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A REVOLTA

Santiago Serrano

santiagoms_2000@yahoo.com

Traduzido por Arton Dantasdanthas@uol.com.br

O texto est registrado e protegido pelas leis da propriedade intelectual.Para sua utilizao necessrio solicitar autorizao ao autor.santiagoms_2000@yahoo.com

Malva: anci, me dEle e de Martn

Sara: jovem criada

Judith: esposa dEle

Antonia: vizinha, amiga de Malva

Martn: irmo dEle

Essa obra estreou em Buenos Aires, em 1984, no Teatro El Vitral. Ficou em cartaz por dois anos; reencenada em 1987, excursionou pelo interior da Argentina. Em 1992 estreou em Montevidu - Uruguai, com o elenco da Comdia Nacional Uruguaia.

A pea ambientada em uma zona rural, atemporal. Figurinos e cenografia ficam a critrio do diretor. Os modismos utilizados podem ser substitudos por outros, dependendo da regio escolhida para o desenvolvimento da ao.

Casa de Malva, que est sentada em uma poltrona, quase no centro do palco, e a permanecer durante toda a pea. uma mulher de cabelos grisalhos e despenteados; poderia ter mil anos. As pernas devem permanecer imveis; as mos, com total mobilidade. No pescoo, um guardanapo. A seu lado, Sara, com uma colher e um prato, lhe d de comer.

PRIMEIRO ATO

MALVA: (D um pequeno gemido) A perna... a perna direita... friccione minha perna... isso, filha, isso... Sinto ccegas...

SARA: Pronto, dona Malva (Obedece)

MALVA: Ah... assim... assim... Tomara que voc no envelhea... A gente chega a sentir asco da gente mesmo. Os vermes tomam conta do nosso corpo e, mesmo assim, queremos viver (SARA, ACOSTUMADA S SUAS LAMENTAES, SE DISTRAI E BRINCA COM A COLHER NA COMIDA) Vamos... acorda! Me d a comida! Assim no, tonta, devagar! (BATE NO BRAO DELA E DERRUBA A COMIDA) Me sujou... sujou a mo...! Limpa! Ter que suportar que qualquer pessoa coloque comida na nossa boca, como se alimentasse uma galinha... (COM HUMOR) Essa sou eu... uma galinha velha e gorda (GARGALHADA) Acho que a ltima coisa que vou perder a risada... No se surpreenda se eu der uma boa gargalhada quando me enterrarem e eu sentir a terra fria e mida. Sabe, Sara, no tenho medo da morte. No exige luta nem coragem... Esta agonia me faz mais forte que cem deles. Quero mais comida. Cuidado com a colher. Devagar. Isso. Assim. Eles querem que eu exploda. Para eles seria a melhora maneira de acabar tudo. Eles acham que eu serei enterrada no tmulo do meu filho;

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que vo cobrir dois corpos com a mesma p de terra. Porcos de merda, esto enganados! No ser to simples. Vou viver cem anos, mil! Serei imortal para que eles no se esqueam que um dia tero de enfrentar sua ausncia. Meu babo...minha besta... minha criatura... Ainda me lembro do cheiro da merda. Ah! A merda nas suas fraldas! (COLOCA AS MOS NO VENTRE) Parece mentira que este corpo tenha parido um filho algum dia; que esta terra fosse frtil e voluptuosa para o amor. Raiz seca. Sou uma rvore seca, de quem arrancaram seu melhor fruto, o mais saboroso. Filhos da puta! Filhos da puta! (COSPE) Mais, quero mais comida. Pronto, tenho que estar forte pra esperar seu regresso. Vamos, outra colherada, cheia... (SARA ATENDE AO PEDIDO) Outra. (SARA ATENDE AO PEDIDO). Outra... (SARA ATENDE AO PEDIDO), outra...

MALVA: (AO FILHO QUE ACABA DE ENTRAR.) Voc est vindo de l?

MARTN: Sim, da casa grande.

