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I SLÂMICO : A PALAVRA , A VOZ E O GESTO 1 Francirosy Campos Barbosa Ferreira Introdução Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 29(1): 95-125, 2009 96 97F ERREIRA : A teatralização do sagrado islâmico: a palavra, a voz e o gesto

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  • Francirosy Campos Barbosa Ferreira

    A TEATRALIZAO DO SAGRADOISLMICO: A PALAVRA, A VOZ E O GESTO1

    Introduo

    O objetivo deste artigo apresentar um dos elementos performticos dareligio islmica: a salat (orao islmica). Para isso, discorro sobre oaprimoramento do muulmano por meio do comportamento restaurado (Schechner1985) e levo em considerao o conhecimento da palavra, o uso da voz (avocalidade [Zumthor 2001]) e o gesto.

    O artigo tambm suscita uma aproximao recorrente entre teatro2 eantropologia. Nesse sentido, importante frisar que vrios antroplogos j sedebruaram sobre essa temtica, dando enfoques diferenciados sobre o conceitode performance, ritual e teatro na antropologia (Turner 1982; 1986; Schechner1985; Goffman 1974; Tambiah 1985; Grimes 1995). Esses autores ampliaram omodo de ver no s os rituais, mas as experincias religiosas e o fazer teatral desociedades diversas. De certo modo, considero que a minha participao noNAPEDRA Ncleo de Antropologia, Performance e Drama3 contribuiupara uma maior reflexo a respeito do mtodo empregado por atores em suaprofisso e do processo de formao do muulmano. Ambos ensaiam, treinama sua performance: o muulmano, atravs do seu modo de vivenciar a religio,pautado pela repetio cotidiana da palavra sagrada, e o ator, ao construir

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    uma persona, uma personagem. Temos aqui a experincia de ser o outro,assumir um papel e transformar-se, como o caso do ator, mas tambm domuulmano, por acreditar que a sua religio fruto da ltima revelaoenviada por Deus e que, por isso, a promessa de mudana definitiva dohomem, tornando-o diferente dos demais seres humanos. Com essa aproximao,no pretendo essencializar o ser muulmano; ao contrrio, busco uma formade fundamentar a constituio do ritual da prece em uma outra perspectiva, ada antropologia da performance, que compe o que se convencionou chamar deantropologia das formas expressivas.

    O leitor pode estranhar a aproximao entre ator e muulmano, entreteatro e Isl, mas esse estranhamento se esvai quando lemos Victor Turner (1982;1986). Esse autor argumenta que a antropologia da experincia encontra, emcertas formas recorrentes da experincia social, entre elas os dramas sociais,fontes de forma esttica, incluindo o drama de palco. Para Turner, o ritualderiva do corao subjuntivo, liminar, reflexivo e exploratrio do drama social,onde as estruturas de experincia grupal (erlebnis) so copiadas, desmembradas,rememoradas, remodeladas. Segundo a viso desse mesmo autor, o mundo doteatro o da reparao, reparao como processo ritual4. Aqui tambm serpossvel evidenciar a orao como momento de reparao, momento de reparaoentre o fiel e Deus. A importncia da orao e do seu significado em comunidadesmuulmanas j foi explicitada por diversos autores (Mahmmod 2001; Henkel2005; Bowen 1989 em suas etnografias sobre as comunidades islmicas doEgito, da Turquia e da Indonsia, respectivamente).

    Este texto, portanto, est centrado em um contexto bem diferente doapresentado acima. No Brasil, a pluralidade religiosa contribui para diversasapropriaes no campo religioso. Contudo, me dedico h mais de dez anos pesquisa de comunidades muulmanas sunitas5 em So Paulo e So Bernardo doCampo. A observao da salat, nesse perodo, ajudou-me na escolha do exemploetnogrfico que norteia este artigo e revela o desempenho (performance) daqueleque se reverte6 ao Isl brasileiro7. O revertido aquele que volta, retorna ao Isl,pois na crena islmica todos nascem muulmanos, mas muitos se afastam. Esseretorno a Deus, portanto, considerado uma reverso. A escolha dos revertidoscomo exemplo etnogrfico deve-se ao fato de notarmos que esses aprendem asalat muito mais tarde do que um nascido muulmano, cujo aprendizadocomea ainda quando criana, ao observar seus pais rezando.

    Durante a pesquisa de mestrado realizada na comunidade do Brs (Ferreira2001), as mulheres me relatavam a dificuldade que encontravam de fazer aorao da tarde quando estavam no trabalho ou na escola, ou quando tinhamcrianas pequenas para serem cuidadas. Os homens, por outro lado, noexpressavam nenhuma dificuldade, a no ser a de cumprir a orao de sexta-feira, que obrigatria para os homens, uma vez que muitos deles so donos de

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    estabelecimentos comerciais. A frequncia s oraes de sexta-feira difere deuma comunidade outra, conforme exponho a seguir.

