o gato preto

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Material em slides com o conto de POE.

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  • Prof Elaine Pereira AndreattaCEAV

  • No espero nem peo que se d crdito histria sumamente extraordinria e, no entanto, bastante domstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus prprios sentidos se negam a aceitar. No obstante, no estou louco e, com toda a certeza, no sonho. Mas amanh posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu esprito. Meu propsito imediato apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentrios, uma srie de simples acontecimentos domsticos. Devido a suas consequncias, tais acontecimento me aterrorizaram, torturaram e destruram. No entanto, no tentarei esclarec-los. Em mim, quase no produziram outra coisa seno horror - mas, em muitas pessoas, talvez lhes paream menos terrveis que grotescos. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligncia que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligncia mais serena, mais lgica e muito menos excitvel do que a minha, que perceba, nas circunstncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucesso comum de causas e efeitos muito naturais.

  • Desde a infncia, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu carter. A ternura de meu corao era to evidente, que me tornava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia to feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu carter e, quando me tornei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que j sentiram afeto por um co fiel e sagaz, no preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfao que se pode ter com isso. H algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifcios, de um animal, que toca diretamente o corao daqueles que tiveram ocasies freqentes de comprovar a amizade mesquinha e a frgil fidelidade de um simples homem.

  • Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposio semelhante minha. Notando o meu amor pelos animais domsticos, no perdia a oportunidade de arranjar as espcies mais agradveis de bichos. Tnhamos pssaros, peixes dourados, um co, coelhos, um macaquinho e um gato. Este ltimo era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se sua inteligncia, minha mulher, que, no ntimo de seu corao, era um tanto supersticiosa, fazia freqentes aluses antiga crena popular de que todos os gatos pretos so feiticeiras disfaradas. No que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento. Pluto - assim se chamava o gato - era o meu preferido, com o qual eu mais me distraa. S eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

  • Nossa amizade durou, desse modo, vrios anos, durante os quais no s o meu carter como o meu temperamento -enrubeso ao confess-lo - sofreram, devido ao demnio da intemperana, uma modificao radical para pior. Tornava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadio, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me minha mulher. No fim, cheguei mesmo a trat-la com violncia. Meus animais, certamente, sentiam a mudana operada em meu carter. No apenas no lhes dava ateno alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porm, ainda despertava em mim considerao suficiente que me impedia de maltrat-lo, ao passo que no sentia escrpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o co, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porm, ia tomando conta de mim - que outro mal pode se comparar ao lcool? - e, no fim, at Pluto, que comeava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tornara um tanto rabugento, at mesmo Pluto comeou a sentir os efeitos de meu mau humor.

  • Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanas pela cidade, tive a impresso de que o gato evitava a minha presena. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violncia, me feriu a mo, levemente, com os dentes. Uma fria demonaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. J no sabia mais o que estava fazendo.Dir-se-ia que, sbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diablica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua rbita um dos olhos! Enrubeso, estremeo, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominvel atrocidade. Quando, com a chegada da manh, voltei razo - dissipados j os vapores de minha orgia noturna -, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas no passou de um sentimento superficial e equvoco, pois minha alma permaneceu impassvel. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrana do que acontecera.

  • Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A rbita do olho perdido apresentava, certo, um aspecto horrendo, mas no parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, minha aproximao. Restava-me ainda o bastante de meu antigo corao para que, a princpio, sofresse com aquela evidente averso por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritao. E, ento, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o esprito da perversidade. Desse esprito, a filosofia no toma conhecimento. No obstante, to certo como existe minha alma, creio que a perversidade um dos impulsos primitivos do corao humano - uma das faculdades, ou sentimentos primrios, que dirigem o carter do homem. Quem no se viu, centenas de vezes, a cometer aes vis ou estpidas, pela nica razo de que sabia que no devia comet-las? Acaso no sentimos uma inclinao constante, mesmo quando estamos no melhor de nosso juzo, para violar aquilo que lei, simplesmente porque a compreendemos como tal?

  • Esse esprito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondvel desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua prpria natureza, de fazer o mal pelo prprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplcio que infligira ao inofensivo animal. Uma manh, a sangue frio, meti-lhe um n corredio em torno do pescoo e enforquei-o no galho de uma rvore. Fi-lo com os olhos cheios de lgrimas, com o corao transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que no me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado - um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se que isso era possvel, da misericrdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrvel.

  • Na noite do dia em que foi cometida essa ao to cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incndio. A destruio foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo,e, desde ento, me entreguei ao desespero. No pretendo estabelecer relao alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqncia de fatos, e no desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incndio, visitei as runas. As paredes, com exceo de uma apenas, tinham desmoronado. Essa nica exceo era constituda por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama.

  • O reboco havia, a, em grande parte, resistido ao do fogo - coisa que atribu ao fato de ter sido ele construdo recentemente. Densa multido se reunira em torno dessa parede, e muita pessoas examinavam, com particular ateno e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expresses semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfcie branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatido verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoo do animal.

  • Logo que vi tal apario - pois no poderia considerar aquilo como sendo outra coisa -, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexo veio em meu auxlio.O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multido. Algum deve ter retirado o animal da rvore, lanando-o, atravs de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a inteno de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vtima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de p. A cal do muro, com as chamas e o amonaco desprendido da carcaa produzira a imagem tal qual eu agora a via.

  • Embora isso satisfizesse prontamente minha razo, no conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha conscincia, pois o surpreendente fato que acabo de descrever no deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impresso. Durante meses, no pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espao de tempo, nasceu em meu esprito uma espcie de sentimento que parecia remorso, embora no o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos srdidos lugares que ento freqentava, outro bichano da mesma espcie e de aparncia semelhante que pudesse substitu-lo.

  • Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, nu