MULHERES BRASILEIRAS C. Fonseca ?· mais ou menos a mesma época: Eutherpe, que mais se aproxima da…

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AS MLTIPLAS MULHERES BRASILEIRAS

CLAUDIA FONSECA - PPGAS\UFRGS Quero em primeiro expressar minha grande satisfao em estar com vocs aqui hoje1. Sei que o governo estadual tem organizado uma srie de eventos trazendo conferencistas de grande mrito, organizando mostras de filmes, fotos e outros evento para comemorar o Dia Internacional da Mulher. Sinto-me prestigiada ser convidada a abrir esse ciclo de conferncias orientadas em grande medida para a Antropologia da Mulher. Sem dvida, sabendo que uma antroploga que vem falar hoje, muitas de vocs estaro esperando uma discusso dos mitos ligados mulher. E certamente mitos no faltam. Posso citar os mais conhecidos: O mito do matriarcado, e o mito do eterno feminino. Certamente a anlise de mitos como esses importante, porm no necessariamente no sentido que as pessoas esperam. Pois em geral hoje os cientistas sociais vem esses mitos enquanto mitos - isto , crenas ideolgicas que, longe de refletir qualquer fato histrico real, revelam os valores dos que promovem e abraam esses mitos. Consideremos, por exemplo, o mito do matriarcado -, aquela idia de que antigamente, numa poca primeva da nossa humanidade, as mulheres dominavam a vida social. Em todas as verses deste mito, as mulheres vivenciam uma queda, uma destituio de poder ocasionada por alguma falta que elas cometem. A histria bblica de Ado e Eva talvez seja a verso mais conhecida aos membros desta platia. Pois bem, historiadores e etnlogos mostram que tal poca da humanidade nunca existiu. No entanto a lenda de queda muito til para explicar a dominao masculina das sociedades atuais pois confirma a noo da incompetncia feminina. As mulheres j tiveram o poder, no deu certo. Considerado sob essa luz, temos que reconhecer que muitas mulheres que passam a defender esse mito como se fosse uma realidade histrica, -- sem querer -- reforando um mecanismo de sua prpria excluso. 1 Palestra proferida durante o Seminrio 500 Anos de Dominao Masculina? Organizado pelo Museu Antropolgico do RS, Estado do RS, Secretaria da Cultura - Museu de Arte de Rio Grande do Sul, 24 maro, 1999.

Falar de dominao masculina nos traz para um segundo mito - o mito do eterno feminino pois, por que outro motivo a dominao masculina seria universal se no por ser arraigada em um fato panhistrico e transcultural - o fato palpvel do corpo feminino. Segundo essa perspectiva, haveria algo escrito na biologia feminina - a maternidade, hormnios, fragilidade fsica - que explicaria um certo carter feminino que recorreria em todas as pocas e em todos os lugares. Para essa perspectiva, teramos ainda outras objees. Em primeiro lugar, a natureza para os antroplogos no mais vista como um fato inaltervel. Hoje, os ecologistas tambm reconhecem que no h floresta, nem deserto, nem mar que no reflita a influncia de homens e mulheres interagindo com essa natureza. Neste contexto, a noo de natureza pura, intocada mal faz sentido. Pois bem, o corpo humano - os atributos fsicos de cada sexo - se presta tambm a um nmero sem limite de resignificaes que no podem ser previstas pois so a obra da cultura e no da natureza. Lvy-Strauss, em uma recente publicao na Folha de So Paulo, discorre longamente sobre diferentes crenas ligadas ao eterno feminino para, no final do artigo, descart-las como sendo irrelevantes. Reafirma que se quisermos entender o comportamento de qualquer sujeito real -- uma mulher em carne e osso -- no para seu tero nem para seu equilbrio hormonal que devemos olhar, mas sim para as crenas e condies histricas que revelam o contexto cultural em que ela se move. A maioria das feministas que eu conheo j assimilaram essa lio graas em particular experincia das reunies mundiais que ocorreram em Nairobi, Cairo, Mxico onde o fato da semelhana biolgica sexual entre todas as participantes estava muito freqentemente posta em segundo plano pelo fato, igualmente real e muitas vezes mais relevante, das diferenas religiosas, tnicas, e nacionais. Minhas crticas a esses mitos no representam uma recusa s preocupaes que motivam muitos de seus proponentes. A dominao masculina , sem dvida, um fato real na vida de boa parte das mulheres hoje. certamente salutar a ao coletiva voltada para a promoo dos direitos da mulher. O tipo de Antropologia que eu fao inspirada no desejo de compreender e transformar a realidade atual. Entretanto, para realizar esse objetivo, preciso uma pesquisa calcada no em mitos generalizantes, mas sim nos pormenores da histria em nosso caso, da histria particular das mulheres gachas e brasileiras.

