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  • PRESSUPOSIES METAFSICAS EM SEMNTICA MODAL

    METAPHYSICAL PRESUPPOSITIONS IN MODAL SEMANTICS

    Diego Henrique Figueira de Melo1

    Resumo: Neste artigo avalio as posies metafsicas implicadas pela semntica modal. Irei

    propor e explicar estes trs modelos metafsicos que sustentam o discurso modal: (a) tudo

    necessrio, (b) tudo contingente e (c) algumas coisas so necessrias e outras contingentes.

    Argumentarei que mesmo empiristas, como Hume e Quine, adotam, inevitavelmente, um desses

    planos metafsicos de fundo. A semntica modal introduziu a discusso metafsica na filosofia

    analtica, porque, como mostrarei neste artigo, negar as modalidades , tambm, se

    comprometer com uma posio metafsica.

    Palavras-chave: Modalidades. Metafsica. Essencialismo. Empirismo.

    Abstract: In this paper I evaluate the metaphysical positions implied by modal semantics. I will

    propose and explain these three metaphysical models that support modal speech: (a) everything

    is necessary, (b) everything is contingent and (c) some things are necessary while other are

    contingent. I argue that even empiricists, like Hume and Quine, adopt, inevitably, one of those

    metaphysical backgrounds. The modal semantics introduced metaphysical discussion in analytic

    philosophy, because, as I will show in this paper, to deny modality is also committing to a

    metaphysical position.

    Keywords: Modality. Metaphysical. Essencialism. Empiricism.

    1. Introduo

    A semntica modal um instrumento lingustico elaborado para dar conta da

    interpretao sobre os diferentes modos de verdade que uma proposio (ou uma

    expresso) pode adquirir. Na filosofia analtica contempornea, noes como as de

    possibilidade, necessidade e contingncia so tomadas como noes modais2, pois,

    como dito, dizem respeito ao modo de verdade de determinadas proposies. comum

    tomarmos alguns fatos empricos como os fazedores de verdade de algumas expresses

    que utilizamos. Para ilustrar este ponto posso dar como exemplo a seguinte expresso:

    (1) Bertrand Russel estudou filosofia. Sabemos que (1) verdadeira devido aos fatos

    que temos acesso e que determinam o contedo de verdade de (1). Descobrimos o

    contedo de verdade de (1) atravs de investigaes empricas, o que torna o

    1 Doutorando em Lgica e Filosofia da Cincia no programa de Ps-graduao em Filosofia da

    Universidade Federal de Minas Gerais UFMG. E-mail: melo.dhf@gmail.com 2 DIVERS, 2002, p. 3.

  • Pressuposies metafsicas em semntica modal

    Knesis, Vol. IX, n 20, Julho 2017, p. 87-98 88

    conhecimento de (1) um conhecimento a posteriori. Um outro exemplo pode ser dado

    com a seguinte expresso: (2) em um tringulo retngulo o quadrado da hipotenusa

    equivale soma dos quadrados dos catetos. Sabemos que (2) verdadeira, contudo os

    fazedores de verdade de (2) no dizem respeito a fatos empricos como em (1), mas a

    um tipo de conhecimento que os filsofos chamam de a priori, sendo este independente

    da experincia. Por ltimo, sabemos que (3) gua H2O , tambm, uma expresso

    verdadeira, a qual se relaciona, novamente, com um tipo de conhecimento a posteriori,

    obtido atravs de investigaes empricas. O contedo de verdade e os fazedores de

    verdade das expresses (1), (2) e (3) no suscitam grandes discusses nem causam

    fascnio nas mentes mais curiosas, entretanto no podemos dizer o mesmo sobre os

    modos de verdade destas expresses. Se perguntarmos: a verdade de (1) e (2) possuem a

    mesma fora? Um leigo interessado no assunto pode se colocar a pensar e dizer que a

    verdade de (2) parece ser mais forte que a de (1). realmente um bom exerccio

    refletir sobre essa questo, afinal realmente parece fazer sentido dizer que a verdade de

    (2) mais forte que a verdade de (1). Muitos iro dizer, provavelmente, que a verdade

    de (2) mais forte porque no poderia ser de outra forma, ao contrrio do contedo de

    verdade de (1) que, ao menos parece, poderia ser de outra forma. Ao pensar assim

    estamos raciocinando sobre os modos de verdade das expresses, e justamente este

    modo de raciocnio trouxe terras frteis para a filosofia analtica contempornea,

    revitalizando a discusso metafsica para essa escola filosfica.

