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  • O Hipertexto como Limite da Ideia de Enciclopdia

    1. A caminho de um modelo temtico

    De forma surpreendente, na segunda metade do sculo XX, quando seria de

    esperar que, face ao progresso acelerado e especializao exponencial do

    conhecimento, o movimento enciclopedista se visse condenado a desaparecer, adoptasse

    uma frmula exclusivamente especializada ou sucumbisse ao esforo de uma

    actualizao constante e vertiginosa1, assistimos, no apenas ao renovar do interesse

    pela enciclopdia, como ao revigorar da sua figura, ao reorganizar das suas estruturas,

    ao repensar dos seus propsitos.

    Aps o abandono do projecto enciclopedista do positivismo lgico, comea a

    configurar-se a tendncia, que se reforar na dcada de sessenta, para dotar a

    enciclopdia de um modelo estrutural mais capaz de conglomerar a disperso

    informativa a que o projecto enciclopdico est cada vez mais sujeito. O primeiro sinal

    havia j sido dado no clebre artigo de Lucien Febvre (1935) de apresentao da

    Encyclopdie Franaise (1935-66) dirigida por si e promovida por Albert de Monzie.

    Tal como foi pensada por Lucien Febvre, a enciclopdia deveria encaminhar-se no

    sentido de substituir a exigncia positivista de cobertura integral dos contedos

    especficos de cada disciplina, por uma estrutura temtica, integradora e compreensiva.

    1A partir do sculo XX, as enciclopdias passam efectivamente a fazer um enorme esforo de actualizao. As enciclopdias mais importantes contam com equipas que visam uma actualizao constante, publicando diversos tipos de suplementos, livros anuais com informao actualizada relativamente a novas descobertas e teorias cientficas, a acontecimentos recentes, a figuras pblicas, etc. Sobre o mecanismo de "actualizao contnua" da Encyclopaedia Britannica, veja-se Prefcio sua 15 edio (1973-1974, vol. I: XII). A este propsito, refira-se ainda uma curiosa tentativa de actualizao constante da enciclopdia, surgida logo no inicio do sculo XX: a Nelson's Encyclopaedia ou Perpetual Loose-leaf Encyclopaedia que Thomas Nelson comeou a publicar em 1907, constituda por 12 volumes em formato de cadernos que podiam ser facilmernte abertos e fechados e nos quais deveriam ir sendo includas novas pginas publicadas duas vezes por ano. Para mais informaes sobre esta obra, cf. Cherchi (1990: 29-30).

  • Tratar-se-ia, segundo L. Febvre (1935: 12), de no perder de vista o sentido etimolgico

    da ideia de enciclopdia enquanto "rotao completa do horizonte dos saberes" e de

    reconhecer no homem o "centro comum" potenciador do conhecimento e compreenso

    dos principais problemas que o homem se coloca e procura resolver. Como Lucien

    Febvre explica, h que abandonar a ordem alfabtica e organizar a enciclopdia em

    torno dos principais problemas de cada campo do saber, preferir enumerao

    exaustiva dos factos conhecidos a perspectivao alargada e viva dos principais

    problemas em aberto2, comear pelos instrumentos mentais de que o homem se pode

    servir (a lgica, a linguagem e a matemtica) para estudar problemas tais como Matria

    e Energia, Universo estrelar, Planeta Terra, Vida e Mundo vivo, Homem fsico, Raa,

    Espcie, Histria, Estado, Guerra, Sistema econmico, Tempos livres, Jogos e

    Desporto, Leitura, Vida mental, Artes e Literatura, Religies, Filosofia e finalmente a

    Mquina, utenslio material com que se fecha o crculo com que o homem "envolve

    aquilo que hoje vive, age, pensa e se pensa a si prprio" (Febvre,1935: 12).

    As enciclopdias mais inovadoras vo efectivamente rejeitar tanto a estrutura

    alfabtica contnua e homognea como a organizao disciplinar e adoptar uma

    estrutura temtica. A tendncia para reduzir significativamente o nmero das entradas,

    seleccionando aquelas cuja pertinncia, actualidade ou capacidade de irradiao

    justifique um tratamento alargado e compreensivo. Como mostra Salzano (1973: 562),

    estamos agora, perante um modelo de enciclopdia que se caracteriza pelo seu carcter

    selectivo e integrado. Selectivo, na medida em que o nmero das entradas tende a

    diminuir; integrado, na medida em que se acentua a natureza teoricamente abrangente

    de alguns dos artigos. Daqui decorre que, tendo desaparecido as articulaes

    disciplinares que ligavam as vrias entradas, a estrutura da enciclopdia passe a ser

    descentrada. Ao acentuar a potencial multiplicidade combinatria das suas entradas, a

    enciclopdia vai criar mecanismos que visam facilitar, junto dos seus leitores, a

    disperso dos itinerrios de leitura. Veremos como as principais enciclopdias - tanto a

    Encyclopaedia Britannica, a partir da sua 15 edio (1973-1974), como a

    Encyclopaedia Universalis (1968-1975) e a Enciclopedia Einaudi (1977-1984) - passam

    2Curiosamente, tambm a Encyclopdie Franaise de Lucien Febvre adopta o modelo do caderno aberto moda de Nelson (cf. supra, nota 2). O objectivo porm, no tanto a adio contnua, constante e sempre renovada de novas informaes, mas a abertura simblica da obra s transformaes do conhecimento.

