ver que no adiantava tanta rebeldia, tanta desfeita. No havia mais como fugir deciso do Vaticano. Estava tudo acabado. O irmo dela voltaria de Fortaleza derrotado, devidamente punido pelo bispo, tendo de se conformar com as sbias determinaes emanadas da Santa S. A mulher no se convenceu: Pois ele vai voltar nem que seja sem batina. Meu irmo no criminoso, no matou ningum para estar sofrendo tanto. Alexandrino rebateu. Se Anglica continuasse a insistir em defender fatos condenados pelo Vaticano, ela ficaria impedida dos sacramentos, no poderia mais se confessar, comungar, nada. A mulher no se importou e continuou a dizer muitas asneiras, comunicou Alexandrino ao bispo, com o detalhismo de sempre. Retirei-me para no ouvir tantos disparates daquela senhora. Mal Alexandrino saiu, Anglica apresentou uma crise nervosa e caiu de cama, com suspeita de ter sofrido um ataque do corao. O episdio deixou Juazeiro 121. em p de guerra. Os nimos ficaram ainda mais acirrados porque Alexandrino saiu dali e foi direto residncia onde se encontrava a beata Maria de Arajo. Durante a viagem de Ccero, ela estava sob os cuidados de parentes, uma vez que no podia mais compartilhar a companhia da me, que morrera meses antes, em janeiro. Dona Josefa partira deste mundo levando o desgosto de ver a filha acusada de heresia e de professar falsos milagres. Na casa vizinha capela de Nossa Senhora das Dores onde a beata estava instalada, Alexandrino intimou-a a sair do Juazeiro o quanto antes. Deveria ir morar, a partir de ento, na casa de caridade de Barbalha. L no lhe faltaria nada. Padre Manoel Cndido seria seu confessor. Ele quem cuidaria dela. Maria de Arajo balbuciou algumas palavras e deu a entender que consultaria a famlia a respeito do assunto. Exatamente como sugerira o bispo, Alexandrino ofereceu-lhe quatro dias para dar a resposta definitiva. Nem mais, nem menos. Voltaria ali transcorrido esse prazo para saber se ela criara juzo e decidira obedecer. No dia 16 de setembro, exatos quatro dias depois, o vigrio do Crato retornou ao Juazeiro. Logo na chegada ao povoado, foi abordado por dois irmos da beata. Eles disseram que Maria de Arajo estava prostrada em uma rede, muito doente, e nessas condies no podia ser mandada pela estrada at Barbalha. Pediram pelo menos duas semanas de repouso para a irm. At o fim daquele ms, ela talvez encontrasse foras suficientes para enfrentar a viagem. Os irmos da beata provavelmente ganhavam tempo, espera de que o retorno de Ccero trouxesse novos desdobramentos para o litgio. De todo modo, Alexandrino foi at o quarto da beata, convenceu-se de que ela estava realmente muito mal e decidiu que podia esperar mais um pouco para remov-la do Juazeiro. Dei o prazo pedido por eles, visto o estado mrbido da beata, supondo que Vossa Excelncia aprovaria meu procedimento, desculpou-se mais tarde ao bispo. Mas, naquela mesma manh, Alexandrino teria de realizar uma das etapas mais difceis de sua misso. s nove e meia, ele autorizou a abertura das portas da capela de modo extraordinrio e deixou que a luz entrasse sobre o altar, pela primeira vez em muitos dias. Depois, mandou chamar o povo do lugar, pois tinha uma comunicao a fazer. Quando a igreja estava relativamente cheia, ele subiu ao plpito, desenrolou um calhamao de papel e anunciou que iria ler a carta pastoral escrita por dom Joaquim. Todos os cristos tinham a obrigao de ouvi-lo, avisou. O texto original era longo e levou cerca de uma hora e meia para ser lido na ntegra. As palavras escritas pelo bispo, como era de esperar, desagradaram a audincia. Durante alguns trechos, beatas replicaram, s vezes com murmrios, s vezes de forma perfeitamente audvel: mentira! Houve gente que levantou e saiu ao meio da leitura, indignada com o que ouvia. mentira! mentira! mentira!, os protestos ficaram cada vez mais intensos. Alexandrino terminou a leitura apressadamente, fez um sermo convocando todos obedincia e rezou a Deus, pedindo que ele prprio escapasse inclume daquela rdua tarefa. No dia seguinte, quando se preparava para retornar ao Crato, Alexandrino foi procurado mais uma vez por um irmo de Maria de Arajo. O homem pedia que o vigrio fosse at a casa em que estava a beata, pois o estado de sade dela se agravara. L chegando, encontrei a casa repleta de mulheres, talvez umas duzentas, assustou-se Alexandrino, que naquela hora 122. teve a certeza de haver cado em uma cilada. O terreiro e as imediaes estavam ocupados por uma massa compacta de uns quinhentos e tantos homens, entre os quais alguns armados, contou ao bispo. Apesar disso, entrei com dificuldade por entre as mulheres e fui ao quarto da beata, onde a encontrei doente. Intimei-a a me dar a resposta definitiva se ia ou no para a casa de caridade de Barbalha, mas no pude ouvir mais nada. Os irmos de Maria de Arajo teriam interrompido Alexandrino e gritado que a beata no sairia daquela casa, nem viva nem morta: Ela no vai. Ela no vai porque no queremos. Alexandrino chispou dali. Saiu do quarto, abriu a porta da casa, cruzou a multido com passo acelerado e montou a cavalo. Quando estava a pequena distncia, ouvi vivas no sei a quem; talvez ao padre Ccero e Maria de Arajo. Soube depois que me deram assobios e me chamaram de vigrio p oco e outros desaforos. Segui desapontado para a cidade, por causa da vaia que me deram. De acordo com o que Alexandrino descreveu a dom Joaquim, Juazeiro estava em estado de aberta conflagrao. Haviam lhe dito por l que, caso a capela permanecesse interditada, os juazeirenses arrebentariam as portas e ningum mais os impediria de entrar ali para rezar. O vigrio do Crato acreditava que no poderia mais voltar ao povoado pois estava exposto a um risco real de morte. No sei como continuarei a viver aqui, se as coisas continuarem assim. tal o meu desassossego de esprito que j me veio a lembrana de pedir demisso, admitiu. A verso que os partidrios de Ccero Romo Batista dariam do episdio seria frontalmente contrria s notcias que Alexandrino enviava a dom Joaquim. Uma carta remetida por Ccero a padre Antero informava sobre possveis excessos por parte do vigrio do Crato. Realmente, quando voltei, achei o povo em tanta agitao e consternao que eu no sei onde iria parar aquela coisa, reconheceu Ccero. Mas a revolta do povo teria se dado, no seu entender, porque Alexandrino ameaara pedir o auxlio de soldados para arrancar Maria de Arajo do leito. Dissera que iria retir-la do Juazeiro nem que fosse debaixo de escolta policial. Ele gritava que havia de arrastar aquela cabrita ou por gosto ou por fora, alegou Ccero. Alexandrino, ao contrrio do que expusera ao bispo, teria chegado ao Juazeiro com dois homens armados, um de faca e garrucha, outro de faco e cacete: Ele falou tanta imprudncia que algumas mulheres com medo saltaram pela janela. Ningum teria armado nenhuma cilada ao vigrio do Crato. Tambm no haveria uma multido fora da casa, pronta para atac-lo. Apenas trs homens haviam impedido que Alexandrino continuasse a ameaar a beata enferma. Ele saiu espalhando e dizendo pelo Crato que bem quinhentos homens armados lhe fizeram resistncia e desacato, e que talvez o quisessem matar, criticava Ccero. Independentemente de qual das duas verses era a mais prxima da verdade, uma coisa fato: no dia 25 de setembro, antes do final do ms e conforme o combinado com Alexandrino, Maria de Arajo foi mandada por Ccero para a casa de caridade de Barbalha. Como no podia montar na garupa de um cavalo nem ser submetida s trepidaes de uma carroa, foi levada deitada em uma rede amarrada em um pedao de pau, transportada por dois homens, um de cada lado. Estava muito doente. Muitos no acreditavam que ela chegasse viva ao 123. destino. Em Fortaleza, dom Joaquim revelou a Ccero e a monsenhor Monteiro a existncia dos itens 1 e 4 do decreto papal, sonegado opinio pblica. Depois de beijarem o anel do bispo, os dois ficaram sabendo que eles e todos os outros padres que haviam defendido o milagre estavam proibidos de manter qualquer espcie de contato com Maria de Arajo dali por diante. Dom Joaquim indagou se tinham cincia da gravidade do documento emitido pelo Santo Ofcio e se estavam dispostos a obedecer inteiramente s decises do Vaticano. Monteiro respondeu que sim. Ccero, porm, teria feito uma afirmao que irritou o bispo: A Inquisio no falhou no caso de Galileu? Pode estar falhando agora, tambm, disse ele, tomando em sua defesa o erro histrico do Santo Ofcio, que havia condenado no sculo XVII o clebre fsico italiano por ter afirmado que a Terra gira em torno do Sol, e no o contrrio, como at ento acreditava a Igreja. Alm disso, a deciso no foi assinada pelo papa, e sim por um cardeal, insistiu Ccero, segundo relato de dom Joaquim ao internncio. S a palavra do papa infalvel, completou, lembrando que a infalibilidade papal, decretada em 1870 pelo Conclio do Vaticano, no era extensiva aos cardeais, mesmo os inquisidores. Aborrecido, o bispo teve de explicar a Ccero que o papa sempre era cientificado das decises do Santo Ofcio, cabendo a ele a palavra final em todos os casos, antes de os decretos serem selados, expedidos e divulgados. O fato de o documento ter sido assinado por um cardeal no significava que o papa no tinha cincia ou no estava de acordo com o contedo dele. Aquele era um decreto oficial do Vaticano, contra o qual no cabia recurso nem apelao, lembrou. Ccero, a essa altura, entendeu que no podia desafiar o bispo em um bate-boca interminvel sem golpear a hierarquia. No tinha alternativa seno afirmar que se submetia ao decreto, embora sustentasse que o fazia com a conscincia intranquila. Dom Joaquim ficou preocupado com tamanha renitncia. No confio muito no padre Ccero. Temo que ele levante ainda novas questes, mas nada poder fazer porque perdeu a fora moral, confidenciou o bispo do Cear a dom Gotti. Dom Joaquim apostava na desmoralizao pblica de Ccero aps o pronunciamento do Santo Ofcio. Previa que, fora das fronteiras do Cariri, ele logo seria visto como uma figura bizarra, alvo fcil do desprezo dos mais esclarecidos e do deboche dos mais crticos. No toa, o bispo classificava os episdios do Juazeiro de triste comdia. Bem a propsito, em Pernambuco, o jornal satrico Lanterna Mgica, cujos caricaturistas no poupavam nenhuma figura pblica do escrnio de seu trao, dedicou naqueles dias uma pgina inteira a uma charge ferina contra o padre. Sob o ttulo de Milagres do Juazeiro, via-se um Ccero sorridente, braos abertos, cercado de dezenas de mulheres, presumivelmente beatas, todas grvidas. Ovelhas amojadas, lia-se ao p da ilustrao, publicada na edio de 30 de setembro de 1894 daquele jornal pernambucano. Amojada, na linguagem popular, era a vaca ou outra fmea qualquer de animal que ficava prenhe depois de coberta por um garanho. A insinuao era malvola. Ccero ficou transtornado. Para destruir a verdade e a sinceridade dos fatos, para desmoralizar as pessoas, no se poupou nem se poupa nada, indignou-se em carta ao padre Antero. 124. Outras estocadas ainda estavam por vir. Cinco dias aps o encontro com Ccero no palcio episcopal, dom Joaquim baixou uma portaria que proibia os padres envolvidos na questo do Juazeiro incluindo Ccero, Monteiro e Antero de manter qualquer espcie de comunicao, por palavra, por escrito ou por interposta pessoa, no s com Maria de Arajo, mas com toda e qualquer beata considerada cmplice da histria. A portaria determinava tambm que os sacerdotes estavam proibidos de celebrar missa ou ministrar sacramentos em qualquer lugar do Juazeiro, mesmo fora das dependncias da capela interditada de Nossa Senhora das Dores. Exigia ainda que Ccero devolvesse a seus respectivos donos todas as esmolas e donativos recebidos dos peregrinos. Como seria impossvel localizar cada ofertante entre centenas de milhares, o bispo ordenava que cada tosto fosse distribudo aos pobres e a obras de caridade. O decreto do Vaticano e a ao determinada do bispo anularam a resistncia de muitos. Pressionadas, uma a uma, as beatas da casa de caridade do Crato fizeram confisses a Alexandrino que deixaram Ccero em situao delicada. Maria Joana de Jesus, por exemplo, que antes dissera em testemunho aos padres Clycrio e Antero ser capaz de falar com Cristo e de ver anjos resplandecentes descendo do Paraso, retratou-se. Nunca tivera vises celestes, jamais conversara com Jesus, jamais o Messias havia lhe dado um clice de ouro cheio de sangue para beber, afirmou. Mentira, e estava profundamente arrependida. Pedia perdo e suplicava para permanecer na casa de caridade. Antnia Maria da Conceio, aquela que deixara Clycrio e Antero emocionados diante da viso de hstias ensanguentadas que apareciam do nada, tambm desmentiu tudo. O episdio no passara de um truque previamente preparado. Ela retirara hstias da capela da casa, molhara-as com sangue e as guardara nos bolsos, para iludir os comissrios do bispo. Dias depois, Antnia tentou modificar mais uma vez sua verso. Alegou que se vira forada a negar o prodgio por medo de ter de abandonar a casa de caridade. Mantinha, portanto, o que havia dito no primeiro inqurito. Alexandrino explodiu em um acesso de fria, segundo ele prprio relataria a dom Joaquim. Tu no mereces f, tu s uma perjura, indigna de estar nesta casa, onde sempre te comportaste mal. Deponha o hbito religioso e saia imediatamente daqui, e fique sabendo que ests privada dos sacramentos, disse ele beata, expulsando-a do lugar. Com medo de receber o mesmo tratamento, a beata Raimunda de Jesus disse ter flagrado certa vez a colega Maria das Dores cortar os dedos de propsito para derramar o prprio sangue sobre um crucifixo de bronze e, assim, simular que era a imagem de Cristo que sangrava. No s as beatas sentiram o peso do decreto do Vaticano. Aos poucos, Ccero viu-se praticamente sozinho entre seus pares. Os colegas que antes lhe prestavam solidariedade estavam se vendo obrigados a emitir desmentidos oficiais por escrito, por temor de serem excomungados. O primeiro a pedir perdo Igreja foi o padre Laurindo Duettes, proco de Triunfo, um dos iniciais e mais ardorosos partidrios do milagre, que tornou pblica sua retratao pelo jornal Era Nova, de Recife, no dia 24 de setembro daquele ano de 1894. Menos de cinco meses depois, em fevereiro de 1895, foi a vez de monsenhor Monteiro 125. retratar-se: Tenho a honra de mandar a minha palavra de obedincia ao decreto da Sagrada Congregao do Santo Ofcio que condenou os fatos do Juazeiro, escreveu ele em carta ao bispo, que a fez publicar no jornal A Verdade, de Fortaleza. O antigo reitor do seminrio do Crato, que arregimentara a primeira romaria, pedia clemncia ao bispo. No mesmo ms, padre Clycrio, o presidente da comisso de inqurito que endossara a possvel sobrenaturalidade dos fenmenos do Juazeiro, seguiu-lhe o exemplo: Deposito em mos de Vossa Excelncia Reverendssima, o senhor bispo diocesano, o ato de minha adeso e submisso ao decreto da Santa Igreja, e ao mesmo tempo o de minha retratao. Padre Flix Aurlio, que havia celebrado a missa na recepo a Antero, foi ainda mais longe. Disse ao bispo que nunca teria realmente acreditado em certos prodgios: Quantas vezes disse aqui ao padre Monteiro que a beata Maria das Dores era uma cabrocha velhaca, mentirosa e at estpida, por nem saber fingir o que fazia?. Assim, a cpula que sustentara a sobrenaturalidade dos episdios do Juazeiro estava rendida. Faltava, todavia, que se dobrassem os padres Antero e Ccero. ltimos resistentes, os dois sacerdotes trocavam cartas desconsoladas: Meu amigo, morro de aflio e de angstia. Gastei toda a minha vida, desde que me ordenei, somente procurando a salvao dos outros sem me importar com a minha, e agora vejo uma coisa dessas. No sei dizer o que sofro, lastimava-se o padre Ccero. Pegaram uma pobre mocinha aterrada, e ela sem saber o que dizia afirmou horrores, cobrindo tudo de infmias, dizendo que me dava sangue de pinto para eu botar nas hstias, alm de outros absurdos. Restava a Ccero o consolo de que as beatas que moravam sob seu teto no Juazeiro, mesmo diante da presso cerrada de Alexandrino, tambm resistiam. Intimada pelo padre Manoel Cndido a revelar que armara um espetculo grotesco, a quase moribunda Maria de Arajo continuava a repetir as mesmas frases de sempre: Deus onipotente. Deus pode fazer tudo o que quiser. O padre Manoel Cndido irritava-se. Com severidade, indagou como seria ento a tal imagem de Deus que a beata dizia ter visto vrias vezes: Deus usa batina? A batina dele preta? branca? Ele tem rosto, tem mo?, inquiria. Maria de Arajo mantinha-se firme. Deus teria mo, sim. Jesus Cristo tambm. Pois foi com a mo que Ele tirou partculas sangrentas do corao e oferecera a ela. Manoel Cndido irritava-se ainda mais. Explicava mulher que Deus no tinha um corpo, que Ele era puro esprito, que no era um ser material, com forma de homem. Maria de Arajo balanava a cabea e lhe negava ouvidos: Eu vi a mo dele. Eu sei que vi a mo de Deus Nosso Senhor, respondia. Parecia intil insistir. Informado das obstinaes de Maria de Arajo, o bispo entendeu que somente um desmentido pblico de Ccero poria fim ao assunto. Se o padre voltasse atrs, as beatas tambm o fariam. Mas, ao contrrio disso, dom Joaquim continuava a receber apenas notcias preocupantes do Juazeiro. Os moradores do povoado, fiis ao seu Padim Cio, recusavam-se a participar de celebraes religiosas no Crato, boicotando a misso evanglica de Alexandrino. Este impusera como obrigao aos que queriam se confessar, comungar, casar ou batizar filhos a resposta a uma pergunta bsica: Voc condena e reprova os fatos do Juazeiro, que j foram condenados e reprovados pela Igreja?. Somente os que respondiam sim indagao podiam receber os sacramentos. Porm, 126. os que assim procediam, se ficavam de bem com o vigrio, caam em desgraa junto aos demais juazeirenses. Bem poucas pessoas do Juazeiro tm vindo se confessar aqui no Crato, e apenas chegam l de volta, sofrem vaias do povo, deplorava Alexandrino. Dom Joaquim exigiu que Ccero, a exemplo dos demais colegas que j haviam capitulado, fizesse uma declarao explcita de arrependimento, atestando por escrito sua completa submisso s decises do Vaticano. Sabia que ele continuava a sustentar a tese do milagre e a alimentar a esperana de uma possvel apelao a Roma. Esperamos que Vossa Reverendssima, como sacerdote catlico, apostlico, romano, ser solcito em reparar por esse modo os muitos erros e desvios que praticou na abominvel histria do Juazeiro, a fim de que no paire qualquer dvida sobre sua f e sinceridade. Acuado, Ccero escreveu a declarao formal que pedia dom Joaquim. Mas o fez grafada nos seguintes termos: Cumpro o dever de certificar a Vossa Excelncia que inexato que depois de haver declarado na prpria presena de Vossa Excelncia Reverendssima que obedecia inteiramente deciso e decretos da Suprema Congregao sobre os fatos do Juazeiro, eu os tenha sustentado e defendido depois disso. Pelo contrrio, tenho guardado o mais completo silncio, ainda que em detrimento da minha conscincia eu no possa negar a verdade e sinceridade do que fui testemunha... Eu declarei e hoje torno a declarar que como sacerdote catlico e filho submisso da Santa Igreja, a quem obedeo como a Deus, me submetia e me submeto sem restrio nem reserva a toda deciso e decreto da Suprema Congregao. Dom Joaquim no ficou satisfeito com o tom da declarao. Aquele trecho sobre guardar silncio, ainda que em detrimento do que ditava a conscincia, pareceu-lhe despropositado. A frase deixava implcito que Ccero continuava a sustentar, no ntimo, a crena no milagre, ainda que prometesse no falar mais no assunto publicamente. No era isso que o bispo e o decreto exigiam. Ccero teria de reconhecer que os fatos do Juazeiro eram prodgios vos e supersticiosos, como julgara o Santo Ofcio. A ambiguidade do documento exacerbou as impacincias de dom Joaquim: Padre Ccero, Vossa Reverendssima afirma, diz e desdiz ao mesmo tempo, de sorte que no se pode entender qual seja seu real sentimento sobre o assunto. Na opinio do bispo, desde a poca das primeiras manifestaes do alegado milagre, a postura de Ccero sempre fora marcada pela mais escorregadia dissimulao. Era hora de colocar as coisas em termos claros. Para que no houvesse mais subentendidos dali por diante, dom Joaquim tratou de ele prprio reescrever a declarao, riscando os trechos que julgou inadequados. Depois, mandou o texto para que Ccero o passasse a limpo com sua letra e o assinasse novamente. Ccero, contudo, recusou-se a faz-lo. No tome por desobedincia eu no ter assinado a declarao que me enviou, desculpou-se. A minha obedincia completa e sem restrio, como j disse na primeira declarao que remeti para ser publicada. Mas como Vossa Excelncia Reverendssima ainda achou que no o satisfaz, peo humildemente que me permita ir pessoalmente a Roma depor aos ps do Santo Padre. A carta ao bispo era datada de 16 de dezembro de 1894. Dez dias depois, logo aps o Natal daquele ano, Ccero redigiu uma correspondncia ao Vaticano. Na face do envelope, lia-se a seguinte informao: Aos Eminentssimos Reverendssimos Senhores Cardeais da Suprema Congregao da Santa Inquisio Romana. No corpo da carta, Ccero pedia uma 127. audincia com os inquisidores. A resposta do Santo Ofcio veio na forma de um telegrama lacnico. Eram apenas duas palavras, escritas em latim: Acquiescat decisis. Aceite o que foi decidido. Qualquer outro cristo, em seu pleno juzo, talvez houvesse recuado uma vez chegado a tal ponto. Afinal, era a Inquisio que lhe ordenava ficar quieto. Mas Ccero ousou seguir adiante. 128. 11 Cinco cabras armados tentam matar o padre rebelde. Devotos clamam pelo Anjo da Vingana 1895-1897 Eram sete horas da noite quando cinco sujeitos mal-encarados se esgueiraram at prximo ao local onde Ccero falava aos romei-ros. O grupo foi abrindo caminho fora, serpenteando entre as centenas de peregrinos, acotovelando-se em meio multido. As pessoas que se esquivavam para dar-lhes passagem no puderam deixar de reparar no cabo da peixeira que cada um daqueles homens levava presa cintura. No pareciam estar com boas intenes, logo se adivinhava. Quando j haviam vencido a maior parte da aglomerao e se encontravam a poucos passos de Ccero, esbarraram no grupo coeso de beatas vestidas de negro. Os cinco tentaram seguir adiante, mas as beatas no arredaram p. Como sempre, elas ficavam bem prximas ao lder espiritual, para no perder uma s palavra do que ele dizia. Com isso, formavam uma espcie de providencial escudo humano em torno de Ccero. Os homens carrancudos, porm, continuaram a forar passagem. Houve um princpio de tumulto e, no empurra-empurra, ouviu-se um grito de dor, partido da boca de mulher. Viu-se o brilho da lmina da peixeira pontiaguda e o sangue derramado no cho. Uma beata estava ferida. De imediato, abriu-se uma clareira no meio daquele mar de gente: Querem matar o Padim Cio!, gritou-se. Os cinco homens desembainharam as facas e foi um deus nos acuda. Enquanto algumas beatas caam feridas, outras protegiam Ccero, escoltando-o com seu prprio corpo, retirando- o ileso do meio do redemoinho que se formou naquele instante. Da mesma forma que a clareira humana se abrira segundos antes, o turbilho se fechou sobre os agressores. Cercados por todos os lados, eles empunharam as armas em direo a quem se interpunha na frente e foram abrindo rotas de fuga a golpes de peixeira, desferidos a esmo no ar. Quatro deles conseguiram escapar a muito custo, debaixo de sopapos e pernadas. Um ltimo foi agarrado e prontamente desarmado, tornando-se alvo de safanes e pancadas. Levado delegacia, escapou por pouco de ser linchado. Nunca se provou nada sobre quem organizara o atentado a Ccero. Mas os romeiros e os nativos de Juazeiro foram unnimes em imaginar um suposto culpado por trs do incidente: o vigrio do Crato, padre Alexandrino. De imediato, acusaram-no de ter idealizado o plano para assassinar Ccero. Como os espritos j estavam excitados desde o dia da leitura da segunda carta pastoral na capela de Nossa Senhora das Dores, a situao tornou-se ainda mais instvel. Falava-se que o caso no ficaria sem resposta. Quem faz o mal, espere outro tal, 129. comentava-se. Se Alexandrino havia mandado cinco cabras para tentar matar o padre, no seria difcil organizar um pequeno exrcito, de 5 mil carabinas, para dar o troco e atacar o Crato inteiro: a desforra seria multiplicada por mil. Chegara a hora de invocar o Anjo da Vingana, do qual falava o livro bblico dos Provrbios. Padre Ccero, porm, conclamava o povo a serenar a sede de revanche. Um possvel ataque cidade s iria tornar as circunstncias ainda mais difceis do que j estavam. No deem gosto a Satans. A melhor arma contra a rixa o estandarte da f, a cruz que faz esmorecer os diabos dos infernos, costumava pregar Ccero. Enquanto isso, no Crato, padre Alexandrino ficou indignado quando soube da acusao de que fora ele quem arquitetara o plano sinistro para dar cabo da vida de Ccero. Logo escreveu ao bispo para solicitar que dom Joaquim comunicasse as autoridades sobre o estado de insurreio no Cariri, requerendo o envio urgente de tropas oficiais e, ao mesmo tempo, a decretao de uma interveno civil na regio. O esprito da revolta, semeado pelas atitudes de Ccero, estava alastrado por todo o Juazeiro, alegava. O povoado, que agora possua perto de 20 mil moradores, incluindo a populao flutuante dos romeiros, transformara-se em paiol de plvora, prevenia Alexandrino. Dom Joaquim no pediu reforos, mas sabia que o atentado contra Ccero, ocorrido em 1o de novembro de 1895, era apenas o desaguadouro de uma srie de insatisfaes que se acumulavam desde o incio daquele ltimo ano. Segundo lhe dizia o vigrio do Crato, reinava no lugarejo vizinho a completa balbrdia. O fluxo de romeiros teria transformado o pequeno arrabalde em uma babilnia sertaneja, repleta de celerados, moribundos e famintos. Ali se reuniam, sob a sombra da batina de Ccero, todos os deserdados da sorte. A soma de misria, ignorncia e fanatismo, previa Alexandrino, no chegaria a bom saldo. Aterrorizado, assim descreveu o quadro ao bispo: O padre Ccero continua, como dantes, a fazer pregaes ao povo e a receber ofertas dos papalvos que em no pequena escala vo chegando todos os dias no Juazeiro, onde mais da metade da populao sofre horrorosa fome, que se denuncia pela magreza, palidez do rosto e opilao das pernas. Alguns dos famintos, ou antes muitos deles, tm se espalhado pelas cidades e centros mais populosos deste Cariri, que percorrem maltrapilhos, esmolando o po da caridade. E apesar de tudo isso, morrem de inanio dezenas de romeiros por semana. Eis o atual estado do Juazeiro. Alexandrino tinha um longo rosrio de queixas a desfiar. Em maro daquele ano, a beata Maria de Arajo contrariara as ordens do Vaticano e abandonara a casa de caridade de Barbalha. Ele ainda tentara demov-la daquele ato de indisciplina que julgava insano, mas a mulher no se convencera do perigo que corria em persistir em tamanha desobedincia. Se vou ser excomungada mesmo, s por defender o milagre de Nosso Senhor Jesus, por que querem que eu continue nesta casa? Que querem mais de mim?, teria perguntado Maria de Arajo. No tenho mais nada que fazer aqui, disse, antes de juntar seus trastes e ir embora de volta para o Juazeiro, acompanhada dos irmos que foram apanh-la em Barbalha. A verdadeira fonte de toda a rebelio era Ccero, diagnosticava o vigrio do Crato. Com sua birra e capricho, ao se recusar a assinar a retratao e a submisso s determinaes do Santo Ofcio, o colega dera mau exemplo, contagiara no s Maria de Arajo, mas a populao inteira do lugar. O povo do Juazeiro, quase em sua totalidade, no acredita na deciso da Sagrada Congregao, e diz que s reprova e condena os fatos que ali ocorreram 130. se o padre Ccero mandar, relatava Alexandrino a dom Joaquim. tal a obstinao que muitas pessoas de l no procuram padre para confess-las quando esto prestes morte, e assim vo morrendo sem confisso. Em vez de culparem o padre Ccero, culpam a Vossa Excelncia por tal estado de coisas. Impedidos de ter missas celebradas na capela de Nossa Senhora das Dores, os juazeirenses e os adeptos do padre Ccero continuavam a boicotar a igreja do Crato, recusando-se a aceitar as bnos de Alexandrino. Com isso, sem fiis para ministrar sacramentos, o vigrio via os cofres da parquia cada vez mais vazios. Vinha da boa parte de sua insatisfao, de acordo com o que se depreendia de sua correspondncia com Fortaleza. Alexandrino dizia-se tambm escandalizado pelo fato de Ccero, burlando a suspenso que lhe fora imposta, prosseguir confessando enfermos e oferecendo o sacramento da extrema-uno. Em seus despachos ao bispo, Alexandrino citava o caso de uma velha senhora que se encontrava no leito de morte, em um casebre localizado bem na entrada da aldeia. Ao passar por ali, monsenhor Monteiro foi chamado para dar os ltimos sacramentos quela pobre senhora, mas voltou sem cumprir a tarefa, pois a mulher lhe falara que acreditava nos milagres do Juazeiro e sustentava a santidade de Ccero. Monteiro, que assinara a retratao, no ousou ministrar a uno dos enfermos a uma rebelde. Poucos dias depois, o padre Ccero foi chamado para confessar a tal doente. Dirigiu-se casa dela e a absolveu dos pecados, reprovando depois o procedimento do monsenhor Monteiro, delatou Alexandrino. Em meio s divergncias com o colega, o vigrio do Crato dizia sentir-se vtima de uma campanha de desmoralizao. No Juazeiro, por exemplo, espalhou-se certo dia o boato de que ele havia decidido remover a imagem de Nossa Senhora das Dores da capelinha, como represlia s romarias. Alexandrino cometeria tal desfeita, segundo se dizia, em plena madrugada, para evitar que a ao fosse testemunhada pelos moradores. A dita imagem, de 1,60 metro de altura, havia sido mandada buscar na Frana por Ccero, para substituir a anterior, vinda de Portugal. A notcia que de fato era falsa deixou mais uma vez os humores dos juazeirenses em estado de fervura. Organizou-se uma viglia armada diante da capela ao longo de toda a noite para impedir que qualquer visitante inoportuno ousasse levar a imagem embora. Mais de mil romeiros se puseram com armas, vociferando contra mim, e assim se conservaram at o amanhecer do dia, quando souberam que era mentira. A confuso teria sobrado para o padre Flix Aurlio, vigrio de Misso Velha, que naquela hora regressava do Crato e, antes de seguir viagem, decidiu pernoitar no Juazeiro. Ao chegar ao povoado, foi confundido com um emissrio de Alexandrino e por isso ameaado pelos devotos. Diante das contnuas demonstraes de rebeldia, o bispo decidiu que era necessrio infligir novas punies aos dois nicos sacerdotes que ainda no haviam capitulado. Em 22 de fevereiro de 1895, baixou uma portaria suspendendo o padre Antero do exerccio das ordens. Esgotara a esperana de que podia voltar a ter confiana no telogo que um dia tanto admirara. Quanto a Ccero, dom Joaquim tinha a sensao de que ele apenas assobiava e olhava para o lado a cada ordem sua. Por isso, tornou a lhe exigir uma declarao inequvoca de retratao, pois considerava que ele continuava abrigando-se por trs de sutilezas para afirmar que se curvava diante das decises da Igreja, sem todavia desmentir a crena no 131. milagre. O padre Ccero no confessa seus erros, no se humilha nem pede perdo a Vossa Excelncia e aos fiis pelo escndalo que deu, atiava Alexandrino. Em vez da retratao efetiva, o bispo recebeu um novo abaixo-assinado, por parte de 190 signatrios, todos moradores do Juazeiro, solicitando que fosse revista a deciso que impedia Ccero de rezar missa na capela de Nossa Senhora das Dores. O requerimento foi considerado um ultraje por dom Joaquim. O bispo tambm no gostou nada de saber que Ccero Romo Batista estava erguendo um novo templo no Juazeiro com a fora de trabalho e as doaes espontneas dos romeiros. Planejava a construo de uma capela no alto da serra do Catol, local que o prprio Ccero rebatizara de serra do Horto uma aluso ao bblico Horto das Oliveiras, onde Jesus Cristo foi orar a Deus em seus ltimos momentos de vida, antes da crucificao. O padre alegava que apenas pagava a promessa que havia feito na terrvel seca de 1877, de erguer um santurio ao Sagrado Corao de Jesus. Para o bispo, contudo, a construo era mais uma afronta s ordens emanadas da Santa S. Em retaliao, dom Joaquim resolveu cassar a ltima das prerrogativas sacerdotais que restavam a Ccero, j impedido de ministrar sacramentos e proferir sermes: proibiu-o tambm de rezar missa, em qualquer lugar que fosse. Havia informaes de que ele continuava a faz-lo no arraial de nome Saquinho, prximo ao Juazeiro. Como Ccero tambm insistia em receber esmolas dos romeiros em detrimento de deciso anterior, o bispo entendeu que ele se tornara, em definitivo, um insurgente dentro dos quadros da Igreja Catlica. Uma nova portaria episcopal comunicou oficialmente aos fiis que o padre Ccero Romo Batista estava impedido de subir ao altar, sob quaisquer circunstncias, e que as obras na serra do Catol estavam interditadas por ordem superior. O templo no alto da colina jamais seria terminado. O esqueleto de tijolos aparentes permaneceria como testemunha da histria, logo adotado como local de peregrinao pelos romeiros. Padre Alexandrino remeteu a Ccero o original da portaria datada de 13 de abril de 1896 por um portador, escrivo do foro eclesistico, o farmacutico Dario Duarte Correia Guerra. Mais tarde, o doutor Dario contaria que, ao abrir o envelope que continha os papis, Ccero leu-o com mos trmulas e os olhos encharcados. Deus queira que as lgrimas sejam o comeo da converso dele, comentou Alexandrino. O vigrio do Crato, porm, estava mais uma vez enganado. Ao apontar para o alto da serra do Catol, Ccero soltava suspiros e dizia aos peregrinos que o rodeavam: Aquela igreja s vai ser terminada depois do fim do mundo. Segundo a profecia naquele momento espalhada aos quatro ventos, o Dia do Juzo Final teria a serra do Horto como cenrio. Seria l que Deus convocaria todas as naes e faria levantar os mortos das tumbas, para ento proceder ao julgamento que separaria os pecadores dos justos. O templo, aquele mesmo que o bispo mandara embargar, um dia seria reconstrudo, e de forma grandiosa, para servir de sede principal a todas as igrejas do mundo, onde os fiis de Moiss e de Cristo rezariam juntos e em torno de uma nica crena. O vale do Cariri ser o vale de Josaf, do qual fala a Bblia. Dita ou no por Ccero, a frase se difundiu entre os peregrinos de Juazeiro. Todo o poder e toda a direo do mundo futuro sairo daqui, como um dia o salvador Jesus Cristo saiu da Galileia, dizia-se de boca em boca. Na portaria que Ccero lera com olhos marejados, dom Joaquim afirmava textualmente 132. que s restavam duas possibilidades: ou o padre possua uma criminosa pertincia, incompatvel com o esprito de sacerdote catlico ou provavelmente deveria sofrer de um estado de alucinao permanente. Diante daquilo tudo, Alexandrino no tinha mais dvidas de que a segunda hiptese era a mais plausvel. O procedimento do padre Ccero s pode mesmo ser explicado por um desequilbrio cerebral, definiu. At mesmo o papa Leo XIII haveria de convir que vinte contos de ris era um valor nada desprezvel, se fosse incorporado ao Tesouro da Santa S. Na verdade, vinte contos constituam uma relativa fortuna. Significavam um valor quase dez vezes maior do que todo o dinheiro previsto pelo governo do Cear para a concorrncia pblica que escolheria a firma encarregada, durante os vinte anos seguintes, da implantao do sistema de esgoto em Fortaleza. Era tambm o equivalente soma total de impostos pagos ao longo de um ano inteiro por seis municpios cearenses: Brejo Santo, Jardim, Milagres, Misso Velha, Porteiras e Vrzea Alegre. Pois exatamente aquela quantia, duas dezenas de contos de ris, foi arrecadada por uma nova irmandade instalada no Cear, a Legio da Cruz. O dinheiro, angariado em nome da causa de Ccero, teria um nico destino: os cofres do Vaticano ou, como intitulava a Santa S, o patrimnio de So Pedro. Surgida originalmente no Brasil em 1885, na cidade de Niteri, a Legio da Cruz tinha como propsito coletar recursos doados por catlicos praticantes, que depois eram remetidos a Roma. Era uma forma de ajudar a Igreja a se refazer do baque financeiro provocado pela perda dos territrios papais aps a unificao italiana. O idealizador da sucursal cearense da irmandade foi o fazendeiro Jos Joaquim de Maria Lobo, tenente-coronel da Guarda Nacional e admirador incondicional de Ccero. Proveniente do municpio de Lavras da Mangabeira, situado algumas lguas ao norte do Cariri, Lobo se fixara no Juazeiro desde 1894, atrado pelas notcias dos alegados milagres da hstia ensanguentada. Era uma figura de chamar a ateno: terno preto, fitas coloridas e medalhinhas religiosas sempre pregadas na lapela. Uma espcie de beato de palet e gravata, dono de slido patrimnio, ex-vereador em Lavras da Mangabeira e autor de artigos jornalsticos, com aspiraes a literato. Sem a devida aprovao cannica de dom Joaquim, Lobo organizou a Legio da Cruz cearense e passou a arregimentar milhares de associados por todo o serto. Cada membro pagava a mensalidade de cem ris o preo de um exemplar de jornal na poca para participar da confraria. Para Lobo, o ato de arrecadar dinheiro em nome do Juazeiro para enviar ao Vaticano era uma comprovao de que Ccero no era um sublevado contra a Igreja Catlica, mas um sdito reverente instituio. A campanha tinha assim o claro propsito de aplainar o caminho para uma possvel apelao Santa S. Munido das credenciais de organizador da Legio da Cruz no Cear e do documento com as 190 assinaturas dos juazeirenses em defesa de Ccero, Lobo viajou em maro de 1895 a Petrpolis, onde foi recebido em audincia pelo internncio, o cardeal Girolamo Maria Gotti, que no ano anterior j recebera padre Clycrio em idntica misso. Insistia-se na perspectiva de que dom Gotti se mostrasse solidrio a Ccero e ao povo do Juazeiro. Mais uma vez, foi tudo em vo. O internncio enviou relatrio expresso Congregao do Santo Ofcio no qual traou um perfil nada elogioso de Lobo: um homem que fala muito de devoo, mas 133. ignorante, cabeudo e bastante impertinente. Dom Gotti chegou tambm a duvidar da autenticidade das assinaturas do documento que lhe foi entregue e reservou um bom espao no relatrio para advertir os inquisidores a respeito do papel de Ccero em toda aquela histria: Parece fora de dvida que a rebelio e o resto do fermento existente em Juazeiro sejam obra do reverendo Ccero Romo Batista. Como a nunciatura mais uma vez fazia ouvidos moucos aos clamores dos juazeirenses, Lobo decidiu que o nico remdio que ainda restava em defesa da causa era ele mesmo ir a Roma, tratar do assunto diretamente com os membros da Congregao. Municiado dos primeiros contos de ris obtidos pela Legio da Cruz, partiu do Brasil no incio de setembro de 1896, levando consigo duas peties para que as penas contra Ccero Romo Batista fossem revistas. A primeira petio era assinada por ele mesmo. A segunda, subscrita por centenas de juazeirenses. Nesse meio-tempo, Ccero fazia o que achava ser a sua parte no assunto. Bombardeava o Vaticano com novos telegramas e cartas escritas em tom suplicante, endereadas ao prprio papa Leo XIII, ignorando a resposta Acquiescat decisis (aceite o que foi decidido) endereada meses antes pelo Santo Ofcio. Os rogos que Ccero ditava ao telegrafista seguiam escritos em latim, o idioma oficial do Vaticano: Sanctissime Pater, per angustias tuas suscipe appellationem facti Joaseiro, sucurre milibus filiorum persecutorum mitte comissionem humiliter petimus expensis nostris. Per Jesum respondere digneris. Presbyter Cicero Romanus, Sodalita Cordis Jesus, Legionis Crucis, Vicenti Paulo. Em portugus, o telegrama de Ccero ao papa, com data de 26 de junho de 1896, dizia o seguinte: Santssimo Padre, por misericrdia receba a apelao dos fatos do Juazeiro, socorra milhares de filhos perseguidos. Pedimos humildemente que envie uma comisso com as despesas assumidas por ns. Por Jesus, digne-se responder benignamente. Presbtero Ccero Romo, membro da Associao do Corao de Jesus, da Legio da Cruz e da Confraria de So Vicente de Paulo. Ccero, logicamente, estava ansioso por uma resposta. Embora soubesse que os trmites no Vaticano sempre costumam marchar a passo lento, ele no suportou a angstia da espera. Menos de dez dias depois, em 4 de julho, como ainda no recebera nenhuma rplica de Leo XIII, enviou uma segunda mensagem telegrfica ao papa: Sanctissime Pater, per Jesum benigne respondere digneris. Presbyter Cicero Romanus. Desta vez, Ccero havia sido mais sucinto, o que talvez denunciasse ainda maior ansiedade: Santssimo Padre, 134. por Jesus, digne-se responder benignamente. Presbtero Ccero Romo. Se o padre Ccero acreditava realmente no milagre, ou se a essa altura apenas tentava preservar a si prprio e a seu squito de romeiros no Juazeiro, trata-se de um ponto de controvrsia que sempre ir opor, em posies extremadas, seus apologistas e detratores. Numa longa carta que escreveu por esse tempo ao internncio no Brasil, cardeal dom Gotti, ele tornaria mais uma vez patente a defesa incondicional do suposto prodgio. Classificaria a circunstncia em que se encontrava como uma brutal perseguio religiosa por parte do bispo diocesano. No uma acusao que fao; um brado de aflio pedindo remdio, definiu. E argumentava: Interceda por ns ao Santo Padre e leve o nosso gemido aos seus ps, que nas mos dele est o remdio de tantos males. Peo-lhe pela Santssima Virgem. Se no tivssemos tanta certeza dos fatos de Juazeiro, no pedamos insistindo no envio de uma comisso da nossa custa para verificar o que aqui se deu. As inquietaes de Ccero no seriam muito bem interpretadas pela Santa S. Os telegramas remetidos por ele ao papa Leo XIII foram lidos na mesa do ento todo-poderoso secretrio de Estado do Vaticano, cardeal Mariano Rampolla. O secretrio, que era considerado forte candidato sucesso de Leo XIII, no deu resposta direta a Ccero, mas imediatamente tratou de notificar a nunciatura no Brasil a respeito das recorrentes investidas do padre cearense em relao a um assunto que j estava afeito ao julgamento da Congregao do Santo Ofcio. Sacerdote Ccero Romo telegrafou vrias vezes, para ter resposta da Santa S a respeito de seus negcios, alertou o cardeal Rampolla ao internncio em Petrpolis, antes de encaminhar o caso a quem de direito: os inquisidores. O provvel mal-estar provocado pelos telegramas recentes de Ccero coincidiu com a chegada a Roma de Jos Joaquim de Maria Lobo, o legionrio da Cruz, portador da generosa oferta ao patrimnio de So Pedro. Em novembro de 1896, Lobo protocolou na sede do Santo Ofcio os documentos que recorriam em favor da causa do Juazeiro e fez a doao do dinheiro que levava ao tesouro de So Pedro, na fiel esperana de que as decises contra Ccero fossem revogadas em pouco tempo. De fato, antes mesmo que Lobo tivesse tempo de retornar ao Brasil, os inquisidores j haviam deliberado sobre as novas providncias a respeito do caso. Ccero comeou a temer por seu destino quando, logo no incio de 1897, recebeu a notcia de que padre Alexandrino acabara de ser distinguido pelo Vaticano com o ttulo honorfico de monsenhor. A palavra, que serve para distinguir sacerdotes com relevantes servios prestados Igreja, tem origem francesa mon seigneur (meu senhor) e remete ao tempo em que a corte papal ficou instalada em Avignon, na Frana, durante o sculo XIV, por presso do rei Felipe IV. Como prev a regra cannica, o ttulo de Alexandrino foi outorgado pelo papa, por meio da Secretaria de Estado do Vaticano, aps solicitao expressa do bispo diocesano e com a intercesso da nunciatura. Assim, o agora monsenhor Alexandrino dava sinal de seu prestgio crescente, o que deixou Ccero receoso de que para ele o pior 135. talvez estivesse por vir. As apreenses aumentaram no incio de abril, quando recebeu por um portador um ofcio de dom Joaquim. Foi no dia 15 de abril, quinta-feira da Semana Santa, uma coincidncia que revestiu o acontecimento de redobrada significao para Ccero. Apesar de ter de assinar um recibo para comprovar a entrega da correspondncia oficial, ele decidiu no abrir o envelope de imediato, pois tinha um pressentimento de que ali dentro no havia boas-novas. Coisa boa no . No vou ler agora. Vou deixar a carta esfriar um pouco, antes de abrir, exps ao mensageiro. A hesitao de Ccero em romper o lacre do ofcio diocesano gerou dividida curiosidade. Os amigos e beatas mais otimistas apostavam que a embaixada feita por Lobo junto aos cardeais de Roma deveria ter provocado uma reviravolta no caso. O bispo talvez houvesse escrito para comunicar que o padre cassado teria suas ordens sacerdotais prontamente restabelecidas. Os menos eufricos receavam o extremo oposto. Temiam que dom Joaquim tivesse imposto mais uma proibio a Ccero, quem sabe dessa vez ordenando que ele depusesse a batina e abandonasse a Igreja. Na dvida, houve quem procurasse monsenhor Alexandrino para indagar se ele porventura tinha conhecimento do contedo de to misteriosa mensagem enviada pelo bispo. Quando se soube que o padre Antero tambm recebera um ofcio remetido pelo palcio episcopal, a tenso aumentou. Ccero deixou passar os festejos da Semana Santa e, s ento, decidiu tirar o ofcio da gaveta na qual cuidadosamente o guardara. Ao ler o que estava escrito naquela nica folha de papel, percebeu que o bispo utilizara de linguagem objetiva e ao mesmo tempo circunspecta. Em exatas vinte linhas, dom Joaquim convocava-o a Fortaleza no prazo mximo de trinta dias, para tratar de assunto de natureza grave. O bispo apenas adiantava que o Santo Ofcio se reunira no dia 10 de fevereiro para analisar o recurso interposto por Jos Joaquim de Maria Lobo e emitira um novo decreto a respeito. Sendo assim, Ccero Romo Batista teria de seguir capital para ser comunicado pessoalmente do assunto, conforme recomendaram os inquisidores. Para evitar um embate direto com o bispo, independentemente de qual fosse o real teor do decreto, Ccero decidiu escrever duas cartas, assinadas e remetidas no mesmo dia. A primeira ia endereada a dom Joaquim. Nela, o padre pedia desculpas por estar temporariamente impedido de viajar at a capital, como determinava o ofcio. Alegava que estava muito doente e, na falta de estradas de ferro que abreviassem o tempo de jornada at Fortaleza, sentia-se temeroso de ir a cavalo. Anexava missiva um atestado mdico e ainda informava que a me, a septuagenria dona Quin, tambm andava bastante mal de sade, assim como a irm Anglica Vicncia, que sofria de constantes problemas de corao. Receava viajar e encontrar a morte ao meio do caminho, o que por certo mataria de desgosto tambm a me e a irm. Que Deus guardasse o bispo. Assinado, Ccero Romo Batista. A segunda carta, de oito pginas, foi endereada aos cardeais do Santo Ofcio. Diante dos incmodos de sade, afirmava ser imprudente ir a Fortaleza, fazer uma viagem de 110 lguas e muitos perigos. Em vez disso, pedia mais uma vez que fosse mandada uma comisso do Vaticano ao Juazeiro. Ao final, aproveitava para pedir misericrdia que o Santo Tribunal se compadea de ns! e para reafirmar sua f no milagre da hstia. um horror querer nos obrigar a dizer que o fato do Juazeiro uma mentira, quando juramos de toda 136. conscincia que obra de Deus. Se o padre Ccero no queria ir a Fortaleza, dom Joaquim no viu outro jeito seno confiar ao monsenhor Alexandrino a incumbncia de lhe dar conhecimento dos termos do novo decreto da Inquisio ali mesmo, no Cariri. A primeira providncia de Alexandrino foi convocar Ccero Romo Batista a sua presena para uma conversa reservada. Mesmo que o padre afirmasse estar impossibilitado de seguir capital por causa da longa distncia, no deveria haver maiores dificuldades para ele se deslocar por uma estrada bem mais curta, do Juazeiro at o Crato. Desconfiado, Ccero mais uma vez se esquivou. Se h algum assunto reservado a se tratar ainda hoje mesmo ou quando queira Vossa Reverendssima pode faz-lo com melhor vantagem por escrito, respondeu a Alexandrino, por meio de um bilhete, acrescentando ao final uma mxima em latim que ecoou como uma provocao: verba volant et scripta manent. As palavras voam, o escrito permanece. Com isso, Ccero justificava que, para evitar mal-entendidos, qualquer conversa entre os dois deveria ser documentada no papel. Principalmente quando a calnia e a m vontade h muito me perseguem, completou. De novo, no havia escolha. Diante daqueles possveis subterfgios por parte de Ccero, monsenhor Alexandrino teria de ir pessoalmente ao Juazeiro para ler de viva voz para ele o decreto. Estava preocupado com a recepo que o povo do lugar lhe faria, mas no podia hesitar diante da gravidade da tarefa que lhe fora atribuda. Assim, rezou alguns pai-nossos, recitou outras tantas ave-marias e, por fim, foi ao povoado. Porm, nas duas tentativas iniciais que fez, no obteve xito. Sempre que chegava ao povoado, recebia a notcia de que o padre estava fora, cumprindo obrigaes para as bandas do Crato. Ele se retirou por dio de mim, para no me encontrar, temendo que a entrevista seja desfavorvel a ele, contou ao bispo. De todo modo, se no haveria de ser por bem, haveria de ser por mal. Alexandrino resolveu armar uma espcie de tocaia, da qual o padre no teria como escapar. Indo novamente ao Juazeiro e sabendo que Ccero se encontrava na feira do Crato, ficou esperando-o bem ao meio da estrada, at o momento em que ele decidisse voltar. Mais cedo ou mais tarde, Ccero teria de tomar o rumo de casa. Alexandrino estava determinado a esperar quanto tempo fosse necessrio, mas no deixaria de cumprir o servio que o bispo lhe encomendara. No final da tarde, quando Ccero retornava para o Juazeiro debaixo dos ltimos raios do sol daquele dia, foi surpreendido pelo colega que o aguardava montado a cavalo, brandindo o decreto do Santo Ofcio na mo. Estavam presentes ali vrias testemunhas, os muitos populares que tambm voltavam da feira pela estrada de terra. Para monsenhor Alexandrino, nada mais adequado. Era a ocasio propcia para que o comunicado do Vaticano se tornasse do conhecimento de toda aquela gente. Comeou a ler em voz alta o cabealho do decreto, para que fosse ouvido em alto e bom som. Mas Ccero o interrompeu bruscamente: No leia isso, que eu no quero ouvir, falou. Alexandrino advertiu que cumpria ordens do bispo, que por sua vez seguia orientaes de Roma. Mesmo assim, Ccero no permitiu que ele continuasse a leitura. Recusava-se a ouvir qualquer coisa que fosse da parte de Alexandrino. Entregasse-lhe o papel, ele leria depois. No podendo intim-lo de outra maneira, entreguei-lhe o ofcio, narraria o monsenhor a dom 137. Joaquim. Alguns metros depois, quando Alexandrino e as demais pessoas j se encontravam a relativa distncia, Ccero enfim se rendeu aos fatos e resolveu ler o que estava escrito naquela folha que lhe queimava as mos. O documento vinha assinado pelo cardeal Lucido Parocchi, que desde o ano anterior substitura no Vaticano o cardeal Monaco la Valletta no cargo de secretrio inquisidor. No decreto, o Santo Ofcio tratava do caso tanto de Ccero quanto do padre Antero. Este ltimo, Antero, no poderia mais protelar ou se recusar a redigir a retratao em torno do caso do Juazeiro, sob pena de suspenso a divinis, castigo reservado queles que cometem ilcitos contra a Igreja. Quanto a Ccero, os inquisidores determinavam que, caso ele pretendesse recorrer Santa S contra as penas que lhe haviam sido impostas, deveria primeiro submeter-se ao decreto anterior de Roma. Ou seja: como j lhe fora ordenado, teria de entregar ao bispo todos os panos manchados de sangue que haviam sido roubados da matriz do Crato, assim como todas as medalhinhas com sua efgie, para que fossem incinerados. O pior, entretanto, vinha mesmo a seguir. O decreto dizia tambm que ele tinha apenas dez dias, a partir da leitura daquele texto, para se retirar para sempre das terras do Juazeiro. Caso no o fizesse, no havia perdo. Ccero seria excomungado. Cinco dias depois de entregar aquele ofcio, Alexandrino soube que Ccero havia desaparecido. O padre parecia ter sumido no ar. Saiu do Juazeiro em rumo ignorado, sem dizer a ningum quais seriam seus planos dali por diante. S havia uma hiptese, comentava- se por toda a regio. Ele teria ido direto a Roma, a fim de recorrer pessoalmente Santa Inquisio. Dinheiro para isso ele deveria ter, uma vez que o doutor Lobo continuava arrecadando vrios contos de ris pelo serto. Em Fortaleza, dom Joaquim at torcia para que tal suposio fosse verdade: O Santo Ofcio ver ento que o padre Ccero se trata mesmo de um homem desequilibrado, escreveu ao internncio, em Petrpolis. Autorizao para viajar ele tambm tinha. Meses antes, Ccero oficialmente pedira permisso ao bispo para ir ao Vaticano. V para Roma ou para onde bem lhe parecer. Nossos ardentes votos so para que Vossa Reverendssima se retire para bem longe do Juazeiro, onde sua permanncia prejudicial Santa Religio, escrevera-lhe ento dom Joaquim. Contudo, logo seria revelado o verdadeiro paradeiro de Ccero Romo Batista. Cartas dele me e irm indicavam que na verdade ele estava do outro lado da divisa do Cear, no municpio de Salgueiro, em Pernambuco, a cerca de cem quilmetros ao sul de Juazeiro. A cidade de Salgueiro sempre foi considerada a encruzilhada do Nordeste, por causa da equidistncia em relao s principais capitais da regio. Dali, portanto, Ccero poderia deslocar-se para qualquer outro lugar, quando assim julgasse pertinente. Por isso, as notcias que corriam pelo agreste logo deixaram as autoridades em polvorosa. Dizia-se que Ccero entrara em Pernambuco para dali seguir em busca do serto da Bahia. Tudo indicava que ele tinha um firme propsito e um nico destino: Canudos. Estaria planejando arrastar legies de romeiros para se unir ao exrcito sertanejo de Antnio Vicente Mendes Maciel, o Antnio Conselheiro. Naquele exato momento, o lder de Canudos estava prestes a enfrentar o quarto ataque 138. desferido pelas tropas do Exrcito brasileiro ao arraial de Belo Monte. As trs expedies anteriores, fortemente armadas, resultaram todas em vexatria derrota para os militares, que sucumbiram fora da chamada Troia de taipa, como a definiu Euclides da Cunha, que, alis, acabara de chegar ao local como correspondente de guerra de O Estado de S. Paulo. O governo federal tinha esperanas de que o quarto ataque fosse definitivo e, enfim, conseguisse destruir o arraial. Mas a informao de que o fantico do Juazeiro estava a caminho de Canudos era aterrorizante. Uma vez juntos, os seguidores de Antnio Conselheiro e os devotos de padre Ccero, por certo, seriam imbatveis. 139. 12 Autoridades em polvorosa: o herege do Juazeiro est mancomunado com o luntico de Canudos? 1897-1898 O clima era de desassossego no Palcio das Princesas, sede do governo pernambucano, no Recife. O presidente da provncia, Joaquim Correia de Arajo, estava apreensivo com a informao de que Ccero se encontrava em territrio sob sua jurisdio. Constava que o padre fora visto na entrada de Salgueiro pregando a rebeldia para cerca de duzentos jagunos armados de parabluns, rifles e mosquetes. Tudo o que no interessava a Joaquim Correia era ver o serto de Pernambuco repetir as cenas de insubmisso de Canudos, na Bahia. Ele temia que as crticas direcionadas a Lus Viana, o presidente da provncia vizinha acusado de negligncia e de fazer vistas grossas ao de Antnio Conselheiro, recassem tambm sobre seu governo. Por isso, tratou de pr suas desgrenhadas e governamentais barbas de molho. Telegrafou imediatamente ao juiz de direito de Salgueiro, o doutor Manuel de Lima Borges, pedindo informaes a respeito da presena do padre naquela cidade. Queria saber se a notcia tinha fundamento e se era verdade que Ccero fazia ali uma escala para arregimentar mais facnoras, antes de partir de armas em punho em direo ao arraial do Belo Monte: Juiz de Direito, Constatando padre Ccero deixou Juazeiro procurando Canudos para auxiliar Antnio Conselheiro, peo informeis mxima urgncia o que h de verdade, bem como qual a distncia entre Crato e rio So Francisco. Joaquim Correia No eram s as autoridades civis que estavam alvoroadas. Naquele mesmo dia, 14 de agosto de 1897, o bispo de Olinda, dom Manoel dos Santos Pereira que em 1853 havia substitudo dom Joo Fernando Tiago Esberard no cargo tomou idntica providncia. Telegrafou ao vigrio de Salgueiro, padre Joo Carlos Augusto, solicitando esclarecimentos a respeito do assunto. O teor aflito da mensagem demonstrava o abalo institucional que a presena de Ccero gerava em Pernambuco: Vigrio, Padre Ccero ainda est a? No posso aprovar sua responsabilidade qualquer ato. No tolere pretenso agitar povo. Responda. Bispo Olinda A intranquilidade no era para menos. Meses antes, o Dirio de Pernambuco havia 140. publicado na primeira pgina um longo texto sobre o padre cearense com o ttulo Desordens do Juazeiro. O artigo comparava Ccero a Antnio Conselheiro, classificando ambos de espritos pervertidos, orculos da ignorncia, falsos profetas que embruteciam as conscincias dos miserveis. O artigo ainda estava bem fresco na memria dos pernambucanos e fazia coro ideia ento corrente de que tanto Conselheiro quanto Ccero eram smbolos eloquentes do atraso do serto, empecilhos marcha do progresso, anteparo aos ventos da Ilustrao que soprariam do litoral. Tnhamos razo quando uma vez dissemos referindo-nos ao Juazeiro do Cear que a superstio ali dominante e criada pelo padre Ccero, atraindo milhares de pessoas, traria mais cedo ou mais tarde perturbaes da ordem pblica, haviam lido os recifenses na edio de 30 de dezembrn class="it">Dirio. O peridico apontava o dedo para a omisso das autoridades em relao ao assunto. deplorvel que o governo tenha sido indiferente aos progressos da empresa de fanatizar os centros do pas, ainda distantes da cultura que deveriam ter. No era s o jornal pernambucano que estabelecia o paralelo entre o taumaturgo do Juazeiro e o lder de Canudos. Padre Ccero um segundo Antnio Conselheiro, que tem o dom de fanatizar as classes ignorantes, prevenia o bispo cearense, dom Joaquim, em carta oficial nunciatura em Petrpolis. No entender do prelado, a religiosidade popular sempre constitura um terreno frtil para a apario de lunticos e doidos varridos. Cumpre-me cientificar que nesta diocese os casos de desequilbrios das faculdades mentais so frequentes, e quase todos se manifestam por tendncias para o maravilhoso, no sendo estranha a essa tendncia uma boa parte do clero. verdade que havia confluncias entre as trajetrias dos dois controvertidos religiosos, embora existisse tambm notria diferena no modo de ao e na prpria histria particular de cada um deles. A exemplo de Ccero Romo Batista, Antnio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, foi influenciado pela pastoral cabocla do padre Ibiapina. Da mesma forma que o clebre andarilho fizera dcadas antes, dedicou boa parte da vida a construir igrejas, capelas e cemitrios pelos sertes em regime de mutiro. Antes de se fixar em Canudos, peregrinou sem eira nem beira, levando a todos a palavra de Deus, combinando a defesa intransigente da f com uma rgida pregao moral e com a exortao ao trabalho coletivo. Assim como Ccero, era um homem do povo, que soube tocar fundo no corao dos devotos e sem nunca deixar de ser tambm um deles reunir multides de sertanejos que o tomavam como guia. Mas, ao contrrio do padre de Juazeiro, Conselheiro no tivera educao catlica formal, nunca estudara em seminrio, no fora ordenado sacerdote. A dedicao efetiva de Antnio Maciel religio se dera aps alguns percalos particulares, que incluam desde o flagrante dado na esposa, que o traa com um sargento de polcia, at a sucesso de fracassos financeiros, passando por uma injusta priso por suspeita de homicdio. Aquele homem alto e magro ganhou ares de profeta bblico em plena caatinga. Passou a se vestir invariavelmente com uma tnica azul, amarrada cintura por um cordo, na ponta do qual pendurava o crucifixo. O apelido viera do costume bem prprio aos msticos nordestinos de distribuir conselhos aos que ouviam suas pregaes e profecias. No por acaso, levava sempre consigo um exemplar da Misso Abreviada para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar o fruto das misses, a obra do padre portugus Manoel de 141. Gonalves Couto. Ao congregar fiis que deixavam tudo para trs, abandonando a terra natal e o pouco que tinham para se juntarem a ele, Antnio Maciel atraiu para si a inimizade dos proprietrios de terra. Estes, bvio, no ficaram contentes ao notar o desaparecimento paulatino da mo de obra disponvel no serto, na exata proporo em que cresciam as ondas de migrao para Canudos. Se Conselheiro era incmodo ao poder econmico, tambm o era para a Igreja. Sendo apenas beato, pregava no plpito dos templos sagrados, o que viria a aborrecer o arcebispo da Bahia, dom Luiz Antnio dos Santos. Ele mesmo. Aquele que fora bispo do Cear antes de dom Joaquim e decidira a favor da ordenao de Ccero, apesar das reticncias do reitor Chevalier. Coincidncias e diferenas parte entre os lderes do Belo Monte e do Juazeiro, h indcios que do conta de um real interesse de Ccero em relao ao movimento de Antnio Vicente Mendes Maciel. A informao que tem sido repetida por vrias narrativas historiogrficas partiu originalmente de uma nica fonte, um antigo morador e sobrevivente de Canudos, Antnio Vilanova irmo de Honrio Vilanova, um dos homens mais chegados ao lder Conselheiro. Um emissrio de Ccero Romo Batista, de nome Herculano o sobrenome, infelizmente, no passou posteridade , teria sido destacado pessoalmente pelo padre para observar o que se passava no arraial baiano. A chegada de Herculano Bahia coincidira com o primeiro ataque militar aos discpulos do beato. Aps assistir aos conselheiristas colocarem para correr os bisonhos soldados do tenente Manoel da Silva Pires Ferreira na histrica batalha de Uau, Herculano retornara para dar conhecimento do fato ao guia espiritual do Juazeiro. Antnio Conselheiro inclusive teria mandado um recado para Ccero, em forma de predio, referindo-se aos ataques que as tropas federais em breve iriam desferir contra Canudos: Conte ao padre Ccero o que viu. Ainda vai haver trs fogos. Ele tambm ter o seu foguinho, profetizou. Quando transformasse as anotaes de sua caderneta de correspondente de guerra em livro, o reprter do jornal O Estado de S. Paulo tambm faria referncias s suspeitas de que Ccero estivesse mancomunado com o lder de Canudos: Em Juazeiro, no Cear, um heresiarca sinistro, o padre Ccero, congregava multides de novos cismticos em prol do Conselheiro, escreveria Euclides da Cunha no clssico Os sertes. Contudo, os rumores de que Ccero chegara a enviar um emissrio ao Belo Monte nunca foram comprovados. Na vasta correspondncia ativa e passiva do padre, no h uma nica linha a respeito do tal Herculano. No improvvel, porm, que vrios dos devotos de Ccero tenham sido atrados pelas pregaes de Antnio Conselheiro e rumado em caravana para Canudos. Mas o certo que ele prprio, Ccero Romo Batista, em vez de ir a Salgueiro disposto guerra, decidira fazer daquele retiro compulsrio em Pernambuco o momento de um recolhimento pessoal e, mais do que isso, de calculada trgua em relao a seus oponentes eclesisticos. Isso no significava que o aparente armistcio representasse uma desistncia em relao causa que verdadeiramente o movia. Durante aqueles quase seis meses de exlio pernambucano, Ccero tentaria de todos os modos reverter os destinos de seu litgio com o Vaticano. Quando Deus tarda, porque j vem a caminho, acreditava Ccero. 