Mortimer jerome adler - A arte de ler

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<ul><li> 1. A ARTE DE LER Como adquirir uma educao liberal MORTIMER J. ADLER TRADUO DE: INS FORTES DE OLIVEIRA DIGITALIZAO POR IMAGENS: ARUAN JOO BACCARO DE FREITAS DIGITALIZAO POR TEXTO: ARISTIDES H. DA SILVA NETO (NETO RPG) </li></ul><p> 2. Copyright de ARTES GRFICAS INDSTRIAS REUNIDAS S. A. (AGIR) Ttulo do original norte-americano: HOW TO READ A BOOK Livraria AGIR Editora RIO DE JANEIRO RUA MXICO, 98 B CAIXA POSTAL 3291 SO PAULO RUA BRULIO GOMES, 125 CAIXA POSTAL 6040 BELO HORIZONTE AVENIDA AFONSO PENA, 919 CAIXA POSTA 933 ENDERO TELEGRFICO AGIRSA 3. 7 Prefcio Procurei tratar de leituras difceis num livro ameno. Aqueles que no vem motivo de alegria em saber ou compreen- der, no se cansem, lendo-o. Os que acham que as horas de folga so para divertimentos fteis como o cinema, o rdio, os romances baratos, no se cansem, lendo-o. Escrevo para os outros. A leitura como se explica (e se defende) neste livro um ins- trumento bsico para bem viver. No preciso insistir no quanto com viver humanamente e razoavelmente, embora nos parea neces- srio defender tais princpios. A leitura, repito, um instrumento bsico. Aqueles que utilizam para aprender nos livros e para se distrair com eles, possuem os t e- souros do conhecimento. Podem ornar de tal modo sua inteligncia que a perspectiva das horas solitrias se apresenta menos triste. Nem tm que temer, quando esto com os outros, aquele som oco das conversaes vazias. Muitos de ns achamos bobagem conversar. Parecemos ter pouco que dizer depois de esgotados os primeiros assuntos familiares, p e- la repetio das mesma e velha observao. Os jornais e o rdio fornecem os temas. So os mesmos para a maioria, assim como as banalidades que comentamos aos brados. Esta a razo por que recorremos maledicncia e ao escndalo ou s falamos de bridge ou cinema. E se no podemos interessar aos outros com nossa pro- sa, que companhia estpida no seremos quando entregues a ns mesmos. Uma embora no a nica justificativa da educao liberal (e este um livro de educao liberal) que ela nos enriquece. Faz-nos homens. Torna-nos capazes de levar a vida caracteristi- camente humana da razo. O treinamento vocacional pode, no m- ximo, ajudar-nos a ter uma vida que nos sustente as horas vagas. Todos sabem, espero, que a educao s foi iniciada e no se com- pletou no ginsio ou no colgio. Mesmo se as escolas desempenhas- sem melhor sua misso seria ainda necessrio que continussemos, todos, nossa educao. Como esto as coisas, muitos de ns temos o problema de adquirir a educao que os ginsios e co- 4. 8 PREFCIO lgios deixaram de nos dar. A educao est ainda em aberto para todos ns tivssemos estado num colgio ou no. Com a condio de sabermos como ler. Com isto na mente, escrevi um livro sobre leituras. Quem escreve sobre sexo ou sobre o modo de ganhar dinheiro, d, muitas vezes, a impresso de que a est a vida toda. No quero fazer o mesmo ao falar da leitura, mas tentarei provar que constitui parte essencial da vida da razo. Na primeira parte deste livro, discuti o papel da leitura em rela- o ao aprendizado e meditao, tanto no colgio, como fora de- le. Na segunda, procurei esboar as etapas a serem percorridas pe- los que aprendem a ler. E veremos que no existe s o problema de como ler, mas, tambm, o de que ler. O titulo mostra que trato, principalmente, da leitura de livros. Mas esta arte que descrevo a- plica-se a qualquer espcie de comunicao. Na vida de insensatez que ora nos oprime, tal habilidade pode ser empregada na decifra- o da propaganda dos Livros Brancos da Guerra e proclamao de neutralidade. E at para ler, mas entrelinhas, os comunicados por demais breves. Falta, ainda, a terceira parte. a mais importante. Numa