MALVA: Como foi tratado hoje?

MARTN: Como sempre, bem.

MALVA: Eles sabem tratar seus criados.

MARTN: (IRRITADO) Eu no sou um criado.

MALVA: No se ofenda. Criado ou empregado, que diferena faz?

MARTN: J disse que cuido da contabilidade.

MALVA: Veja s o sinhozinho, Sara! Conta em detalhes o que esses abutres roubam. Isso no trabalho de macho. Por que no colocam uma das muitas putas que tm no bordel?

MARTN: Nunca se cansa de me ofender?

MALVA: Eu no te ofendo, digo o que penso. No sei como no sentes vergonha?

MARTN: Vergonha de qu? De trabalhar?

MALVA: Nem parece meu filho!

MARTN: Por que no estou preso?

MALVA: Sim. Te preferia preso ou morto a v-lo castrado por estes.

MARTN: No vou suporta-la mais. (VAI SAIR)

MALVA: Martn! (SUAVE.) Vem... deixa de ser bobo, vem...!

MARTN: Pra qu?

MALVA: Deixa disso. Senta aqui. (MARTN TITUBEIA.) Anda, Sara, traga um pouco de doce... do que te agrada.(MARTN SENTA-SE A SEU LADO. SARA OBEDECE.) Mandei preparar pra voc...

MARTN: (PROVA COM O DEDO) Mmm!

MALVA: Tem um cigarro?

MARTN: Toma, velha

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MALVA: (ACENDENDO.) Alguma notcia do teu irmo?

MARTN: Ah!... Agora entendo a sua mudana.

MALVA: Sem rodeios.

MARTN: (DEVOLVE O DOCE)

MALVA: Sabe ou no sabe de algo novo?

MARTN: pra isso que serve eu trabalhar l?

MALVA: Se no vai falar v embora.

MARTN: Ouvi dizer que vo lev-lo para um lugar mais seguro.

MALVA: Sentem medo os senhores!

MARTN: Est preso e isso ningum pode mudar.

MALVA: (COM ANSIEDADE CRESCENTE.) Quando o levaro?

MARTN: Hoje mesmo.

MALVA: Pra onde?

MARTN: Isso eu no sei. (ENTERNECIDO PELA EMOO DA ME) No se torture mais... ao menos lhe fico eu... no gosto de v-la assim. Eu... a amo.

MALVA: No posso enquanto ele no voltar. (PARA SI) Durante horas e horas fico em silncio tentando me lembrar do rosto dele. Penso em seus olhos, sua boca, todo seu corpo... como se estivesse pintando. Desde ontem tento me lembrar o que ele assobiava e no consigo. Memria cachorra a minha! O tempo apaga tudo. Depende de mim que sua imagem continue viva. Vem Aproxime-se. Mais. Voc tem que me ajudar... Voc se lembra o que ele assobiava?

MARTN: Acho que sim.

MALVA: Tente imit-lo.

MARTN: Se isso te faz feliz...

MALVA: Vamos,vamos coragem...! (MARTN ASSOBIA.) Isso, assim! Continua... (MARTN CONTINUA ASSOBIANDO) No, assim no. Outra vez. (MARTN RETOMA.) No! Faa um esforo, tente se lembrar! (MARTN RETOMA.) Assim no, tonto, coragem!

MARTN: No me lembro. Acho que nunca vou assobiar como ele!

MALVA: verdade, nunca foi nem poder ser como ele.

MARTN: No se esquea. A nica coisa que lhe resta recordar. S isso. (SAI)

MALVA: (ENQUANTO MARTN SAI.) Sara, venha aqui! Ouviu? Esto levando-o. Em campo aberto ser mais fcil. Espere o Martn se afastar da casa e v at a colina. No deixem que lhe veja. Voc j sabe o que tem que fazer. (ALGUM SE APROXIMA DA CASA.) Shh... silncio. (ENTRA JUDITH) Achei que no ia voltar.