142. Na manh de 14 de agosto de 1897, o canho ingls Withworth das tropas federais transformou em poeira uma das duas torres da igreja do Belo Monte. Enquanto isso, a quilmetros dali, na pequena estao telegrfica de Salgueiro, vivia-se tambm um dia agitado, mas por motivo bem diverso. O operador do ento modernssimo aparelho de cdigo morse batucou na tecla metlica a pronta resposta do juiz de direito, doutor Lima Barros, ao Palcio das Princesas. O juiz procurava tranquilizar o angustiado presidente Joaquim Correia. A mensagem viajou por quinhentos quilmetros de fios na linha telegrfica que ligava Salgueiro ao Recife para avisar que Ccero estava ali em misso de paz: Afirmamos ser absolutamente falsa notcia padre Ccero deixar Juazeiro procurando Canudos para prestar auxlio Antnio Conselheiro. Podemos garantir ser ele virtuoso sacerdote completamente hostil movimento sedicioso Canudos, incapaz tentar contra a ordem e tranquilidade pblicas. De Crato a So Francisco, 41 lguas. A afirmao seria reforada por um telegrama coletivo ao presidente da provncia, assinado por gente grada de Salgueiro. Entre outros figures locais, subscreviam a mensagem o intendente da cidade (cargo ento equivalente ao de prefeito), capito Cornlio Gomes de S; o presidente do conselho municipal, coronel Romo Filgueira Sampaio; o vice-intendente, Othon Soares; alm de todos os representantes da Cmara municipal. Seguiam-se ainda cerca de cinquenta assinaturas de pessoas proeminentes do lugar, particularmente fazendeiros e negociantes. Todos garantiam que Ccero, em estrito acato deciso do Vaticano, s fora buscar paz e sossego em Pernambuco: Aqui como qualquer ponto territrio tem sido e ser elemento ordem, paz, tranquilidade, quer como particular quer como sacerdote modelo, vivendo sempre segundo esprito Deus. Meia dzia de telegramas como aquele ainda seguiria ao presidente da provncia, encaminhada por juzes e delegados de outras quatro cidades pernambucanas: Cabrob, Granito, Parnamirim (antiga Leopoldina) e Ouricuri. Os doutores encarregados da lei e da ordem nesses respectivos municpios igualmente asseguravam que Ccero nem de longe representava uma ameaa pblica, como se proclamava no Recife. Ao contrrio, a presena dele estava sendo comemorada como um alento na regio: o padre ajudara a pr fim em rixas locais cujas origens se perdiam no tempo, selando a paz entre duas famlias arquirrivais do serto, os Farias e os Maurcio. Promovera assim o trmino de uma guerra fratricida, que durante longos anos tingira de sangue o cho do agreste. Fora exatamente por esse motivo que o viram antes pregando para os tais duzentos jagunos na estrada de Salgueiro. Ccero no os incitava luta. Na verdade, conclamava-os a baixar as armas e a trocar o bacamarte pelo rosrio. O mesmo Dirio de Pernambuco que publicara aquele texto depreciativo contra Ccero estampou em suas pginas, na edio de 17 de outubro de 1897, um elogioso artigo na seo A pedidos espao que os peridicos da poca reservavam ao material publicado sob pagamento dos interessados. O escrito, como sempre, vinha sob o estilo inconfundvel de Jos Marrocos: Quando em outros pases catlicos, como na tradicional Itlia (em Bolsena) ou no velho 143. Portugal (em Santarm), os prncipes da Igreja e o clero festejam e solenizam os grandes acontecimentos por meio dos quais o Deus do Calvrio firma sua f a bem da humanidade, no Cear, por idntico fato, bane-se do territrio um virtuoso sacerdote, j velho e alquebrado, como se fosse um pernicioso celerado. Aquele trecho inicial parecia prever um artigo lavrado em tom de desagravo e indignao. Mas logo em seguida o texto assumia uma inflexo mais ponderada, que cuidava de reforar a tese de submisso de Ccero s ordens emanadas de Roma. Aos seus defensores, no convinha naquele instante dar chances para que ele continuasse a ser confundido com um segundo Conselheiro, como queria dom Joaquim. Cheio de resignao e sincera humildade, aquele sacerdote obedece com pacincia evanglica a todas as acusaes e perseguies, dizia o artigo do Dirio. Ainda que poupasse os cardeais do Santo Ofcio de qualquer crtica, o texto de Marrocos no deixava de dispensar farpas certeiras contra dom Joaquim, acusando-o de querer insuflar as autoridades pernambucanas contra Ccero: No conseguindo os desumanos perseguidores a capitulao que almejam, no conseguindo arranc-lo da alma do povo, que sempre grande, nobre e generosa, recorrem agora ao poder civil, procurando envolv-lo no sedicioso movimento dos sertes da Bahia, como um comparte do especulador e nefasto Antnio Conselheiro. Diante das novas notcias e dos telegramas enviados pelas autoridades do interior da provncia, o presidente Joaquim Correia mostrou-se aliviado. Ficou absolutamente convencido de que, em vez de um inimigo ameaador, Ccero Romo Batista poderia ser um parceiro mais do que oportuno para pacificar o interior de Pernambuco. Acredito que padre Ccero no auxiliar Antnio Conselheiro e nem promover agitao hostil, respondeu o presidente da provncia aos muitos telegramas que recebera de Salgueiro. At mesmo o famoso industrial Delmiro Gouveia, que comeava a fazer fortuna com a exportao de couro para os Estados Unidos e que dali a alguns anos viria a se tornar um dos homens mais ricos e poderosos do Brasil , recebeu mensagens tranquilizadoras a respeito de Ccero. Doutor Delmiro podia dormir sossegado. Seus lucrativos negcios em Pernambuco no seriam afetados por possveis desordens por parte do padre ou de seus seguidores: Questes aqui vo tomando carter pacfico. Padre Ccero tem sido incansvel. Havia adjacncias cerca de duzentos homens em armas. Ele tem conseguido desarmar uns, fazer outros retrarem-se. muito possvel em breve entrarmos em inteira calma. Na passagem por Salgueiro, Ccero consagrava uma arte da qual j demonstrara ser perito no Juazeiro. Ele era o Padim Cio dos nufragos da vida como gostava de definir , mas tambm sempre fora bem-vindo e chamado para dar bnos nos alpendres de chefes polticos e fazendeiros locais. No foi toa que, naquele momento em que era acusado de atentar contra a ordem pblica em Pernambuco, obteve atestados de idoneidade tambm por parte de importantes autoridades do Cariri. Atestamos que ele tem sido sempre amigo do governo, promovendo, onde quer que se ache, todos os meios de auxlio sua ao, aconselhando o povo obedincia a todas as 144. autoridades, escreveu por exemplo o intendente cratense, Manuel Lopes da Silva. A engenhosa composio de predicados aparentemente antagnicos a dedicao pastoral aos mais humildes e o dilogo estratgico com os poderosos e abastados garantiria a sobrevivncia de Ccero como lder espiritual. Nada, inclusive, podia ser mais sintomtico: exatamente naquele instante, Canudos se transformava em cinzas e a cabea de Antnio Conselheiro era decepada pelos soldados do Exrcito, sendo levada para o litoral como um cobiado trofu de guerra. Canudos perecera. Ccero, a partir dali, parecia mais fortalecido do que nunca. Salgueiro, 19 de setembro de 1897. Minha me [...] Aqui encontrei uma gente muito boa, principalmente o juiz de direito, que se chama Lima Borges, e a mulher dele, dona Engrcia. So to bons e tm feito tanto por mim que no sei agradecer. Mande-me meia dzia de latas de doce de buriti para fazer um presente, uns anans e mais alguma coisa que achem que sirva. No sei agradecer as finezas do padre Joo Carlos. Pea por ele em suas oraes. Me abenoe, como a Santssima Virgem abenoe todos de nossa casa. Do filho que muito a estima, Ccero Romo Batista Todas as cartas enviadas de Salgueiro famlia eram assim, cheias de deferncias s cortesias de Lima Borges e tambm do padre Joo Carlos, o sacerdote que anos antes, em 1893, lera em Assar a primeira carta pastoral de dom Joaquim a seus procos dizendo que o fazia com os lbios, mas no com o corao. Dispensado desde ento das funes eclesisticas pelo bispo do Cear, Joo Carlos Augusto se transferira para a diocese vizinha, fixando-se em Salgueiro. Sua residncia ali ajudava a entender os motivos para Ccero ter escolhido cumprir o degredo naquela pequena cidade pernambucana, localizada do outro lado da chapada do Araripe, o paredo de pedra que separa o sul do Cear do norte de Pernambuco. Alm da convenincia de uma estao telegrfica disposio na cidade coisa que ainda no existia no Crato , Ccero tinha tambm um aliado no comando da parquia. Contudo, o que mais se fazia presente na amiudada correspondncia de Ccero me e irm Anglica nesse instante era a proclamada agonia de se encontrar distante de Juazeiro: Estou achando to desconforme esta peregrinao que me obriga a andar como vagabundo, sem casa, sem terra, toa, s pela maldade e pelo despotismo de homens sem conscincia, que no sei at onde ir tamanha opresso. Mesmo longe, Ccero no se esquecia de enviar recomendaes a respeito de como a irm e todas as beatas que deixara no Juazeiro deveriam se comportar durante sua ausncia: Todos de casa passeiem pouco. Sejam unidas e mansas, orem muito a Nossa Senhora das Dores, para que ela, como nossa me, me restitua aos ps dela com brevidade. Ccero, estava claro, planejava uma volta a Juazeiro. Mas tinha a exata conscincia de que se as autoridades civis pernambucanas pareciam serenadas, o mesmo no se podia afirmar em relao a seus superiores eclesisticos. Coube ao padre Joo Carlos a tentativa de aplacar 145. em primeiro lugar o bispo de Olinda. O vigrio de Salgueiro telegrafou para informar que Ccero continuava ali, sim, mas debaixo da mais pacata obedincia. Posso afirmar que tem sido ele um elemento da ordem, observou. Autoridades daqui telegrafaram ao presidente no mesmo sentido. Dom Manoel dos Santos Pereira, todavia, no se mostrou convencido. Considerava que a escolha de Ccero pelo retiro em Salgueiro no fora a melhor opo para o caso, uma vez que o lugar distava apenas cem quilmetros do Juazeiro. Era muito prximo do ncleo nervoso da polmica, calculava dom Manoel. Pelos fios do telgrafo, o prelado voltou a exprimir ao padre Joo Carlos sua contrariedade em relao ao assunto: Padre Ccero continuar a perturbador conscincias, animar supersties pequeno povo ignorante. Quanto s mensagens das autoridades municipais ao presidente da provncia de que falava Joo Carlos, o bispo preferia ignor-las de modo solene: No trato poltica. Cabe outro poder. Por fim, vinha a advertncia de dom Manoel ao vigrio de Salgueiro: Responsabilizo Vossa Reverendssima qualquer coisa. Ccero achou por bem dirigir-se ento ele mesmo ao bispo de Olinda. Fez isso por meio de uma carta afvel. Cuidadoso em no ferir as susceptibilidades de dom Manoel, reafirmou que se encontrava em Salgueiro cumprindo a deciso de Roma e obedecendo fielmente suspenso das ordens que lhe foi imposta, sem ministrar sacramentos ou rezar missa. Em tudo tenho me submetido, sem dizer nada, afirmou. No quero o mal. Do outro lado da divisa, no Cear, dom Joaquim no destoava das desconfianas do colega de Olinda. Percebeu que Ccero ainda lhe daria muito trabalho. Ficou irritado, por exemplo, ao ter notcia de que no interior da provncia um beato interrompera a procisso para colocar o retrato de Ccero no andor de Nosso Senhor do Bonfim. Maior escndalo, no entender do bispo, era o de que muitos fiis haviam beijado aquela fotografia como algo mais digno de venerao do que a prpria imagem sacra. O sacristo que organizava o cortejo ainda ordenou que o homem retirasse dali o retrato, mas este no quis lhe obedecer. Foi preciso chamar a polcia para que o devoto do padre Ccero retirasse a fotografia e s assim a procisso pudesse seguir adiante. Histrias como aquela continuavam a chegar todos os dias, com enervante assiduidade, aos corredores do palcio episcopal. Dom Joa-quim sentiu-se na obrigao de publicar mais uma carta pastoral aos diocesanos, dessa vez para esclarec-los a respeito da deciso do Vaticano de obrigar a sada de Ccero das terras do Cariri: Pela terceira vez, que esperamos ser a ltima, vimos, venerveis irmos e amados diocesanos, dirigir-vos de modo solene a palavra escrita para falar-vos ainda da triste histria do Juazeiro, escreveu o bispo aos fiis. As beatas, festejava a nova carta pastoral de dom Joaquim, haviam cado em total descrdito. Maria de Arajo e outras mulheres invencioneiras j esto bem conhecidas, havendo parte delas confessado e deplorado seus embustes, e parte cado em completo desprezo, de sorte que hoje em dia no vogam mais suas arteirices, dizia o documento, datado de 31 de julho de 1897. As mscaras haviam cado, sustentava o bispo. Padre Antero, um dos ltimos a capitular, tambm no representava mais nenhuma ameaa diocese, 146. assegurava. Cerca de um ms e meio antes, em 12 de junho, Antero havia remetido ao palcio episcopal a sua mensagem de retratao, na qual dizia prestar inteira obedincia a qualquer deciso emanada do Vaticano. Desse modo, escapava da pena de suspenso a divinis, prevista no decreto do Santo Ofcio. Ccero, por conseguinte, estava s. Venerando clero cearense, no sabemos se os deplorveis desvios do nosso irmo padre Ccero procedem da inteligncia ou da vontade, ou se de ambas; o certo que ele tomou veredas tortuosas e falsas, encerrava dom Joaquim a sua terceira carta pastoral. Mas mesmo o afastamento do padre em relao ao Cear no conseguiu abrandar as inquietaes do bispo. Da parquia de Santana, vizinha ao Crato, o vigrio Incio Rufino de Moura tambm remetia notcias bem pouco alvissareiras. Ele estivera em Juazeiro e ficara chocado com o nmero de maltrapilhos que encontrou arranchados na capela de Nossa Senhora das Dores. Cantavam benditos e diziam estar ali espera da volta de Ccero, o seu Messias: Vi tanta gente suja, to imunda que s me pareceram os mortos da fome de 1877, comparou padre Incio. Conservei na ponta da venta durante 24 horas a catinga daqueles miserveis. Restava a dom Joaquim, portanto, apenas esperar que o caso do Juazeiro caminhasse para o mesmo desfecho que o Vaticano reservara, havia pouco tempo, a um episdio relativamente semelhante, ocorrido em Loigny, diocese de Chartres, no interior da Frana. L, uma religiosa, Mathilde Marchat, tambm dizia manter conversaes com Cristo e com a Virgem Maria. Alm de pregar a necessidade de fundar uma comunidade para louvar o Sagrado Corao, Marchat afirmava que Deus a encarregara de proclamar uma iminente restaurao dos Bourbon, a dinastia que havia sido derrubada em 1830 pela revoluo liberal francesa. A mulher garantia ainda que o prprio trono do Vaticano estava sendo ocupado por um impostor. Segundo ela, o verdadeiro Leo XIII encontrava-se prisioneiro, enquanto um falso papa daria as ordens em Roma. Marchat acabou excomungada em 1894 e o livro A Verdade sobre as condenaes que afligem Mathilde Marchat em Loigny na diocese de Chartres e os adeptos das suas revelaes, publicado em 1890, seria includo no Index, a lista de livros proibidos pelo Vaticano. Mesmo assim, os crentes nas vises da mstica francesa continuaram a oferecer resistncia s determinaes da Inquisio, organizando doaes em dinheiro para a construo de um santurio em sua homenagem. Sucede no Juazeiro o mesmo que se tem dado em Loigny, com a clebre Marchat: o amor-prprio ferido e a torpe especulao mantm ainda um resto de superstio, escrevera dom Joaquim ao internncio em Petrpolis. Ao mesmo tempo que mantinha a nunciatura informada sobre os passos de Ccero, o bispo transmitia a Roma todos os boatos que continuavam a chegar de Pernambuco: O padre Ccero foi para Salgueiro, localidade da diocese de Olinda, onde continua a defender a sua miservel obstinao e a propagar os pretensos milagres condenados pelo Santo Ofcio. Neste lugar, comeou uma grande aglomerao de fanticos, de tais modos perturbadores que o governador civil foi obrigado a enviar tropas que com ele pelejaram, seguindo-se vrias perdas, desinformou dom Joaquim ao cardeal Parocchi, secretrio da Inquisio. 147. Para fazer frente s oposies de seu diocesano, Ccero buscou um derradeiro auxlio na autoridade do arcebispo primaz do Brasil, dom Jernimo Tom da Silva, enviando-lhe um telegrama no qual solicitava uma mediao dele junto Santa S para o caso: Por Deus, vos pedimos, intervenha a nosso favor. Pois se verdadeiro no fosse grande fato ocorrido, examinado at a saciedade por pessoas de boa-f, no colocaria minha alma a perigo, argumentou. Ajude a salvar to grande causa, implorou Ccero. No h indcios, porm, de respostas por parte de dom Jernimo. No Vaticano, aps as embaixadas infrutferas de padre Antero e de Joaquim Jos de Maria Lobo, o padre Ccero recorria ento aos prstimos de um procurador informal, o cnego Antnio Fernandes da Silva Tvora, ex-proco do Crato, que se encontrava cursando doutorado em direito civil e cannico na Universidade de Santo Apolinrio, em Roma. Tempos antes da chegada de Alexandrino ao Crato, padre Fernandes havia sido os olhos e os ouvidos de dom Joaquim no Cariri. Desavisado de que o colega continuava a ser um interlocutor contumaz do bispo, Ccero remeteu-lhe vrios telegramas de Salgueiro, na expectativa de que a proximidade com o centro do poder em Roma fizesse de Fernandes um advogado de sua causa. As respostas deste, porm, eram sempre evasivas. Se no punham por terra as pretenses do colega, tambm cuidavam de no alimentar em demasia suas esperanas. Quando Ccero lhe escreveu para que solicitasse ao Vaticano, como ele prprio j fizera antes, o envio de uma comisso apostlica para averiguar os fatos em Juazeiro, padre Fernandes no tergiversou: Impossvel sem sua presena em Roma. O povo de Alagoa de Baixo, futuro municpio de Sertnia, fez festa e saiu s ruas para ver o padre Ccero passar. Diziam por aquelas bandas que, dali, ele viajaria at o Recife e depois tomaria um navio para Roma, para cumprir chamado do prprio papa. Situada a meio caminho entre Salgueiro e Recife, a modesta Alagoa de Baixo parou inteira para saudar o sacerdote. Foi um espetculo a chegada do velho taumaturgo vila. O povo, em delrio, seguia-o pela estrada e ele entrou frente de uma verdadeira multido. Da calada do prdio escolar, pedi-lhe a bno, estendendo a mo, recordaria anos mais tarde o advogado e escritor Ulysses Lins de Albuquerque em suas memrias. Ccero ficou hospedado em Alagoa de Baixo na casa do poderoso Francisco Gomes da Silva, o coronel Chico Bernardo, demonstrando mais uma vez que desfrutava do apoio e da considerao dos mais influentes potentados do serto pernambucano. Chico Bernardo era dono de fazendas de gado e de vrias bolandeiras de descaroar algodo. Agiota, fazia as vezes de banqueiro do agreste, emprestando dinheiro a juros e recebendo como nica garantia comprovantes garatujados a mo. A rigor, os papis no tinham nenhum valor financeiro, mas eram considerados dinheiro vivo no serto, j que estavam afianados pelos fios do proverbial bigode branco do coronel. Dom Joaquim fora devidamente avisado por monsenhor Alexandrino: antes de ir a Alagoa de Baixo, Ccero sara de Salgueiro e estivera brevemente em Juazeiro, onde inclusive passara junto famlia o Natal daquele ano de 1897. Para no parecer que desafiava a determinao do Santo Ofcio, permaneceu no Cear apenas alguns dias, o tempo suficiente 148. para preparar uma grande e audaciosa viagem: O padre Ccero saiu daqui dizendo que vai para Roma. Dessa vez, era a mais plena verdade. Na ltima semana de dezembro, Ccero despediu-se da me e da irm, saudou os romeiros que continuavam a fazer peregrinaes ao Cariri e tomou a estrada de volta a Pernambuco, aps receber uma carta do juiz de direito de Salgueiro, doutor Lima Borges. A notcia era motivo para grande celebrao. O presidente da provncia, Joaquim Correia de Arajo, antes temeroso da presena do padre em terras pernambucanas, estava agora to convicto das boas intenes de Ccero que resolvera bancar para ele a passagem de navio at a Europa, atendendo a um pedido expresso do doutor Borges. O senhor deve estar em Recife at o dia 2 ou 3 de janeiro, satisfazendo o desejo do governador, que tem se prestado perfeitamente bem para ajud-lo, festejou o juiz, em carta ao padre. Ccero tambm comemorou, embora tenha pedido em casa a mais absoluta reserva quanto informao. No digam a ningum que o juiz de direito mandou pedir uma passagem para mim, deixou escrito me e irm. Agradecido, mandou por carta seu muito obrigado a Joaquim Correia, emitindo-lhe um recibo em troca de mais 500 mil-ris a ttulo de ajuda de custo para a viagem. A gratido, que com certeza uma virtude do Cu, me faz ficar sempre em lembrana da generosidade de Vossa Excelncia para comigo, escreveu. Em fevereiro de 1898, Ccero tomou no porto do Recife o vapor que o conduziria pela travessia do Atlntico. Na mala, levava para cobrir as despesas pessoais no Velho Mundo pelo menos mais cerca de um conto de ris, fruto de um emprstimo concedido por um amigo do presidente pernambucano, doutor Sebastio Sampaio. Em uma sacola bem pesada e parte, iam outros 22 contos, soma oferecida por romeiros e por juazeirenses para que Ccero mandasse rezar missas em Roma na inteno deles e das almas de entes queridos. Era uma generosa quantia. Segundo relatrio oficial assinado por Joaquim Correia de Arajo, o governo de Pernambuco investiria um valor praticamente igual quele para manter acesos os lampies a gs da cidade de Olinda durante todos os dias daquele ano de 1898. Antes de partir para Roma, Ccero deixou uma carta irm: Escreverei donde estiver para voc e minha me. A Santssima Virgem abenoe os nossos. Ore para seu mano que muito a estima. Foram catorze dias de viagem. Depois de ser recebido como hspede na casa do prprio presidente pernambucano Joaquim Correia, o padre Ccero Romo Batista embarcou no porto do Recife no dia 10 de fevereiro de 1898. Aps a longa travessia do Atlntico, o navio ultrapassou o estreito de Gibraltar, penetrou no Mediterrneo, costeou terras da Espanha e finalmente adentrou em guas italianas. Em 24 de fevereiro, Ccero desceu no movimentado porto de Gnova, naquela poca apinhado de famlias de trabalhadores que migravam para tentar a sorte no distante Brasil. De Gnova, tomou um sacolejante trem para Roma, aonde chegou s oito horas da manh do dia 25. Levava consigo um secretrio, o comerciante Joo David da Silva, residente em Juazeiro e seu fiel escudeiro durante toda a viagem. Ambos no falavam uma nica palavra em italiano. A muito custo, tiritando de frio naquele inverno europeu, fazendo-se entender por 149. gestos e com a ajuda de um endereo rabiscado no papel, chegaram ao Albergo dellOrso, uma antiga hospedaria que funcionava em um prdio de trs pavimentos, construdo no final do sculo XV e localizado no nmero 94 da via Monte di Brianzo. Ali, bem prximo margem direita do rio Tibre, pagaram duas liras pelo quarto, com direito a cama, lenis e travesseiros. A pouco mais de um quilmetro de onde estavam, do outro lado do Tibre, erguiam-se as grandiosas muralhas do Vaticano. Era para l que estavam voltadas agora todas as esperanas de Ccero. 150. 13 Inquisidores interrogam padre ameaado de excomunho. Mas ele quer confabular com o papa 1898-1899 O recinto era claustrofbico. O contraste entre os dois ambientes contguos reforava tal efeito. Entrava-se na saleta de interrogatrios por uma portinhola, aps percorrer um amplo salo de mais de cem metros de comprimento. A magnitude do espao anterior, com tapetes cobrindo todo o cho, quadros renascentistas espalhados pelas paredes, cedia lugar ao minsculo aposento atulhado de livros, no centro do qual havia apenas uma espcie de pdio. De um lado, em posio superior, sentava-se o cardeal inquisidor, devidamente paramentado, com todos os smbolos da autoridade clerical vista. Do outro, em um plano propositalmente mais baixo, ficava o interrogado. O lugar reservado a este, constatou Ccero, era bem desconfortvel. No s pela disposio pouco amigvel do assento, mas pela interminvel coleo de horrores que um lugar como aquele j testemunhara. Na mesma circunstncia um dia estivera Giordano Bruno, poeta, dramaturgo, filsofo e astrnomo, que em 1600 saiu das masmorras da Inquisio amordaado e enviado direto para a fogueira, condenado por heresia. No andar imediatamente inferior, bem debaixo dos ps de Ccero, ficava a cela que funcionara como cmara de torturas, na qual os carrascos arrancavam confisses em nome de Deus, base dos mais variados suplcios. Os tempos eram outros, bem verdade. A Inquisio no mais destroava colunas cervicais com ganchos e colares pontiagudos de ferro. Deixara de pendurar os maus cristos de cabea para baixo com as pernas abertas para depois serr-los ao meio. Tambm no mais ordenava que os hereges fossem queimados vivos em praa pblica. Contudo, o ar sufocante da instituio inquisitorial ainda estava impregnado em todos os corredores e desvos do edifcio. Para qualquer sacerdote, ser interrogado naquela saleta representava uma experincia aterradora. Ccero apresentou-se pela primeira vez ao Palcio do Santo Ofcio na manh do dia 23 de abril de 1898. Sou o padre Ccero Romo Batista, do Juazeiro do Cear, Brasil, suspenso desde 1892, desterrado para longe de uma me e irm, ambas em leito de morte e pobres, de quem eu sou o nico arrimo, dizia o texto que protocolou ao chegar secretaria da congregao, endereado ao cardeal inquisidor Lucido Parocchi. Como no sei italiano, deixo este papel nas mos de Vossa Eminncia, explicou. Durante cinco longas sesses, no curso das trs semanas seguintes, Ccero seria interrogado em carter reservado com o devido auxlio de um intrprete, o padre Jos Machado, reitor da Igreja de Santo Antnio dos 151. Portugueses, templo nacional da colnia lusitana em Roma. Graas a Deus, tenho conscincia de no ter cometido crime algum, defendia-se Ccero na documentao entregue ao Santo Ofcio. Um pormenor, porm, no passara despercebido aos atentos cardeais. Segundo informaes seguras de que eles dispunham, o padre Ccero Romo Batista estava desde fevereiro em Roma. Mas a comunicao deixada por ele na congregao era datada de abril. Portanto, sem nenhum motivo aparente, Ccero adiara por dois meses aquele momento. Na documentao existente nos arquivos do Vaticano, l-se uma anotao dos inquisidores a respeito do assunto: At hoje Ccero no se apresentou ao Santo Ofcio, nem deu notcias de si. Mas logo no incio da carta de apresentao aos inquisidores, ele tratou de justificar a demora: H dias que cheguei a esta capital e, por motivo de doena, agora que pude vir presena de Vossas Eminncias. Era verdade. Uma meia verdade, pode-se dizer. De fato, como seria natural, Ccero ficara indisposto aps trilhar interminveis 10 mil quilmetros na longa viagem por mar e terra, desde o calorento serto nordestino at a invernosa pennsula italiana. No haveria por que desacreditar das alegaes do sacerdote. Entretanto, alm da sade, existiam tambm outros motivos para que ele passasse tanto tempo assim, incgnito, mergulhado em misterioso silncio. Antes de matar a ona, no se faz negcio com o couro, acautelava a sabedoria cabocla de Ccero. Uma cidade majestosa como Roma provocou impresses fortes naquele homem simples do serto que pela primeira vez, aos 53 anos, punha os ps fora do Nordeste: so ruas de palcios agigantados, cheias de povo como formigas, descreveria Ccero ao amigo Joaquim Secundo Chaves, em carta enviada ao Juazeiro. O mesmo se podia dizer do companheiro de viagem, Joo David. Este escrevera para a famlia no Cariri para contar que, no bastasse a friagem insuportvel da Europa, ele tambm sofria por no entender nada do que lhe diziam, do mesmo modo que no se fazia entender por absolutamente ningum. Quando porventura precisava tratar com algum italiano, David prosseguia a fazer uso de um repertrio todo particular de mmicas. Em algumas situaes, segundo admitiu aos parentes, at se fez de surdo-mudo para melhor passar quando lhe dirigiam a palavra. O nico com quem Ccero e David conseguiam encetar alguma conversa propriamente dita, sem precisar desenhar gestos no ar, era o padre Fernandes da Silva Tvora, que, alis, tivera a civilidade de visit-los j no primeiro dia aps a chegada. Como gentileza adicional, padre Fernandes atravessara com eles a recm-inaugurada ponte Umberto I e os levara ao outro lado do Tibre para conhecer a Baslica de So Pedro, o centro da f catlica no mundo, cuja cpula se divisava j ao longe, altiva, na paisagem da Cidade Eterna. Vimos muitas coisas bonitas, escreveu David famlia, com peculiar singeleza. Em contrapartida, mal terminado o passeio, Fernandes fez saber ao bispo do Cear que Ccero se encontrava em Roma. Escrevi a dom Joaquim para dar-lhe a necessria guia desta viagem; ele escreveu-me dizendo que Ccero no se comunicava mais com ele. Afinal, diz que deseja que volte desenganado de sua teimosia, revelou Fernandes em carta a um irmo no Brasil, o tambm padre Carloto Tvora. 152. Sob o pretexto de que havia muitas obrigaes acadmicas a cumprir na Universidade de Santo Apolinrio, padre Fernandes abdicou da tarefa de continuar pajeando o colega, passando o encargo a outro confrade, o padre brasileiro Antnio Versiani de Figueiredo Murta, tambm em temporada de estudos na Itlia. Encarreguei Murta de visitar com Ccero toda a Roma. Mas ele no aguentou mais de dois dias. Em cada altar das 365 igrejas da cidade, Ccero queria rezar meia hora, ironizou Fernandes na carta ao mano Carloto. Padre Fernandes podia ser um homem mordaz, mas pelo menos no era mal-agradecido. Ccero lhe levara alguns mimos do Brasil, ressalvou: Ele trouxe-me belssimo roquete e uma lata de doce de buriti. Embora Ccero continuasse a manter silncio sobre sua chegada, os cardeais inquisidores prosseguiam aguardando sua presena. Estavam advertidos da viagem pelo internncio no Brasil, que por seu turno fora avisado por telegrama enviado pelo bispo de Olinda, dom Manoel dos Santos Pereira, poucas horas antes da partida de Ccero do porto do Recife: Clebre padre Ccero est aqui. Viajou Roma. A enigmtica discrio de Ccero, at ali, tinha uma explicao. Ele chegara com o firme propsito de conseguir ser recebido em audincia por Leo XIII antes de precisar ir bater s portas do Santo Ofcio. Padre Fernandes, contudo, era o primeiro a caoar de tal pretenso: Est aqui o padre Ccero, h uns dezesseis dias e bastante contrariado por no poder ver o papa imediatamente. Tenho-me rido a valer, escreveu ele ao irmo. No fcil uma audincia com o papa, acrescentou. Fernandes achava que aquela expectativa de Ccero podia ser um despropsito, mas tambm ela tinha l seu aspecto positivo. Enquanto aguardava com pacincia beneditina a tal audincia papal, sem perceber o sacerdote turro se deixaria cozinhar em fogo brando. O passar dos dias, das semanas, dos meses talvez o levasse a ficar indefinidamente longe do Brasil. Como consequncia disso, o entusiasmo inicial de Ccero seria fervido em banho- maria. Espero que ele resolva ficar em Roma algum tempo, estudando. Sua ida agora ao Brasil inconveniente, calculava Fernandes. O tempo, senhor da razo, encarregar-se-ia de amortecer o escndalo, imaginava. Mas uma segunda explicao para aquele misterioso silncio de Ccero logo se mostraria plausvel. Ele agiria assim de caso pensado, por motivao prpria, fundamentado em questes estratgicas e bem pragmticas. No se apresentara ainda aos cardeais inquisidores porque aguardava a chegada Itlia de um amigo da mais irrestrita confiana, Jos Joaquim de Maria Lobo, o coordenador da Legio da Cruz no Cear. Lobo, alm de j ter estado antes em Roma e por isso estava relativamente apto a fazer-lhe o papel de guia , trazia na algibeira mais um polpudo donativo ao patrimnio de So Pedro. Em dinheiro brasileiro, cerca de outros sete contos de ris arrecadados pela irmandade, prontos para ser convertidos em barras de ouro no Banco do Vaticano e posteriormente entregues Santa S, como prova da boa vontade e da fidelidade institucional de Ccero Igreja. Quando tomasse conhecimento das vultosas quantias que continuavam a cruzar o Atlntico dentro das malas de Lobo, o bispo dom Joaquim ficaria perplexo: Se o Santo Padre soubesse que algum usou de meios ilcitos, anrquicos e supersticiosos para angariar donativos para a 153. cadeira de So Pedro, sentiria horror e citaria o Evangelho: Vade post me satanas scandalum es mihi [V para longe de mim, Satans; tu s para mim um escndalo]. Cada paraleleppedo de Roma parecia ser testemunha de alguma maravilha. Havia referncias a milagres em cada esquina, cada rua, cada prdio que se descortinava diante dos olhos de Ccero. Ele nem precisava ir muito longe. Apenas algumas centenas de metros adiante do hotel em que estava instalado ficava a Piazza Navona, uma das praas mais famosas da cidade, com suas fontes barrocas idealizadas por Bernini. Na carta ao amigo Secundo Chaves, Ccero descreveu a impresso que sentiu ao contemplar ali a baslica consagrada a santa Agnes, mais conhecida no Brasil como santa Ins, a virgem exposta nua em um prostbulo por se recusar a esposar um nobre pretendente com a justificativa de que j era esposa de Jesus. Ccero, claro, conhecia bem a histria: para ocultar a nudez de Agnes, Deus teria feito crescer-lhe os cabelos de tal modo que o corpo da moa ficara inteiramente coberto por longas madeixas. Mesmo assim, em represlia recusa, foi jogada viva em uma fogueira e depois teve sua cabea decepada por um golpe de espada. A Baslica de SantAgnes in Agone, segundo consta, teria sido erguida exatamente sobre as runas do antigo prostbulo. Foi aqui onde a prenderam, a despiram e um anjo a protegeu da infmia que a maldade de Satans queria. Foi aqui onde a botaram dentro de um grande fogo e a degolaram, explicou Ccero a Secundo. Na mesma regio do hotel, tambm no muito distante dali, estava o templo de Santa Maria della Pace, onde se dizia que no sculo V a imagem de uma Madona teria sangrado aps ser ferida por um soldado embriagado. Bastaria, portanto, olhar em volta. Eram inmeros os prodgios contados de gerao em gerao desde os antigos cristos, maravilhas eternizadas em catedrais de pedra to grandes que quase tocavam o cu. No haveria, desse modo, nenhum disparate em dar f a um milagre de Deus, s porque ele ocorrera do outro lado do mundo, no modesto Juazeiro: Nunca cometi, nem ensinei, nem disse coisa alguma contra o ensino e a doutrina da Igreja, afirmaria Ccero na defesa por escrito que preparara para entregar ao Santo Ofcio. Seria o mesmo argumento que iria expor ao papa pessoalmente, se afinal conseguisse a sonhada audincia. Mas os dias se passavam e nada de se concretizar aquela ideia fixa. Padre Fernandes continuava a dizer-lhe que tal no era impossvel, mas, naquele momento, no muito provvel. Quem sabe precisasse permanecer um bom tempo em Roma para conseguir a oportunidade de agendar uma conversa diretamente com o papa. Quem sabe, talvez, um dia o conseguisse, adoava Fernandes as esperanas de Ccero. Talvez. No dia exato em que completou 54 anos, 24 de maro de 1898, Ccero Romo Batista ficou diante de Leo XIII. No em uma sesso particular como tanto esperava, mas a pequena distncia, durante uma celebrao especial na Sala Rgia do Palcio Apostlico do Vaticano. J era um primeiro passo, imaginou. Na ocasio, quatro arcebispos trs franceses e um espanhol recebiam das mos do papa o chapu vermelho, smbolo de distino queles que so elevados condio de cardeal. Hoje, que fao anos, vspera da Anunciao da me de 154. Deus, ela me alcanou a graa de ver o papa, o representante de Jesus Cristo na terra, contou Ccero me, por meio de uma carta emocionada. Assistia [ cerimnia] um nmero imenso de gente, vendo-se estrangeiros de toda parte. Pareceu-me que, na sala onde eu estava, s tinha de brasileiros eu e o Joo David. Aquela regalia foi obtida por obra e graa da influncia do padre Fernandes, que usou de suas amizades no Vaticano para franquear o acesso dos dois conterrneos solenidade. Consegui para eles bilhetes de entrada do mordomo do pao, coisas que s vezes nem por meio dos embaixadores se conseguem, gabou-se Fernandes em carta a outro irmo, Belizrio Tvora. Ccero ficou maravilhado, conforme narrou para os de casa. Aquela carta, escrita no dia do seu aniversrio natalcio, seria lida em voz alta para dona Quin. A essa altura, a velha senhora se encontrava presa a uma cama, pois a velhice a deixara, aos poucos, com a vista apagada e os movimentos limitados. Quase cega, quase paraltica, Quin soube mais detalhes da manh em que o filho ps os olhos na figura do sumo pontfice, numa solenidade oficial do Vaticano: realmente um ato to admiravelmente majestoso que por a no se pode fazer uma ideia. Causou-me a maior impresso e eu me admirava de estar ali. Mas enquanto todos estavam cheios de satisfao, a minha alma estava triste, me lembrando da minha me cheia de dores e chorando. Dona Quin soube ainda que Ccero, alm de ver Leo XIII, tambm tivera o privilgio de subir de joelhos os 28 degraus da chamada Escada Santa, no interior da Baslica de So Joo de Latro, bem ao lado do Palcio Laterano, a residncia oficial do papa. Acredita-se que a escadaria contenha os mesmos degraus do antigo palcio de Pncio Pilatos, nos quais Cristo subira e descera no dia em que foi condenado morte por crucificao. Trouxeram-se os degraus de Jerusalm para Roma ainda no sculo IV, por intercesso de santa Helena, me de Constantino, o imperador que instituiu o cristianismo como religio oficial no antigo Imprio Romano. Quatro partes dos degraus, onde se conservam ainda algumas parcelas do precioso sangue de Nosso Senhor, esto cobertos com uma roda de vidro, descreveu Ccero me. Eu fiquei impressionado, como se estivesse vendo Nosso Senhor subindo e eu o acompanhando. Como sempre, na carta seguiam conselhos para as beatas que moravam na casa, mais expressamente para Joana Tertuliana de Jesus, 34 anos, que desde os 21 adotara o hbito religioso e passara a residir ali. Apelidada de Mocinha, Joana assumira o papel de uma espcie de tesoureira, cabendo a ela a administrao das finanas pessoais do sacerdote. Os impostos das casas encarregue ao mestre Jos Edwirges ou outra pessoa para ir pag-los, trazer os recibos e guard-los pregados em um livro para no se perderem, recomendou. De Roma, podia-se constatar, Ccero zelava pelas coisas do Cu, mas tambm no descuidava das questes mais terrenas. A hiptese de que Ccero apenas aguardava a chegada de Lobo para se apresentar ao Santo Ofcio se confirmou. Lobo desembarcou em Roma em fins de maro, trazendo com ele um abastado comerciante de Juazeiro, Joo Batista de Oliveira. No dia 18 de abril, os dois 155. pessoalmente fizeram a entrega da quantia de 6:790$400 (seis contos, setecentos e noventa mil e quatrocentos ris) ao tesouro de So Pedro. No tardou e, cinco dias depois, Ccero encaminhou a correspondncia ao cardeal Lucido Parocchi, secretrio da Inquisio, comunicando-o oficialmente de sua presena na cidade. Afirmava que vinha defender-se das penalidades que recaam contra si e implorava aos cardeais que seu caso fosse analisado no mais curto espao de tempo: Como sou pobre e vindo da Amrica, tendo necessidade de voltar para l, humildemente peo a Vossas Eminncias queiram despedir com a brevidade possvel este negcio. O argumento de que era um homem necessitado poderia parecer incompatvel com os 22 contos de ris que trouxera na arca que lhe servira de mala. Todavia, absolutamente certo que aquela pequena fortuna em moeda brasileira logo no estaria mais em seu poder. Ccero converteu em liras italianas cada moeda que levava. Depois, honrou o compromisso que havia firmado com os doadores no Brasil: mandou celebrar todas as missas que haviam lhe encomendado os verdadeiros donos daquela montanha de dinheiro. Em uma folha de papel, Ccero anotou de forma meticulosa o destino de cada tosto recebido, prestando contas de um total de 11354 missas, mandadas rezar em diferentes templos de Roma. Ao lado dos valores, escreveu em letra clara, a nanquim, os nomes dos respectivos padres beneficirios. Numa terceira coluna, firmou as quantidades de celebraes referentes a cada um desses sacerdotes. Na soma geral, o pagamento das esprtulas pelas missas equivalia a corretos 22 contos de ris. Um detalhe saltava vista naquelas anotaes: boa parte das missas, 2600 delas, foi confiada por Ccero diretamente ao cardeal Parochi, o secretrio inquisidor. Padre Fernandes ficou abismado: Caso Ccero resolva ficar aqui, provvel que eu deixe a academia para morar com ele e servir-lhe de tutor, pois ele quer dar todos os vintns que trouxe do Brasil, no se lembrando que impossvel estancar todos os sofrimentos do povo italiano, comentou ao irmo Belizrio. Uma vez encomendadas as 11 mil missas, Ccero passou a se ver diante de um problema que o afligiu a maior parte do tempo de sua permanncia em Roma: a falta de recursos para se manter na cidade. A situao tornou-se ainda mais crtica quando percebeu que no conseguiria cambiar em liras italianas os muitos pataces reservados para financiar seus custos pessoais durante a viagem. Os pataces, antigas moedas de prata dos tempos coloniais que ainda estavam em circulao e equivaliam a 960 ris no Brasil, no eram facilmente aceitos pelos bancos italianos. Estou numa condio apertadssima, confessou ento ao padre Fernandes. Mas muito mais apertado ficou o corao do padre Ccero Romo Batista quando ele foi comunicado oficialmente de que estava sendo esperado, no dia 28 de abril, no Palcio do Santo Ofcio. Seria submetido ao primeiro interrogatrio secreto, na sala da Inquisio. Dom Joaquim desconfiou que, do outro lado do mundo, padre Fernandes Tvora estivesse fazendo o papel de agente duplo. verdade que ele continuava a lhe enviar informaes detalhadas, mantendo-o a par da marcha dos acontecimentos em Roma: Hoje, Ccero foi interrogado pela quarta vez pelo Santo Ofcio em segredo, tendo como intrprete o reitor do 156. santurio portugus, escreveu Fernandes, por exemplo, no dia 4 de maio de 1898. Mas uma carta annima que chegara em envelope selado com estampilhas italianas deixou o bispo ressabiado. A mensagem dizia que padre Fernandes traa a confiana de dom Joaquim por trs das cortinas da Universidade de Santo Apolinrio e aderira causa de Ccero, aps entendimentos com Lobo. A acusao era grave. Dava a entender que a honra do bispo cearense passara a ser enxovalhada por Fernandes junto ao Santo Ofcio, no intuito de desacreditar a diocese em relao ao caso de Ccero. Depois de ler a carta, dom Joaquim tratou de rasg-la em pequenos pedaos e depois queim-la, para no deixar pistas posteridade sobre o contedo integral que ela trazia. Entretanto, a correspondncia imediatamente posterior do palcio episcopal deixaria evidentes os transtornos semeados por aquela mensagem sem assinatura, cuja verdadeira autoria nunca foi elucidada. Alarmado com a notcia, dom Joaquim resolveu dar parte dela ao internncio dom Jos Macchi, que em fevereiro assumira o cargo de representante do Vaticano no Brasil, em substituio a dom Gotti, elevado a cardeal e transferido para a Igreja de Santa Maria della Scala, na Itlia. O bispo foi direto ao ponto: Julguei, depois de muito refletir, que devia levar a seu alto conhecimento o seguinte fato: recebi uma carta annima de Roma, comunicou dom Joaquim a dom Macchi. Nunca me passou pelo esprito que ele [Fernandes] tivesse feito to torpe e miservel contrato com Jos Lobo, conforme afirma a carta, continuou. No irei me defender das acusaes que porventura me foram feitas perante o Santo Ofcio, porque seria extempornea qualquer defesa sem que o Santo Ofcio a exigisse. Em resposta, o internncio cuidou de pr gua fria naquela guerra de bastidores dentro da Igreja e tranquilizou o bispo: at aquele instante, ningum do Vaticano o interpelara a respeito do assunto. No tenho notcia de que o cnego [Fernandes] Tvora tenha se permitido em Roma os manejos que o annimo escreve em detrimento de Vossa Excelncia, informou. De resto, Vossa Excelncia nada tem a temer. A Congregao do Santo Ofcio ter de toda maneira bem compreendido a falsidade e a maldade de tais acusaes. Dom Joaquim, ainda intranquilo, decidiu dividir as preocupaes com seu lugar-tenente no Crato, monsenhor Alexandrino. Enviou-lhe uma carta para cientific-lo do ocorrido, mas ordenou que logo aps a leitura destrusse tambm o papel, de modo a no deixar que ningum nunca o lesse. Alexandrino se disse espantado com a suposta deslealdade de Fernandes. Sugeriu ao bispo toda a cautela do mundo, mas o sossegou em relao ao sigilo no qual deveria permanecer o assunto: A carta em que Vossa Excelncia se refere ao monsenhor Fernandes foi inutilizada logo depois de recebida e lida, avisou. Afora isso, Alexandrino no tinha muitas notcias sobre o estado das coisas em Juazeiro para transmitir ao bispo. Passara a sofrer de uma obesidade quase mrbida, chegara marca dos 130 quilos e, por isso, tinha dificuldades de ir at o povoado para saber como aquela gente estava vivendo sem a presena de Ccero. Seu poder de locomoo estava comprometido, uma vez que nenhum cavalo era suficientemente forte para suportar seu desmedido corpanzil sobre a sela. Mas de uma coisa Alexandrino tinha certeza: pelo que se podia depreender de todos os cuidados do bispo em torno da tal carta annima, o caso era cabeludo. Dom Joaquim passara a temer que as articulaes de Lobo e Fernandes, em Roma, pudessem comprometer-lhe o nome e, em decorrncia disso, representar uma reviravolta no 157. julgamento de Ccero no tribunal do Santo Ofcio. Ccero sabia que no podia ser afoito a ponto de confrontar um inquisidor sem o risco evidente de ser considerado, de sada, culpado de todas as acusaes. Por isso, ao longo das cinco sesses do interrogatrio no Palcio do Santo Ofcio, mostrou-se um homem cauteloso e reverente. Acima de tudo, declarou que se submeteria de forma incondicional a qualquer que fosse a deciso do tribunal. Para ele, estava claro, o mais importante naquele instante no era fincar p, tentar convencer os cardeais a endossarem o alegado milagre da hstia. Interessava mais a Ccero, a partir daquele ponto, recuperar as prerrogativas sacerdotais que lhe haviam sido suspensas. Esta passara a ser sua causa. Queria voltar ao Brasil revestido do direito eclesistico de rezar missa, celebrar sacramentos e poder voltar a residir no Juazeiro. Se fosse preciso sufocar as prprias convices em nome disso, no hesitaria em faz-lo. A histria havia ensinado que Galileu Galilei escapara da morte na fogueira ao desmentir sua firme certeza de que era a Terra que se movia em torno do Sol. Pressionado a se contradizer, Galileu nunca abandonou sua teoria. Reza a lenda que, ao final do julgamento, at teria murmurado a frase clebre: Eppur si muove (E, no entanto, ela se move). Com Ccero, respeitadas as devidas propores, resguardadas as contingncias histricas especficas, parecia ocorrer algo ento semelhante. A diferena que, ao declarar obedincia irrestrita aos inquisidores, ele no chegou propriamente a admitir uma possvel culpa. Na documentao que deixou por escrito ao Santo Ofcio e que seria conservada nos arquivos secretos do Vaticano, afirmou que no havia dvida sobre a verdade e a sinceridade do suposto milagre em Juazeiro. Mas, ainda assim, no se considerava um rebelde. Longe disso. Apenas seguira todos os trmites necessrios. Se apelara ao Santo Ofcio, era porque a lei cannica assim lhe facultava. Como tal, no pedia clemncia. Dizia pedir apenas justia e compreenso. Se o mandassem esquecer o assunto, acataria. Pela graa de Deus, sempre fui e sempre serei obediente, como filho submisso, doutrina da Santa Igreja, definiu. Assim, peo que seja encerrado o meu julgamento. Era, sem dvida, uma engenhosa estratgia de defesa perante um tribunal eclesistico, no qual a obedincia sempre ser considerada a maior virtude de um cristo acusado de rebeldia. Se no chegou a negar o milagre, Ccero tambm no se mostrou intolerante possibilidade de sua no aprovao cannica. Portanto, no correspondeu imagem de fantico e de celerado com a qual o haviam pintado as autoridades do clero no Brasil. De todo modo, diante do longo e acidentado histrico do caso, era difcil prever qual a interpretao que o Vaticano reservaria para aquela ponderada atitude de Ccero. Encerrados os interrogatrios no dia 12 de maio, o Santo Ofcio dispensou-o, mas ordenou que permanecesse em Roma para aguardar as deliberaes finais a respeito do assunto. Se necessitassem de mais esclarecimentos, voltariam a convoc-lo. Ccero Romo Batista agora tinha pressa. O Vaticano, como sempre, no. No dia 9 de junho, menos de um ms depois de ter sido interrogado pela ltima vez, Ccero escreveu uma carta ao cardeal Gotti, o ex-internncio do Brasil que j se encontrava na Itlia. Pedia-lhe que intercedesse a seu favor junto ao Santo Ofcio. A nica coisa que queria, por ora, era a permisso para retornar o quanto antes para casa. Dali a trs dias, 12 de junho, sairia de 158. Gnova um vapor para o Brasil e Ccero gostaria de poder estar a bordo dele. Alegava que a falta de dinheiro e as notcias de que a me se encontrava com a sade cada vez mais debilitada eram determinantes para essa sua manifesta vontade. Vossa Eminncia, em nome da caridade crist, interceda por mim, suplicou a dom Gotti. De nada adiantou, todavia, o pedido. Os cardeais queriam mais tempo para anunciar a deciso. No dia 11, j sabendo que ele e Joo David haviam perdido o vapor, Ccero escreveu para casa: Minha me e Anglica Deus as abenoe. Seguem hoje Jos Lobo e Joo Batista. Eu ainda me vejo na necessidade de demorar-me. Porm, querendo Deus, estou com inteno de seguir no vapor de 28 de junho ou em 12 de julho. Graas a Deus temos tido sade. Peam Santssima Virgem que me leve sem demora, em sua santa paz. Mando por Jos Lobo para o pessoal de casa um pouco de terra do lugar onde foi enterrada a cruz em que morreu so Pedro. De seu filho que muito a estima e lhe pede a bno. Padre Ccero Romo Batista Para Ccero, as horas pareciam se arrastar. Dias viravam semanas, semanas viravam meses. Um despacho interno do Santo Ofcio datado de 22 de junho revelava que, assim como padre Fernandes fizera antes, os cardeais inquisidores tambm passaram a adotar a ttica de reter o padre em Roma o tempo que fosse possvel para serenar-lhe os nimos: Retornando ele ao seu lugar, excitaria de novo aquele povo simples e ignorante. Ainda mais que declarou no poder acreditar que sejam imposturas as coisas daquela mulher [Maria de Arajo]. Para atenuar as apreenses de Ccero quanto aos custos decorrentes do prolongamento de sua permanncia em Roma, o cardeal Parocchi informou que ele podia entregar a chave do quarto no Albergo dellOrso. Passaria a ocupar um aposento em uma instituio religiosa, o Palcio da Arcdia, anexo Baslica Santi Ambrogio e Carlo Al Corso, a cerca de meio quilmetro da hospedagem anterior. Mesmo sem precisar pagar dali por diante pela estada, Ccero precisava economizar as poucas liras que lhe restavam. Teria de custear a viagem de volta e havia ainda as despesas com locomoo pela cidade. Por isso, no teve pudores em recorrer ao doutor Mendo Sampaio, irmo de Sebastio Sampaio, o amigo do presidente de Pernambuco que havia lhe concedido o emprstimo de um conto de ris antes da viagem. A necessidade me obriga a pedir que se lhe for possvel mande-me o saque da quantia de 750 mil-ris para eu receber aqui no banco ingls de Roma, escreveu-lhe. Para reforar o apelo, mandou recado tambm ao doutor Lima Borges, o juiz de direito de Salgueiro. Quando eu pensava embarcar para a no primeiro vapor, um dos empregados do Santo Ofcio me disse que eu ainda no podia ser despachado com tanta brevidade, comentou. para mim uma dificuldade to grande que dou graas a Deus se conseguir me sair bem dela. Mais de dois meses aps a data do ltimo interrogatrio, quase meio ano decorrido desde a chegada de Ccero a Roma, os cardeais permaneciam deliberando. Nem sei mais quando irei, mandou avisar em correspondncia me. J me parece um sculo o tempo que estou fora da, lastimou. Alm da demora protocolar do Santo Ofcio, havia nova preocupao a atorment-lo: Ccero tivera conhecimento de que o Cear enfrentava mais um ano de seca. Assim sendo, tratou de relevar as prprias aflies para se preocupar com os de casa. 159. Anglica, no deixe as meninas de dona Leopoldina, Josefa e Rosa passarem fome. Quanto a si mesmo, sentia-se prisioneiro das circunstncias: At agora, nem notcia da quantia que mandei tomar em Pernambuco. E, aqui, no sei quando me querero soltar, comunicou a padre Fernandes. Se o objetivo do Santo Ofcio era mesmo minar lentamente as esperanas de Ccero, a estratgia estava surtindo efeito. Em carta ao amigo Secundo, confidenciou: Se eu no tivesse tantos laos que me prendem, nunca mais voltava ao nosso Brasil, no porque eu no o ame muito, mas porque os desgostos me encheram a vida de tantos abrolhos e espinhos que s aspiro um cantinho esquecido e desapegado de tudo, cuidando s de me salvar. Justamente para Joaquim Secundo Chaves iam as cartas mais detalhadas de sua longa peregrinao por Roma. Por meio delas, era possvel mapear os principais passos do padre na Cidade Eterna. Hoje encaminhei-me para a rua do Coliseu, passei ao p desta imensa montanha de construo humana, cujo solo foi embebido pelo sangue de muitos milhes de mrtires, escreveu, referindo-se aos cristos que eram supliciados e atirados aos lees na arena de anfiteatros romanos. Sempre acompanhado de Joo David, fazia questo de recolher alguma pequena recordao para enviar aos amigos no Juazeiro. Se mandara para a me um pouco da terra onde fora crucificado so Pedro, tambm colheu uma flor no sepulcro dos Cipio e a mandou dentro do envelope de uma das cartas a Secundo. Nas catacumbas de So Calixto, guardou para levar para casa um pouco da cera derretida dos archotes que lhes clarearam o caminho at os subterrneos, onde esto empilhados restos mortais dos primeiros cristos. Finalmente, em 17 de agosto, em meio s visitas de Ccero a lugares sagrados, o Santo Ofcio expediu a deciso final sobre o caso. Mas quando o padre foi procurado para ser cientificado do veredicto, ningum o encontrou em Roma. Encarregado de localiz-lo, o padre portugus Jos Machado, que servira de intrprete durante os interrogatrios, informou congregao que no tinha a mais remota ideia de onde o sacerdote brasileiro poderia estar. Fazia semanas que no o via. Tudo indicava que havia fugido para no receber a sentena. Os cardeais inquisidores no pensaram duas vezes. Escreveram imediatamente aos superiores hierrquicos de Ccero no Brasil: Tendo o reverendo Ccero Romo Batista se evadido sem licena da Sagrada Congregao, saibam o bispo de Fortaleza e o internncio apostlico que ele deve ser considerado suspenso a divinis at que se apresente a este Supremo Tribunal do Santo Ofcio. A informao foi abertamente comemorada no palcio episcopal em Fortaleza, mas tudo no passara de um mal-entendido. Meses antes, o padre Machado convidara Ccero para se hospedar em sua residncia paroquial, sem saber que ele preferira ficar instalado no prdio ao lado da Igreja de San Carlo, como lhe permitira o cardeal Parocchi. Por isso, quando o Santo Ofcio solicitou ao intrprete oficial que fizesse contato com o interrogado, deu-se o equvoco. Tudo era disposto para que ele fosse aqui recebido, se isto no aconteceu depende exclusivamente do mesmo padre Ccero, do qual no tive mais notcias, relatou Machado aos inquisidores. Somente duas semanas aps armada a confuso, Ccero soube que a congregao o tinha na conta de um insolente desertor. Assim, no dia 1o de setembro, ele correu ao Palcio 160. do Santo Ofcio para dizer que sempre estivera alojado, todo aquele tempo, pacientemente, no abrigo que lhe fora oferecido pelo cardeal Parocchi. Desfeito o engano, com auxlio da traduo simultnea do padre Machado, Ccero ouviu os pontos que lhe diziam respeito no novo decreto emitido pela Inquisio sobre o caso. Antes da leitura do documento, os inquisidores o advertiram que tudo o que estava disposto nos decretos anteriores continuava em plena vigncia. Ccero tinha uma ltima possibilidade de ser perdoado, desde que cumprisse duas exigncias bsicas. Textualmente, dizia o decreto: Deve-se estar pelo que foi decidido nos decretos de quarta-feira, 4 de abril de 1894 e quarta-feira, 10 de fevereiro de 1897, et ad mentem. Mens est: 1) que com prvia sujeio formal, simples e absoluta aos decretos antecedentes do Santo Ofcio, e com retratao e detestao dos fatos e palavras que nos mesmos decretos so condenados, proscritos e proibidos, e implorando o perdo das desobedincias, resistncias, tergiversaes e pretextos passados e de todas as irreverncias cometidas mesmo s por cooperao e aprovao acerca dos fatos do Juazeiro e outros tais, e imposta salutar penitncia, seja absolvido o reverendo senhor Ccero das censuras em que de algum modo tenha incorrido, e seja despedido com grave advertncia e com proibio de falar ou escrever sobre coisas do Juazeiro e outras semelhantes. 2) que o reverendo Ccero no seja mais admitido pregao da palavra de Deus, a ouvir confisses e direo das almas sem especial licena do Santo Ofcio, e, se possvel, v para outra diocese. Feita a proclamao daquele veredicto, foi perguntado a Ccero se ele se submeteria, em definitivo, a ele. Naquele instante, no restava escolha, no havia meio-termo, nenhum espao para ambiguidades. Se dissesse no, provavelmente seria excomungado ali mesmo. Se dissesse sim, seria readmitido no seio da Igreja, desde que cumpridas as salutares penitncias previstas no primeiro item. Chegara a hora da verdade para Ccero, que, evidente, tinha plena conscincia da gravidade daquele momento. Prometo observar tudo o que me foi imposto, respondeu. Era exatamente isso o que os inquisidores precisavam ouvir. Diante daquele compromisso formal, deram por encerrado o julgamento. Como penitncia, apenas mandaram Ccero rezar o rosrio trinta vezes seguidas e disseram que, depois disso, ele podia arrumar as malas e retornar ao Brasil. Estava absolvido, desde que no se desviasse do caminho rigorosamente traado linha a linha daquele ltimo decreto. Em suma, no podia nunca mais falar ou escrever sobre os supostos milagres em Juazeiro, mantendo um silncio obsequioso sobre o caso para o resto da vida. S poderia exercer a plenitude dos sacramentos dali por diante sob licena expressa do Santo Ofcio. E se possvel, como lhe ordenaram, deveria ir para outra diocese. Se possvel, o que estava escrito no decreto. Para Ccero, aquela expresso, na condicional, soou como a trombeta do anjo redentor. Foi uma montanha que tiraram de cima de mim, definiu Ccero, em carta ao padre Joo Carlos, vigrio de Salgueiro. E comparou: Creio que foi a Virgem que fez tudo. Fui um verdadeiro nufrago quase sem esperana, sem poder voltar, e sem ter recursos para estar aqui. Faa ideia que angstias e aflies no passei. S Deus sabe. A calnia, com audcia e autoridade, moveu uma perseguio que deu na morte de Jesus Cristo; quanto mais a mim que de nada sei defender-me. 161. Aliviado, Ccero escreveu tambm ao padre Fernandes para dizer que j estava cuidando da volta ao Brasil: Querendo Deus embarco no vapor de 12 de outubro. Estou ansioso por ver os meus e abraar minha velha me, que me receber como um Jos que julgava ter perdido e agora vive. Havia outras boas novas a contar a Fernandes: enfim chegara o dinheiro que mandara pedir aos amigos do Recife. Agora que estou desafogado que vou respirando o ar de Roma, mas a necessidade de voltar e as minhas finanas me comprimem, no obstante ter recebido de Pernambuco um presente principesco de amizade cordial. Mas s chegou para salvar-me das dvidas que me tinha visto obrigado a fazer aqui e para a passagem de Joo David. A carta mais longa e reveladora, todavia, foi mesmo para a me. Ccero contou a dona Quin que o navio que iria partir de Gnova o deixaria no porto do Recife em alguns dias. Mas, em vez de voltar logo direto da capital pernambucana para o Juazeiro, ele iria antes at Fortaleza, para cumprir a obrigao de se entender com o bispo. Depois disso, o plano era chegar ao povoado sem maior alarde. O meu desejo voltar e chegar em casa na hora que menos me esperem. E como pretendo viver uma vida retirada, depois de tanta luta e tanta angstia, intenciono ir fazer a minha morada quase toda no Horto, l celebrando a maior parte dos dias, comentou. Ccero dava instrues prvias a fim de que a mudana para a serra do Catol fosse ultimada: Diga ao mestre Jos que no deixe carregarem a cal que estava no Horto. Pode acontecer de quando eu chegar precise dele. Ele prepare aquela sala menor da casa do Horto, faa o altar como o da igreja, forre por cima com um assoalho de tbua, [de modo] que fique uma capelinha para celebrar o santo sacrifcio de missa. Ao fim, Ccero alertava famlia: nada de festas e ufania quando de seu retorno. No quero que isso seja uma coisa pblica, fique somente em casa. Se puderem, alimpem a Igreja, tambm sem fazerem novidade. Pelo que se podia entender daquelas palavras, Ccero estava mesmo disposto a terminar seus dias recolhido ao topo da serra. Se eu no queria nada do mundo, agora ainda estou querendo menos, avisou me. Antes de partir de Roma, ele encaminhou ao cardeal Parocchi uma solicitao para que lhe fosse permitido erigir o altar particular em sua casa do Horto. O cardeal, de imediato, autorizou Ccero a faz-lo. Perante aquela aprovao peremptria, o padre ficou absolutamente convencido de que estava tudo resolvido em relao a seu futuro, embora no ntimo ainda temesse outros embates com o bispo diocesano: Peo a Deus que no Cear alguma nova tempestade no caia sobre mim. O demnio no dorme, e a casa onde h o baixo emprego de delator no goza paz, previu em mensagem ao padre Fernandes, poucos dias antes da volta. Com efeito, no palcio episcopal de Fortaleza, as prevenes contra o padre ainda estavam de p. Dom Joaquim interpretou de modo diverso o novo decreto do Santo Ofcio, cuja cpia lhe foi remetida em carter oficial pelo internncio. Pelo que entendera do texto, o prelado no considerou que a deciso deixava Ccero livre das punies anteriores, como ele prprio parecia haver entendido. O bispo se apegava ao cabealho do documento, que determinava: Deve-se estar pelo que foi decidido nos decretos de quarta-feira, 4 de abril de 162. 1894, e quarta-feira, 10 de fevereiro de 1897. Ora, na avaliao de dom Joaquim, aquilo significava que todas as punies contra Ccero estavam mantidas, inclusive a determinao anterior do Santo Ofcio para que ele no mais residisse no Juazeiro, sob pena de excomunho. Por isso, ficou inconformado quando recebeu uma carta de Ccero, enviada de Roma, na qual o sacerdote afirmava estar voltando ao Brasil devidamente anistiado de toda e qualquer culpa: Fui absolvido das censuras que pudesse ter incorrido e me foi dada a faculdade de celebrar o santo sacrifcio da missa e de voltar para casa, como o mesmo Santo Tribunal comunicar a Vossa Excelncia Reverendssima. Na verdade, nos termos em que foi publicado, o decreto deixara a porta aberta para a instalao de nova ciznia. O Santo Ofcio definia que as penas anteriores continuavam vlidas, mas no sustentava a obrigatoriedade da sada de Ccero do Cear. Deixara apenas a sugesto para que ele assim o fizesse, se possvel (se fiere potest, no original em latim). Pelo que dom Joaquim conhecia de Ccero, munido de tal possibilidade, o padre no mais arredaria p da provncia. Em carta nunciatura, o bispo revelou que faria de tudo para tentar evit-lo: Farei o possvel para que ele se resolva a mudar-se daqui, onde ele ser sempre um elemento de desordem, por ter o esprito mal equilibrado. Se eu puder conseguir isso, darei mil graas a Deus. Dom Joaquim no estava jogando palavras ao vento. Os ltimos momentos de Ccero na Itlia foram marcados por dois grandes jbilos pessoais. Em 5 de setembro, atendendo a um ofcio que encaminhara no dia anterior ao cardeal Lucido Parocchi, foi-lhe autorizado rezar missa em Roma, na Igreja de San Carlo al Corso, o que punha fim interdio sacramental a que estava submetido havia quase trs anos. Ccero festejou o episdio deixando uma anotao nas pginas de seu brevirio: Celebrei o santo sacrifcio da missa na Igreja de So Carlos, no altar de Nossa Senhora das Dores, em Roma, por ordem do Santo Ofcio e do cardeal Parocchi. Sem dvida, para quem acabara de passar por um julgamento na Inquisio, era uma inconfundvel demonstrao de confiana por parte de seus juzes. O segundo motivo de regozijo para Ccero foi ainda mais reconfortante. Exatamente no ltimo dia de sua estadia em Roma, com a intermediao da embaixada brasileira na Santa S e sob a anuncia do cardeal Parocchi, ele foi admitido em presena de Leo XIII. Seriam apenas breves instantes, enquanto o pontfice atravessava o caminho de uma sala a outra. Mas foi o suficiente para que Ccero finalmente realizasse o desejo de estar pessoalmente, e a ss, com o papa. Em outra pgina do brevirio, descreveu o rpido encontro com o chefe supremo da Igreja Catlica: Hoje, 6 de outubro de 1898, ao meio-dia, dia de So Bruno, tive audincia com o Santo Padre. Fui apresentado por monsenhor [Ottavio] Cagiano de Azevedo [bispo encarregado da chefia de gabinete do papa] e falei, s, ao Santo Padre e lhe ofereci um rosrio de ouro da Santssima Virgem e ele benzeu dois crucifixos que intenciono dar um a meu bispo, o senhor dom Joaquim, e o outro ao senhor bispo de Olinda, dom Manoel. noite, ainda sob o impacto daquela audincia relmpago, Ccero j se encontrava no trem a caminho de Npoles. De l pegaria o primeiro navio em direo ao porto internacional de Gnova. Permaneceria praticamente um ms e meio em trnsito, antes de chegar a 163. Fortaleza. S no dia 12 de outubro o vapor que lhe traria de volta ao Brasil zarpou de Gnova a caminho de So Vicente, litoral paulista, onde ancorou j no entardecer do dia 20. Depois de uma escala de mais 24 horas para reabastecimento, a embarcao seguiu para o Recife, no que levou outros seis dias no mar. Como j era madrugada quando o navio alcanou a capital pernambucana, foi preciso que os passageiros passassem mais uma noite a bordo. Aps compromissos junto aos amigos recifenses por mais duas semanas, Ccero partiu ento para Fortaleza, onde enfim aportou no dia 13 de novembro. Estava exausto. Mas ainda teria de encontrar foras adicionais para enfrentar as resistncias do bispo. Dom Joaquim estava bem precavido. Sabia que Ccero chegara debaixo do juramento de obedincia ao Santo Ofcio, mas o bispo no punha mais f na sinceridade do padre: No acredito em tais promessas, em vista da experincia de nove anos, declarou, em correspondncia oficial ao internncio dom Macchi. No adiantou Ccero dizer que j havia prometido total obedincia aos inquisidores. Tampouco surtiu efeito reafirmar, perante o bispo, que manteria silncio absoluto dali por diante sobre os proclamados milagres de Juazeiro. Dom Joaquim estava irredutvel. Continuava a se amparar no fato de que o novo documento do Santo Ofcio confirmava textualmente a vigncia dos decretos anteriores. Por esse motivo, ainda que os cardeais houvessem restabelecido prontamente o direito de Ccero celebrar missa em Roma, continuaria sem poder faz-lo no Juazeiro. O padre estava autorizado a celebrar em qualquer outro lugar do Cear, mas no no povoado e suas circunvizinhanas. Dei licena ao reverendo Ccero para celebrar nesta diocese; menos, porm, no Juazeiro, centro estratgico das imposturas e supersties que tanto mal tm causado ao povo ignaro, cientificou dom Joaquim nunciatura. Pelo mesmo raciocnio, o bispo no endossou o direito de o padre manter um altar, ainda que privado, no alto da serra do Catol, como antes os inquisidores haviam permitido. A justificativa era que o local prosseguia sendo destino de peregrinao, desde a interrupo das obras da grande igreja. A presena de Ccero ali s provocaria o recrudescimento das romarias. De acordo com dom Joaquim, o melhor era o padre seguir risca o conselho do Santo Ofcio. Procurasse outra diocese para viver dali por diante. Ccero ficou chocado com a interpretao que o bispo dera ao decreto. Era como se todo o esforo despendido na viagem a Roma, todas as conquistas junto aos cardeais inquisidores, tudo houvesse sido em vo. De um lado, o padre dizia que o Santo Ofcio consentira na sua volta ao Juazeiro o que inclusive lhe teria sido comunicado pessoalmente pelo cardeal Parocchi , embora tivesse de admitir que tal prerrogativa no fora documentada em nenhum despacho oficial. De outro, dom Joaquim afirmava que, sem declarao formal por escrito, ficava o dito pelo no dito. Ccero estava autorizado a voltar para casa, mas apenas temporariamente, a fim de providenciar sua mudana definitiva. Tinha exatos dois meses para preparar a famlia. No Juazeiro, no mais poderia ficar. No Horto, idem. Rezar missa, s inegocivel distncia de, no mnimo, trs lguas do povoado. Dom Joaquim mostrava-se particularmente incomodado com a verso que corria no 164. interior da diocese: o papa teria desmoralizado a autoridade do bispo, restaurando todas as ordens de Ccero. Para que no pairassem mais dvidas sobre o assunto, resolveu publicar, um dia aps o Natal daquele ano de 1898, a quarta e ltima carta pastoral a respeito do Juazeiro. O palcio episcopal julgava que aquela seria o derradeiro palmo de areia sobre o caso. Seria um documento contundente, redigido por dom Joaquim em linguagem demolidora, sem fazer concesses a nenhuma espcie de comedimento verbal. A primeira reprimenda era reservada Legio da Cruz, que segundo aludia o bispo fora organizada com um nico desgnio: tentar subornar o Tribunal do Santo Ofcio. Pretendia-se, por esta forma, apresentar em Roma, com a oferta de soma relativamente considervel, fervoroso zelo pela cadeira de So Pedro, no intuito de atrair-se o Santo Ofcio em favor dos pretensos milagres. Jos Joaquim de Maria Lobo era tratado na carta pastoral como o Lobo do Juazeiro. Quando chegara de Roma, trouxera milhares de pequenas cruzes de madeira, que distribua aos romeiros, afirmando terem sido bentas pelo papa: Isso aumentou ainda mais o fanatismo daquela pobre gente, pois dizem que quem possuir uma dessas cruzes tem a salvao garantida, ainda que cometa os maiores pecados, acusou dom Joaquim. Cravam cruzes nas rvores beira das estradas por onde transitam e cobrem tambm de cruzes os cavalos em que viajam. Mil outros disparates acompanhados de cenas grotescas e imorais, que o decoro manda calar, tm esses fanticos praticado. Entretanto, o bispo afirmava na carta pastoral que o Lobo do Juazeiro era um mero coadjuvante de toda a histria. Havia um culpado maior pelas intrujices destinadas a velhaquear os tolos e ludibriar os crdulos: ele mesmo, o padre Ccero Romo Batista. o principal responsvel, se no o nico culpado, de todos esses abusos e prevaricaes praticadas em seu nome e alguns com seu manifesto apoio. Explicava: Os culpados dessas desordens religiosas e morais so seus amigos ntimos, convivem com sua reverendssima, a quem escutam como a um orculo, de sorte que uma s palavra sua, um s gesto seu que houvesse reprovado tais desregramentos, tudo seria cessado imediatamente. Por fim, a incisiva carta pastoral comunicava a todos os diocesanos que Ccero, ao se submeter em Roma aos decretos condenatrios do Santo Ofcio, fora realmente absolvido da suspenso de rezar missa. Mas, ao contrrio do que procuraria fazer crer, permaneciam todas as disposies anteriores, a exemplo da proibio de ministrar a eucaristia e a ordem de se manter afastado do Juazeiro: Este sacerdote, que , e sempre foi, de bons costumes, tambm , e sempre foi, de tal modo tenaz em suas opinies que uma vez metendo-se-lhe na cabea que o preto branco, no h argumento, intrnseco ou extrnseco, capaz de demov-lo de tal condio ou fantasia. Em vista daquilo, Ccero escreveu desesperado ao cardeal Parocchi, implorando-lhe que confirmasse ao bispo a permisso que lhe fora dada para retornar ao povoado: Ele disse que no recebeu de Vossa Excelncia Reverendssima comunicao alguma facultando-me de continuar na minha residncia no Juazeiro, lamentou. Depois de se referir amargura que sofreria ao se afastar de sua casa e de seu povo, assinou aquela carta ao poderoso Parocchi como o humilde, o devotssimo e o oprimido sdito padre Ccero Romo Batista. No h, 165. na volumosa correspondncia do sacerdote, nenhuma resposta do cardeal inquisidor quela splica. A populao do Juazeiro procurou correr em socorro a seu capelo e encaminhou ao bispo um longo abaixo-assinado, rogando que a diocese revisse a deciso de expulsar Ccero em definitivo do lugar. Uma das alegaes era novamente a de que, sem sacerdote que lhes concedesse o consolo da extrema-uno, os muitos moribundos do povoado assolado pela seca estariam morrendo sem ter sua alma encomendada ao Cu. Vm os suplicantes requerer a Vossa Excelncia, em nome da caridade de Deus, se digne conceder que o padre demore nesta terra, para evitar tantas vtimas fsicas e morais, ao menos durante esta quadra horrorosa que atravessamos. O bispo, do mesmo modo que o cardeal Lucido Parocchi fizera em relao ao pedido de Ccero, tambm no se deu ao trabalho de enviar uma resposta. Como ltimo recurso, cpias de uma carta dramtica, escrita em nome de dona Quin, foram enviadas a vrios cardeais do alto escalo da Cria Romana: Aos ps de Vossa Eminncia, quem est de joelhos uma pobre velha, septuagenria, cega e doente a mais infeliz das mes , a me do padre Ccero, pedindo pelo amor de Deus que Vossa Eminncia no consinta mais arrancar seu filho nico. A exemplo dos apelos anteriores, a carta no obteve nenhuma espcie de retorno. Nos arquivos do Vaticano, a mensagem de dona Quin seria protocolada junto a um comentrio deixado por um funcionrio da Cria, no identificado: Leve-se ao monsenhor assessor esta carta dirigida ao cardeal [Camillo] Mazzella [prefeito da Congregao dos Ritos] junto ltima pastoral do bispo de Fortaleza, para que se entenda em que conta devem se ter as palavras da me do ignorante e perverso padre Ccero. Durante os dois meses concedidos pelo bispo, Ccero Romo Batista permaneceu em Juazeiro, saindo para o Crato to logo findou o prazo estabelecido. Em fevereiro de 1899, monsenhor Alexandrino comunicou a dom Joaquim que o sacerdote andava cabisbaixo pela cidade, aparentemente curado de sua clebre teimosia: O comportamento dele at agora nada teve de repreensvel. Ccero, tudo indicava, parecia ter acusado o golpe. Mostrou-se igualmente abalado quando soube que monsenhor Alexandrino, por ordem expressa do bispo, no autorizou a colocao na capela de Nossa Senhora das Dores de uma imagem do Sagrado Corao de Jesus, trazida por ele de Roma e, segundo consta, benzida pelo prprio papa Leo XIII. O episdio demonstrava que dom Joaquim estava determinado a eliminar do povoado todas as manifestaes de f que poderiam ser relacionadas ao padre. Isso inclua at mesmo a proibio daquela imagem sagrada na capela, j que sua origem tenderia a ser associada peregrinao de Ccero pelo Vaticano. O fato que, sob a justificativa de visitar a me doente, o padre retornaria ao povoado em vrios momentos, ao longo dos meses seguintes. Primeiro em visitas espordicas, que foram se amiudando pouco a pouco. Em julho, Alexandrino anunciou a dom Joaquim: O padre Ccero, uma vez ou outra, vai ao Juazeiro, e acontece de demorar dias por ali, em razo do agravamento do padecimento da velha me. Em setembro, o vigrio do Crato voltava a informar: O padre Ccero ora est l, ora est aqui, sendo certa a permanncia dele naquele povoado por causa das confisses na hora da morte, para as quais chamado com frequncia. 