o canto das sereias - primeiro capítulo

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Após anos de espera, chega às livrarias brasileiras a primeira aventura do personagem mais famoso de Val McDermid: o psicólogo clínico Tony Hill. O canto das sereias foi vencedor do Golden Dagger pela Crime Writers’ Association, categoria romance policial, e foi aclamado pela crítica, que elogiou a inventividade na criação do polêmico assassino.

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  • Rio de Janeiro | 2014

    VaL McderMid

    O CantO das sereias

    TraduoMichel Marques

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  • Do Disquete De 3 com a etiqueta: Backup.007; arquivo amor.001

    A gente sempre se lembra da primeira vez. No o que dizem sobre o sexo?

    Talvez isso seja mais verdadeiro quando se trata de um assassinato. Nunca me

    esquecerei de nenhum momento delicioso desse drama estranho e invulgar.

    Muito embora hoje, com o benefcio da experincia e da viso retrospectiva,

    considero aquela uma performance amadora, ainda consigo me empolgar, por

    mais que no alcance a satisfao.

    Apesar de no ter percebido antes que a deciso de agir me fosse imposta,

    eu vinha preparando o terreno para o assassinato com muita antecedncia.

    Imagine um dia de agosto na Toscana. Um nibus turstico com ar-condicionado

    nos levando a toda a velocidade de cidade em cidade, lotado de abutres da

    cultura do norte, todos desesperados para preencher cada instante de nosso

    precioso pacote de duas semanas com algo memorvel que compensasse Castle

    Howard e Chatsworth.

    Eu apreciara Florena, as igrejas e galerias de arte cheias de imagens

    estranhamente contraditrias de martrio e madonas. Havia escalado as alturas

    estonteantes do domo de Brunelleschi que coroava a imensa catedral. Minha

    empolgao era a escada sinuosa que leva da galeria at a minscula cpula

    acima, os degraus de pedra gastos, espremidos como sanduches entre o teto

    do domo e o prprio telhado. Era como estar dentro do meu computador, uma

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  • VAL McDERMID 14

    aventura real de RPG, percorrendo a trilha do labirinto lentamente e com difi-

    culdade at chegar luz do dia. S faltavam monstros para exterminar pelo

    caminho. E depois, emergir no dia claro e com a surpresa de que l em cima,

    no final dessa subida comprimida, havia um vendedor de cartes-postais e

    suvenires, um homenzinho moreno e sorridente, curvado por puxar suas mer-

    cadorias para cima h tantos anos. Se fosse mesmo um jogo, eu poderia ter

    comprado alguma magia com ele. Do modo como eram as coisas, comprei mais

    cartes-postais do que tinha para quem enviar.

    Depois de Florena, San Gimignano. A cidade surgia da plancie verde da

    Toscana, suas torres em runas fincando-se no cu como dedos que se agarram

    ao solo, da beirada de uma cova. O guia tagarelava sobre uma Manhattan

    medieval, outra comparao grosseira para adicionar lista que nos tinha

    sido impingida desde Calais.

    medida que nos aproximvamos da cidade, minha empolgao crescia.

    Em toda a Florena, eu vira os anncios da nica atrao turstica que real-

    mente desejava ver. Penduradas esplendidamente em postes de iluminao, des-

    lumbrantes em vermelho vivo e dourado, as faixas insistiam que eu visitasse

    o Museo Criminologico di San Gimignano. Consultando meu livro de frases

    de viagem, confirmei o que achava que as letras midas diziam. Um museu de

    criminologia e tortura. No preciso dizer que ele no constava em nosso

    itinerrio cultural.

    No tive trabalho de procurar meu destino; um folheto sobre o museu,

    completo com o mapa de ruas, foi-me entregue passados menos de dez metros

    do portal de pedra localizado nas muralhas medievais. Saboreando o prazer da

    expectativa, perambulei por algum tempo, maravilhando-me com os tributos

    desarmonia civil representados pelas torres. Cada famlia poderosa tivera

    sua prpria torre fortificada que defendia contra os vizinhos com todos os

    meios, de chumbo derretido a canhes. No auge da prosperidade da cidade,

    havia, segundo dizem, cerca de duzentas torres. Comparada San Gimignano

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    medieval, a noite de sbado nas docas depois do expediente parece o jardim de infncia; os marinheiros, meros amadores em desordem.

    Quando no pude mais resistir atrao do museu, cruzei a praa central, lanando uma moeda de duzentas liras bicolor no poo para dar sorte, e caminhei alguns metros por uma rua lateral, onde as agora familiares tape-arias enfeitavam as antigas muralhas de pedra. Com a excitao zunindo em mim como um mosquito sedento por sangue, adentrei o frio foyer e calma-mente comprei meu ingresso e um exemplar do guia do museu ilustrado em papel brilhante.

