Logos verdadeiros e logos falso no Crátilo de Platão ?· Logos verdadeiros e logos falso no Crátilo…

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<p>Vol. 4, n 2, 2011. www.marilia.unesp.br/filogenese 132 </p> <p>Logos verdadeiros e logos falso no Crtilo de Plato </p> <p>Michele Kanashiro1 </p> <p>Resumo: Considerando a investigao de Plato sobre o falso no discurso, sua possibilidade e como ela se d, alcanada com xito pelo filsofo em um de seus dilogos da maturidade, a </p> <p>saber, o Sofista; este estudo aborda uma questo que viabiliza tal apontamento, trata-se da </p> <p>relao entre palavra e coisa, desenvolvida no Crtilo. Esse dilogo traz uma discusso entre a teoria naturalista e a convencionalista, ambas apresentando a correo dos nomes por meio de </p> <p>teses e perspectivas diferentes. Este texto pretende mostrar a pertinncia da discusso sobre a </p> <p>correo dos nomes para a crtica platnica do falso no discurso, abordando alguns elementos </p> <p>comuns que aparecem nas duas teorias pelas quais opem-se seus respectivos defensores. Nesse dilogo possvel notar aquilo que interessa ao filsofo: no se trata de chegar a um </p> <p>posicionamento sobre a teoria correta, mas de fazer uma reflexo sobre a relao entre palavra e </p> <p>coisa, por meio da abordagem das duas perspectivas sobre a correo dos nomes, de modo a mostrar que h o logos verdadeiro e o logos falso. </p> <p>Palavras-chave: Plato. Discurso. Falso. Logos. </p> <p>Abstract: Considering Platos research about the false discourse, its possibility and how it is </p> <p>done, successfully achieved by the philosopher in one of his maturity dialogues, namely, the </p> <p>Sophist, this study approaches an issue that enables this idea, concerning about the relationship between word and thing, developed in Cratylus. This dialogue brings a discussion between the </p> <p>naturalist and conventionalist theories, both presenting the correction of the names using </p> <p>different theories and perspectives. This text aims to present the relevance of the discussion about the correction of the names to the Platonic critique about the false discourse, addressing </p> <p>some common elements that appear in both theories, where the defenders oppose to each other. </p> <p>It is possible to notice in this dialog that the philosopher is not interested in taking sides on the correct theory, but in thinking over the relationship between word and thing, through both </p> <p>perspectives about the correction of the names to prove that there are true and false logos. </p> <p>Keywords: Plato. Discourse. False. Logos. </p> <p>* * * </p> <p>Gadamer, ao abordar a relao de linguagem e logos, afirma que a filosofia </p> <p>grega se inicia com o conhecimento de que a palavra somente nome, ou seja, no </p> <p>representa (vetritt) o verdadeiro ser. essa brecha que abre a pergunta filosfica. Crer </p> <p>na palavra e duvidar da palavra caracterizam o estado da questo onde o pensamento da </p> <p>ilustrao grega via a relao entre palavra e coisa. (GADAMER, 2008, p. 524). </p> <p>No dilogo Crtilo, a relao entre palavra e coisa problematizada. Scrates e </p> <p>seu interlocutor, que d nome ao dilogo, evidenciam essa distino: uma coisa o </p> <p> 1 Graduanda em Filosofia pelo Centro Universitrio So Camilo. Orientador: Prof. Bruno Loureiro Conte. </p> <p>Email: michele.k86@gmail.com. </p> <p>Vol. 4, n 2, 2011. www.marilia.unesp.br/filogenese 133 </p> <p>nome e outra coisa aquilo de que nome. Essa relao traz alguns aspectos que </p> <p>interessam investigao platnica sobre a possibilidade do falso no discurso. </p> <p>(PLATO, 2001, 430a). </p> <p>Os personagens Crtilo e Hermgenes defendem perspectivas opostas: o </p> <p>primeiro defende a tese naturalista, de que cada um dos seres tem um nome correto que </p> <p>lhe pertence por natureza e o segundo a tese convencionalista da correo dos nomes, a </p> <p>qual consiste numa conveno e