166. A velha me dele continua muito doente. Dom Joaquim ficou temeroso de que Ccero, mais uma vez, estivesse usando de possveis dissimulaes para contornar uma situao que lhe era adversa. No tinha dvidas de que a nica maneira de dar fim ao caso era impedindo por completo o contato do sacerdote com seus devotos. Se o padre Ccero deixar o Juazeiro, tudo estar terminado, opinou o bispo, em carta ao cardeal Parocchi. Do Crato, Alexandrino objetava que o padre parecia estar bem mudado e chegou a propor ao bispo que permitisse ao colega ficar mesmo no Juazeiro, pois era visvel o seu acabrunhamento, o que denotaria um suposto sentimento final de derrota. Dom Joaquim rechaou de imediato tal hiptese, que lhe soou absurda, e cobrou maior vigilncia do vigrio do Crato. O bispo tinha cincia de que Ccero animava os fiis dizendo que tivessem pacincia e esperana na fora de Deus. Alexandrino viu-se obrigado a pedir desculpas ao superior. Prometeu que fecharia o cerco: Farei ver a este sacerdote que ele no poder mais permanecer no Juazeiro sob pena de Vossa Excelncia declar-lo incurso em excomunho. No era s Alexandrino que considerava Ccero Romo Batista um homem acabado. O padre Quintino Rodrigues tambm escreveria ao bispo para dizer que, no seu entender, a runa do padre Ccero no era apenas moral, mas tambm fsica. O peso da desonra de ser um sacerdote expulso do prprio lugar se juntava ao peso da idade. Aos 55 anos, quase um sexagenrio, o padre e sua rigidez sertaneja definhavam a olhos vistos. Naquele ano de 1899, quando o sculo XIX j ia se encaminhando para o final, o velho taumaturgo do Juazeiro parecia compartilhar do mesmo ocaso. No seria de admirar, dizia-se, se ele no encontrasse foras para assistir virada do calendrio, para testemunhar a chegada do novo sculo. Parece que o estado de sade do padre Ccero vai se tornando, de dia para dia, mais melindroso. bem para desconfiar de um desfecho final inopinado, apostou Quintino. Padre Quintino Rodrigues, assim como monsenhor Alexandrino, no podia imaginar que estava solenemente errado. Era fato que, ao longo dos prximos anos, uma srie de incmodos intestinais passaria a atormentar Ccero com cada vez maior frequncia. Era verdade tambm que uma escoliose crescente provocaria nele dores intensas e lhe deformaria a postura, deixando-o progressivamente com o pescoo torto, de modo que a cabea ficasse sempre pendida para o lado. Mas Ccero ainda iria viver tempo suficiente para desfiar as contas de seu rosrio sobre o tmulo de cada um de seus mais ferrenhos adversrios. Muitos dos que o renegavam at ali ainda iriam se curvar ante o poder de seu nome. Se no fosse pela cruz, seria pela espada. Ao contrrio do que se profetizava, assim como o tormentoso sculo xx, a histria de Ccero Romo Batista estava apenas comeando. 167. LIVRO SEGUNDO A ESPADA 168. 1 Sacerdotes juntam os cobres: com quantos contos de ris se compra um bispado? 1900-1908 Ccero mandou um portador correr imediatamente ao posto de telgrafos do Crato. Fosse voando. Levasse aquela mensagem urgente para ser remetida ao presidente do estado, o doutor Pedro Borges, em Fortaleza. Com ela, o padre quebrava um voto de silncio que fizera a si prprio. At ento, jamais se intrometera na disputa entre os grupos liderados pelos dois principais chefes polticos do Crato. De um lado combatiam os maxixes, como eram chamados os partidrios do coronel Antnio Luiz Alves Pequeno, fazendeiro, filho e homnimo do padrinho de crisma de Ccero. Do outro, os malabares, correligionrios do coronel Jos Belm de Figueiredo, comerciante e intendente municipal, cuja principal iniciativa desde a chegada ao poder fora a criao de uma guarda local, formada pelos sujeitos mais truculentos do lugar e que fazia valer a autoridade nas ruas da cidade com a pistola na cintura e o rifle na mo. O coronel Belm, lder dos malabares, era um ferrabrs. Chegou a mandar dar uma surra de faco em um professor que escreveu um artigo contra ele em um jornal de Fortaleza. De outra feita, ordenou que se derrubasse a coronhadas de espingarda a porta da viva de um desafeto, para depois mandar aoit-la na prpria cama em que dormia. O rival mais poderoso de Belm, o coronel maxixe Antnio Luiz, sabia que no era com comcios e discursos que se costumava fazer a alternncia de poder na poltica do Cariri. Por isso, contrabandeou um carregamento de armas e munio pesada, repassado s mos de um exrcito particular formado por cem jagunos, arregimentados a dedo em Serra Talhada, em Pernambuco. Havia precedentes histricos que recomendavam a Ccero no se envolver na contenda. Em 1903, monsenhor Alexandrino de Alencar cometera a imprudncia de receber a visita de um adversrio poltico do coronel Belm. As consequncias foram desastrosas. Quando soube que um inimigo recebera guarida do monsenhor, o furioso Belm mandou o delegado de polcia tomar providncias. O delegado avisou a Alexandrino que quem protegia opositores do coronel, independentemente de ser padre, bispo ou papa, era considerado um maxixe. Por isso, poderia vir a ser alvo de possveis represlias. A batina, soubesse o senhor vigrio, no servia de escudo contra faca ou tiro. Enquanto o representante da lei fazia ameaas, um grupo de malabares cercava a casa de Alexandrino, sob as vistas grossas do chefe de polcia. Bateram latas, soltaram bombas e gritaram palavres em direo porta de 169. entrada. Por pilhria, o garboso cavalo que pertencia ao visitante e estava amarrado no porto foi levado embora debaixo de vaias. Em troca, deixaram ali um jumento magricela, empesteado de bicheiras. Alexandrino quase sofreu uma sncope. Depois disso, a situao dele na cidade tornou-se insustentvel. Pediu exonerao ao bispo e escapuliu para fora das fronteiras do Cear. Ps seus mais de cem quilos em uma carroa debaixo do mormao do serto e foi suando em bicas at se fixar em Picos, no Piau, onde viveria os ltimos anos de vida. Antes de partir, deixou uma carta ao bispo dom Joaquim, na qual definia o coronel Belm como o chefe boal e estpido desta terra infeliz. Monsenhor Alexandrino no teve oportunidade de assistir aos ltimos lances da barafunda entre maxixes e malabares. Uma serenata promovida pelos simpatizantes de Antnio Luiz seria desmanchada a tiros por quinze homens da guarda de Belm. Um rapaz morreu e outro ficou gravemente ferido, com duas punhaladas profundas e cinco balas espalhadas pelo corpo. A partir de ento, os maxixes tinham um cadver para justificar a exploso da revolta armada. Em junho de 1904, os jagunos do coronel Antnio Luiz entrincheiraram Belm em sua prpria casa. Seguiram-se trs dias e trs noites de feroz tiroteio, at que o intendente foi obrigado a iar a bandeira branca, implorando pelo humilhante cessar-fogo. Ccero decidiu remeter aquele telegrama urgente para Fortaleza quando recebeu a informao de que estava vindo um destacamento para tentar restituir a ordem no Crato. O comando das operaes fora confiado ao capito Joo Fonteles Linhares, amigo do deposto Belm desde longas datas. A situao, at onde a vista alcanava, prometia pegar fogo: o vitorioso coronel Antnio Luiz mandara avisar que o capito Linhares e os soldados do governo podiam vir, mas seriam recebidos a tiros. Na mensagem, Ccero procurava evitar o confronto: Excelentssimo presidente Pedro Borges Populao Crato exaltada recusa receber capito Fonteles. Em nome da paz peo portanto a Vossa Excelncia para evitar conflagrao substitua dito oficial medida prudncia. No tenho cores polticas. Sou amigo de todos e somente por bem de todos resolvi fazer este pedido. Para acalmar nimos peo resposta urgente. Padre Ccero O presidente Pedro Borges respondeu a Ccero tambm por telegrama. Disse que mandara o batalho para o Cariri, mas com instrues de que os soldados no interferissem nas divergncias polticas locais. O envio de uma fora de segurana era apenas uma garantia para que se mantivessem a paz e a ordem pblica. O presidente afirmava no ter nenhum interesse em questionar o direito do coronel Antnio Luiz de assumir o poder municipal, pois o governo estadual j considerava a deposio do coronel Belm um fato consumado. Assim, as tropas ficariam estacionadas em Barbalha, cidade vizinha ao Crato, por mera precauo. Confio que pelo merecido prestgio que gozais e principalmente pelo respeito que inspira vosso carter sacerdotal auxiliareis eficazmente o governo nesta obra de paz regeneradora e salutar, escreveu o presidente a Ccero. Toda aquela prosopopeia estava sendo gasta toa. Pedro Borges era apenas uma pea decorativa do poder em Fortaleza. O presidente mandava ali tanto quanto a esttua do general 170. Tibrcio, o militar da Guerra do Paraguai eternizado em bronze na praa ao lado do Palcio da Luz, a sede do governo cearense. Vivendo os ltimos dias do mandato frente do Executivo, Borges cumpria o papel que lhe cabia no espetculo de ventriloquia poltica encenado no Cear. Tudo que ele falava ou escrevia era ditado pelo verdadeiro dono da situao, o comendador Antonio Pinto Nogueira Accioly, o oligarca que por duas dcadas vinha dando as ordens na poltica cearense, ora ocupando o lugar de presidente estadual (o que faria ao todo em seis oportunidades), ora manipulando adestrados testas de ferro. Eu aqui sou apenas o vaqueiro, o verdadeiro dono da fazenda o Accioly, reconheciam os que esquentavam a cadeira de presidente enquanto Nogueira Accioly eventualmente cumpria mandatos na Cmara Federal ou no Senado. Conhecido por Donatrio do Cear, Accioly era primo de Antnio Luiz, pormenor que incentivava o coronel cratense a falar ainda mais grosso. No ocaso de seu governo de fachada, o presidente Pedro Borges jamais enviaria soldados para atacar, de verdade, um parente to prximo do poderoso oligarca. Pelos mesmos motivos, Belm jamais seria reconduzido ao cargo de que fora apeado. Aquilo j virara rotina. Em todo o Cariri, as tradicionais pendengas por limites de terra e as disputas por currais eleitorais haviam desandado em carnificina geral. Na primeira dcada do sculo XX, uma dezena de conflitos polticos ocorrera na zona, a maioria resultando em deposies violentas nos comandos dos poderes municipais de vrias cidades. No Cear meridional, passara a vigorar a lei do bacamarte. At mesmo o voto de cabresto fora substitudo pelo escrutnio da bala. Ningum precisava mais de eleio ainda que viciada para ocupar a cadeira de intendente. Bastava destronar o eventual ocupante do cargo com o auxlio de um bando armado de trabuco. No calor da hora, o oligarca Accioly sempre permanecia omisso em relao s disputas no serto, para depois, uma vez contados mortos e feridos, apoiar e receber o coronel vencedor. Antagonistas entre si, os mandes municipais comiam todos na mo de Accioly, o lder cearense do Partido Republicano Conservador (PRC), mantido na situao, em Fortaleza, custa do empastelamento de jornais oposicionistas e de bordoadas que mandava aplicar nos adversrios polticos. Ccero voltou a escrever em tom de preocupao ao presidente Borges, embora soubesse que a mensagem seria mais bem dirigida, no final das contas, se fosse enviada diretamente a Accioly. O padre alegava que a simples chegada dos soldados a Barbalha manteria a populao do Crato em estado de excitao, o que dificultaria a montagem do novo poder municipal. Dias depois, em movimento previamente orquestrado, a tropa deu meia-volta e marchou de retorno para Fortaleza, sem disparar um nico tiro em combate, a no ser um ou outro, desfechado por pura diverso, contra cascavis, juritis e calangos que encontraram pelo caminho. Menos de um ms depois, em julho de 1904, Borges passou a faixa governamental a seu dono real, o ento senador Nogueira Accioly, eleito novamente para o cargo de presidente do estado ao custo de um pleito em que no faltaram denncias de fraude. Os dois telegramas de Ccero a Pedro Borges haviam lanado o padre, pela primeira vez, no cenrio da poltica partidria. Ele dizia ter atuado, como sempre, em nome da conciliao geral, assumindo o papel de pacificador que competia sua condio de sacerdote. Contudo, ao se colocar a favor da no agresso ao Crato, Ccero prestou solidariedade indireta ao coronel Antnio Luiz Alves Pequeno, o novo dono do poder municipal. O antigo dbito de 171. gratido com a famlia que financiara parte de seus estudos no seminrio estava pago, sem que com isso Ccero tenha precisado macular sua imagem de neutralidade. O coronel Antnio Luiz ficaria grato pelo gesto. Pelo menos at o dia em que ele e Ccero viessem a ficar em campos frontalmente opostos. Isso no demoraria muito a acontecer. Rejeitado pela Igreja, Ccero estava prestes a fazer da poltica seu novo sacerdcio. No morrerei to cedo. Ainda tenho muita coisa para fazer. S posso deixar este mundo quando completar 150 anos, anunciava o sexagenrio Ccero. Proibido de celebrar no Juazeiro, ele se deslocava de cidade em cidade, de arraial em arraial, fazendo-se acompanhar nessas andanas em estradas de poeira por multides de seguidores. Os males da idade ajudavam a lhe atribuir a imagem de um mrtir injustiado, conferindo a sua figura encurvada e apoiada no cajado os contornos de uma presumida santidade. O mdico particular do sacerdote, doutor Antnio Marques da Silva Mariz, ao lhe diagnosticar os primeiros sintomas de uma crise de gota, prescreveu-lhe repouso, regime leve e tranquilidade de esprito. Ccero deu de ombros. No podia repousar enquanto vivesse, argumentava. No teria tranquilidade de esprito enquanto no levasse a palavra de Deus a todos os sertanejos, afirmava. Por isso, era visto como uma espcie de ancio do Velho Testamento em pleno agreste, um Abrao da caatinga, patriarca da nao dos romeiros. Dom Joaquim, que aguardava a notcia da morte do padre a qualquer momento, finalmente admitira que ele ficasse morando no Juazeiro. Mas permanecia de p a proibio a Ccero de rezar missa no povoado o que deixava o lugar oficialmente sem vigrio. Por continuar sendo objeto das censuras do bispo mesmo depois de ter beijado o anel do papa, o sacerdote atraiu ainda maior solidariedade. Ao longo dos primeiros anos do novo sculo, o palcio episcopal voltaria a receber insistentes abaixo-assinados, das mais diferentes cidades da regio, todos pedindo a reintegrao das ordens sacerdotais de Ccero. Dom Joaquim respondia a todos sempre com a mesma sentena: No posso satisfazer tal desejo porque a questo est afeta ao Santo Ofcio, que, por trs vezes, j se pronunciou sobre ela. Enquanto monsenhor Alexandrino cara em desgraa no Cariri, a palavra de Ccero passara a ser venerada como a de um santo. No Juazeiro de hoje, cada pessoa tem a religio como pensa, sendo Ccero o seu ministro, seu centro, seu Deus, escreveu em relatrio secreto ao bispo o substituto de Alexandrino, padre Quintino Rodrigues, um dos arrependidos defensores do milagre, ento recompensado com o cargo de vigrio do Crato. Nos vastos arquivos deixados por Ccero, existem milhares de cartas que lhe foram endereadas, nessa poca, pelo povo mais simples do serto nordestino. Em todas, o padre tratado como verdadeira divindade. Uma divindade, porm, que no era inacessvel ao mundo terreno dos homens. A exemplo dos pajs das antigas naes cariris, cujo sangue lhe corria nas veias misturado aos dos ancestrais portugueses, Ccero passara a acumular as funes de conselheiro, benzedor e curandeiro. Alm de distribuir mandamentos de ordem moral, comeara a receitar remdios caseiros, as chamadas meizinhas, para os desesperados que o procuravam, pessoalmente ou por escrito, em busca de conforto para os males da alma e do corpo. Sinto assim como um caroo e uma 172. falta nos nervo de entre as pernas que no posso fazer nada h seis meses, escreveu-lhe, entre tantos outros, Filomena Pereira de Barros, do municpio de Correntes, no agreste de Pernambuco. Eu quero que me mande uma imagem e umas meizinhas para uma dor de cabea que faz trs anos que me acompanha, pedia Caetano Jorge dos Santos, da paraibana So Jos de Piranhas. Meu padrinho, eu mando perguntar: eu tinha uma filha que casou. O marido disse que ela no era moa. Mande-me dizer se era certo, recorria Francisca Maria da Conceio, que aproveitava para fazer outro pedido ao final da carta: Padre Ccero, d um jeito no meu marido, para ele deixar de ir para as noite de festa e passe a ir pra novena. At de Macap chegavam rogos ao padre. Me aconselhe um remdio para minha mulher que tem estado enferma h oito anos, implorava Jos Gomes da Rocha, um dos muitos migrantes nordestinos a tentar a sorte na Amaznia atrados pelo ciclo da borracha. Ela sofre com dor de cabea alguns tempos, depois um estalo, dor nas goelas e um grande fogo no corpo, a no suportar, descreveu o homem. De Macei, uma prostituta que se assinava Ana Maria de Souza confiou a Ccero seu ato de contrio: Meu padrinho, sou uma mulher da vida e tenho sofrido bastante injrias e sofrimentos para viver, escreveu ela. Por isso peo perdo pelo que tenho cometido. Tenho escapado de morrer de faca e revlver com o seu sagrado nome. Peo que me deis boa sorte, abrande meu corao e mude-me o meu gnio. Ccero abria os papis, lia o contedo e constatava: eram cartas humildes, grafadas em mau portugus, s vezes repletas de um comovente humor involuntrio. Meu padrinho, me d um jeito para a minha me deixar o vcio da embriagus, solicitava uma desesperada Rozalina de Jesus, de Carangueja, Alagoas. Por vezes, Ccero tinha que pedir licena a santo Antnio para se desdobrar at mesmo em casamenteiro: Peo que me d um jeito de eu me casar com o Lus e que seja de gosto da minha famlia, rogava Matildes Maria da Conceio, mais conhecida como Anjinha. Do povoado cearense de Mucambo, Maria dos Prazeres da Silva estava agoniada com o filho que sofria de distrbios mentais. No sei se doena ou se a sombra do demnio por causa das pragas da av, conjecturava a mulher. Ccero no deixava uma nica carta daquelas sem retorno. Para tanto, contava com a ajuda de Jos Lobo, o fundador da Legio da Cruz, encarregado de redigir a maior parte das respostas. Quando necessrio, consultava compndios de medicina e almanaques farmacuticos para prescrever, alm das meizinhas base de ervas encontrveis em qualquer touceira de mato verde, tambm certas beberagens disponveis nas prateleiras de toda botica de interior. No era preciso ser um especialista para diagnosticar que a maioria dos males fsicos descritos nas cartas decorria de uma nica causa: a desnutrio crnica do povo sertanejo. Por isso, uma das principais recomendaes do padre era a ingesto de tnicos contra anemia base de sulfato ferroso. Padre Quintino, atento quela farmacopeia improvisada, comunicava ao bispo que, alm de milagreiro, Ccero comeara a se arvorar em mdico: Para todos os males, ele d consultas e receitas para a plebe. No entanto, o mesmo Quintino escreveria ao bispo pouco tempo depois para reconhecer que desde a divulgao dos decretos do Santo Ofcio quase ningum mais falava do milagre do Juazeiro. O assunto virara tabu. Maria de Arajo se recolhera em progressivo silncio aps as condenaes do Vaticano. No havia notcias de que os fenmenos ainda ocorressem. As romarias continuavam em massa, fato, at bem maiores do que antes. As esmolas, idem. Segundo clculos feitos pelo padre Quintino, os donativos recebidos por Ccero da 173. parte de romeiros e moradores chegavam naquele momento casa dos 80 mil-ris por dia, o que daria algo em torno de dois contos e meio de ris mensais, quantia superior verba anual destinada pelo governo do estado ao projetado asilo de mendicidade de Fortaleza. Est rico, denunciou o vigrio em outra carta ao bispo. Apesar das muitas esmolas, Ccero no modificou seu padro de vida. Andava com a mesma batina rota e morava em uma casa totalmente desprovida de confortos. Casa sertaneja, sem adornos, sem nenhum tapete, nenhuma cortina, nenhuma poltrona almofadada. Uma histria contada tanto por apologistas quanto por detratores serviria para se ter uma ideia da quantidade de dinheiro que circulava pelas mos do padre. Os apologistas narrariam o caso para comprovar a generosidade de Ccero; os detratores, para confirmar-lhe a opulncia. Certa vez, ele havia recebido de um fazendeiro um pacotinho de moedas, envolvidas em papel de embrulho. Sem conferir a quantia, enfiou-o no bolso da batina junto com outros cobres de pequeno valor, aqueles que at o mais pobre dos romeiros sempre lhe deixava como donativo a Nossa Senhora das Dores. Mais tarde, quando uma mendiga lhe pediu uma esmola, ele puxou do bolso o mesmo pacote e, novamente sem reparar quanto ali havia, depositou-o de bom grado na mo estendida da mulher. Joana Tertuliana de Jesus, a beata Mocinha, governanta e tesoureira do padre, deu conta que a distrao custaria caro. Sem o notar, Ccero oferecera pedinte um punhado de libras esterlinas. Meu padrinho, olha s o que o senhor deu para esta velha!, exclamou a beata, retendo a mulher pela mo. Ccero olhou para as moedas reluzentes e s ento compreendeu o engano. Mas no exigiu a esmola de volta: Basta, Joana! J dei. Est dado. Quintino ficava inconformado com aquela situao. J se tem dito que a fortuna dele uma das maiores do Cariri, avisou a dom Joaquim, sublinhando que tamanha riqueza seria incompatvel com o exerccio do sacerdcio: Isso vai provocando, daqui e dali, comentrios desfavorveis a respeito dos seus sentimentos e de seu esprito religioso. Em compensao, ponderava padre Quintino, os peregrinos no mais procuravam a beata Maria de Arajo. A multido ia ao Jua-zeiro para pagar promessas apenas padroeira Nossa Senhora das Dores e, tambm, para receber as devidas bnos do padre Ccero. Para Quintino, isso constitua um mal menor, perante a constatao de que os romeiros no insistiam na histria de hstias que se transformavam em sangue. Eles j se mostram dceis, procuram a confisso, e v-se que se esforam para corrigir suas faltas, exps. preciso ter sempre em conta a ignorncia deles, que crassa demais, ressalvava. Ccero, segundo Quintino, tambm evitava tratar dos assuntos censurados por Roma. Ele nada mais disse sobre os tais milagres; protesta sempre sua submisso a todas as leis da Igreja, diz que condena, como seu dever, tudo o que for contrrio f. Naquele instante em que os acontecimentos o lanariam em breve poltica, Ccero parecia mesmo querer manter sob precavido controle determinados excessos religiosos cometidos sua revelia. Quando soube que uma beata de nome Luzia andava perambulando em cidades vizinhas com uma imagem do Menino Jesus ao colo e pedindo esmolas em nome 174. do Padim Cio, ele escreveu imediatamente uma carta dita mulher para cobrar explicaes: No admito desculpas, venha e traga a imagem, que voc bem pode considerar que isto no est correto e nem convm, ralhou. Por idntico motivo, Ccero ficou preocupado quando recebeu a notcia de que na cidade de Ipu, encravada no sop da serra da Ibiapaba, norte do Cear, os dois fundadores da sucursal da Legio da Cruz naquele municpio haviam sido presos sob a acusao de tentativa de assassinato. De acordo com o inqurito policial, a dupla prometera dar cabo de um coronel da cidade. Tudo porque haviam tomado conhecimento de que o homem ordenara a seus agregados que no se filiassem Legio da Cruz, classificada por ele como um antro de fanticos. Antes que pusessem o suposto plano criminoso em ao, os dois sujeitos foram presos pela polcia. Em meio ao material apreendido na casa deles, estavam extensas listas com o nome de doadores da irmandade e diplomas de scios honorrios assinados pelo padre Ccero Romo Batista. Para alvio de Ccero, no tribunal do jri, os dois acusados acabaram inocentados da denncia. Nem sempre era possvel, contudo, conter as extremadas demonstraes de devoo, ou mesmo os muitos desequilibrados que costumavam chegar a Juazeiro em meio s levas de romeiros. Certo dia, um homem subira no cruzeiro diante do patamar da capela e se encarapitara l em cima, sem que ningum conseguisse convenc-lo a descer. Diante dos gritos para que retornasse ao cho, o sujeito baixou as calas altura dos joelhos e passou a responder aos apupos com jorros de urina, disparados em direo aos que estavam embaixo. Quando soube do ocorrido, Ccero mandou providenciar uma corda para que o indivduo fosse derrubado no lao. Mas nem foi preciso pr em prtica o expediente. A simples viso ameaadora da corda e do padre foi suficiente para que ele descesse mansamente do cruzeiro e em seguida fosse entregue famlia. Uma das ltimas aparies pblicas de Maria de Arajo tambm provocaria constrangimentos a Ccero. O relatrio secreto do padre Quintino ao bispo informava que a morte do pai da beata dera ensejo a que o Juazeiro assistisse a uma cena no mnimo extravagante. Durante dois dias seguidos, Maria de Arajo e outras mulheres vestidas de negro carpiram o corpo do homem, posto em uma cama rodeada de flores e velas, na esperana de que ele ressuscitasse feito o Lzaro do Evangelho. Quando o cadver j apresentava os primeiros sinais de putrefao, desistiram do intento e trataram de encomendar o enterro. Um incidente em outro funeral tambm dera motivo a falatrios e atiara a imaginao popular. Em fevereiro de 1902, Ccero precisou galopar at Misso Velha, em plena madrugada, para fazer uma visita de emergncia ao padre Flix Aurlio, um dos que apoiaram a sobrenaturalidade dos fenmenos do Juazeiro para depois se desmentir publicamente. Ccero havia recebido a notcia de que o padre Flix estava beira da morte e, por isso, cavalgou o mais rpido que pde para conceder-lhe o sacramento da extrema-uno. Contudo, por causa de uma ponte quebrada no meio do caminho, no conseguiu chegar a tempo de encontr-lo com vida. Ao adentrar Misso Velha, j era dia claro, o sol ia alto e Flix havia exalado o derradeiro suspiro. Diante do leito em que jazia o colega, Ccero se ajoelhou e balbuciou-lhe o nome. Conforme contaria depois o povo de Misso Velha, o finado Flix teria aberto os olhos, deixado rolar uma ltima lgrima de remorso, para depois fech-los para 175. sempre. A histria correu o Cariri inteiro e desde ento seria recontada em prosa e verso como uma prova extraordinria dos poderes do Padim Cio. Ainda mais impressionantes aos ouvidos dos devotos eram os relatos a respeito da maldio que supostamente se abatera sobre monsenhor Monteiro, o ex-reitor do seminrio do Crato que organizara a primeira romaria a Juazeiro do Norte e, tambm, depois se vira obrigado a negar os alegados prodgios. Dizia-se que, quando ainda professava sua crena no milagre da hstia, Monteiro proferira no altar, para quem o quisesse ouvir: Se eu negar o que vi, ceguem meus olhos. Pois naqueles primeiros anos do sculo XX, quando j no mais defendia o milagre e at se reconciliara com dom Joaquim, monsenhor Monteiro passou a sofrer de uma doena degenerativa que lhe turvou a viso. Um dia, acordou e percebeu que estava completamente cego. Castigo dos cus, deduziram os romeiros. * * * Se havia um milagre indiscutvel a ser louvado, este era o crescimento vertiginoso do lugar. Em vinte anos, com a fixao de milhares de pessoas atradas pelos apelos da Meca sertaneja, o local crescera tanto que no podia continuar a ser tratado como um simples povoado. O Juazeiro, embora continuasse sendo um distrito do Crato, j era maior do que muitas cidades do serto cearense. Sozinho, ultrapassava em nmero de habitantes os municpios caririenses de Aurora, Araripe e Brejo Santo reunidos. O centro urbano possua dezoito ruas alinhadas e mais quatro travessas, abrigando ao todo 15 mil moradores fixos. Se includos os arredores, o nmero subiria para 25 mil habitantes. Um dos orgulhos de Ccero eram as duas praas pblicas arborizadas, onde os transeuntes podiam prosear noite sentados nos bancos iluminados por lampies de querosene, iguais aos que se viam nos cartes-postais de Fortaleza e do Rio de Janeiro. J existiam vinte lojas funcionando em Juazeiro, alm de outras vinte bodegas, dez armazns, duas escolas pblicas, duas padarias, duas farmcias e uma tipografia. Mas o que realmente chamava ateno na paisagem e no burburinho econmico do Juazeiro eram as 138 oficinas dos mais diversos tipos de artes e ofcios. Havia de alfaiates a fogueteiros, de marceneiros a modistas, de ourives a ferreiros, de funileiros a pintores, de fundidores a sapateiros. Juazeiro, alm do comrcio religioso de imagens de santos, medalhinhas e fitinhas coloridas, descobrira a vocao para a manufatura. Ccero incentivava ao mximo a abertura desses pequenos negcios que traziam novas perspectivas de vida para os sertanejos, antes limitados ao trabalho como meeiros nas terras dos tradicionais coronis. Em cada casa um santurio, em cada quintal uma oficina, pregava o padre. Para absorver tambm a mo de obra menos qualificada atrada em grande escala, reservou as encostas inexploradas da serra do Araripe. Para isso, fechou um acordo com o governo estadual e com os municpios vizinhos. Arrendou dezenas de lguas de terras devolutas e frteis e para l enviava as caravanas de afilhados, todos munidos de foices e enxadas ao ombro. Dizia-se que eram tantos os braos disponveis que Ccero chegou a formar frentes de trabalho organizadas pelo prenome dos trabalhadores: 176. Levante a mo quem se chama Joo! Centenas deles ento se apresentavam, com as mos erguidas, em to grande nmero que seria impossvel cont-los. Pois vocs vo trabalhar amanh naquele alto da serra, onde tem muito mato pra desbastar antes de preparar a terra. Agora levante a mo quem se chama Antnio e, depois, os que so de nome Jos. Dessa forma, Ccero ia distribuindo as tarefas, ofertando sementes e instrumentos agrcolas de acordo com os nomes que aqueles homens haviam recebido na pia batismal. H quem diga que tal histria no passa de mais umas das tantas lendas que se criaram ao redor do padre. Anedota ou no, o fato que se por acaso ele resolvesse indagar quantos em meio multido se chamavam Ccero poucas mos se ergueriam, particularmente entre os mais jovens. Uma circular oficial do ento bispo de Olinda, dom Lus de Brito seguida por vrias parquias do Cear e de outros estados nordestinos , fizera com que os vigrios dissuadissem os pais de batizar crianas com tal nome. Recomendamos que no aceite para batismo o nome de Ccero, que sinal de arraigado fanatismo, decretara o bispo pernambucano. O padre mandava ento a infinidade de joes, joss, antnios, severinos, pedros e joaquins plantar em especial a mandioca e a cana-de-acar, das quais produziam a farinha e a rapadura, a dupla inseparvel do cardpio sertanejo. Ficariam clebres, particularmente, os conselhos que o padre costumava dar aos agricultores, mais tarde reconhecidos como um verdadeiro catecismo ecolgico: No toquem fogo no roado nem na caatinga; no cacem mais e deixem os bichos viverem; no criem o boi nem o bode soltos; faam cercados e deixem o pasto descansar para se refazer; no plantem em serra acima, nem faam roado em ladeira muito em p: deixem o mato protegendo a terra para que a gua no a arraste e no se perca a sua riqueza; faam uma cisterna no oito de sua casa para guardar gua da chuva; represem os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta; plantem cada dia pelo menos um p de algaroba, de caju, de sabi ou outra rvore qualquer, at que o serto todo seja uma mata s; aprendam a tirar proveito das plantas da caatinga, como a manioba, a favela e a jurema; elas podem ajudar vocs a conviverem com a seca. Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo ter sempre o que comer; mas, se no obedecer, dentro de pouco tempo o serto vai virar um deserto s. O sacerdote acalentava uma predileo especial pelo cultivo da manioba, arbusto natural da caatinga e que representava considervel fonte de renda. Da manioba se extraa uma espcie de ltex, semelhante ao da seringueira, utilizado para a produo de borracha natural. O produto constava da pauta de exportaes do Brasil e era negociado no estrangeiro, embora em menor escala e com preo mais baixo do que o da borracha amaznica, com o nome de Ceara rubber. Assim, quando um cidado norte-americano acelerava seu automvel em Nova York, podia-se arriscar uma aposta: os pneus que rodavam sobre a Quinta Avenida poderiam ter sido produzidos com a matria-prima cultivada bem longe, na serra do Araripe, pelos devotos de Ccero. A despeito do crescimento decorrente da pastoral assistencialista de Ccero, os opositores do padre continuavam a descrever o lugar com adjetivos nada lisonjeiros. Um dos pioneiros do socialismo no Brasil, o socilogo e jurista Joaquim Pimenta, que visitou Juazeiro 177. naquele comeo de sculo, registraria em suas memrias a impresso que levou do local: Sombrio e srdido formigueiro humano que um tufo de loucura para ali arremessou, faminto, maltrapilho, embrutecido de superstio e cachaa. Ccero tomou para si a misso de provar que o Juazeiro no era uma lbrega aldeia de casebres infectos conforme a definio do mesmo Joaquim Pimenta. Ao contrrio, o antigo arrabalde se transformara em uma promissora aglomerao urbana. Foi baseado em tal premissa que o padre se lanou cruzada que logo o colocaria em rota de coliso com o coronel cratense Antnio Luiz: estava decidido a liderar uma campanha pblica pela emancipao do lugar. A convico de que era preciso separar o Juazeiro do Crato, para elev-lo condio de vila autnoma, virou para Ccero uma obsesso. At ali, as motivaes para o padre desfraldar tal bandeira ainda no eram de ordem estritamente polticas, embora as contingncias o fossem empurrando inevitavelmente para isso. Os verdadeiros propsitos de Ccero eram outros. Naquele incio do sculo XX, dezenas de novos bispados estavam sendo criados no pas, dentro de um projeto de reorganizao administrativa da Igreja brasileira. As cidades interioranas mais prsperas nos respectivos estados tinham a prioridade na escolha das futuras sedes. Entre tantas outras, cogitava-se a possibilidade de criao de uma segunda diocese no Cear, para dividir com o bispado de Fortaleza o atendimento aos cristos do interior do estado. Na condio de maior e mais rica regio cearense, o Cariri era o grande candidato a merecer tal honraria. Por consequncia, como a maior e mais tradicional cidade caririense, o Crato seria o pretendente natural a receb-la. Era exatamente isso o que Ccero mais temia: Se, com um bispo distante, j amargo o po que o diabo amassou, quanto mais com um trepado na minha garupa, concluiu. S com a possvel elevao a municpio o Juazeiro teria alguma chance de entrar na disputa com Crato pela sede de uma diocese, o que no entender de Ccero representaria um reconhecimento oficial do lugar como solo sagrado. A seu favor, o Juazeiro teria a oferecer a privilegiada localizao geogrfica: Queiram ou no queiram, por obra da Providncia de Deus ou coincidncia do acaso, o ponto equidistante da circunferncia que ter o futuro bispado do Cariri justamente o Juazeiro, alegava Ccero. Havia ainda as romarias, que j faziam do lugar a capital da f de todo o Nordeste: A Providncia, que deu Loreto Itlia e Lourdes Frana, tambm teve seus desgnios dando Juazeiro ao Brasil, raciocinava o padre. Quando soube dos planos de Ccero, dom Joaquim achou que o caso era mais para rir do que para lamentar: A criao de um bispado no Juazeiro um despautrio to grande que no vale a pena nem se falar nisso, desdenhou. Ccero, porm, maquinava apoios. O primeiro passo era viabilizar financeiramente a empreitada. Segundo os procedimentos ditados pela Igreja, a aprovao de uma nova diocese deveria passar por questes bem pragmticas. Entre elas, a comprovao de um patrimnio suficientemente polpudo para manter a burocracia do futuro bispado. A ttulo de exemplo, a diocese de Florianpolis, em Santa Catarina, fora criada naquele ano com base em um patrimnio de cem contos de ris. Um valor nada desprezvel. Equivalia, poca, a tirar a sorte grande: era exatamente esse o valor que a Companhia de Loterias Nacionais do Brasil, no Rio de Janeiro, pagava ao felizardo comprador de um bilhete premiado. Mesmo que Ccero 178. aplicasse todos os vintns recebidos dos romeiros no projeto, demoraria alguns bons anos at juntar tamanha quantia. Para levantar o dinheiro com a urgncia que o assunto demandava, Ccero resolveu recorrer decantada religiosidade da viva do coronel Joaquim da Cunha Freire, o baro da Ibiapaba, um dos mais abastados comerciantes de Fortaleza, que morrera no ano anterior, na capital da Repblica. Por carta, Ccero pediu baronesa Maria Eugnia dos Santos a doao de 150 contos de ris para a causa. Confio que a baronesa, a quem a Providncia deu tanto e para quem esta quantia uma pequena parcela, conceder o patrimnio necessrio ao bispado do Cariri, escreveu. Em troca de oferta to generosa, explicou Ccero, a viva receberia um benefcio que no tinha preo neste mundo: a firmada esperana de ganhar o Cu. O valor do passaporte celeste era to alto que at mesmo a milionria baronesa se espantou. Mandou dizer a Ccero que lamentava, mas com a morte do marido os negcios da famlia andavam um tanto quanto embaraados. Era impossvel assumir compromisso de tal vulto. Enquanto isso, no Crato, o padre Quintino Rodrigues tambm planejava amealhar dinheiro para fazer frente s articulaes do colega em Juazeiro. A contabilidade de Quintino, porm, era mais modesta. Colocados os nmeros no papel, ele previu que com o auxlio da alta sociedade cratense conseguiria arrecadar, em mdio prazo, a importncia de sessenta contos de ris. Considerava esse valor mais do que suficiente para convencer o Vaticano a sediar a nova diocese na cidade. S que, enquanto Quintino fazia contas e tirava os noves fora, Ccero agia. Diante da recusa da baronesa, o padre no esmoreceu. Encarregou o amigo Jos Marrocos de fazer uma lista de adeso, na qual cada participante doaria uma quantia espontnea em dinheiro. Ccero sugeriu que Marrocos elaborasse 150 listas, cada uma delas totalizando um conto de ris. A equao era simples: Cento e cinquenta listas de um conto fazem os 150 contos, calculou. Se Cristo multiplicara pes e peixes, Ccero esperava multiplicar contos de ris sem a necessidade de obrar nenhum milagre, utilizando-se apenas de sua influncia. Ccero estava nisso, mergulhado em clculos estratosfricos, quando em meados de maio de 1908 dois senhores desconhecidos lhe bateram porta. As beatas foram ver quem era e voltaram para avisar ao padre que, pelas roupas com que estavam vestidos, no eram simples romeiros. Parecia gente rica. Um deles tinha uma fala enviesada, de estrangeiro. Queriam falar com o padrinho. Diziam que era urgente. Bigodo cofiado, cabelo escovinha e voz meio fanhosa, um dos visitantes puxou o carto do bolso do palet e o entregou a Ccero. Era o doutor Floro Bartolomeu, formado por uma das mais tradicionais instituies de ensino superior do pas, a Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador. Nos ltimos tempos, alm de clinicar pelos sertes afora, o doutor se dedicava a um ofcio bem mais rendoso: o garimpo. O outro forasteiro, rosto magro, pele alva queimada de sol e sotaque francs arrastado, tambm se apresentou. Era engenheiro especializado em minrio, nascido em Paris, herdeiro de um ttulo familiar de nobreza, como o padre bem podia ler no carto: 179. Adolphe Achille van den Brule Conde Haviam chegado juntos ao Juazeiro, provenientes dos cafunds da Bahia, onde trabalharam na extrao de diamantes. Eram scios. Queriam tratar de um assunto que por certo seria de grande interesse do padre. Um negcio da China, prometeram. 180. 2 Padre endiabrado convoca povo para a guerra: Rifle, mais rifle e muito rifle! 1908-1910 Era pegar ou largar. O doutor Floro tinha informaes de que o padre Ccero havia comprado, anos antes, uma lgua e meia de terreno na fronteira dos municpios de Milagres e Aurora. As terras do Stio Cox, alvo de litgio com vizinhos de cerca, potencialmente valiam muito dinheiro. Por baixo do mandiocal que brotava na superfcie existiria uma fortuna incalculvel. Com base em amostras retiradas do lugar, acreditava-se que a fazenda estivesse encravada sobre uma imensa jazida de cobre. Floro Bartolomeu e Adolphe van den Brule se ofereceram a Ccero para intermediar a pendenga que se arrastava na Justia um emaranhado de aes que envolviam desde contestaes a respeito dos limites legais da terra at duplicidade de ttulos de propriedade. Ningum nunca se entendera sobre quem eram os verdadeiros donos de cada metro quadrado do Cox. Na ausncia de acordo, as terras permaneciam sem demarcao. A proposta de Floro, portanto, era simples. Advogaria a favor de Ccero. Uma vez vitoriosa a causa, receberia em troca o direito de extrair o minrio do solo com a ajuda de Adolphe. Os lucros seriam divididos com o sacerdote. Alm de mdico e garimpeiro, Floro tambm j fora tabelio e, como rbula, advogara no interior da Bahia e Pernambuco. Prometia esmiuar os desvos da burocracia cartorial com a mesma desenvoltura com que dissecara cadveres como estudante de anatomia da Faculdade de Medicina da Bahia. Se de fato existissem, localizaria os documentos que lhes garantissem a demarcao da terra, nem que para isso fosse preciso desencavar escrituras dos tempos das capitanias hereditrias. A ideia de explorar uma mina de cobre vinha a calhar naquele instante em que Ccero se desdobrava para obter o patrimnio necessrio criao da nova diocese. Garimpo no era negcio para amadores e a dupla de visitantes dizia ter experincia de sobra com o assunto. Talvez, quem sabe, os cus houvessem ouvido as splicas de Ccero. A soluo de todos os seus problemas parecia estar ali, sorrindo diante dele, na figura daquele doutor atarracado e barrigudo, que trazia em contraste um esguio conde francs a tiracolo. Ningum sabia ao certo quem eram e de onde vinham aqueles dois forasteiros. Mas uma informao eliminou qualquer resqucio de resistncia por parte do padre. Adolphe van den Brule garantiu que antes de chegar ao Brasil fora camareiro do papa Leo XIII. Com sua fala enrolada, contou uma histria rocambolesca, para explicar que o ttulo nobilirquico de conde 181. estaria com a famlia desde quando um antepassado marchara frente das tropas que libertaram Viena do cerco dos gro-vizires turcos, em 1683. Verdade ou no, Ccero ficou impressionado. Poucos dias aps aquele encontro, em maio de 1908, passou s mos do doutor Floro uma procurao assinada e autenticada em cartrio, dando-lhe a autoridade legal para represent-lo no litgio que envolvia as terras do Cox. Ao mesmo tempo, autorizou Adolphe a ir preparando os papis necessrios negociao internacional do minrio, por meio de uma firma aberta pelo conde em Paris, a Socit Anonyme dExploitation des Mines de Cuivre dAurora (Brsil). Soava faustoso e convincente. O negcio parecia promissor. No precisou de muito tempo para o expansivo doutor Floro conquistar a confiana do padre. Alm de procurador, tornou-se o mdico particular de Ccero. Comprou uma fazenda em Misso Velha e abriu uma farmcia no centro do Juazeiro. De incio, mostrou-se homem corts, dado a prazeres sofisticados. Promovia banquetes e organizava animados saraus, durante os quais recepcionava as famlias mais distintas do lugar ao som de modinhas de violo conduzidas por msicos mandados vir de fora. Chamava a ateno pela prosa fluente, pelas tiradas de esprito, pela camaradagem que soube construir entre os juazeirenses. Sobre o passado do doutor, porm, pairava a nuvem de incertezas. O pouco que se sabia da vida pregressa de Floro que ele colara grau em medicina na Bahia com uma dissertao sobre o cancro duro. Diante do vazio de informaes, surgiram as mais variadas suspeitas. Inclusive a mais grave jamais comprovada , de que era um foragido da polcia baiana. O scio de Floro no era menos enigmtico. Muitos no puseram f na origem nobre daquele sujeito franzino, de nariz adunco e sobrancelhas arqueadas como as de um vilo de romance de capa e espada. Houve at quem duvidasse de sua naturalidade francesa. Numa terra em que os cabras ostentavam a peixeira na cintura como sinal de distino, um francs bem-vestido e perfumado, cheio de bonjours para c e merci beaucoups para l, era visto com natural reserva pelos nativos. Alm disso, Adolphe van den Brule vivia com os olhos midos e muito azuis enrabichados para os lados da jovem Maria Custdia uma das rfs que moravam na casa de Ccero, criada como filha pela beata Mocinha. Assim como no caso de Floro, quase nada se conhecia da vida anterior do tal conde de nome difcil de pronunciar. Sabia-se apenas que fora casado em Pernambuco com uma senhora chamada Albertina. A mulher morrera misteriosamente e ele ficara vivo. S isso. Nada mais dissera. Ao passo que a curiosidade do povo fabricava hipteses, o doutor baiano ofereceu ao padre uma prova de fidelidade e audcia. Floro espanava a poeira dos arquivos dos cartrios do Cariri quando soube que uma amiga de Ccero andava bastante contrariada. Dona Hermnia Marques Gouveia era uma das frequentadoras mais assduas da casa do sacerdote e uma das devotas mais dedicadas. Hermnia revelou a Floro que estava muito doente e, prevendo a morte a qualquer momento, lamentava no poder ver concluda a capela que cerca de dois anos antes, por iniciativa dela, comeara a ser construda ao lado do cemitrio do Juazeiro. Assim como a igreja do Horto, as obras haviam sido paralisadas por ordem de dom Joaquim, sob a justificativa de que a capela seria apenas mais um ponto de encontro de fanticos ignorantes. Floro que se dizia catlico, embora no fizesse tanto gosto assim em ir missa considerou um absurdo o fato de um bispo proibir a edificao de uma igreja. O doutor ficou ainda mais desconcertado quando soube que a capela interditada 182. comeara a ser erguida em cumprimento de uma promessa, uma tocante manifestao de f. Um dia, Ccero cara de cama, vitimado por uma sucesso de febres altas e calafrios, acompanhada de dores de cabea, nuseas e vmitos. Sobrevieram edemas nas pernas, com formao de bolhas e ferimentos. No havia dvidas. Foi diagnosticada a erisipela, uma grave infeco provocada por estreptococos. Dona Hermnia prometera ento a Nossa Senhora do Perptuo Socorro que, se o padre ficasse bom, seria construda uma capela em louvor Virgem. To logo Ccero se recuperou e conseguiu sair de debaixo dos lenis, as obras tiveram incio, mas em seguida foram embargadas por padre Quintino. Em Fortaleza, dom Joaquim se negara a dar a devida autorizao eclesistica para o funcionamento de um novo templo em Juazeiro construdo sob as bnos de Ccero. Floro ouviu a histria com redobrado interesse. Viu ali a primeira grande oportunidade de mostrar ao padre que ele no era bom apenas de conversa. Tambm era homem de ao. Prometeu tomar conta do caso pessoalmente. Dona Hermnia no se incomodasse. A capela seria terminada. Ou ele no se chamava Floro Bartolomeu da Silva. Mal disse isso, Floro cavalgou at o Crato e foi ter com o padre Quintino. Apresentou-se como mdico, minerador e causdico. Comunicou que estava disposto a financiar a concluso das obras da capela com dinheiro do prprio bolso, sem que o padre Ccero tomasse mais qualquer parte no assunto. Nenhum vintm de romeiro seria empregado para assentar um nico tijolo que fosse no trmino da construo, assegurou. Floro alegou ser um desperdcio de recursos alm de um contrassenso religioso deixar o templo inacabado, exposto ao sol e chuva, negando-se assim um altar a Nossa Senhora. Aquilo seria, no mnimo, um desrespeito me de Deus, argumentou. Diante da lbia e da filantropia do doutor, Quintino viu-se compelido a ceder. Desde que Ccero no participasse realmente de nada, a construo poderia ser reiniciada. Daria comunicao ao bispo sobre o assunto. Poucas semanas depois, como ela prpria previra, dona Hermnia sucumbiu doena. Morreu quando faltavam apenas poucas telhas para completar a cobertura da capela, uma construo simples, com trs portas e trs janelas frontais, alm de passagens laterais para o cemitrio. Ccero considerou que o corpo da amiga merecia ser sepultado no interior do templo pelo qual ela tanto trabalhara. Padre Quintino, porm, dessa vez bateu o p. Depois de ser advertido por dom Joaquim, voltou carga. O tmulo evocaria para sempre a ligao de Hermnia com a construo e, por consequncia, a promessa feita por ela em nome de Ccero. Impossvel permitir que a mulher fosse enterrada ali, mandou avisar Quintino a Floro. Como ingrediente mais picante a temperar a histria, correriam no Crato suspeies sobre o comportamento e a moral da falecida. Ainda que sem provas convincentes, insinuou-se que dona Hermnia traa o marido, Joo Canrio, que nunca conseguira lhe dar filhos, bem debaixo das barbas dele. Quem sabe, diziam os mais maledicentes, at com o prprio padre Ccero. Indignado, Ccero sempre refutou tais insinuaes. Com exceo daquela antiga charge no jornal satrico pernambucano, nunca sua castidade havia sido posta em suspeio por nenhum de seus adversrios. Foi quando Floro decidiu tomar a frente do caso e as dores do amigo. Providenciou ele mesmo o sepultamento de Hermnia dentro da capela e, por sua conta e risco, mandou os pedreiros colocarem as ltimas telhas que faltavam para inaugur-la. Para preservar Ccero da ira de dom Joaquim, anunciou que o padre no tinha nenhuma 183. responsabilidade sobre o fato. Considerando tudo aquilo mera palhaada, tomei a peito terminar a obra, sem ouvir mais ponderaes de ningum, nem do padre Ccero, contaria Floro. A capela estava pronta e Hermnia estava enterrada l dentro. Pronto. Caso encerrado. O bispo que se danasse. Esse era o doutor Floro Bartolomeu. E aquele era s seu carto de visitas. Uma viagem repentina de Ccero ao Rio de Janeiro pegou muita gente de surpresa. Mas no ao sempre bem informado dom Joaquim, que havia sido advertido a respeito disso, a tempo, por padre Quintino. No dia 23 de abril de 1909, Ccero partiu do Cariri e, via Porto de Fortaleza, seguiu em direo capital da Repblica. O destino final era Petrpolis, onde defenderia junto ao internncio a candidatura do Juazeiro sede de um novo bispado. Como de costume, toda a documentao por escrito que levara consigo sara da pena de Jos Marrocos. Dom Joaquim, contudo, j se encontrava naquela cidade serrana fluminense e se antecipou em marcar audincia com o internncio para desmontar todos os possveis argumentos de Ccero inclusive os de natureza monetria. Ainda que o padre Ccero arranjasse um patrimnio de mil contos de ris eu jamais concorreria para a criao da diocese no Juazeiro, que habitado por exploradores e explorados, comentou o bispo em carta a Quintino. Para dom Joaquim, podia parecer insensato que Ccero, um sacerdote ento recentemente envolvido em um inqurito no Santo Ofcio, aspirasse criao de um bispado no controvertido Juazeiro. Mas as esperanas de Ccero a esse respeito se baseavam em um papel que trazia dobrado e guardado no bolso da batina como um tesouro: um telegrama que recebera do Vaticano e que interpretara como uma espcie de indulto celeste. Cinco anos antes, em 1903, Leo XIII havia falecido em Roma e dado lugar ao pontificado de Pio X. Na ocasio, Ccero enviara ao novo papa uma mensagem de saudao em nome de todo o Juazeiro, desejando ao sumo pontfice as graas de Deus frente da Igreja. Uma resposta protocolar abenoando de forma genrica os cristos da aldeia foi lida por Ccero como uma absolvio definitiva de suas penas. Tem havido muita alegria no Juazeiro nestes ltimos dias por causa de um telegrama recebido de Roma, avisara na poca padre Quintino a dom Joaquim. Nada mais ilusrio. Sempre abastecido pelas cartas e relatrios de dom Joaquim, o Santo Ofcio continuava a emitir pareceres negativos sobre o caso. Uma das inmeras peties de cidados caririenses em prol da reabilitao de Ccero, aps ser ignorada pelo bispo do Cear, acabou remetida ao Vaticano. O documento foi recebido pelo novo secretrio da Inquisio, o influente Serafino Vannutelli, um dos quatro cardeais votados no conclave que havia elegido Pio X como o novo papa em Roma. Esta Sagrada Congregao julga que devem ser inteiramente rejeitadas as splicas a ela apresentadas em favor da reabilitao do referido sacerdote, sentenciou Vannutelli. Idntico juzo de Ccero fazia o ento representante do Vaticano no Brasil, o internncio dom Alessandro Bovona. Envolvido no projeto de reorganizao da Igreja no pas o que de fato inclua a criao de novas dioceses , Bovona era interlocutor constante de dom 184. Arcoverde, nesse momento j elevado condio de primeiro cardeal de toda a Amrica Latina. Durante um almoo em Petrpolis com dom Joaquim, o cardeal Arcoverde tranquilizou o colega: no haveria a menor possibilidade de Juazeiro receber o privilgio de uma jurisdio eclesistica. O internncio estava prevenido. Ccero retornaria a Juazeiro com as mos abanando. Nunca tive duas opinies sobre aquilo, diria Arcoverde a dom Joaquim, referindo-se aos fenmenos de Juazeiro. Havia ali apenas malcia de uns e medo de revelar a verdade de outros, avaliava. Fora isso, apenas a ignorncia de quem via o sobrenatural onde s havia esperteza e velhacaria. Na volta ao Juazeiro, no dia 8 de julho de 1909, Ccero foi saudado com banda de msica. Perdera mais uma batalha, verdade. Porm, a recepo festiva tinha outro sentido. A campanha pela emancipao j estava nas ruas. Em pouco tempo, Juazeiro e Crato estariam em declarado p de guerra. O prprio Ccero j telegrafara ao intendente do Crato, o coronel Antnio Luiz, e ao presidente estadual, Nogueira Accioly, oficializando o assunto. Excelentssimo senhor Antnio Luiz Alves Pequeno. Chegou o tempo de pedir-lhe como amigo e sem perturbao de sua poltica que proponha e faa passar a vila o nosso Juazeiro, telegrafara Ccero para um. Confio que no haver dificuldade e desde j me confesso agradecido, telegrafou para o outro. A causa da emancipao ganhou uma tribuna incendiria: um jornal semanal, o primeiro a ser impresso no Juazeiro. A ligao do peridico com o sacerdote ficava explcita desde o endereo escolhido para sediar a redao e as oficinas: o nmero 343 da rua Padre Ccero como fora rebatizada a antiga rua Grande. Com seis pginas e uma foto gigante de Ccero estampada bem no centro da primeira pgina, a edio de estreia circulou exatos dez dias aps o retorno dele do Rio de Janeiro. Impressa em mquinas tipogrficas devidamente benzidas pelo padre, trazia um editorial vibrante. O texto valia por um tiro de mosqueto disparado obliquamente s autoridades do Crato: O Rebate, ei-lo a. Desassombrado e sem temer os homens da sombra, soterradas toupeiras. No comando da redao estava outro sacerdote, amigo de Ccero, desafeto declarado do coronel Antnio Luiz: o polmico padre Joaquim Marques de Alencar Peixoto, homem culto, poliglota, com pendor para as letras e autor de poemas em latim. Padre de versos padre de netos, dizia a lngua do povo. Cabeleira na altura dos ombros, Peixoto era objeto de queixas recorrentes de padre Quintino, que no cansava de delatar certos hbitos do colega que o vigrio do Crato julgava inadequados. Padre Peixoto conduziu s dez horas da noite uma moa que se achava em sua prpria casa, sem mais outra companhia, denunciou Quintino certa vez ao bispo. Depois mandou-a para a freguesia de Exu, bispado de Pernambuco, e l a visitou duas ou trs vezes, sendo que as ltimas vezes em traje secular. Junto ao padre Alencar Peixoto no comando da redao de O Rebate estava Floro Bartolomeu. Aqueles dois editores, juntos, iriam conferir publicao um alto teor explosivo. As primeiras edies at foram relativamente pacficas, com inofensivos artigos de fundo escritos por Peixoto sobre temas bem prprios ao que se podia esperar de uma publicao dirigida por um clrigo ilustrado. Eram textos eruditos, um tanto quanto empolados, sempre 185. recheados de referncias literrias e citaes filosficas. Discorriam, por exemplo, sobre as virtudes da escola crist ou o valor purificador das lgrimas para um bom catlico. Entretanto, um fato poltico logo iria virar pelo avesso a pauta do jornal do Juazeiro. Em resposta ao telegrama de Ccero, o presidente Nogueira Accioly dissera que aquele assunto de emancipao no era com ele: Padre Ccero Pedido do respeitvel amigo tem para mim todo valor. Entretanto para deliberar sobre assunto acho conveniente entender-se primeiro com coronel Antnio Luiz combinando com ele melhor meio de resolver questo. Nogueira Accioly Ccero que se desgastasse sozinho com o coronel do Crato. Antnio Luiz que administrasse as aspiraes do padre. Ele mesmo, Accioly, no iria mover uma palha na direo de qualquer um dos dois lados naquela melindrosa celeuma. Ciente disso, Ccero achou que talvez fosse o caso de atender risca o conselho do presidente. Assim, tratou de expor ao coronel Antnio Luiz, em pessoa, os detalhes tcnicos que fundamentavam a pretendida emancipao. Em audin-cia oficial, informou que os chefes polticos de outras cidades vizinhas, como Misso Velha e Barbalha, j haviam concordado em ceder pequenas pores dos respectivos territrios para compor a futura vila de Juazeiro. Faltava apenas o Crato, a quem de fato e de direito estava subordinada a aldeia, tambm concordar com o fim da tutela. Para ilustrar o que dizia, Ccero ps um mapa sobre a mesa e apontou os limites que teria a nova vila. Como no podia deixar de ser, a maior parte das terras envolvidas no permetro que o padre delineou com o dedo indicador eram pertencentes ao Crato. Antnio Luiz interrompeu a exposio. Ccero no gastasse tempo e saliva toa. O coronel no era doido a ponto de deixar que se fundasse mais um municpio autnomo no Cariri: Se eu consentisse em tal coisa, s iria ajudar a criar mais uma cidade inimiga do Crato, avaliou. Alm do mais, o coronel Antnio Luiz acreditava que os chefes polticos das cidades vizinhas estavam querendo fazer cortesia com o chapu alheio. O Crato seria o principal prejudicado com a emancipao do Juazeiro. Perderia muitas terras e uma boa fonte de impostos: No vou dar esse gosto aos chefes de Misso Velha e de Barbalha. Aqueles l so uns bandidos. Ante a frustrao de Ccero, Antnio Luiz encurtou a conversa: Quem sabe, no ano que vem, a gente volta a falar disso. O padre enrolou o mapa, colocou-o debaixo do brao e voltou para casa. Desconsolado, tornou a telegrafar a Nogueira Accioly, para contar o ocorrido e lastimar a recusa de Antnio Luiz. O presidente, mais uma vez, fez-se de morto. Lamentou, mas no podia ajudar em nada. Como a Assembleia Legislativa s se reunia uma vez por ano, apenas no exerccio seguinte o assunto poderia ser recolocado em discusso. At l, era o caso de dar tempo ao tempo. 186. Ccero tivesse pacincia. A rispidez do intendente do Crato, combinada com a omisso de Accioly, provocou um mal-estar generalizado no Juazeiro. O incmodo foi devidamente repercutido nas colunas de O Rebate, que tornou pblica a troca de telegramas entre Ccero e o presidente estadual. O combustvel estava pronto. S precisava de algum para providenciar a primeira fagulha. Ironicamente, uma visita pastoral ao Cariri do bispo auxiliar do Cear, dom Manoel Antnio de Oliveira Lopes, entrou como o estopim que faltava histria. No dia 26 de agosto de 1909, na solenidade para recepcionar dom Manuel diante da matriz cratense, um dos oradores convidados proferiu a frase histrica que foi considerada a declarao oficial de guerra. A praa estava lotada. Milhares de pessoas de todo o Cariri prestigiavam o evento. O padre Antnio Tabosa Braga, vigrio da cidade serrana de Pacoti e integrante da comitiva oficial, abriu o discurso com o seguinte brado: Povo nobre e altivo do Crato, peo permisso para falar sobre o povo imundo do Juazeiro, que vive guiado por Satans. Os cratenses aplaudiram. Os juazeirenses ficaram ensandecidos. Estava semeada a discrdia. Para evitar confrontos, Ccero sugeriu que os romeiros e os juazeirenses evitassem ir ao Crato por aqueles dias. Ora, o conselho do padre significava uma ordem. Assim sendo, muitos dos que moravam na aldeia e trabalhavam na cidade simplesmente abandonaram o emprego, deixando os patres sem nenhuma satisfao. A feira livre cratense, pulmo econmico do lugar, ficou vazia de uma hora para outra, sem a presena dos compradores habituais, vindos do distrito mais populoso. Ccero foi acusado de incentivar o boicote ao comrcio local e passou a ser considerado persona non grata pelas autoridades do Crato. Choveram improprios contra ele. Acusaram-no, como sempre, de manipular de forma capciosa a f e a ingenuidade do povo. Sob o pseudnimo de Manoel Ferreira de Figueiredo, Floro Bartolomeu partiu em defesa do padre na edio de 29 de agosto de O Rebate: Se o padre Ccero fosse um sacerdote caviloso, embusteiro, hipcrita, usurrio, maluco conforme dizem os inimigos da verdade, em tempos de grande agitao poltica, quando as localidades desta zona se estremecem ao peso das ameaas, a sua presena no seria a bandeira da paz, nem a sua palavra seria acatada e respeitada pelos vultos mais proeminentes. Floro falava de paz, mas advertia com a possibilidade da guerra. Na edio da semana seguinte, voltou ao tema, em um longo artigo intitulado Olho por olho, dente por dente. Bateu sem piedade no padre Tabosa, o autor da frase que provocara toda a agitao. Previu que a referncia a um povo imundo acenderia uma insurreio no Juazeiro: E o que far Sua Reverendssima em tal ocasio, assim acontecendo? Porventura julgar que, distante, poder sentir as douras da irresponsabilidade, em face de tamanha hecatombe, de uma calamidade de tal ordem?. Se o Juazeiro estava em estado de motim, os artigos inflamados de Floro incitavam ainda mais o povo revolta. O endiabrado padre Alencar Peixoto no ficou atrs. Logo que correu a informao de que o coronel Antnio Luiz solicitara um batalho da polcia para a cidade, O Rebate estampou um editorial de primeira pgina em tom alarmista. A assinatura era de 187. Peixoto: Meu esprito geme de aflio como o povo do Juazeiro, angustiado pela dolorosa expectativa da hiptese, que mais e mais se acentua, de ser agredido, espingardeado e riflado. No Crato, padre Quintino levava as mos cabea. Escreveu a dom Joaquim para se dizer horrorizado com tudo aquilo. Segundo ele, os interesses contrariados de Ccero estavam na raiz de todo o alvoroo. A ideia de emancipao do Juazeiro teria levado o Cariri inteiro a um estado de beligerncia e anarquia: Os espritos se acham sobressaltados, com a possibilidade de uma luta armada, avisou. Se estivesse em mim, obstaria a criao da vila, enquanto o padre Ccero teimasse em dar ganho de causa a seu orgulho. Penso que favorecer suas ideias e desejos ser alimentar o fanatismo a afirm-lo ainda mais na sua obstinao. Para agravar as desavenas, em um lance que deixaria as manchetes de O Rebate em estado de fria, Floro Bartolomeu foi vtima de uma emboscada. A Justia estabelecera o 17 de dezembro de 1909 como data de uma das primeiras audincias relativas questo do Cox, no municpio de Milagres. Como representante legal do padre, Floro ps o melhor terno de casimira, a melhor gravata de seda, depois seguiu para l com um cartapcio de documentos na mala. Por sorte sua, um atraso do conde Adolphe van den Brule obrigou-o a adiar a partida para o stio em que ficaria hospedado. A demora de Adolphe salvou Floro. Quando o doutor se preparava para completar a viagem junto ao scio, foi informado de que o local estava sob fogo cerrado. As cercas haviam sido derrubadas e as casas dos moradores estavam em chamas. Morreste, peste!, haviam gritado os agressores, enquanto as balas transformavam em peneira as paredes de barro da casa onde imaginavam estar Floro. No foi difcil buscar um culpado. Atribuiu-se a autoria intelectual do atentado ao coronel Alves Teixeira, da cidade de Aurora, um dos querelantes na ao relativa s terras do Cox. Mas, como Teixeira era aliado e parente do coronel Antnio Luiz, tambm no foi preciso muito malabarismo para logo se acusar o intendente do Crato de ser o verdadeiro mandante da emboscada contra Floro. Nos editoriais cada vez mais impetuosos de O Rebate, padre Peixoto denunciava que o ataque contra o colega de redao fora apenas um ensaio. O Crato estaria preparando uma grande investida armada no s contra o Juazeiro, mas contra vrios municpios ao mesmo tempo, para que assim Antnio Luiz estendesse seus domnios por toda a extenso do serto sul cearense: Qual a sua obra infernal? Quais as suas intenes, os seus planos sinistros e diablicos? Eis a resposta a todas essas perguntas: mudar a feio poltica de todo o Cariri e apoderar-se depois das clebres minas de cobre do Cox, acusou padre Peixoto. Nos meses seguintes, a rixa entre cratenses e juazeirenses converteu-se em dio recproco. O anunciado ataque da polcia no veio, mas um grupo de soldados estava mesmo de prontido na cidade, apenas esperando a ordem para agir. No Crato, exemplares do jornal do Juazeiro passaram a ser rasgados e queimados em praa pblica. Do lado oposto, o Correio do Cariri, rgo cuja linha editorial era traada por Antnio Luiz, dava o troco s virulncias disparadas por Floro e Peixoto. Para os redatores do Correio, a terra na qual reinava o padre Ccero era uma tapera, um lugarejo retrgrado, uma aldeia que abrigava corjas de bandidos, assassinos e desordeiros, uma espcie de Sodoma ou Gomorra, a terra clssica dos preguiosos, que ameaava de extermnio, destruio, saques e roubos 188. a risonha cidade do Crato. Prximo a completar seu primeiro ano de circulao, O Rebate passou a revidar tal palavrrio de forma ainda mais agressiva. Em meados de abril de 1910, o jornal comeou a incitar abertamente os juazeirenses s armas. A motivao fora o ataque desfechado por dezenas de jagunos contra as cidades de Lavras e So Pedro, sem que tal agresso houvesse merecido qualquer resposta por parte do batalho oficial. O fato levou padre Peixoto a considerar que sua profecia sobre o suposto plano do Crato de tomar o Cariri estava sendo cumprida. Alerta!, convocou Peixoto: Alerta!, povo do Cariri! Alerta!, povo do Juazeiro! Os que ainda no esto armados, armemo-nos! Os ltimos acontecimentos nos foram, obrigam-nos a isso! [...] Armemo-nos!, que no h mais lei, no h mais justia. No h mais direito que nos valha, que nos garanta. Armemo-nos para repelirmos com energia o inimigo que nos espreita a todo momento e a todo instante est a tramar, a urdir, a arquitetar a nossa runa. Armemo-nos! [...] Se temos trezentos ou mais rifles, dupliquemo-los, tripliquemo-los, quadrupliquemo-los! Perguntando-se a Gambetta o que era preciso para salvar a Frana, este respondeu sem hesitao: audcia, mais audcia e muita audcia. Assim caririenses, para salvarmos a nossa vida, a nossa propriedade, a honra e a dignidade de nossas filhas, de nossas mulheres e de nossas famlias ameaadas e, agora, mais que nunca, pelos horrores de Lavras e de So Pedro, respondamos: rifle, mais rifle e muito rifle. Ainda que todos no Crato responsabilizassem Ccero pelos arroubos revolucionrios do jornal, o padre mantinha cuidadosa distncia do centro da cena e do prprio calor da redao. O nome dele era citado vrias vezes pelos editoriais, mas ele prprio nunca assinara um nico artigo. Assim mesmo, com a radicalizao do discurso de O Rebate, alguns dos velhos amigos tentaram adverti-lo: proporo que a poltica o atraa perigosamente para sua rbita, Ccero afastava-se de suas causas originais. Foi o que tentou lhe dizer o padre Francisco Antero, o comissrio do primeiro inqurito eclesistico sobre o Juazeiro. Mesmo tendo se retratado por fora do decreto do Vaticano, Antero continuava a manter uma relao amistosa com o colega. Por isso estava preocupado com a aproximao progressiva de Ccero com homens de personalidade to intempestiva como Floro e padre Peixoto. Temia que os novos amigos estivessem usando o sacerdote em proveito de uma causa que no era propriamente a dele, para depois coloc-lo de lado, no ostracismo. Pelo que estou vendo, at seus amigos da poltica lhe esto abandonando, parece que no precisam mais de voc. S querem guerra, escreveu a Ccero. Note que no falam mais nas suas virtudes, no seu prestgio; mas s nos seus haveres, na sua fortuna. O que significa isto?, indagou Antero, chamando-o conscincia Jos Marrocos era outro que tinha algumas mgoas a destilar em relao ao amigo Ccero. Nem sequer fora convidado para a festa de inaugurao de O Rebate. Mesmo tendo sido o propagandista pioneiro dos fenmenos do Juazeiro na imprensa nacional, no o chamaram para a festa que marcara a fundao do primeiro jornal do lugar. Esperei em vo e desapontado, se no muito contrariado, confessou a Ccero, por carta. Consciente de que o velho amigo fora objeto, no mnimo, de uma indelicadeza, Ccero se entendeu com Peixoto para que Jos Marrocos se tornasse, desde a segunda edio, um dos 189. articuladores permanentes de O Rebate. Contudo, os textos de Marrocos, ao insistirem em defender a causa dos milagres, passaram a destoar do restante da publicao, marcada de forma hegemnica pela acirrada polmica contra o Crato. Era uma atrapalhao. Enquanto Marrocos falava do Cu, Peixoto falava de multiplicar o nmero de rifles para responder ao inimigo. A exemplo de Antero, o professor Jos Marrocos receava que a ascendncia crescente de Floro Bartolomeu alterasse para sempre o foco de Ccero da questo religiosa para o territrio escorregadio da poltica. Como ltimo recurso para tentar equilibrar as circunstncias, Marrocos mudou-se do Crato para o Juazeiro e passou a se engajar pessoalmente, mas a seu modo, na campanha pela emancipao. Bem no auge da polmica entre O Rebate e o Correio do Cariri, ele marcou uma reunio com a nata da sociedade juazeirense para discutir os rumos e reavaliar os mtodos do movimento emancipacionista. A data escolhida foi o 15 de agosto, dia que os catlicos consagram Assuno de Nossa Senhora. Era a forma de o professor reafirmar seu estilo e seu prestgio junto a Ccero. Mas ele no reparou que j era tarde demais para isso. Na antevspera da reunio, dia 13, Marrocos chegou a ser visto por vrias pessoas, enquanto ultimava os preparativos para o evento. Parecia bem-disposto e absolutamente saudvel. No dia seguinte, porm, acordou se sentindo mal. Como fazia todas as manhs, vestiu-se para ir missa. Logo aps, seguiu para ornamentar com fitas e imagens a sala do colgio em que seria realizada a reunio do dia seguinte. Ao saber que o amigo no estava bem, Ccero pediu que dona Isabel da Luz, professora e tambm proprietria de uma escola em Juazeiro, ajudasse no trabalho de decorao do local. No mesmo instante, o padre mandou chamar o doutor Floro Bartolomeu para examinar o professor. tarde, deitado em uma rede em um dos aposentos do colgio, Marrocos tomou caf e conversou demoradamente com Ccero. Parecia novamente bem, mas o diagnstico era de pneumonia dupla. Floro lhe receitara alguns comprimidos e depois, aparentando despreocupao, rumara para a fazenda em Misso Velha, deixando o paciente sob os cuidados do padre. De forma inesperada, Marrocos sofreu um colapso e entrou em agonia. Para espanto de todos, em poucas horas, parou de respirar. O corao no batia mais. O homem estava morto. Aquele fim to repentino levantaria suspeitas contra Floro Bartolomeu. Acreditou-se que, para tirar Marrocos do caminho do padre, o doutor no lhe ministrara remdios, mas sim uma dose letal de veneno. Tal hiptese jamais foi confirmada, embora a ida imediata de Floro a Misso Velha tenha sido entendida por muitos como um libi estratgico. O fato que, quando Marrocos expirou, Floro j estava a quilmetros de distncia dali. Nunca se provou nada contra ele. Minutos antes de morrer, Jos Marrocos estendeu a mo e entregou a Ccero uma chave. Era a da porta da frente do sobrado onde residira no Crato. Quando passou a morar no Juazeiro, a casa ficou fechada, com os mveis cobertos por lenis brancos para proteg-los da poeira. L, junto aos livros, alfarrbios e outros pertences da biblioteca particular do professor, havia algo que precisava ser mandado buscar com urgncia, antes que casse em 190. mos estranhas. Ccero no esperou nem o corpo do amigo esfriar para enviar, no comeo da noite, trs portadores de confiana ao local: os comerciantes Manuel Vitorino e Cincinato Silva, moradores do Juazeiro, e o gerente comercial de O Rebate, Felismino de Alencar Peixoto, irmo de padre Peixoto. Enquanto o corpo de Marrocos era velado, Ccero orientou-os a trazer tudo o que encontrassem no escritrio privado do falecido. Tudo mesmo. Levassem as malas e os caixotes que fossem necessrios para transportar a carga. Tinham de se apressar. Feito o trabalho, antes de voltar ao Juazeiro, tivessem certeza de que no haviam esquecido nada. Assim que os trs homens saram em disparada pela estrada para cumprir o mandado, Ccero voltou a rezar pela alma do amigo. No Crato, a movimentao noturna na velha casa de Marrocos chamou a ateno dos vizinhos. Quando soube que eram emissrios de Ccero que estavam encaixotando objetos sem autorizao legal no sobrado de um morto, o juiz da comarca, Raul de Sousa Carvalho, determinou uma batida imediata no lugar. Acompanhado do delegado da cidade, surpreendeu os trs homens e comunicou que a casa estava interditada pela Justia at que fosse providenciado o devido inventrio, seguindo-se os trmites jurdicos necessrios. At l, nenhuma agulha poderia ser tirada ali de dentro. Largassem tudo naquele exato momento. Um dos representantes de Ccero, o comerciante Cincinato Silva, tentou ponderar: como Marrocos no deixara filhos e no tinha pais vivos, pouco antes de morrer, no fundo da rede, nomeara informalmente o sacerdote como seu nico herdeiro. Portanto, o padre Ccero apenas mandara buscar o que era seu. Ao ouvir a explicao, o juiz irritou-se: Olhem bem, isto aqui o Crato! No um arrabalde sujo como o Juazeiro! Aqui tem lei, aqui tem Justia!, esbravejou o doutor Carvalho, dando ordem de priso ao grupo. Determinou ao delegado que conduzisse aqueles homens debaixo de escolta policial e os deixasse passar a noite na cadeia. Informado do entrevero, Ccero decidiu ele mesmo ir ao Crato tomar satisfaes com o desabusado doutor Carvalho, que alm de juiz era editorialista poltico do Correio do Cariri. Aquela seria uma conversa spera. O padre insistiu que tinha o direito de levar para o Juazeiro todo o esplio do finado Marrocos. O juiz contra-argumentou que as formalidades previstas em lei teriam de ser rigorosamente obedecidas. Era necessrio apresentar-se documento legal, com firma reconhecida do defunto, passando o direito de herana a Ccero, para que s ento os objetos fossem liberados. A confiar na narrativa que o prprio juiz faria mais tarde do episdio, Ccero estava to aflito que perdeu a calma e ameaou Carvalho com o dedo em riste: Doutor, ou esse esplio vem para minhas mos, como eu quero, ou o mundo racha! O juiz devolveu o gesto e levantou o dedo contra o rosto de Ccero. Pagava para ver o mundo rachar: Seu padre, eu lhe asseguro que esse esplio s ir para o seu poder quando o senhor comparecer no meu juzo, cumprindo direitinho o que diz a lei. Ccero girou sobre os prprios calcanhares e saiu da sala sem se dar ao trabalho de se despedir. Dias depois, mandou ao juiz um telegrama assinado por um irmo de Marrocos que lhe passava o direito de posse dos objetos. Carvalho no se deu por convencido. Disse que 191. aquele mero pedao de papel no valia coisa alguma. No era uma procurao formal, com firma reconhecida pelo tabelio, como previa a lei. Podia muito bem ser um documento falso. Nada garantia que a mensagem telegrfica houvesse sido enviada pelo presumvel remetente. Impaciente, Ccero levou mais alguns dias at conseguir providenciar a papelada exatamente como exigia o juiz. Foram dias de aflio e expectativa. Quando enfim recebeu os pertences de Marrocos, o padre ficou alarmado. Depois de revirar tudo de baixo para cima, notou justamente a ausncia daquilo que tanto queria. Veio-lhe ento a sombra do desespero. O que Ccero esperava encontrar no estava mesmo l. Ao arrolar os bens do professor, um a um, o juiz tivera sua ateno despertada para dois objetos em particular. O primeiro era um livro escrito em francs, cheio de gravuras coloridas e impresso em papel cetim. O segundo, escondido sob uma pilha de papis amarelecidos pelo tempo, uma caixinha quadrada de madeira fechada por um gancho. Sobre o livro, muito ainda iria se especular. Insinuou-se que ele seria um compndio de qumica, que entre outras frmulas ensinaria um mtodo para produzir uma substncia parecida com o sangue humano. Teria sido nele que Jos Marrocos se baseara para simular os milagres da beata Maria de Arajo. O juiz, o primeiro a levantar tal suspeita, no se preocupou em anotar o nome do autor ou mesmo o ttulo da obra, fazendo com que tal acusao casse no rol das muitas teorias conspiratrias que envolvem a histria de Ccero. Porm, aquilo do qual realmente o padre sentiu falta no foi o hipottico manual francs de qumica. A caixinha de madeira era o verdadeiro objeto de preocupao do padre, item que Carvalho deixara propositalmente fora da entrega do esplio. De incio, pareceu-lhe um objeto sem importncia, mas quando o juiz puxou o gancho e abriu o estojo, compreendeu a razo pela qual Ccero travara uma batalha to grande para tomar posse de uma herana to modesta como a de Marrocos. Dentro da caixinha, estavam as toalhas e os paninhos manchados de sangue que, duas dcadas antes, haviam sido roubados do sacrrio da matriz do Crato. O autor do furto havia sido Jos Marrocos. Ali estavam, entre seus pertences, as provas do milagre ou do embuste. O que poderiam valer uns molambos sujos e apodrecidos, por 21 anos, dentro de um pequeno e insignificante receptculo de madeira ordinria?, indagaria o juiz Raul de Souza Carvalho. Eu poderia at, se entendesse, mandar jogar no lixo da casa toda essa sujeira, por medida de profilaxia, afirmaria depois, para justificar o motivo pelo qual no enviou a caixinha a Ccero, junto com os outros objetos de Marrocos. Bastava que encarasse o caso pelo lado da imundcie que apresentavam esses panos velhos, impregnados de saliva e sangue podres, alegou. A explicao dada pelo juiz no conseguia encobrir o fato de que, ao contrrio do que alegava, ele tinha a exata noo da importncia do contedo daquela caixa. Tanto que em vez de atirar o estojo ao lixo de casa fez questo de repass-lo s mos de uma terceira pessoa. Algum que naquela altura dos acontecimentos estava furioso com Ccero, por ter sua autoridade desafiada sistematicamente nas pginas de O Rebate: o coronel Antnio Luiz, o caudilho do Crato. Ccero tremeu. Nem mesmo 100 mil editoriais poderiam fazer frente a uma arma to 192. poderosa como aquela na mo do inimigo. 