Pensei muito como discorrer sobre essa heterogeneidade feminina sem cansar minha platia e resolvi recorrer a um artifcio narrativo que coloca em relevo a vida de mulheres especficas -- trs mulheres que nasceram todas no incio do sculo, mas que viveram vidas bem diferentes. Comeo com uma pesquisa minha que me levou a conhecer Eutherpe - uma mulher muito pobre - que vivia na fronteira no incio do sculo e que, em 1925, se encontrava diante do tribunal em Porto Alegre, numa disputa acirrada com seu marido pela guarda dos filhos. Em segundo lugar, quero passar para uma mulher muito diferente - Dona Adlia, que em 1945 era caixa numa confeitaria na Rua dos Andradas e que usou suas competncias para entrar na poltica partidria e lutar por seus ideais. Finalmente, quero falar de um momento bem mais recente - 1985, quando a V Branca entrou no Clube LBA de Terceira Idade e comeou a curtir a vida, ir a bailes e namorar. Trs mulheres que nasceram todas em mais ou menos a mesma poca: Eutherpe, que mais se aproxima da mulher vtima, oprimida por todos os poderes econmicos e moralistas de sua poca; Dona Adlia -- uma mulher valente que vence preconceitos machistas e entra na luta poltica; e a V Branca que pode ser, por enquanto, nosso modelo de mulher faceira. Trs pequenas biografias que devem alimentar nossa reflexo sobre o ser mulher no Brasil hoje. Trata-se de trs mulheres muito diferentes uma da outra e que eu nunca conheci pessoalmente. (Peo portanto sua compreenso com as mltiplas lacunas que existem na informao que tenho sobre elas.) Trago suas histrias para pensar sobre a evoluo das circunstncias da mulher nesses ltimos cem anos e para abrir uma janela sobre algumas das muitas formas de ser mulher no Brasil. Minha esperana que, at terminar hoje, conveno vocs que possvel enfrentar a rica diversidade de nossa poca sem esfacelar o material, sem minimizar o que as mulheres tm em comum e as possibilidades de armar frentes comuns de ao. Os crimes de Eutherpe A primeira mulher, Eutherpe, descobri durante minhas prprias pesquisas em arquivos histricos do incio do sculo sobre disputas pelo ptrio poder de crianas. Eutherpe deve ter nascido em torno de 1895 no interior do Rio Grande do Sul - provavelmente perto de Santana de Livramento ou Quarai. Imaginamos essa mulher, como a maioria da populao fronteiria, de origem mista : luso-brasileira, com alguma participao guarani no seu sangue ou,

quem sabe, at tivesse, entre seus ascendentes, alguma av escrava fugitiva das charqueadas. Em todo caso, encontramos ela em 1925 pobre, analfabeta, me de quatro filhos e de profisso mal-definida.

