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ISSN 0101-4838 39

tempo psicanaltico, Rio de Janeiro, v. 45.1, p. 39-59, 2013

O gozo na topologia borromeanaAndra Mris Campos Guerra

O gozo na topologia borromeana: um novo paradigma?

Andra Mris Campos Guerra*

RESUMOPartindo de uma reviso dos seis paradigmas do gozo no ensino de Jacques La-

can, propomos um stimo a partir da topologia borromeana. Nele, a lgica excedente, ou disjuntiva, da relao entre gozo e linguagem substituda pela lgica ex-sistente, que funda um fora que no um no-dentro. Nesse paradigma, o gozo est referido a um suplemento que resta da operao de amarrao dos trs registros, real, simblico e imaginrio, como tratamento ao Outro do Outro que no existe. Lacan prope uma costura entre imaginrio e saber inconsciente, atando o simblico e o real e produzindo, com isso, o efeito sinthoma. Seu resultado o efeito real de amarrao da realidade psquica na forma do n a quatro, com a distribuio de trs formas de gozo inscritas enquanto ex-sistncia em relao aos pontos de interseco dos trs registros.

Palavras-chave: gozo; topologia borromeana; Outro; sinthoma.

ABSTRACTJouissance IN THE BORROMEAN TOPOLOGY: A NEW PARADIGM?

Based on a review of the six paradigms of jouissance in JacquesLacan, we propose a seventh from the Borromean topology. In it, the surplus or disjunctive logic between jouissance and language is replaced by the ex-sistence logic, which founds an outside that is not a non-inside.In thisparadigm, jouissance is a supplement that is left by the operationof tying the knot of three rings (real, imaginary and symbolic) asa treatment of the Other of the Other that does not exist.Lacan proposes a seambetween imaginary and unconscious knowledge, tying at the same time the symbolic and the real, producing therefore the sinthome.Its result is the real effect of binding the psychic reality in the form of four rings with the distribution of three forms of jouissance.

Keywords: jouissance; borromean topology; Other; sinthome.

* Professora do Departamento de Psicologia da UFMG. Minas Gerais, Brasil. E-mail: andreamcguerra@gmail.com.

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INTRODUO

Lacan (1969-1970/1992) desejava que o campo do gozo fosse chamado de campo lacaniano. Ele utilizou o termo, nos primeiros anos de seu ensino, tal qual Freud o fazia com Lust, enquanto si-nnimo de alegria, prazer, xtase e volpia. O carter excessivo do prazer, conotado como jbilo mrbido ou como horror, era tomado por Freud pelo termo Genuss. Este no conceituou o gozo, ainda que tenha delimitado seu campo pelo mais-alm do princpio do prazer.

Para Lacan, prazer e gozo se opem. O gozo um conceito que, com ele, ganhou diferentes vicissitudes, assim como em Freud a te-oria da pulso e a libido. Alguns autores formalizaram essa discusso no ensino lacaniano (Braunstein, 2007; Miller, 2005; Valas, 2001), que ganhou uma sistematizao objetiva com J.-A. Miller (2000). Para este autor, cujo esforo de traduo do texto lacaniano o conduz a uma anlise constante da obra, teramos seis paradigmas do gozo em Lacan, que podem conviver, no sem conflitos, nos mesmos pe-rodos de transmisso.

Aqui nos interessam, para alm dessa discusso do conceito ao longo da obra, as relaes entre topologia borromeana e gozo. Para esse fim, partiremos de uma apresentao sucinta desses paradigmas para nos concentrarmos na seguinte questo clnica: como se apre-senta, a partir da teoria borromeana, o tratamento do gozo? Lacan teria introduzido alguma via nova de trabalho a partir da?

OS PARADIGMAS DO GOZO NO ENSINO DE J. LACAN AT O SEMINRIO 20 (1972-1973/1982)

Para discutir os paradigmas, ns nos valemos da proposta de Miller (2000) sobre os seis paradigmas do gozo, elegendo trs aspec-tos para realizar essa articulao:

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1. a relao do gozo com os trs registros; 2. a relao do gozo com a satisfao (e, portanto, com a libido e a pulso); 3. e as aporias de cada paradigma, ou seja, seus pontos de impasse.

O primeiro paradigma, o da imaginarizao do gozo, acentua a disjuno entre significante e gozo, localiza a satisfao na liberao do sentido e apresenta tanto a libido quanto o gozo num estatuto imaginrio, no procedendo da linguagem ou da palavra. O eixo imaginrio apresentado por Lacan como fazendo barreira ao eixo simblico, como obstculo elaborao simblica de tal forma que quando a cadeia simblica se rompe que, a partir do imaginrio, os objetos, os produtos, os efeitos de gozo proliferam (Miller, 2000: 89). O equvoco desse paradigma lgico, na medida em que o ima-ginrio colocado ao mesmo tempo como fora e como dentro do alcance simblico.

