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Janeiro/Julho 201422

m um perodo em que a tendncia da so-ciedade abandonar histrias e mem-rias, olhar para o passado ganha impor-

tncia. No mundo da moda, isto no diferente. Revisitar determinados perodos uma constante no universo fashion. Nomes como Vivienne Wes-twood e Alexander McQueen so conhecidos por buscarem referncias e conceitos no que j passou. Assim como estes grandes estilistas, aficionados pelo mundo das passarelas colecionam, criam e reconstroem uma memria particular atravs de seus estilos. Como por exemplo, o vintage e o retr.

Retr X VintageEm 1960, ainda no se falava do vintage. A

tendncia do momento era o retr chique: uma tentativa nostlgica de recriar o passado visto atravs de olhos contemporneos. Esta retromania foi a convergncia de pilhagens culturais do s-to da vov. Hoje em dia, algumas lojas apostam em setores retrs. Camisas com estampas inspira-das em dcadas passadas pop art, filmes e car-toons antigos - vestem os manequins. O retr j movimenta o mercado contemporneo h algum tempo. Objetos de decorao e at mesmo eletro-domsticos que utilizam a tecnologia atual so produzidos com design de dcadas passadas. Po-rm, para a designer e professora do Departamen-to de Artes e Design da PUC-Rio, Silvia Helena, o consumidor nem sempre enxerga estes produtos como retr. s vezes, o consumidor ao usar uma legging com uma camisetona grande de estampa rocker no os considera retr. Isso porque este es-tilo est muito prximo do presente para que ele se sinta consumindo esta retromania. Talvez, se fosse um vestido de bolinha com uma saia mais

estruturada ele enxergasse como algo do passado. Existe um valor simblico naquilo que consumi-do e percebido como retr, mas que nem sempre evidenciado.

O interesse por um estilo de vida diferente fez com que os grandes produtores de moda do setor passassem a vasculhar os mercados de antiguida-des em busca de tesouros originais feitos a mo. Estilistas de celebridades comearam a visitar lo-jas especializadas em busca de peas que dariam a seus clientes um visual nico. Comerciantes passaram a dar mais valor segunda vida das roupas e o vintage, como conceito, foi introduzido no sistema mais amplo da moda.

Se for classificado de maneira tcnica, o vintage reutilizado. So as peas encontradas nos bre-

No sou velha, sou vintage!

Carlos Verssimo e Gabriel Pinheiro

Faye Dunaway e Warren Beatty do vida a Bonnie e Clyde

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chs, ou seja, de segunda mo. Algum que utili-za peas originais de um determinado perodo e as incorpora ao vesturio na atualidade, uma pessoa que faz uso deste estilo.

O vintage rendeu fortunas no incio do sculo passado. Em 2010, a organizao de estilistas bri-tnicos, a British Fashion Council (BFC), anun-ciou os desfiles Future Vintage em um festival de roupas em Goodwood, no sul da Inglaterra. Por l, comum encontrar feiras vintage onde roupas, acessrios e outros itens so classificados por dcadas. O evento da BFC promoveu talentos promissores que, segundo eles, seriam valoriza-dos em dcadas futuras. Eles estavam certos.

Conceito de tempo para a modaO conceito de tempo para a moda, por muitos

aspectos, complexo. A indstria txtil produz com longos perodos de antecedncia em relao ao lanamento. Existem pesquisas que so reali-zadas 10 anos antes do produto entrar no mer-cado de uma maneira massiva. A designer Silvia Helena tambm trabalha com branding de moda logos e marcas de roupas e explica que quem trabalha no segmento de indumentria sente a premncia do calendrio. J estou fazendo pes-quisas para 2016. As pessoas falam de um pas-

sado muito recente. s vezes, ainda estamos ab-sorvendo determinada coisa, ela j se foi e ns j a estamos trazendo de volta. No conseguimos nem sentir que estamos olhando para trs.

A professora exemplifica o conceito de tempo para a moda ao falar de um marco para o mundo fashion. Tem um momento que decisivo para a moda que o New Look do Dior. Depois da Se-gunda Guerra Mundial, ele muda a silhueta fe-minina que estava pesada e dura. Eram tempos de guerra. Dior transforma a mulher de novo em uma mulher glamorosa. Ento fala-se da volta do feminino e a volta do sonho.

O estilista francs Christian Dior estava inspi-rado no sculo XIX, no auge do Romantismo, na dcada de 1860. Dior estava no final da dcada de 1940, em 1947, produzindo e se inspirando no auge do Romantismo. Hoje quando se fala em lady like, que a silhueta Dior, se pensa numa coi-sa que Dior criou em 1947, enquanto olhava para o sculo XIX, conclui Silvia.

Brechs: do lixo ao luxoSegundo a definio da enciclopdia de moda

escrita por Georgina OHara Callan, brech uma loja onde possvel encontrar roupas e acessrios de segunda mo a preos acessveis. Bibliogra-

Hoje, os brechs so sinnimos de sofisticao

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fias especializadas em histria da

moda indi-cam que foi

por volta de 1968, principalmente nos Estados

Unidos, que os brechs se de-senvolveram. Para o estilista Joo Braga e para o escritor e jornalista Lus Andr do Pra-

do, no livro Histria da Moda (2004), a busca de caracte-

rsticas de outros momen-tos histricos da moda fez com que os brechs se tornassem verdadeiros

focos e referncias tanto de pesquisa para criao em

srie, como para o consumo pessoal.