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JUDITH: (TRAZ UMA CESTA COM FRUTAS E VERDURAS. COLOCA-A AO LADO DE MALVA) Sempre volto.

MALVA: Voc preferia no voltar.

JUDITH: No disse isso.

MALVA: Mas o que sente .

JUDITH: livre pra pensar o que quiser.

MALVA: Livre... Livre! (D UMA GARGALHADA) No sou to velha assim pra conhecer essa palavra. Demorou mais do que das outras vezes. No gosto que ande por a. As pessoas no vem com bons olhos uma mulher casada andando sozinha. Tenho certeza que voc ficou conversando com a peonada.

JUDITH: Estava com dona Antonia. Pergunte a ela se quiser. Fui a casa dela depois de recolher a rao.

MALVA: (OLHA AS SACOLAS.) To pouco te deram desta vez?

JUDITH: O encarregado disse que era o que a gente tinha direito; que aqui s tem um homem e as mulheres no precisam de muito alimento.

MALVA: E voc no falou pra ele que havia outro homem que eles levaram? Que a gente tem direito parte dele? No reclamou?

JUDITH: Se eu dissesse isso eles tirariam o pouco que me deram.

MALVA: Voc tem vergonha dele.

JUDITH: Basta! No comecemos como todos os dias.

MALVA: Voc no pensa mais nele.

JUDITH: Penso. Penso noite e dia. E mesmo se eu pudesse esquecer, a senhora se encarregaria de lembrar-me.

MALVA: minha obrigao. (FALSA) Venha, no fique irritada. Quero dormir. Voc me ajuda? Traga a manta. (JUDITH ATENDE AO PEDIDO) Suponho que voc no vai sair mais. Por que no descansa um pouco? Traga suas coisas.

JUDITH: Sim, dona Malva.

MALVA: Voc Sara, no se esquea do que eu disse.

SARA: No se preocupe.

JUDITH: (COLOCA UM COLCHONETE AOS PS DE MALVA, DEPOIS COBRE-A COM UMA MANTA NEGRA, TRANSPARENTE) Durma, senhora, durma.

MALVA: Me chame de madrecita.

JUDITH: Durma, madrecita.

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MALVA: Isso... isso... Quero me entregar ao rio escuro do sonho. Estou quase conseguindo v-lo, Judith. Se eu pudesse recordar o que ele assobiava... Est ali, cansado, mas forte e belo como no dia em que se foi. Ai est eu vejo, Estou vendo... vendo... (DORME)

JUDITH:Por fim dormiu! (SENTA-SE E ESTICA AS PERNAS) Estou cansada. Estou com os ps doendo de tanto andar. A velha no foi capaz nem de me comprar sapatos. "Tem que andar descala", me disse, "assim voc se acostuma a sua nova terra". Tem m entranha, ndole ruim. Nunca me quis.

SARA: Dona Malva gosta de voc.

JUDITH: Me mantm de p para quando chegar o seu machinho.

SARA: Quer que eu massageie suas pernas, como fao com Dona Malva?

JUDITH: Quero.

SARA: (PEGA UMA BACIA COM GUA E JUDITH COLOCA OS PS) Vai ficar nova em folha. Tem lindos ps.

JUDITH: Ele gostava dos meus ps. Antes eram delicados; agora... olha os calos!

SARA: E os meus, ento? Olhe minhas patas ,dona, parecem cascos!

JUDITH: Que vida de merda essa. Ele me trouxe pra c. Levou me de minha casa. J te falei do meu pas, Sara?

SARA: (RINDO) Sim... a nico coisa que fala. Aqui tambm bonito.

JUDITH: Pra voc pode ser, porque no conheceu outras terras. Tudo aqui chato. Chamam a isso de Pampa. Pampa!... (RI)

SARA: No entendo dona. Mas Para mim no tem graa nenhuma.

JUDITH: Na praa da minha cidade havia uma guia enorme parada no centro de uma fonte. Eu me sentava sua sombra e ficava sonhando que ela me