193. 3 Aldeia proclama independncia. Paninhos manchados de sangue viram objeto de barganha 1910-1911 Pelo barulho que crescia l fora, Ccero percebeu que os manifestantes se aproximavam. O rumor de vozes, o som da banda de msica e o estampido dos fogos de artifcio ficavam cada vez mais perto. O povo estava vindo, subindo a rua. Quando a passeata chegasse, o padre teria de abrir a janela de casa, esconder os prprios temores e falar multido. Diante da nova circunstncia, angustiado com o destino dos paninhos manchados de sangue, o que diria quela gente? Os tormentos de Ccero contrastavam com o jbilo coletivo. Desde as primeiras horas da manh, o Juazeiro fervilhava. No meio da tarde, 15 mil pessoas haviam se acotovelado no comcio da praa Grande, a partir de ento praa da Liberdade. Padre Peixoto subira numa cadeira e, com gestos teatrais, agitara no ar a flmula de O Rebate: Se por acaso eu vier a ser morto pela bala de um cangaceiro na defesa da liberdade do Juazeiro, este pedao de pano ser minha mortalha! Depois fora a vez de Floro Bartolomeu discursar. O doutor afirmou que o Juazeiro no devia mais nenhuma obedincia ao Crato. A emancipao estava proclamada ali mesmo, na marra, quer o coronel Antnio Luiz achasse bom, quer achasse ruim. Ningum precisava mais ter medo de ameaas. Todos guardassem aquela data na memria: sbado, 30 de julho de 1910. Era o dia da libertao. A massa explodiu em palmas, gritos e assovios. Ao trmino do comcio, a multido no se dispersou. Desceu de forma compacta para os lados da capela de Nossa Senhora das Dores. Hinos cvicos se misturaram aos refres religiosos. Por cerca de quinze minutos, todos rezaram de mos dadas, de olhos fechados, pedindo a proteo da Virgem Maria. Depois, a aglomerao encaminhou-se sede de O Rebate e, de l, aps nova srie de discursos ruidosos de Peixoto e de Floro, decidiu-se rumar para a casa do padre Ccero. Eufricos, os manifestantes de braos entrelaados queriam pedir a bno do padrinho, ouvir sua palavra. Muitos traziam nas mos um panfleto rodado na tipografia do jornal, em que se liam os termos da declarao de independncia: ATITUDE DO POVO DO JUAZEIRO, QUALQUER QUE SEJA A SOLUO! 1. No mais reconhecer o coronel Antnio Luiz como seu chefe. 2. No pagar impostos municipais Cmara do Crato, nem a nenhum procurador ou representante dela. 194. 3. Pagar somente os impostos estaduais e federais. 4. Submeter-se direo poltica do Excelentssimo Senhor doutor Accioly. 5. No atacar nem agredir ningum, procedendo com toda a calma. 6. Unirem-se todos para juntos trabalharem pela liberdade do Juazeiro. 7. Se o coronel Antnio Luiz entender que deve mandar cobrar os impostos municipais custa das armas, reagir tambm pelas armas, com todo o herosmo, desde o maior ao menor, sacrificando a vida, o dinheiro e tudo que possa ter. 8. Morrer ou vencer pela liberdade do Juazeiro! O motivo da manifestao foi a quebra de um compromisso do coronel Antnio Luiz firmado com o padre Ccero. Todos lembravam que no ano anterior ele dissera que a emancipao poderia voltar a ser discutida no exerccio seguinte. Mas Antnio Luiz no honrou a palavra. To logo chegou o tempo da reunio anual da Assembleia Legislativa, Ccero encaminhou-lhe longa carta, na qual rememorava o assunto: Como amigo, me animo a ponderar-lhe mais uma vez que a elevao do Juazeiro a vila no trar marcha poltica do Crato nenhuma perturbao. O coronel fez ouvidos moucos. Alegou que os limites do novo municpio precisavam ser definidos com melhor critrio. Necessitava de ainda mais tempo para refletir sobre o assunto. A discusso teria de ser adiada, de novo, pelo menos por mais outra temporada: Para o ano, correndo as coisas sem alteraes, ser possvel satisfazer o pedido, protelou novamente o coronel. Ccero achou que Antnio Luiz talvez estivesse tentando faz-lo de bobo. Enviou-lhe um telegrama ressentido, que seria publicado, na ntegra, por O Rebate: Lamento que voc, pela segunda vez, no queira me ajudar em obra to meritria, que traria definitivamente a paz geral. A mensagem foi analisada pelo jornal como a senha para mobilizar a populao. Os editoriais e os panfletos se encarregaram de conclamar o povo praa pblica. Justo no momento em que Ccero percebia que iria encontrar dificuldades para rever a caixa de madeira, o movimento ganhara as ruas. Ningum mais deteria o povo. J era comeo de noite quando a multido comeou a se apinhar diante da casa do padre. Era tanta gente que todas as ruas contguas ficaram tomadas. Muitos subiram em rvores e escalaram os telhados dos vizinhos de frente, para ter uma viso melhor da cena quando Ccero aparecesse. A banda de msica comeou a tocar hinos e dobrados, mas logo algum fez o gesto pedindo silncio. A um sinal da batuta do maestro Pelsio de Macedo, a fanfarra parou de repente. As duas metades da janela pintada de azul se abriram e Ccero surgiu com a batina negra de sempre, o brao direito levantado, saudando a multido. O delrio tomou conta do povo: Viva o Padim Cio!, gritou-se. Viva!, milhares responderam, em unssono. Ccero estava acostumado a grandes plateias. Mas nem mesmo durante a maior de todas as romarias ele j deparara com tamanha aglomerao. Nunca tantas pessoas tinham estado ali diante de sua janela, todas ao mesmo tempo, para ouvi-lo. O povo, ansioso, aguardava o que ele tinha a falar. A questo, repetida de boca em boca durante a passeata, era uma s: e se por acaso os jagunos do coronel Antnio Luiz viessem atac-los, como deveriam reagir? Responderiam ao ataque com rezas ou com rifles? Da janela, um preocupado padre Ccero proferiu poucas palavras: Tenho f em Deus e na Virgem Maria que ningum vai querer mandar matar um povo que 195. est apenas defendendo seu direito liberdade. At mesmo pela cabea do mais devoto dos romeiros deve ter passado o demnio da dvida. E se dessa vez o padrinho estivesse enganado? Ao saber do comcio gigante e das declaraes de independncia, o coronel Antnio Luiz ordenou que o batalho estacionado no Crato marchasse a passo acelerado para o Juazeiro. O Rebate pregou o aviso: Povo! Chegou notcia que o senhor Antnio Luiz est preparando para amanh mandar uma fora armada vos espingardear, vos matar, porque no quereis pagar impostos municipais. Cada juazeirense deve estar prevenido com suas armas de prontido para morrer ou matar na defesa de seus direitos. s armas, povo! Quem no por vs contra vs! Enquanto as notcias alimentavam a revolta, Ccero remeteu uma carta ao presidente Accioly. Dizia que o envio do batalho sepultara todas as esperanas de uma soluo pacfica. Por esse motivo, afirmou que iria se retirar da regio, para no servir de testemunha a um massacre. No quero assistir s terrveis cenas de sangue, informou Ccero. Minha retirada ser um protesto, perante a Nao e o clero, contra tamanha barbaridade. Ao atingirem as imediaes do Juazeiro, os soldados ficaram espera da ordem de ataque. A orientao era a de que, uma vez recebido o sinal, sentassem o p na porta de todos os devedores de impostos e cobrassem deles a importncia devida ao tesouro do Crato. Aos recalcitrantes seriam reservados os rigores da lei. Quem insistisse em reagir levaria chumbo. Mas o batalho, posto em posio de assalto, no se mexeu. Diante do cenrio que os aguardava, os soldados engoliram em seco. Estavam em flagrante desvantagem numrica. Em um confronto direto, no seriam preo para a multido que os receberia de cacete, punhal e espingardas em punho. Se ousassem entrar em combate, seriam trucidados pela cabroeira em fria. Desde o primeiro grande comcio, o Juazeiro se encontrava em estado de viglia poltica permanente, situao sustentada pelos boletins que no paravam de ser rodados, dia e noite, na tipografia de O Rebate. A linguagem continuava a ser a da mais absoluta insurreio: O povo do Juazeiro, j por demais farto dos amargores da desgraa e das longas angstias de muitos martrios, compreendendo agora nitidamente a sua fora, o seu valor moral e vendo o abismo de humilhao a que tiranicamente o propelia o senhor Antnio Luiz, no mais se sujeitar dominao desptica deste homem. No! Mil vezes no! Absolutamente no! No domingo, 31 de agosto, os soldados assistiram ainda paralisados a outro comcio assombroso, igualmente seguido de enorme passeata. Na quarta-feira, 3 de setembro, o povo continuava nas ruas. Realizaram-se novos comcios, novas passeatas, sempre com a presena macia de milhares de pessoas. Para dar ainda mais flego ao movimento, os coronis de Barbalha, Milagres e Misso Velha declararam apoio ao Juazeiro e iniciaram uma srie de visitas de solidariedade aldeia conflagrada. Montados a cavalo, escoltados por jagunos fortemente armados, foram recepcionados com honrarias de chefe de Estado. Enquanto os coronis participavam de banquetes oferecidos por Floro Bartolomeu em nome do padre Ccero, os panfletos continuavam a inundar as ruas do Juazeiro: 196. mais fcil derrotar um exrcito por mais formidvel que ele seja do que escravizar um povo que no quer ser escravo e que por isso se debate corajosamente pelo ideal santo de sua liberdade. E debater-se- heroicamente at a morte! Viva a liberdade do Juazeiro! Viva o benemrito e virtuosssimo padre Ccero Romo Batista! O calendrio oferecia uma data oportuna para manter a agitao popular por mais uma semana nas ruas. No Sete de Setembro, dia da Independncia do Brasil, aproveitou-se para comemorar tambm a independncia do Juazeiro. Na praa da Liberdade, um longo tronco de carnaba serviu de mastro para se hastear o retngulo de tecido azul atravessado por uma faixa branca na diagonal, no centro da qual se lia a seguinte frase: Viva a Independncia do Juazeiro!. Era o prottipo da bandeira do futuro municpio. Tinha as cores do manto sagrado da Virgem Maria. Ao lado da notcia em que descrevia os detalhes daquela festa cvica, O Rebate publicou novo aviso aos leitores. O tom alarmista fora substitudo pelo otimismo. Percam o receio, dizia o ttulo. O boato que circula de que o senhor Antnio Luiz e os seus poucos amigos garantem que ho de acabar com o Juazeiro, reduzindo-o a um outro Canudos com auxlio da fora federal, no tem fundamento. Ningum se assuste, tranquilizava o texto. O caso no permite interveno de fora federal, nem o governo tem o seu exrcito disposio dos caprichos do senhor Antnio Luiz, que um simples chefe de municpio e dos mais fracos, pois dos demais chefes vive isolado. Onze dias depois, a 18 de setembro, a situao j se mostrava to favorvel que Ccero esqueceu completamente a ideia de se afastar do Juazeiro. Considerou tambm que chegara o momento propcio para remeter um novo despacho telegrfico ao presidente Accioly. Seria uma mensagem ousada, mas totalmente em sintonia com o clamor das ruas. No telegrama, o padre reafirmava a disposio de o Juazeiro no pagar os impostos municipais atrasados enquanto a lei da emancipao no fosse carimbada pelo governo do estado. Ccero tambm solicitava a retirada imediata do batalho de polcia que fora enviado para a aldeia. Em caso contrrio, se os soldados permanecessem em posio de alerta, o padre no responderia pela sorte deles: O presidente quem deve assumir a inteira responsabilidade das consequncias funestas do capricho e da desorientao poltica do senhor Antnio Luiz, advertiu. Ccero, que dias antes parecia acuado, esforava-se ento para passar uma imagem de estudada altivez. Talvez temesse continuar demonstrando cautela excessiva e, por consequncia, sua atitude passar a ser confundida pelo adversrio com uma espcie de capitulao antecipada. A postura mais firme do padre incentivou O Rebate a redobrar a campanha. Embora a emancipao ainda no houvesse sido oficializada, o jornal passou a considerar que o Juazeiro, para todos os efeitos, no pertencia mais ao Crato. Logo no incio de 1911, com os editoriais de O Rebate disparando munio pesada contra o coronel, Ccero recebeu um telegrama annimo. A mensagem, curta e grossa, embutia uma ameaa, embora acenasse tambm com a esperana de um possvel acordo: Acabe discusso intil na imprensa. O que voc procura est em mo segura. Ccero entendeu o recado. Os paninhos ensanguentados iriam virar objeto de barganha. Os trs cavalheiros cratenses, solenemente engravatados, chegaram ao Juazeiro naquele 197. 18 de fevereiro de 1911 para propor o acordo de paz. Os homens dispensavam apresentaes. O primeiro era o coronel Abdon Franca de Alencar, presidente da Cmara do Crato e irmo do coronel Nelson Franca de Alencar, tido e havido como o fazendeiro mais rico da cidade. Abdon se fazia acompanhar do comerciante Digenes Frazo e do doutor Pedro Gomes de Matos, este ltimo ligado por laos familiares ao presidente Nogueira Accioly. O trio que representava em si a coeso das elites agrrias, urbanas e polticas do Crato foi recebido por uma comisso tambm formada por trs representantes do Juazeiro: Ccero, padre Peixoto e o comerciante Jos Andr de Figueiredo, um dos negociantes mais prsperos da aldeia, considerado potencial candidato a assumir a prefeitura do municpio quando ele fosse criado em carter oficial. Depois de trocarem ideias a respeito do caso, aqueles seis homens se deram as mos e por fim anunciaram que o acordo se basearia em trs pontos bsicos. Em primeiro lugar, o Crato no mais se oporia elevao do Juazeiro a municpio, desde que os limites da nova cidade fossem traados de comum acerto entre os chefes polticos das duas localidades. O segundo ponto previa que o Juazeiro honrasse o pagamento de todos os impostos atrasados, alm daqueles relativos ao exerccio de 1911, pois o valor j fora includo no oramento municipal e o Crato no poderia abrir mo de to elevada quantia assim de uma hora para outra. O terceiro e ltimo item dizia respeito guerra editorial travada entre O Rebate e o Correio do Cariri. As duas redaes teriam de cessar as hostilidades mtuas e encerrariam todas as polmicas em vigor. O jornal juazeirense no escreveria mais contra os figures do Crato, assim como o jornal cratense deixaria de insultar o povo do Juazeiro. No se falou em nenhum momento, pelo menos oficialmente, sobre a caixa que durante duas dcadas ficara escondida em poder de Marrocos e agora estava nas mos de Antnio Luiz. Para todos os efeitos, ela no fizera parte da negociao. Mesmo assim, Ccero declarou de pblico que saa do encontro satisfeito. Os representantes do Crato, idem. O acordo, alm de hastear a bandeira branca entre povos vizinhos, tinha o aval do presidente Nogueira Accioly. Afinal, a trombada entre o coronel Antnio Luiz Alves Pequeno e os chefes dos municpios que haviam declarado apoio ao Juazeiro tenderia a provocar dissenses inoportunas quando faltava apenas um ano para as prximas eleies estaduais. Em nome da serenidade nos quadros do Partido Republicano Conservador e da manuteno de todos eles no poder por mais um quadrinio , era mais prudente que seguissem unidos a caminho das urnas. Consciente das marchas e contramarchas da poltica, at mesmo o virulento Floro Bartolomeu ensarilhou as armas. Congratulo-me com estes dois povos pela felicidade do acontecimento, escreveu Floro, inaugurando a comedida linha editorial que iria assumir a redao de O Rebate aps o acordo. Poucos dias depois daquele ajuste de cpula, o coronel Antnio Luiz marcou um encontro particular e secreto com Ccero. Os dois decidiram evitar testemunhas indesejveis. O nico relato que se tem do episdio foi feito, tempos mais tarde, pelo juiz de direito do Crato, o doutor Raul de Carvalho, que por sua vez dissera t-lo ouvido, poca, da boca do prprio Antnio Luiz. O local escolhido foi a casinha de uma velha ex-escrava da famlia Alves Pequeno, de nome Ana, que ficava margem da estrada que vai de Crato a Juazeiro, um pouco alm do antigo cemitrio dos colricos, contaria Carvalho. De acordo com tal relato, no casebre de taipa, frente a frente, Ccero e Antnio Luiz 198. trocaram cumprimentos secos. O coronel teria trazido lembrana os favores que haviam sido prestados ao padre pelo pai, o velho coronel Alves Pequeno, padrinho de crisma do ento jovem aspirante a seminarista. Ccero ouvira tudo, sem esboar nenhuma reao. Teria querido encerrar logo aquela conversa e ir direto ao ponto que os levara ali. Ao final da rpida palestra, Antnio Luiz entregara-lhe a caixa intacta, com todos os paninhos l dentro. Aps isso, cada um teria seguido para o seu lado. Um rumara para o Crato. Outro, para o Juazeiro. Um novo visitante inesperado quase colocou o acordo a perder. Em meados de junho, os juazeirenses assistiram chegada de um tropel de jagunos a p. Vinham cobertos de poeira e armados de carabinas. Muitos imaginaram que eram homens mandados do Crato pelo coronel Antnio Luiz, que supostamente teria se arrependido do acerto ento recente. Mas o grupo procedia de muito mais longe e vinha em paz. frente deles estava o advogado Augusto da Santa Cruz Oliveira, ex-promotor pblico do municpio de Alagoa do Monteiro, no Cariri paraibano, a cerca de 250 quilmetros em linha reta do Juazeiro. Santa Cruz queria a proteo de Ccero. Ele e seus homens estavam sendo perseguidos pela polcia da Paraba e buscavam abrigo. O padre costumava abenoar at cangaceiros que chegavam para pedir perdo pela vida de crime. Por saber disso, acreditavam que tambm seriam bem-vindos. Os lderes juazeirenses que haviam acabado de costurar o acordo com o Crato ficaram atemorizados. A presena daquele bando de jagunos poderia ser entendida como uma provocao contra Antnio Luiz. Se j falavam que o Juazeiro era um reduto de malfeitores, o que diriam se soubessem que estavam acolhendo de braos abertos uma caravana de foragidos de um estado vizinho? Ningum desconhecia que a histria recente do doutor Santa Cruz fora escrita a sangue. Filho de uma tradicional famlia paraibana, depusera em maio o prefeito de Alagoa do Monteiro, o doutor Pedro Bezerra, que ele prprio havia ajudado a eleger, mas de quem havia se tornado inimigo poltico. Na ocasio, Santa Cruz mandara derrubar as grades da cadeia, soltara os criminosos que estavam presos, armara todos eles com o prprio arsenal tomado da delegacia e depois fizera de refns as principais autoridades da cidade. Entre os que foram levados para o cativeiro em uma fazenda estava inclusive o prefeito deposto. O presidente da Paraba, Joo Machado, no quis saber de negociaes. Ordenou o envio imediato de tropas para o local e a fazenda foi atacada. Durante o tiroteio que perdurou por horas seguidas, Santa Cruz conseguiu escapar, levando os refns consigo. Foi soltando-os aos poucos, pelo caminho, enquanto se dirigia para a fronteira com o Cear, at dar com os costados no Juazeiro. Exatamente quando Santa Cruz confabulava com Ccero para tentar explicar as razes do golpe frustrado que patrocinara, uma comitiva de cidados juazeirenses chegou casa do sacerdote. Como sempre, alm do visitante paraibano, o padre recebia vrios romeiros. A comisso, que no distinguiu Santa Cruz do restante dos peregrinos, vinha com o propsito de alertar Ccero para que no aceitasse a presena na aldeia dos foras da lei chegados da Paraba: Padre, acoitar bandidos fugitivos da polcia paraibana pode dar ao coronel Antnio Luiz o pretexto de voltar atrs, prejudicando o acordo de nossa emancipao do Crato, ponderou- se. 199. Os senhores esto enganados, rebateu Ccero. O doutor Augusto no um bandido. Vem sofrendo uma srie de perseguies polticas na Paraba, mas um homem inteligente. Para provar isso, vou apresentar a vocs ele agora mesmo. O doutor Augusto este senhor aqui do meu lado, apontou. Houve um inevitvel constrangimento. Aquele homem desgrenhado, que acabara de percorrer a p vrios quilmetros desde a Paraba, nem de longe parecia um advogado formado na seleta Faculdade de Direito do Recife. Para tentar desfazer o embarao, o forasteiro contou-lhes sua verso da histria. Disse que tinha o apoio do presidente cearense Nogueira Accioly, com quem trocara cartas e telegramas. Entrara em choque com o presidente da Paraba, mas pretendia voltar para se defender das acusaes e retomar o poder que um dia pertencera famlia Santa Cruz. Em suma, seu caso no seria diferente do de todos os outros chefes polticos do Cariri cearense, que sempre defenderam seus domnios recorrendo fora das armas. Coisas da poltica sertaneja. A presena de Augusto Santa Cruz em Juazeiro provocou a indignao das autoridades da Paraba. O presidente paraibano, Joo Machado, chegou a telegrafar para o presidente da Repblica, Hermes da Fonseca, para denunciar que o padre Ccero estava acobertando os terrveis bandoleiros de Santa Cruz, dando-lhes armas e munio para que depois provavelmente efetuassem saques em cidades da fronteira. J o prefeito de Alagoa do Monteiro, Pedro Bezerra, reempossado no cargo, preferiu escrever diretamente ao padre. Avisou que aquele homem abrigado em sua casa estava indiciado por vrios crimes, que incluam o sequestro e a invaso de propriedades particulares. Quando se certificou de que eram reais os vnculos polticos entre Santa Cruz e o presidente Accioly, Ccero determinou que o advogado paraibano e seus homens poderiam permanecer no Juazeiro. Mas decidiu responder carta do prefeito de Alagoa de Monteiro sem meias palavras: Se o doutor Augusto um tresloucado e fraco de senso como o senhor afirmou, e se culpado de tudo isto, ns por aqui no o sabemos, somente o senhor e outros da podem saber. Ccero imps uma condio para aceitar o exlio de Santa Cruz e sua belicosa tropa de choque. Todos os jagunos teriam de se ajoelhar diante dele e depor as armas a seus ps. Teriam de se arrepender de tudo de ruim que j haviam feito at aquela data e dali por diante mudar de vida. Os que fossem considerados mais perigosos, aqueles que tivessem mais crimes nas costas, Ccero os mandaria para a serra do Araripe, onde passariam a viver da agricultura, trabalhando no plantio e na colheita da manioba. Como a prpria pele estava em jogo, Santa Cruz disse que achava bem razoveis os termos da oferta. Os jagunos, vendo ali a oportunidade de se livrarem para sempre das perseguies da polcia paraibana, tambm concordaram. Fez-se uma fila indiana e, um a um, como se caminhassem em direo a um confessionrio, os homens se prostraram aos ps de Ccero. O padre pedia que fizessem o sinal da cruz, punha-lhes a mo sobre a cabea e perguntava se estavam dispostos a largar o rifle para abraar a Deus. Ao ouvir a resposta afirmativa, mandava ento que depositassem as armas no cho. Deixassem tudo ali. Espingardas, pistolas, punhais. Depois fossem rezar o pai- nosso e a ave-maria. Ao final, quando o ltimo dos capangas de Santa Cruz havia passado pela penitncia, Ccero lanou um olhar severo para todos eles e, indistintamente, sem se 200. dirigir a ningum de modo especfico, repreendeu: Est faltando uma arma. Entregue logo, cabra. Horcio Patriota, um dos homens de Santa Cruz, deu um passo frente. De cabea baixa, puxou uma pistola que trazia escondida na cintura e, amedrontado, a deps aos ps de Ccero. Todos ficaram certos de que estavam mesmo diante de um santo. O padre, acreditaram, tinha poder de ler os pensamentos e de ver tudo o que estava oculto. * * * Juazeiro nunca ser uma vila, mas sempre uma vileza, torpedeou em Fortaleza o jornal Unitrio, em artigo assinado pelo polemista Joo Brgido, uma das penas mais cidas da imprensa cearense de todos os tempos. De nada adiantou o protesto. Dois dias depois, pela Lei 1028, de 22 de julho de 1911, votada e aprovada pela Assembleia Legislativa do Cear, estava oficialmente criada a vila autnoma do Juazeiro. Ao norte, o riacho dos Carneiros fazia a divisa do novo municpio com So Pedro. Ao sul, a lagoa Seca marcava o limite com Barbalha. A oeste, o rio Cars servia de fronteira com Misso Velha. Ao leste, o riacho So Jos representava a linha que separava o Juazeiro do Crato. Era um dos menores municpios do serto cearense, com apenas 224 quilmetros quadrados, territrio cinco vezes menor do que o do tradicional vizinho de quem acabara de se emancipar. Mas havia pelo menos quatro pretendentes ao cargo de primeiro prefeito. Como ocorre em todo movimento vitorioso, a questo que se impunha era definir quem tomaria posse dos despojos do conflito. A guerra no era mais contra o coronel Antnio Luiz Alves Pequeno. A batalha passara a ser interna, na qual cada um dos concorrentes procurava se mostrar mais digno da funo do que o outro, por mrito ou por direito adquirido. Caberia a Ccero mediar uma sada para o caso, munido de um telegrama de Accioly que o nomeava oficialmente chefe do PRC no novo municpio. Ao assinar a ficha de filiao partidria, o sacerdote acabara de transpor o ltimo umbral em direo poltica. Floro Bartolomeu e padre Peixoto, que no calor da hora haviam transformado em trincheira a redao de O Rebate, estavam na lista dos candidatos naturais a prefeito, pelos relevantes servios prestados causa. Os outros dois contendores, um comerciante, outro fazendeiro, no toa disputavam tambm entre si o ttulo de o homem mais endinheirado do Juazeiro. Um era Jos Andr aquele que participara do encontro que selou o acordo poltico com o Crato. O outro era o major Joaquim Bezerra, adepto da emancipao desde a primeira hora, descendente em linha direta do brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, o antigo proprietrio da fazenda Tabuleiro Grande, em cujas terras um dia nascera o ento pequeno povoado. A disputa animou os moradores e promoveu apostas pelas esquinas e praas pblicas. A maioria punha suas fichas em Jos Andr, mas Bezerra tambm tinha seus partidrios. Floro e Peixoto corriam por fora. Porm, a candidatura do padre Alencar Peixoto desmoronou no exato momento em que Ccero se negou a apoi-la. Parecia arriscado demais entregar a prefeitura a um homem to impetuoso como o redator-chefe de O Rebate. No entender de Ccero, o colega de pavio curto talvez no possusse o equilbrio necessrio para conciliar interesses antagnicos quando a conjuntura assim o exigisse. Com sua lngua ferina e ardor retrico, era provvel que Peixoto 201. entrasse em nova quizumba com o eterno desafeto Antnio Luiz, reabrindo feridas ainda no de todo cicatrizadas. Isso no interessava a ningum naquela situao de paz armada. Assim, Ccero riscou o nome do colega da lista. Em reforo, Accioly j mandara avisar de Fortaleza: Digam ao padre Ccero que ele merece tudo, porm, estando com o padre Peixoto, eu no poderei dar um passo a seu favor. Peixoto saiu atirando para todo lado. No dia 21 de agosto de 1911, escreveu um artigo histrico, no qual afirmou se sentir vtima da deslealdade: O padre Ccero me garantiu, por mais de uma vez, que eu seria o chefe poltico deste municpio. Dias antes vazara a notcia de que, uma vez preterido, iria romper relaes com Ccero, o que de antemo sepultava suas pretenses ao cargo. A informao, cavilosamente, partira de Floro Bartolomeu. Como resposta, Peixoto recorreu ttica do abrao de afogado: se ele no seria o prefeito, Floro tambm no iria ser. Por isso, classificou o colega de redao de garimpeiro poltico e prometeu, com a mesma facilidade com que espatifo um bandido, tirar o couro de mais este adversrio, depois de tirar o pelo e as carnes depois do couro. Contrariado, Peixoto decidiu pelo fechamento do jornal e foi embora do Juazeiro. Seguiria para Fortaleza e depois se fixaria por vrios anos no distante Acre e escreveria um dos livros mais agressivos que j se publicaram contra Ccero: Juazeiro do Cariri. Na obra que seria queimada em praa pblica pelos devotos do Padim, Peixoto traaria o retrato do ex-amigo comparando-o a uma espcie de fara do agreste: rico, poderoso, com pretenses a deus, explorador do povo e, como uma mmia egpcia, semeador de maldies: O padre Ccero, se como sacerdote, como cidado e como poltico um homem funesto, como amigo ntimo e particular no o menos. [...] a reencarnao viva de Amon-Ra, a exercer sobre quantos o cercam uma influncia fatal. Seno, vejamos: Jos Marrocos, seu amigo desde a infncia, viveu uma vida de verdadeiro martrio e morreu envenenado [...]; monsenhor Monteiro cegou e acabou seus dias na maior indigncia; padre Joaquim Sother acantonou-se l para as bandas do Quixar onde vive a ss, chuchado das bruxas e desprezado; padre Joo Carlos j teria morrido fome; [...] padre Clycrio arrasta-se pauprrimo l pelo Tabuleiro dAreia e como se no mais pertencesse ao clero; padre doutor Francisco Ferreira Antero renova os sete palmos de sua paixo; doutor Marcos Rodrigues Madeira abandonou a famlia que tanto estremecia, falecendo pouco depois; doutor Ildefonso Lima foi desapeado da alta posio que ocupava junto ao governo do estado, e morreu quase arrenegado de seus antigos correligionrios polticos; coronel Joaquim Secundo Chaves atrasou-se em seus negcios de farmacutico e morreu de repente; tenente-coronel Joaquim de Maria Lobo acha-se quase cego e com a telhice de ser um sbio como Rui Barbosa... Antes de partir para longe, Peixoto afirmou no acreditar que Ccero pudesse apoiar a candidatura de Floro Bartolomeu, um recm-chegado, um indivduo de passado obscuro, sem nenhuma ligao histrica com o Cariri ou mesmo com o Cear. Para que o padre Ccero assim procedesse, era preciso que ele se medisse pela mesma bitola desse mentiroso e infame. O estratagema do desgostoso padre Peixoto funcionou. Diante da lavagem pblica de roupa suja, ficava difcil para Ccero endossar a candidatura do doutor baiano. Com Floro e Peixoto fora da raia, a disputa parecia restrita ento ao comerciante Jos Andr e ao fazendeiro Joaquim Bezerra. Ccero apresentava reservas tanto ao nome de um quanto ao de outro. Havia um estranhamento recproco entre as duas faces que compunham a populao do Juazeiro. De um lado, os que tinham nascido no lugar consideravam que os moradores mais novos, aqueles atrados pelo potencial mercantil das romarias, haviam tomado conta de tudo e se convertido em senhores do local. Por isso, eram tratados com 202. desprezo pelos naturais e apelidados de rabos-de-burro, o que na linguagem popular equivalia a um grave insulto. Do outro lado, os que eram forasteiros devolviam a afronta, tratando os nativos com o mesmo desdm, chamando-os pela alcunha pejorativa de cacaritos. Tanto Jos Andr quanto Joaquim Bezerra eram cacaritos. Ccero optou por uma sada salomnica. Nem Jos nem Joaquim. Nenhum dos dois receberia seu apoio na corrida prefeitura. Se pendesse a balana para o lado dos cacaritos, provocaria a discrdia entre os rabos-de-burro, que eram, de longe, a maioria no Juazeiro. Como padrinho daquele povo, sentia-se responsvel por manter intacto o equilbrio natural de foras. Afinal, ele prprio, Ccero, no era um cacarito, pois no nascera no Juazeiro, mas sim no Crato. Mas tambm no podia ser chamado de rabo-de-burro, pois sua chegada ali e os episdios que cercaram o decantado milagre que promoveram o desenvolvimento do lugar. Estava numa posio privilegiada, acima das rivalidades: Sou filho do Crato, mas o Juazeiro meu filho, definia. Sendo assim, no havia mais o que discutir. Com a justificativa de que agia em nome da pacificao geral, o prprio Ccero resolveu sentar na cadeira mais cobiada do novo municpio. Com o apoio de Accioly, investiu a si mesmo no cargo de primeiro prefeito do Juazeiro. 203. 4 Quem bebeu no beba mais, quem roubou no roube mais, quem matou no mate mais 1911-1913 O receio era o de que a reunio acabasse em tiro. Nunca se viram nem jamais se voltaria a ver tantos coronis sertanejos assim reunidos em um mesmo lugar, como naquele 4 de outubro de 1911, em Juazeiro, o dia da posse de Ccero na prefeitura. L fora, as ruas estavam enfeitadas de bandeirinhas de papel e a banda do mestre Pelsio de Macedo fazia a festa. No interior da casa que sediou a solenidade oficial, os dezesseis homens vestidos em roupa de domingo foram recebidos com chuvas de flores e papel picado. Mas no escondiam de ningum que ruminavam uma coleo de rancores mtuos. O primeiro a se adiantar e tomar a palavra foi o coronel Antnio Joaquim de Santana, conhecido em todo o Cariri por manejar as cordas da viola to bem quanto o gatilho da garrucha. Clebre tambm por proteger cangaceiros no stio Serra do Mato e por cerca de noventa bastardos que pusera no mundo, o coronel Santana saudara o novo sculo, em 1901, tomando bala o comando poltico da cidade de Misso Velha. Com a autoridade de quem chefiava um exrcito de jagunos recrutados entre os bandoleiros mais sanguinrios dos sertes do Cear e Pernambuco, fez os cumprimentos de praxe, decretou aberta aquela assembleia e tratou de ceder a cabeceira da mesa a algum ainda mais respeitado do que ele: o reverendo Ccero Romo Batista. O padre, alm de anfitrio, era o nico capaz de presidir uma sesso como aquela. Ante qualquer desentendimento entre as partes, poderia brotar a fasca de uma conflagrao armada. Praticamente todos os chefes polticos do Cariri incluindo o coronel cratense Antnio Luiz haviam acatado o chamado do sacerdote para to inslito conclave, que marcaria seu primeiro dia como prefeito. Estavam representadas por seus respectivos caudilhos dezesseis localidades que, quando vistas no mapa, desenhavam um extenso crculo de terra em torno do Juazeiro: Araripe, Assar, Aurora, Barbalha, Brejo Santo, Campos Sales, Crato, Jardim, Lavras, Milagres, Misso Velha, Porteiras, Quixar (mais tarde Farias Brito), Santana do Cariri, So Pedro (depois Caririau) e Vrzea Alegre. Cada um dos senhores rurais ali presentes carregava nas costas um punhado de crimes desfechados em plena luz do dia, a seu mando ou debaixo de sua complacncia. Aos meeiros e agregados, ofereciam a proteo patriarcal, em troca da obedincia e da prestao de servios em seus latifndios. Aos opositores, reservavam apenas a fria do rifle, o argumento do cacete, a sanha da peixeira. No infindvel repertrio de crueldades, no faltava a recorrncia de tocaias, assassinatos, 204. estupros, mutilaes, castraes e degolas sumrias. Com a caracterstica batina negra, Ccero agradeceu a deferncia do coronel Santana, assumiu a presidncia da mesa e deu incio aos trabalhos. Antes, evocou a proteo de Deus e os sentimentos altamente patriticos do comendador Antonio Pinto Nogueira Accioly. Na condio de lder regional do hegemnico Partido Republicano Conservador, o doutor Nogueira Accioly, o Donatrio do Cear, seria devidamente cientificado, em Fortaleza, das decises tomadas naquele encontro em Juazeiro. Ccero queria chamar todos razo. Ou paravam de se trucidar ou no sobraria mais nenhum deles para contar a histria. O padre, claro, tinha conscincia de que no seria com pai-nossos e ave-marias que se decidiria questo to espinhosa. Mas tambm no era caso de bater na mesa com o cabo do cajado. Estavam sentadas ali, diante dele, pessoas de esprito sanguneo como o coronel Pedro Silvino de Alencar, que em 1909, depois de duas horas de acirrado tiroteio, batera no peito em sinal de vitria, aps expulsar do municpio de Araripe o chefe poltico do lugar. Quem no compareceu reunio cuidou de mandar representante. Caso do coronel Gustavo Lima, que em 1907 invadira a sede do municpio de Lavras com quatrocentos bandoleiros para escorraar da prefeitura o prprio irmo mais velho, Honrio Lima tambm conhecido como Torto, por causa do estrabismo que sempre fora motivo de troa por parte dos inimigos. O coronel Gustavo botara o irmo zarolho para correr da cidade com a devida cumplicidade da me, a legendria dona Fideralina Augusto Lima, matriarca que marcou poca na histria do Cear pela truculncia com que enfrentava os adversrios e, anos mais tarde, inspiraria a escritora Rachel de Queiroz a escrever o romance Memorial de Maria Moura. Ao patrocinar a dissenso familiar, dona Fideralina deixara uma nica recomendao aos cabras encarregados de depor o primognito: Quem atirar no Torto morre. De uma cadeira de balano instalada no alpendre de casa, no stio Tatu, entre goles de genebra e cheiradas de rap, a matrona aguardava o resultado da reunio presidida pelo padre. Havia chegado a hora, conclamou Ccero, de sossegarem os mpetos. Como mediador daquela reunio, sugeriu que fosse lavrado um documento comum, impondo regras de convivncia entre os potentados sertanejos dali por diante. Seria um pacto de no agresso, uma trgua nos dios e nos sentimentos de vingana. Muitos duvidavam que fosse possvel se dissiparem querelas to brutais. Parecia algo comparvel pregao do bblico Simo no deserto. Os primeiros cinco itens postos em discusso por Ccero para serem votados e aprovados na assembleia ousavam formular o seguinte armistcio: Artigo 1o: Nenhum chefe dispensar proteo a criminosos do seu municpio nem dar apoio aos dos municpios vizinhos; devendo, pelo contrrio, ajudar na captura destes, de acordo com a moral e o direito. Artigo 2o: Nenhum chefe procurar depor outro chefe, seja qual for a hiptese. Artigo 3o: Havendo em qualquer dos municpios reaes ou mesmo tentativas contra o chefe oficialmente reconhecido com o fim de dep-lo, ou de desprestigi-lo, nenhum dos chefes dos outros municpios intervir nem consentir que os seus muncipes intervenham ajudando direta ou indiretamente os autores da reao. Artigo 4o: Em casos tais, s poder intervir por ordem do governo para manter o chefe e nunca para depor. 205. Artigo 5o: Toda e qualquer contrariedade ou desinteligncia entre os chefes ser resolvida amigavelmente por um acordo, mas nunca por um acordo de tal ordem cujo resultado seja a deposio, a perda de autoridade ou de autonomia de um deles. O representante do coronel Domingos Leite Furtado, mandachuva do municpio de Milagres, sabia muito bem do que Ccero estava falando. O coronel Domingos no s mantinha submetida a ferro e fogo a populao de seu municpio, como contribura de forma efetiva nas deposies polticas ocorridas em pelo menos outras duas cidades do Cariri. Primeiro, oferecera homens e farta munio a dona Fideralina para garantir o xito do ataque que resultou, em Lavras, na destituio do desafortunado Torto. No ano seguinte, em 1908, o coronel Domingos emprestara homens para nutrir tambm uma das batalhas mais ferozes de que se tem notcia no serto. Depois de atacada e invadida, a promissora vila de Aurora foi saqueada, depredada e incendiada. Residncias, casas comerciais e fazendas inteiras arderam em chamas, enquanto as mulheres do lugar eram violentadas no meio da rua, sob a gargalhada da jagunada ensandecida pelo pipocar de tiros e pelo efeito da cachaa. Depois de ouvirem o sacerdote, os coronis confabularam rapidamente entre si e decidiram apoiar, na ntegra, os cinco primeiros artigos. O padre Ccero, reconheceram, tinha absoluta razo. O caldeiro chegara a tal ponto de fervura que, a partir dali, todos s teriam a perder. A desgraa de uns no podia mais significar o bem-estar de outros. Era a vez, admitiam, de estabelecer o cessar-fogo. Comprometiam-se a encerrar o ciclo de animosidades e, sob as bnos do sacerdote, trabalhariam pela instaurao de uma paz provisria no Cariri. Ccero, satisfeito, seguiu adiante. Havia outro item capital a acordar entre eles: Artigo 6o: Quando no puderem resolver pelo fato de igualdade de votos de duas opinies, ouvir-se- o governo [estadual], cuja ordem e deciso ser respeitada e restritamente obedecida. A rigor, transferia-se para o presidente do estado, o comendador Nogueira Accioly, o juzo sobre futuras contendas entre os coronis do Cariri. Mais uma vez, Ccero punha em ao uma engenhosa costura poltica, ao contrrio de se mostrar um mstico desvairado e caricato, como queriam alguns. Como fizera antes no exlio na cidade pernambucana de Salgueiro, no demonstrou pudores de firmar alianas com o poder institudo, ainda que este no tivesse lastro algum de legitimidade popular, como era o caso da oligarquia de Accioly. Ccero, agindo assim, mostrava-se um homem de seu tempo. Amparava-se nas estruturas do coronelismo para acomodar interesses rivais. Fazia o papel de algodo entre vidros, conciliando as autocracias rurais em nome da pacificao sertaneja. Em ltima anlise, era o governo federal que realmente estava no topo daquela cadeia de desmandos bem tpica da Repblica Velha, levada condio de poltica de estado pela administrao do presidente Campos Sales e seguida no mesmo diapaso pelos sucessores Rodrigues Alves, Afonso Pena e Nilo Peanha: o jaguno dava cobertura ao coronel, os coronis apoiavam o oligarca estadual, os oligarcas estaduais davam esteio ao presidente da Repblica. Para Ccero, no interessava provocar uma ruptura dessa lgica institucionalizada que assegurou a longevidade das oligarquias no pas. Matreiro, o padre revelava-se um 206. conservador em poltica, no um revolucionrio. Manifestar qualquer espcie de hostilidade a Accioly significaria passar recibo de insurgente ao governo federal. Isso, temia-se, tenderia a desencadear uma interveno armada em Juazeiro, talvez nos mesmos moldes da que ocorrera em Canudos, sob o pretexto de se dar combate ao fanatismo religioso. No entender de Ccero, j bastavam as muitas desavenas com o poder eclesistico. Promovera aquele encontro entre os coronis justamente para pregar o oposto, o desarmamento geral. Era esse o teor do artigo seguinte posto em discusso pelo padre: Artigo 7o: Cada chefe, a bem da ordem e da moral pblica, terminar por completo a proteo de cangaceiros, no podendo proteg-los e nem consentir que os seus muncipes, seja sob que pretexto for, os proteja dando-lhes guarida e apoio. No havia um nico coronel ali que no mantivesse em suas terras um batalho de bandidos sob seu soldo. O cangaceirismo, fenmeno endmico da sociedade sertaneja da poca, fixara no Cariri um de seus principais redutos. Fortemente armados, de chapu de couro e alpercatas de rabicho, obedeciam a leis prprias, ditadas pelos caudilhos. Valeria dizer que o stimo item proposto por Ccero citava os cangaceiros de modo genrico, mas no universo bandoleiro nordestino havia uma sutil gradao de funes que separava o cabra do jaguno, o jaguno do cangaceiro. Em seu j clssico Guerreiros do Sol, Frederico Pernambucano de Mello estabeleceria a distino de modo didtico. O cabra era o sertanejo que, em tempos de paz, como todos os outros agregados que viviam sombra dos coronis, cavava a terra seca, iniciava uma plantao e depois orava para o cu pedindo chuva. Quando convocado pelo protetor, no hesitava: pegava o bacamarte, ia para a luta e, se preciso, entregava a vida pelo coronel. O jaguno era uma espcie de profissional autnomo, um mercenrio a servio da morte e de quem o contratasse pela melhor oferta. Hoje podia servir a um senhor, amanh a outro. O cangaceiro, por fim, no aceitava a tutela de nenhum patro, ainda que ocasional. Agia por conta prpria, em proveito de si mesmo. Mas costumava celebrar consrcios estratgicos com os coronis, baseados numa relao de barganha e compadrismo. Por um lado, o cangaceiro recebia abrigo e livre trnsito nos domnios do senhor de terras que o acoitava. Por outro, preservava aquela propriedade de arruaas e dos ataques de terceiros, inclusive de outros salteadores. Ccero, em mais de uma ocasio, conclamara jagunos e cangaceiros a depor as armas, como fizera com os homens do paraibano Santa Cruz. Tinha motivos de sobra para isso. Uma de suas grandes preocupaes poca era combater a tese de que o Juazeiro se tornara uma espcie de territrio livre da bandidagem. Os crticos contumazes do sacerdote acusavam as romarias de promover a chegada crescente no s de fanticos e beatos, mas tambm de celerados da pior espcie assassinos, valentes, proxenetas, desordeiros, ladres de cavalo , atrados pela certeza de que, onde havia tanto afluxo de gente, haveria tambm muito dinheiro para ser pilhado. Uma das prdicas mais famosas de Ccero aos peregrinos dizia respeito ao assunto. Inmeras vezes, da janela de casa, ele pregara de braos erguidos multido: Quem bebeu no beba mais, 207. Quem roubou no roube mais, Quem matou no mate mais. Mais uma vez, nenhum dos coronis presentes ousou rebater as palavras de Ccero. Decidiram que, em nome da prpria sobrevivncia, subscreveriam tambm de forma unnime o stimo artigo. Ccero, contudo, ainda tinha dois ltimos pontos a destacar. O oitavo e o nono artigo, que fechariam aquele pacto, sintetizavam e reforavam os tpicos anteriores: Artigo 8o: Mantero todos os chefes aqui presentes inquebrantvel solidariedade no s pessoal como poltica, de modo que haja harmonia de vistas entre todos, sendo em qualquer emergncia um por todos e todos por um [...]. Artigo 9o: Mantero todos os chefes incondicional solidariedade com o excelentssimo doutor Antnio Pinto Nogueira Accioly, nosso honrado chefe, e como polticos disciplinados obedecero incondicionalmente s suas ordens e determinaes. Um por todos, todos por um. O lema, tomado emprestado aos trs mosqueteiros imortalizados pelo escritor francs Alexandre Dumas, resumia o teor do documento que passaria histria como o Pacto dos Coronis. A redundncia na declarao de apoio a Accioly decorria de uma constatao: a oligarquia cearense comeava a mostrar sinais de fadiga, especialmente em Fortaleza, onde profissionais liberais da classe mdia se uniam aos grandes comerciantes para tentar forar a renncia do presidente estadual. De Donatrio do Cear, Accioly passara a ser chamado de Babaquara, regionalismo para definir o sujeito apalermado, bronco e roceiro. Para fazerem frente onda oposicionista que se erguia no litoral, os coronis sertanejos precisavam mostrar que estavam firmes e coesos. Unidos, imaginavam, jamais seriam vencidos. Para Ccero, havia um significado particular naquele acordo: erguera-se um providencial campo de fora a favor do Juazeiro, que dali por diante ficaria rodeado, de norte a sul, de leste a oeste, da farta proteo armada garantida pelos coronis aliados. Em caso de uma possvel ofensiva como a desfechada contra Canudos, os invasores teriam de vencer primeiro a jagunada, antes de chegar aos calcanhares do padre. O Juazeiro, epicentro da f, tornara-se tambm ponto de convergncia entre as aristocracias rurais do Cear. Quando Ccero levantou da mesa ao final daquela histrica reunio e passou a colher a assinatura de todos, os coronis do Cariri j tinham tomado conscincia de que, diante da nova situao, precisavam eleger um chefe imediato entre eles. Esse chefe no seria, necessariamente, Accioly. Carecia ser algum que estivesse mais perto deles e que, a despeito das diferenas e dos dios pessoais que os separavam, fosse um homem cuja palavra seria acatada sem ressalvas. Os coronis precisavam de um lder poltico no Cariri. Naquela tarde, esse lder se revelara naturalmente e j tinha nome. O nome dele, ningum se atreveria a discordar, era Ccero. Floro havia caprichado nos detalhes. O banquete e o baile que se seguiram cerimnia de posse ficariam guardados na memria dos moradores como a maior de todas as festas da histria do Juazeiro. A mesma casa que horas antes abrigou a reunio dos coronis encheu-se 208. de gente para comer e danar em homenagem ao prefeito e padre Ccero Romo Batista. O prprio Floro cuidou de preparar o cenrio, forrando o cho de areia batida com um longo tecido de algodo, esticado no assoalho com muitos pregos e alisado base de cera de velas, para evitar que se levantasse poeira enquanto os casais davam passos de valsa e de tango ao som de uma orquestra de pau e corda. Afinal, a festa no podia ser confundida com um mero arrasta-p, desses que se faziam a todo instante no serto. Durante dias, as moas do Juazeiro haviam se preparado para o baile, ensaiando e se acostumando com os sapatos de salto alto que o doutor Floro havia recomendado que calassem durante o evento. Para o banquete, Floro Bartolomeu mandara trazer do Rio de Janeiro toda a loua e toda a prataria que seria usada pelos convidados. Na porcelana decorada com flores e bordas douradas, lia-se a inscrio, em letras a ouro: P. Ccero. Um grupo de moas da sociedade juazeirense foi treinado especialmente por Floro para servir de garonetes durante o jantar. Ele ensinou-lhes a posio correta dos talheres sobre a mesa, a disposio dos copos de acordo com os vrios tipos de bebida e a forma como deveriam trazer as bandejas vindas da cozinha. Era como se Floro quisesse simbolizar, com aquela recepo, que o Juazeiro inaugurava realmente uma nova fase de sua histria. O municpio recm-criado precisava se apresentar ao mundo como um lugar civilizado: as melhores famlias podiam frequentar ambientes sociais to refinados quanto os das grandes cidades do pas. Floro estava sinceramente dedicado tarefa de modernizar o Juazeiro. O esforo que fazia para retirar do lugar o estigma de aldeia de fanticos era parte de um cuidadoso projeto poltico, que logo alaria voos cada vez mais altos. Enquanto a demanda judicial relativa s terras do Cox permanecia cercada de impasses, Floro percebeu que em vez da explorao de uma simples mina de cobre talvez a amizade com Ccero viesse a propiciar, para ele, o acesso a uma verdadeira mina de ouro. A prefeitura seria apenas um primeiro passo. Ccero fez sua estreia na poltica estadual em grande estilo. No incio de 1912, os cearenses iriam s urnas. Depois de dois mandatos consecutivos, Nogueira Accioly teria de passar a faixa de presidente do Cear a um sucessor. Previa-se mais uma modorrenta eleio de fachada. Como sempre, Accioly escolheu um preposto para tomar conta de seu lugar no Palcio da Luz. A chapa apresentada pelo Partido Republicano Conservador era encabeada pelo octogenrio desembargador Jos Domingos Carneiro, a essa altura um homem quase senil, que andava com a ajuda de uma bengala e estava fadado a ser apenas mais uma marionete dos interesses da oligarquia. Carneiro parecia no ter aquele sobrenome toa. Anunciava-se um cordeirinho de candura para os interesses de Accioly. Alm do cabea de chapa, cada partido tinha o direito de indicar trs vice-presidentes, o que abria o leque de possibilidades para amplos conchavos com os caciques polticos do interior. Como novo lder inconteste do Cariri, Ccero foi aclamado pela conveno do PRC como o candidato do partido terceira vice-presidncia do Cear. O padre aceitou de bom grado. Pela legislao ento em vigor, no precisaria largar a prefeitura para assumir o cargo. Em tal posio, iaria a influncia poltica do Juazeiro para alm das fronteiras sertanejas. As eleies estavam marcadas para abril. Porm, uma srie de incidentes iria abreviar os 209. dias de Accioly frente do poder. No Juazeiro, Ccero recebia as notcias que chegavam de Fortaleza com justificada apreenso. A rejeio ao Babaquara estava cada vez mais forte na capital. Haviam sido organizadas vrias passeatas a favor da candidatura oposicionista do coronel Marcos Franco Rabelo, um militar de carreira, que encarnava a repulsa das classes mdias urbanas contra os desmandos da oligarquia aciolina. Os fortalezenses abraaram a candidatura de Rabelo e adotaram as cores verde e amarela como smbolo. No mercado da cidade, at as abboras pareciam ter aderido causa: os partidrios de Rabelo expunham parte do fruto ao sol e enterravam outra parte no solo, o que depois gerava abboras bicolores, metade verdes, metade amarelas, transformadas em inaudito material de campanha. Uma tragdia antecipou os fatos. Em janeiro de 1912, sob ordens de Accioly, a cavalaria passou a dissolver as manifestaes pblicas pr-Rabelo com extremada violncia. Quando se organizou uma simblica passeata de crianas a favor do candidato oposicionista, os rabelistas imaginaram que o oligarca no teria a audcia de mandar dissip-la tambm a patadas de cavalo. Pois foi exatamente o que aconteceu. A polcia montada investiu contra os pequenos manifestantes, atropelou mulheres e crianas, fez dezenas de feridos e deixou um menino morto no meio da confuso. Depois disso, foi impossvel reprimir a fria popular. Fortaleza inteira se amotinou. A populao se armou como pde e saiu s ruas pedindo vingana. Bondes foram virados, praas destrudas, lampies de iluminao pblica quebrados, trilhos arrancados. Foram construdas barricadas com os canos da tubulao de esgoto e, durante trs dias, Accioly foi sitiado no palcio, debaixo de fogo pesado. Sem gua e sem comida, o Babaquara foi obrigado a renunciar. Mandou estender uma toalha de rosto na janela guisa de bandeira branca. Embarcaria, de pincen, fraque e cartola, debaixo de vaias, para fora do Cear. Na ocasio, seria escoltado at o cais por dom Joaquim, que atravessou as barricadas para dar proteo simblica ao presidente deposto. Embora contrariado, Ccero no estranhou o fato de o Palcio do Catete sede do governo federal, no Rio de Janeiro assistir a tudo sem se envolver. As guarnies do Exrcito sediadas em Fortaleza, que paradas estavam, paradas ficaram. Sabia-se que, no fundo, a base militar do ento presidente da Repblica, marechal Hermes da Fonseca, apoiara a revolta. Os quartis consideravam as oligarquias estaduais um entrave ao desenvolvimento do pas e, como fariam ainda vrias vezes ao longo da histria republicana brasileira, os militares passaram a atuar como rbitros e salvadores da poltica nacional. Em vrios estados, exatamente por meio da chamada Poltica das Salvaes, patrocinaram a deposio dos oligarcas locais e a sua substituio por homens de farda a exemplo de Franco Rabelo, no Cear , em nome da moralizao pblica. A candidatura oficial do velho desembargador Domingos Carneiro, em cuja chapa figurava o nome de Ccero, esfarelou-se no ar junto com o governo Accioly. Mesmo assim, por uma dessas circunstncias que somente a poltica capaz de explicar, um acordo de bastidores terminou por garantir a manuteno do nome de Ccero na terceira vice-presidncia estadual. Foi um acerto de cpula, firmado no Rio de Janeiro, com a bno do chefe nacional do PRC, o senador gacho Pinheiro Machado, considerado poca o homem mais poderoso da Repblica e candidato declarado sucesso de Hermes da Fonseca. Machado, que mantinha sua influncia nacional custa do apoio das oligarquias 210. estaduais, providenciou em seu laboratrio poltico o antdoto contra a derrocada de Accioly. Fundou um novo partido conservador no Cear, apelidado de Marreta, e lanou a candidatura de outro militar, o general Bizerril Fontenele, para fazer frente ao salvador Rabelo. Nas eleies, o candidato marreta sofreu uma derrota acachapante. O oposicionista Franco Rabelo acabou se elegendo presidente do Cear com 90% dos votos. Mas, pelas regras eleitorais de ento, caberia Assembleia Legislativa homologar ou no o nome do candidato vitorioso, independentemente do resultado das urnas. Como a Assembleia era majoritariamente composta de aciolinos e de deputados que haviam aderido aos marretas, Rabelo viu-se em minoria parlamentar. Foi compelido a aceitar um acordo de convenincia em troca do ingresso no Palcio da Luz. Entre os termos do ajuste, estava a concesso de duas das trs vagas de vice-presidente para o grupo ainda controlado por Nogueira Accioly. Selada a combinao, o nome de Ccero Romo Batista voltou baila. Rabelo foi obrigado a engoli- lo. No dia 12 de julho de 1912, a Assembleia homologou a chapa vitoriosa, embora o qurum legal de dezesseis deputados no tenha sido alcanado apenas doze dos trinta parlamentares compareceram sesso. Atropelou-se o texto da lei e, dois dias depois, Marcos Franco Rabelo tomou posse em Fortaleza, como novo presidente do Cear. Trazia um incmodo adversrio poltico junto com ele. Aos 68 anos, Ccero passara a ser, oficialmente, o terceiro vice-presidente do estado. Rabelo cedeu ao acordo para chegar ao poder, mas recusou-se a ficar refm de um conchavo. Ccero logo iria sentir isso nos botes da prpria batina. Cerca de um ms depois da posse no governo estadual, uma das primeiras providncias de Rabelo foi assinar a exonerao do padre do cargo de prefeito do Juazeiro. Em seu lugar, nomeou Jos Andr, o comerciante cacarito que havia sido um dos primeiros pretendentes prefeitura e que no incio do ano se filiara corrente rabelista. Desde janeiro, quando anunciara sua nova colorao partidria, Jos Andr vinha sendo atazanado por panfletos apcrifos distribudos aos milhares pelas ruas da cidade: Alerta, juazeirenses! Apresenta-se, tirando de todo a mscara, como inimigo do padre Ccero e dos romeiros, o Z Andr do sobrado. Diz ele querer expulsar desta terra o vosso venerando chefe, amigo e pai espiritual, com toda a canalha dos romeiros. Os panfletos recomendavam que ningum mais fizesse compras na loja do conhecido comerciante: Fujam dele como um contgio! Est em vossa dignidade no mais fazer negcio algum com um inimigo do padre Ccero!. Ao alijar Ccero da prefeitura de Juazeiro, Franco Rabelo achava que desfechara um golpe mortal contra as pretenses polticas de seu terceiro vice-presidente, um opositor situado perigosamente na linha sucessria estadual. Mas o citadino Rabelo talvez ainda no conhecesse o reverendo Ccero Romo Batista o suficiente. O padre sertanejo j fora vtima de inimigos mais enrgicos dentro do seio da prpria Igreja e continuava, ali, de p, distribuindo conselhos e ditames. No seria agora que iriam neutraliz-lo de modo to simples. Na realidade, a exonerao de Ccero da prefeitura apenas concorreu para que Floro comeasse a mexer as peas de um astucioso xadrez partidrio, escudado na influncia 211. pessoal do sacerdote junto ao povo do Juazeiro. Todos sabiam talvez exceto o prprio Franco Rabelo que nem o rabelista mais roxo entre os juazeirenses seria capaz de contrariar padre Ccero, sob pena de atrair contra si a zanga da comunidade local. Tanto era assim que Jos Andr declinou da prefeitura, em presena da presso popular a que foi submetido. Logo em seguida, por baixo dos panos, Floro Bartolomeu, que havia se filiado corrente marreta de Pinheiro Machado, incentivou maquiavelicamente a fundao de um diretrio rabelista na cidade. Na verdade, oferecia a corda para o adversrio se enforcar. O nome que o diretrio rabelista em Juazeiro acabou indicando para o cargo, sob a velada ajuda de Floro e o no to dissimulado aval de Ccero, foi o do agropecuarista Joo Bezerra de Menezes, um natural da terra que no teve pulso para impor a devida autoridade. Para todos os efeitos legais, o novo prefeito era o rabelista Joo Bezerra, oficializado pelo governo estadual em fins de agosto de 1912. Mas quem guardava as chaves do cofre e do arquivo pblico da cidade era Floro Bartolomeu. Quando Franco Rabelo pediu a Bezerra que providenciasse um relatrio completo sobre a sade financeira do municpio, o prefeito respondeu constrangido. No tinha como atender solicitao do presidente. O doutor Floro se negava a passar-lhe as chaves do arquivo. S ento Rabelo compreendeu que qualquer um que indicasse para o cargo de prefeito do Juazeiro estaria de mos atadas, sem foras para se opor a Ccero e a seu brao direito poltico, o ardiloso Floro Bartolomeu. Assim sendo, decidiu usar de outra estratgia. Em vez de substituir o inerte Joo Bezerra, Rabelo nomeou um novo delegado para a cidade, o capito de polcia Jos Ferreira do Vale, que tinha fama de valento e de no ter medo de cara feia. Mal o capito chegou ao Juazeiro, foi tratar pessoalmente com Floro, exigindo-lhe que entregasse as tais chaves. Ameaou prend-lo caso continuasse a reter em seu poder um bem que era pblico. Pressionado, o doutor baiano resolveu proteger seus bigodes na casa de Ccero. O padre mandou pregar aviso ao delegado: ningum entrava ali sem permisso. O lar de um cidado ainda mais um servial de Deus era inviolvel. Ferreira do Vale saiu espumando, mas advertiu que voltaria no dia seguinte com reforos policiais. Em vez disso, encontrou sobre sua mesa na delegacia a prpria exonerao, assinada por Franco Rabelo. Ccero agira mais rpido. Nesse meio-tempo, o padre havia telegrafado para o Palcio da Luz, dizendo que sua autoridade de terceiro vice-presidente do estado estava sendo ameaada por um mero capito de polcia. Para preservar a hierarquia, Rabelo viu-se na contingncia de destituir Joo Bezerra, tambm por telegrama. Contudo, se o caso era jogar xadrez, Franco Rabelo igualmente sabia movimentar as peas no tabuleiro. No jogo da poltica, sempre era preciso ceder alguns pees ao inimigo, para depois armar contra ele o inesperado xeque-mate. Foi um escarcu. O governo do estado anunciou que iria fazer um saneamento moral no Cariri. Depois de exonerar cada um dos chefes polticos que haviam vivido sombra da oligarquia Accioly, Franco Rabelo enviou um destacamento de duzentos praas para o Crato, com ordens para que prendessem todo e qualquer jaguno que encontrassem pela frente. 