No segundo paradigma, o da significantizao do gozo, o simb-lico sobrepe-se ao imaginrio. Vemos a consistncia e a articulao simblica do que imaginrio aparecer, quanto ao gozo, na identifi-cao das pulses estruturadas em termos de linguagem. Elas aqui so capazes de substituio e de combinao. O matema da pulso per-mite localizar o desejo pela via da demanda do ou ao Outro ( D), o que fortalece sua dimenso simblica. Alm disso, encontramos no fantasma ( ) o ponto em que libido e simblico se articulam, sendo ele o ponto de estofo entre os registros imaginrio e simblico. O falo concentra as articulaes importantes desse paradigma. Lacan no responde qual seria a satisfao da pulso, dado que ela reduzi-da a uma cadeia significante. O significante anula o gozo e o restitui sob a forma de desejo significado (Miller, 2000: 90). Seu impasse: o gozo seria todo simblico, quando, na verdade, o prprio objeto a veicula o que est fora da possibilidade de representao.

No terceiro paradigma, teramos uma ruptura em relao aos dois antecessores, que se misturam na obra de Lacan. Seu pon-

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to de virada o Seminrio 7, A tica da psicanlise (Lacan, 1959-1960/1991), no qual encontramos o gozo como impossvel. A partir da discusso da Coisa freudiana que no se trata de um termo simb-lico, nem de uma instncia imaginria , Lacan (1959-1960/1991) localiza a satisfao pulsional, a Befriedigung, na ordem do real. Na verdade essas duas instncias, simblicas e imaginrias, so constru-das contra o gozo real. Ele est fora do sistema, sendo alcanado apenas pela transgresso. A disjuno entre significante e gozo reapa-rece aqui, com a diferena de que o gozo real. A oposio prazer--gozo central e advm do fato de que a libido, enquanto Coisa, est fora da ordem significante-significado. O impasse est colocado na medida em que o inconsciente no inclui esse gozo como fora da simbolizao. Disso ele no pode falar. No nvel do inconsciente o sujeito mente. E essa mentira sua maneira de dizer a verdade acerca disso (Lacan, 1959-1960/1991: 94). O sintoma se estabelece sobre a barreira que separa significante e gozo. A sada desse impasse a formulao do objeto a, na medida em que a Coisa, como gozo ma-cio, no permite nenhum lao com o Outro.

No quarto paradigma, o do gozo normal ou do gozo fragmen-tado, o projeto intentado no segundo paradigma retomado, mas se conclui de maneira diferente a partir da introduo do objeto a. Localiza-se no Seminrio 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanlise (Lacan, 1963-1964/1998) essa retomada do projeto sim-blico para o gozo. O gozo no mais macio, abissal, acessado pela transgresso como no Seminrio 7 (Lacan, 1959-1960/1991). Encontramos o gozo acessvel por objetos pequeno a que se situam, ao contrrio, em pequenas cavidades e cujo acesso, normalizado, se faz pelo mecanismo da separao (em relao alienao). Da clivagem do significante e do gozo vemos nascer uma aliana entre eles. O gozo, ento, no mais um suplemento, mas parte de um sis-tema de funcionamento significante, sendo-lhe conexo. A separao comporta um funcionamento normal da pulso, que responde ao

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vazio resultante da identificao e do recalque. A libido aqui no mais desejo significado, nem das Ding, mas rgo, objeto perdido e matriz de todos os objetos perdidos. Eis aqui tambm a aporia desse paradigma: o objeto perdido uma perda independente do signifi-cante, uma perda natural, dissociada do sujeito significante porque associada ao corpo vivo, sexuado. O gozo, portanto, distribudo sob a figura do objeto a, ainda que articulado como parte do sis-tema significante. esse o ponto no qual o segundo paradigma retomado. A significantizao do gozo reintroduzida pelo objeto a, que substitui a noo de significante de gozo, sem deixar de apontar que o gozo falta no Outro. O que resta como gozo impossvel, fora da simbolizao, quando a libido retranscrita em termos de desejo (morto), aparece, ento, sob a forma significante grande phi do falo (Guerra, 2007).

No paradigma do gozo discursivo, o quinto, saber e gozo, ou significante e gozo, passam a ter uma relao primria, originria. O Seminrio 17, O avesso da psicanlise (Lacan, 1969-1970/1992) aparece fundando uma ruptura com o que o antecede, deslocando o fantasma em prol da repetio do gozo e estabelecendo, contra a au-tonomia do simblico, uma relao de causa e efeito entre significan-te e gozo, este causa e resto daquele. O ser prvio ao funcionam