Conhecemos ela atravs de um processo judicial que moveu contra seu marido, Joaquim, em que ela peticiona o juiz para lhe restituir a guarda de suas duas filhas - Jandira com 14 anos e Jussara com 11. Ela acusa seu marido de ser esmoleiro, sem meios para educar suas duas filhas. Joaquim reage, dizendo que at 1920 trabalhava em Santana como escriturio na Via Frrea mas uma doena debilitante (provavelmente o reumatismo) o obrigou a procurar tratamento em Montevidu, no Estado Oriental de Uruguai. Seria em 1921, um ano depois de Joaquim ter se ausentado, que comearam os crimes de sua mulher.

Nesse ano (1921) ella Eutherpe, adulterou-se commetendo ja um crime perante a Lei, perante a Sociedade e perante mim, quebrando os laos matrimoniais que eu os julgava inquebrveis...Ella juntou-se a um homem que alm de escrofuloso era viciado em jogos, de nome Abel e naquelle tempo morador no Quarahy; deixando esse em pouco tempo, juntou-se a outro de idntico teor, homem perdido em vcios, jogos e beberagens, de nome Bencio, morador em Atigas, Estado O. de Uruguay, pouco tempo tambm esteve com este e juntou-se com um terceiro de nome Theodulo R. de cor quasi negra e rengo de uma perna , castelhano e morador na cidade do Quarahy. (...) ultrajado mesmo, no prossegui ao contra ella e nem quiz usar de violencias. Retirei sim de sua posse a menina chamada Ambrozina, coloquei-a em uma estancia no Estado Oriental com ordens de s ser entregue a mim, ella tentou rehaver a filha, porm, as autoridades sabedoras de seu pessimo proceder, no entregaram a menina Esta mulher no esta empregada, no costura, no trabalha em l, no tem casa que ella mesma aluga, no tem responsabilidade, anda quasi os dias inteiros fora da casa onde para, s chegando na occasio das diversas refeies, no ganha dinheiro, mas, entretanto me consta, que tem feito compra de roupa para ella e meu filho Miguel e uma cama com colcho. E esse dinheiro donde lhe veio se ella no trabalhou em lugar nenhum?

No posso acreditar que V.S. inteirado destes factos que, so nella, habituaes, mantenha o despacho contra mim e contra minhas filhas que no tem culpa do proceder de sua indigna me, e, que so os unicos entes que me acompanham com amizade e harmonia, nessa minha vida de infelicidade. V. S Juiz, mas, tambem pae (nfase minha).

Tinha muita coisa contra Eutherpe. Sabemos que ela teria pouqussima chance de receber uma educao. Suas oportunidades de emprego no estavam nada boas. Se trabalhasse num emprego industrial, ganharia em toda probabilidade a metade do salrio de seu irmo apesar de desempenhar a mesma tarefa. Segundo a moralidade sexual da poca, ela seria condenada por ser uma mulher abandonada. Que ficasse sozinha, que se juntasse com novo companheiro ou que resolvesse tentar sustentar seus filhos trabalhando fora, seria rotulada de antemo como prostituta (o que parece ter sido, por sinal, uma profisso feminina muito comum na poca). Ela tinha tambm a legislao contra ela: enquanto mulher casada, no podia possuir propriedade, no podia legitimar a unio que travava com um novo companheiro e, faltando-lhe idoneidade na definio legal, perdia seus direitos maternos com relativa facilidade. Sabemos que ela nem sequer teria tido participao na formulao destas leis porque no podia votar, no ocupava cargos polticos e, como Joaquim, seu marido nos lembra no seu apelo de pai para pai ao juiz, a mulher se movia num mundo pblico em que os homens no somente ditavam as regras, mas tambm serviam de rbitros, testemunhos e escrives. No gostaria de pintar Eutherpe como vtima total. No podemos saber, mas podemos imaginar momentos de ao, escolha, prazer (quem sabe, pode ter sentido um grande alvio ao se separar do marido). Citamos seu caso, no entanto, para lembrar de uma poca histrica no muito distante em que a dominao masculina estava no seu auge. H pessoas que diro que a mulher ainda vive sob o jugo da dominao masculina e que o processo simplesmente mudou de grau. Eu diria que os graus so de suma importncia e que, para as mulheres se assumirem como agentes da histria, necessrio reconhecer que j galgaram importantes conquistas.