Hoje, estas lojas ganham fora entre as escolhas das

fashionistas na hora de montar o guarda-rou-pa. Para a dona de brech Marisol Ribeiro, os locais se tornaram uma tendncia. Tanto no Rio de Janeiro quanto em outros estados este comrcio faz cada vez mais sucesso no s en-tre consumidores comuns, aquelas pessoas que compram em shoppings e lojas, mas tambm entre os estilistas. Vrias blogueiras j aderiram a essa modinha e at famosos, como a atriz Danielle Winitz. O que antes era sinnimo de pobreza, hoje de estilo.

A estudante de cinema da PUC-Rio e amante de moda Clara Balbi, de 22 anos, tem uma opi-nio semelhante a de Marisol. Para ela a recente valorizao dos brechs est relacionada ideia da moda como expresso de originalidade. Os brechs so lugares onde existe a possibilidade de se encontrar peas nicas que tenham uma relao ntima com a personalidade de cada um. L, no se encontra duas blusas iguais. Vai alm de uma cadeia de fast fashion.

Marisol, que tambm tem o prprio blog de moda, o Hoje eu vou assim vintage, j fez par-te de um brech on-line em uma parceria bem--sucedida com outra blogueira. Ela conta que os compradores foram em sua maioria jovens

universitrios, com estilo moderno e descolado que buscavam peas diferenciadas, ousadas e baratas.

Mas o mundo contemporneo tambm tem espao para os brechs sofisticados. O Anexo--Vintage, na Gvea h 9 anos, tem como clien-tes pessoas de maior poder aquisitivo. As scias, Lila Studard e Carla Pdua afirmam que as peas so diversificadas e selecionadas. Bolsas Louis Vuitton, conjuntos Yves Saint Laurent, vestidos e camisas Pucci fazem parte do acervo do lugar. O preo um reflexo do tipo de mer-cadoria que oferecemos. As bolsas so as mais procuradas. s vezes, algumas figurinistas vm at ns em busca de peas antigas para compor o vesturio de novelas de poca, pontua Lila.

Vestindo o VintageCliente fiel do Anexo-Vintage, Renata Tocha

Brito, acompanha Lila e Carla desde a abertu-ra do negcio. Ela se intitula f de brechs e o que mais a atrai a diversidade de produtos atemporais, nicos e originais. Eu prefiro com-prar uma cala Saint Laurent de 20 anos atrs, em perfeito estado, do que comprar uma cala dessas marcas contemporneas, que vo ter 500 pessoas usando. Porque aquela manada. Se a moda estampa de zebra, todo mundo sai de zebra. Ento eu opto pelo diferente.

A blogueira Marisol mistura as peas de se-gunda mo com as atuais. Para ela, a relao da moda com a nostalgia uma constante por-que tudo que um dia j esteve em alta, quando volta a ser usado, provoca esse sentimento. O vintage um estilo alternativo, nostlgico, ale-gre e cheio de atitude. uma moda que nunca sai de moda.

Mas para a estudante de design, este estilo nem sempre significa reviver o passado. Marisol defende que para muitas pessoas o que impor-ta possuir um diferencial, porque em dcadas passadas a moda no era to padronizada como hoje. Adoro o corte das roupas. O comprimen-to das saias e as pregas. Me sinto a melhor das mulheres, porque no gosto muito de expor meu corpo. Hoje muito difcil encontrar um vestido mais comprido, uma bermuda mais comportada e o estilo vintage tem tudo isso.

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Ser vintage ser original

A aspirante a cineasta Clara Balbi j trabalhou para blogs de moda e se aprofundou no tema ao fazer um ms de curso de styling no Instituto Eu-ropeu de Design e um workshop do RIOetc sobre street style. Segundo Clara, a nostalgia do estilo vintage representa, de certa forma, uma busca pela originalidade. Confira abaixo o que mais a estudante pensa sobre o assunto.

Ecltica: O que o estilo vintage representa para voc?Clara Balbi: uma espcie de roubo de silhuetas e de ca-ractersticas do vesturio de outras pocas para montar um look novo, exclusivamente seu. Adoro combinar botinhas de camura dos anos 1980, da minha me, com brincos de presso dos anos 1960, que coleciono, com uma blusa podrinha de brech, mas, ao mesmo tempo, vestir um short de uma marca contempornea.

Ecltica: Voc acha que a moda sempre revisita o passado?Clara: Isso acontece especificamente com a moda atual. Existe uma questo de expresso muito forte nessa busca incessante por revisitar e se inspirar no passado. O mais louco da moda atual esse mosaico de passados que os estilistas montam s vezes em um look s. Por exemplo, ombros dos anos 1980, combinados com mochila do estilo Prada de 1990 e pantalonas inspiradas no movimento hippie. E isso tudo sem nin