demo- cracia, temos que estabelecer as responsabilidades dos homens li- vres. A educao liberal um meio indispensvel para tal fim. No s nos torna homens, ao cultivar-nos a mente, mas tambm a liber- ta, pela disciplina. Sem uma mentalidade livre, no podemos agir como homens livres. Procurei mostrar que a arte de ler bem est in- timamente ligada arte de pensar bem claramente, criticamente, livremente. Eis por que a terceira parte deste livro se refere outra metade da vida do leitor. Este em resumo, um ensaio que trata da leitura, relacionando-a com a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Afirmei que um livro ameno. Queria dizer que muito mais simples do que os grandes e bons livros que vocs devem aprender a ler. Espero que cheguem mesma concluso e que, tendo aprendido a ler, a mais pesada leitura, algum dia abandonada, deixe de aborrec-los. bom aprender. Os livros ficaro mais simples, ao se ir descobrindo a simplicidade deles. MORTIMER J. ADLER Chicago Setembro de 1930 5. 9 NDICE DA MATRIA I PARTE A ATIVIDADE DE LER PGI NA Para o leitor mdio ............................................................. 13 A leitura de leitura ................................................... ....... 12 Ler aprender ................................................................... 35 Professores-mortos e professores-vivos ................................ 46 A falncia das escolas ..................................................... 59 Da auto-suficincia ............................................................ 86 II PARTE AS REGRAS De vrias regras a um hbito .............................................. 101 Interpretando o ttulo ......................................................... 116 Vendo o esqueleto ............................................................. 130 Chegando a um acordo ............................................... ........ 149 Qual a posio e por qu .................................................. 167 A arte de replicar ...................................................... ........ 187 O que o leitor pode dizer .................................................... 198 Mais regras ainda ...................................................... ........ 209 III PARTE O RESTO DA VIDA DO LEITOR A outra metade .................................................................. 221 Os grandes livros ............................................................... 251 Inteligncias livres e homens livres ..................................... 275 APNDICE Lista dos grandes livros ..................................................... 291 6. 11 I PARTE A ATIVIDADE DE LER 7. 13 CAPTULO I Para o leitor mdio 1 Este um livro para leitores que no sabem ler. Parece rude as- sim, mas sem inteno. Contraditrio, e no o sou. A aparncia de contradio e indelicadeza deve-se aos vrios significados da pala- vra leitura. Quem leu at aqui, porque sabe ler, ao menos num dos sentidos da palavra. Percebe-se, portanto, o que quero dizer. que este livro foi escrito para os a que, num sentido, sabem ler e no o sabem nos outros. H vrias espcies de leitura e vrios graus de habilidade em ler. No contradio afirmar que este livro para os que querem ler melhor ou ler de um modo diferente do que lhes habitual. Ento, para quem no foi ele escrito? Posso responder, simples- mente, pergunta falando nos dois casos extremos. H os que no sabem ler de todo: as crianas, os imbecis e outros inocentes. E h os que talvez sejam mestres na arte de ler fazem qualquer espcie de leitura to bem quanto humanamente possvel. Muitos autores no achariam nada melhor do que escrever para tais mestres. Mas um livro como este, que trata da arte de ler propriamente dita, e que procura ajudar seus leitores a lerem melhor, no pretende