acordo, de modo que o nome que algum puser a uma </p> <p>coisa ser o nome correto. (PLATO, 2001, 383a; 384b). Por meio da discusso dessas </p> <p>duas teorias que so apresentadas por cada um deles de modo extremo, Scrates faz </p> <p>seus defensores perceberem aquilo que no se sustenta em cada uma delas. O dilogo </p> <p>no chega a uma posio unilateral, o que em Plato tem sua razo de ser, pois no se </p> <p>trata de aderir a uma ou outra tese, mas a reflexo a que Scrates conduz os </p> <p>interlocutores a realizar traz aspectos da relao entre palavra e coisa. </p> <p>Uma semelhana que h nas duas teorias a impossibilidade de conceber o </p> <p>discurso falso, a argumentao na defesa de cada uma no permite a distino entre </p> <p>verdadeiro e falso. A teoria convencionalista defendida com a tese de que o nome que </p> <p>algum puser numa coisa ser o nome correto dela e se mud-lo e j no lhe chamar </p> <p>pelo primeiro nome convencionado, o segundo no seria em nada menos correto que o </p> <p>primeiro. (PLATO, 2001, 384d). A teoria naturalista defendida por Crtilo com a </p> <p>afirmao de que todo nome correto. Ao ser questionado por Scrates pelo fato desta </p> <p>afirmao sustentar a impossibilidade de dizer falsidades, o defensor desta perspectiva </p> <p>refora sua posio interrogando como seria possvel, a algum que diz, dizer o que no </p> <p>. Sendo esta a definio de falsidade, afirma que isso no possvel. (PLATO, 2001, </p> <p>384d). Sobre essa questo no dilogo, Trindade Santos afirma que esta concepo, </p> <p>apoiada no princpio de que no possvel dizer o que no , reduzia o discurso </p> <p>funo de experincia do falante, servindo ainda para negar a possibilidade da </p> <p>contradio (PLATO, 2001, 429c-d). Esta a tese que ser refutada no dilogo </p> <p>Sofista, visto que nega a possibilidade do falso no discurso. </p> <p>Hermgenes, o defensor da teoria convencionalista, levado a admitir no ser </p> <p>possvel que o nome que algum puser a alguma coisa seja um nome to correto quanto, </p> <p>se depois no chamar mais coisa por este nome, mas por outro. Scrates usa o </p> <p>exemplo de nomear cavalo quilo que j se chama homem: ao aderir a essa tese por </p> <p>meio desta hiptese, faz o defensor desta perspectiva admitir ser possvel fazer um </p> <p>Vol. 4, n 2, 2011. www.marilia.unesp.br/filogenese 134 </p> <p>discurso falso (logos pseuds). Sendo assim, o nomear arbitrariamente no correto e </p> <p>no teria sentido em haver uma forma comum de denominar, se cada homem </p> <p>denominasse de forma inteiramente arbitrria, como foi exposto primeiramente. </p> <p>(PLATO, 2001, 384d-c). Parte-se do pressuposto de que deve haver um carter </p> <p>comum para a possibilidade da linguagem. (GADAMER, 2008, p. 526). </p> <p>A tese naturalista refutada pelo fato de que no deve haver uma coincidncia </p> <p>ou semelhana natural entre a palavra e coisa. Crtilo conduzido por Scrates a </p> <p>admitir que uma coisa seja o nome e outra aquilo de que nome (430a). Concorda </p> <p>tambm que os nomes no podem ser idnticos s coisas de que so nomes: se fosse </p> <p>assim no seriam nomes, mas duplos das coisas (432d). Por meio desta investigao, </p> <p>fica elucidado algo que interessa a Plato e que caracteriza o surgimento da filosofia: a </p> <p>distino de que o nome no a coisa. (GADAMER, 2008, p. 524). </p> <p>Scrates desfaz essas duas posies extremas, tanto a que considerava </p> <p>verdadeiro todo uso arbitrrio da linguagem quanto a que considerava tudo o que </p> <p>nomeado como correto. Essa anlise que refuta tais posies relevante filosofia </p> <p>platnica visto que, constatando que h a distino entre discurso verdadeiro e discurso </p> <p>falso, abre-se a possibilidade de discernir entre eles. (PLATO, 2001, 384b, 431b). Este </p> <p>discernimento se torna, ento, a questo a ser tratada e consiste em investigar o falso </p> <p>(pseuds) e apontar como se d sua possibilidade, ou seja, como