212. Tinham autoridade para passar o pente-fino em propriedades particulares, incluindo as dos coronis da regio, em busca de munio e armamentos. Comandados pelo capito Ladislau Loureno de Souza, os policiais efetuaram centenas de prises. O prdio da cadeia pblica do Crato ficou lotado de detentos. Calculava-se que cerca de quinhentas pessoas foram encarceradas em todo o Cariri por ordens de Rabelo. O governo no poupou ningum. A deposio do coronel Antnio Luiz frente do poder cratense teve direito a lances espalhafatosos, que incluram o assalto ao prdio da prefeitura pelo substituto rabelista, o coronel Francisco Jos de Brito, mais conhecido pela alcunha de Chico de Brito. Antes mesmo da assinatura da portaria governamental que oficializava a troca, Chico de Brito invadiu o gabinete de Antnio Luiz de arma em punho e esbravejou: Desocupe o cargo, que de hoje em diante quem manda aqui sou eu! O coronel Antnio Luiz tentou argumentar: Baseado em que lei? Nesta lei aqui, !, disse o rabelista, apontando o revlver em direo ao peito do adversrio. Antnio Luiz ps as mos para cima e saiu sem esvaziar as gavetas. A partir daquela data, para se referir a qualquer espcie de atitude violenta da parte de algum, viraria voz corrente no Cear a aluso a uma famigerada Lei de Chico de Brito. Ccero intuiu que era apenas uma questo de dias para que os praas do capito Ladislau chegassem ao Juazeiro. Os representantes dos quatro estados fronteirios Cear, Paraba, Pernambuco e Rio Grande do Norte haviam unido esforos para tentar extirpar a praga de jagunos e cangaceiros que pululava em seus respectivos territrios. Um acordo interestadual, selado no Recife em dezembro de 1912, decretara guerra geral ao banditismo. A fama de valhacouto de malfeitores que recaa sobre Juazeiro fazia da cidade recm-fundada um alvo inexorvel da operao. Todavia, Franco Rabelo decidiu agir com cautela. O governo estadual suspeitava que Ccero talvez pudesse esconder um verdadeiro arsenal blico em casa. Desde que os homens de Augusto Santa Cruz haviam deposto armas aos ps do padre, especulava-se sobre o destino que fora dado a elas. Aps passar algum tempo no Juazeiro, Santa Cruz retornara Paraba, arregimentara novos capangas, comandara com eles uma revoluo e, naquele mesmo ano, invadira vrias cidades paraibanas, com a inteno de tomar o poder da capital do estado. Fora contido e aprisionado ltima hora pelas tropas legalistas, mas ficaria para sempre a desconfiana de que agira em conluio com Ccero Romo Batista, de quem no escondia que se tornara amigo. Rabelo no podia saber, mas uma carta de Ccero endereada pouco antes a Santa Cruz atestava que o padre estava inocente daquela acusao. Digo com franqueza, no acho razovel fazer a revoluo na Paraba, escreveu Ccero, que sugeriu a Santa Cruz comprar uma fazenda para as bandas do Piau e se retirar de uma vez por todas da arena poltica. Eu no combino com revoluo, e muito menos sendo voc um amigo a quem desejo o bem. Deus lhe dirija e abenoe, concluiu. No obstante aquela carta, Ccero continuava a ser encarado como um rebelde em potencial aos olhos de Franco Rabelo. Acusado de acoitar cangaceiros, lder poltico em ascenso no Cariri e legatrio declarado da oligarquia aciolina, o padre era a mais perfeita 213. traduo do inimigo a ser preferencialmente abatido. Ao ser cientificado de que as tropas estaduais estavam se preparando para levantar acampamento no Crato e seguir em direo ao Juazeiro, Ccero telegrafou a Rabelo: Chegam- me avisos de diversos amigos que vosso governo pretende concentrar foras aqui com o fim de atacar-me para tomar o armamento que possuo, como se eu fosse um revolucionrio, possusse armamento e pretendesse fazer alguma revolta, protestou. Sou um sacerdote catlico, sou um cidado brasileiro e alm disso sou o terceiro vice-presidente do estado e, como tal, sou incapaz de concorrer direta ou indiretamente para a perturbao da ordem. Franco Rabelo se apressou em desmentir o presumido ataque, mas quela altura das circunstncias ningum mais tinha dvidas de que, depois de neutralizados todos os coronis do sul do estado, a ofensiva contra o Juazeiro eram favas contadas. Os soldados chegados de Pernambuco, da Paraba e do Rio Grande do Norte juntaram-se ao destacamento cearense e intensificaram a investida contra os partidrios do decado Partido Conservador no Cariri. Como ltimo refgio, muitos dos que se sentiam perseguidos partiram em direo ao Juazeiro, para pedir a proteo de Ccero. Mas era fato que ningum mais estava to seguro ali. O escudo de fora estabelecido pelo Pacto dos Coronis se dissolvera no ar. Nas pginas do jornal Unitrio, de Fortaleza, o jornalista Joo Brgido chamava Juazeiro de Cicerpolis e desatava o verbo contra o padre e seu aliado Floro Bartolomeu: Para serem pegados os criminosos do Juazeiro, basta cerc-lo de uma forte muralha, porque todos que dentro ficarem sero dignos de cadeia, visto como o que no for ladro assassino, inclusive o padre Ccero, que no mais podendo agir eficientemente mandou vir da Bahia um negro charlato. Pelo agreste afora, os avisos de que a terra do Padim Cio ia ser arrasada promoviam migraes espontneas de sertanejos, que acorreram ao Juazeiro com a inteno de defender o seu patriarca. Entre aquela gente toda, chegavam tanto beatos quanto cangaceiros. Os primeiros traziam rosrios. Os outros, rifles e parabluns. Sob o pretexto de no dar trgua ao cangao, a polcia interestadual apertou o cerco nas estradas, efetuou novas prises e disparou contra uns e outros, beatos e cangaceiros, vista de qualquer reao. Entre os juazeirenses o clima era de absoluto sobressalto. At mesmo romeiros estavam sendo mortos ao longo dos caminhos e trilhas que levavam cidade. Os soldados encontravam-se excitados, diante do prenncio da guerra final. Os oficiais militares faziam apostas entre si. Qual deles teria a honra de decepar a cabea do padre Ccero Romo Batista para depois lev-la fincada na lmina de uma baioneta at Fortaleza? 214. 5 Mil homens armados iniciam o assalto ao Juazeiro: hora de tocar fogo neste covil! 1913 No Palcio do Catete, o presidente da Repblica, marechal Hermes da Fonseca, recebeu telegrama enviado por Ccero Romo Batista. Era um pedido de socorro: Populao do Juazeiro alarmada. A mensagem informava que o governo estadual do Cear desfecharia o ataque cidade a qualquer momento. Havia chegado ao Crato mais um carregamento de armas e munio pesada. Quinhentos soldados estavam prontos para o combate. Eleitor do marechal o padre havia apoiado a candidatura presidencial de Hermes em 1910, quando o oposicionista Rui Barbosa sara derrotado nas urnas , Ccero pedia a interferncia federal para conter a desgraa. Porm, at as guias de bronze que adornavam a fachada do palcio presidencial sabiam que desde a morte da primeira-dama, Orsina da Fonseca, em novembro de 1912, o marechal Hermes se mostrava alheio a questes polticas e administrativas. Passara as atribuies do cargo a auxiliares diretos. O expediente burocrtico vinha sendo tocado pelo mordomo oficial, Oscar Pires, cognominado de O Sogra por causa de sua postura autoritria e pouco simptica s demandas de todos os que procuravam o Catete. J os destinos da poltica nacional haviam migrado de vez para as mos do senador gacho Pinheiro Machado, o lder nacional do PRC. Uma frase atribuda a Hermes nessa poca patenteava a influncia exercida pelo senador sobre o presidente da Repblica: O Pinheiro to bom amigo que at governa pela gente, teria dito o marechal Hermes da Fonseca ao futuro presidente Venceslau Brs. O senador, esse sim, estava bem preocupado com os ltimos acontecimentos no Cariri. Em sua casa, no palacete do morro da Graa, situado no bairro carioca das Laranjeiras, Pinheiro Machado abriu as portas e estendeu o tapete vermelho para um representante direto dos interesses do Juazeiro: o doutor Floro Bartolomeu. No incio de agosto, Floro viajara ao Rio de Janeiro, sob a desculpa de realizar um tratamento mdico para as frequentes dores de cabea que vinham lhe roubando o humor havia vrios meses. As enxaquecas eram reais. O motivo da viagem no. Na verdade, Floro partira com uma misso especfica: fazer contatos com deputados e senadores cearenses que militavam na oposio ao presidente cearense Franco Rabelo para traar um plano de desestabilizao do governo estadual. O doutor baiano comprovou que sabia fazer poltica como ningum. A sagacidade e a determinao de Floro entusiasmaram 215. seus interlocutores no Rio de Janeiro, que logo trataram de apresent-lo a Pinheiro Machado. O senador estava abespinhado com Rabelo, que declarara publicamente ser contrrio sua candidatura presidencial sucesso de Hermes da Fonseca. Desde o primeiro encontro, o ardiloso Floro e o astuto Pinheiro entenderam-se perfeitamente bem. Falavam a mesma lngua. A articulao de bastidores logo passou categoria de conspirao. Enquanto Ccero disparava telegramas apreensivos para o Catete, Floro Bartolomeu bebericava licores em taas de cristal e planejava com Pinheiro Machado a melhor forma de enxotar Rabelo do poder. O golpe teria de ser certeiro, sem deixar espao para desforras. Duas tentativas anteriores de deposio uma civil, outra militar haviam naufragado em Fortaleza. Em novembro do ano anterior, a Assembleia Legislativa do Cear, de maioria marreta e aciolista, tentara se reunir em perodo extraordinrio para cassar o mandato de Rabelo, mas os fortalezenses saram s ruas para evitar o casusmo. A ira popular provocou novos incidentes na cidade, o que incluiu atentados a dinamite e incndios contra as residncias da famlia Accioly e seus confrades. Manifestantes invadiram as casas, pilharam tudo o que encontraram pela frente e depois atearam fogo aos imveis. Contra ratos, nada melhor do que fsforo e querosene essa foi a divisa que mobilizou os partidrios de Rabelo. Em agosto daquele ano, pouco depois da partida de Floro para o Rio de Janeiro, preparou-se o segundo ensaio de golpe, dessa vez gestado no interior da caserna. Pinheiro Machado transferiu para Fortaleza um partidrio confesso, o capito Polidoro Rodrigues Coelho, confiando-lhe a tarefa de sublevar alguns sargentos e desfechar um atentado direto a Rabelo. Mas a quartelada foi descoberta a tempo e o movimento acabou sufocado pelas foras legalistas. A populao ameaou outra vez tomar as ruas e iniciar novas represlias contra os aliados de Accioly. Desde ento, a capital cearense ficou em estado de alerta contra os incorrigveis golpistas. Portanto, Floro e Pinheiro precisavam evitar o confronto direto com os exaltados rabelistas de Fortaleza. No havia alternativa vivel a no ser deflagrar o movimento no interior, para s depois estend-lo capital. A imensa popularidade de Ccero, como lder religioso e chefe poltico, tornava o Juazeiro o local propcio para concentrar a frente de oposio a Rabelo. Afinal, podia-se dar como certo que nenhum sertanejo hesitaria em pegar em armas, se preciso fosse, para preservar o pescoo do padre. Pelo que ficou acertado, Floro Bartolomeu voltaria para casa e anunciaria a instalao de uma Assembleia Legislativa dissidente em pleno Juazeiro, em contraposio oficial, em Fortaleza, sob a alegao de que Rabelo fora proclamado sem o qurum exigido por lei. Os deputados marretas e aciolistas deveriam aderir a ela e eleger um presidente estadual paralelo, caracterizando uma duplicidade de poderes e um impasse institucional no Cear. Em face do barulho que se iria fazer em torno do assunto, o Catete no teria escolha seno decretar a interveno federal e a consequente exonerao de Rabelo, entregando-se em seguida o poder aos amigos e aliados do senador Pinheiro Machado. Tudo parecia perfeito, mas antes tornava-se imprescindvel convencer Ccero a endossar o plano. Sem o apoio do padre, nenhuma maquinao poltica iria poder contar com a necessria adeso do povo do Juazeiro. Floro assegurou a Pinheiro Machado que se encarregaria pessoalmente do assunto. Sabia como obter a anuncia do sacerdote. Ccero 216. encontrava-se pressionado pelos soldados que espreitavam a cidade. O doutor no tinha dvidas de que o angustiado sacerdote aceitaria qualquer negcio para tentar proteger seu rebanho de romeiros. Alm da presena ameaadora das tropas interestaduais nas imediaes do Juazeiro, alguns percalos haviam feito o padre reconhecer que Franco Rabelo apertara definitivamente o torniquete contra ele. Em janeiro, um amigo ntimo do sacerdote, o polivalente Pelsio Macedo relojoeiro, sineiro e maestro da banda de msica local havia sido exonerado do cargo de telegrafista do Juazeiro por meio de uma portaria do governo estadual. A substituio de Pelsio representava uma preocupao adicional para Ccero, j que a partir dali nada mais assegurava que o contedo de suas mensagens fosse preservado da bisbilhotice oficial. Naquela guerra pelo controle da informao, a sada encontrada por Ccero foi providenciar um inusitado cdigo secreto, uma linguagem cifrada, cujas chaves de decodificao eram do conhecimento apenas do padre e de seus auxiliares mais diretos. Durante quatro meses, Floro permaneceu na capital federal articulando de forma meticulosa o golpe ao lado de Pinheiro Machado. At que, em fins de outubro, chegaram ao Rio de Janeiro boatos de que Ccero estudava uma composio com Franco Rabelo, numa ltima tentativa de alinhavar uma sada pacfica para o caso. Quando tais rumores bateram nos ouvidos de Floro, o doutor decidiu apressar seu retorno ao Cear. Antes, telegrafou para o padre para cobrar esclarecimentos: D-me explicaes, exigiu, mandando o cdigo secreto s favas. Houve reconciliao de Vossa Reverendssima com partido adversrio? Ccero negou. Qualquer notcia indigna sobre minha pessoa no verdade, respondeu. Pelo sim, pelo no, Pinheiro Machado concordou que Floro Bartolomeu devia regressar o mais rpido possvel ao Cear. Como garantia de defesa contra o propalado ataque cratense, o governo federal autorizou a criao de um destacamento da Guarda Nacional em Juazeiro, com elementos a serem recrutados e armados por Floro. Pinheiro Machado acabara de dar um golpe de mestre. Se o plano de estabelecer uma Assembleia Legislativa dissidente no Cear fosse executado a contento por Floro Bartolomeu, com a devida ajuda do padre Ccero, a interveno federal estaria plenamente justificada, o que daria ao senador o ensejo de colocar depois disso quem bem entendesse no comando da poltica cearense. Se o projeto fizesse gua e a Assembleia paralela fosse dissolvida a tiros por Rabelo, a responsabilidade pelo fracasso recairia inteiramente sobre as costas da dupla Floro e Ccero. Pinheiro Machado continuaria, impvido, a planejar novas deposies em seu gabinete no morro da Graa. Floro levou 22 dias para chegar ao Cear. Depois de zarpar em um vapor no Rio de Janeiro e desembarcar no porto paraibano de Cabedelo, decidiu que era mais seguro seguir por terra em direo ao Cariri, evitando assim o porto de Fortaleza. Contornou serras, atravessou rios, embrenhou-se no meio do mato. Alertado por informantes sobre a aproximao de Floro Bartolomeu, Franco Rabelo ordenou que a polcia guarnecesse as fronteiras estaduais. A determinao era para atirar antes e perguntar depois. Ccero partiu em defesa imediata do amigo. Telegrafou ao Palcio da Luz para protestar contra a caada que se anunciava contra Floro. O padre recebeu como troco um seco despacho do governo estadual. Rabelo afirmou que enviara patrulhas para as fronteiras com o propsito 217. de dar combates a cangaceiros e evitar a entrada de qualquer outro indivduo que quisesse subverter a ordem no Cear: Se o doutor Floro no tem tais intenes, nada tem a recear, podendo transitar livremente, ironizou Franco Rabelo. Precavido, Ccero providenciou guias experimentados na regio para conduzir Floro por meio de veredas abertas a faco no meio da caatinga. As estradas, vigiadas noite e dia por piquetes da polcia, foram evitadas. No dia 22 de novembro, um Floro Bartolomeu coberto de poeira da cabea aos ps finalmente chegou ao Juazeiro, escoltado pelo bacharel paraibano Jos de Borba Vasconcelos, que o hospedara em sua propriedade e o acompanhara nos ltimos momentos da travessia. Uma carta amarfanhada, trazida pelo doutor baiano no bolso do colete desde o Rio de Janeiro, foi entregue nas mos de Ccero. Assinada pelo senador cearense Francisco S, ex-ministro da Viao e Obras Pblicas do governo Nilo Peanha e genro de Nogueira Accioly, a carta esmiuava todo o plano e informava que j estava decidido quem seria o presidente estadual aclamado pela Assembleia Legislativa dissidente: Para este cargo deve ser eleito quem mais se esforou pelas medidas que esto sendo tomadas em favor da nossa poltica. Esse deve ser o prprio doutor Floro, cujo nome encontrar o mais decidido apoio federal. Ccero ainda fez meno de recuar. Por alguns instantes, acreditou que pudessem estar cavando a prpria sepultura. Floro procurou convencer o padre de que era aquilo ou a morte nas mos do inimigo. No restava mais tempo para hesitaes. Os soldados de Rabelo arranchados no Crato ainda no haviam se decidido a atacar, mas as hostilidades eram cada vez mais ostensivas. Alm do mais, no havia o que temer. Eles que estariam do lado do poder e da ordem. No eram subversivos, sustentou Floro. O governo da Repblica garantiria a necessria retaguarda ao. A interveno federal viria logo a seguir, para dar proteo total ao Juazeiro e a sua gente. O Cu tambm haveria de lhes dar razo, argumentou o doutor. Quantos romeiros ainda iriam morrer nas mos dos soldados de Rabelo? Ccero, enfim, concordou. Deixava tudo nas mos de Deus e de Floro. Franco Rabelo no gostou nada de saber que Floro, o atrevido comissrio do padre Ccero, havia cruzado a fronteira inclume e retornado ao Juazeiro. Chegam notcias de preparo levantamento sedicioso a, telegrafou o presidente estadual ao sacerdote. Apesar de aparelhado para sufocar qualquer tentativa dessa natureza, governo espera que Vossa Reverendssima empregar esforos em bem da paz, apelou Rabelo. A mensagem foi recebida por Ccero, mas quem cuidou de escrever a resposta foi Floro. Daquele dia em diante, o padre delegava ao doutor a responsabilidade total por sua correspondncia poltica. De comum acordo entre os dois, seria Floro quem redigiria os telegramas referentes ao movimento, enviando-os com a assinatura do sacerdote. Aqui no h preparo movimento sedicioso, negou Floro Bartolomeu, assinando-se Ccero Romo Batista. Ao mesmo tempo, Floro redigiu uma carta sigilosa aos principais lderes marretas e aciolistas de Fortaleza, para combinar os detalhes da formao da Assembleia Legislativa dissidente. A carta, que continha todas as mincias do plano idealizado no Rio de Janeiro, foi 218. remetida por um mensageiro de absoluta confiana um positivo, como se dizia poca. Na correspondncia, Floro orientava para que os parlamentares que faziam oposio a Rabelo em Fortaleza rumassem o mais rpido possvel ao Juazeiro, para dar incio ao conforme ajustado no Rio com o senador Pinheiro Machado. Em resposta ao aliado Floro Bartolomeu, os lderes oposicionistas da capital fizeram uma ponderao: era prudente esperarem pelo encerramento dos trabalhos legislativos do Congresso Nacional, dali a pouco menos de um ms, no dia 30 de dezembro, para s ento colocarem o plano em prtica. Com o parlamento em recesso, a conflagrao no Cear no chamaria tanto a ateno da opinio pblica. Pelo menos o episdio no seria repercutido na tribuna por congressistas que, a exemplo de Rui Barbosa, viviam a apontar o dedo contra Pinheiro Machado. A cautelosa sugesto dos lderes oposicionistas fortalezenses foi enviada pelo mesmo positivo, o comerciante Manuel Cardoso da Mota, vulgo Lol, residente em Juazeiro. Mas Ccero e Floro jamais receberiam tal mensagem. Apesar do empenho em cumprir a misso que lhe fora confiada, o positivo no se deu conta de que um oficial de polcia o espreitava no caminho de volta. Lol tomou o trem em Fortaleza e seguiu em direo cidade de Iguatu, a cerca de quatrocentos quilmetros da capital cearense, onde terminavam os trilhos da estrada de ferro. De Iguatu ele completaria a viagem em montaria alugada at o Cariri. Contudo, numa das estaes ferrovirias ao longo do primeiro trecho do caminho, Lol distraiu-se e teve sua bagagem vasculhada pelo oficial, que encontrou a correspondncia secreta na qual constavam todos os pormenores da conjurao. Na tarde de 8 de dezembro, quando Lol chegou ao Juazeiro e entregou dois envelopes, um a Ccero, outro a Floro, no havia nada escrito dentro deles para se ler. As cartas verdadeiras, trocadas pelo esperto oficial de polcia por folhas de papel em branco, j estavam em poder de Franco Rabelo. A trama fora inteiramente descoberta. O governo estadual possua as provas condenatrias para finalmente ordenar o ataque ao Juazeiro do padre Ccero. A cidade de Juazeiro amanheceu no dia 9 de dezembro debaixo de chuva torrencial. Dentro de casa, ilhados pela borrasca que caa l fora, a maioria dos moradores nem desconfiava do que havia ocorrido durante a madrugada. Floro decidira antecipar-se represso. Com a ajuda de um grupo de jagunos armados e de um capito da seo da Guarda Nacional recm-fundada em Juazeiro, invadiu o destacamento policial do municpio, recolheu todos os rifles que estavam no depsito oficial de armas e trancafiou os soldados sonolentos atrs das grades. A revoluo havia rebentado. Pode deixar que eu assumo a responsabilidade e o comando das foras revolucionrias, disse Floro a Ccero. No me crie embaraos. Fique em casa rezando e mandando o povo rezar. esse o seu papel nesta revoluo. Nas primeiras horas da manh, assim que souberam do ocorrido, os lderes rabelistas de Juazeiro bateram em retirada debaixo da tempestade. Preferiram enfrentar o aguaceiro, os raios e as trovoadas a esperar para ver o que estaria reservado a eles depois que a polcia local fora desarticulada pelo imprevisvel Floro Bartolomeu. O prefeito Joo Bezerra e o 219. comerciante Jos Andr foram os primeiros a partir. Juntaram as famlias, colocaram poucos objetos em malas de mo e tomaram o rumo da estrada. Enquanto fugiam para o Crato, outros galopavam no sentido exatamente oposto. Caso do coronel Antnio Luiz Alves Pequeno, que resolveu se juntar aos revoltosos do Juazeiro, selando uma aliana estratgica com Ccero e Floro, seus ex-adversrios poca da emancipao. O antirrabelismo falara mais alto do que as velhas rixas municipais. O consrcio de Antnio Luiz com o movimento juazeirense vinha sendo acertado em surdina j havia algum tempo. Semanas antes, ele encaminhara para a cidade um carregamento de sessenta rifles, desmontados e enrolados em esteiras, como se fossem embrulhos de rapaduras, para ludibriar a vigilncia policial. Junto a quinhentos cartuchos igualmente fornecidos pelo coronel cratense, as armas ficaram escondidas na casa que Ccero mantinha na serra do Catol e no armazm onde funcionava uma mquina de beneficiamento de algodo, tambm de propriedade do padre. A notcia do levante se espalhou rapidamente. Franco Rabelo telegrafou a Ccero responsabilizando-o pela agitao. Prometeu punir com severidade aquele desplante. Exigiu que o padre restaurasse as autoridades que haviam sido escorraadas da cidade e que entregasse todos os implicados ao da Justia. A resposta oficial de Ccero redigida por Floro Bartolomeu recorreu dissimulao: a fora policial no teria sido agredida, os soldados que haviam desertado espontaneamente. Alm disso, ningum expulsara Joo Bezerra e Jos Andr do Juazeiro. Eles teriam ido embora por escolha prpria, to somente forados pela conscincia das culpas. Por fim, vinha a frase que reverberou nos candelabros do Palcio da Luz como um desacato: Senhor Franco Rabelo, os representantes de seu governo so os nicos perturbadores da ordem pblica. Em reunio extraordinria, a influente Associao Comercial de Fortaleza decidiu fazer uma moo de protesto contra Ccero e remeteu-lhe um telegrama formalizando o desacordo da entidade classista, acusando o padre de dar abrigo na prpria casa a inimigos rancorosos do governo e de comandar uma plebe fantica. Mais uma vez, a rplica assinada com o nome de Ccero Romo Batista no economizou o verbo. Recebi vosso insultuoso telegrama... J estou acostumado com elogios e insultos, filhos de interesses pouco recomendveis. Para seguir as etapas do roteiro previamente traado, Floro Bartolomeu enviou mensagem ao presidente Hermes da Fonseca no dia 11 de dezembro, mais uma vez fazendo constar o nome de Ccero como o presumido remetente. O objetivo do despacho telegrfico era abrir caminho para a interveno federal no Cear: Marechal Hermes, presidente da Repblica. Respeitosamente me dirijo a Vossa Excelncia para cientific-lo do estado de anarquia que se encontra o interior do estado, promovido pelo governo arbitrrio do coronel Franco Rabelo. Em todas as localidades desta zona desordeiros fardados sob comando de oficiais policiais agridem, desacatam cidados inermes, invadindo casas, desrespeitando famlias. Os viajantes interrompem suas viagens nas estradas pelos soldados que os espancam barbaramente, prendem, matam, violam correspondncia, fazem enfim as maiores violncias que se podem conceber. [...] Como brasileiro, republicano, sacerdote catlico, amigo da paz e da ordem, confio que Vossa Excelncia, em cuja vida honrada militar e tirocnio providencial tem sido intemerato defensor das instituies e da segurana no pas, no consentir 220. que continue a ser massacrado o povo cearense por um governo arbitrrio e violento, que zombando da autonomia do Estado no respeita os direitos dos cidados garantidos pela Constituio nacional. Respeitosas saudaes, Padre Ccero Romo Batista No dia seguinte, com apenas cinco deputados presentes a maioria deles no teve tempo de viajar ou no quis se arriscar em territrio conflagrado , Floro Bartolomeu declarou aberta a Assembleia Legislativa dissidente. Apesar do qurum escasso, tudo parecia seguir o rumo preestabelecido, no fosse por um detalhe que deixou Floro preocupado com os destinos do movimento. At ali Pinheiro Machado no se animara a apoiar publicamente a insurreio, embora tenha sido notificado por telegrama de que a revolta j estava nas ruas do Juazeiro. Uma escorregadia e lacnica mensagem do senador gacho deixava entender que ele assistiria a tudo de camarote, sem se comprometer na celeuma alm do que j fizera: Padre Ccero Governo tem procurado evitar lamentveis sucessos que esto afligindo populao dessa regio conflagrada por violncias inominveis. Cordiais saudaes, Pinheiro Machado A rigor, aquele telegrama no era garantia de absolutamente nada. Ao contrrio do que Floro afianou a Ccero, o governo federal os havia abandonado to logo o conflito estourara. Porm, a esse ponto, no havia mais o que fazer. Mesmo sem o apoio estratgico do Catete era preciso seguir adiante e ver at onde tudo aquilo iria dar. Depois de desafiar as autoridades estaduais com tanta veemncia, render-se significaria servir a prpria cabea numa bandeja a Franco Rabelo. Assim sendo, em 15 de dezembro, na mesma casa que servira de cenrio para o Pacto dos Coronis dois anos antes, Floro Bartolomeu fez-se nomear presidente paralelo do Cear pela Assembleia dissidente. A primeira vice-presidncia ficou com Jos de Borba Vasconcelos, o paraibano que acompanhara Floro na viagem de volta ao Juazeiro. A segunda vice-presidncia coube ao coronel Antnio Luiz. No mesmo dia, o presidente da Repblica foi oficialmente comunicado que havia uma dualidade de poderes no estado. Mas Hermes da Fonseca tinha mais com o que se preocupar: estava deleitando-se em uma romntica e tardia lua de mel. O marechal acabara de abandonar a vida de vivo solitrio. Aos 58 anos, casara uma semana antes com a caricaturista Nair de Teff, trinta anos mais nova do que ele e mulher de ideias avanadas, que viria a promover saraus de maxixes com a compositora Chiquinha Gonzaga em pleno Palcio do Catete. Enquanto o marechal se entregava aos braos da nova primeira-dama, Floro Bartolomeu apertava o rifle junto ao peito. s nove horas da noite daquele 15 de dezembro em que se declarou presidente do Cear, Floro recebeu uma mensagem vinda do Crato. O capito Ladislau, chefe de polcia nomeado por Franco Rabelo, mandava dizer que estava a caminho. O recado, por escrito, vinha apimentado com um chiste ameaador: Doutor Floro, estou com seiscentos homens em armas. Prepare-se, meu velho, que hoje ou amanh vou comer o capo que me ofereceu da. No sofra do corao, que o negcio est feito. 221. Em vez de ficar em casa apenas rezando como lhe recomendara Floro Bartolomeu, Ccero precisou agir. No dia anterior, durante a habitual bno vespertina aos fiis na janela de casa, ele conclamou o povo a defender o Juazeiro. Explicou que o governo estadual estava enviando armas modernas e centenas de soldados para trucid-los. Quando chegassem, iriam querer destruir a casa deles, a igreja, quem sabe at quebrar a imagem de Nossa Senhora das Dores que estava no altar. Iam pr fogo nos roados, derrubar portas, violar suas mulheres, profanar a terra santa. Para evitar aquela injria dos infernos, Ccero afirmou que todos teriam de dar sua cota de colaborao na resistncia que o doutor Floro estava preparando. Nenhum amiguinho podia fugir responsabilidade perante tamanha afronta ao povo simples de Deus. Uma testemunha ocular da cena, o historiador cratense Irineu Pinheiro, descreveria os detalhes daquela preleo histrica. Ccero, com a mo esquerda entre os botes superiores da batina e a direita apoiada no peitoril da janela, falava com voz firme, mas pausada, como se sublinhasse cada frase, para que elas fossem retidas na memria e no corao daquela gente. De sbito, Ccero levantava a mo direita, fazia um gesto vigoroso, para dar mais nfase homilia. Os devotos ouviam-no com lgrimas nos olhos, beijavam medalhinhas, empunhavam o rosrio, espalmavam as mos em direo ao padre e juravam no permitir tamanho sacrilgio. O padrinho exortava-os a se engajarem em uma guerra santa. Como fazia questo de lhes dizer, no iriam atacar ningum, mas apenas defender o Juazeiro das balas do governo de Satans. Enquadrado no retngulo da janela, Ccero detalhou o plano. Na manh seguinte, justamente na hora em que o sol aparecesse, todos deveriam levantar da cama e se reunir na praa defronte igreja. Trouxessem todas as ferramentas que tivessem em casa e que servissem para cavar a terra: enxadas, ps, alavancas, picaretas. Trouxessem tambm baldes. Muitos baldes. Panelas tambm. Avisassem os vizinhos e os vizinhos dos vizinhos. Na hora certa, na manhzinha seguinte, ele explicaria o que deveriam fazer com todo aquele apetrecho. Tal ideia havia sido dada por um tarimbado guerreiro. Dias antes, Floro Bartolomeu mandara chamar no municpio caririense de Assar um famoso sobrevivente de Canudos. Antnio Vilanova, que fora um dos homens mais prximos a Antnio Conselheiro, viu-se convocado pelo doutor para ajudar a proteger a terra do Padim Cio. Na guerra de Canudos, Vilanova foi um dos ltimos a abandonar o arraial, j durante os derradeiros ataques do Exrcito. Sara durante a noite, montado em um jumento que o conduziu at o Cear, onde passara a morar desde ento. Ao receber o convite de Floro para participar de uma nova guerra, Vilanova recusou-se a tomar parte no campo de batalha. Jurara a si mesmo nunca mais se meter em outra luta como aquela dos tempos de mocidade. Mas, pela devoo ao padre Ccero, sentia-se obrigado a dar sua contribuio. Desenhou ento um plano mirabolante: a construo de um gigantesco fosso em torno do Juazeiro. Deveria ser aberta uma vala larga e profunda, contornando toda a cidade, para impedir o avano dos soldados. Parecia maluquice de um guerrilheiro aposentado. Mas Floro e Ccero concluram que a ideia, por mais esdrxula que pudesse ser primeira vista, podia funcionar. Aos primeiros raios do sol do dia 15 de dezembro, conforme prescrevera o padre, a multido de juazeirenses estava a postos com as ferramentas diante da igreja. Durante seis dias ininterruptos, debaixo 222. de sol e chuva, pelas manhs, tardes, noites e madrugadas, rezando ave-marias, pai-nossos e cantando benditos, a populao inteira da cidade se entregou tarefa. Os homens cavavam a terra. Mulheres e crianas transportavam a areia em baldes e panelas, para depois empilh-la em montes de dois metros de altura, bem contguos s valas que iam sendo abertas, formando uma inexpugnvel trincheira. Naqueles morros gigantescos de areia fresca, eram introduzidos tubos de metal, por onde se poderia enfiar o cano de rifles em direo ao inimigo. Na falta de ps e enxadas para todos os braos, muitos ajudavam a revolver o solo com o que estava mais mo, como machados e faces. As crianas menores e algumas beatas acudiam raspando o cho at mesmo com garfos e colheres trazidas da cozinha de casa. O grande fosso, de nove quilmetros de extenso, com oito metros de largura e em alguns locais com at cinco metros de profundidade, ficou praticamente pronto ao fim do sexto dia de trabalho. A malha central do Juazeiro estava protegida pela trincheira, que serpenteava terreno adentro at alcanar a serra do Catol. Em volta da casa do padre, no alto da colina, erguia-se uma poderosa muralha de pedra. Era, sem dvida, uma obra engenhosa, extraordinria do ponto de vista da engenharia militar, principalmente se levados em conta o tempo exguo e as ferramentas precrias com que foi construda. Ccero abenoou o grande valado e resolveu batiz-lo com um nome que fizesse jus f com que fora edificado. Aquele no era apenas um fosso descomunal e uma imensa trincheira, que passara a envolver defensivamente o Juazeiro. Era, nomeou Ccero, o Crculo da Me de Deus. Franco Rabelo sentia-se to seguro com o apoio popular em Fortaleza que resolveu mandar todo o efetivo policial de que o Cear dispunha para o Cariri. No ficou um s soldado na capital. O total das foras policiais do estado seria concentrado no combate cidadela do padre Ccero. Na falta de militares, o palcio do governo foi protegido por patrulhas de voluntrios formadas por empregados do comrcio, operrios, pescadores, carroceiros e trabalhadores de rua. Rabelo no queria correr o risco de ver a resistncia de Canudos reeditada. A ordem era arrasar Juazeiro de um nico golpe. Comandados pelo coronel do Exrcito Alpio Lopes de Lima Barros, mais quinhentos praas foram enviados nos vages da companhia ferroviria at Iguatu. Depois, marcharam por 180 quilmetros de estrada, por cinco dias sob o sol cearense, conduzindo armamentos e bagagens, at finalmente entrar no Crato na manh de 18 de dezembro, uma quinta-feira. A populao cratense aglomerada nas caladas aplaudiu efusivamente a chegada dos soldados, que se juntaram s tropas que j estavam ali sediadas sob o comando do capito Ladislau. Eram ao todo, a partir de ento, mais de mil homens em armas. Apesar da extensa marcha a p que aqueles novos praas haviam feito desde Iguatu, no havia tempo para descanso. Na sexta-feira, um dia aps a chegada, o coronel Alpio telegrafou a Ccero, intimando-o a se render. No recebeu nenhuma resposta. No dia seguinte, sbado, 20 de dezembro, mandou perfilar a tropa. A ofensiva iria ter incio s dez da manh, hora em que partiriam do Crato para o Juazeiro. Os soldados foram divididos em quatro companhias e, pontualmente, dirigiram-se em formao para a estrada. O coronel Alpio no tinha 223. conhecimentos topogrficos do terreno nem possua um plano de guerra especfico. Mas estava confiante. Dava a vitria como lquida e certa. Diante de tamanho contingente, imaginou que bastaria disparar uma saraivada de tiros para a jagunada que estava do lado oposto correr assustada. Esse Juazeiro no vale nada. Logo na primeira investida, ficar estabelecida a confuso entre os jagunos. Na segunda, a debandada ser geral. Depois, s tocar fogo naquele covil, declarou o fiscal do batalho, coronel Francisco Batista Torres de Melo. Enquanto os soldados se aproximavam na estrada, Ccero falava ao povo na frente de casa. Mandava que todos fossem para suas residncias ou para a igreja, a fim de rezar o rosrio e pedir proteo a Nossa Senhora das Dores. Recomendou aos pais de famlia que protegessem a honra de seu lar com a prpria vida. No permitissem que durante a possvel invaso cidade os soldados satisfizessem seus instintos com suas esposas e filhas. As mulheres, especialmente as donzelas e beatas, deveriam fazer de tudo para impedir que seus corpos fossem profanados. Tivessem mo fsforos e querosene. Se algum combatente inimigo quisesse violent-las, no hesitassem em atear fogo s prprias vestes. Morreriam como mrtires de Deus, padeceriam como santas, ganhariam a glria do Cu pela defesa de sua castidade. Ccero explicou que a cidade estava bem guarnecida pelo Crculo da Me de Deus e pelos homens que o doutor Floro arregimentara pela regio, com a ajuda do coronel Antnio Luiz. Mas no seria fcil para cerca de quatro centenas de cabras impedirem o avano do milheiro de soldados que o governo estava mandando para atac-los. Orassem ento em voz alta 33 mil pai-nossos, cantassem o hino de Maria e recitassem a reza forte ao Sagrado Corao: Chagas abertas, corao ferido, sangue de Jesus se ponha entre ns e o perigo. Ao ouvirem alocues como aquela, muitos beatos e romeiros decidiram trocar o rosrio pelo rifle. Um deles, o beato Vicente, que residia no alto da serra do Catol, pegou um bacamarte boca de sino e seguiu para a trincheira. O beato Ricardo, que se vestia de frade com o cordo de so Francisco amarrado cintura, despiu o hbito, travestiu-se de jaguno, ps um chapu de cangaceiro, beijou o bentinho pendurado no pescoo e saiu para se juntar linha de frente. Quem for pra guerra confesse os pecados a Deus. Mas bem confessados mesmo. Porque assim, se morrer debaixo da bala de soldado, pode ter certeza que vai pro Cu, prometia Ccero. Por volta do meio-dia, os juazeirenses ouviram os primeiros estampidos na entrada da cidade. As tropas do governo haviam chegado. Era muita gente e muito rifle, constataram os juazeirenses. Soldados a perder de vista, de fazer o cho tremer. Vinham cuspindo fogo. 224. 6 Moedas de bronze so derretidas para fabricar a arma mortal: o canho da Besta-Fera 1913-1914 s duas da tarde, comeou a guerra. Ao chegarem ao Juazeiro, os homens do coronel Alpio de Lima Barros foram surpreendidos pela existncia do enorme valado, do qual at ento no tinham nenhuma notcia. Protegidos pelas trincheiras de at dois metros de altura, os comandados de Floro Bartolomeu mandaram bala contra os soldados, que logo amargaram as primeiras baixas. No atirem toa! Economizem munio! S disparem para acertar!, recomendava Floro, que havia deixado o palet no guarda-roupa e se vestia como jaguno, o chapu quebrado na testa, o leno vermelho em volta do pescoo e o rifle enfeitado de fitas. Montado em uma mula marrom, ele inspecionava a linha de frente e se certificava de que o Crculo da Me de Deus permanecia intacto. Dentro de casa, ajoelhado diante do crucifixo, Ccero jejuava e ouvia o ribombar dos tiros. A toda hora chegavam informaes sobre o conflito. Diziam-lhe que o beato Vicente, mesmo sendo cego de um olho, se revelara exmio atirador. Cada disparo de bacamarte que dava, espalhando chumbo para todo lado, era um soldado que tombava no cho. Ao invs de ficar abrigado atrs das trincheiras como os demais, o beato Vicente subia nelas, plantava o joelho na areia fofa e puxava o gatilho. Toda vez que fazia isso, j se podia encomendar a alma de mais um desgraado para o Cu. O beato Vicente no estava errando nenhum tiro. Outra arma eficaz contra a soldadesca eram as granadas de mo, improvisadas com garrafas de vidro preenchidas metade com plvora e metade com pregos ou pedaos pontiagudos de ferro. Ateava-se fogo em um pavio de pano e jogava-se o artefato por cima do valado o mais longe possvel. Seguia-se o estrondo e os estilhaos se espalhavam no ar, perfurando a carne dos inimigos. Os soldados, sangrando, buscavam proteo como podiam, atrs de rvores e arbustos. O coronel Alpio no contara com tal reao. Muito menos com aquele surpreendente fosso. Como no conseguia enxergar o adversrio, sua tropa estava atirando a esmo, sem oferecer ameaa alguma ao Juazeiro. Sentindo-se perdidos, muitos soldados haviam simplesmente debandado para dentro do matagal, recusando-se a servir de alvo fcil para a mira do rifle inimigo. s trs da tarde, Alpio mandou distribuir mais cartuchos entre seus homens. A primeira bateria de balas, com a qual imaginara dobrar a resistncia do Juazeiro, j estava no fim. Do 225. outro lado da trincheira, os cartuchos vazios, j disparados, eram recolhidos pelos jagunos e beatos para serem recarregados prontamente. O coronel Antnio Luiz, com a experincia de quem j havia comandado no Crato um exrcito particular de pistoleiros, improvisou uma fbrica de munio em uma mesa de jantar numa das casas da cidade e ali montou uma linha de produo permanente. As horas avanavam e o coronel Alpio esperava em vo pela chegada do capito Ladislau. Estava combinado que Ladislau deveria seguir at Misso Velha para, de l, arregimentar cerca de cem cabras, com os quais atacaria o Juazeiro pela retaguarda. Mas o capito fracassara naquela misso, pois no conseguira reunir a tempo um nmero suficiente de homens dispostos a agredir os devotos do padre Ccero. Como escolhera combater o adversrio de frente, exatamente onde ele estava mais fortificado pela presena do valado, Alpio cometera um erro estratgico. A confiana demasiada foi seu erro capital. No mandara patrulhas avanadas para estudar o terreno, no prospectara as foras do inimigo, no previra um combate to acirrado. Para completar o desastre, no dera a alimentao e o descanso necessrios a seus homens aps a marcha da estao ferroviria de Iguatu at o Crato. Os soldados estavam estropiados e famintos. s cinco da tarde, sem ter conseguido avanar um nico centmetro em sua posio original, Alpio resolveu reunir os auxiliares imediatos para uma anlise da situao. O quadro era desolador. Estavam sem poder de fogo. Os caixotes com cerca de 25 mil cartuchos que haviam levado para o campo de batalha estavam quase vazios. J se contavam 82 baixas, entre mortos e feridos. Perto de escurecer, s restava uma opo: ordenar que o corneteiro fizesse soar o toque de retirada para evitar uma hecatombe. s nove da noite, a populao do Crato no acreditou quando viu aqueles homens voltarem cidade derrotados, maltrapilhos, com cara de espanto, como se acabassem de retornar do Inferno. Havia registros de inmeras deseres, inclusive as de alguns soldados que simplesmente largaram a farda e passaram a combater ao lado do Padim Cio. Outros vagavam pelo mato, perdidos ou apavorados, sem querer voltar. Quando tentou reunir os soldados para contabilizar o total de perdas, o coronel Alpio percebeu que no tinha mais uma tropa nas mos, mas sim um amontoado de homens de moral esfrangalhado. Muitos nem sequer obedeceriam, naquela noite, ao toque de recolher. Teriam de ser caados base de ameaas, um a um, trpegos de medo e de cachaa, na zona do meretrcio do Crato. Quando levaram a Ccero a notcia de que as tropas estaduais haviam dado meia-volta sem que fosse registrada nenhuma morte entre os combatentes do Juazeiro, o padre levantou as mos para o cu em sinal de agradecimento. Nosso Senhor Jesus Cristo olhara por eles, exps. O Crculo da Me de Deus resguardara os bons dos mpios, os fracos dos fortes, os oprimidos dos opressores, concluiu. Com a concordncia de Ccero, Floro enviou dois telegramas ao Rio de Janeiro ainda naquela noite. O primeiro era para Pinheiro Machado. O segundo, para o presidente da Repblica, Hermes da Fonseca. Comunicava-se a ambos sobre o ataque ao Juazeiro e pedia- se ajuda para evitar novas agresses. Enquanto a mensagem seguia para a capital federal, os juazeirenses comemoravam. Era certo que viria um segundo ataque. Mas estavam plenamente convencidos de que o poder de padre Ccero os livraria de todo o mal. Um boato que corria entre a jagunada, sado no se sabe ao certo de onde, passou a ser 226. repetido pelas ruas da cidade: Nossa Senhora das Dores teria aparecido em uma viso ao padre Ccero. Ela dissera que dali por diante daria proteo total ao povo contra as balas de Franco Rabelo. Ningum tivesse receio de morrer. Quem fosse alvejado de modo fatal em combate no devia ser enterrado, pois no terceiro dia iria ressuscitar, mais forte ainda, para pegar de novo no rifle em defesa do Juazeiro. No primeiro dia de 1914, menos de duas semanas aps o ataque, Ccero consentiu que um oficial do Exrcito tivesse acesso ao Juazeiro, na condio de observador neutro. Vindo de Fortaleza, o tenente Jos Armando Perdigo de Oliveira se apresentou como enviado da inspetoria da Regio Militar sediada no Recife. Tinha como incumbncia remeter ao Rio de Janeiro um relatrio detalhado a respeito das reais circunstncias em que se dera a conflagrao. Na capital federal, as notcias publicadas pela grande imprensa acusavam Ccero de ter liderado uma chacina. No flagelado serto cearense, terrvel como a seca, explode uma guerra civil dirigida por um sacerdote, repudiava a revista Careta, uma das mais crticas e mais lidas poca, em sua edio especial de Natal. Enquanto em todas as outras terras crists ondulam incensos e soam bnos e preces, num pedao do Cear filhos de Cristo em luta contra filhos de Cristo mancham de sangue a terra brasileira, porque um padre, trocando as promessas do cu pelas coisas da terra, transviou para as baixezas da poltica os homens que deveria ter encaminhado para os esplendores da religio. Ccero estava preocupado com a repercusso negativa do episdio. Em sinal de cortesia e boa vontade, recebeu o tenente Perdigo de Oliveira em casa, durante um jantar, quando argumentou que o Juazeiro apenas se defendera de um ataque criminoso desfechado pela polcia militar estadual. Ccero aproveitou o ensejo para reafirmar a fidelidade poltica ao Palcio do Catete e disse que bastava um gesto explcito de reprovao do presidente Hermes da Fonseca ou a interveno federal no Cear, com o consequente afastamento de Franco Rabelo para depor imediatamente as armas. Desconfiado das verdadeiras intenes do visitante, Floro se intrometeu na conversa e achou que era conveniente dar uma demonstrao de fora ao oficial, que bem poderia se tratar de um espio inimigo. O doutor, que mandara telegramas de congratulaes de Ano- Novo a Hermes da Fonseca assinando Floro Bartolomeu da Costa, presidente do Cear, interrompeu o jantar e avisou que organizara um desfile para mostrar ao tenente Perdigo o poderio militar do Juazeiro. Floro explicou que no meio-tempo entre o ataque da polcia e aquela data, 1o de janeiro, a cidade recebera ainda mais voluntrios e alistara novos homens de toda a regio para reforar as trincheiras. Perdigo de Oliveira teve ento a oportunidade de passar em revista a tropa mais singular na qual j pusera seus olhos de oficial do Exrcito brasileiro. A parada militar preparada por Floro era desconcertante para os padres de um soldado profissional. Compunha-se de cerca de 3 mil cabras, jagunos e cangaceiros, armados de rifles, fuzis, pistolas e bacamartes, mas tambm de cacetes e longos punhais que mais se assemelhavam a espadas. Muitos traziam costurados na aba do chapu de couro, como 227. enfeites, espelhinhos redondos e fitas vermelhas, alm de medalhinhas com a efgie de Ccero pregadas na blusa altura do peito para garantir proteo. Em vez de uniforme, vestiam desgrenhadas roupas civis. No lugar de rosto escanhoado e cabelo militar escovinha, traziam barba malfeita, bigode espesso e cabelo em desalinho. Em vez de coturnos, usavam botas de vaqueiro ou simples alpercatas. Gritavam vivas ao Padim Cio e xingamentos contra os macacos, o apelido com o qual jagunos e cangaceiros se referiam aos policiais. O tenente Perdigo, ciente do estrago que uma horda como aquela poderia fazer em um campo de batalha, explicou a Ccero que sua visita se devia a uma tentativa governamental de selar a paz entre o Juazeiro e Franco Rabelo. Floro meteu-se mais uma vez na palestra. Expressou abertamente seu estranhamento ao tenente Perdigo: no havia recebido nenhum aviso dos correligionrios do Rio de Janeiro a respeito da chegada de um emissrio de paz. Tambm no via nenhum sentido em selar um armistcio quela altura dos fatos. O governo federal sabia como evitar novos confrontos: bastava decretar a interveno no Cear. Do contrrio s restava mesmo aguardar a polcia de Rabelo com a espingarda na mo. Esta paz de que o senhor est falando, tenente, no nos interessa. Ela ia significar apenas o nosso desarmamento e a continuao de Franco Rabelo no poder. Nada feito, rejeitou Floro, convidando o tenente a deixar a cidade. Horas depois, o mesmo Perdigo reunia-se no Crato com o comandante Alpio de Lima Barros. Contou com detalhes o que vira no Juazeiro e desaconselhou que, em tais condies, fosse feito um segundo ataque. Se com ampla superioridade numrica as tropas da polcia haviam se submetido a uma vexatria derrota, com os novos reforos obtidos por Floro a tarefa de invadir a cidade do padre Ccero se tornara simplesmente impossvel. Seriam necessrios, pelo menos, uns 4 mil soldados bem armados para desalojar a jagunada por trs dos valados, calculou Perdigo. Alpio repassou as informaes para o Palcio da Luz, em Fortaleza. Franco Rabelo, porm, no as levou em maior considerao. Chamou Alpio capital, destituiu-o do comando das tropas e avisou que acabara de promover o capito Ladislau Loureno a major. A ofensiva contra Juazeiro iria continuar. Mas, a partir daquela data, com novo chefe. O major Ladislau no iria tremer dentro das calas. Esmagaria os inimigos como piolhos. Ofendido, Alpio lanou fora as insgnias do bon, arrancou os gales da farda de coronel da polcia cearense e zarpou para a capital federal. O Cear est anarquizado, definiu Alpio em entrevista ao jornal O Imparcial, do Rio de Janeiro. Enquanto isso, no Crato, os soldados recebiam litros de cachaa como estmulo, aps Ladislau reuni-los e anunciar que em breve iriam desferir um segundo ataque. No desanimassem. Para ajud-los, estava chegando da capital uma arma poderosa, que definiria a guerra a seu favor, prometeu. A populao de Fortaleza foi convocada a participar da campanha pela soluo final. O comerciante Emlio S, dono de uma padaria na praa do Ferreira, no centro da cidade, foi o idealizador do plano. Ele solicitou que cada cidado vasculhasse os prprios bolsos e depositasse as moedinhas que existissem em seu poder nas urnas espalhadas por 228. estabelecimentos comerciais da capital cearense. No interessava dinheiro em papel, apenas moedas de bronze, independentemente do valor de face que tivessem. A campanha surtiu o efeito esperado. Os fortalezenses se engajaram causa com entusiasmo. No se sabe exatamente o montante financeiro dos donativos e isso era o que menos importava. O objetivo era mandar todas as moedinhas imediatamente para o forno de uma fundio. Com elas, foi moldada a arma fatal: um canho de bronze, de cerca de meio metro de altura, com o qual se planejava explodir as trincheiras do Juazeiro e, em ato simblico, bombardear as duas torres da capela de Nossa Senhora das Dores. Na estao ferroviria de Iguatu, a populao assistiu curiosa ao desembarque do canho e de 150 homens provenientes de Fortaleza. Era a chamada Guarda Cvica, um grupo voluntrio de civis que Franco Rabelo enviara para reforar o depauperado contingente policial que se encontrava no Cariri. Vinham sob o comando do ajudante de ordens do prprio Rabelo, tenente Mario Gomes, com a superviso direta do secretrio estadual de Justia e Segurana Pblica do Cear, doutor Jos Martins de Freitas. Em caixotes com o braso do Exrcito, levavam ainda 100 mil cartuchos, doados pela guarnio federal em Fortaleza, cujo comandante resolvera desobedecer ordem do Catete de no se envolver no conflito. Porm, a Guarda Cvica passou por maus bocados para conduzir ao Cariri o pesado canho, mesmo com a ajuda de uma carroa puxada por uma parelha de bois. As fortes chuvas que caam no Cear naqueles meses haviam deixado as estradas enlameadas e quase intransitveis, o que fazia a carroa atolar at o eixo a cada quilmetro do percurso. proporo que os reforos lentamente se aproximavam, o major Ladislau tentava semear o medo na outra margem do valado, mandando imprimir um boletim ameaador, embora um tanto quanto exagerado: O Juazeiro vai ser bombardeado a dinamite por poderosos canhes vindos de Fortaleza com extraordinrios reforos de soldados e de munio. Rendei-vos, ainda tempo. Sentindo-se desafiado em seus brios, Floro Bartolomeu decidiu escrever uma resposta altura: Lemos o imundo boletim que vocs, acovardados, fizeram circular. Fiquem sabendo que aqui ningum tem medo dos seus canhes, nem das suas 100 mil balas, nem das suas dinamites, desdenhou. Deixem de ser pulhas e venham, se tm coragem, para correrem pela segunda e ltima vez. Porque agora no daremos mais trguas, podem ficar certos. Venham, venham, venham, desafiou. Logo viria a trplica. Ladislau dirigiu telegramas diretamente a Floro, remetidos com codinomes sonoros, a exemplo de Antnio Facnora ou Manuel Caador. Em uma dessas mensagens, Ladislau lanava a promessa macabra: Floro, seu bandido. Nestes dias te mostrarei como se zomba de um governo. Tua cabea ir para Fortaleza servir de exemplo aos outros miserveis teus companheiros. Em outra, lia-se o aviso: Floro, ladro. No ters a honra de morrer a tiros, mas sim sangrando no corao, miservel. Naquela guerra de nervos, Franco Rabelo lanara uma ordem estratgica ao major Ladislau: antes de providenciar o segundo ataque e bombardear as trincheiras com tiros de canho, ele deveria sitiar o Juazeiro durante algumas semanas, policiando todas as estradas de ligao do municpio. No permitisse a chegada ali de novos jagunos e, em especial, no admitisse que o lugar fosse rea-bastecido de vveres por meio algum. Mais dia, menos dia, com quase 30 mil moradores, a cidade sitiada logo passaria a sofrer o assdio de um inimigo 229. implacvel: a fome. Depois de extenuar os juazeirenses pela falta de comida, a ofensiva teria muito mais chances de sucesso. Feito o bloqueio das principais vias de acesso ao Juazeiro, travaram-se inmeras escaramuas entre os homens de Floro Bartolomeu e os soldados do major Ladislau. Para obter mantimentos, Floro ordenou uma srie de ataques-relmpago ao paiol de stios adjacentes, muitos deles abandonados pelos moradores desde o estopim do conflito. As investidas, tpicas de uma ao de guerrilha, eram rechaadas com violncia pela polcia, mas surtiam resultado: enquanto uma frente mantinha aceso o tiroteio, outra entupia sacos e mais sacos de legumes, verduras e gros. Em contrapartida, as foras juazeirenses comearam a contar as primeiras baixas. Em um assalto localidade de Buriti, entre o Juazeiro e o Crato, tombaram seis jagunos, alm do beato Ricardo, que morreu crivado de balas, agarrado ao rifle. Junto ao corpo, encontrou-se um chocalho, do tipo que se pendura no pescoo do gado. O beato tentara se fazer passar por um boi extraviado em pleno front, para se aproximar dos soldados e acert-los a pequena distncia. Foi descoberto e fuzilado antes que pudesse reagir. A ttica de saques a propriedades alheias provocou uma primeira grave altercao entre Floro Bartolomeu e Ccero Romo Batista. O padre considerava que a pilhagem a terras particulares constitua furto e, por esse motivo, representaria uma infrao ao stimo mandamento da lei sagrada: No roubars. Quando Ccero tentou argumentar que teriam de encontrar outra forma de abastecer a cidade naqueles tempos difceis de guerra, Floro Bartolomeu perdeu o recato: Padre, voc sabe que um movimento dessa ordem no se faz com conversas e encenaes, gritou Floro. Deixe de escrpulos e me d carta branca para resolver essa parada, se no quiser ser degolado pelos soldados da polcia. Ccero baixou a cabea e silenciou. Um abismo chama outro. Alm das severas repreenses pblicas de Floro, Ccero tinha mais motivos para se mostrar abatido. Enquanto romeiros, cabras e jagunos se organizavam para defender o Juazeiro, a sade da beata Maria de Arajo se achava por um fio. Crises frequentes de dispneia indicavam a progresso de alguma enfermidade de natureza cardaca ou pulmonar. Deitada na rede, sem flego, a beata agonizava. Desde a volta de Ccero da viagem a Roma, dezesseis anos antes, Maria de Arajo continuava em completo ostracismo. Resguardada da curiosidade pblica, a beata submetera-se ao silncio obsequioso ordenado pelo Vaticano. Os detalhes de sua existncia cotidiana a partir de ento se tornaram um completo mistrio. Sabe-se apenas que ela continuava a comungar regularmente, mas no h nenhum registro documental de novos xtases, de sinais de estigmatizao, de transformaes de hstias em sangue. Maria de Arajo tambm deixara de morar na casa de Ccero e passara a residir em outra habitao modesta, distante um quarteiro e meio da capela de Nossa Senhora das Dores, na companhia de trs beatas mais novas. Voltara s suas atribuies de cozinheira, doceira e lavadeira, com as quais tirava o sustento para comer e vestir. Ccero oferecia-lhe ajuda financeira, mas evitava trazer tona as histrias dos proclamados milagres. Desde que o santo papa assim me exigiu, ningum fala mais disso, desconversava o 230. padre, sempre que algum lhe indagava sobre o assunto. No dia 17 de janeiro daquele ano de 1914, um sbado, em plena conflagrao armada no Juazeiro, vieram dar a notcia a Ccero. Maria de Arajo soltara um gemido gutural, pusera a mo no peito e tombara o corpo na rede pela ltima vez. Estava morta, aos cinquenta anos de idade. Ccero decidiu fazer-lhe a ltima homenagem, ordenando que seu caixo de cedro fosse sepultado em um jazigo dentro da capela de Nossa Senhora do Perptuo Socorro, o pequeno templo que fora concludo com a interveno de Floro e que continuava sem licena eclesistica para funcionar. Apesar da vida discreta que a beata levara nos ltimos anos, o fretro reuniu uma multido, incluindo Ccero e figuras polticas do Crato que, a exemplo do coronel Antnio Luiz, estavam refugiadas no Juazeiro. Muitos jagunos e cangaceiros com o rifle no ombro tambm foram se ajoelhar, chorar e rezar ante o tmulo da finada Maria de Arajo. Nos valados, comentava-se que poucas horas antes de morrer a beata se oferecera a Deus em sacrifcio. Dera sua vida, de bom grado, pela salvao do povo do Juazeiro. Ningum duvidava que naquele instante Maria de Arajo estaria no Cu, sentada em um trono de luz ao lado de Jesus Cristo e de Nossa Senhora das Dores. Com certeza, ela tambm ajudaria a proteger a todos do fogo, da bala de rifle e do tiro de canho. Naquela noite, at os mais perversos dos jagunos entoaram os chamados cantos de sentinela, os hinos religiosos com os quais os beatos encomendavam a alma dos moribundos Virgem: Oh! Me Gloriosa, Oh! Me do Juazeiro, Oh! Me virtuosa, Oh! Me dos romeiros! Tem uma beata santa, Na matriz do Juazeiro, Meu Padim Cio Romo rei do mundo inteiro! Parecia o ronco de um trovo. S que no vinha do cu, mas do fundo da terra. O estrondo foi to forte que sacudiu as folhas das rvores. Imediatamente depois, ouviram-se o chiado e o longo assobio no ar. Quando o projtil passou chispando sobre a trincheira, os juazeirenses entenderam o que se passava. O canho de Franco Rabelo estava atirando contra eles. Uma, duas, trs, quatro, cinco vezes. Era ensurdecedor, de perder o juzo. A despeito de to assombroso barulho, o alcance dos arremessos mostrou-se bem menor do que se imaginava. Um ou outro disparo alcanava certa altura e a bola de chumbo quente passava zunindo por sobre o telhado das casas localizadas mais prximas ao valado. No ia muito alm disso. O efeito era mais de ordem moral do que blico e s logrou sucesso aps os primeiros rugidos. Em poucos minutos, percebendo que a anunciada arma mortfera fazia mais zoada do que estragos, os jagunos comearam a se divertir com a balbrdia. X, maldita!, gritavam eles, entre gargalhadas, a cada novo disparo que voava sobre a cabea deles. 231. O canho de Emlio S se revelara um espalhafatoso malogro. Dias antes, logo que a Guarda Cvica chegou ao Cariri, fora feito o primeiro disparo de teste, com plvora seca, ainda nas ruas do Crato. O resultado havia sido o mais desastroso possvel. O coice provocado pelo disparo fez o canho praticamente desintegrar a carroa de madeira no qual estava assentado. Ao mesmo tempo, subira uma imensa fumaceira. Quando a fumaa baixou, constatou-se que a fora do baque havia feito o canho virar ao contrrio. A boca de bronze estava apontando para o lado oposto. Muitos soldados interpretaram aquilo como um sinal: Deus talvez quisesse mostrar que quem atacava o Padim Cio acabava sendo vtima do prprio veneno. O canho foi tirado de sobre os destroos da carroa e providenciou-se para ele um estrado com rodas de ferro, antes de ser mandado para a frente de combate. O major Ladislau estava consciente de que, com aquela geringona, no iria conseguir atingir as torres da capela do Juazeiro. No mximo, a barulheira infernal iria assombrar a jagunada do padre Ccero. Portanto, era exatamente essa a inteno dos disparos que estavam sendo feitos contra as trincheiras, naquela investida a partir do stio Macacos, a poucos metros de distncia do valado. Em 21 de janeiro de 1914, uma quarta-feira, aps pouco mais de uma semana de cerco, Ladislau resolvera contrariar a resoluo oficial de prolongar o bloqueio e ordenou o ataque com uma coluna avanada. Seu contingente estava reforado pela Guarda Cvica, por dezenas de cabras cedidos por coronis rabelistas e por cerca de vinte sentenciados da Justia, que se encontravam presos na cadeia do Crato mas foram postos em liberdade em troca do engajamento no conflito. Do outro lado da trincheira, Floro ordenou que ningum revidasse. Fizessem silncio. Deixassem os soldados esgotarem ao mximo a munio. Os policiais estranharam a ausncia de revide e comearam a desfechar pesadas cargas de fuzil contra o valado. Novamente, ningum respondeu. Ao anoitecer, Ladislau deu ordem de cessar fogo. Estava intrigado pela completa falta de reao. Mandou erguer acampamento e foi se regalar com uma garrafa de cachaa que havia trazido no alforje. Dormiriam ali mesmo, em pleno teatro de guerra, para fazerem uma investida no terreno inimigo na manh seguinte. Mas no houve manh seguinte. Na madrugada, os jagunos de Floro Bartolomeu escalaram a trincheira, ultrapassaram o fosso, esgueiraram-se pelo solo e, protegidos por trs de pedras e de um espesso bambuzal, deram bom-dia aos homens de Ladislau em 22 de janeiro, quinta-feira, com tiros quase queima-roupa. A debandada foi geral. A tropa recuou como pde, trocando tiros e arrastando o canho que passara a ser um fardo intil, mas cujo simbolismo recomendava no deix-lo cair na mo do inimigo. De quando em vez, ouvia-se o brado: Viva Franco Rabelo! Os soldados se aproximavam desordenadamente, julgando que reforos estavam chegando. Mas eram novamente surpreendidos pelos jagunos e romeiros, que na verdade os atraam para ciladas e depois urravam o verdadeiro grito de guerra: Viva o Padim Cio! Seguia-se a saraivada de balas. Nem mesmo quando conseguiam livrar-se temporariamente do contra-ataque e se acantonavam em algum lugar prximo, os homens de 232. Ladislau tinham algum instante de sossego. Encurralados, assistiam terrificados s chuvas de objetos estranhos que caam sobre o acampamento improvisado. Eram contas de rosrio, pedaos de chifres de animais e lascas de vela derretida lanados em disparos de bacamarte sobre eles. Segura isso, soldado do Co!, gritavam os jagunos. Toma, macaco do Rabelo!, ouvia-se. Aquilo assustava mais do que o barulho do tiro. Os soldados ficavam apavorados com a mandinga e fugiam para o fundo do mato. s 11 da manh, um ainda ressacado major Ladislau conseguiu reunir a tropa ou o que restara dela e logo depois ordenou a retirada em direo cidade de Barbalha. Os oficiais quiseram saber se ele no se enganara, se a ordem no seria dirigir a coluna de volta para o Crato. Ladislau gritava que no, com os olhos vermelhos e esbugalhados. O destino era mesmo Barbalha. No iriam prosseguir o cerco. Estavam batendo em retirada definitiva. Era chegada a hora do salve-se quem puder. Em Barbalha, o major subiu numa calada mais elevada e falou aos homens que o haviam acompanhado: Camaradas, triste confessar; mas o padre Ccero ganhou a guerra. Ao ouvirem aquelas palavras da boca do comandante, os soldados comearam a despir as fardas e as empilharam no cho. Ladislau deu-lhes um ltimo conselho: Deus grande, o padre Ccero maior. Mas o mato maior ainda do que os dois juntos. Cada um cuide de si e ganhe o matagal. Um dia depois, 23 de janeiro, sexta-feira, Floro Bartolomeu pegou Ccero pelo brao e o conduziu at a janela. L fora, os jagunos, beatos, cabras e cangaceiros vitoriosos se ajoelharam em reverncia ao sacerdote. Vinham pedir-lhe a bno, antes de partir para a misso que o doutor encomendara. Floro decidira que no ficariam mais na defensiva, esperando que o governo estadual arranjasse meios de enviar uma terceira expedio de guerra. No cometeriam o mesmo erro de Antnio Conselheiro. No se deixariam sitiar novamente, no mais sofreriam com a falta de comida. O Juazeiro partiria para a ofensiva. Estava decidido. Iriam atacar o Crato. Ccero fez o sinal da cruz: O Crato minha terra, meu torro natal. S permito um combate como esse para tanger de l os meus inimigos, de uma vez por todas. Eles querem cortar minha cabea, acabar com os romeiros e destruir o Juazeiro, esta terra santa de Nossa Senhora das Dores. Bem frente dos homens que escutavam Ccero, destacava-se um negro retinto, cigarro de palha boca. Era Z Pedro, o comandante nomeado por Floro para liderar a primeira das trs colunas no planejado assalto ao Crato, composta de 250 jagunos. O padre conhecia bem a fama daquele indivduo, tido como um dos cangaceiros mais atrevidos de todo o Cariri. Certa vez, em meio a uma arruaa, um policial ousou dar-lhe voz de priso. Ao ouvir o clssico teje preso, Z Pedro desferiu um bofeto no militar e se viu cercado de outros quinze praas. No se rendeu. Puxou o punhal de trs palmos da cintura e, com ele, riscou uma 233. circunferncia no cho, em torno de si. Quem pisar nesta risca morre!, avisou. Todos recuaram. Mas, naquele exato momento, ajoelhado que estava janela do padre, Z Pedro parecia um beato. Pusera o rifle e o punhal do lado para beijar o rosrio. Ccero tambm reconheceu no grupo o caboclo Manoel de Chiquinha, um homenzarro alto e corpulento, vestido at com certo aprumo, o chapu Napoleo Bonaparte, enfeitado no alto com uma rosa vermelha. Era um dos capangas do antigo bando do paraibano Augusto Santa Cruz que passara a morar no Juazeiro. Trazia a tiracolo um bornal cheio de balas, enquanto na cintura a pistola da marca Colt fazia companhia ao punhal com cabo de prata e ouro. Floro nomeara Manoel de Chiquinha tambm como um dos comandantes do ataque ao Crato. Era ele quem ficaria responsvel pela segunda coluna, frente de outros 250 homens. A terceira coluna, enfim, seria liderada por Z Terto, jaguno clebre, um dos mais destemidos durante a refrega contra as tropas do major Ladislau. Terto lideraria tambm 250 combatentes. Juntas, portanto, as trs colunas somariam 750 homens. Era o suficiente, explicou Floro a Ccero. O restante ia ficar na retaguarda, protegendo o Juazeiro. Z Pedro seguiria na frente com seu pessoal, para disparar alguns tiros iniciais e medir o poder de fogo do adversrio. Previa-se alguma resistncia, pois as informaes davam conta de que cerca de cem cabras fiis aos lderes rabelistas ainda faziam a guarda da cidade, aps o completo desarranjo das foras estaduais. Para completar a ofensiva de Z Pedro, se fosse preciso, Manoel de Chiquinha e Z Terto atacariam pelos flancos, aniquilando o inimigo. Estavam prontos para partir. S faltava a bno do padre. Ccero fez novamente o sinal da cruz, rezou uma ave-maria e recomendou: Vo. No bebam cachaa, para no fazerem besteira. No atirem toa, pois todos sabem que no dispomos de muita munio. Chegando na entrada da rua do Crato, no queiram penetrar logo na cidade, demorem um pouco, dando tempo para as famlias se retirarem. Deixem fugir tambm os soldados que no quiserem guerrear. No persigam, de maneira nenhuma, os fugitivos. Deixem livres os caminhos do seminrio e da casa de caridade. No importunem quem quiser se refugiar l dentro. Os jagunos balanavam a cabea em sinal de afirmao, para dizer que estavam entendendo o recado. Mas ergueram os rifles, para serem abenoados. Para eles, aquela era uma guerra santa. Ccero prosseguiu: Respeitem a casa do vigrio Quintino e qualquer pessoa que v se esconder nela. No destruam as residncias e muito menos matem pessoas que no estejam em combate. No tirem o alheio. Deixem em paz aquilo que no de vocs. Se tiverem com fome e encontrarem comida, podem comer. Mas no roubem. Quem rouba no se salva. Floro considerava ridcula aquela ltima sugesto. Estavam em uma guerra, repetia. Quem o inimigo poupa nas mos lhe morre, acreditava o doutor. Mas, afinal, deixou Ccero concluir o sermo: Sigam meus conselhos. Vo com Deus, confiantes nas oraes dos que ficaro aqui rezando pelo nosso xito e pela nossa vitria. Podem ir. Vo. Mas vo com Deus e a Virgem Maria! Sob o comando de Z Pedro, Z Terto e Manoel de Chiquinha, aqueles 750 homens seguiram em fileiras para a estrada, com armas ao ombro. Quando todos j haviam partido, 234. Ccero fechou as janelas de casa e, em seguida, trancou-se no quarto. Queria ficar sozinho, avisou. O padre parecia transtornado. A beata Mocinha contaria depois que olhou pelo buraco da fechadura para se certificar de que o padrinho estava bem. Viu ento a cena que jamais esqueceria. Ccero, desassossegado, empunhava o crucifixo em direo ao Crato, traando com ele largos gestos, como se desenhasse vrias cruzes no ar. 235. 