exigir a ateno dos experientes. Entre os dois extremos, est o leitor mdio, isto , muitos de ns que aprendemos o ABC. Sabemos ler e escrever Mas no somos bons leitores. Temos conscincia disto por vrios motivos, sobretu- do quando achamos difcil ou complicada uma leitura qualquer ou quando algum, lendo o que acabamos de ler, mostra-nos o que no percebemos ou no compreendemos. Se vocs no se viram em situaes semelhantes, se nunca tive- ram dificuldade em ler ou no conheceram o desanimo, quando toda a ateno de quem foram capazes no correspondeu a seus esforos no sei como interess-los no problema. Muitos de ns, no 8. 14 A ARTE DE LER entanto achamos dificuldade em ler, sem saber p que, nem o que fazer para evit-la. Talvez seja por no considerarmos a leitura como uma atividade complexa, que compreende diferentes etapas, em cada uma das quais podemos adquirir mais habilidade mediante a prtica, como acontece com qualquer outra arte. Mas no devemos pensar que e- xista uma arte de ler. tendncia nossa considerar a leitura to simples como ver ou andar. E ver ou andar no so artes. No vero passado, enquanto escrevia este livro, um jovem me vi- sitou. Soube o que eu estava fazendo e me pedia um favor. Ser que eu podia ensinar-lhe a melhorar a leitura? Esperava, sem dvida, que minha resposta viesse em poucas palavras. Mais do que isso, parecia pensar que, uma vez de posse de meia dzia de regras, o su- cesso bateria as suas portas. Procurei explicar-lhe que no era to simples assim. Disse-lhe que gastei pginas deste livro, discutindo as regras da leitura e mos- trando como devem ser seguidas. Que este era como um livro de t - nis. Onde se estuda a arte que subentende regras para cada uma das vrias raquetadas, em por que e como aplic-las, descrevendo a or- ganizao dessas partes na estratgia geral de um jogo vitorioso. A arte de ler tem que ser estudada de modo semelhante. H regras para cada uma das etapas a serem percorridas, a fim de se completar a leitura de um livro. O jovem mostrou-se desconfiado. Embora reconhecendo no sa- ber ler, parecia achar que no havia muito que ensinar a tal respeito. Perguntei-lhe, ento, se bastava ouvir os sons para se ouvir uma sin- fonia. Sua resposta foi lgico que no. Confessei-lhe que era o que me acontecia e pedi-lhe que me ensinasse a ouvir msica, como um msico acha que se deve ouvir. Disse-me que o podia fazer, sim, mas no em poucas palavras. Ouvir uma sinfonia complicado. No s ficar atento, mas h tantas coisas diferentes a considerar, tantas partes a distinguir e classificar. No podia me ensinar, num instan- te, tudo o que eu tinha de saber. Alm disso, levaria bastante tempo ouvindo msica, antes de tornar-me um bom ouvinte. Repliquei-lhe que o caso da leitura era assim tambm. Se eu po- dia aprender a ouvir msica, ele aprenderia a ler, contanto que fosse nas mesmas condies. Havia regras a conhecer e seguir. com 9. PARA O LEITOR MDIO 15 a prtica que se criam os bons hbitos. No havia dificuldades ins u- perveis. S exigia vontade de aprender e pacincia. No sei at que ponto minha resposta o satisfez. Se ela no o sa- tisfez de todo, foi-lhe difcil aprender a ler. No tinha noo de que constava a leitura. Por consider-la como alguma coisa que aprender a ouvir msica, a jogar tnis ou a adestrar-se na utilizao complexa dos sentidos da mente. Esta dificuldade , para mim, uma das que muitos de ns conhe- cemos. Eis por que vou explicar, na primeira parte deste livro, que espcie de atividade a leitura. Pois, enquanto vocs no levarem em conta o que ela significa, no estaro preparados (como aquele jovem no o estava, quando veio me ver) para a instruo necess- ria. Estou certo de que querem aprender. Meu auxlio no pode ir a- lm do auxlio de que vocs derem a si mesmos. No h quem faa vocs