    Na Mesquita Brasil (ou Mesquita So Paulo, como tambm conhecida),localizada no bairro do Cambuci, a maior parte dos presentes nas oraes de sexta-feira de homens. Com a construo da Mesquita do Pari, situada entre esse bairroe o do Brs, o nmero de mulheres que frequentam a orao de sexta-feira aumentousignificativamente. Na Mesquita de Santo Amaro, localizada no bairro de mesmonome, comum encontrar um nmero maior de brasileiros. Nessa comunidade, afrequncia s oraes de sexta-feira no significativa em nmero de mulheres, aocontrrio dos homens. Por fim, na Mesquita de So Bernardo do Campo nicamesquita da regio do ABCD constatamos que a maioria dos frequentadores deorigem libanesa (assim como na maioria das comunidades sunitas em So Paulo) eencontramos um nmero maior de mulheres que participam da orao coletiva.

    A partir dessa breve apresentao das comunidades, possvel apontaralguns elementos relevantes para iluminao do contexto da pesquisa: 1- ascomunidades do Pari e de SBC apresentam um nmero maior de mulheres naorao de sexta-feira. Isso no quer dizer que as mulheres das outras comunidadesrezem menos ou apresentem uma adeso menor religio, por no frequentarema mesquita; 2- Na mesquita do Pari, nos ltimos anos, houve um aumento donmero de jovens que se reverteram ao Isl, mas h muitas muulmanas deascendncia rabe que residem na regio e que criaram o hbito de frequentara mesquita. Em SBC grande a presena de mulheres e crianas. A frequnciafeminina se deve, entre outros motivos, ao modo como essas so orientadas(preparadas) pelos Sheiks, seja em aulas semanais na mesquita, seja emacampamentos islmicos organizados pela comunidade, nos quais se destacasempre o discurso tradicionalista8 da religio.

    Alm disso, muito comum ouvir desses muulmanos, nas comunidadesque pesquisei e tambm nas comunidades virtuais do Orkut, as seguintesexpresses: Eu retornei ao Isl; Eu me reverti; A cada orao se faz melhor;A cada jejum se faz melhor. Essas expresses parecem reforar a idia decomportamento restaurado proposta por Richard Schechner (1985), pois emborase saiba que a perfeio inalcanvel, o empenho e a repetio em cada pilardo Isl9 so fundamentais.

    Para que se entenda a teatralizao da salat islmica, ser necessriocompreender a escritura islmica (palavra), a voz (vocalidade) e os gestos queinstauram a esttica necessria apresentao do modo como o comportamentorestaurado se realiza no cotidiano islmico, no cotidiano extraordinrio da orao10.

    Uma questo se coloca: ser que, no contexto islmico, existe umalinguagem ritual e outra do cotidiano? A dvida : como essa separao pode serpossvel, se o muulmano deve rezar cinco vezes ao dia e, portanto, a religioest inserida em seu cotidiano?

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    Arrisco dizer, contudo, que nem tudo s ritual ou apenas cotidiano. Emse tratando de Isl, esses significados so compartilhados. Ritual e cotidiano seconfundem, se misturam, assim como o prprio linguajar. Aquele que realmentevivencia a religio, no sentido pleno11, adere s palavras e ao comportamentodo ritual at mesmo em seu dia-a-dia, sendo que os ritos apenas intensificamesses momentos habituais. Outros muulmanos se realizam nos rituais, e hainda casos de pessoas que no praticam a religio e, no entanto, so incapazesde burlar alguns de seus elementos, tais como comer carne de porco e/ou ingerirbebidas alcolicas. Como em qualquer religio, cada um se apropria dos elementosdo simbolismo religioso como acha que deve, ou como considera mais cmodopara o cotidiano no qual est inserido.

    O argumento aqui no diz respeito apenas confirmao do fato de quese aprende a ser muulmano, mas se refere quilo que se aprende (ao que seapreende) e ao sentido desse aprendizado, que se repete (se recupera) a cada diae a cada orao. preciso ter em mente a idia de Geertz de que o sistema desmbolos atua para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposiese motivaes nos homens e, alm disso, que ser devoto no estar praticandoalgum ato de devoo, mas ser capaz de pratic-lo (1989:104-105; 110). Para oautor, qualquer ritual religioso envolve a fuso simblica do ethos com a visode mundo e resulta nos ritos mais elaborados e mais pblicos. nesse sentidoque penso as revertidas que irei apresentar mais adiante: elas podem no conhecerprofundamente os passos da orao, mas j apresentam disposio para repetira ao religiosa. No entanto, considero que o sistema religioso islmico no meramente constitudo por aqueles que praticam a religio, mas tambm porquem tem a disposio para atuar nesse sistema simblico12. Por isso reafirmo aimportncia de pensar essa disposio por meio da teoria da performance, pois atravs de uma repetio corporal que se d a salat.

    Este artigo est dividido em trs partes: Perspectivas tericas da Antropologiada Performance (Ritual); Revertidas e o sistema simblico islmico a seraprendido; A salat: gestos em direo a Meca, ruku e rakaat.

    1. Perspectivas tericas da Antropologia da Performance (Ritual)

    ... Mostrar-se fazendo performar: apontar, sublinhar e demonstrar a ao. Explicaraes demonstradas o trabalho dos Estudos da Performance.

    (Schechner 2003: 26, grifos do autor)

    Richard Schechner, diretor de teatro, manteve um dilogo profcuo comVictor Turner e props-se a elaborar um modelo original de investigao eanlise antropolgica de eventos performticos (Silva 2005:48). Seu foco oteatro (performer e audincia), a fim d