  • a apresentar esquemas potenciadores da sua prpria descentragem, modelos grficos

    que visam favorecer a flutuao infinita das leituras possveis.

    margem desta tendncia, continuam claro a aparecer enciclopdias

    estruturadas de forma exaustivamente alfabtica. o caso da Collier's Encyclopaedia

    (1962) nos Estados Unidos, da Enciclopedia Europeia (1977-1984) em Itlia e da

    Grande Encyclopdie Larousse (1971-1976), em Frana. Porm, mesmo a, surgem

    artifcios editoriais que visam combinar a apresentao alfabtica das entradas com o

    tratamento mais desenvolvido de alguns temas. Por exemplo, na Enciclopedia Europeia,

    certas entradas, cujos temas so considerados de maior interesse, so acompanhadas,

    por ensaios de maior desenvolvimento e consistncia terica de acordo com um sistema

    de texto em duas colunas. De modo similar, na Encyclopdie Larousse, so intercalados

    dossiers com uma estrutura formal que permite a sua fcil identificao.

    Vejamos, entretanto, com maior detalhe, que novidades apresentam as

    enciclopdias mais significativas.

    2. Variante problemtica

    Na Encyclopaedia Universalis (1968-1975) encontramos, pela primeira vez,

    uma separao ntida entre a parte temtica, o Corpus propriamente dito da

    enciclopdia (16 volumes), a parte lexical, o Thesaurus-Index (3 volumes) que inclui

    ainda diversos ndices remissivos, e um volume final, Organon, que, a par de alguns

    estudos de conjunto, apresenta uma pluralidade de sugestes de cruzamentos e leituras

    possveis. Esta tripartio interna da enciclopdia eloquente. Ela introduz trs

    novidades importantes. Em primeiro lugar, a reduo drstica da tradicional

    componente lexical da enciclopdia. Referimo-nos ao Thesaurus, composto por uma

    pluralidade de entradas curtas, alfabeticamente ordenadas e concentradas em apenas trs

    volumes (nmero que, na terceira edio, de 1990, alargado para 7 volumes). Em

    segundo lugar, a valorizao da dimenso temtica da enciclopdia face estrutura

    disciplinar caracterstica do precedente modelo positivista. O Corpus - parte nobre da

    enciclopdia que se desenvolve ao longo de 16 volumes (nmero que passa para 23

    volumes a partir da edio de 1990) - composto por um conjunto de entradas longas,

    exposies de carcter sinttico e histrico-crtico tematicamente organizadas. Em

  • terceiro lugar, o facto de a sugesto de leituras possveis passar a merecer uma ateno

    explcita num volume a isso inteiramente dedicado - o Organon - em particular na

    seco "Tableaux de relations" (Encyclopaedia universalis, vol. XVII: 593-625). Porque

    tem conscincia de ter sacrificado a facilidade de consulta que a exaustiva ordem lexical

    permite, a enciclopdia vai apostar nas possibilidades de irradiao e cruzamento dos

    temas por ela tratados, quer reforando o trabalho de indexao, quer sugerindo pistas

    de leitura, traando antecipadamente percursos de investigao, prevendo modos

    diferenciados de utilizao, numa palavra, fornecendo todo um arsenal de recursos

    exploratrios que visam facilitar e potenciar o acesso informao veiculada.

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    (figura 1 - "Tableaux de Rlations", in Encyclopaedia Universalis (1968-1975), XVII: 623) 3

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    Note-se que no estamos perante nenhuma representao do sistema dos

    saberes ou da estrutura objectiva do Mundo, mas apenas perante mecanismos

    metadiscursivos, redes conceptuais constitudas por exemplos estratgicos de possveis

    3No deixa de ser significativo que um dos 15 exemplos escolhidos para ilustrar articulaes temticas tenha ainda uma referncia privilegiada ao conceito de rvore.

  • articulaes e irradiaes, sugestes de percursos de leitura e de vias de investigao

    no-habituais. Como se pode ler na nota introdutria com que Claude Grgory abre o

    Organon, "cabe ao leitor fazer funcionar a obra" (1968-1975, vol. XVII: XI).

    Significativo ainda o volume Symposium. Trata-se de um volume

    acrescentado aquando da 2 edio da obra4, que no s refora a componente temtica

    da enciclopdia, como inaugura um estilo problemtico de que o enciclopedismo tinha

    sempre estado afastado. O volume constitudo por 135 ensaios que se querem, no j

    monografias (panoramas to completos, imparciais e objectivos quanto possvel) mas

    verdadeiros artigos, assinados e representativos da posio