7 Uma guerra santa tinge de sangue o cho sertanejo: Por meu Padim, vou int pro Inferno 1914 O Z Pedro doido!, grunhiu Floro Bartolomeu, enquanto andava de um lado para o outro na sala de Ccero. O lder cangaceiro desobedecera s ordens do doutor. Em vez de medir primeiro as foras do adversrio e faz-lo gastar munio sozinho, Z Pedro j chegara ao Crato atirando. Invadiu as ruas do subrbio e seguiu em direo ao centro da cidade, abrindo caminho bala. Poucas horas depois, o afoito Z Pedro j estava pedindo reforos. Era preciso que as colunas auxiliares comandadas por Manoel de Chiquinha e Z Terto entrassem em ao antes do momento previsto. Agora melhor rezar, padre, dizia Floro a Ccero, quando os primeiros baleados comearam a chegar, deitados em redes de dormir, suspensas por varas, nos ombros de carregadores. A resistncia mostrou-se renhida. O Crato estava guarnecido por apenas sessenta homens, contados os poucos soldados que no haviam desertado com o major Ladislau e a cabroeira emprestada pelos coronis locais. Mas todos estavam bem protegidos, empoleirados nas janelas superiores dos sobrados da cidade. Do alto, tinham uma viso privilegiada dos invasores. Atiravam tambm do meio da rua, por trs de sacas de algodo que lhes serviam de barricada. Enquanto o apoio no chegava, Z Pedro tentava avanar pouco a pouco. Arrombava casas, esgueirava-se de uma residncia para outra, conquistava cada palmo de territrio na unha, esquina aps esquina, rua aps rua. Os moradores, ao som dos primeiros tiros, haviam deixado tudo para trs, de forma atabalhoada. Ningum atirou neles, conforme recomendara o padre. O maior desafio para Z Pedro era reabastecer a cartucheira de seus comandados para seguir na investida. Quando j estavam quase sem poder de fogo, receberam a ajuda providencial de um morador do Crato, simpatizante de Ccero e amigo do coronel Antnio Luiz. O comerciante Amrico de Oliveira havia adquirido ilegalmente um carregamento de 5 mil balas junto aos soldados do major Ladislau, em troca de vrios litros de cachaa. Em pleno ataque, Amrico colocou toda aquela proviso em poder dos homens de Z Pedro, que ganharam flego novo na batalha. Seguiu-se ento um dia inteiro de fogo cruzado. Somente ao anoitecer daquela sexta-feira, 23 de janeiro, houve um cessar-fogo temporrio, interrompido de quando em vez pelo 236. estampido de algum tiro perdido no meio da noite ou pelo resfolegar de uma insolente sanfona, levada para a linha de frente por um dos guerreiros de Z Pedro. Na crnica oral da guerra, h vrias menes ao annimo sanfoneiro que abraava o fole e arriscava alguns versos para assustar o inimigo e, ao mesmo tempo, para manter elevado o moral dos camaradas: O Juazeiro todo o ano bota sombra pros amigos, mas bota tambm espinhos pra ferir os inimigos... Quando amanheceu o sbado, j com os reforos de Z Terto e Manoel de Chiquinha a postos para a luta, Z Pedro constatou que parcela considervel dos adversrios havia abandonado a posio e deixado desprotegida a zona central do Crato. Com o sinal de um tiro para o alto, o cangaceiro ordenou o ataque. Um dos primeiros prdios a serem invadidos foi o da cadeia pblica. As grades foram quebradas e os prisioneiros libertados. Um dos encarcerados, barba fechada, cabeleira suja crescida at o ombro e cheia de piolhos, exigiu: Me d um rifle! Diante da negativa de Z Pedro, o homem repetiu, rangendo os dentes: Com todos os diabos, me d um rifle, seno eu tomo um de vocs. S ento Z Pedro reconheceu o interlocutor. Era o cangaceiro Z Pinheiro, um facnora que se jactava de ser o cabra mais ruim do mundo, a Besta-Fera em carne e osso: Eu, me danando, troco tiro at com Nosso Senhor, blasfemava Z Pinheiro. Quando Z Pedro enfim reconheceu o velho camarada por trs da barba desgrenhada de prisioneiro, deu-lhe um abrao apertado e entregou-lhe o rifle que pedia. Tinha certeza de que Z Pinheiro faria bom uso da arma, juntando-se a eles em nome do Padim Cio. Nem precisou falar duas vezes. Naquele instante, o exrcito sertanejo de Floro Bartolomeu ganhava mais um intrpido comandante. Por volta das dez da manh, a ltima trincheira cratense sucumbiu ao ataque simultneo de Z Pedro, Manoel de Chiquinha, Z Terto e a partir de ento Z Pinheiro. Excitados pela vitria, os cangaceiros romperam as portas das principais lojas da cidade e iniciaram um saque generalizado ao comrcio. De incio, a pilhagem resumiu-se aos gneros alimentcios feijo, farinha, arroz, milho, carne, rapadura , itens que escasseavam na mesa dos juazeirenses desde o cerco feito pelas tropas do major Ladislau. Mas o fato de o Crato se encontrar entregue ao deus-dar, sem policiamento e sem autoridades, abriu espao para a ttica da terra arrasada. Milhares de sacas de gros, alm de centenas de cabeas de gado, foram transportados de uma cidade para outra. Residncias particulares tambm foram invadidas e inteiramente depredadas. Uma multido de aproveitadores ocasionais invadiu a cidade. Pelas ruas, viam-se populares carregando vestidos finos, prataria, porcelana importada e at mesmo mveis de luxo e objetos de decorao. Lojas de tecidos e armarinhos foram igualmente roubados. Os cratenses assistiam a tudo estarrecidos. Apesar dos inteis protestos de Ccero, a diviso do butim era feita com a aquiescncia de Floro Bartolomeu, que dizia ser absolutamente natural que os despojos de uma guerra passassem s mos do vencedor. Vou mandar tocar fogo em tudo aquilo que no conseguirem levar para o Juazeiro, 237. avisou. Se Ccero no aprovava os saques, tambm no conseguia evit-los. Segundo o testemunho histrico do mestre Pelsio Macedo, reconduzido por Floro ao cargo de telegrafista do Juazeiro, o sacerdote ficou constrangido ao receber mensagens de congratulaes de vrios aliados polticos pelo triunfo arrasador contra o Crato. Exilado no Rio de Janeiro, o ex-presidente Nogueira Accioly foi um dos primeiros a cumprimentar Ccero pelo sucesso e pelo esforo patritico de comear a libertar o Cear. Enquanto isso, os atos de vandalismo continuavam. Muito do que no foi furtado seria destrudo. Utenslios domsticos eram queimados ou estraalhados a pauladas. Apenas imagens de santos e oratrios particulares foram poupados. Uma das poucas casas do Crato a serem preservadas foi o sobrado do coronel Antnio Luiz Alves Pequeno. O prprio coronel consentiu que Z Pedro entrasse l, com a devida orientao para que pusesse abaixo a parede de um dos quartos do andar trreo. Havia ali, revelou o coronel, um compartimento secreto. Por trs dos tijolos, ocultava-se um depsito de armas, que Antnio Luiz conservava emparedadas desde os tempos de suas contendas polticas com o coronel Belm de Figueiredo, a quem dez anos antes derrubara do poder na cidade. A parede falsa foi demolida e, com isso, cerca de mais duzentos rifles e outros 20 mil cartuchos foram incorporados s foras do Juazeiro. Depois de quase reduzir o Crato a runas, Floro ordenou que Z Pedro, Z Terto, Z Pinheiro e Manoel de Chiquinha seguissem com seus homens para Barbalha, para onde haviam recuado as tropas de Ladislau aps a segunda ofensiva frustrada contra o Juazeiro. Era preciso garantir que a polcia no se reorganizasse com vistas a um possvel terceiro ataque. Todavia, quando a jagunada chegou quele municpio, no dia 27 de janeiro, tera-feira, encontrou um cenrio de cidade-fantasma. Aps a debandada dos soldados de Ladislau, a populao havia fugido, levando consigo apenas a roupa do corpo. Longe dali, milhares de barbalhenses perambulavam em grupos pela estrada, rumo ao Iguatu. Mes apavoradas levavam os filhos menores ao colo. Os homens, sem meios de reagir, seguiram o mesmo caminho. Nenhuma viva alma ficara para enfrentar os invasores. Barbalha foi devastada. Os saques que ocorreram no Crato se repetiram ali com idntica ferocidade. Lojas e residncias foram arrombadas a machadadas e novos comboios de gneros alimentcios mas tambm de mveis, roupas e tecidos seguiram em direo ao Juazeiro. Na delegacia da cidade, havia ficado apenas uma testemunha solitria e silenciosa da fuga: o canho de bronze, deixado pelos soldados enterrado na areia, na v esperana de que no fosse descoberto. A camuflagem improvisada no funcionou. A terra revolvida denunciou o artifcio. O canho logo foi desenterrado e levado em festa para o Juazeiro. Entregue a Floro Bartolomeu, a pea de artilharia foi parar no fundo do quintal da casa de Ccero, como trofu particular de guerra. Eu sou neutro, a favor do padre Ccero. A frase, atribuda pela imprensa carioca ao presidente da Repblica, Hermes da Fonseca, ilustrava bem a situao. O Exrcito brasileiro dispunha de 1500 soldados na guarnio 238. federal de Fortaleza, mas todo esse contingente permanecia imvel, em eterno estado de prontido, enquanto uma violenta guerra civil campeava no sul do estado. Por mais de uma vez, Franco Rabelo solicitara apoio aos calas vermelhas como eram chamados os soldados do Exrcito, por causa do caracterstico fardamento da poca. Mas os requerimentos do governo estadual iam parar na cesta de lixo do ento ministro do Interior, Herculano de Freitas, que alegava a impossibilidade constitucional de o Exrcito ficar submetido s ordens de um governo estadual. O Cear ainda vai ficar conhecido como as runas de Herculano, tripudiou a revista Careta. Se j ficara subentendido que o Palcio do Catete havia tomado o partido do Juazeiro, logo viria a confirmao explcita de que Franco Rabelo era considerado carta fora do baralho pelas autoridades federais. Sob pretextos burocrticos, todo e qualquer armamento que chegava pelo Porto de Fortaleza com destino polcia local era confiscado pela alfndega, por ordens expressas do ministro da Fazenda, Rivadvia Correia. Depois disso, a nica alternativa que restava a Rabelo para garantir alguma sobrevida no poder era recorrer ao contrabando de armas, utilizando rotas clandestinas nas fronteiras com o Rio Grande do Norte e Pernambuco. Ao mesmo tempo, Rabelo colocou suas ltimas esperanas nas mos do capito Jos da Penha Alves de Sousa, um cala vermelha que ousou no se submeter ordem federal de permanecer alheio ao conflito. Jota da Penha, como era mais conhecido, fora um dos propagandistas mais entusiasmados da candidatura militarista do marechal Hermes da Fonseca ao Catete. Por esse motivo, estava revoltado com a inrcia do governo federal em relao ao levante do Juazeiro. Sem demora, o capito respondeu ao apelo de Franco Rabelo para alistar voluntrios em Fortaleza e com eles comandar uma nova Guarda Cvica. Uma centena de cidados, incluindo inspetores de quarteiro e guardas civis, atenderam ao chamado. O pequeno e despreparado contingente foi enviado em uma misso quase suicida pela estrada de ferro com destino estao terminal de Iguatu. Era exatamente para l que tambm se dirigiam os homens dispostos a matar e morrer em nome do padre Ccero. Floro Bartolomeu no havia se contentado com o saque ao Crato e a Barbalha. Mandou invadir tambm os municpios caririenses de Jardim e Misso Velha. Depois de seus homens dominarem o Cariri praticamente inteiro, ordenou que seguissem adiante. Com a polcia estadual inteiramente desarticulada, Floro arquitetou um plano ousado: enviar os jagunos, cabras e cangaceiros para Iguatu, a fim de que tomassem a estao ferroviria local e, de l, seguissem a todo o vapor em composies de passageiros e vages de carga at a capital estadual. A meta passara a ser conquistar Fortaleza. Floro Bartolomeu dizia que o Juazeiro iria enfrentar Franco Rabelo em pleno Palcio da Luz, base de mosqueto. Viajando pelos trilhos, o capito Jota da Penha e seus homens conseguiram chegar primeiro a Iguatu. Ganharam a corrida contra o relgio, mas logo desconfiaram que talvez houvessem cado em uma arapuca armada pelo governo federal. Por uma repentina resoluo do Ministrio da Viao e Obras Pblicas, a estao terminal de Iguatu foi provisoriamente desativada. Jota da Penha sups que a medida tinha como nico objetivo deixar a Guarda Cvica ilhada, sem transporte por mais de cinquenta quilmetros, em caso de precisar de apoio ou de bater em retirada pela via frrea. Naquela situao de emergncia, era preciso agir rpido. Previdente, o militar apoderou- 239. se de um trem pagador estacionado em Iguatu e transferiu seus comandados alguns quilmetros para o norte, altura da localidade de Miguel Calmon (mais tarde a cidade de Piquet Carneiro). Ali, alm de contar com uma estao ferroviria em plena atividade, Jota da Penha considerou que as condies topogrficas do terreno lhe dariam maior garantia para o combate aos rebeldes. Eles estavam a caminho, vindo a p desde o Cariri, deixando atrs de si um rastro de terror e destruio. No tardariam a chegar e estavam muito mais bem organizados do que no assalto ao Crato. Floro Bartolomeu evitou daquela vez deixar o comando sob a responsabilidade dos arrebatados chefes cangaceiros, embora Z Terto, Z Pedro, Z Pinheiro e Manoel de Chiquinha ainda compusessem a vanguarda da expedio e encabeassem batalhes prprios. Foram estabelecidas duas grandes colunas. A primeira era comandada pelo doutor paraibano Jos de Borba, que se tornara homem da mais irrestrita confiana de Floro. A segunda, por Pedro Silvino de Alencar, chefe poltico do municpio de Araripe e um dos signatrios do Pacto dos Coronis, em 1911. A dupla Borba e Silvino passou a compor o estado-maior da sedio junto a Floro Bartolomeu, que ficou no Juazeiro para cuidar da retaguarda. Uma a uma, as principais cidades com que os rebeldes depararam pelo caminho foram sendo tomadas e saqueadas. No houve dificuldades para invadir Lavras e So Mateus (futura Jucs), antes de se apoderarem da prpria Iguatu, em 14 de fevereiro, onde o saque a um nico armazm rendeu a pilhagem de 300 mil rapaduras, suprimento considerado fundamental na rao de guerra dos jagunos. Entupiram-se os bornais com a iguaria sertaneja, mas Jos de Borba e Pedro Silvino ficaram decepcionados ao saber do recuo ttico que a Guarda Cvica fizera para Miguel Calmon, pois pretendiam liquidar a fatura o mais rpido possvel. Em cada uma das localidades dominadas, os invasores prendiam as autoridades constitudas, soltavam os prisioneiros das delegacias e se reabasteciam de armas e vveres. As arruaas e os quebra-quebras eram inevitveis. Em comemorao conquista de Iguatu, um grupo de cangaceiros obrigou o oficial comissionado do local a dar vivas ao Padim Cio. Caso o homem se recusasse, seria fuzilado, advertiram. Viva o padre Ccero!, esgoelou-se o sujeito, suando frio, debaixo da mira dos fuzis. A alguns quilmetros dali, no Juazeiro, o anncio de cada nova vitria na guerra santa fazia o povo entoar hinos em louvor Virgem Maria. Ccero passara a fazer duas pregaes dirias, uma pela manh, outra no finalzinho da tarde, sempre rogando a proteo de Nossa Senhora das Dores para os muitos filhos e inmeros pais de famlia que haviam partido para o campo de batalha. Que a Me de Deus olhasse por eles, pedia o padre. Entretanto, quando vieram informaes da ocorrncia de brutalidades semelhantes s registradas no Crato e em Barbalha, Ccero resolveu intervir. Chamou mestre Pelsio e ditou-lhe o seguinte telegrama: Jos Terto e mais chefes de turmas Informado atos insubordinao e desordens em Iguatu. Peo no faam isso absolutamente. Obedeam coronel Silvino e doutor Borba, que os sabero guiar para o bem. No pratiquem aes que Deus reprova. Minha bno a todos. Padre Ccero 240. O sacerdote pedia disciplina, mas ao mesmo tempo sabia que precisava incentivar os sediciosos a seguir em frente. Na vspera do confronto final com o coronel Jota da Penha, ao receber avisos de que alguns jagunos estavam abandonando a ao por dar o triunfo como garantido, Ccero tornou a recorrer aos servios do telegrafista Pelsio: Jos Terto Animem e tratem bem a todos, de modo que cada um se persuada agir causa prpria. Lembrem que o quanto fizerem nesta boa inteno de trabalharem para Deus e a Santssima Virgem sero por eles recompensados. Ainda est em perigo questo que vocs defendem. Porm, se no enfraquecerem, a vitria certa. Concordem sempre com Pedro Silvino. Abenoo a todos. Padre Ccero * * * O capito Jota da Penha esperava que os comandados de Jos de Borba e Pedro Silvino chegassem pelo leito da estrada de ferro, o caminho mais bvio para atingir Miguel Calmon a partir do sul do estado. Por isso, mandou perfilar duas patrulhas a distncia, uma de cada lado da via frrea, para deixar o inimigo espremido entre o fogo duplo. Mas, no alvorecer de 21 de fevereiro, um sbado, Jota da Penha foi surpreendido com um ataque em enxurrada pela retaguarda, desferido pelo bando avanado de Z Terto. A Guarda Cvica resistiu. Estava fortalecida por alguns soldados que abandonaram a farda em Barbalha, mas que haviam decidido retornar luta pelo respeito que inspirava o novo comandante. Estamos sendo atacados e oferecendo toda a resistncia, viva a Repblica!, mandara informar Jota da Penha a Franco Rabelo, em mensagem expedida de seu quartel-general improvisado na cidade, a alguns poucos quilmetros das posies de combate. Minutos depois de expedir o comunicado oficial a Fortaleza, Jota da Penha seguiu a cavalo, acompanhado apenas do ordenana, para examinar as trincheiras e informar-se melhor sobre o estado geral da tropa. Porm, ao cair da noite, ainda no retornara daquela visita de inspeo. No dia seguinte, continuava desaparecido. Imaginou-se que talvez estivesse perdido no meio da caatinga. Durante toda a manh de domingo, ele no respondeu ao toque de comandante em chefe, repetido vrias vezes pelo oficial corneteiro. Um grupo de buscas foi enviado ento sua procura, mas no caminho a patrulha s encontrou vrios jagunos baleados, que agonizavam no campo de batalha. Eram os feridos dos embates da vspera. Moribundos, sem poder de reao, todos foram executados com disparos de fuzil na base do crnio pelos batedores da Guarda Cvica, a pretexto de tiro de misericrdia. Somente horas mais tarde o corpo de Jota da Penha foi descoberto em uma vala natural do terreno, prximo aos trilhos da estrada de ferro. Estava de barriga para baixo, alvejado com dois balaos, um na cabea e outro altura do ventre, ambos aparentemente disparados a pequena distncia. O cadver fora despojado da aliana e do crucifixo de ouro que o capito sempre levava pendurado ao pescoo. Atribuiu-se a morte de Jota da Penha a Z Pinheiro, o cangaceiro que Z Pedro libertara da priso quando da invaso ao Crato. Era ele quem exibia vaidosamente aos companheiros a carteira de identidade militar do capito, para atestar que os adversrios estavam a partir de ento sem voz de comando. 241. Naquele mesmo dia, a bancada cearense no Senado e na Cmara Federal receberia um telegrama de Floro Bartolomeu, informando a morte de Jota da Penha: para lamentar que um oficial do Exrcito tenha perdido a vida ingloriamente a servio de uma causa infeliz, dirigida por um grupo de bandidos que infelicitam o Cear, escreveu Floro aos parlamentares. Era 22 de fevereiro de 1914, domingo de Carnaval. A notcia do falecimento de Jota da Penha provocou o cancelamento de todos os bailes e entrudos em Fortaleza. Os cinemas foram fechados e a cidade inteira trocou as mscaras carnavalescas pelo luto. Todos sabiam que nada mais deteria a marcha das colunas comandadas por Jos de Borba e Pedro Silvino at a capital do estado. De fato, derrotada a ltima resistncia legalista em Miguel Calmon, assaltada a estao ferroviria local, os jagunos e beatos do Juazeiro passaram a contar com caminho livre at Fortaleza. Borba e Silvino abarrotaram dezenas de vages com seus combatentes e seguiram rumo ao litoral. As autoridades dos municpios que estavam na rota dos rebeldes telegrafavam pedidos desesperados de socorro ao governo do estado, que nada mais podia fazer diante da insuficincia de armas e homens. Espalhou-se imediatamente o pnico por todo o territrio do Cear. A ofensiva final foi avassaladora. A cidade de Senador Pompeu, a 275 quilmetros de Fortaleza, caiu em 25 de fevereiro. Quixeramobim, distante 206 quilmetros da capital, foi invadida em 27 de fevereiro. Quixad, a 158 quilmetros, em 1o de maro. Baturit, a apenas 93 quilmetros, seis dias depois. Todas foram obrigadas a pagar o que Floro chamava, com eufemismo, de imposto de guerra. No atirem toa e de festejo, como alguns gostam de fazer, recomendaria Ccero aos lderes, por telegrama. Eu, por meu Padim, vou int pro Inferno, quanto mais pro sumitrio, que lug sagrado. A frase foi ouvida pelo jornalista, historiador e folclorista cearense Leonardo Mota, o Leota, sada da boca de um jaguno durante a invaso a Quixad. Movido pela oportunidade rara de entrevistar um daqueles homens de quem se contavam histrias terrveis, Leota resolveu se aproximar. O jornalista criou coragem e sacou do bolso o lpis e o bloquinho de anotaes. A conversa que se seguiu seria reproduzida em um dos muitos livros de Leonardo Mota, Cantadores, publicado no Rio de Janeiro pela antiga Livraria Castilho, em 1921. O reprter fez questo de respeitar a caracterstica prosdia do entrevistado: Voc lembra como e por que comeou esta guerra? Meu Deus! Isto no comeou isturdia? Cumo que eu no havia de me alembr? Vaminc no sabe que o Rabelo inticava com meu Padim Pade Cio e s vivia de pux arenga com ns no Juazeiro, querendo prend, faz e acontec? Ns que fumo agredido no princpio. [...] Quantos homens esto em armas? E eu sei!? gente como quiz! Ningum conta no. Anda tudo de magote... J vi diz que mais seu Curuno (Pedro Silvino) e seu Dout (Jos de Borba) tamos aqui mais de dois mil. Mas bastava a metade. Muita gente aqui s veio pro via de roubaes. Aqui hai romeiro e hai rombeiro... Eu, quando me alembro o que meu Padim recomendou e vejo certo desprepsito, s me reina na natureza me larg pro Juazeiro... Ento o padre Ccero lhes deu conselho e pediu que no saqueassem? 242. E anto?! Deu, nh sim. Cansei de ver ele diz que quem bebe cachaa raposa doida, que se respeitasse fama e no se bulisse no alio. Mas aqui tem gente que s qu mesmo disgra os possudo dos rabelista. Mas o doutor Borba e o coronel Silvino no podem conter esses que assim procedem desatendendo s recomendaes do padre Ccero? L o qu! Pra essa gente s mermo o dout Fuloro, que homem de pouco consio. Cabra pro lado dele ou procede ou leva o diabo. Aquilo sim que home resolvido! E como foi que o padre Ccero juntou tanta gente? E foi ele que ajuntou o qu! Tudo isso foi se oferec, dizendo que queria d com o Rabelo dentro da gua do m... , seu moo, meu Padim, pra defend ele, tem gente que s pomba em bando! [...] No dia 5 de maro de 1914, o senador Rui Barbosa subiu tribuna para pronunciar um dos discursos mais indignados de sua carreira parlamentar. Rui, um homenzinho minsculo e raqutico, tinha o poder de elevar-se diante de seus pares sempre que pedia a palavra em plenrio. Naquela sesso, entre outros assuntos urgentes, ele queria se solidarizar com os 28 oficiais da guarnio do Exrcito no Cear, que haviam remetido ao Rio de Janeiro um telegrama de protesto contra as ordens federais de no sarem dos quartis para dar combate horda assassina de jagunos que estava s portas de Fortaleza. A mensagem dos oficiais cearenses havia sido enviada originalmente ao Clube Militar, instituio tradicional, porta-voz do pensamento das mais altas patentes das Foras Armadas brasileiras. O Clube marcara uma reunio extraordinria na noite do dia anterior para deliberar sobre o assunto, mas ela simplesmente no pudera acontecer. Alguns membros da entidade, partidrios de Pinheiro Machado, tumultuaram o ambiente e a sesso foi cancelada. Os pinheiristas temiam que um voto de repdio da instituio ao Catete provocasse uma crise institucional e militar, especialmente quando o presidente Hermes da Fonseca estava sendo alvo de farpas dirias da imprensa carioca, que denunciava o apelo velado do governo federal e de Machado aos malfeitores sertanejos capitaneados pelo padre Ccero. Naquela mesma noite, o marechal Hermes reuniu o ministrio e resolveu decretar o estado de stio no Rio de Janeiro. Submeteu os jornais censura e ordenou o toque de recolher nas ruas. Qualquer reunio com mais de duas pessoas passava a ser considerada subverso. Os que insistissem seriam recolhidos priso. Rui Barbosa, na tribuna, definiu o decreto presidencial como um verdadeiro latrocnio noturno, mais covarde, insidioso e malfazejo do que os da crnica policial. Nove dias depois, com a opinio pblica subjugada, vrios jornalistas presos e oficiais reclusos carceragem dos quartis fluminenses, Hermes estendeu o estado de stio ao Cear. Era o primeiro passo para a deposio de Franco Rabelo e a oficializao da vitria dos rebeldes do Juazeiro. Enquanto isso, as entradas e sadas de Fortaleza j estavam integralmente tomadas pelos homens de Jos de Borba e Pedro Silvino, que haviam invadido as localidades de Maranguape, Messejana, Maracana e Caucaia, todas vizinhas capital cearense, submetendo a cidade a um completo bloqueio por terra. Em caso de fuga, portanto, s restava aos partidrios de Franco Rabelo a sada pelo mar. Mas at essa alternativa logo tambm seria inviabilizada por ordens do governo federal, que enviou dois navios da Marinha de Guerra os torpedeiros Barroso e Tupi para patrulhar as praias cearenses. Fortaleza estava 243. cercada. De um lado, por jagunos e cangaceiros. De outro, por canhes navais. Com o intuito de enquadrar a guarnio do Exrcito sediada no estado, Hermes da Fonseca despachou tambm para o Cear um novo comandante, o coronel Fernando Setembrino de Carvalho, gacho como Pinheiro Machado e chefe de gabinete do ministro da Guerra, Vespasiano Gonalves de Albuquerque e Silva. Apreensivos com aquela escalada de tenses, os diretores da Associao Comercial de Fortaleza dirigiram um ofcio ao coronel Setembrino, indagando se ele daria garantias de segurana cidade no caso de um ataque dos jagunos do padre Ccero. A resposta de Setembrino s serviu para aumentar ainda mais a aflio coletiva: Se vier a travar-se alguma ao nas ruas desta capital entre as foras beligerantes, muito difcil ser se no quase impossvel tornar efetivas quaisquer garantias, pois a ao federal neste momento crtico a faria assumir o papel de um terceiro combatente, envolvendo-se em uma luta qual ela deve ser estranha. Setembrino assumira o papel de Pncio Pilatos. Lavara as mos. No foi preciso que Floro ordenasse a invaso de Fortaleza. Ccero recebeu a notcia como um lenitivo: no dia 14 de maro, finalmente o governo federal decretou a interveno no Cear e determinou a exonerao de Franco Rabelo. O coronel Setembrino de Carvalho foi nomeado interventor e logo em seguida seria promovido a general. J de posse das prerrogativas do cargo, quatro dias depois enviou um telegrama ao Juazeiro, endereado nominalmente ao padre. Setembrino colocava um trem expresso disposio de Ccero, com escolta de honra do Exrcito, para que o sacerdote viajasse at Fortaleza, a fim de ser recebido no Palcio da Luz na condio de lder da revoluo vitoriosa. Ccero, a pouco mais de uma semana de seu aniversrio de setenta anos, considerou o convite uma deferncia e um presente antecipado. Mas alegou os incmodos da idade para declinar do chamamento. Setembrino afirmou compreender as razes do padre, mas lhe pediu um favor: ordenasse a retirada e o desarmamento imediato de todos os homens que haviam sido enviados pelo Juazeiro ao campo de batalha. Conto com o alto prestgio de Vossa Excelncia para levar a cabo essa obra sem grandes dificuldades, mandou dizer o interventor. Auxiliarei facilitando transporte na estrada de ferro, pois qualquer demora nesse mister poder trazer grandes dificuldades ao do governo federal para a pacificao do Cear, completou. Na verdade, tais dificuldades j estavam postas. Sob a alegao de que queriam ver o mar pela primeira vez, grupos de jagunos e cangaceiros haviam penetrado em Fortaleza e protagonizado distrbios em vrios bairros da cidade. Fortaleza parece com o Crato. Mas o povo mais medroso, diria Z Pinheiro, ao relatar mais tarde suas impresses sobre a capital cearense. Havia motivos concretos a justificar o medo. Armados de revlveres e punhais, os jagunos ameaavam assaltar as casas dos partidrios de Franco Rabelo, o governante deposto, que aps a interveno foi embarcado em um dos torpedeiros da Marinha ancorados na cidade. Para acalmar os nimos daqueles homens que no aceitavam a ideia de chegar a Fortaleza sem poder repetir os saques anteriores ocorridos no serto, costurou-se um acordo 244. de convenincia entre o coronel Setembrino e o estado-maior das foras juazeirenses. A soluo escandalizou os fortalezenses: acertou-se que um contingente de 450 jagunos, escolhidos a dedo por Floro Bartolomeu, passaria a fazer parte oficialmente da Fora Pblica do Cear. O coronel Pedro Silvino, lder de uma das duas colunas rebeldes, foi nomeado comandante do Segundo Batalho da polcia estadual, formado exclusivamente pelos sediciosos incorporados Fora Pblica. A ideia era disciplin-los. Porm, fardados e investidos do poder de polcia, os jagunos se tornaram ainda mais destemidos. Desfilavam pela capital em grupos armados, vestidos com o uniforme de brim azul, no qual pregavam medalhas com a efgie de Ccero altura do peito. Fizeram do mercado pblico da cidade o seu parque de diverses. Comiam e bebiam sem pagar, cantavam, davam tiros para cima e distribuam bordoadas aos civis, sendo registradas pela imprensa da poca inclusive agresses fsicas a mulheres e crianas. noite, promoviam algazarras tambm no quartel, gritando seguidos vivas ao padre Ccero e a Floro Bartolomeu. De modo algum admitiam submeter-se hierarquia inerente a qualquer corporao policial. Os choques entre os novos soldados e a guarnio do Exrcito tornaram-se igualmente sistemticos: S obedecemos a Deus e ao Padim Cio, diziam em coro, quando advertidos pelos calas vermelhas ou repreendidos por oficiais superiores. Comunicado do pandemnio que sucedia em Fortaleza, Ccero enviou um telegrama a Pedro Silvino: Peo-vos que em meu nome chameis os homens ordem e obedincia, fazendo-lhes ver que devem obedecer aos seus superiores, cumprir suas ordens e confiar neles, bem como preciso evitar desgostos e atritos com as foras do Exrcito, o qual nosso bom amigo e no inimigo, ponderou o padre. Este telegrama que deveis ler perante o pessoal uma ordem que exijo seja cumprida sem nenhuma observao, determinou Ccero. Das janelas do palcio episcopal, dom Joaquim Jos Vieira se horrorizava ao ver a cidade de Fortaleza policiada pelos jagunos enviados do Juazeiro. Meses antes, dom Joaquim havia renunciado compulsoriamente ao bispado, por atingir a idade de 75 anos, passando ento o comando da diocese ao bispo auxiliar, dom Manoel da Silva Gomes. Mesmo aposentado das funes, Joaquim decidira permanecer em Fortaleza, onde pretendia viver os ltimos anos de vida. Mas a vitria da sedio o fez mudar de opinio. No dia 19 de abril, conduzido ao cais por dom Manoel e pelo general Setembrino, o ex-bispo estava to desgostoso que nem ao menos se voltou para acenar aos fiis que foram assistir-lhe a partida. O Correio Eclesistico, jornal oficial da diocese, registrou a cena: Ao divisar a multido que o aguardava, dom Joaquim desprendeu-se de dom Manuel e do general Setembrino de Carvalho, que lhe amparavam os passos trpegos e, levando as mos aos olhos, repetia entre soluos: No quero ver ningum.... Foi a ltima vez que pisou em Fortaleza. Morreria trs anos depois, em Campinas, So Paulo. Dom Joaquim no estava mais no Cear para testemunhar, cinco dias aps seu embarque, a reconduo de Ccero ao cargo de prefeito de Juazeiro, nomeado pelo interventor Setembrino de Carvalho. Dali a cerca de um ms, o estado de stio seria suspenso. Em 13 de 245. maio, realizaram-se eleies estaduais e, sob a grita geral dos rabelistas, que denunciaram uma srie de fraudes nas urnas, o general Setembrino passou o governo do Cear ao candidato eleito, Benjamin Liberato Barroso, coronel do Exrcito, nome imposto pelo Palcio do Catete e que assumia com a tarefa expressa de dividir os despojos da guerra. De incio, a partilha se anunciava bastante favorvel ao Juazeiro. Floro Bartolomeu, que havia se autoproclamado lder da Assembleia dissidente, foi confirmado presidente do Legislativo estadual e viajou at Fortaleza para receber o diploma de deputado. Ccero, sem precisar arredar o p do Cariri, foi eleito para o cargo de primeiro vice-presidente do Cear. Contudo, o presidente da Repblica, Hermes da Fonseca, assim como sua eminncia parda, Pinheiro Machado, havia decidido no entregar o Cear de mo beijada a Ccero e Floro. O Catete no se mostrava disposto a admitir qualquer espcie de dvida de gratido para com eles. Os jagunos, romeiros e cangaceiros haviam sido teis para derrubar Franco Rabelo, mas o governo federal entendia que a nova ordem precisava ser estabelecida com elementos mais confiveis e civilizados. A prpria nomeao de um oficial do Exrcito como Benjamim Barroso funcionara como um antdoto contra o ressentimento dos quartis e, ao mesmo tempo, como um afago nas camadas mdias urbanas de Fortaleza. Assim, as lideranas marretas da cidade, compostas de profissionais liberais e comerciantes antirrabelistas, abocanharam o melhor quinho no reparte de cargos. Quando as primeiras nomeaes comearam a ser assinadas pela caneta clere de Benjamim Barroso, Ccero no conseguiu impor nenhum nome de peso para a mquina administrativa do novo governo. Floro, cabreiro, farejou o cheiro de traio no ar: Os meus amigos, galgando o poder, atiraram-me s urtigas, lamentaria. Como se no bastasse, uma das primeiras medidas de Benjamim Barroso foi a dissoluo do corpo de polcia formado pelos ex-combatentes do Juazeiro. Surpreendido pela deciso, o coronel Pedro Silvino no teve tempo sequer para espernear: foi demitido do cargo de comandante da Fora Pblica por meio de um simples telefonema do Palcio da Luz. Por trs do ato, havia o temor de que a jagunada, devidamente orientada por Floro Bartolomeu, articulasse um movimento para depor Barroso e, por conseguinte, conduzisse o primeiro vice, Ccero Romo Batista, presidncia do Cear. Para demarcar posio e demonstrar de uma vez por todas quem realmente mandava na nova situao, Benjamim Barroso decidiu vetar um projeto de lei aprovado na Assembleia Legislativa, de autoria do deputado Floro Bartolomeu, que previa a indenizao de quatrocentos contos de ris a serem pagos ao prprio Floro, a ttulo de ressarcimento das despesas pessoais feitas por ele na luta armada contra Franco Rabelo. Fiz tudo sozinho. No recebi do governo federal um real sequer, um cartucho, uma espingarda, um caroo de chumbo, queixou-se Floro em discurso na Assembleia. Alm de se contentar com as migalhas que caam do banquete oficial, Ccero logo precisou deparar com um problema de ainda mais difcil soluo. Com a autoestima nas alturas e julgando-se invencveis, as levas de ex-combatentes retornaram ao agreste exibindo redobrada selvageria. As armas que haviam servido sedio passaram a ser utilizadas para a prtica dos crimes mais atrozes. As patrulhas revolucionrias haviam se esfacelado, desandado em bandos de salteadores, que passaram a fazer novamente do cangao o seu ofcio. O banditismo tornara-se irrefrevel. 246. Ccero, o primeiro vice-presidente do Cear, estava sendo acusado de entregar o serto inteiro sanha dos cangaceiros. Ao longo da sedio, o novo bispo cearense, dom Manoel da Silva Gomes, sentira-se na obrigao de deixar a Nunciatura, em Petrpolis, a par de todos os acontecimentos. Permita Vossa Excelncia que venha expor-lhe, como representante da Santa S, os fatos gravssimos que se tm dado no Cear, tendo como protagonista o padre Ccero Romo Batista, fatos que, embora polticos, tm ligao imediata com a religio, pois so efeitos do fanatismo, escreveu dom Manuel ao nncio apostlico no Brasil, dom Giuseppe Aversa. O fanatismo foi empregado pelo padre Ccero para fazer uma revoluo poltica que tem devastado o Cear, causando males incalculveis, prosseguiu. Lisonjeado pelo poderio que lhe tem dado o fanatismo, ligou-se a polticos ambiciosos da oposio ao governo do estado, e deu ordem a seus romeiros para que fizessem a revoluo. Sem ele, sem sua nefasta influncia sobre a grande multido de fanticos, nada disso que agora lastimamos teria sucedido, porque os outros chefes da revolta no poderiam levantar seno pouca gente, e nunca teriam ousado o que tm feito. Quando a carta de dom Manuel chegou a Petrpolis, a sedio j era vitoriosa. O nncio, ao ler as notcias a respeito do Cear nos jornais cariocas, apressou-se em enviar uma correspondncia oficial Santa S, endereada diretamente ao ento secretrio de Estado do Vaticano, o cardeal Rafael Mara Jos Pedro Francisco Borja Domingo Gerardo de la Santsima Trinidad Merry del Val y Zulueta, um jesuta de origem anglo-espanhola, filho de famlia nobre e cuja influncia sob o papa era to dilatada quanto seu prprio nome. Brao direito de Pio X, o cardeal Merry del Val foi notificado de que a revoluo sertaneja havia terminado e que Ccero Romo Batista havia chegado oficialmente ao poder. O padre Ccero conseguiu eleger-se primeiro vice-presidente do estado. Este fato aumenta sua influncia em meio s turbas ignorantes, supersticiosas e fanticas, leu o secretrio de Estado do Vaticano na carta enviada pelo nncio no Brasil. A recomendao da Nunciatura para o caso era uma s: Meu parecer que o Santo Ofcio deveria voltar a ocupar-se de novo do padre Ccero e precisamente da segunda fase de sua conduta, sugeria dom Giuseppe ao Vaticano. Em outras palavras, j que Ccero continuava suspenso das ordens, restava-lhe a ameaa concreta de uma punio ainda mais radical e definitiva: a excomunho. 247. 8 Cangaceiro tempera cachaa com os beios do inimigo morto. O que falta para o fim do mundo? 1914-1916 Ccero chegou correndo, mas no a tempo de impedir a tragdia. Ao se aproximar, j avistou o corpo de Chico Pinheiro, vulgo Sinhozinho, irmo do cangaceiro Z Pinheiro, estatelado no cho. Debaixo da sombra de um cajueiro, o homem gemia e sangrava aos borbotes, o buraco de bala aberto no peito. Sinhozinho levara a pior na trombada com Quintino Feitosa, um dos combatentes que defenderam o valado durante o primeiro ataque a Juazeiro. Pela bravura que demonstrara na retaguarda da sedio, Feitosa fora nomeado delegado da cidade pelo prefeito Ccero Romo Batista, o que provocara a ciumeira dos irmos Pinheiro, de quem era desafeto. Naquele dia, aps entornar goela abaixo um litro inteiro de cachaa, Sinhozinho seguira trocando as pernas at a casa do delegado Feitosa, na inteno de desacat-lo, o rifle na mo. Sinhozinho, v-se embora. Voc ou est bbado ou est doido, advertiu Feitosa, ao dizer que no queria briga com algum naquele grau de carraspana. V chamar seu irmo e seus amigos e venha com eles, desafiou. Eu nasci foi s!, retrucou Sinhozinho, dando uma tragada no cachimbo e puxando o gatilho ao mesmo tempo. Estava to bbado que errou o alvo, apesar da encurtada distncia. No teve tempo de puxar a alavanca do rifle e rearm-lo para o segundo tiro. Feitosa foi mais rpido. Deu um pulo de banda, sacou tambm do rifle e desfechou uma carga fatal contra o adversrio, que caiu para trs, atingido queima-roupa. Ccero chegara logo depois disso. Amparado no longo cajado, ajoelhou-se aos ps do moribundo, na inteno de encomendar-lhe a alma: Francisco, arrependa-se dos seus pecados e perdoe os seus inimigos, disse o padre, tratando Sinhozinho pelo nome de batismo, enquanto o homem agonizava, o sangue saindo pela boca, pintando de vermelho os dentes muito amarelos. Tambm avisado do incidente, Z Pinheiro chegara ali quase ao mesmo instante. Comovido, correu para abraar o irmo, que acabara de fechar os olhos pela ltima vez. Quando viu que Sinhozinho estava morto, o cangaceiro soltou um grito de clera, levou a mo ao punhal e partiu alucinado na direo de outro sujeito que se encontrava ali perto. Foi contido pelo grito desafiador de Feitosa: Quem matou seu irmo no foi ele; fui eu, disse o delegado, batendo a mo no peito, o cano do rifle ainda quente. 248. Ccero previu nova desgraa. Cala a boca, Feitosa!, berrou o padre, enquanto segurava o brao de Z Pinheiro, que chorava de raiva e desespero pela morte do mano. S mesmo a interveno de Ccero conseguiu barrar os passos do cangaceiro, que saiu dali aos gritos, jurando vingana. No liquidava o delegado naquela mesma hora por respeito ao Padim Cio, advertiu. Mas jurou, beijando os dedos em cruz, que aquilo no ficaria assim, daquele modo, de graa. Feitosa no perdia por esperar, ameaou. Enquanto o sacerdote tentava arrastar Z Pinheiro para longe da cena, o restante do bando tomava posio de ataque, cercando a casa de Feitosa, apenas espera de que Ccero desse as costas para comear a agir. Pressentindo a desforra que se anunciava imediata, o padre deu meia-volta. Caminhou sobre os prprios passos e logo encontrou um dos comparsas de Pinheiro escondido em uma depresso do terreno, o rifle nas mos, fazendo pontaria para a porta da casa do delegado. Mas o que isso?, indagou Ccero, com ar severo. Ai, meu Padim, vosminc sabe, o Feitosa matou o Sinhozinho..., desculpou-se o cangaceiro, meio encabulado, pego em flagrante pelo padre. V para casa, homem de Deus. V rezar o rosrio, v se entregar a Nossa Senhora, no obedea a Satans, repreendeu Ccero. Um pouco mais adiante, estava outro cangaceiro recarregando a arma, a carantonha meio encoberta pelo tronco de uma rvore. Ccero foi at l e repetiu a dose: V-se embora, cabra atrevido, seno eu mesmo lhe quebro a cabea com este cacete, disse ele, brandindo o cajado. No muito distante, via-se mais um. Z Pedro, at voc?, reprovou o padre, enxotando aquele que fora um dos mais temidos comandantes da sedio, ameaando dar-lhe uma boa bordoada de cajado no lombo. Em vista daquilo, de cabea baixa, todos os outros capangas de Z Pinheiro se afastaram, partindo em direo ao centro da cidade. Quem mata o seu prximo no v nunca a face de Deus, avisou Ccero, para depois sair sozinho no rumo de casa, fazendo o sinal da cruz, rezando a ave-maria. Ccero Romo Batista sabia que, naquele serto onde nascera, crescera e fizera a sua fama de conselheiro e taumaturgo, a vingana era quase um cdigo sagrado. Para os sertanejos, deixar a morte de um parente impune, especialmente a de um irmo, era algo comparvel pior espcie de infmia. Denotava covardia, pusilanimidade, frouxido de carter. Numa terra em que prevalecia o culto coragem e a louvao honra pessoal, o sangue familiar se lavava obrigatoriamente com sangue. Por isso, Ccero j esperava pelo pior e o pior, com efeito, no demorou a vir. Apenas uma hora depois de o corpo de Sinhozinho baixar sepultura, mandaram avisar ao padre que Z Pinheiro voltara ao local do confronto e cercara a casa de Feitosa, dessa vez com um nmero bem maior de homens, entre os quais se encontravam dois dos guerrilheiros que mais haviam se distinguido nas trincheiras da sedio: Z Terto e Z Pedro. O tiroteio comeara feio e Feitosa resistia bravamente, auxiliado por cerca de dezoito cabras armados at os dentes. Antes do ataque residncia do delegado, Z Pinheiro ordenara tambm o 249. assalto ao prdio da coletoria do Juazeiro, cujo chefe de expediente era cunhado de Feitosa. L, haviam deixado tudo aos pandarecos. Queimaram os livros oficiais, destruram as prateleiras, rasgaram as pginas dos arquivos e arrombaram o cofre a marteladas, levando embora o dinheiro dos impostos. O saque a uma repartio pblica representava uma afronta ao poder municipal, que tinha em Ccero, prefeito do Juazeiro, o maior representante. Mas, naquela tarde, nem mesmo o padre arriscou colocar sua autoridade de poltico e de sacerdote prova. Durante as treze horas seguintes de fogo cruzado entre o grupo de Z Pinheiro e os defensores de Feitosa, Ccero conservou-se a uma cautelosa distncia do conflito. No havia como dialogar com cangaceiros no calor de plena refrega, sem se expor ao risco de uma traioeira bala perdida. No entanto, o padre se mantinha informado de cada passo do episdio, sendo inclusive avisado de que a mulher de Feitosa, com um beb de apenas um ms de idade ao colo, tambm estava dentro da casa que era atacada sem piedade por Pinheiro. Os cangaceiros, por seu turno, estavam impressionados com a resistncia de Feitosa. Comentou-se entre eles que, para aguentar assim tantas horas de fogo cerrado sem ser atingido, s mesmo aquele homem tendo o corpo fechado. Talvez fosse mesmo verdade, imaginaram eles, a histria que tanto se contava a respeito do delegado: a de que um dia ele havia aberto a carne do prprio peito a navalha e, depois, inserido dentro do corpo uma hstia consagrada. Se aquilo fosse fato, deduziram os agressores, s havia uma forma de quebrar o encanto e conseguir acertar Feitosa, de acordo com o que ensinava a mandinga cangaceira: atirar nele de cima da torre de uma igreja. Havia uma minscula ermida ali ao lado, erguida por um dos beatos seguidores do padre Ccero. Era pequenininha, nem capela era, mas bem que podia servir para tal expediente. Foi no telhado dela que Z Terto subiu e de l fez a mira, exatamente na hora em que o delegado tentava fugir em direo ao terreiro pela porta dos fundos, acompanhado da esposa, que levava o filho pequeno nos braos. O balao disparado por Z Terto atingiu Feitosa bem no meio das costas, abrindo um rombo de sangue por baixo da camisa. O homem, de braos abertos, j caiu morto no cho. A esposa, para salvar o filho inocente, correu para o meio do mato, enquanto os companheiros do delegado davam cobertura para a fuga, esgotando os ltimos cartuchos que lhes restavam. Minutos depois, Ccero ouviu um barulho no quintal. Era a mulher de Feitosa, que pulava o muro da casa do padre, agarrada desesperadamente ao filho, em busca de proteo. O padre naturalmente a acolheu, enquanto deplorava a morte do delegado e mandava as beatas acenderem velas, para clarear o caminho da alma do infeliz at o Paraso. Sabedor do esprito sanguinrio de Z Pinheiro, logo depois Ccero saiu para a rua em passo atropelado, com o objetivo de impedir que o cadver fosse profanado pelos cangaceiros. Ao chegar ao local da contenda, Ccero no conteve o asco. Encontrou Pinheiro sentado sobre a barriga do defunto, rasgando-lhe o peito a punhaladas, como quem se prepara para desossar a carcaa de um boi abatido no matadouro. O corpo fora arrastado por uma das pernas, de dentro da casa, at a sombra do mesmo cajueiro onde morrera Sinhozinho. L, estava sendo reduzido a frangalhos. A viso era repugnante: Z Pinheiro cortara com o punhal o lbio superior de Feitosa para arrancar-lhe o bigode, que depois mergulhou numa garrafa de cachaa. 250. para temperar a bebida, justificou, em meio a uma gargalhada sinistra. Na face do cadver, havia uma ferida sanguinolenta. O cangaceiro arrancara pouco antes uma das bochechas de Feitosa a dentadas. Ccero ficou ainda mais escandalizado quando viu Z Pinheiro tentar abrir com uma peixeira a boca do falecido, com a inteno de arrancar-lhe a lngua fora. Segundo dizia, para com-la mais tarde como tira-gosto. Foi impedido ltima hora pelo padre, que amaldioou tamanha selvageria. O mundo est mesmo para se acabar, diria Ccero, ao relembrar o fato, dias depois, ao amigo Xavier de Oliveira, que se encarregaria de reconstituir todos os detalhes daquela histria funesta em seu Beatos e cangaceiros, publicado em 1920. Imagine s, um antropfago em pleno sculo XX, um Satans vivo, em carne e osso, andar aqui na terra, entre os homens..., horrorizava-se o sacerdote. Para Ccero, Z Pinheiro no era apenas o cabra mais ruim do mundo, como at modestamente apregoava: Ele o demnio mais ruim de todo o Inferno, definia o padre. O fato de Z Pinheiro continuar solto mesmo aps aquele brbaro crime deu margem para que os adversrios contumazes do Juazeiro redobrassem as crticas. De fato, a nica providncia tomada pela polcia local foi recolher o corpo esfrangalhado de Feitosa delegacia. No Juazeiro do padre Ccero era assim, acusaram os inimigos do sacerdote. Um cidado era cruelmente assassinado e quem ia preso era o defunto, acusaram. * * * As muitas violncias no serto repercutiam no plenrio da Assembleia Legislativa, em Fortaleza. Na sesso de 24 de julho de 1914, o deputado Floro Bartolomeu subiu tribuna para defender o Juazeiro das acusaes generalizadas de ter se convertido em um viveiro de facnoras. Aproveitou a ocasio para defender a alegada lisura de seu projeto de lei, vetado por Benjamim Barroso, que previa o ressarcimento dos quatrocentos contos de ris, para si mesmo, em nome das despesas de guerra: Sa da sedio como entrei, de mos limpas e unhas aparadas, alegou Floro. Foi uma sesso tumultuada. O PRC local rachara-se ao meio. A Assembleia, composta de trinta cadeiras, estava literalmente dividida. Os lderes fortalezenses que davam apoio parlamentar a Benjamim Barroso e que haviam loteado entre si os melhores cargos do novo governo contavam com quinze representantes na Casa. Os aliados de Floro, entre os quais despontavam alguns aciolistas histricos e outros representantes das velhas oligarquias rurais, estavam em idntico nmero: somavam quinze deputados. Tal circunstncia gerava impasses incontornveis. Nada mais se aprovava na Assembleia, pois nenhuma das faces conseguia obter a maioria absoluta para fazer valer seus pleitos. Os atritos se sucediam diariamente, a cada sesso legislativa. Mas nada igual, nem de longe, ao que ocorreu naquela manh, quando a voz de Floro Bartolomeu foi cortada por tiros vindos das galerias. Atirem mesmo nessa canalha!, gritou um deputado rival, apontando para os partidrios de Floro. De sbito, um dos populares pulou para dentro do plenrio e tentou acertar o doutor com um disparo de revlver. Milagrosamente, a bala no atingiu o alvo. Ningum mais se entendeu dali por diante. Cadeiras foram quebradas para que os braos servissem de arma e os 251. encostos de escudo. Bengaladas foram desferidas no ar, enquanto o taquigrafista tentava tomar nota do que Floro, de forma surpreendente, continuava a bradar na tribuna: Eu s temo a desgraa antes de v-la! Diante dela, como se ela no existisse! Tenho por hbito no procur-la, mas no costumo recuar quando ela me surpreende!, gritava, desafiando os oponentes, ainda em plena pancadaria. Uma hora depois, quando a guarda da Casa enfim conseguiu recompor a ordem em plenrio e evacuar as galerias, Floro prosseguiu com a palavra: Senhores, eu poderei cair agora mesmo neste recinto, vtima das muitas balas dos meus adversrios covardes, mas o pblico h de dizer que aqui morreu um homem de honra!, exclamou. Continuarei com a mesma dignidade, a mesma energia a escalpelar os cadveres morais que vejo aqui, diante de mim! Floro Bartolomeu estava indignado com o rumo dos acontecimentos polticos aps a vitria da sedio. Era cada vez mais evidente que a parcela urbana do PRC havia orquestrado um movimento para alijar o doutor baiano de qualquer participao na vida administrativa estadual. Duas semanas aps o incidente em plenrio, Floro decidiu recorrer a uma instncia partidria superior. Sugeriu que Ccero telegrafasse um ofcio confidencial a Pinheiro Machado. O padre, preocupado, concordou: Forado pelas circunstncias, resolvi levar a seu conhecimento a expresso de meu profundo desgosto pelo que ocorre no seio de nosso partido. Aps os ingentes sacrifcios feitos pelo restabelecimento da ordem no estado, jamais supus haver quem to depressa pretendesse destruir tudo o quanto construmos, lastimou Ccero na mensagem, provavelmente ditada por Floro, letra por letra. No Rio de Janeiro, ao receber a correspondncia, Pinheiro Machado sentiu-se no direito de ler nela apenas o que bem quis. Ignorou completamente o apelo que o padre fazia em nome de Floro e passou a considerar a hiptese de empregar o discurso pacificador de Ccero a favor de seus propsitos polticos. Se conseguisse consolidar a figura do sacerdote como principal interlocutor regional do partido, Pinheiro Machado neutralizaria as aes de Floro Bartolomeu e Nogueira Accioly, nomes que no interessavam mais ao morro da Graa manter como aliados privilegiados aps a derrocada de Franco Rabelo. Com um nico lance de mo, Pinheiro Machado pretendia ficar de bem com o sacerdote, dono de inegvel capital eleitoral na regio, e reduzir as ambies de Floro e Accioly a seu devido lugar: lugar nenhum. Foi exatamente com tal inteno que o presidente nacional do PRC enviou telegrama a Ccero, entoando um canto de sereia que falava de paz e harmonia partidria. O estilo era repolhudo: Padre Ccero, continuo apreensivo com os fatos que vo ocorrendo nesse estado, conducentes a nulificarem nossos esforos a bem do apaziguamento das paixes de ordem pessoal, que visam inutilizar os ingentes sacrifcios feitos para o restabelecimento da ordem no Cear. Depois de alguns prolegmenos do gnero, Pinheiro Machado foi ao ponto que, de fato, lhe interessava: criticou duramente a atitude de Floro Bartolomeu, que, pouco antes, com a autoridade de presidente da Assembleia, anulara a eleio de um par de suplentes convocados a ocupar duas vagas abertas, uma pela morte de um parlamentar, outra pela nomeao de um deputado para um cargo no Executivo estadual. Como ambos os suplentes eram ligados faco rival que com tal reforo numrico alcanaria automaticamente a maioria na Casa , Floro simplesmente mandou rasgar as atas eleitorais. Pinheiro Machado 252. protestou, na mensagem a Ccero: Este lamentvel procedimento, abrupta e inesperadamente praticado, torna ainda mais difcil o xito da nossa interveno para chamarmos razo aqueles que to asperamente se hostilizam, esquecidos dos seus deveres para com o Cear e a Repblica. Ccero, pelo visto, mordeu a isca. Telegrafou no mesmo dia para a penso Bitu, onde o deputado Floro se hospedava em Fortaleza, e replicou candidamente os argumentos de Pinheiro Machado: Doutor Floro. Telegramas urgentes do excelentssimo general Pinheiro Machado informam-me do que ocorre a. intil dizer ainda mais uma vez que lastimo essas divergncias, quais pem em iminente risco o quanto fizemos com sacrifcios ingentssimos, arremedou o padre. Apelo para seu reconhecido patriotismo e me ponho a seu dispor para em harmonia com o general Pinheiro Machado procurarmos uma soluo honrosa que concilie os interesses divergentes e liguem os elementos dispersos. Aguardo sua resposta. Saudaes, Padre Ccero. Floro Bartolomeu soltou fumaa pelas orelhas. Em estilo seco, que mal escondia sua clera, endereou a Ccero um despacho telegrfico: Padre, aceite minha opinio e faa como eu acho melhor. Convena-se que da, do Juazeiro, Vossa Reverendssima nada poder conseguir, alm do risco de mais agravar a situao, contraps Floro. A seguir, vinha uma ameaa: Peo no apartar-se de minha orientao e caso queira ou entenda se apartar dela, por motivo de qualquer outra ordem, seja-me franco para que eu me desprenda desta questo, tomando atitude que me convier, no mais me preocupando que nossos adversrios faam o que desejam fazer, especialmente a no Juazeiro. Ao final, vociferava: Creio que Vossa Reverendssima, estando bem avisado como est, s cometer erros polticos se quiser. Aquele telegrama provocou graves temores em Ccero. A possibilidade de vir a perder a amizade de Floro Bartolomeu, conforme o doutor deixara implcito na mensagem, no fazia parte nem mesmo do pior de seus pesadelos. Afinal, Floro e Ccero haviam se tornado o oposto complementar um do outro. No era toa que muitos ainda viriam a classificar o doutor como uma espcie de alter ego do sacerdote. O futuro vigrio do Juazeiro, padre Manuel Macedo, seria um dos que procurariam definir a simbiose que passara a unir, desde o incio, aqueles dois homens de naturezas aparentemente to distintas: O povo, vencido pela adorao ao padre, jazia inconsciente aos ps do doutor. Se o padre queria uma coisa que no lhe ficava bem, passava a imputabilidade ao doutor, menos escrupuloso, e o povo, sem saber distinguir mais um do outro, obedecia a este, como se fosse quele. Ccero recuou. Escreveu para Floro uma carta que era, sobretudo, um cuidadoso pedido de desculpas: Voc quem sabe o que faz, porque est no meio dos acontecimentos, admitiu o padre. Seja bem prudente e sagaz, vencendo as tempestades do gnio. Pea a Deus que lhe guie e me represente, fazendo as coisas com sabedoria, dignidade e boa razo. A amizade me faz ter plena confiana em voc, ressaltou Ccero, para depois sugerir: Tenha cautela contra venenos, dinamites, tiro, qualquer maldade contra sua vida, que tem gente para tudo. 253. Entre os adversrios, havia at quem insinuasse uma ligao quase platnica, inconfessada, entre Ccero e Floro. A vida de celibatrio do doutor mulherengo, que pelo menos de pblico jamais mantivera um relacionamento afetivo mais duradouro com ningum, atiava ainda mais a lngua alheia. Maledicncias parte, alm da amizade extremada, o fato que Ccero no podia mais prescindir da voz tonitruante de Floro para defend-lo nas tribunas parlamentares e, tambm, jornalsticas. Principalmente naquele momento em que as denncias contra o banditismo no Cariri estavam ecoando na imprensa carioca, cedendo novamente espao para os incansveis defensores de uma soluo final, nos mesmos termos de Canudos. Para dar satisfaes opinio pblica, no demorou muito para Benjamim Barroso requisitar tropas ao Exrcito para o Juazeiro, com o objetivo de reprimir as perturbaes da ordem naquela zona. O Ministrio da Guerra indeferiu o pedido, mas a sempre irrequieta Careta chegou a estampar um epitfio prematuro de Ccero, escrito em versos e em tom de galhofa: Epitfio clerical Aqui repousa um padre arreliado Que tinha um nome de orador romano E que fora ordenado Indubitavelmente por engano, Tal era o ardor guerreiro Que demonstrava em luta no serto, Arvorando em soldado o cangaceiro Boal e valento. Morreu sem receber os sacramentos (um balzio na pele lhe deu cabo) E a seu lado, nos ltimos momentos, Houve quem visse o diabo. O que mal comea, ruim acaba. As notcias pouco alvissareiras apanharam Ccero de roldo. A me, dona Quin, que enfrentara os ltimos anos de vida cega e paraltica, morreu prostrada em uma cama no dia 4 de agosto de 1914, seis meses aps o falecimento de Maria de Arajo. Menos de trs meses decorridos da morte de dona Quin, em 20 de outubro, um novo golpe iria fazer o padre permanecer imerso em profunda depresso. Por intercesso da Nunciatura no Brasil, o papa Bento XV, que iniciara seu pontificado em setembro daquele ano, assinou o documento que autorizava a fundao de uma diocese do Crato. Desse modo, o Vaticano jogava por terra, em definitivo, as pretenses de Ccero de ver o Juazeiro servir de sede a um bispado. Documentos enviados pela Nunciatura no Brasil Santa S advertiam que a nova circunscrio eclesistica deveria comear a funcionar o mais urgente possvel, para evitar que os fatos decorrentes da sedio aprofundassem o potencial de rebeldia representado pelo padre Ccero Romo Batista. O vigrio do Crato, Quintino Rodrigues, brindado pouco antes com o ttulo de monsenhor, seria o escolhido para o cargo de bispo titular da nova prelazia. Aos 52 anos, quase trs dcadas depois de professar o chamado milagre de Juazeiro nos tempos de juventude, o 254. experimentado Quintino passava a ser o guardio oficial da doutrina catlica no Cariri. Com o objetivo de receber instrues para o pleno exerccio da funo, seguiu para Petrpolis, onde foi recebido em audincia pelo nncio apostlico, Giuseppe Aversa. Alm das recomendaes de carter genrico, foram-lhe passadas indicaes especficas de como tratar o caso do padre Ccero: Quintino deveria chamar Ccero em sua presena, no Crato, para tentar conscientiz-lo dos enormes danos que j causara Igreja, lembrando-lhe que a idade avanada deixava pouco tempo para que viesse a se arrepender dos muitos erros que supostamente havia cometido at ali. Faa-lhe ver a convenincia, a oportunidade e a necessidade de obedecer Santa S e de no pr embaraos ao governo e administrao diocesana, detalhou o nncio a Quintino. Insinue-lhe que ele est velho e que deve prover a sua prpria situao para o dia, talvez no to longnquo, em que dever comparecer diante do Juiz Supremo. Ccero arriscou uma ltima cartada para tentar impedir o que j era fato consumado. Escreveu aos parlamentares da bancada cearense no Senado e na Cmara Federal, pedindo- lhes encarecidamente que fossem em comisso at a Nunciatura em Petrpolis. Apresentem em meu nome a tese de transferncia da sede do bispado para aqui, apelou, referindo-se ao Juazeiro. Ofereo duas propriedades, uma em Cox, de valor suficiente para o patrimnio, e um terreno para um seminrio, facilitando a construo. Na esperana de que o nncio se sensibilizasse com a oferta, Ccero mandou rodear o terreno reservado ao seminrio com uma cerca de arame farpado. Pura perda de tempo. O donativo no foi sequer levado em conta por dom Giuseppe Aversa. Ccero, desconsolado, ordenou que fosse aberto um roado de milho e feijo no local. Quanto s terras do Cox includas na mesma oferta Nunciatura, o caso era ainda mais melindroso. As querelas judiciais relativas ao lugar permaneciam tramitando a passo de cgado pelos fruns e tribunais cearenses. Nada ainda fora definido a respeito da posse integral da terra. Depois de tanto tempo, a nica mudana significativa no processo era a alterao no estado civil de um dos representantes legais de Ccero, o conde Adolphe van der Brule. Adolphe enfim conquistara o corao da rf Custdia e pedira a mo da moa a Ccero. O padre sempre soubera do interesse do francs por Custdia, mas tentara demov-lo do assunto enquanto pde. Ccero alegara a enorme disparidade de condio entre os dois. Adolphe era um estrangeiro, culto, educado, formado em Paris. Custdia, uma mocinha simples, de pouca instruo, uma interiorana que nada sabia do mundo. Mas Adolphe fincara p e dissera que no se importava com tais questes. Sendo assim, manteve o pedido. Ccero convenceu-se de que o caso era srio. O conde francs estava apaixonado de verdade pela desenxabida Custdia. Pouco antes da sedio, com a devida aprovao de Ccero Romo Batista, o conde encaminhara um requerimento ao padre Quintino Rodrigues, pedindo autorizao para casar com Custdia na Igreja. A nebulosa histria pessoal de Adolphe sempre intrigara Quintino. O tal conde comensal do padre Ccero, que muito o preza. O seu casamento est sendo promovido sob segredo, o que me faz suspeitar da existncia de qualquer coisa que o determina, revelara Quintino a dom Joaquim na poca. O encarregado do padre Ccero 255. insistiu comigo para apressar o mais possvel este casamento, completou, ressabiado. Apesar das desconfianas do ento vigrio do Crato, o casamento foi realizado, sem muito clamor e quase sem festa. O que Quintino e ningum mais no Cariri sabia era que o conde s contara, para todos, a metade de sua histria. De fato, ele era nobre e realmente fora camareiro do papa, como bem assegurara a Ccero desde o primeiro encontro. S que, antes de vir ao Brasil, Adolphe j tinha famlia constituda na Europa. Anos antes, casara em Roma com Saleta Cabrero Martinez, uma donzela natural de Toledo, na Espanha, filha do embaixador espanhol na Santa S, numa cerimnia oficiada pelo prprio Leo XIII. Adolphe tivera dois filhos com Saleta: Jos Maria e Alfredo. Por razes que nunca ficaram suficientemente claras, abandonara a mulher e os filhos para se fixar para sempre no Brasil. O casamento com Custdia daria a Adolphe outros dois herdeiros. Uma menina, batizada com o nome de Joana, em homenagem a Joana Tertuliana de Jesus, a beata Mocinha; e um menino, que receberia o nome de Ccero, por motivos bvios. Por fora do destino, a pequena Joana e o pequeno Ccero van der Brule cresceriam bem distante de seus dois meios-irmos europeus mais velhos. Um deles, Alfredo van den Brule y Cabrero, viria a ser, pouco mais tarde, o poderoso alcaide de Toledo. Uma nica circunstncia, alm do fato de possurem o mesmo pai, conectaria indiretamente aquelas histrias de vida. Ccero van der Brule nascera s vsperas de uma revolta armada, a sedio do Juazeiro. O mano Alfredo van der Brule morreria em outra. Monarquista, o futuro alcaide de Toledo seria fuzilado dali a alguns anos, em 1936, durante a Guerra Civil espanhola. No dia 12 de julho de 1916, os cardeais inquisidores voltaram a se reunir para deliberar sobre o caso de Ccero. O cardeal Merry del Val, que passara a responder pela chefia do Santo Ofcio, presidiu a mesa de trabalhos. A pilha de documentos e relatrios enviados pela Nunciatura no Brasil ao Vaticano mantinha bem vvidas as censuras da Santa S a respeito do assunto. Prova disso era que os documentos oficias da congregao continuavam a definir Ccero como um fantico, um rebelde, um traficante de falsos milagres. Havia uma agravante. Ao longo dos dois anos anteriores, oito cartas enviadas do Juazeiro tinham chegado ao tribunal da Inquisio, embora elas tivessem sido endereadas originalmente ao papa. Todas eram assinadas pelo mestre Pelsio Macedo e todas pediam a reabilitao do sacerdote Ccero Romo Batista. Como os cardeais desejaram saber ao certo quem era o teimoso remetente, e se porventura ele era digno de algum crdito, o nncio no Brasil esboou o seguinte perfil pessoal do maestro, telegrafista, relojoeiro e sineiro: um desequilibrado, ligado a fio duplo com o padre Ccero. A me morreu louca. De quando em vez, tambm exibe sinais de pouca estabilidade de suas faculdades mentais. A redao das cartas que endereou ao Santo Padre no dele. A concluso a que os cardeais chegavam era a de que o prprio Ccero seria o verdadeiro autor intelectual das peties que estavam, nas palavras do nncio, insistindo em molestar o papa. Com base em todos os elementos remetidos diretamente por Petrpolis, os inquisidores no tiveram mais dvidas acerca da matria. Decidiram encaminhar um ofcio a dom Giuseppe Aversa, com as medidas extremas que deveriam ser aplicadas situao. De acordo com as informaes dessa Nunciatura Apostlica, o famigerado sacerdote Ccero 256. Romo Batista, do Juazeiro, no estado do Cear, Brasil, nunca obedeceu, como devia, aos decretos do Santo Ofcio a seu respeito dizia o prembulo do documento assinado pelo cardeal Merry del Val, na funo de grande inquisidor. No ltimo pargrafo, vinha a inevitvel sentena. O Santo Ofcio considerava que Ccero estava irreversivelmente incurso na pena mxima reservada aos desobedientes, aos apstatas, aos cismticos e aos hereges em geral: Faa-se claramente saber que a Santa S, confirmando tudo o que foi at agora estabelecido, reprova decididamente e condena a conduta de Ccero, declarando-o incorrido na excomunho, e exorta calorosamente todos os fiis a no se deixarem enganar por suas falcias e tergiversaes. Ccero era, a partir de ento, um excomungado. De acordo com o Tribunal do Santo Ofcio, isso significava que ele no estava mais em comunho com Deus. Era um condenado espiritual. Um desterrado da Igreja, execrado por desobedincia e rebeldia. Um proscrito. 257. 9 Devotos no entendem aquele novo estrupcio: o Padim mandou acabarem as romarias 1916-1920 O decreto de excomunho demoraria nove meses para chegar Nunciatura no Brasil e, depois disso, levaria mais algum tempo at ser encaminhado s autoridades do clero no Cear. As distncias martimas explicavam o atraso. Mas o fato de a Europa se encontrar assolada pelos horrores da Primeira Guerra Mundial emperrava ainda mais as comunicaes e adiou a expedio do documento. Tantas naes cheias de vida se destruindo umas s outras, obedecendo a uma fora impulsiva, sem quase saberem o que fazem nem o que querem, registraria Ccero, em suas anotaes pessoais. Sem que o padre pudesse adivinhar, a guerra postergava a aplicao da pena. Tambm desconhecedor do decreto, Quintino Rodrigues fez sua primeira visita oficial ao Juazeiro, como bispo, na antevspera do Natal daquele ano de 1916. Para surpresa de todos, ele resolvera estabelecer um canal de dilogo efetivo com Ccero. Apesar de cumprir a recomendao do nncio para chamar o padre razo, dom Quintino entendia como parte de sua misso evangelizadora frente da nova diocese promover uma poltica de distenso gradual com o Juazeiro. Nascido nos grotes de Quixeramobim, o sertanejo Quintino Rodrigues tinha uma compreenso da religiosidade popular um pouco menos severa do que a de seu preceptor, dom Joaquim Jos Vieira, a quem servira como obediente discpulo. Quintino mantinha inclusive uma conscienciosa interlocuo com o ento seminarista Manoel Correia de Macedo, o Macedinho, filho de Pelsio Macedo e aluno do Colgio Pio Latino-Americano em Roma. Em carta ao recm-nomeado bispo do Crato, Macedinho sugeriu: Suplico que Vossa Excelncia, como bom pastor, no se contente em ouvir o que outros lhe digam e relatem, mas baixando em pessoa ao meio de suas ovelhas, busque-lhes as feridas para cur-las, pois dificilmente por intermdio de outros chegar Vossa Excelncia a um conhecimento perfeito. De forma implcita, o seminarista fazia uma crtica postura anterior de dom Joaquim, que nunca se dignara a comparecer ao Juazeiro pessoalmente para averiguar de perto os polmicos acontecimentos envolvendo Maria de Arajo e Ccero. O argumento central de Macedinho, que coincidentemente passou a ser tambm o motor das aes subsequentes de dom Quintino Rodrigues, era o de que o povo do Juazeiro no podia continuar a ser deixado margem da Igreja, sem nenhuma assistncia religiosa, sem 258. vigrio e sem templo oficial. Isso s aprofundava a distncia entre a f ritualizada e as manifestaes espontneas do chamado fanatismo. O remdio para os desvios espirituais daquela gente, opinava o seminarista, no seria a cega represso, mas antes o acolhimento pastoral, a orientao criteriosa, a devida instruo da doutrina crist. No Juazeiro h fanatismo, h ignorncia, mas isso mais um motivo para que se mandem para l padres que instruam aquela gente, defendia Macedinho, que dizia ter recorrido orientao de um professor jesuta, telogo em Roma, para analisar a questo com maior propriedade. Quintino, de fato, passou a adotar um estilo exatamente oposto ao de dom Joaquim. Recebido em cortesia na casa de Ccero, logo acenou com a at ento inimaginada reconciliao. Como prova de reconhecimento, sob os costumeiros cuidados de Floro, Ccero retribuiu ofertando ao bispo um suntuoso banquete. O menu, impresso de modo caprichoso em cartes postos mesa diante de cada lugar reservado aos comensais, deixava claro que no haviam sido poupados esforos para impressionar o convidado de honra. O simples enunciado dos itens do cardpio constitua deleitosa tentao, um apelo quase irrespondvel ao pecado capital da gula. Galinha ao molho pardo, carneiro assado, fil com ervilhas, peito de galinha francesa, leito com farofa, frigideira de lagosta, fritada de pombos, peru assado, tainha ao molho, lombo carioca e at uma perdiz recheada foram servidos como pratos principais. De sobremesa, havia ao alcance da mo uma fileira de travessas abarrotadas de frutas frescas fatiadas especialmente abacaxis, bananas e mangas , alm de irresistveis doces de pssego, goiaba e pera. O vinho tambm correu farto, ao gosto de cada um, nas verses tinto, branco e ros. A ocasio merecia um discurso. Ccero havia rabiscado algumas anotaes no papel e pediu para l-las hora do brinde. Com evidente dificuldade por causa da vista enfraquecida pelos 72 anos de idade, o padre recitou a homenagem a Quintino, que saboreou cada palavra: Sinto-me plenamente satisfeito com a visita de Vossa Excelncia a esta terra, porque assim, em uma demonstrao pblica e sincera, por intermdio desta populao que me ouve, poderei eu testemunhar a Vossa Excelncia que os laos de estima que nos uniam, quando aqui chegou, como simples padre, ainda permanecem em toda sua integridade. Os aplausos que se seguiram eram para Ccero, mas tambm para dom Quintino. Em cada habitante desta cidade, mansa ovelha desse rebanho do qual o bom pastor, Vossa Excelncia tem um amigo, um sincero e dedicado auxiliar, concluiu o padre. Aps a rodada de saudaes, todos puderam enfim empunhar o garfo e se regalar vontade naquele gape histrico. Mas festana maior ainda e com certeza bem mais inesquecvel para os juazeirenses viria no dia seguinte. Depois de amargar por 24 anos a proibio de celebrar no Juazeiro, Ccero recebeu autorizao formal de dom Quintino para subir ao altar da capela de Nossa Senhora das Dores e rezar ali as missas do Natal. Em sinal de boa vontade, o impedimento que havia sido aplicado por dom Joaquim estava revogado dali por diante pelo bispo do Crato. Assim que foi posta a par da notcia, a cidade inteira saiu para as ruas, em estrondosa comemorao. Durante a celebrao litrgica natalina, enquanto os fogos de artifcio iluminavam os cus do Juazeiro, muitos choravam de alegria ao ver um paramentado Ccero Romo Batista de volta ao alto do plpito, a cabea muito branca pelos anos de degredo 259. clerical. Realmente, dom Quintino estava decidido a provocar surpresas gerais. Logo a seguir, em janeiro, decretaria a criao da freguesia do Juazeiro, elevando a capela de Nossa Senhora das Dores condio de matriz da cidade, cumprindo uma antiga aspirao dos catlicos do lugar. Como ainda estavam mantidas as proibies anteriores de batizar, casar e confessar fiis, Ccero no pde assumir o cargo de vigrio da nova parquia. Quintino escolheu para a funo um sacerdote que gozava de seu bom conceito, o padre Pedro Esmeraldo da Silva Gonalves, de quarenta anos, que fora nomeado vigrio do Crato logo aps a ascenso do mesmo Quintino ao bispado. O propsito do bispo ao transferir Pedro Esmeraldo para o Juazeiro era o de manter Ccero sob atenta vigilncia. Evitava-se assim que os votos de confiana que estavam sendo oferecidos a ele servissem de pretexto para novos problemas. Como no poderia deixar de ser, dom Quintino tinha algo a pedir em troca de tantas benesses. No dia 31 de dezembro, quando todos na cidade ainda s falavam da emoo de ver Ccero restitudo ao direito de rezar missa na igreja do Juazeiro, o bispo enviara ao padre um ofcio reservado. Nele ia contido um detalhado questionrio, que Ccero teria de responder de prprio punho e ao p do mesmo papel, com preciso e clareza, devendo faz-lo debaixo de sagrado juramento. No eram questes amenas. Mas Quintino as julgava vitais para prosseguir ou no com sua poltica de aproximao com Ccero: 1. Mantm Vossa Reverendssima na ntegra e renova a protestao que fez de inteira obedincia e mencionada submisso aos decretos e decises do Santo Ofcio [...], condenando como pretensos e falsos milagres e mpio abuso Sagrada Eucaristia os fatos ali ocorridos com Maria de Arajo? [...] 