aprenderem uma arte mais do que queiram ou julguem neces- srio. Muitos dizem, freqentemente, que achariam bom aprender a ler, se soubessem como faz-lo. Podem estar certos de o conseguir, se se esforarem. E se o quiserem sabero como esforar-se. 2 Nunca pensei que no soubesse ler, at ter deixado o colgio. Fo i ensinando aos outros que o descobri. Muitos pais sem dvida fiz e- ram descoberta semelhante, ao estudar com os filhos. Da, um para- doxo: em geral, os pais aprendem mais do que os filhos. simples a razo. Eles tm que desempenhar maior atividade no trabalho. Qualquer pessoa que ensina faz o mesmo. Voltemos a minha histria. No dia em que os diplomas foram conferidos, considerava-me um dos bons estudantes de Colmbia. Tnhamos passado com boas notas. O jogo era fcil, conhecendo-se os truques. Se algum nos dissesse que no sabamos grande coisa ou que no lamos muito bem, isso os chocaria. Estvamos certos de poder assistir as aulas e ler os livros que nos tinham indicado, de modo a responder satisfatoriamente no exame. Era esta a nica pro- va de nossa competncia. 10. 16 A ARTE DE LER Fizemos depois de um curso que aumentou, ainda mais, nosso convencimento. Curso de John Erskine tinha acabado de criar. Du- rava dois anos, chamava-se General Honors, e destinava-se a um grupo seleto de juniors e seniors. No consistia em nada mais do que ler os livros clebres, desde os clssicos gregos, passando p e- las obras-primas da latinidade e da Idade Mdia, at os melhores au- tores de ontem, William James, Einstein e Freud. Os livros eram de todas as especialidades: havia Histrias, livros de Cincia e Filoso- fia, poemas dramticos e novelas. Lamos um livro por semana, uns sessenta nos dois anos, e havia uma noite em que tnhamos que co- ment-los com os professores, sem formalidade, como se estivsse- mos em seminrio. Esse curso produziu dois efeitos em mim. De um lado, fez-me pensar que eu tinha sido o primeiro a perceber o ouro educacional. Por ser um curso materializado, um curso que podia ser realmente apreendido, era diferente dos outros e dos compndios que s exer- citam a memria. Mas eu no possua s o ouro, no, pensava tam- bm possuir a mina. Estavam ali os livros celebres. Sabia que de modo l-los. O mundo era minha ostra. Se, depois de formado, me dedicasse a Medicina ou ao Direito, talvez julgasse, ainda, ter tido uma tima leitura e, em comparao com os outros, saber desempenhar-me bem dessa tarefa. Felizmente, acordei deste sonho. Para cada iluso que a sala de aula alimenta, h uma escola que, pesadamente, a destri. Uns poucos anos de pr- tica despertam o advogado e o mdico. O comrcio ou jornalismo desiludem o rapaz que se julgava negociante ou reprter ao deixar a escola. De modo que, no ano que se seguiu minha formatura, con- siderava-me liberalmente educado, pensava que sabia ler e que tinha lido muito. O remdio era ensinar e o castigo que convinha ao meu crime era ensinar, assim que me diplomei, nesse mesmo curso que tanto me enfatuara. Estudante tinha lido todos os livros que, ago- ra, ia explicar, mas como era jovem e consciencioso resolvi l-los de novo s para refrescar a memria, compreende-se. Para minha admirao crescente notava que, semana aps semana, os livros me pareciam novos, Era como se tivesse lido pela primeira vez os livros que pensava ter dominado inteiramente. Com o correr do tempo, fui descobrindo no s que os desconhe- cia, como tambm que no sabia ler. Para tapear minha igno- 11. PARA O LEITOR MDIO 17 rncia e minha incompetncia, fiz o que qualquer professor jovem teria feito, se tivesse receio de seus alunos e de seu trabalho. Reco r- ri a outros meios: enciclopdias, comentrios, toda espcie de livros sobre livros sobre esses livros. Desde modo julgava aparentar mais sabedoria do que os a...</p>