    Dizer, em linguagem comum, que a verdade da expresso (2) mais forte que

    a verdade da expresso (1) dizer, em filosofia, que a verdade de (2) necessria

    enquanto a de (1) contingente. Para ilustrar melhor este ponto interessante introduzir

    o conceito de condicional contrafatual.3 A forma de um condicional contrafatual : se p

    fosse o caso, ento poderia ser o caso que q. Interessante notar que o tempo verbal

    deste condicional o subjuntivo. Como o prprio nome indica, um condicional

    contrafatual nega ou diverge de determinado fato tomado como fazedor de verdade para

    uma expresso. possvel imaginar um conjunto de condies contrafatuais p que, se

    tomado como o novo fazedor de verdade, poderia invalidar a expresso (1). A expresso

    que afirma que Russel foi um estudante de filosofia poderia ser falsa se Russel no

    tivesse entrado para a universidade, ou se ele tivesse cursado msica e seguido a

    carreira artstica, ou se ele tivesse seguido a carreira poltica, ou qualquer outra coisa.

    3 LOUX, 2006, p. 159.

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    Parece que a expresso (1) no sobrevive a vrias situaes contrafatuais que, se

    tomadas como os possveis fazedores de verdade, mudam o contedo de verdade de (1).

    O mesmo no parece ocorrer com a expresso (2), parece no existir nenhuma situao

    contrafatual possvel que altere a verdade de (2). Novamente, dizemos que a verdade de

    (1) contingente enquanto a de (2) necessria. At agora foquei nas duas primeiras

    expresses apresentadas, com isso o leitor pode estar se indagando sobre a terceira

    expresso, afinal, qual o statusmodal do contedo de verdade da expresso (3) que diz

    que gua H2O? Esta uma verdade necessria ou contingente? Existem situaes

    contrafatuais que tornam (3) falsa? Enfim, sobre (3) pedirei um pouco de pacincia,

    sendo assim ser conveniente desenvolver o artigo para uma melhor compreenso do

    que ser avaliado.

    2. Mundos possveis

    Uma concepo bastante difundida na filosofia analtica atual, que colabora para

    as anlises modais, a ideia de mundos possveis. Resumidamente podemos dizer que

    um mundo possvel corresponde a uma das vrias formas de como as coisas poderiam

    ter acontecido, j o mundo atual corresponde forma como as coisas so. Interessante

    notar que o mundo atual tambm e um mundo possvel. Kripke4 ressalta o cuidado que

    devemos ter com a expresso mundos possveis, afinal um mundo possvel no algo

    como um planeta distante que podemos, por exemplo, observar por um telescpio

    potente. Um mundo possvel apenas uma histria possvel, ou um conjunto destas, que

    descreve, ou descrevem, situaes contrafatuais5. Devemos a Kripke6 a elaborao de

    uma semntica capaz de captar essas ideias acerca das modalidades, que ficou

    conhecida como semntica modal ou semntica dos mundos possveis. O autor inicia

    seu artigo7 dizendo que sua inteno estender os resultados do domnio do clculo

    proposicional para a classe dos sistemas modais chamados normais. A estrutura dos

    sistemas modais normais corresponde a um triplo ordenado (G, K, R), onde K um

    conjunto no vazio, G um membro de K e R a relao de acessibilidade de G

    4 1980, p. 15-16. 5 Mundos possveis so conjunes de estados atmicos de coisas possveis. [...] a noo de

    possibilidade analisada, quero dizer reduzida, ideia de combinao de elementos. Vrias dessas

    combinaes no existem, so meras possibilidades lgicas (ARMSTRONG, 1989, p. 48).

    6 Semantical analysis of modal logic, 1963. 7 Semantical analysis of modal logic, 1963.

  • Pressuposies metafsicas em semntica modal

    Knesis, Vol. IX, n 20, Julho 2017, p. 87-98 90

    definida sobre K. Traduzindo para termos modais, podemos compreender K como o

    conjunto de todos os mundos possveis, G como um mundo possvel (e.g. mundo atual)

    e K como a acessibilidade do mundo atual sobre o conjunto dos mundos possveis.

    Feitos estas consideraes, podemos interpretar as noes modais de possibilidade e

    necessidade da seguinte forma: uma proposio p possvel no mundo atual sse existe

    pelo menos um mundo possvel, acessvel ao mundo atual, em que p seja o caso; j uma

    outra proposio q necessria no mundo atual sse em todos os mundos possveis,

    acessveis ao mundo atual, q o caso. Tomando as notaes e como,

    respectivamente, os operadores de necessidade e possibilidade, e W como um mundo

    possvel acessvel ao mundo atual, podemos escrever:

    (,)

    (,)

    O que mostra que a semntica modal sugere uma quantificao acerca dos mundos

    possveis, de forma que o operador de possibilidade () estaria relacionado ao

    quantificador existencial () e o operador de necessidade () ao quantificador universal

    (). A contingncia diz respeito possibilidade, logo uma expresso que seja

    verdadeira no mundo atual e falsa em, pelo menos, um mundo possvel,

    contingentemente verdadeira.

    Sendo assim podemos dizer que a expresso (1) contingente, afinal ela

    verdadeira no mundo atual e falsa em alguns mundos possveis, j a expresso (2)

    necessria porque verdadeira em todos os mundos possveis. A linguagem modal

    elaborada por Kripke se apresenta como u