2. Teve Vossa Reverendssima conhecimento de uns artigos de defesa de tais fatos, publicados em O Rebate? [...] 3. Condena Vossa Reverendssima todo o contedo daqueles escritos desrespeitosos que envolvem clara maledicncia contra o prelado da diocese? [...] 4. Sabe Vossa Reverendssima o paradeiro dos panos ensanguentados que foram roubados da matriz do Crato, onde estavam guardados por ordem superior, [...] sendo ulteriormente encontrados na casa do falecido Jos Marrocos e de novo desapareceram? [...] 5. Est Vossa Reverendssima disposto a cumprir, como verdadeiro sacerdote catlico, todas as leis, decretos e decises da Santa Igreja, e todas as determinaes do bispo diocesano? [...] 6. Est, outrossim, disposto a cooperar positivamente para se combater qualquer manifestao, por atos ou palavras, de pessoas ignorantes e supersticiosas, contrrios aos decretos e decises do Santo Ofcio? 7. voz pblica que Vossa Reverendssima interveio positiva e eficazmente na revoluo poltica que se operou neste estado do Cear, com o seu conhecido e gravssimo cotejo de mortos, saques, roubos etc., fornecendo elementos de que dispunha e entretendo ativa correspondncia com os que tentavam a deposio do governador do estado, que por fim se realizou. Se assim foi, como explica Vossa Reverendssima esta sua cooperao (que sendo imensa) possvel de pena cannica? 8. Tem Vossa Reverendssima em seu poder, como dizem, o armamento todo ou em parte, apreendido pelas foras revolucionrias em todo o estado, e guardado, dizem ainda, para um segundo movimento poltico que porventura se torne necessrio? 9. Est Vossa Reverendssima disposto a satisfazer os compromissos que assumiu na mencionada revoluo, com algumas pessoas a quem autorizou por escrito a entregarem os vveres que tinham em suas casas, garantindo-lhes o pagamento depois da vitria? 10. Finalmente, afirma Vossa Reverendssima que em nada entravar as determinaes diocesanas e a administrao 260. paroquial nessa localidade? Ccero, como exigia o bispo, rabiscou respostas instantneas no rodap da pgina, negando todas as acusaes que recaam contra si. Disse, em primeiro lugar, que mantinha e renovava a inteira obedincia aos decretos do Santo Ofcio. Alegou, em seguida, que simplesmente no lera nenhum dos artigos publicados pelo extinto O Rebate escritos poca por Jos Marrocos em defesa dos alegados milagres. Afirmou condenar e reprovar, como pedia Quintino, o quanto existisse de maledicente em tais artigos. Jurou, com todas as letras, que ignorava completamente o paradeiro dos panos ensanguentados. Garantiu que sempre havia cumprido e que sempre cumpriria , por dever de sacerdcio, todas as leis da Igreja. Cooperaria, sim, para combater a superstio e o fanatismo, pelo menos no quanto isso estivesse a seu alcance. Negou ainda que houvesse comandado ou colaborado com a sedio do Juazeiro, embora reconhecesse que de fato orientara os que se julgaram ameaados de extermnio a defenderem a prpria vida. Repeliu, com veemncia, a informao de que tinha armas em seu poder tenho horror a revoluo e desordens, escreveu. Por fim, admitiu que pedira a duas ou trs pessoas que fornecessem sustento ao povo durante a sedio, mas somente porque haviam lhe garantido sem esclarecer quem lhe dera tal garantia que o governo federal pagaria tudo aps a vitria do movimento. Dom Quintino leu as respostas e decidiu no pr em suspeita, pelo menos inicialmente, nenhuma das negativas de Ccero, embora algumas delas contivessem passagens um tanto quanto evasivas ou pudessem mesmo vir a merecer contestaes pblicas mais tarde, como aquela em que o padre dizia desconhecer completamente o destino dos paninhos ensanguentados. Fosse como fosse, assinadas que estavam sob juramento, dom Quintino no podia se recusar a receb-las como um documento oficial. Mas, por via das dvidas, para prosseguir no projeto de distenso sem incorrer em maiores riscos, encaminhou no incio de fevereiro ao padre Pedro Esmeraldo uma consulta por escrito, indagando detalhes da conduta pblica de Ccero. O bispo do Crato queria saber se Ccero estava se comportando corretamente, o que inclua a total absteno de abenoar crdulos e supersticiosos, alm da censura verbal venda no Juazeiro das famosas medalhinhas proibidas com a imagem do padre, que apesar do interdito continuavam a inundar o serto e a servir de objeto de culto. Padre Pedro Esmeraldo, vido por se mostrar prestativo, enviou a resposta no mesmo dia. Disse considerar aquela uma situao embaraosa, mas denunciou que o colega Ccero continuava a fazer o sinal da cruz na testa de qualquer um que lhe pedia a bno e mesmo em quem no lhe pedia tambm, at nos mais supersticiosos romeiros. Do mesmo modo, delatou que Ccero insistia em fazer gestos de mo sobre objetos variados santinhos, imagens, rosrios, velas e medalhinhas que passavam a ser considerados relquias sagradas pelos respectivos portadores. Por ltimo, preveniu Esmeraldo, era bvio que havia gente lucrando com o trabalho de guiar peregrinos at a presena do padre, tudo custa, segundo o vigrio, da lamentvel ignorncia da grande maioria dos pobres fanticos. Na avaliao do vigrio, portanto, Ccero era um rebelde incorrigvel. Dom Quintino ainda matutava sobre quais providncias tomar em relao ao caso quando, em maio, recebeu uma carta em papel timbrado da Nunciatura, datada de um ms antes. O nncio dom Giuseppe Aversa finalmente participava ao bispo do Crato o teor do decreto do Santo Ofcio de julho 261. do ano anterior, no qual se declarava ter o padre Ccero Romo Batista incorrido em excomunho. Quintino ficou boquiaberto. Contudo, diante da nova situao, adotou uma atitude ainda mais inesperada do que todas as outras que j havia tomado at ali como bispo: guardou temporariamente a carta em segredo. No comunicou nada a Ccero. Ainda tinha esperanas de redimi-lo antes de precisar executar to grave sentena. O casal de romeiros, vindo do Piau, implorou a Ccero que lhes batizasse os dois filhos pequenos, adoecidos gravemente durante a viagem. O pai e a me, alarmados, tinham medo de que as crianas no resistissem ao impaludismo. Se morressem pags, seriam condenados automaticamente ao limbo, o no lugar que a religio crist afirmava ser a morada das almas que no foram remidas do pecado original pelo batismo. Ccero lamentou, mas disse que nada podia fazer a respeito, pois estava proibido de ministrar quaisquer sacramentos. Pediu que Floro examinasse os bebs e lhes receitasse algum remdio. Em seguida, puxou do bolso um rolinho de cdulas e despachou a famlia para a farmcia. Por ltimo, recomendou que fossem ao encontro do vigrio Pedro Esmeraldo, o nico na cidade com autorizao para batizar crianas. Dali a alguns dias, outro caso semelhante bateu porta de Ccero. Mais um casal de romeiros vinha lhe pedir que batizasse o filho. O menino queimava em febre e apresentava convulses. Como o pior podia se dar a qualquer instante, sem que houvesse tempo suficiente para mandar chamar o vigrio ou o mdico, Ccero decidiu ele mesmo batizar a criana, impedindo-a assim, ltima hora, de morrer pag. Estava ciente de que infligira uma determinao superior, mas disse ter agido com a conscincia tranquila. No era a primeira vez que procedia daquele modo e nem seria a ltima. No havia muito tempo, dera a uma moribunda a extrema-uno, que lhe fora negada minutos antes por padre Pedro Esmeraldo. O vigrio vira que a mulher trazia ao pescoo uma medalhinha com o rosto de Ccero e, por isso, seguira as determinaes da diocese de no ministrar sacramentos a quem portasse aquele objeto considerado sacrlego. A doente, beira da morte, foi carregada s pressas numa rede at a residncia de Ccero, que se apiedou da situao e a absolveu dos pecados, poucos instantes antes de ela vir a falecer. Segundo justificaria Ccero, ao oferecer o sacramento mulher, retirara-lhe a medalha do pescoo e a guardara no bolso, para que no restassem dvidas da lisura de seu gesto. Unicamente por sentimento de caridade crist, na hora extrema da infeliz criatura, eu a absolvi, deixaria devidamente registrado. Casos como aqueles iam parar de imediato nos ouvidos de dom Quintino, que se encontrava absolutamente dividido. Deveria relevar tais circunstncias emergenciais ou aplicar de uma vez por todas a pena de excomunho a Ccero, como, alis, seria o seu dever de representante mximo da Igreja na diocese, uma vez que fora oficialmente notificado do decreto do Santo Ofcio? Posto entre a cruz e a caldeirinha, o perseverante Quintino resolveu dar mais uma chance ao padre. Mas, em 25 de julho de 1917, escreveu-lhe para recriminar o fato de estar ministrando batismos a crianas e extremas-unes a moribundos, e principalmente para cobrar explicaes a respeito de outros assuntos graves que igualmente lhe haviam relatado. Dom Quintino dizia ter sido informado de que Ccero continuava a 262. incentivar as romarias, insistia em receber e abenoar peregrinos em casa, alm de prosseguir a benzer as tais medalhinhas proibidas. O mais grave de tudo, segundo Quintino, que chegara a seu conhecimento, por via insuspeita, como o bispo fez questo de frisar, que Ccero estava, sim, ao contrrio do que dizia, de posse dos panos ensanguentados que a Inquisio mandara expressamente destruir. Ccero, mais uma vez, negou tudo, por escrito. Peo permisso a Vossa Excelncia para afirmar que absolutamente no tenho fomentado, como nunca fomentei, as romarias ou visitas a este lugar, nem recebo os romeiros e viajantes com atenes proibidas pelos poderes competentes nem com cerimnia de bno moda episcopal, afirmou. Como sempre, tinha uma justificativa para as acusaes: Quanto vinda dos romeiros aqui, os recebo como simples amigos, dispensando-lhes to somente ateno e cordialidade. Vossa Excelncia, inteligente como e de esprito superior, poder compreender a impossibilidade de evit-los. So fatos que s podem desaparecer com a ao lenta do tempo. Quanto s medalhas, Ccero afirmava que sempre se opusera explorao praticada pelos comerciantes que as mandavam cunhar: Aqui mesmo, quando Vossa Excelncia esteve em visita pastoral, concorri com a melhor boa vontade para a apreenso das que existiam expostas venda e em poder das pessoas que as possuam. Em relao aos polmicos paninhos, Ccero foi novamente categrico: Afirmo absolutamente: no sei do paradeiro dos panos ensanguentados. Se, durante os meus dias de vida, eles chegarem ao meu poder, pode Vossa Excelncia ficar certo de que, com muita satisfao, cumprirei as determinaes da Suprema Congregao do Santo Ofcio. Os esforos do bispo para enquadrar o padre e, ao mesmo tempo, tentar reduzir o fluxo de romarias no estavam surtindo o mais leve efeito. Muitos devotos simplesmente se recusavam a receber a comunho de outros sacerdotes, inclusive dos trs religiosos lazaristas que haviam chegado naqueles dias ao Juazeiro em misso evanglica, por iniciativa de dom Quintino. Os padres Guilherme Wassem, Luis Wangestel e Jernimo de Castro ficaram desconcertados ao constatar que os peregrinos e os cristos do Juazeiro preferiam ficar sem nenhum sacramento a ter de entregar as medalhinhas proibidas ou a negar sua crena na santidade do Padim Cio. A esse respeito, dona Amlia Xavier de Oliveira, pessoa que privava do crculo ntimo da casa do padre e escreveria mais tarde um livro sobre ele, O padre Ccero que eu conheci, relataria um curto mas expressivo dilogo ocorrido entre o sacerdote e um de seus muitos visitantes: Padre Ccero, por que o senhor permite que se diga que o senhor santo? Que Deus? Sorrindo, Ccero teria respondido, tranquilamente: Meu amiguinho, eu no admito que se diga isso em minha presena; mas fique tranquilo, pois os que por a afora dizem que eu sou ruim, que eu no presto, so tantos que no d nem para equilibrar. Quintino no viu outro jeito, como derradeiro recurso, seno exigir a retratao pblica de Ccero. Com a carta do nncio a respeito da excomunho ainda guardada na gaveta, ordenou que Ccero, durante as celebraes que marcariam a presena da misso lazarista no 263. Juazeiro, fizesse uma declarao aos fiis, em linguagem clara e explcita, reprovando o procedimento daqueles que continuavam a se mostrar refratrios s determinaes da Igreja. A fim de que no houvesse nenhuma oportunidade para Ccero recorrer a subterfgios, dom Quintino mandou por escrito o texto que ele deveria passar a limpo com a prpria letra e depois pronunciar na ntegra, durante o sermo. Entre os trechos mais contundentes, Ccero teria de afirmar o seguinte: Declaro que reprovo e condeno, como as autoridades eclesisticas reprovam e condenam, as romarias e visitas que continuam a ser feitas a este lugar, em consequncia de fatos condenados. Declaro que reprovo e condeno, como foram reprovados e condenados pelos padres competentes, o uso e a conservao das medalhas de qualquer espcie que tm o meu retrato. Declaro que reprovo e condeno o absurdo e insensato procedimento daqueles que, por aferro a essa crena e a esse abuso, se privam dos sacramentos da confisso e da comunho. Declaro que no quero e no terei relaes com aqueles que, contrariando as disposies do Santo Ofcio, aqui vm em romaria, nem tambm com aqueles que no querem entregar as medalhas que possuem, e por este motivo, ou pelo fato de crena nos fatos, deixam de confessar-se. Ccero ainda tentou objetar. Escreveu a dom Quintino com o argumento de que as romarias que se faziam ao Juazeiro eram fruto da adorao a Nossa Senhora das Dores e no a ele, Ccero Romo Batista. Tambm dizia estranhar a ordem para que no mais se relacionasse com os romeiros ou com os que professassem crenas tidas como imprprias. Pelo modo que est redigido o memorando, eu ficaria absolutamente privado de comunicar- me com quem quer que fosse, quase em recluso, talvez mesmo sem poder sair rua. Como o bispo reeditava tambm a exigncia para que no mais recebesse esmolas dos romeiros, Ccero arguiu: Em tais condies, eu ficarei absolutamente privado, como sacerdote, homem pblico e particular, de receber demonstraes de amizade e gratido, quer em visitas, quer em donativos, presentes ou ofertas. Dom Quintino no abriu espao para concesses. Ou o padre Ccero Romo Batista lia o memorando de pblico ou, do contrrio, ser-lhe-ia novamente retirada a prerrogativa de rezar missa no Juazeiro. No havia outro jeito. Cumprisse a ordem. Abalado, Ccero viu-se compelido a obedecer. luz da vela, copiou o texto com sua letra e se preparou para aquele que viria a ser um dos momentos mais angustiantes de sua vida: o de ler a retratao em praa pblica. No dia marcado para a cerimnia, o bispo mandou erguer uma tribuna elevada, com quase oito metros de altura, bem em frente igreja de Nossa Senhora das Dores, para que o padre pudesse ser visto por todos, mesmo a distncia. Na noite de 30 de dezembro de 1917, p ante p, Ccero galgou com dificuldade os degraus que conduziam ao alto do palanque. Os passos do sacerdote eram lentos. Levava s mos, como o mais pesado dos fardos, a folha de papel com o texto do memorando. As testemunhas do episdio contariam depois que os missionrios lazaristas no cabiam em si de contentamento: apoiavam integralmente a medida de dom Quintino. Consideravam que o bispo acabara de escrever o ltimo captulo da histria do fanatismo no Juazeiro. 264. Ccero, com a voz embargada, leu o documento na ntegra. Amontoados na praa diante da igreja, os romeiros no conseguiam acreditar no que ouviam. O Padim Cio estava dizendo que condenava as romarias, que no os receberia mais em casa, que no os abenoaria nunca mais, que no teria mais nenhuma espcie de relao com eles. Foi uma noite de muita tristeza para todos que compreenderam a grande humilhao que amargou a alma daquele santo sacerdote, que sofrera naquela hora to grande provao, diria dona Amlia Xavier de Oliveira. O doutor Floro Bartolomeu, que fazia questo de conferir por antecipao o contedo de toda a correspondncia remetida ao pa-dre, teve a ateno chamada para o envelope com o braso da diocese do Crato que estava sobre a mesa. A data do carimbo dos correios era de dois dias antes, 29 de abril de 1920. O remetente, lia-se no verso, era dom Quintino. Curioso, Floro abriu a carta e no conteve o espanto. Quintino transcrevia linha por linha o decreto do Santo Ofcio, o mesmo que deixara permanecer no mais completo segredo durante todo aquele tempo. Muito provavelmente porque as romarias no haviam cessado aps dezesseis meses decorridos desde a data da retratao pblica do sacerdote, o bispo do Crato finalmente decidira revelar a verdade: para o Santo Ofcio, Ccero era um excomungado. Floro, nervoso, enfiou a carta no bolso e saiu procura do padre Pedro Esmeraldo. Fez ver ao vigrio a gravidade do assunto. Ccero estava acamado, tinha problemas no corao e outros achaques tpicos da velhice. Inclusive chegara a escarrar sangue em pelo menos duas ocasies nos dias anteriores. No iria resistir quela notcia, argumentou. Se Ccero soubesse que estava incurso em excomunho, iria definhar de uma vez para sempre, sucumbir tragdia, morrer de desgosto. O organismo e a alma do velho no resistiriam a tamanha contrariedade. O senhor vigrio bem podia imaginar o que viria a seguir se tal acontecesse, aludiu Floro. As beatas e os beatos, por certo, entrariam em estado de histeria. Os romeiros iriam acusar a Igreja de ter assassinado um santo. Quem conteria a multido furiosa, vendo-se rf de seu fiel conselheiro de uma hora para outra, por razo de um decreto radical como aquele? Padre Pedro Esmeraldo sentiu-se impotente para dar qualquer encaminhamento ao caso e recorreu imediatamente ao bispo. Floro seguiu-lhe os passos. Em uma audincia com dom Quintino que se estendeu por interminveis seis horas, o doutor repetiu os mesmos argumentos que enfileirara pouco antes para o vigrio do Juazeiro. Ccero no aguentaria o baque. Estava velho, decrpito, a sade prejudicada. Se viesse a morrer por causa daquela carta, a Igreja se veria em pssima situao. O melhor a fazer era dar tempo ao tempo, recomendou Floro Bartolomeu, puxando a carta do bolso e devolvendo-a s mos de Quintino. Era melhor que o bispo raciocinasse um pouco mais sobre o assunto, sugeriu o doutor. Dom Quintino Rodrigues, mais uma vez, trancafiou a carta em uma gaveta do palcio episcopal. Dali a algum tempo, em novembro daquele mesmo ano de 1920, o bispo escreveria diretamente ao papa Bento XV para tratar da questo. No arquivo da Cria do Crato, seriam encontrados mais tarde vrios esboos daquela mensagem de Quintino ao Sumo Pontfice. Os apontamentos mostrariam que ele procurara o tom exato, a frase certa, as palavras mais adequadas. Reescreveu vrios trechos, riscou outros, refez diversas vezes o incio do texto. Mexeu na ordem dos pargrafos, acrescentou anotaes margem, reforou as ideias iniciais. 265. Ao final, quando julgou ter chegado a uma verso definitiva, colocou-a no envelope, anexando o memorando que Ccero copiara com a prpria letra poca da retratao. Escreveu dom Quintino: Beatssimo Papa. Venho, prostrado aos ps de Vossa Santidade, humildemente implorar que me seja permitido expor o seguinte: o sacerdote Ccero Romo Batista sofre h tempos de leso cardaca, de acordo com atestados mdicos, confirmados pelos sintomas que nele se manifestam, donde surge o grande perigo de que ele tenha um desenlace fatal, com a publicao da referida sentena. O bispo ponderava a Bento XV que Ccero havia se retratado do alto de uma tribuna pblica, condenando explicitamente as romarias. Acrescentava que as condies religiosas da parquia do Juazeiro haviam melhorado consideravelmente aps a misso dos lazaristas, contando-se desde ento na freguesia mais de mil comunhes mensais, o que seria uma prova cabal de que a autoridade diocesana estava mantendo o controle da situao. Ao final, dom Quintino pedia textualmente que a excomunho fosse revogada e que Ccero, pelo bem da paz, fosse absolvido de todas as censuras. Em 23 de fevereiro de 1921, os cardeais inquisidores incluram mais uma vez o caso do padre brasileiro Ccero Romo Batista na pauta de sua reunio semanal. Motivados pela carta de dom Quintino ao papa, voltaram a deliberar sobre a questo. Como resultado, enviaram uma carta lacnica ao bispo do Crato, assinada pelo cardeal Merry del Val, com uma nica e concisa orientao: Absolva das censuras o mencionado sacerdote e o admita ao sacramento maneira dos leigos, permanecendo a irregularidade para exercer os sacramentos ministeriais. Em outras palavras, a excomunho fora anulada. Mas, para o Santo Ofcio, Ccero estava equiparado a qualquer outro cristo sem batina. No era mais considerado um padre propriamente dito. Podia rezar, assistir missa, pagar penitncias. Mas todas as suas ordens sacerdotais estavam abolidas para sempre. Dom Quintino Rodrigues nunca revelaria ao padre o que de fato ocorreu. Ccero Romo Batista jamais saberia que um dia fora excomungado e, posteriormente, absolvido da pena. A nica justificativa que recebera de dom Quintino para ter sido suspenso de todas as ordens, conforme a nova determinao do Vaticano, foi a de que no estaria cumprindo integralmente as clusulas estabelecidas na retratao pblica. Assim, em 4 de junho de 1921, foi entregue a ele o ofcio diocesano que o proibia de exercer qualquer atividade como sacerdote dali por diante. O documento chegou justamente quando ele acabara de retornar da igreja. Naquela manh, Ccero havia celebrado sua ltima missa na vida. Passaria suspenso o resto da vida, embora nem assim abandonasse a batina. O detalhe era que uma circunstncia ntima permaneceria do desconhecimento geral, tanto da parte de amigos quanto dos adversrios do padre. Quatro meses depois de ter sido obrigado a fazer sua retratao pblica, Ccero mandara chamar o tabelio da cidade para ditar-lhe o testamento. Numa das clusulas do documento, pedia que aps sua morte fossem rezadas doze missas em sufrgio de sua alma e de todas as almas que porventura estivessem no Purgatrio. Mas o ponto principal do testamento que fora lavrado no cartrio em abril de 1918 era o que 266. dispunha sobre o destino de seus bens: Instituo meu nico e universal herdeiro a Santa S, representada na pessoa de Sua Santidade, o Papa, sendo o meu desejo que Sua Santidade aceite esta minha disposio de ltima vontade, incorporando a universalidade de minha herana ao patrimnio da mesma Santa S. Ccero Romo Batista deixava tudo o que tinha para a Igreja que o renegara. 267. 10 Em nome do progresso, um boi sagrado condenado morte em praa pblica 1920-1926 Sangrem minha goela, mas no matem o Boi Mansinho!, gritou a beata conhecida no Juazeiro como Maria Tubiba. De nada adiantou. Com o golpe certeiro de marreta desfechado bem no meio dos chifres, o zebu tremeu todo, cambaleou para trs, soltou um urro apavorante, dobrou as pernas e caiu pesado no cho, a lngua roxa estendida para fora da boca. Estava morto. A ordem do doutor Floro Bartolomeu era a de sangrar e esquartejar o bicho ali mesmo, na calada da cadeia pblica, diante dos olhos de todo mundo, para acabar de vez com aquela histria de que o animal era milagreiro. Depois, mandassem vender a carne fresca no mercado e distribussem os midos aos pobres. O destino do Boi Mansinho era o fundo da panela, o espeto do churrasco. Isso iria pr freio maluquice do povo, calculava o doutor. O caso j tinha ido longe demais. Havia gente no serto dizendo at que a urina e as fezes do bicho, quando ingeridas ou esfregadas pelo corpo, curavam todas as doenas do mundo. O belo animal de raa, quando ainda era simples novilho, pertencera ao industrial Delmiro Gouveia, o homem mais rico do serto, construtor da primeira usina hidreltrica no rio So Francisco. Depois, Delmiro o presenteara ao padre Ccero, para que Mansinho cobrisse as vacas e melhorasse o rebanho do sacerdote. O reprodutor crescera forte e garboso, sob os cuidados do beato Jos Loureno, um negro retinto que comandava uma pequena comunidade religiosa de agricultores no stio Baixa Dantas, nas proximidades do Crato. Era para l que Ccero mandava alguns dos romeiros que chegavam todos os dias ao Cariri em busca de proteo e sustento. No Baixa Dantas, sob a liderana de Loureno, os novos moradores haviam transformado uma terra at ento improdutiva em uma generosa lavoura, na qual as sacas abarrotadas de frutas, hortalias, feijo e milho eram compartilhadas por todos, de acordo com as necessidades de cada um. Como demonstrao de carinho pelo animal que supostamente lhes trouxera bons fados e que era chamado de Mansinho pela reconhecida docilidade , os seguidores do beato davam banho e enfeitavam os chifres do zebu com fitas e guirlandas de flores silvestres, transferindo ao bicho um pouco da afeio que nutriam pelo dono, o adorado Padim Cio. Contudo, a experincia coletivista de Jos Loureno e seus discpulos, na qual no existia a mo firme de um coronel a ditar resolues, provocou estranhamento entre os vizinhos. 268. Tradicionais proprietrios de terra logo viram no stio Baixa Dantas um precedente perigoso, que precisava ser combatido antes que viesse a semear novos exemplos no serto. Por todo o sul do Cear, pipocaram denncias de que o pacfico Jos Loureno fomentava a rebelio contra a ordem estabelecida. Os seguidores do beato, diziam, no passavam de uma cambada de lunticos, uma scia de idlatras, que faziam do Boi Mansinho uma verso sertaneja e mal- ajambrada do histrico pis, o touro sagrado dos antigos egpcios. No parlamento estadual, em Fortaleza, os adversrios de Floro se deleitavam com mais aquele trunfo, acusando o doutor de ser no apenas o representante de uma terra de cangaceiros cruentos, mas tambm de comandar um feudo de loucos e degenerados uma gente que chegava a beber mijo de boi e a comer bosta de vaca, ajoelhada no cho, aos ps de um quadrpede. Floro ficou furioso. Desde algum tempo, desencadeara na cidade uma campanha em nome da modernidade e da elevao da conscincia cvica do Juazeiro. Pouco antes, mandara prender os chamados penitentes, beatos que praticavam rituais de autoflagelao na serra do Catol reunidos em singulares confrarias, nomeadas por eles prprios de Cortes Celestes. Longos cabelos, barbas de profeta, vestidos em tnicas negras enfeitadas com cruzes brancas de retalhos, os penitentes acreditavam que os lugares sagrados da Bblia haviam sido transplantados para aquela serra que, alis, Ccero nunca deixara de chamar de Horto. Nas grutas e formaes rochosas do Catol, reconheciam os cenrios msticos da velha Palestina. Um buraco circular numa pedra no cho passara a ser reverenciado como o local em que se ajoelhara Nossa Senhora durante a via-sacra de Cristo. Para os penitentes, o formato do joelho da me de Jesus teria ficado moldado na rocha como prova de que estavam pisando em plena Terra Santa. Para obter o necessrio apoio de Ccero represso das Cortes Celestes, Floro advertiu o padre: muitas das cerimnias nas encostas da serra estavam descambando para a mais completa devassido. Beatos que diziam ser a reencarnao imaculada de santos do calendrio catlico entre eles haveria at um que se intitulava o Padre Eterno estariam pregando um estranho Evangelho, completamente nus, exortando os demais aos caminhos pecaminosos do sexo, convidando as discpulas honra divina de ter filhos com eles. Naqueles dias, como a confirmar a acusao, um homem fora se queixar a Ccero de que um penitente lhe roubara a esposa, passando a morar com ela, amancebado, em uma gruta no alto do Horto. O padre, depois disso, no se ops mais aos argumentos de Floro. Apoiou, com pesar, o envio da polcia para dar cabo do que julgava ser um escrnio religio. Alguns penitentes resistiram chegada dos soldados. Armaram-se de paus, pedras e bandas de tijolo, mas acabaram vencidos, recolhidos cadeia municipal. Floro Bartolomeu mandou raspar a cabea de todos eles, alm de atear fogo nas caractersticas tnicas negras. Entre os prisioneiros, estavam os que juravam ser os prprios so Francisco das Chagas, so Miguel, so Jos e santa Maria Madalena. Havia at mesmo uma que se dizia a padroeira Nossa Senhora das Dores, em carne, osso e esprito. Para Floro, era preciso usar de pulso forte para conter novos eventos do gnero. No episdio do Boi Mansinho, a reprimenda precisava ficar altura do alarido produzido pelos adversrios. Jos Loureno e seus seguidores tambm foram presos, sob a acusao genrica de que constituam um bando de desordeiros. Programou-se a morte do touro para a calada da cadeia, luz do dia, a fim de que o beato assistisse a tudo pela janela, sem poder fazer 269. nada, debelado atrs das grades. Segundo se disse poca, Floro chegou a exigir que Jos Loureno comesse um naco da carne do animal sacrificado no meio da rua. O beato, que virara as costas para no testemunhar o abate, teria se negado. No cubculo que lhe servia de cela, Jos Loureno confortava os companheiros e a si mesmo: se o Padim Cio permitia que passassem pelo vexame da cadeia, aquilo devia ter algum sentido maior, ainda que eles no conseguissem ao certo atinar qual era. A humilhao, sugeria o beato, talvez fosse para que aprendessem como era necessariamente penosa a vida dos homens que se dedicavam f. Floro, que parecia mais irascvel do que nunca, no queria saber daquela conversa fiada dentro da priso. Mandou todos para uma frente de trabalho forado, dando-lhes a tarefa de quebrar pedras e assentar calamentos nas vias centrais do municpio. O calamento, uma novidade numa cidade de ruas at ento de terra batida, era considerado mais um avano, um sinal de progresso para o Juazeiro. Nada mais simblico, considerava o doutor, que a pavimentao fosse feita com as mesmas mos daqueles homens e mulheres que, pouco antes, faziam reverncias a um bovino tido como sagrado. No dia 5 de outubro de 1919, quando o primeiro automvel circulou pelas esquinas empoeiradas do Juazeiro, muita gente saiu correndo com medo da geringona que resfolegava como um demnio, andava sem que nenhum cavalo a puxasse e, o maior de todos os assombros, cujos faris acesos pareciam dois olhos de fogo. Cruz, credo! o piolho da Besta-Fera!, gritara um beato, ao avistar o veculo, de propriedade de um comerciante do Crato em visita cidade. Apesar do alvoroo, em pouco tempo os juazeirenses comeariam a se familiarizar com as inovaes trazidas pelo sculo XX, o que incluiria at mesmo uma reluzente frota municipal de carros de praa. No demorou muito para que passassem a contar tambm com um cinema e uma fbrica de relgios, iniciativas particulares do surpreendente mestre Pelsio Macedo. Dois dos exemplares sados das oficinas da relojoaria, em tamanho gigante, foram colocados no alto da torre da igreja de Nossa Senhora das Dores. Cada minuto indicado pelos ponteiros era saudado pelos habitantes como um presente de Deus. Meses depois, o templo receberia um gerador eltrico, o que garantiu a iluminao permanente do santurio, uma das supremas maravilhas para os romeiros que nunca tinham visto a luz eltrica e se deslumbravam com a viso da igreja reluzindo durante as noites de festas e quermesses. As inovaes na paisagem urbana vinham com a devida assinatura poltica de Ccero Romo Batista, que continuava investido na prefeitura, imune aos solavancos da poltica estadual e reconduzido ao cargo pelo voto popular a cada novo perodo. Apesar de ter concludo o seu quadrinio como vice-presidente do estado, permaneceria prefeito durante mais doze anos ininterruptos. Apenas no final de 1919 a hegemonia esteve ligeiramente ameaada, quando o padre decidiu apoiar o candidato que sairia derrotado nas eleies para presidente do Cear. Ccero e Floro apoiaram o correligionrio Belizrio Tvora, ungido do governo federal, mas quem ganhou a disputa foi o doutor Justiniano de Serpa, do rival Partido Democrata. Ao que consta, antes do pleito, Ccero havia recomendado aos eleitores do Juazeiro: 270. No votem no Serpa, que ele maom. At o nome j diz o que ele . Serpa quer dizer serpente. Quando os principais caciques conservadores estaduais, sem nenhum constrangimento, simplesmente viraram a casaca diante da derrota iminente e se bandearam para os lados do candidato que se anunciava vitorioso, Floro recomendou ao padre que acompanhasse a manada partidria. Do contrrio, ficariam isolados, sem poder de barganha na esfera regional. Logo aps as eleies, to logo foram declarados os resultados das urnas, Ccero acatou a sugesto de Floro e aderiu ao bloco dos democratas, sem se desfiliar dos conservadores. Meu padrinho no dizia que esse Serpa no prestava?, teria lhe indagado ento um confuso juazeirense, sem entender as reviravoltas da poltica. Menino, porque no me disseram direito; o homem certo mesmo o Justiniano de Serpa. Justiniano, alis, quer dizer Justo. Se tal dilogo ocorreu de verdade ou se era apenas mais uma aleivosia jogada aos quatro ventos contra o padre e que acabou passando tradio oral, nunca se poder saber realmente. O que se pode afirmar com certeza que, desde o incidente em que Floro quase rompera com ele, Ccero nunca mais contestaria as orientaes do doutor na seara partidria. A popularidade do padre, fato, passaria a ser cortejada por polticos de todos os coturnos, teores e matizes. Ao longo dos anos seguintes, ele receberia numerosas comitivas de governantes e candidatos a cargos eletivos no s do Cear, mas tambm de muitos estados vizinhos. No havia campanha eleitoral na regio sem que vrios postulantes fossem em romaria ao Juazeiro para beijar a mo do sacerdote e pedir-lhe a bno. Mas, decididamente, era Floro quem rascunhava a lista dos aliados e adversrios de ocasio: Meus amiguinhos, sobre a poltica e o governo do municpio, eu nada sei; quem sabe de tudo mesmo o doutor, dizia Ccero. Floro, pragmtico, decidira no mais ficar refm das oscilaes da vida partidria e, em 1921, candidatou-se Cmara Federal, de forma avulsa, sem legenda, apresentando-se apenas como o legtimo representante do padre Ccero Romo Batista. Foi o que bastou para ser eleito. Na capital da Repblica, a imprensa assistiu com desconfiana ascenso ao Congresso Nacional de um emissrio do controvertido sacerdote sertanejo. Choveram crticas contra Floro Bartolomeu, mesmo antes que ele tivesse tempo de encomendar ao alfaiate o palet para a posse. Por isso, em um dos primeiros discursos como deputado federal, na sesso de 10 de abril daquele ano, j subiu irado tribuna. O Dirio da Manh havia publicado uma foto sua, tirada ainda na poca da sedio do Juazeiro, na qual ele aparecia em trajes de jaguno. Floro, que passaria o mandato inteiro tentando libertar-se do estigma de ter sido eleito como um protetor de cangaceiros, no gostou nada de ver sua imagem estampada daquela forma em um grande jornal do Rio de Janeiro. Tomando a palavra, contestou: Ora, senhores, eu no poderia dirigir um movimento revolucionrio, no qual eu era responsvel por milhares de vidas, usando cartola e fraque, ou mesmo a boina e o capelo com que me doutorei em medicina. A tirada, inesperada, gerou risos at entre os adversrios. O estilo sem papas na lngua, combinado ao forte sotaque de Floro, continuaria a provocar a hilaridade dos colegas 271. deputados por dois mandatos seguidos. Por vrias vezes ele retornaria tribuna, algumas delas com o propsito de defender Ccero das costumeiras acusaes que recaam sobre o padre. O mais veemente de todos os discursos parlamentares de Floro seria proferido na sesso de 23 de setembro de 1923, aps uma srie de trs conferncias feitas na Associao dos Empregados do Comrcio do Rio de Janeiro pelo doutor Paulo Morais e Barros, integrante da comisso do governo federal enviada no ano anterior ao Cear em inspeo s obras contra as secas. A comisso, chefiada pelo general Cndido Mariano da Silva Rondon, o clebre sertanista pacificador de ndios, passara pelo Juazeiro em novembro de 1922, quando foi recebida para mais um dos lautos jantares oferecidos na casa do sacerdote. Floro considerou que, durante as conferncias, Morais e Barros fizera o papel de mal-agradecido. Comera, bebera, fizera fotografias ao lado do padre, at pedira que Ccero escrevesse uma dedicatria para mostrar famlia e, ao final, depois de ter se fartado de vinhos e iguarias, sara falando mal do anfitrio: O doutor Paulo Morais e Barros vomitou cobras e lagartos sobre o povo do Juazeiro, pelo qual foi to carinhosamente recebido , recriminou Floro. Imagine, senhor presidente, que ele chamou a localidade de acampamento de casebres e mocambos em promiscuidade srdida; ao povo, de massa de gente soez; ao padre Ccero, de chefe complacente de cangaceiros; e ao conde Adolphe van den Brule, de refinado canalha. Floro, que mandaria imprimir aquele discurso em forma de brochura para levar ao Juazeiro como prestao de contas do mandato, aproveitou a ocasio para isentar o padre de todas as responsabilidades sobre a sedio de 1914: Ser possvel que no se saiba, ainda hoje, que fui eu o chefe da revoluo do Juazeiro e o nico responsvel por ela?, declarou. Floro negou ainda que as tropas sediciosas houvessem sido compostas integralmente de jagunos e cangaceiros, embora reconhecesse que no se fazia uma revoluo, em nenhum lugar do mundo, entregando armas somente a senhores de boa conduta e moral ilibada: Havia, no movimento, um nmero relativamente pequeno de indivduos dignos do nome de cangaceiro, elemento, alis, indispensvel nesses perodos de agitao. Ao abordar tal assunto, Floro Bartolomeu transitava em terreno pantanoso. Aquele era o alvo para o qual a imprensa e os principais oponentes no parlamento faziam questo de apontar o dedo quando queriam fustig-lo. As histrias a respeito das faanhas de bandidos como Z Pinheiro haviam ultrapassado as fronteiras do Cear e ajudavam a consolidar a imagem de que a terra do padre Ccero era mesmo o valhacouto de celerados de que tanto se falava. Floro protestava, altissonante, no plenrio da Cmara Federal: No Cariri no h um bandido em liberdade, um criminoso solto! Desafio que provem o contrrio!, grunhia ele. Ningum contestou e pelo menos no caso do famigerado Z Pinheiro, Floro tinha razo. O cangaceiro abandonara o Juazeiro para sempre. Meses aps tentar protagonizar a cena de canibalismo que Ccero evitara ltima hora, ele viajara para Alagoas, onde uma mulher lhe encomendara uma das orelhas da amante do marido. Z Pinheiro, para fazer bem o servio, decidiu arrancar logo as duas. Mas, pouco depois, caiu em uma emboscada, quando um grupo de cangaceiros rivais conseguiu aprision-lo. Z Pinheiro foi literalmente esfolado. Teve a pele do corpo inteiro arrancada faca. Aps o deixarem em carne viva, deceparam-lhe os braos e as pernas, para atir-los, junto com o tronco e a cabea desfigurada, em uma 272. fogueira. Foi completamente carbonizado. Era a lei do serto. Floro Bartolomeu no relatou o brbaro episdio aos nobres e engravatados colegas de parlamento. Tambm no lhes deu notcia de que, no Juazeiro, outros bandidos vinham tendo sorte semelhante. Por ordens do doutor Floro, os fora da lei estavam sendo arrancados das cadeias ou mesmo apanhados em seus esconderijos para depois ser remetidos, amarrados, estrada que ligava o municpio ao Crato. Ali, nas margens da chamada rodagem, eram executados sumariamente, com pauladas e tiros na nuca, muitos deles depois degolados. O excelentssimo senhor deputado federal Floro Bartolomeu da Costa encontrara uma forma peculiar de varrer do Cariri a pecha de paraso do cangaceirismo: passara a patrocinar violentos grupos de extermnio. Bandido bom era bandido morto. Pelas contas dos moradores poca, pelo menos setenta pessoas j haviam sido executadas no local. Os corpos eram enterrados em covas rasas ou simplesmente deixados insepultos beira da estrada, para servir de pasto aos urubus e exemplo aos companheiros. Dos ladres de galinha aos contumazes arruaceiros, de defloradores de virgens a reconhecidos malfeitores, a rodagem transformou-se no destino final dos que ousavam sair da linha no Juazeiro. O banditismo s se extingue com a morte dos bandidos, resumiria Floro, quando incitado pela imprensa a justificar-se. Na Assembleia Legislativa do Cear, o deputado estadual e jornalista Jos Martins Rodrigues daria o troco: S se pode extinguir o banditismo matando o bandido? Nesse caso, o Floro devia suicidar-se. Duas semanas antes de completar 78 anos, Ccero mandara chamar novamente em casa o tabelio da cidade. Queria tornar sem efeito o primeiro testamento. Desejava redigir uma nova verso. No lugar de nomear a Santa S como nica legatria de sua herana, mandou constar que, depois de sua morte, os bens que acumulara ao longo da vida, custa das doaes e esmolas de romeiros, deveriam ser distribudos em vrias partes distintas. A reviso do documento passava a fatia mais gorda da herana, que constava de uma lista de casas, prdios, stios e fazendas, a duas ordens religiosas a dos monges trapistas e a dos cnegos premonstratenses , sob a condio de que ambas fundassem representaes e estabelecimentos educacionais no Juazeiro. Aos cofres da igreja de Nossa Senhora das Dores e da capela de Nossa Senhora do Perptuo Socorro (esta ltima ainda sem autorizao eclesistica para funcionar), tambm caberia uma parcela de imveis, embora mais modesta. Ao dar nova redao ao testamento, Ccero resolveu deixar parentes e agregados igualmente amparados. Entre os novos beneficirios, estavam a irm Anglica, as beatas que moravam com ele e o amigo Adolphe van den Brule, que continuava a tentar explorar sem sucesso as j lendrias jazidas de cobre no Cox. Floro foi nomeado o testamenteiro oficial, a quem competiria administrar o cumprimento do inventrio e da partilha. Ainda no seria aquela a ltima vez que Ccero mandaria chamar o representante do cartrio. Dali a cerca de um ano e meio, em 4 de outubro de 1923, o doutor Luiz Tefilo Machado, tabelio de notas da comarca, ouviu as novas e definitivas disposies do padre em 273. relao ao testamento. Os beneficirios continuariam praticamente os mesmos da segunda verso do documento, exceo de duas alteraes dignas de nota. Na primeira delas, o nome de Anglica no mais constaria como herdeira, j que ela acabara de falecer, aos 75 anos de idade. Mas a segunda alterao era ainda mais significativa. Ccero resolveu modificar tambm o destino do item correspondente maior parcela de seus bens. Em vez dos trapistas e dos premonstratenses, seria dali por diante a Pia Sociedade de So Francisco de Sales, a ordem dos chamados salesianos de Dom Bosco, a sua principal herdeira. Reconhecidos como educadores exemplares no mundo inteiro, os salesianos haviam chegado ao Brasil em 1883, onde fundaram vrios estabelecimentos de ensino. O padre, acusado em vida de no apoiar a abertura de escolas no Juazeiro com a suposta inteno de manter o povo subjugado pela ignorncia, manteve inalterada a disposio de que o acesso dos salesianos herana estava condicionado fundao de instituies educacionais da congregao, no Juazeiro, para crianas de ambos os sexos. A citao nominal das propriedades abarcadas pelo testamento confirmava tudo o que se dizia a respeito da fortuna pessoal do padre. Ccero era, de fato, um homem rico. Em resumo, a lista de seus herdeiros, com os respectivos quinhes que cabiam a cada um, era impressionante: Para a ordem dos salesianos: a) Fazenda Juiz, em Aurora; b) Fazendas Letras, Caldeiro e Monte Alto; c) Prdio em construo, junto casa da beata Mocinha; d) Prdio onde funciona o aougue pblico de Juazeiro; e) Prdio onde funciona o orfanato e terreno contguo; f) Prdios contguos casa da beata Mocinha; g) Prdios e capela em construo, no Horto, com todas as benfeitorias; h) Quarteiro de prdios na rua So Pedro; i) Stio Conceio, na serra do Araripe; j) Stio Periperi, no p da serra de So Pedro; k) Stio Rangel, em Santana do Cariri; l) Stios Faustino, Paul e Baixa Dantas, Fernandes, Santa Rosa e Taboca, no Crato; m) Stios Logradouro, Salgadinho, Mochila, Cars e Pau Seco; n) Terrenos diversos na serra do Araripe, incluindo o stio Brejinho; o) Todas as outras propriedades que no constem da lista, bem como todas as cabeas de gado existentes nelas. Para a igreja de Nossa Senhora das Dores: a) Prdio onde funciona a cadeia pblica e contguos; b) Prdio onde funciona o colgio do professor Manuel Diniz; c) Prdio onde funcionou a redao de O Rebate; d) Prdio onde mora a beata Soledade e o terreno murado contguo; e) Prdio onde morou a beata Isabel da Luz; f) Stio Palmeira, em Cear-Mirim, Rio Grande do Norte; g) Stios Pititinga e Saco, em Touros, Rio Grande do Norte; h) Sobrado e prdio na rua Padre Ccero. Para a capela de Nossa Senhora do Perptuo Socorro: Stio Porteiras. Para as beatas: Prdio na rua Padre Ccero; 274. Stio Barro Branco. Para a capela de So Miguel, no cemitrio dos variolosos: Terreno cercado, antes reservado ao seminrio do Juazeiro, que no foi construdo. Para Adolfo van den Brule: Stio Veados. Para a capela de Nossa Senhora do Rosrio, no cemitrio antigo: Stio So Jos. Para as filhas do amigo Belmiro Maia: Casa rua Padre Ccero; Stio Carit. Para o amigo Jos Incio Cordeiro: Stio Arraial, em Misso Velha. Para a casa de caridade do Crato: O sobrado que pertenceu a Jos Marrocos. Para pagamento de possveis dvidas, custos com velrio e sepultamento, alm de esprtulas para missas e demais despesas eventuais: Fazenda Cox. Para Floro Bartolomeu (testamenteiro legal): 10% do valor monetrio lquido de toda a herana. Ccero Romo Batista tentou por todos os meios convencer o padre Pedro Esmeraldo da Silva Gonalves a mudar de ideia. Ele, porm, mantinha-se resoluto. Nunca mais poria os ps no Juazeiro, assegurou. Iria pedir transferncia ao bispo. Abdicava do cargo de vigrio do lugar para sempre. No ficaria naquela terra nem por mais um minuto sequer. Estava indo embora. Ningum o persuadiria do contrrio. Ccero, porm, ainda insistiu. Falaria com o povo, sossegaria os nimos, daria a Esmeraldo a segurana e a garantia necessrias para que prosseguisse com seu trabalho frente da parquia. Mas no houve perdo. Padre Pedro Esmeraldo arrumou as malas e se retirou para o Crato. Estava irritado com os juazeirenses. Tentara fazer um bem cidade, mas recebera apenas a incompreenso como resposta, alegou. Tudo comeara em setembro de 1921, quando ele ordenara uma grande reforma na igreja de Nossa Senhora das Dores. Uma das torres do templo estava avariada, com rachaduras, e o mais recomendvel era que fosse posta abaixo, para dar lugar a uma nova. Mas os moradores e romeiros protestaram. Cerca de mil pessoas se posicionaram em frente matriz, para impedir que os pedreiros iniciassem a demolio. Espalhara-se na cidade o boato de que o vigrio, por ordens de dom Quintino, havia na verdade mandado derrubar a igreja inteira. Pedro Esmeraldo tentou argumentar que nada daquilo era verdade, que os fiis corriam perigo, que a torre deteriorada poderia cair a qualquer momento, que a nica coisa a fazer era providenciar a reforma o mais rpido possvel. Ningum o ouviu. A casa sagrada da Me das Dores era intocvel, contraps a populao. Ningum tiraria um nico tijolo dela. Quando o padre Esmeraldo deu sinal para que o mestre de obras comeasse o trabalho, a multido avanou, ameaadora. 275. Esmeraldo resignou-se: No vim aqui para questionar e brigar com vocs. Vou-me embora. Acabou. Ao saber do incidente, dom Quintino subordinou novamente a igreja de Nossa Senhora das Dores parquia do Crato. Como consequncia, Juazeiro ficou mais uma vez sem vigrio. Somente um ano e meio depois, dom Quintino cedeu aos apelos do recm-ordenado padre Manoel Correia de Macedo, o Macedinho, o mesmo com quem o bispo do Crato trocara franca correspondncia algum tempo antes. Em frias no Juazeiro aps receber as ordens sacerdotais e concluir o curso teolgico na Itlia, o filho de Pelsio Macedo responsabilizou- se pela manuteno da ordem entre os paroquianos e solicitou a prpria nomeao como vigrio da cidade. Dom Quintino assinou a portaria, na esperana de que Macedinho pusesse em prtica as teses que desposara por carta, quando pregara a necessidade de levar, aos romeiros, aqueles que seriam os verdadeiros princpios cristos. De incio, a nova conjuntura pareceu promissora. Com a ajuda decisiva de Ccero, as obras na igreja de Nossa Senhora das Dores puderam ser retomadas pelo proco recm- nomeado. Ainda houve alguma resistncia popular, precisando-se recorrer polcia de quando em vez para conter os mais exaltados. Mas, depois de Ccero explicar aos devotos os reais propsitos da reforma, os pedreiros puderam seguir adiante, sem maiores percalos. A aliana estratgica entre Ccero e Macedo, portanto, presumia um tempo de bonana na relao entre o bispado e o Juazeiro. Porm, padre Macedo, que chegara pregando a paz e o entendimento, passaria apenas dois curtos anos frente da parquia. Ele logo percebeu que teria um obstculo mais incontornvel do que o arrebatamento dos romeiros a lhe tolher os passos: Floro Bartolomeu. Inconformado com as execues sumrias promovidas na temida rodagem, o novo vigrio comeou a se desentender com o doutor sobre quem recaam, alm das denncias de comandar o extermnio em massa de bandidos, as acusaes de que embolsara metade do dinheiro dos impostos extraordinrios cobrados populao para a instalao do calamento da cidade. O rompimento definitivo entre Macedo e Floro se deu no final de 1924, quando o vigrio se recusou a realizar os festejos natalinos programados pelo doutor. Floro Bartolomeu havia intermediado um contrato de gaveta que permitia a explorao de bancas de jogo na cidade durante as quermesses do Natal. Para expedir o alvar contraveno, com carimbo da prefeitura e tudo, Floro cobrou o pagamento de polpudos oito contos de ris, valor equivalente a um tero de todos os impostos recolhidos pela coletoria federal, naquele ano inteiro, em todo o municpio do Juazeiro. Macedo, desgostoso, criticou Ccero por no vir a pblico condenar os atos cada vez mais imponderados de Floro. Ccero, que sempre reprovara o jogo como uma obra srdida de Satans tendo chegado tempos antes a invadir casas de famlia para desmanchar rodadas de carteado , havia permitido a oficializao da roleta na cidade justamente na festa que comemorava o nascimento de Cristo. A agravante, alertava Macedo, era a de que a prtica do jogo se encontrava duplamente vedada, tanto por ordens da polcia como por recomendaes morais da Igreja. No Juazeiro, Floro estaria se sobrepondo tanto s leis dos homens quanto lei de Deus. Menos de um ms depois do Natal, em janeiro de 1925, padre Manoel Correia de 276. Macedo seguiu o exemplo de seu antecessor: tomou o caminho da estrada sem olhar para trs. Solicitou exonerao ao bispo e, retirando-se da cidade, passou a dar aulas no seminrio do Crato. Logo no ms seguinte, como se nada houvera ocorrido ou, quem sabe, at mesmo em sinal de ostensiva comemorao , Floro realizou, em grande estilo, o primeiro Carnaval da histria do Juazeiro. Distribuiu dinheiro para que se confeccionassem alegorias, mandou trazer do Rio de Janeiro guas de cheiro para regar a folia e at ajudou a organizar trs blocos momescos: um com fantasias de baianas, outro com brincantes caracterizados de mexicanos e o ltimo composto de mascarados vestidos de marinheiros. A elite juazeirense caiu na farra. Ccero, que no passado j terminara sambas com bordoadas de cajado, novamente no se ops. Segundo Floro, o Carnaval tambm era sinal de progresso. Cantar benditos que era coisa do arco-da-velha. Para desalento de Macedo, Ccero permaneceu em silncio mesmo quando Floro mandou empastelar as oficinas e apreender toda a edio de um pequeno jornal da cidade, O Ideal, no dia em que aquela folha publicou um editorial escrito por um dileto amigo do padre, o professor Manoel Diniz, seu futuro bigrafo oficial, no qual se reprovavam as carnificinas na rodagem: Um crime no corrige outro crime. Ao contrrio, o crime atrai o crime, escrevera Diniz. Os redatores, a partir dali, comearam a receber ameaas de morte. O proprietrio do jornal, o boticrio Jos Geraldo da Cruz, afilhado de batismo de Ccero, foi obrigado a juntar a famlia e se mudar s pressas para o Crato. Enquanto eu estiver no Juazeiro, no permito que se faam apreciaes desfavorveis aos meus atos. Aqui como eu quiser, advertiu Floro. Em vez de recuar, o pequenino O Ideal ganhou em prestgio e indignao. Transferiu o prelo para o Crato e, da cidade vizinha, passou a incluir artigos inflamados do padre Macedo em suas pginas. Em um deles, tornou pblica a acusao de que Floro se locupletava dos cofres da prefeitura. O texto, a certa altura, lamentava que o Juazeiro estivesse se convertendo em um arraial imundo e sem moral. Para responder na mesma medida, Floro resolveu reeditar seus tempos de jornalista incendirio. Ps em circulao um novo jornal na cidade, a Gazeta do Juazeiro, impressa nas modestas oficinas da tipografia Esperana, com a ajuda de uma velha mquina de linotipo de propriedade de Ccero. No nmero de estreia, vinha a manchete explosiva, encimando o artigo escrito pelo prprio Floro, em referncia a Macedo: Um padre ordinrio. Durante meses, as duas publicaes trocariam insultos em letra de forma, dividindo as opinies na cidade. Muita gente, insatisfeita com o domnio absoluto de Floro nos assuntos do municpio, apoiava Macedo, ainda que de modo velado, por receio de sofrer represlias. A polmica produziria indiretamente uma srie de lances constrangedores para Ccero, que certa manh acordou com um panfleto pregado porta de casa, no qual era chamado de padre caduco e idiota. No muito tempo depois, Ccero ficou mortificado ao saber que haviam defecado aos ps de sua esttua de bronze, recm-inaugurada na principal praa da cidade em homenagem a seu octogsimo aniversrio. Floro acusou o padre Macedo de tramar o gesto iconoclasta. Macedo devolveu a suspeita, apontando o doutor como a nica pessoa capaz de semelhante vileza. Os verdadeiros amigos do padre Ccero somos ns, seus colegas de batina, que no visam suas riquezas, nem querem um lugar no seu testamento, mas que desejam que ele se 277. reconcilie com a Igreja e salve sua alma, trombeteou Macedo, pelas colunas de O Ideal. Padre Macedo dizia entender, cada vez menos, a completa omisso de Ccero quanto s truculncias de Floro: O padre Ccero engendrou este fenmeno poltico, nico no Brasil e no mundo, de um s poder municipal em duas pessoas distintas, vindo a ser o padre o prefeito, mas exercendo a prefeitura o doutor. A ausncia de reao por parte de Ccero continuou intrigando tanto amigos quanto adversrios. Por que ele, um moralista declarado, no se opunha escalada de desmandos de Floro? Poucos sabiam embora os mais prximos a Ccero tivessem total conhecimento do assunto que Floro Bartolomeu no hesitava mais em desacatar at mesmo o amigo, com vexatria constncia, sempre ao menor sinal de contrariedade. Quando Ccero tentava ponderar sobre a pertinncia de alguma crtica disparada por Macedo, Floro logo rugia com toda a fora dos pulmes, quase fora de si: Voc um velho besta! Trate de seus romeiros idiotas e no me azucrine a pacincia, que padre e merda para mim so a mesma coisa! Ccero Romo Batista caiu de cama. As dores lombares e a catarata estavam lhe minando as foras. Para agravar o quadro, uma crise de furnculos o impediu de pr em ao a derradeira tentativa de recuperar o exerccio das ordens. Ccero confiava suas ltimas esperanas mediao do visitador pontifcio, dom Bento Lopez, que naquele momento se encontrava em viagem pastoral pelo Cear. Aps passar por Fortaleza, saudado com honras tanto no palcio do governo quanto no palcio episcopal, o abade rumou para o interior e constatou, em pessoa, a espantosa devoo que os sertanejos nutriam por um padre condenado por decretos do Santo Ofcio. Mostrando-se interessado no caso, dom Bento Lopez foi at o Juazeiro e recebeu o combalido Ccero em audincia reservada. Conversei com dom Bento durante algum tempo, expondo os principais acontecimentos da minha vida, as conhecidas perseguies de que tenho sido vtima. Terminou Sua Excelncia me aconselhando que eu deveria requerer diretamente a Sua Santidade, o Papa, o restabelecimento das minhas ordens, registrou Ccero, otimista. Dom Bento Lopez chegou a acenar com um desfecho positivo para a questo. Pelo menos ficou acertado que os dois teriam um segundo encontro, um pouco mais demorado, durante o qual o visitador orientaria Ccero sobre a minuta da documentao com o recurso final a Roma. A furunculose, contudo, deixou o padre preso ao leito justo no momento em que deveria comparecer novamente perante o visitador pontifcio. Impossibilitado de ir reunio, com febre alta e fortes dores provocadas pela infeco que lhe resultara em abscessos espalhados pelo abdmen, axilas e ndegas, Ccero enviou Floro em seu lugar. Nunca se soube, ao certo, o que ocorreu na conversa entre Floro Bartolomeu e dom Bento Lopez. Mas o fato que, depois daquele dia, o abade desistiu de levar o assunto adiante. Pode-se supor que ele j estivesse devidamente advertido da pssima fama que desfrutava o caudilho e, assim, tenha se negado a dar ouvidos ao representante de Ccero. Porm, em um de seus artigos jornalsticos mais incisivos, padre Macedo lanou a grave suposio de que o doutor no teria feito esforo algum em prol do caso, atribuindo a Floro a responsabilidade total pelo encontro frustrado com o visitador pontifcio. Macedo chegou mesmo a insinuar que 278. Floro Bartolomeu, para manter a tutela sobre um velho enfermo, teria impedido fisicamente Ccero de ir audincia com dom Bento. Floro, em resposta veemente publicada pela Gazeta do Juazeiro, negaria tal verso. Segundo ele, o abade simplesmente mudara de opinio de uma hora para outra, talvez aconselhado por fontes inconfessveis, aluso que por certo inclua o prprio Macedo na relao dos informantes de m-f. Desconsolado, em meio ao choque de verses contrrias, Ccero preferiu acreditar que tudo no houvesse passado de um enorme mal-entendido. Foi uma surpresa dolorosa para mim, lamentou. E, agora, fiquei a refletir: ou no compreendi bem o que dom Bento Lopez me disse, ou ele no compreendeu suficientemente o que eu lhe dissera. Um ainda esperanoso Ccero resolveu apelar interveno do padre italiano Pedro Rota, inspetor da ordem dos salesianos no Brasil. No final de 1924, Ccero escreveu a Rota, comunicando o desejo de ver instalado no Juazeiro um colgio dirigido pela congregao, confidenciando-lhe a clusula que fizera constar no prprio testamento. Permita que lhe confesse que tenho reservado tudo quanto possuo para auxlio desta grande obra, conforme consta do meu testamento j feito, mencionou. O salesiano Pedro Rota respondeu em tom amigvel. Dissera-se feliz com a notcia, mas ponderava que o maior obstculo para que o assunto chegasse a bom termo era a situao de Ccero perante as autoridades do clero, tanto no Brasil quanto no Santo Ofcio. Aquela talvez fosse a deixa que Ccero Romo precisava para implorar a ajuda de Rota, que, coincidentemente, logo seria transferido para a Itlia, onde poderia melhor advogar em nome da causa. Creia, to grande o meu desejo que tenho de reabilitar-me que se meu distinto amigo se dispuser a auxiliar-me, e se achar conveniente, no me pouparei ao sacrifcio de ir pessoalmente a Roma, apesar dos meus 82 anos de idade, para tratarmos do assunto, escreveu Ccero. Conforme lhe fora pedido, padre Rota fez uma consulta formal ao Santo Ofcio, mostrando-se favorvel reabilitao e dando pormenores da correspondncia que vinha travando com o padre brasileiro Ccero Romo Batista. Em resposta, no dia 27 de janeiro de 1926, os cardeais inquisidores mandaram correspondncia oficial a dom Quintino. Afirmaram que no se recusariam a receber e analisar qualquer recurso em defesa do sacerdote suspenso de todas as ordens. Mas desde que ele se transfira para outro lugar, bem longe da cidade do Juazeiro, ressalvaram. Mais uma vez, sem imaginar que o bispo do Crato apenas cumpria a deciso do Vaticano, Ccero considerou absurda a hiptese que dom Quintino lhe obrigava. Imagine que, agora mesmo, recebi uma notificao na qual [o bispo] me impe como condies para a extino de minha irregularidade sacerdotal que eu me retire do Juazeiro, escreveu, contrariado, ao padre Rota. Ccero reafirmou sua deciso de permanecer no Juazeiro. Jamais voltaria a se afastar do seu cho. Em resposta, o Vaticano descartou, desde esse momento, qualquer possibilidade de absolv-lo. Enquanto o padre Ccero Romo Batista vivesse, o Santo Ofcio no se ocuparia mais dele. 279. O pernambucano Miguel Jordo, romeiro do padre Ccero, desembarcou no Rio de Janeiro matutando a melhor forma de pr em prtica uma ideia fixa: assassinar o deputado federal Floro Bartolomeu. Na mala, levava uma faca pontiaguda, um revlver de fabricao norte-americana marca Smith & Wesson e um crucifixo presumidamente benzido pelo papa um dos exemplares que haviam sido trazidos de Roma, anos antes, pelo fundador da Legio da Cruz, Jos Joaquim de Maria Lobo. Jordo tinha um motivo pessoal para perpetrar o crime: vingana. Meses antes, no Juazeiro, ele levara uma surra a mando de Floro. Embora existam suspeitas histricas de que, na realidade, Miguel Jordo tenha sido enviado sob encomenda de algum dos muitos inimigos do doutor, jamais se comprovou quem seria o verdadeiro mandante e se ele existia de fato. No Rio de Janeiro, Jordo foi dissuadido de seu propsito por Xavier de Oliveira, o autor de Beatos e cangaceiros, que estava hospedado na mesma penso que ele e no concordou com o plano sinistro, embora o prprio nome figurasse na longa lista de opositores de Floro: por mais de uma vez, na tribuna da Cmara Federal, Floro o acusara de alimentar o apetite da grande imprensa com informaes desabonadoras a seu respeito. Ao que consta, alm de no querer compactuar com um homicdio, Xavier de Oliveira considerava que ningum precisava sujar as mos de sangue para afastar Floro Bartolomeu do caminho. Os dias do temido doutor estavam contados: Floro um homem aniquilado; no viver trinta dias, sentenciou Oliveira. Aquilo era algo a respeito do qual s se falava boca mida, embora todos j soubessem que, assim como Ccero, Floro Bartolomeu vinha sendo atormentado por uma srie de complicaes de sade. Muitos chegaram a imputar o exaltado estado de esprito do doutor s cefaleias, nguas e comiches dos quais ele se queixava havia algum tempo. A irritabilidade de Floro tambm era atribuda ostete, doena inflamatria dos ossos, que no seu caso se tornara crnica. Ao contrrio do que ocorria com o octogenrio Ccero Romo Batista, todas as perturbaes fsicas que torturavam o quase cinquento Floro Bartolomeu eram os sintomas reconhecveis de uma enfermidade muito mais grave e de que era portador no se sabe exatamente desde quando. Aquela era uma doena maldita, da qual poca quase no se ousava dizer o nome. Uma praga, sexualmente transmissvel, que no se desejava nem mesmo ao pior dos inimigos. Era um estigma, um motivo de vergonha, um castigo reservado aos pecadores da pior espcie. O doutor mulherengo, que crescera sombra da batina de um padre e que um dia conquistara o diploma em medicina com uma dissertao sobre o cancro duro, estava contaminado pelo terrvel mal: a sfilis. poca, o remdio indicado para combater a doena, o Salvarsan, elaborado base de arsnico, promovia uma intoxicao progressiva dos rgos vitais e, em certos casos, os efeitos colaterais eram to ou mais violentos do que a prpria molstia. Era isso que estava matando Floro Bartolomeu. Entre os moradores do Juazeiro, havia quem previsse dias turbulentos pela frente. Com o desaparecimento definitivo de Floro, o velho sacerdote, j defenestrado pela Igreja, perderia tambm seu crebro poltico. Nesse caso, sem a sade necessria para cuidar do prprio legado, tenderia a ser assediado por novos aproveitadores, vidos por colocar a mo em seu esplio. Mas havia tambm quem pensasse de modo 280. exatamente oposto: se Floro morresse rpido, como tudo levava a crer que viria a ocorrer, Ccero poderia voltar a ter o controle sobre a prpria vida ou do tempo que restasse dela. Velho que se cura cem anos dura, j dizia o adgio matuto. Um dia aps o Natal de 1925, o presidente da Repblica, Artur Bernardes, recebeu no Palcio do Catete uma mensagem expedida pela estao telegrfica do Juazeiro: Senhor presidente, Chegada hoje Fortaleza deputado Floro Bartolomeu distinguido confiana Vossa Excelncia organizar resistncia contra revoltosos. Tendo honra enviar eminente chefe da nao cordiais saudaes testemunho minha solidariedade dedicados esforos patriticos de Vossa Excelncia pelo restabelecimento ordem nosso querido Brasil. Padre Ccero Romo Batista O telegrama oficializava a adeso de Ccero a um plano mirabolante, gestado nos altos gabinetes do governo federal. Os detalhes da ao haviam sido discutidos alguns dias antes, quando um enfermo Floro Bartolomeu foi recebido em audincia pelo prprio presidente da Repblica, Artur Bernardes, aps confabulaes prvias de ambos com o ento ministro da Guerra, o general Setembrino de Carvalho. Floro e Setembrino eram velhos conhecidos. O general, que comandara a interveno no Cear aps a queda de Franco Rabelo, em 1914, sabia muito bem o que estava fazendo e com quem estava lidando. Setembrino fora testemunha ocular do triunfo esmagador dos homens que um dia haviam guerreado sob o comando de Floro e em nome do padre Ccero. O Palcio do Catete, por meio do Ministrio da Guerra, queria conclam-los de novo luta. Receberiam, desta vez, todo o apoio necessrio: armas modernas, munio pesada e dinheiro a rodo uma ordem de pagamento, descontvel na agncia do Banco do Brasil em Fortaleza, no valor total de quinhentos contos de ris, quantia quatro vezes superior ao oramento anual previsto para a manuteno de toda a fora pblica cearense. Tamanha deferncia no era toa. A misso que Artur Bernardes confiou a Floro Bartolomeu era considerada da mais alta relevncia pelo governo federal. Floro deveria convocar mais uma vez o maior nmero possvel de jagunos e cangaceiros de preferncia, os mais valentes e atrevidos entre eles para tentar aquilo que os soldados do Exrcito brasileiro no tinham conseguido at ali, aps quase um ano de luta. A tarefa era esmagar um grupo de jovens e audaciosos oficiais que havia se rebelado nos quartis de So Paulo e do Rio Grande do Sul, depois se unido no Paran, transposto o Mato Grosso, penetrado em Gois, atingido Minas Gerais, rasgado o sul da Bahia, adentrado o Maranho e alcanado o Piau. Naquele instante, ameaava invadir as fronteiras do Cear. Floro, com a ajuda de Ccero, estava sendo chamado a medir foras com a legendria Coluna Prestes. 