possvel dizer o que </p> <p>no como sendo. Esse segundo ponto desenvolvido satisfatoriamente no dilogo </p> <p>Sofista com a reformulao da concepo eletica da contrariedade, substituda pela </p> <p>noo de no-ser como alteridade. (PLATO, 1979, 242 a ss). Esse desenvolvimento </p> <p>possvel mediante o xito do primeiro ponto: a investigao sobre o falso. Para adentrar </p> <p>na caa ao sofista (PLATO, 1979, 235c), no dilogo Sofista, pertinente a definio </p> <p>que ele d para discurso falso no Crtilo que corresponde mesma definio que </p> <p>aparece ali. Trata-se de conceber verdadeiro e falso como qualidades (poia) do </p> <p>discurso, excluindo a possibilidade da sua atribuio aos nomes. (SANTOS, 2001, p. </p> <p>23). </p> <p>Diante da discusso de Scrates com seus interlocutores, no dilogo Crtilo, </p> <p>possvel afirmar que o portador da verdade no o nome, pois se assim fosse no teria </p> <p>sentido falar do falso. Partindo da diferena entre logos verdadeiro e logos falso, </p> <p>Scrates reflete no fato de que as palavras (onomata), so verdadeiras ou falsas na </p> <p>medida em que o nomear, como uma parte do falar, abarca essa possibilidade. Essa </p> <p>Vol. 4, n 2, 2011. www.marilia.unesp.br/filogenese 135 </p> <p>concluso se d pela afirmao de que todo discurso pode ser verdadeiro (logos alths) </p> <p>- aquele que diz as coisas como so (ta onta legi hs estin) - ou falso (pseuds), o que </p> <p>as diz como no so (hs ouk estin). (PLATO, 2001, 385b-c). Deste modo, as palavras </p> <p>como parte do discurso podem ser verdadeiras ou falsas, no sendo a palavra (onomata) </p> <p>a portadora da verdade, mas sim o logo. (GADAMER, 2008, p. 533). </p> <p> No dilogo Fdon, Scrates aponta para uma distino entre a coisa e a palavra, </p> <p>que a sua imagem. Afirma que sua reflexo o levou a buscar refgio nos argumentos </p> <p>(eis tous logous) e procurar neles a verdade das coisas (tn ontn tn alethian). </p> <p>(PLATO, 1979, 100a, traduo nossa). Isso se d no momento em que faz uma </p> <p>analogia com a atitude das pessoas que observam o eclipse do sol: algumas pessoas </p> <p>estragam a vista por no tomarem a precauo de observar a imagem do sol refletida na </p> <p>gua. Nessa analogia, a imagem a palavra que reflete a realidade. O logos tomado </p> <p>como base, pois segundo o juzo (krinein) de Scrates o mais slido: </p> <p>Tudo aquilo que seja consoante (synphonein) ao logos eu o considero </p> <p>como sendo verdadeiro (aleth) e aquilo que no lhe consoante, eu o rejeito como erro (ouk aleth). (PLATO, 1979, 100a). </p> <p>Scrates no aceita sem reservas que uma observao en tois logois, que por </p> <p>imagem (eikosi), seja melhor do que examinar nas coisas efetivas (en ergois). (PLATO, </p> <p>1979, 99a). Porm, para o logos que ele se inclinar, afirmando que a base </p> <p>(hypothemenos) da investigao do que verdadeiro (aleth) o logos. Plato confere </p> <p>palavra, enquanto parte do discurso (logos), ser o critrio que revela a realidade (aleth </p> <p>tv ontn). (PLATO, 1979, 100a). </p> <p>No dilogo Crtilo (PLATO, 1979, 385b-c), a possibilidade da palavra ser </p> <p>verdadeira ou falsa concluso de uma premissa maior, a saber, a de que o discurso </p> <p>pode ser verdadeiro ou falso e a palavra assim por ser parte do discurso, no estando </p> <p>encerrada nela a verdade das coisas; assim tambm essa questo da palavra apenas </p> <p>como parte do discurso aparece no Sofista com o mesmo sentido (PLATO, 1979, 262a-</p> <p>b). Os personagens estrangeiros de Elia e Teeteto investigam se o no-ser se prende ao </p> <p>discurso e opinio ou se estes ltimos so absolutamente verdadeiros e, ento, jamais </p> <p>falsos. (PLATO, 1979, 261c). Nessa investigao, o Estrangeiro afirma que somente os </p> <p>nomes e, tambm, os verbos enunciados sem o acompanhamento de um nome jamais </p> <p>formam um discurso (logos), por exemplo, dizer: anda, corre, dorme, um verbo aps </p> <p>Vol. 4, n 2, 