Dona Adlia: Pioneira no mundo poltico Acharemos agora, na nossa segunda personagem, uma figura menos subjugada. Falamos de Dona Adlia Eliza Machado - uma mulher que no somente votava (graas a este privilgio outorgado no fim da dcada de 30) mas que teve uma participao ativa na poltica partidria do Rio Grande do Sul (e, por extenso, do Brasil). Vemos D. Adelia numa foto da primeira conveno do novo partido poltico - PTB - nica mulher num grupo de 39. Conhecemos ela graas pesquisa cuidadosa de Profa. Maria Noemi Brito que, no fim dos anos 80, passou longas horas dialogando com essa senhora, j idosa, escutando suas lembranas de militncia poltica. Concentramos nossas atenes no ano 1945 - ano de reabertura poltica no Brasil aps a ditadura do Estado Novo. Dona Adlia tinha, nessa poca, 29 anos e, como auto-proclamada idealista e patriota, tinha vontade de participar do novo processo de democratizao. Trabalhava ento como caixa na casa de caf no centro de Porto Alegre e tinha uma filha. Tinha sido casada com um homem que a tolhia e, com a separao conjugal, encontrou a liberdade para se expandir. Numa noite de agosto de 1945, juntou meia dzia de companheiros na sua casa num bairro operrio de Porto Alegre. Eram companheiros de ideais - trs homens e trs mulheres : alm de D. Adlia, uma operria sua amiga, e outra, sua vizinha e comadre. Junto com eles, fundou a primeira seo gacha do PTB. Era getulista roxo (como dizia sua bigrafa, Noemi) e acreditava que era apoiando a candidatura dele nas eleies presidenciais que poderia melhor apoiar um movimento que defendesse e elevasse a classe trabalhadora. Quando lembra essa fase de sua vida, Dona Adlia fala em termos e imagens que no deixam dvida quanto a sua identidade feminina. Ela era uma boa militante poltica justamente porque se dava bem com tanta gente : sempre tratava todos bem, era alegre e comunicativa. Comerciria no centro da cidade, usava o caf onde trabalhava como sua tribuna. Al, colocava cdulas, propagandas de todos os candidatos porque era democrtica, estava ali para distribuir, o povo que escolhia o que levar. Ela conta como adorava brincar com as pessoas, inclusive pregando o selinho poltico de seu partido nas costas delas sem que soubessem e assim atraindo simpatia de figuras at de outros partidos. Foi assim que conseguiu - ela sozinha - 5.000 assinaturas, a metade da quantia necessria, para registrar o novo partido no Tribunal Eleitoral. Dona Adlia tambm conseguia excelente cobertura na imprensa

para seu partido quando precisava divulgar informaes e notcias, pois se dava muito bem com o diretor da Rdio. (Diz que os dois conversavam com frases poticas). Mas, se verdade que, em relao a Eutherpe, os tempos tinham melhorado para a mulher gacha, ainda havia em outras frentes sinais claros de discriminao. Curiosamente, a histria oficial completamente esqueceu aquela reunio na casa de D. Adlia. Apesar de ter, na poca, registrado tudo no Tribunal Eleitora, no Diario Oficial e apesar de ter divulgado a fundao, sua fundao do partido na imprensa, D. Adlia foi esquecida pela histria oficial. O que ficou como fundao oficial foi uma reunio trs semanas mais tarde sob a liderana de sindicalistas munidos de uma autorizao pessoal de Getlio Vargas. No incio no queramos aceitar, diz D. Adelia porque o partido estava fundado, registrado, e ns ramos os verdadeiros fundadoresmas resolvemos entrar em acordo e ficar unidos. Na verdade, os companheiros sindicalistas no ignoraram a importncia de D. Adlia. R...

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