281. 11 O dia em que Lampio foi convocado para fazer guerra Coluna Prestes 1926 Meus amiguinhos, o governo est nos avisando que os revoltosos esto marchando para o Juazeiro armados at os dentes, para arrasar com tudo por aqui. Ns vamos deixar que essa desgraceira acontea conosco?, indagou Ccero, debruado na janela de casa. No foi preciso mais nenhuma palavra. Todos entenderam o recado. Poucos dias depois, na manh de 9 de janeiro de 1926, vestidos com uniformes de brim azul-celeste e municiados com modernos fuzis de uso exclusivo das Foras Armadas, cerca de mil voluntrios marcharam em passo acelerado pelas ruas do Juazeiro, para depois se perfilarem, em respeitosa posio de sentido, diante da residncia de Ccero. Estavam prontos para a guerra. Apoiado novamente no peitoril da janela, mesmo com a vista enfraquecida pela catarata, o padre reconheceu em meio queles indivduos enfileirados as feies carrancudas de notrios jagunos e cangaceiros, sobreviventes da fria da rodagem. Haviam recebido treinamento intensivo por parte de oficiais militares, apenas o suficiente para improvisarem uma ordem-unida e manipularem as peas de artilharia fornecidas pelo Exrcito. Muitos envergavam uma roupa limpa e engomada pela primeira vez na vida. Esses egressos das cadeias, tipos repugnantes de assassinos, ladres e estupradores, veem os seus nomes figurando no Almanaque do Ministrio da Guerra, quando deviam ser inscritos nos livros das penitencirias, protestaria em suas memrias, Marchas e combates, o secretrio-geral da Coluna Prestes, Loureno Moreira Lima. S temos o direito de tirar a vida de um semelhante se for assim, em guerra, e ainda mais s se for uma guerra justa como esta, meus amiguinhos, pregava Ccero tropa, formada no s por bandidos, mas tambm por centenas de agricultores, artesos e romeiros, que se diferenciavam dos jagunos unicamente pelo rosrio branco que traziam por baixo do colarinho alto do fardamento. No mais, formavam uma massa coesa dentro da tnica anil mal cortada, as calas vincadas e frouxas nas pernas, mandadas confeccionar s pressas por Floro Bartolomeu. Em vez de coturnos, usavam alpercatas. No lugar de capacetes, chapus de pano. Estavam mais para Judas em sbado de Aleluia do que para verdadeiros soldados. Mas o que realmente importava para Ccero que ningum fugira convocao do Batalho Patritico, nome oficial da milcia organizada em tempo recorde por Floro e cujo comando foi entregue ao coronel Pedro Silvino de Alencar, um dos experimentados chefes da sedio de 1914. Em pouco mais de duas semanas, superando at mesmo as expectativas mais 282. otimistas do governo federal, Juazeiro restabeleceu seu esquadro sertanejo, numericamente superior a qualquer guarnio que o Ministrio da Guerra pudesse vir a providenciar em um espao mais dilatado de tempo. Sinto um vivo contentamento em enviar a Vossa Excelncia calorosas saudaes, com as melhores esperanas de que dentro em breve nosso querido Brasil gozar a tranquilidade e a paz to necessrias ao seu progresso e sua grandeza, escreveu Ccero Romo Batista ao ministro Setembrino de Carvalho. Na dupla condio de prefeito e lder espiritual, Ccero passou em revista a tropa e abenoou os voluntrios, que seguiram depois em fila indiana para os nibus, charretes e caminhes estacionados ali prximo. Os veculos haviam sido requisitados diretamente por Floro aos respectivos proprietrios. Qualquer pessoa no Juazeiro que possusse uma conduo sobre rodas at a mais ordinria carroa recebeu a intimao para franque-la ao Batalho Patritico. Em grupos de duzentos indivduos de cada vez, os comboios comearam a deixar a cidade naquela mesma manh. Os mantimentos toneladas de farinha, feijo, carne-seca e rapadura foram enviados com a ajuda de vagarosos carros de boi escoltados por homens armados. Com o maior esforo, devido ao mau estado do caminho por causa do rigoroso inverno, consegui transportar todo o material blico e vveres, comemorou Floro em telegrama ao general Setembrino. Mandei, por minha conta, numerosas turmas para fazer reparo nas estradas e abrir outras de pequena distncia, informou. O destino final da caravana era o municpio de Campos Sales, cerca de acidentados 150 quilmetros a oeste do Juazeiro, j na divisa com o Piau. De acordo com informaes passadas pelo governo federal, era por l que os revolucionrios planejavam adentrar o territrio cearense. Floro mandou um ofcio ao ministro: Seguirei para Campos Sales com o ltimo contingente. S depois de ali chegar poderemos agir com eficincia. Resta-me pouco dinheiro do recebido para manter e fardar a tropa. Por isso peo a Vossa Excelncia providenciar com maior urgncia mais quinhentos contos, pois nesses sertes, sem dinheiro, nada se encontra. Ainda que levassem todas as rezas do Padim Cio a seu favor, aqueles mil homens convocados em regime de urgncia temiam estar sendo despachados para uma aventura inglria. Iam enfrentar um inimigo mais calejado, at ento invencvel. A marcha da Coluna Prestes, que ao final percorreria 25 mil quilmetros e cruzaria um total de treze estados brasileiros, serpenteava invicta pelos grotes do pas. As foras federais enviadas anteriormente em seu encalo, aferradas aos manuais militares que previam a guerra de posio encurralar o inimigo para depois asfixi-lo , haviam malogrado. Os revolucionrios adotaram a ttica de guerrilha, a luta em permanente movimento, desferindo ataques de surpresa seguidos de rpidos deslocamentos pelos territrios mais inspitos. Quando o Exrcito imaginava que os havia cercado, os rebeldes j estavam longe, deixando atrs de si um rastro de pontes derrubadas, estradas destrudas e linhas de telgrafo desmanteladas, o que comprometia ainda mais a perseguio. Muitos dos voluntrios que seguiam nos comboios organizados no Juazeiro acreditavam que os rebeldes possuam o poder mgico de desaparecer no ar feito fantasmas: s isso explicaria o fato de os guerrilheiros, depois de percorrer tantos milhares de lguas serto adentro, jamais terem se deixado apanhar pelos tiros dos soldados do Exrcito. Na 283. imaginao fecunda do povo do interior do Brasil, a figura do lder revolucionrio Lus Carlos Prestes j ganhara uma aura quase mitolgica. O jovem capito, que fora um dos mais brilhantes alunos da Escola Militar do Realengo, era tido na conta de sbio adivinhador, um bruxo capaz de prever o futuro, pois sempre parecia desvendar, de antemo, todos os movimentos dos opositores. Para controlarem os prprios arrepios que lhes sobrevinham sempre que pensavam no assunto, os combatentes do Batalho Patritico puxavam os rosrios para fora da tnica e beijavam com ardor as contas pequeninas. O tal Prestes podia ser um feiticeiro barbudo, mas muito maiores eram os poderes do Cu, benziam-se eles, fazendo o sinal da cruz. Estavam devidamente abenoados por Nossa Senhora das Dores e pela mo milagreira do Padim Cio, tranquilizavam uns aos outros. Enquanto magnetizava o serto com suas proezas, a marcha revolucionria sedimentava uma imagem de herosmo junto opinio pblica dos centros urbanos. A populao de grandes capitais como Rio de Janeiro e So Paulo acompanhava excitada, de olho colado nas pginas dos jornais e dos semanrios ilustrados, cada novo feito daquela epopeia. No se falava em outra coisa no pas inteiro. A inteno dos revoltosos era incendiar o Brasil com o apelo romntico da rebelio, minar as resistncias do governo federal e, no momento oportuno, infletir para o litoral e enxotar o presidente Artur Bernardes do Palcio do Catete. Testado e aprovado cerca de doze anos antes na vitoriosa sedio do Juazeiro, Floro Bartolomeu pareceu ao Ministrio da Guerra o homem talhado sob medida para bloquear a passagem da Coluna Prestes pelo Cear. Em 1914, os bandoleiros sertanejos sob seu comando tambm adotaram tticas prprias da guerra em movimento, um legado das antigas batalhas indgenas travadas por tribos rivais no serto. Quando acuados, os aguerridos cangaceiros e jagunos no hesitavam em fugir sem disparar um nico tiro, o que no cdigo de honra militar podia ser confundido com covardia. Na verdade, esse era um dos procedimentos mais eficazes da estratgia cangaceira e, tambm, da cartilha do bom guerrilheiro. S atiravam para acertar. Guerreavam apenas quando tinham chances reais de triunfo. Era foroso reconhecer que ningum talvez estivesse realmente mais bem preparado para enfrentar Prestes do que um bando infernal de cangaceiros. At aquele momento, a sarna, a disenteria e o bicho-de-p haviam provocado mais baixas nas linhas revolucionrias do que as balas dos soldados do Exrcito. Consciente de que as esperanas do Palcio do Catete estavam temporariamente depositadas em suas mos, Floro insistia na solicitao de mais recursos para a tropa. Rogo telegrafar urgente ao presidente da Repblica ou ao ministro da Guerra pedindo mandar mais quinhentos contos de ris. Faltando dinheiro, minha ao ficar grandemente prejudicada, se no completamente anulada, recorreu Floro, dessa vez, intermediao do ento presidente estadual, o desembargador Moreira da Rocha, de quem o prefeito do Juazeiro, Ccero, era fiel aliado. A persistncia e a articulao surtiram efeito. Quando a verba adicional foi aprovada, Floro Bartolomeu j havia decidido apostar parcela considervel daquele dinheiro em uma manobra ainda mais arrojada. Floro no se considerava satisfeito com os mil voluntrios que conseguira arregimentar. A fim de garantir o absoluto sucesso da misso, estava disposto a pagar uma pequena fortuna para engajar na luta contra Prestes pelo menos um homem a mais. Era realmente s um, mas valia por outros mil. Tratava-se do maior e mais feroz bandoleiro sertanejo de todos os tempos: Virgulino Ferreira da Silva. Para quem no ligava a fera ao 284. nome, bastava o apelido que lhe dera a fama: Lampio, o rei dos cangaceiros. Nos sertes pernambucanos do Paje, Virgulino olhou para o pequeno retngulo de papel escrito mquina, leu o contedo e, com cara de descrdito, devolveu a carta ao portador: Eu no vou. Isso est me cheirando a traio. Esto querendo me pegar, disse, ressabiado. A mensagem, caprichosamente datilografada em fita vermelha, prometia a Lampio mundos e fundos. Ele receberia generoso pagamento em dinheiro e a patente de capito do Batalho Patritico. Era uma chance de ouro para que abandonasse de uma vez por todas a vida atribulada de fora da lei, argumentava a missiva, que tambm flertava com a decantada vaidade do cangaceiro. Se derrotasse Prestes, sugeria aquela sedutora folha de papel, Virgulino seria condecorado pelo governo federal e viria a ser cortejado como grande heri nacional. As perseguies policiais teriam fim. Ele receberia salvo-conduto para trafegar por todo o serto, exibindo a todos o ttulo de capito Virgulino. No, eu no vou, repetiu assim mesmo. Parecia decidido. Mas o mensageiro insistiu: V, homem... A carta do padre Ccero..., recomendou o coronel Manuel Pereira Lins, vulgo N da Carnaba, conhecido protetor de cangaceiros. Desconfiado, Lampio conferiu de novo a assinatura do bilhete, manuscrita em nanquim. Estava l, letra por letra: Ccero Romo Batista. Se ficasse convencido de que era realmente o jamego do padre, o cangaceiro partiria absolutamente tranquilo. Tinha por Ccero o mais profundo respeito, a mais irrestrita confiana. Duas irms de Virgulino residiam no Juazeiro sob a proteo do sacerdote, sem nunca ter sido molestadas por ningum, muito menos pela polcia. Por causa daquela ligao familiar, alm do apreo que mantinha pelo Padim Cio, Lampio sempre poupara o Cariri das habituais selvagerias que tanto lhe fizeram o cartaz de bandido. Eu conheo bem essa letra... a assinatura do padre, garantiu N da Carnaba. Virgulino, finalmente, tomou a deciso. Mandou seus homens juntarem os trecos e se porem em marcha imediatamente. Iriam todos para o Juazeiro. Estavam sendo convocados pelo nico homem capaz de lhes ditar ordens e conselhos: o padre Ccero Romo Batista. Deus e o diabo iriam se encontrar na Terra do Sol. Ccero quase no acreditou quando leu o telegrama marcado com o duplo carimbo de urgentssimo e reservado. Eram pssimas notcias, constatou o padre. A Coluna Prestes ludibriara mais uma vez todos os adversrios. Em vez de despontar altura do municpio de Campos Sales, como estava previsto pelos despachos oficiais do governo, os revolucionrios haviam entrado no Cear pela cidade de Ipu, mais de quinhentos quilmetros ao norte. As autoridades ipuenses estavam pedindo arrego ao Batalho Patritico. No dia 12 de janeiro, a Coluna invadira o territrio do estado sem encontrar a mnima resistncia pelo caminho e, a partir de ento, passara a crescer o receio de que os rebeldes estivessem planejando um ataque macio a Fortaleza. Alarmado, Ccero mandou avisar a nova situao a Floro, que 285. concentrara todas as foras na posio inicialmente indicada como o provvel teatro de operaes. Na verdade, nem Ccero nem Floro ainda sabiam, mas aquela era uma das tticas diversionistas dos revolucionrios. Eles haviam se dividido em duas frentes antes de deixar o Piau para atacar o Cear em dois alvos distintos, recurso que sempre deixava o inimigo atarantado. Em Ipu, a ao de um destacamento de vanguarda comandado por um dos principais lderes do movimento rebelde, o capito Joo Alberto, apenas desviou a ateno para que o estado-maior da Coluna, chefiado pessoalmente por Lus Carlos Prestes, aproveitasse a confuso e investisse por outra faixa de terreno, cerca de apenas quarenta quilmetros do lugar em que estavam aquartelados Floro Bartolomeu e seus homens. Enquanto Ccero e Floro trocavam telegramas desencontrados, os dois braos da voltil marcha revolucionria j haviam convergido para um mesmo ponto, a vila de Arneiroz, situada a trezentos quilmetros de Juazeiro, s margens do Jaguaribe, considerado o maior rio seco do mundo. Floro estava com dois grandes problemas nas mos. O primeiro era deslocar no tempo mais curto que fosse possvel todo o contingente, alm de arrastar os vveres e a munio, pelas estradas enlameadas e cheias de buracos que ligavam Campos Sales a Arneiroz, distante duzentos quilmetros uma da outra. O segundo problema era ainda mais preocupante. Floro Bartolomeu no conseguia mais conduzir nem mesmo o peso do prprio corpo, que dir um exrcito inteiro. A sfilis corroa seu organismo e os efeitos colaterais dos medicamentos cobravam seu preo. Em Campos Sales, Floro caiu de cama, intoxicado, e s conseguiu se levantar aps a visita de um mdico, mandado buscar s pressas em Fortaleza. De automvel, o clnico geral Jos Paracampos, que mantinha um dos consultrios mais requisitados da capital cearense, acelerou em socorro ao colega agonizante, transportando-o depois em marcha lenta, para evitar solavancos, no caminho at o Juazeiro. Ao passo que Floro sofria com os safanes da estrada, Ccero dividia seus temores com o chefe da nao: Excelentssimo presidente Artur Bernardes [...] Nosso eminente amigo Floro Bartolomeu se encontra enfermo. Espero em Deus que sua preciosa vida no nos faltar neste grande momento nacional, em que a augusta personalidade de Vossa Excelncia encarna superiormente os grandes destinos da ptria. Viva o Brasil. Viva a Repblica. [...] Padre Ccero Romo Batista Com o mentor posto fora de combate, o Batalho Patritico seguiu como barata tonta na perseguio a Prestes. Demorou algum tempo at se perceber que a Coluna no pretendia seguir para Fortaleza e muito menos atacar o Juazeiro, como Ccero tanto temia. Os revolucionrios, como de costume, haviam plantado pistas falsas. A exemplo do que sempre faziam, evitavam as aglomeraes urbanas, onde a guerrilha por certo teria maiores dificuldades de ao. O verdadeiro objetivo de Lus Carlos Prestes era cruzar o semirido do Cear ao meio, para depois alcanar, do outro lado, os sertes do Rio Grande do Norte. Dali, ele e seus homens seguiriam adiante, desmoralizando a represso. Reforce o contingente e no deixe escapulir rebeldes, telegrafou Floro, abatido pela doena e pela decepo, ao 286. pasmado capito Pedro Silvino de Alencar. Mais rpido do que Silvino pudesse pensar em agir, a Coluna cruzou como um raio a fronteira potiguar e desceu em demanda Paraba. Ao passo que os rebeldes fugiam para longe do Cear, o acfalo Batalho Patritico se desfazia em disputas internas. Em Juazeiro, Ccero recebia seguidas denncias de que alguns dos jagunos alistados como voluntrios estavam desistindo da luta para promover arruaas, extorquir pequenos proprietrios de terras e desacatar chefes de famlia pelo interior do estado. A situao sara inteiramente de controle. Mesmo assim, como ltimo recurso, Ccero procurava demonstrar altivez. Com data de 20 de fevereiro de 1926, encaminhou uma carta aberta aos revoltosos. Venho vos convidar rendio, conclamava, logo na primeira linha. Fao-o firmado na convico de que presto servio ptria, por cuja grandeza tambm devem palpitar vossos coraes de patriotas. Acredito que j no nutris esperana na vitria da causa pela qual, h tanto tempo, pelejais com excepcional bravura, blefou. Como se estivesse em situao privilegiada, embora as circunstncias comprovassem exatamente o contrrio, Ccero prosseguia, enftico: Porque reconheo o valor pessoal de muitos dos moos que dirigem esta malfadada revoluo que ouso vos convidar, e a todos os vossos companheiros, a deporem as armas. Em troca da possvel rendio, o padre prometia dar garantias legais aos que capitulassem e assegurava advogar por eles junto s autoridades do governo federal. Deus queira inspirar a vossa resoluo, que aguardo com ansiedade e confiana, concluiu. Em suas memrias, o secretrio-geral da Coluna, Moreira Lima, confirmaria que aquela mensagem chegou, de fato, s mos de Prestes. Tivemos a oportunidade de ler essa carta, escrita com uma grande ingenuidade, mas da qual ressaltava o desejo ntimo e sincero do padre no sentido de conseguir fazer a paz. O revolucionrio Moreira Lima at fazia uma imagem positiva do sacerdote, embora seu diagnstico sobre o fenmeno do Juazeiro no diferisse daquele que a Igreja oficial dispensava questo. O padre Ccero no o homem mau que se tem dito, mas uma simples vtima do meio em que nasceu e vive, escreveria, para em seguida completar: A mesma crendice que fez Canudos ergueu o Juazeiro. No entender de Moreira Lima, Floro era o verdadeiro vilo, o gnio pervertido que arregimentara a galeria de tipos lombrosianos de que era feito o Batalho Patritico: Um governo de saqueadores dos cofres pblicos s podia ser defendido por uma horda dessa natureza. Enquanto isso, ainda sob os cuidados do doutor Paracampos, Floro imaginou que a nica chance de sobreviver molstia que o consumia era buscar tratamento especializado no Rio de Janeiro. No havia tempo a perder. Deixou instrues detalhadas a Ccero e partiu de automvel para o terminal da estrada de ferro em Misso Velha. Ali, pegou um trem expresso para Fortaleza e, no dia 18 de fevereiro, subiu a bordo do vapor Itassuc, um dos famosos itas da Companhia Nacional de Navegao Costeira, com destino capital federal. Na escala martima no Recife, ardendo em febre, Floro daria uma desconsolada entrevista ao pernambucano Jornal do Commercio. Ainda tentou contar vantagem ao reprter sobre o poderio da trincheira que armara em Campos Sales, mas ao final reconheceu que o Batalho Patritico fracassara, sem nunca ter conquistado a simpatia estratgica da populao do interior. Os nossos matutos no tinham uma ideia exata da situao, recusando-se a oferecer os elementos para a nossa defesa, que era, afinal, a sua. Animais e vveres, s com muita 287. dificuldade eu os conseguia, e em quantidades insuficientes, desculpou-se. No Juazeiro, uma das primeiras preocupaes de Ccero logo aps a partida de Floro foi tentar desfazer o convite que tinha sido lanado a Lampio em seu nome. Os rebeldes j haviam cruzado o rio So Francisco e seguiam cleres pelo interior da Bahia, de onde em pouco tempo alcanariam Minas Gerais. No fazia mais nenhum sentido manter a promessa feita ao cangaceiro. Assim, o padre mandou um emissrio ao encontro de Virgulino. O mensageiro o alcanou altura da cidade de Barbalha, j nas cercanias do Juazeiro. Era tarde demais para fazer o opinioso bandido mudar de ideia e dar meia-volta. Virgulino queria ver padre Ccero. Ia cobrar cada vrgula do que lhe havia sido prometido. Foi a beata Mocinha quem primeiro correu apavorada para avisar Ccero: Meu padrinho, aconteceu uma desgraa! Lampio est aqui, no Juazeiro! frente de 49 comparsas, com os fuzis e punhais reluzindo ao sol, Virgulino se abrigou preventivamente em uma modesta casinha de taipa, nas adjacncias da fazenda que pertencia a Floro Bartolomeu, s margens da rodagem. Foi l que o delegado da cidade, o sargento Jos Antnio do Nascimento, pensou em mandar embosc-lo, mas logo depois desistiu de tal intuito ao receber um firme recado de Ccero. Ningum importunasse Virgulino, recomendava o padre e prefeito. Era um convidado de Floro. Mesmo com o doutor ausente, atacar Lampio depois de convid-lo ao Juazeiro seria uma traio, coisa que o cdigo de honra dos sertes abominava. Deixassem, portanto, o homem quieto. O prprio Ccero cuidaria de se entender com ele mais tarde. Livre e desimpedido para entrar na cidade, Virgulino e seus homens rumaram para o centro. Ficaram hospedados no sobradinho do poeta popular Joo Mendes de Oliveira, localizado na rua Boa Vista, no muito distante de onde morava Ccero. A chegada do clebre grupo de cangaceiros atraiu, claro, a ateno da cidade inteira. Pelos clculos das testemunhas da poca, 4 mil curiosos foram receb-lo. Os moradores mais antigos do Juazeiro ainda recordariam, anos depois, com o mesmo misto de temor e fascnio, as peripcias da estada de Lampio no sobrado do poeta, no qual permaneceu acomodado por trs dias seguidos. Dona Assuno Gonalves, uma das afilhadas prediletas do padre, relembraria a gargalhada sonora do cangaceiro diante do alvoroo das crianas que disputavam as moedas atiradas por ele pela janela. As mooilas do Juazeiro, igualmente alvoroadas, obviamente sem o consentimento dos pais, espreitavam pelas frestas da porta de casa, na esperana de pr a vista naquele homem to admirado quanto temido, o chapu enfeitado com espelhos e pataces de ouro. A gente morria de medo dele, mas no resistia a dar uma espiada, olhar o monstro de perto, suspiraria ainda, dcadas depois, uma entusiasmada dona Assuno. Somente quando o relgio da igreja marcou as dez horas da noite daquele 4 de maro de 1926, Ccero resolveu ir ao encontro do bandido, protegido da indiscrio da maior parte da cidade, que dormia. Segundo os poucos e privilegiados espectadores da cena, o padre teria tentado de todas as formas convencer Lampio a se regenerar: Virgulino, se voc no se arrepender logo, ser um condenado de Deus. Vai direto pro 288. Inferno, queimar pelos tantos crimes que traz nas costas, dissera-lhe Ccero. Com tal perorao, o padre tentava reproduzir o ocorrido quatro anos antes, quando Sebastio Pereira da Silva, mais conhecido pela alcunha de Sinh Pereira, perigoso bandoleiro pernambucano que aterrorizara o agreste, decidira largar o cangao a seu conselho. Por obra e graa de Ccero, o arrependido Sinh migrou para Gois e posteriormente fixou-se em Minas Gerais. Casou, teve filhos, largou de beber, parou de fumar e nunca mais empunhou uma arma. Porm, ao renunciar ao vcio e ao crime, deixara como sucessor em seu bando um ento jovem discpulo de apenas 24 anos, que apesar da pouca idade j se destacava entre os demais comparsas: Virgulino, o futuro Lampio. Se um dia convertera Sinh, Ccero no via por que no tentar pacificar o mais abominvel de seus discpulos. O nico encontro de que se tem real notcia entre os dois mitos exponenciais de toda a histria nordestina padre Ccero e Lampio atiaria a fantasia sertaneja e renderia uma enxurrada de verses contraditrias. Houve quem dissesse que Lampio se ajoelhou aos ps do sacerdote chorando remorsos. Outros preferiram acreditar que o cangaceiro teria chegado a levar uma sova de cajado do padre. Mas havia tambm os que asseguravam que nada daquilo era verdade, que Ccero apenas teria dito a Lampio da inconvenincia de sua presena na cidade, j que o Batalho Patritico estava esfacelado. Pelo sim, pelo no, a imagem de Lampio em genuflexo diante de Ccero viraria tema recorrente de xilogravuras populares e adornaria, pelo serto afora, inmeras capas de folhetos de cordel. Histria e lenda se misturariam mais uma vez, sem que se tornasse possvel saber ao certo onde comeava uma e terminava a outra. Todavia, em duas entrevistas concedidas por Lampio ao correspondente do jornal fortalezense O Cear, o prprio cangaceiro disseminou ambiguidades em sua apotetica passagem por Juazeiro. Vim ao Cariri porque desejo prestar meus servios ao governo, teria dito ele, afirmativo, ao reprter Otaclio Macedo. Ao mesmo jornalista, quando indagado se por acaso pretendia abandonar o cangao, respondeu com outra pergunta: Se o senhor estiver em um negcio e for se dando bem, pensar, porventura, em abandon-lo?. Descontados o portugus escorreito e a colocao pronominal precisa atribuda pelo jornal fala do bandido, restaria daquelas duas entrevistas uma nica convico. Virgulino aproveitou a passagem por Juazeiro para praticar uma de suas diverses prediletas alm do roubo e do saque: exercitar o direito vaidade. Com efeito, o cangaceiro conseguiu fazer da passagem pela Meca sertaneja um acontecimento para a imprensa. Reuniu todos os parentes que moravam na cidade e posou junto deles para uma prosaica foto em famlia. Depois, empunhou o rifle para o fotgrafo Lauro Cabral, com o calculado objetivo de fornecer uma imagem impactante. Desfilou pelas ruas, doou dinheiro a romeiros, distribuiu autgrafos. Os reprteres, claro, quiseram saber o que o prefeito Ccero Romo Batista achava de tudo aquilo. Eu prevejo que muita gente agora, principalmente os meus desafetos, v dizer que estou mancomunado com Lampio, lamentou Ccero ao correspondente de O Cear. Aqui no Juazeiro eu recebo todas as pessoas que me procuram e fico satisfeito em prestar assistncia a um transviado da sociedade, procurando gui-lo no bom caminho, minimizou. Alm do mais, Lampio procurou o Juazeiro com intuitos patriticos, argumentou. Em meio festana cangaceira, Virgulino no esqueceu de exigir o cumprimento do acordo firmado por Floro Bartolomeu com a assinatura legtima de Ccero Romo 289. Batista. Lampio queria o dinheiro, as armas e a patente de capito, tudo conforme lhe fora prometido na carta batida mquina. Avisou que no iria embora antes disso. Ccero, que teria dado o prazo de trs dias para o cangaceiro abandonar a cidade, no viu outro jeito seno arquitetar um pequeno teatro para ver o bandido pelas costas o mais rpido que pudesse. Mandou chamar o nico funcionrio pblico federal disponvel em toda a cidade, o agrnomo Pedro de Albuquerque Uchoa, inspetor agrcola do municpio, para que lavrasse um documento no qual se atribua a Virgulino Ferreira da Silva 28 anos, brasileiro, natural de Vila Bela, Pernambuco, filho do falecido Jos Ferreira e da finada Maria Vieira da Soledade a patente de capito honorrio do glorioso Batalho Patritico do Juazeiro. A partir daquela data, equipado com armas do Exrcito e envergando o uniforme de brim azul-celeste, o empavonado Lampio fez questo de ser chamado, at o ltimo de seus dias, de capito Virgulino. No se tem notcia se levou tambm o dinheiro prometido por Floro, pois a verba adicional do Batalho Patritico estava retida no Rio de Janeiro por deciso do Tribunal de Contas da Unio, que viu ali indcios de malversao de recursos pblicos. Mal deixou o Cariri, Lampio constatou que o documento que lhe fora entregue por Ccero no evitava que continuasse a ser caado com a mesma virulncia pelos chamados macacos, as volantes da polcia. Em vez de seguir ao encalo de Prestes, decidiu ento prosseguir na vida de crimes. No voltaria a Juazeiro para pedir explicaes. Quando, mais tarde, fosse inquirido pelo jornalista e folclorista Leonardo Mota sobre a assinatura que apusera em um documento sem nenhum valor legal (a suposta patente e o salvo- conduto concedido ao rei dos cangaceiros), o agrnomo Pedro Uchoa deixaria escapar um risinho encabulado e o pedido esfarrapado de desculpas posteridade: Naquela hora eu assinava at a demisso do Artur Bernardes, quanto mais a nomeao de Virgulino... Um dia depois da partida de Lampio do Juazeiro, a 8 de maro de 1926, Ccero recebeu o fatdico telegrama do Rio de Janeiro: Floro Bartolomeu acabara de falecer, aos 49 anos, s cinco horas da tarde, na casa de nmero 83 da rua do Catete. Embora o atestado de bito no fosse conclusivo, quase certo que morreu vitimado pela intoxicao crnica decorrente do tratamento contra a sfilis, que inclua doses sistemticas de metais pesados, como o mercrio, e de arsnio e bismuto, capazes de provocar transtornos gastrointestinais, inflamaes na boca, depresso, fadiga, vmitos, alucinaes, tremores e descontrole motor, entre outros sintomas. Pouco antes, no dia 2 do mesmo ms, recebera o ttulo de general de brigada honorrio do Exrcito brasileiro, outorgado pelo presidente Artur Bernardes, em agradecimento ao desempenho frente do Batalho Patritico. Em face disso, no dia 9, o corpo de Floro desceu sepultura, no cemitrio So Joo Batista, em Botafogo, com direito a honras militares. Enquanto a tradicional salva de 21 tiros era disparada para o alto, via-se sobre o tmulo uma gigantesca coroa de flores que se destacava entre as demais. Na fita de seda, lia-se a ltima homenagem: Ao Dr. Floro Bartolomeu, do presidente da Repblica. O defunto condecorado pelo governo federal no mereceria a mesma glria por parte da Igreja do Cariri. Ao contrrio, todos os padres da diocese do Crato se recusaram a celebrar a 290. missa de stimo dia em inteno de sua alma pelo fato de ele ser um homem que sempre maldissera a f catlica. No imaginrio do catolicismo popular, isso equivalia condenao eterna. Deus criara o mundo em sete dias e depois descansara. Por analogia, sem a cerimnia fnebre do cabalstico stimo dia aps a morte, nenhum esprito descansaria em paz, nem mesmo a mais arrependida das almas poderia entrar no Cu. Para os romeiros do Juazeiro, era mais do que justo. O doutor Floro arderia para sempre nas chamas do Inferno. * * * Pelas regras da poca, seria necessria a realizao de uma nova eleio para escolher o substituto do deputado Floro Bartolomeu na Cmara Federal. Como de costume, polticos de todos os calibres foram a Juazeiro cortejar o apoio do enlutado Ccero, o maior cabo eleitoral de toda a regio. O sacerdote recebeu a todos os pretendentes indistintamente, tratando cada um deles com a mesma considerao, mas no declarou apoio a nenhum. Tenho recebido insistentes pedidos de vrios amigos, escreveu ao presidente estadual, Moreira da Rocha, explicando a situao. V, portanto, o meu nobre amigo que no pequena a dificuldade em que me encontro e, certamente, Vossa Excelncia e nossos amigos, na capital, ficariam nas mesmas dificuldades, para a escolha de um candidato dentre os muitos que se propem, explicou. Exatos dez dias aps o enterro de Floro, quando todos imaginavam que o velho padre debilitado pelo peso dos 82 anos j havia esgotado o repertrio de surpresas, Ccero anunciou a deciso: seria ele prprio o candidato vaga pela morte do amigo. Eu, absolutamente, no desejava, nem desejo, ser deputado. No podia, entretanto, diante do exposto, escusar-me, justificou a Moreira da Rocha. Como exigia a lei, Ccero passou a prefeitura do Juazeiro ao sucessor direto o presidente da Cmara Municipal, vereador Jos Eleutrio de Figueiredo, o popular Z Xandu e anunciou publicamente a sua candidatura, lanada de comum acordo entre os caciques estaduais do Partido Conservador e do Democrtico. A surpreendente notcia provocou reaes antagnicas. Os juazeirenses aderiram de pronto ideia e saram s ruas em defesa dela. A imprensa da capital, entretanto, bateu pesado na nova pretenso poltica de Ccero. Em Fortaleza, na edio de 9 de abril de 1926, coube ao jornal O Cear estampar em editorial a mais mordaz de todas as anlises: Assiste-nos a razo de salientar o ridculo que recair sobre ns com a recepo do povo carioca ao legendrio chefe dos fanticos. Imaginemos, por instantes, a cena grotesca que ser o desembarque, na capital do pas, do novo emissrio do povo cearense. [...] A figura do padre, com o seu longo basto de pastor de cinema, ao lado da beata Mocinha, de quem jamais se separa, constituir um nmero, servir de pasto aos jornais e revistas cariocas, durante uma semana. E quando, sempre de basto, sempre acompanhado da beata, ele for ao Catete retribuir os cumprimentos do chefe da nao a quem naturalmente chamar meu camaradinha, ento a cena ser de um pitoresco irresistvel. O protesto, apesar de ferino, caiu no vazio. Ccero Romo Batista foi eleito sem concorrentes, pois no houve sequer quem se aventurasse a enfrent-lo nas urnas. Com votao esmagadora, competindo apenas consigo mesmo, Ccero ganhou uma cadeira no Congresso Nacional. 291. 12 O velho padre est quase cego. Mas encontra foras para advertir: Getlio Vargas mensageiro de Satans 1927-1932 O pedreiro obedeceu ordem sem discutir. Com baques de marreta e alavanca, comeou a destruir a catacumba onde estava enterrado, havia 16 anos, o corpo da beata Maria de Arajo. Os tijolos de barro cederam aos primeiros golpes. No foi difcil pr abaixo aquela estrutura simples de alvenaria em forma retangular, de cerca de um metro de altura, sobre a qual os romeiros acendiam velas, punham flores e faziam oraes. O novo vigrio da parquia do Juazeiro, o padre cratense Jos Alves de Lima, determinara que o tmulo fosse removido de dentro da capela de Nossa Senhora do Perptuo Socorro. A justificativa era que o templo seria reformado e, entre as tantas tarefas previstas na obra, estava o nivelamento do piso. Como a sepultura de Maria de Arajo ocupava um espao privilegiado bem ao lado de uma das portas da entrada, padre Jos Alves decidiu elimin-la, sem ao menos se preocupar em obter a necessria licena para proceder exumao. Quando soube o que estava ocorrendo na capela, Ccero apressou-se em ir at o local. Ao chegar, encontrou o jazigo j aberto, semidestrudo. A tampa de cimento fora retirada e l dentro se via apenas o escuro vazio da tumba. O corpo de Maria de Arajo havia sumido. Em meio poeira e aos pedaos de tijolos, restavam fragmentos de pano e estilhaos do velho caixo de cedro, enegrecidos pelo tempo. Ningum sabia dizer ao certo para qual lugar os restos mortais da beata tinham sido levados. Ccero remexeu os escombros e encontrou ainda um escapulrio, o cordo do hbito marrom de so Francisco com que Maria de Arajo fora enterrada e um pequeno pedao do osso do crnio, onde se enredavam alguns fios de cabelo. Indignado com a profanao, recolheu cuidadosamente todos aqueles objetos a um pote de vidro e seguiu ao cartrio municipal para registrar sua revolta por escrito. A violao do tmulo foi de surpresa, sem preceder autorizao legal, sem conhecimento sequer do respeitvel zelador do cemitrio, o senhor Hildebrando Oliveira, dizia o texto lavrado por Ccero junto ao tabelio pblico da cidade, com data de 22 de outubro de 1930. A formalizao do protesto, com firma reconhecida, no impediu que o corpo de Maria de Arajo continuasse desaparecido. A Igreja nunca revelaria o paradeiro dos restos mortais da protagonista dos proclamados milagres do Juazeiro. Eles jamais seriam encontrados. Ns temos o direito de protestar contra essa transformao da bancada cearense em 292. asilo de invlidos, advertira o jornal O Cear ao eleitorado. De fato, sem energias para enfrentar viagens sistemticas capital federal, Ccero simplesmente deixara vazia a cadeira de deputado no Congresso Nacional. No foi ao Rio de Janeiro sequer buscar o diploma parlamentar decorado com o braso da Repblica. Preferiu retornar ao posto de prefeito do Juazeiro, para o qual voltou a ser eleito em 1926, sem encontrar nenhuma dificuldade nas urnas, como era presumvel. Nunca mais o padre poria os ps fora do Cariri. Com a morte de Floro, um personagem ascendera posio de principal preposto de Ccero Romo Batista: Joana Tertuliana de Jesus, a beata Mocinha. Aos 62 anos, a solteirona Mocinha assumira o papel no s de governanta e tesoureira, mas tambm passara a responder pela administrao dos bens do padre. Era ela quem recebia as esmolas e doaes deixadas pelos romeiros, mas tambm quem cuidava da compra, venda e arrendamento de imveis. Mocinha autorizava procuraes, consentia permutas, abonava doaes, decidia hipotecas. Nos arquivos do cartrio do Juazeiro ficaria documentada a vultosa movimentao financeira feita sob a rubrica da beata. As cifras alcanavam as vrias centenas de contos de ris. At a empresa encarregada de fornecer a energia eltrica para o municpio de Juazeiro, cujo capital somava a pequena fortuna de sessenta contos, estava no nome de Mocinha. Tambm eram oficialmente dela o matadouro e uma usina beneficiadora de algodo, alm de casas, prdios e stios espalhados pelo Cariri. Embora se soubesse que todas as propriedades, em ltima anlise, fossem de Ccero, era a beata quem assinava os papis e respondia legalmente por elas. Nada na residncia do padre se fazia sem o consentimento da velha, o que inclusive lhe rendera o epteto de Mandona. Sempre vestida com o hbito escuro, dona de personalidade forte, a onipresente Mocinha administrava com rdea curta a rotina da casa. Generosa Alencar, uma das muitas rfs criadas por Ccero, relembraria mais tarde: Ela nos orientava, vigiando-nos e corrigindo nossas atitudes negativas, dando-nos tarefas da vida domstica, no nos deixando muito espao entre o trabalho de puxar gua na bomba para o banho e a rega do jardim, pilar arroz entre as refeies, fazer croch e ir escola. Nos momentos de folga, ns tnhamos o direito de brincar com os filhos dos amigos do padre, que iam visit-lo diariamente [...]. Quando agamos de maneira negativa, esquecendo as boas maneiras, cometendo falhas no trato com a pessoas, ela dizia: Isso um bando de corja!. Mocinha passou a controlar tambm a frequncia das visitas ao sacerdote. Antes, a casa vivia em um entra e sai permanente, segundo Generosa: No havia interrupo entre o caf para os diversos convidados, que tanto era servido mesa como fora da sala de jantar. As pessoas sentavam-se em bancos pela cozinha e pelos alpendres. A mdia era de trinta a quarenta convidados diariamente, indo noite adentro, para lanches, caf, doces, bolos. Alm dos visitantes habituais, havia sempre a abundncia de romeiros, vidos por escutar uma palavra do padre, tocar-lhe a batina, beijar-lhe a mo. A sade frgil de Ccero no permitia mais que atendesse a todos, como fizera antes. Mocinha selecionava os poucos que podiam entrar na casa e, mais raros ainda, os que tinham direito a ser recebidos para alguns minutos de prosa. Isso ajudava a sedimentar a pecha de autoritria da beata, que de fato no hesitava em impedir, com gestos e palavras bruscas, o acesso dos que queriam adentrar fora no quarto do padre para simplesmente v-lo deitado na velha rede em que costumava 293. repousar desde criana, Ccero Romo Batista jamais dormira em uma cama. Justamente por aquele tempo, Ccero precisou se submeter a uma delicada interveno cirrgica para extirpar um antraz cutneo que lhe rebentara, doloroso, altura da nuca. O incmodo pelo inchao da pele e, depois, pela ferida aberta, impedia at mesmo o mais leve movimento no pescoo. A dor se irradiava pelos nervos dos braos e provocava tambm enxaquecas insuportveis. Numa poca em que ainda no existiam antibiticos, o antraz, ulcerao provocada pela bactria Bacillus anthracis, podia acarretar graves complicaes ao organismo: caso o micro-organismo viesse a cair na circulao sangunea do padre, provocaria uma infeco generalizada, podendo lev-lo morte. Para conduzir a operao, Ccero mandou buscar em Belo Horizonte um mdico afamado poca, o doutor Licnio Santos, autor de um ento polmico estudo, intitulado Loucura dos intelectuais, no qual se discutia a relao entre a inteligncia e a perturbao mental. Ao chegar ao Juazeiro, porm, Licnio deparou com a multido apinhada diante da casa do sacerdote e temeu ser alvo de um tipo bem peculiar de insanidade: aquela que por certo tomaria conta dos devotos, se o ilustre paciente, por algum motivo, no resistisse cirurgia. Enquanto mandava ferver os instrumentos cirrgicos, o mdico resolveu explicar os riscos a Mocinha. Com a devida autorizao da beata, saiu depois sacada da casa e advertiu s centenas de romeiros l fora que iria realizar um procedimento arriscado. O povo olhou para ele com ar de desconfiana, como se tentasse lhe adivinhar supostas intenes ocultas. Licnio evitou esmiuar os detalhes clnicos, o que o poupava da tarefa de tentar traduzir aos sertanejos, em linguagem leiga, a natureza da enfermidade progressiva de Ccero. Mas, ao mesmo tempo, precisava deixar todos bem prevenidos: sem a cirurgia, o padre morreria. Com ela, ningum podia garantir que continuasse a viver, mas as chances eram muito maiores. Um frmito logo tomou conta da massa. A ideia de ver o Padim Cio morto deixou todos terrificados. O que seria daquela gente sem seu protetor e guia? A quem apelariam na falta do padrinho? Depois de derramarem riachos de lgrimas e levantarem preces desesperadas ao Cu, os romeiros preferiram acreditar que Deus estava olhando por eles: o dedo de Nossa Senhora das Dores guiaria as mos do doutor Licnio. Durante o perodo de cerca de uma hora em que transcorreu a operao, os fiis no pararam de rezar a ave-maria e o pai-nosso por um nico segundo. Ao som daquela ladainha infinda, o mdico tentou se concentrar no trabalho: fez uma inciso em torno da ferida purulenta e constatou que j existia um princpio de necrose, o que significava um grau avanado de infeco local. Se a cirurgia houvesse demorado mais alguns dias, o resultado poderia ter sido devastador para Ccero. Depois de extrair todo o tecido morto ao redor da ulcerao, Licnio aplicou um curativo sobre o ferimento. Os devotos, enfim, respiraram aliviados. Licnio, mais ainda. Antes de se despedir, o mdico recomendou cuidados especiais ao doente. Por causa da sade cada vez mais abalada, a alimentao de Ccero, que nunca fora desmedida, teria de se tornar ainda mais frugal. Pela manh, somente ch e leite, acompanhados de nica fatia de po de l. No almoo, tinha direito a canja de arroz e mais outro copo de leite. noitinha, antes de dormir, apenas um prato de mingau. Entre as refeies, para ajudar no combate s fortes 294. dores intestinais que tambm sentia, recomendaram-se as purgativas xcaras de ch de abacate. As aparies pblicas do sacerdote, aos poucos, foram rareando. Porm, Ccero se sentiu no dever de fazer um esforo extra para prestigiar um evento que trouxe grande sensao cidade: a chegada dos trilhos da estrada de ferro ao Juazeiro. A partir daquele dia, 7 de novembro de 1926, o municpio passava a ter ligao direta com as demais estaes da Rede Viao Cearense, o que abreviava a distncia a Fortaleza para apenas um dia de viagem. Assim como Ccero, centenas de pessoas foram at a pequena estao ferroviria, embandeirada de verde e amarelo, para testemunhar a viso da primeira maria-fumaa estacionada no local. Muita gente subiu nos vages de carga para apreciar a maravilha mais de perto, mesmo depois de a caldeira soltar o longo chiado, as rodas de ferro rangerem sobre os trilhos e o apito anunciar a partida. Na viagem inaugural, Ccero, o convidado de honra, seguiu na locomotiva at o Crato, ao lado dos engenheiros da companhia. Ao acenar com o chapu preto para a multido, todos notaram que os gestos do padre estavam mais lentos, visivelmente penosos. Os que puderam contemplar-lhe o rosto mais de perto notaram que, alm das muitas rugas que desenhavam sulcos profundos na face emagrecida de Ccero, os caractersticos olhos azuis, que antes causavam alumbramento aos devotos, haviam perdido o antigo brilho. A pupila esquerda estava opaca, sem luz, esbranquiada pela catarata. O olho direito, avermelhado, lacrimejava sem parar. A serra do Catol, vista da janela da locomotiva, era apenas um borro verde e disforme para Ccero. Aps concluir mais um mandato frente do Executivo municipal, em 1929, Ccero era um ancio de 85 anos de idade. Depois de dezoito longos anos na funo, decidiu que enfim chegara a hora de escolher um nome para suced-lo frente da prefeitura. O ungido pelo extenuado Ccero foi o comerciante Alfeu Ribeiro Aboim, um elegante comerciante sergipano de cinquenta anos, que viria a fazer longa carreira poltica no Cear, j tendo ocupado antes a chefia do municpio de Quixad. A indicao no deixou de ser uma surpresa para os observadores mais atentos. Ex-aluno do Colgio Militar, antigo voluntrio do Exrcito na guerra contra Canudos, ningum poderia encarnar mais a anttese do velho padre, naquela eleio, do que Aboim. Contra o candidato, as ms-lnguas diziam que ele possua, em Fortaleza, chinelos reservados na casa de pelo menos meia dzia de mulheres, todas casadas com respeitveis figures da cidade. Aquilo podia no passar de maliciosa fofoca, porm havia motivos mais objetivos para um catlico conservador como Ccero v-lo com certa desconfiana. Sabia-se que Aboim participava das sesses de mesa branca do Centro Esprita Cearense, do qual alis chegou a ser primeiro-secretrio. Alm disso, comentava-se boca mida que articulava a fundao da primeira loja manica do Juazeiro, fato que viria a se confirmar no muito tempo depois, quando a filial juazeirense do Grande Oriente abrisse as portas. Entretanto, pelas contingncias da poltica, o moralista Ccero, incansvel pregador contra o adultrio, a maonaria e o espiritismo, declarou apoio incondicional a Aboim. Muitos chegaram a acusar 295. o padre de senilidade. Mas a explicao para o caso era de outra ordem, bem pragmtica: o candidato sara diretamente do bolso do colete do presidente estadual, Jos Carlos de Matos Peixoto. Na verdade, a barganha municipal tinha como principal horizonte a eleio para presidente da Repblica, marcada para maro do ano seguinte. Matos Peixoto, de olho no imenso capital eleitoral do padre, firmara com ele um trato poltico. Aceitaria a indicao de dois apadrinhados caririenses de Ccero ao parlamento federal; em troca, pedia no s o apoio ao nome do correligionrio Aboim para prefeito do Juazeiro, mas, em especial, a adeso do sacerdote chapa do governador paulista Jlio Prestes Presidncia do Brasil. Naquela que viria a ser a mais polmica das eleies gerais da Repblica Velha, Jlio Prestes, o candidato oficial do Palcio do Catete, enfrentaria o gacho Getlio Vargas, candidato da oposicionista Aliana Liberal sucesso de Washington Lus. Ccero no titubeou na hora de escolher de qual lado ficaria. Com ou sem trato, ele j havia tomado sua deciso. O padre encontraria foras para lanar uma bombstica carta aberta aos fiis: A horda vermelha ameaa, com sua garra de abutre, destruir a nossa felicidade, perturbando a paz no Brasil e abalando seus fundamentos seculares e a prpria organizao da famlia, clula mater da sociedade crist, ditou Ccero, j quase inteiramente cego, a um de seus secretrios particulares, apondo a assinatura trmula, mas perfeitamente reconhecvel ao final da mensagem. Acenando com a falsa bandeira do liberalismo, a Besta-Fera do Apocalipse atira suas patas de fogo contra a estabilidade de nossas instituies. Ai daqueles que prestarem seu auxlio aos inimigos de Deus, advertia. As lavas ardentes do vulco bolchevista lamberam a face da terra e sob os escombros da f, calcinadas pelas labaredas do Anticristo, fizeram ressurgir Sodoma e Gomorra. Getlio Vargas estava longe de ser um bolchevique, como acusava Ccero. A plataforma poltica de Getlio vinha na esteira dos movimentos militares que, ao longo de toda aquela dcada, pregavam a necessidade de moralizao da Repblica. Porm, o discurso de que a transformao nos costumes polticos teria de chegar de uma vez por todas, por bem ou por mal pelo voto ou pela revoluo foi o mote que acabou contagiando os comits oposicionistas espalhados pelo pas. Mesmo nos sertes mais distantes, as flmulas vermelhas da Aliana Liberal podiam ser vistas tremulando ao sol. De p, cristos brasileiros! Guerra de morte aos que empunham a bandeira vermelha do liberalismo para estancar em nossas almas a fonte perene da f e entreg-la inerme nos braos de Satans, diria a carta aberta de Ccero. No Juazeiro, a demonizao dos adversrios surtiu efeito. A eleio municipal, como sempre, foi mero protocolo. Ancorado no apoio de Ccero, Alfeu Aboim elegeu-se prefeito com 97% dos votos vlidos, esmagando o oposicionista Joo Bezerra de Menezes, candidato do diretrio juazeirense da Aliana Liberal. Contudo, to logo se viu eleito, Aboim aderiu mar vermelha. Virou as costas ao padrinho poltico e resolveu passar de malas e bagagens para o ninho dos liberais. Ccero, claro, sentiu-se atraioado. Fiel portador das dores do padre, um panfleto annimo passou a circular de mo em mo pelas ruas da cidade: Alfeu Aboim, alm de haver trado miseravelmente o grupo poltico que o elegeu bandeando-se para a Aliana Liberal, no teve, como qualquer homem de bem o 296. faria, a coragem de renunciar ao mandato que, em confiana, lhe fora entregue. A Cmara Municipal, integralmente formada por aliados do ex-prefeito Ccero Romo Batista, props um boicote nova administrao, incitando os comerciantes juazeirenses a no pagar impostos ao traidor do padre Ccero. Ato contnuo, os vereadores decidiram eles mesmos desprezar o resultado das urnas e no empossar Aboim, passando o cargo ao presidente da Casa. Ccero no fez nenhuma declarao oficial a respeito do episdio, embora o silncio deixasse evidente sua adeso ao golpe. Pouco antes disso, o descontentamento pblico do padre j dera ensejo a que se assistisse a um inslito atentado poltico, do qual a imagem de Aboim sairia, literalmente, enodoada. Quando passeava de palet e gravata-borboleta pelas ruas centrais da cidade, o sorridente prefeito eleito distribua acenos de agradecimento ao povo quando, de sbito, foi abordado por um popular que trazia um malcheiroso balde mo. Antes que Aboim lhe percebesse o intento, o homem despejou-lhe todo o contedo do balde sobre a cabea. Eram fezes humanas. Durante muito tempo, os juazeirenses ainda relembrariam a cena, repetindo a mesma e escatolgica pilhria: E o Aboim, heim? Morreu de vergonha! , morrer, no morreu... Mas escapou fedendo. Joo Pessoa, presidente estadual da Paraba e candidato a vice-presidente da Repblica na chapa encabeada por Getlio Vargas, considerou insultuoso o telegrama que o padre Ccero Romo Batista lhe enviara: Caso me fosse permitido, pediria ao iminente amigo, mesmo com sacrifcio de quaisquer paixes pessoais, procurar uma soluo que pusesse fim a esse lamentvel estado de coisas, em que vidas preciosas e a riqueza da terra paraibana vo sendo destrudas na voragem de uma luta fratricida. Joo Pessoa avaliou que Ccero, do fundo de uma rede, intrometia-se em questes que no lhe diziam o menor respeito. Naquele momento, Pessoa enfrentava uma revolta no interior paraibano, mais especificamente no municpio de Princesa, onde um mandachuva local, o coronel Jos Pereira Lima, estava repetindo os mesmos expedientes de que Floro Bartolomeu lanara mo no Cear em 1914. Com a complacncia do Palcio do Catete, Jos Pereira rompera com o governo estadual, destitura as autoridades municipais e proclamara a independncia da cidade em relao Paraba, instituindo um singular Territrio Livre de Princesa, que passara a ter jornal, bandeira e hino prprios. Filhos valentes de Princesa, avante! Da terra molhada com o vosso sangue nascero tantas flores e tantos frutos que nunca mais a inclemncia do Sol tostar os vossos campos, dizia o editorial do primeiro nmero do carbonrio Jornal de Princesa. O artifcio era conhecido e as intenes de Jos Pereira, claras. Com a sedio, ele pretendia provocar a interveno federal na Paraba e a consequente destituio do inimigo poltico Joo Pessoa do comando estadual. Com o propsito de bombardear as pretenses eleitorais do oposicionista Getlio, o Catete incentivou a desordem no quintal do candidato a vice da Aliana Liberal, recusando-se a mandar o Exrcito reprimir a revolta. Jlio Prestes, 297. diretamente interessado na pendenga, foi ainda mais explcito: providenciou o envio de armas e munies da polcia paulista para equipar os jagunos de Jos Pereira, que j ameaavam seguir de garrucha em punho numa marcha a p pela Paraba, do mesmo modo que fizera o exrcito sertanejo de Floro Bartolomeu, dezesseis anos antes, no vizinho Cear. O telegrama de Ccero a Joo Pessoa usava de floreios verbais e certos laivos de lisonja para tentar convenc-lo a abandonar a luta, o que deixaria caminho livre para o avano dos rebeldes financiados pelos cofres do governo paulista. Em mais uma mensagem ditada aos secretrios, o padre recomendou: Como amigo que sou de Vossa Excelncia, tomo a liberdade de sugerir a convenincia de retirar as foras do campo de batalha e, logo que seja reconhecido o novo presidente da Repblica, Vossa Excelncia, com honra e superior dignidade, carter forte e inquebrantvel, volte ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Militar, cargo esse que Vossa Excelncia tem exercido com elevado patriotismo e sbia prudncia. Enfurecido, Joo Pessoa replicou em termos firmes, mas no se permitiu perder a compostura, mantendo intacta a liturgia do cargo: Padre Ccero, [...] Aceitar a proposta do meu nobre amigo, perdoe-me a franqueza, seria sacrificar a prpria dignidade e trair os meus conterrneos. Estou dentro da lei. Os criminosos, pois, deponham as armas e se entreguem, confiantes, aos ditames serenos da Justia. Saudaes cordiais, Joo Pessoa O governante da Paraba no estava disposto a ceder. Sabia que, na guerra, todas as armas eram vlidas, especialmente a informao ou, no caso, a desinformao. Por isso, ordenou que um pequeno avio sobrevoasse Princesa, despejando sobre a cidade um boletim ameaador, redigido pelo secretrio de Segurana estadual, Jos Amrico de Almeida. Dentro de quatro horas Princesa ser bombardeada por aeroplanos da polcia e tudo ser arrasado, lia-se no boletim, que no passava de mais uma pea de fico da lavra do romancista Jos Amrico, autor de um clssico da literatura regionalista brasileira: A bagaceira. A fora area da Paraba se resumia a trs aeronaves: o inofensivo bimotor que lanara os panfletos sobre os revoltosos e mais dois outros avies sucateados, que jamais conseguiriam levantar do cho. Enquanto o presidente da Paraba punha em ao a guerra psicolgica, o chefe do Territrio Livre de Princesa decidia recorrer a uma ameaa real: conquistar a ajuda de Ccero Romo Batista. Como tinha cincia de que o padre declarara apoio eleitoral a Jlio Prestes e lanara uma furibunda carta aberta contra Getlio, Jos Pereira o cortejou para que enviasse as armas e munio porventura remanescentes do Batalho Patritico de Juazeiro, a fim de alimentar o poder blico dos rebeldes paraibanos. Ccero, contudo, negou fogo. Se sugerira a Joo Pessoa o abandono da refrega, decidira tambm no manifestar apoio ao lado oposto. A minha situao de sacerdote e amigo de todo esse povo do Nordeste me impe o dever de s interferir em movimentos como o que a se esboa no sentido de evitar uma luta fratricida de 298. destruio entre irmos, contemporizou. Confio que o caso ser solucionado pelos meios mais convenientes e legais, porque estou certo de que o presidente Washington Lus no deixar ao desamparo os amigos que estiverem ao seu lado. O padre acertou no varejo, mas errou no atacado. Washington Lus realmente tinha total interesse em permanecer dando suporte a Jos Pereira e s peripcias do Territrio Livre de Princesa. Mas a soluo definitiva para o caso no decorreria de meios convenientes e legais, como Ccero previra. O inesperado assassinato de Joo Pessoa, no dia 26 de julho de 1930, arrastaria os fatos repentinamente para outra direo. Um aliado de Jos Pereira, o advogado Joo Duarte Dantas, ficara possesso quando a polcia paraibana lhe invadira o escritrio e apreendera uma pilha de documentos particulares. No meio dos papis confiscados, foi junto a correspondncia amorosa trocada entre Dantas e uma bela professorinha da cidade, Anade Beiriz, apelidada nos saraus literrios paraibanos de a pantera dos olhos dormentes. O jornal do governo estadual, A Unio, divulgou trechos da correspondncia privada de Dantas, informando aos leitores que existiam no pacote tambm certas cartas ntimas, classificadas de impublicveis, mas que estariam inteiramente disposio de quem quisesse l-las na redao. Em represlia, um alucinado Dantas abasteceu o tambor do revlver e cravejou trs tiros em Joo Pessoa, quando este placidamente tomava ch com torradas, na companhia de aliados, numa luxuosa confeitaria do Recife. A morte de Joo Pessoa, principal alvo da rebelio de Jos Pereira, ps fim revolta de Princesa, mas arrastou o pas para uma revoluo muito maior, que iria mudar a histria brasileira para sempre. A Aliana Liberal, que sara derrotada nas eleies presidenciais cerca de trs meses antes e alegava fraude nas urnas, tinha a partir de ento um mrtir e uma justificativa para levar a conspirao para as ruas. Jlio Prestes, o candidato vencedor na disputa pela Presidncia da Repblica, jamais tomaria posse. No dia 3 de outubro, um movimento armado explodiu simultaneamente no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, conquistando de imediato a simpatia popular e a adeso instantnea dos quartis. A conflagrao se multiplicou em vrios focos pelo pas, inclusive no Cear. Um major rebelde, Joo Leal, telegrafou a Ccero para avis-lo que a marcha revolucionria estava a caminho do Cariri. O meu povo no tomar armas nesta luta entre irmos, respondeu o padre. Acuado, o presidente estadual Matos Peixoto tambm enviou mensagem a Ccero, para conclam-lo resistncia, embora precisasse lhe dar uma pssima notcia: diante das circunstncias, o governo estadual se via obrigado a transferir todo o contingente policial do Juazeiro para Fortaleza, com o intuito de reforar as tropas da capital cearense contra o avano rebelde. Em outras palavras, o padre teria de se arranjar sozinho com seus romeiros, sem contar com um s soldado da tropa oficial. Deixo o Cariri entregue ao seu esclarecido e patritico prestgio, desobrigou-se Peixoto. Apesar da desfeita, a resposta de Ccero foi em tudo oposta que dera ao revolucionrio major Leal: Para defesa do governo de Vossa Excelncia, tenho tantos homens quantos forem precisos, faltando, porm, armas e munio. Palavras ao vento. quela altura, a revoluo j estava plenamente vitoriosa. Um dos lderes do movimento, o cearense Juarez Tvora, encarregado de coordenar as aes no Nordeste, seria o prximo a telegrafar a Ccero, no dia 8 de outubro, para inform-lo que o Cear seria o prximo estado a cair. Rio Grande do Sul, Paran, Santa Catarina, Minas 299. Gerais, Pernambuco, Paraba, Rio Grande do Norte e Piau esto totalmente em poder dos revoltosos, enumerou Tvora a Ccero. Apelo para o seu brilhante passado, suas virtude excelsas e patriticas, a fim de que aconselhe o presidente Matos Peixoto a renunciar, evitando o derramamento do sangue generoso dos nossos irmos. Naquele mesmo dia, Matos Peixoto abandonou o Palcio da Luz e embarcou em um navio ancorado no cais de Fortaleza, para ficar a salvo de um possvel ataque sede do governo local. Ao receber aquela informao, Ccero telegrafou uma polida e cautelosa resposta a Tvora: Ciente do vosso atencioso telegrama de hoje, que muito me honra, cumpre-me dizer-vos no ser mais necessria minha interferncia junto ao presidente Matos Peixoto, visto j haver este renunciado ao governo do estado. A revoluo de 1930 levaria Getlio Vargas Presidncia da Repblica e, ao mesmo tempo, faria uma limpa geral nos comandos polticos de estados e municpios do pas, nomeando interventores para o lugar dos ento governantes regionais. No Cear, a interveno ficaria a cargo de um irmo de Juarez Tvora, Manoel do Nascimento Fernandes Tvora, que por sua vez designaria como interventor municipal do Juazeiro o farmacutico Jos Geraldo da Cruz o dono do jornal O Ideal, que tempos antes medira foras com a incendiria Gazeta do Juazeiro de Floro Bartolomeu. Como demonstrao de que pretendia inaugurar uma nova era na vida de uma cidade que crescera de forma desordenada sombra da f, Geraldo da Cruz adotou uma batelada de novas regras para o reordenamento urbano do Juazeiro. O objetivo era claro: disciplinar o desenvolvimento at ento anrquico do municpio, provocado pelo longo histrico das migraes e romarias. Sob a ideologia da higienizao social e evocando a civilidade dos costumes, o interventor obrigou os juazeirenses a remodelar e conservar as caladas pblicas diante de casa, a construir parapeitos padronizados nas residncias e a no jogar lixo e entulho nas ruas, sob a ameaa de pesada multa em caso de desobedincia. Entretanto, nenhuma daquelas medidas provocou maior impacto e maior consternao popular do que a determinada pelo decreto de nmero 751, de 9 de setembro de 1932, no qual se exigia a remoo imediata dos retratos de pessoas vivas que porventura estivessem afixados nas paredes das reparties pblicas. Naquela mesma manh, a fotografia oficial de Ccero foi retirada do prego no qual estivera pendurada por 21 anos, em lugar de destaque, no salo nobre da prefeitura do Juazeiro. Se o padre no quisesse que ela fosse recolhida poeira do depsito municipal, onde faria companhia apenas a uma pilha de trastes inteis, que mandasse ento busc-la por um portador, informava um ofcio. Em casa, Ccero ficou desolado. A histria no poder obscurecer o contingente de minha contribuio, mandou dizer ele em resposta ao interventor. E solicitou: Comunico-vos que autorizei o senhor Jos Duviges a receber o aludido retrato e peo-vos mandeis lavrar, da entrega, um termo, no competente livro dessa repartio, a fim de que fique perpetuada a ocorrncia, que julgo de importncia para a futura histria da nossa terra. Para Ccero Romo Batista, aquilo era o equivalente a um destronamento simblico. Impedido que estava de subir aos retbulos da Igreja, tambm fora rebaixado, para sempre, 300. dos altares do mundo poltico. No lhe restavam mais foras suficientes para reagir. Muito menos, tempo. Provavelmente, naquele dia, Ccero j havia comeado a morrer. 301. 13 Cego, atormentado pelas dores, o padre agoniza 1933-1934 De olhos vendados, sentado na rede, Ccero acalentava um ltimo desejo: poder voltar a enxergar. Rodeado pelas beatas, o mdico pernambucano Isaac Salazar da Veiga Pessoa, professor da cadeira de clnica oftalmolgica da Faculdade de Medicina do Recife, comeou a remover lentamente os esparadrapos e a desenrolar a faixa de gaze que fixava os curativos ao rosto do padre. Cerca de dois meses aps completar noventa anos, Ccero se submetera em Juazeiro a uma cirurgia de catarata. Pagara vinte contos de ris pelos honorrios do mdico. Na ocasio, ficou patenteada a ausncia de liquidez do patrimnio do padre. Foi preciso que Ccero contrasse um emprstimo junto a um comerciante local a fim de obter os recursos necessrios, em papel-moeda, para honrar a conta do mdico. Meses depois, a beata Mocinha se veria na contingncia de ter de hipotecar um stio, alm de algumas casas no Juazeiro, em garantia daquela dvida. Embora o valor dos honorrios fosse elevado, Ccero no pensou em regatear. Para ele, nem mesmo uma montanha de dinheiro pagaria a ventura de voltar a enxergar o mundo de forma ntida. De antemo, o doutor Veiga Pessoa o desenganara em relao ao olho esquerdo: o cristalino j estava completamente fosco, sem nenhuma esperana de cura. O direito, tambm atacado pela molstia, tinha boas chances de reverso, de acordo com o que ficara constatado na avaliao clnica. Porm, o fato de Ccero ser um paciente idoso, nonagenrio, de sade frgil, era uma agravante que precisava ser levada em conta. quela poca, a remoo da catarata consistia em um procedimento de altssimo risco, com a utilizao de instrumentos pontiagudos, o que resultava s vezes em graves acidentes: no eram poucos os traumas oculares decorrentes da manipulao cirrgica. A operao de Ccero ajudou a corroborar as estatsticas: uma inciso inadequada provocou o prolapso da ris, o que tornou o processo duplamente complicado. Foi necessrio reconduzir a ris para o lugar original, o que exigiu redobrada percia do cirurgio. Ao final, o doutor Veiga Pessoa procurou tranquilizar o paciente. O imprevisto no traria maiores sequelas, garantiu. Pela previso do mdico, em pouco tempo, com a ajuda de culos apropriados, Ccero poderia contemplar novamente as imagens dos santos que conservava no pequeno oratrio particular. No foi exatamente a mesma coisa que o cirurgio afirmou em entrevista Gazeta do 302. Cariri, do Crato, quando aquele jornal quis saber se o padre Ccero Romo Batista recuperaria a viso em definitivo. Explicou: A vista do olho esquerdo est completamente extinta; a do olho direito, ora beneficiado pela operao de catarata, , infelizmente, de recuperao duvidosa, em vista da impropriedade fisiolgica das membranas e humores internos do globo ocular, j atingidos pela degenerao senil. O palavreado tcnico no escondia a suspeita de que a cirurgia fora em vo. Quando naquele dia, cercado pelas beatas, Ccero enfim se viu livre das vendas, veio o desapontamento. Sem as bandagens a lhe encobrir os olhos, discerniu apenas uma srie de vultos em sua frente. Era como se um denso nevoeiro houvesse baixado no quarto. Ccero continuava a ver as cores desbotadas e os objetos sem contorno preciso. Na verdade, no sentira nenhuma diferena significativa entre o antes e o depois da operao. Pelo contrrio, tudo parecia ainda mais desfocado. O oftalmologista, mais uma vez, procurou tranquiliz-lo. Aquilo era normal. Aps algumas semanas, a vista embaada cederia lugar a imagens progressivamente mais lmpidas. Em cerca de trinta a quarenta dias, Ccero estaria recuperado. A operao fora um sucesso, tentou convenc-lo Veiga Pessoa. Nas semanas seguintes, passado o perodo crtico do ps-operatrio, o quadro no evoluiu na velocidade esperada, a despeito de Ccero ter seguido risca a prescrio de fazer lavagens com soro fisiolgico a cada doze horas, aplicar colrios e submeter as veias do brao a doses dirias de injees de antiinflamatrio. Ccero continuava, como antes, praticamente cego. Percebeu ento que estava condenado a viver os ltimos dias envolto em um mundo de nuvens difusas. Tateando as paredes, distinguindo apenas sombras, esforava-se para permanecer por alguns minutos na sala de casa, mas logo depois se recolhia a seus aposentos, onde retornava a mergulhar, deprimido, no fundo da rede. Como se no bastassem as agruras da viso precria, os carbnculos voltaram a lhe brotar por todo o corpo. Febres e dores abdominais se tornaram rotineiras, s vezes acompanhadas de nuseas, vmitos, cimbras noturnas, inchao nas pernas. O mdico particular de Ccero, o doutor Manuel Belm de Figueiredo Sobrinho, proprietrio de uma farmcia no Juazeiro, diagnosticou a ocorrncia de uma nefrite: os antgenos decorrentes das infeces bacteriolgicas na pele haviam penetrado na corrente sangunea e, em consequncia, provocado graves leses nos rins de Ccero. A urina avermelhada, com presena de sangue, confirmava a suspeita. Exatos 35 dias aps a cirurgia de catarata, quando o padre deveria estar experimentando as primeiras melhoras na viso, sobreveio uma crise de dores intestinais to aguda que o doutor Figueiredo Sobrinho no quis mais responder sozinho pelo caso. Recorreu ajuda de um colega de ofcio, o doutor Mozart Cardoso de Alencar, que alm de mdico era conhecido na cidade pela verve de poeta fescenino, autor de estrofes de fazer corar at frades de pedra. Da lavra do doutor-poeta sairiam versos licenciosos, cujos ttulos bastariam para dar uma ideia do teor do restante de sua obra: Os peitos de Miriam, O dia do veado, Pomba mole. Mas, daquela vez, o caso no era para fazer graa, constatou Aguiar to logo chegou casa do padre, s vinte horas do dia 18 de julho de 1934, uma quarta-feira. 303. O aparelho digestivo de Ccero parara completamente de funcionar. Por baixo da batina, o ventre estava dilatado e enrijecido como rocha, parecendo prestes a explodir. Todos os chs purgativos trazidos pelas beatas no produziram nenhuma melhora. Os mdicos concluram que o quadro avanara para a obstruo total do intestino. Deitado na rede, o padre apenas gemia, contorcendo-se em dores lancinantes. Havia cerca de dois dias que no saa dali sequer para beber gua. A fraqueza extrema, provocada pela falta de alimentao e pela dor ininterrupta, deixara-o prostrado. Na vspera, fora-lhe aplicada uma injeo intramuscular de leo canforado, tnico base de cnfora e azeite de oliva, ento empregado como recurso extremo para fazer levantar pacientes em estado terminal. Mas nem aquilo surtira efeito. Sobrevieram apenas novos acessos de vmito, agora de odor nauseabundo. Ccero comeara a expelir matria fecal pela boca. Sem conseguir eliminar o contedo dos intestinos pelo reto, o organismo de Ccero reabsorvia as toxinas e se autointoxicava. Transferido enfim da rede para uma cama, o padre foi submetido a sesses de lavagem gastrointestinal, sempre acompanhadas da administrao de doses elevadas de laxantes. Por volta da uma da madrugada da quinta-feira, houve um momento fugaz de alvio. Ccero conseguiu dormir tranquilamente, por cerca de duas horas. s trs da manh, as dores retornaram ainda mais intensas, acompanhadas de suores abundantes e da queda fulminante da temperatura das mos e dos ps. Com a mo na barriga, o padre implorava, de olhos esbugalhados: Mozart, tire essa dor de mim, por Nosso Senhor Jesus Cristo, tire essa dor de mim! Aps cada cris