2011. www.marilia.unesp.br/filogenese 136 </p> <p>o outro, ou dizer os nomes: leo, cervo, cavalo (PLATO, 1979, 262b) e todos os </p> <p>demais nomes so sries das quais jamais resultou discurso algum: </p> <p>[...] pois os sons assim proferidos no indicam uma ao nem uma </p> <p>inao, nem o ser de um ser ou de um no-ser, pois no unimos verbos </p> <p>aos nomes. Somente unidos haver o acordo e, desta primeira combinao nasce o discurso que ser o primeiro e mais breve de </p> <p>todos os discursos. (PLATO, 2001, 262c). </p> <p>O estrangeiro explica aquilo que caracteriza o logos: no deve ser apenas nome </p> <p>ou uma srie de palavras, mas o discurso que se d com palavras o sendo uma </p> <p>indicao relativa a coisas que so, ou se tornaram, ou foram, ou sero. Deste modo, </p> <p>no se limitando a nomear, mas permitindo-nos ver que algo aconteceu, entrelaando </p> <p>verbos e nomes. Assim, dissemos que ele discorre, e no somente que nomeia, e, a esse </p> <p>entrelaamento, demos o nome de discurso. (PLATO, 1979, 262d). possvel verificar </p> <p>que estas coisas, sobre as quais discorre o discurso, coisas que so, se tornaram, foram </p> <p>ou sero, no so imveis, nem imutveis. </p> <p>A reflexo que Plato faz sobre estes aspectos do logos imprescindvel para </p> <p>que se possa identificar a possibilidade do falso no discurso, que viabiliza ao sofista dar </p> <p>aos seus discpulos a impresso de serem oniscientes sem o serem na realidade. </p> <p>(PLATO, 1979, 233c). Os personagens Estrangeiro e Teeteto se vem frente a uma </p> <p>questo extremamente difcil, pois, como aparece na fala do primeiro: </p> <p>Mostrar e parecer sem ser, dizer algo sem, entretanto, dizer com </p> <p>verdade, so maneiras que trazem grandes dificuldades, tanto hoje </p> <p>como ontem e sempre. Que modo encontrar, na realidade, para dizer </p> <p>ou pensar que o falso real sem que, j ao proferi-lo, nos encontraremos enredados na contradio? (PLATO, Sofista, 236e). </p> <p>H uma grande dificuldade ao considerar a hiptese levantada pelo Estrangeiro, </p> <p>que esforar-se por enunciar o no-ser nada dizer e, como ao incio da caa ao sofista, </p> <p>evitar at mesmo a tentativa de transportar para o no-ser o que quer que seja do </p> <p>nmero, pluralidade ou unidade, pois deste modo no se pode nem sequer falar dos no-</p> <p>seres, ao faz-lo j se lhes atribui a pluralidade e ao falar do no-ser j se lhe atribui a </p> <p>unidade. (PLATO, 1979, 237e; 238c). Eles afirmam, a princpio, que no correto </p> <p>pretender unir ser e no-ser. </p> <p>Vol. 4, n 2, 2011. www.marilia.unesp.br/filogenese 137 </p> <p>Para que seja possvel descobrir o refgio em que o sofista se esconde, </p> <p>necessrio concluir estas duas investigaes: se o no-ser se prende ao discurso e </p> <p>opinio, o que possibilitaria apontar o falso no discurso e ento, de que modo o ser se </p> <p>enlaa ao no-ser, dada a contradio de enunciar o no-ser, que seria, segundo a tese </p> <p>parmendica apresentada pelo Estrangeiro, impensvel, inefvel e impronuncivel. </p> <p>Dada a definio do discurso como o entrelaamento de verbos e nomes que </p> <p>permite ver que algo aconteceu, o estrangeiro de Elia cita o exemplo de dois discursos: </p> <p>o primeiro, Teeteto est sentado e o segundo, Teeteto voa, atribuem a cada um uma </p> <p>qualidade: ao primeiro a de verdadeiro e ao segundo a de falso. Pois o verdadeiro diz do </p> <p>ser Teeteto tal como ele , e aquele que falso diz outra coisa que aquilo que . Diz, </p> <p>portanto, algo que no (Teeteto que voa) como sendo. (PLATO, 1979, 263a-b). Neste </p> <p>ponto do dilogo j est desfeita a hiptese de que enunciar o no ser nada dizer </p> <p>(PLATO, 1979, 237e), pois ao enunciar algo que no enuncia-se, como vimos, </p> <p>alguma coisa (PLATO, 1979, 237e). Este no-ser no o contrrio do ser, mas, explica </p> <p>o Estrangeiro: </p> <p>[...] esse discurso diz coisas que so, mas outras, que aquelas que so...</p>