    Como posso comear a descrever a experincia? A realidade fsica era muito mais avassaladora do que eu me preparara com as fotografias, vdeos ou livros. A primeira pea em exposio era um potro, e o carto que o acom-panhava descrevia sua funo em adorveis detalhes em italiano e ingls. Os ombros se soltavam de seus encaixes; quadris e cintura se separavam, com o som de cartilagem e ligamentos sendo rasgados; a coluna se esticava, per-dendo o alinhamento at que as vrtebras se desmontavam como contas de um cordo partido. As vtimas, o carto dizia laconicamente, muitas vezes mediam entre quinze e vinte e trs centmetros a mais depois do potro. Que mentes extraordinrias tinham os inquisidores. No satisfeitos em interrogar seus hereges enquanto estavam vivos e sofriam, eles precisavam buscar mais respostas de seus corpos violados.

    A exposio era um testemunho da engenhosidade do homem. Como algum poderia no admirar as mentes que examinaram o corpo humano com tanta intimidade a ponto de arquitetar um sofrimento to sofisticado e precisamente calibrado? Com sua tecnologia de relativa rusticidade, aqueles crebros medievais criaram sistemas de tortura to apurados que ainda hoje

    esto em uso. Ao que parece, o nico aperfeioamento que nossa sociedade ps-

    industrial conseguiu conceber foi o frisson extra fornecido pela aplicao da

    eletricidade.

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    Eu andava pelas salas saboreando cada um dos brinquedos, dos espetos

    grosseiros da Dama de Ferro ao mecanismo mais sutil e elegante das peras,

    aqueles corpos ovoides delgados e segmentados que eram inseridos na vagina

    ou no nus. Depois, quando o roquete era girado, os segmentos se separavam

    e expandiam at que a pera se metamorfoseava numa estranha flor, com as

    ptalas orladas de dentes metlicos afiados como navalha. Em seguida, era

    removida. s vezes, as vtimas sobreviviam, o que provavelmente era um

    destino mais cruel.

    Percebi o mal-estar e o horror no rosto e na voz de outros visitantes como

    eu, mas reconheci a hipocrisia contida nisso. Secretamente, eles estavam ado-

    rando cada minuto daquela peregrinao. No entanto as a respeitabilidade

    proibia qualquer demonstrao pblica de entusiasmo. Apenas as crianas

    eram sinceras em sua fervorosa fascinao. Eu teria apostado, de bom grado,

    que estava longe de ser a nica pessoa naquelas salas frias em tom pastel que

    sentia o surto do desejo sexual entre as pernas enquanto ramos arrebatados

    pelas peas expostas. Muitas vezes me perguntei quantos encontros sexuais de

    frias foram apimentados pelas lembranas secretas do museu de tortura.

    L fora, num ptio banhado de sol, um esqueleto agachado numa gaiola,

    com os ossos limpos como se tivessem sido desnudados por abutres. No tempo

    em que as torres estavam de p, essas gaiolas eram penduradas nas muralhas

    externas de San Gimignano; uma mensagem tanto para os habitantes quanto

    para os forasteiros de que esta era uma cidade onde a lei cobrava uma dura pena

    se no fosse respeitada. Senti uma estranha afinidade com esses habitantes dos

    burgos. Eu tambm respeitava a necessidade de punio aps a perfdia.

    Prximo ao esqueleto, uma enorme roda com raios de metal estava encos-

    tada muralha. Ela teria parecido perfeitamente adequada a um museu agr-

    cola. Mas o carto fixado na parede atrs dela revelava uma funo mais

    imaginativa. Os criminosos eram atados roda. Primeiro, eram esfolados com

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    um azorrague que arrancava a carne dos ossos, expondo suas entranhas para

    a multido ansiosa. Depois, seus ossos eram quebrados com barras de ferro na

    roda. Flagrei-me pensando na carta de tar, a roda da fortuna.

    Quando percebi que teria de me tornar homicida, a lembrana do museu

    de tortura surgiu diante de mim como uma musa. Sempre trabalhei bem com

    as mos.

    Depois da primeira vez, parte de mim esperava que no houvesse a com-

    pulso de repetir o ato. Mas eu sabia que, se tivesse de fazer de novo, da prxima

    vez seria melhor. Aprendemos com nossos erros as imperfeies de nossas aes.

    E, felizmente, a prtica leva perfeio.

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  • 1Cavalheiros, tive a honra de ser escolhido por seu comit para a

    rdua tarefa de proferir a Conferncia Williams sobre Assassinato

    considerado como uma das belas-artes; uma tarefa que podia ser

    fcil o bastante h trs ou quatro sculos, quando a arte ainda era

    pouco compreendida, e poucos modelos notveis haviam sido

    expostos; mas hoje, quando obras-primas de excelncia foram

    executadas por profissionais, deve ser evidente, que no estilo da

    crtica que lhes foi aplicada, o pblico procurar algo com um

    aprimoramento correspondente.

    Tony Hill colocou as mos atrs da cabea e fitou o teto. Havia uma

    fina teia de rachaduras em torno da elaborada roseta de gesso que

    circundava a luminria, mas ele no tomou conscincia dela. A luz

    f

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