Ler e escrever na Educao Infantil uma atmosfera prazerosa e ... Ferraz Leal apresentam uma viso geral das alternativas para o trabalho ... escola da famlia atravs da circulao ...

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Ler e escrever na Educao Infantil Discutindo prticas pedaggicascoleo lngua Portuguesa na escolaAna Carolina Perrusi BrandoEster Calland de Sousa Rosa(Organizadoras)Ler e escrever na Educao Infantil Discutindo prticas pedaggicasCopyright 2010 As organizadorasconselho editorial da coleo lngua portuguesa na escolaAna Teberosky (Universidad de Barcelona); Anne-Marie Chartier (INRP/Paris); Artur Gomes de Morais (UFPE); Cancionila Janzkovski Cardoso (UFMT); Ceris Salete Ribas da Silva (UFMG); Edmir Perrotti (ECA/USP); Telma Ferraz Leal (UFPE)capaAlberto Bittencourteditorao eletrnicaTales Leon de MarcorevisoAiko Mine Ana Carolina LinsDados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)Ler e escrever na Educao Infantil : discutindo prticas pedaggicas / Ana Carolina Perrusi Brando, Ester Calland de Sousa Rosa, organizao. Belo Horizonte : Autntica Editora, 2010 (Lngua Portuguesa na Escola ; 2).Bibliografia.ISBN 978-85-7526-503-11. Educao infantil 2. Escrita 3. Leitura 4. Professores - Formao profissional I. Brando, Ana Carolina Perrusi. II. Rosa, Ester Calland de Sousa. III. Srie.10-09073 CDD-370.71ndices para catlogo sistemtico:1. Educao infantil : Professores : Formao :Educao 370.71autntICa eDItora LtDa.Rua Aimors, 981, 8 andar. Funcionrios30140-071. Belo Horizonte. MGTel: (55 31) 3222 68 19 Televendas: 0800 283 13 22www.autenticaeditora.com.brTodos os direitos reservados pela Autntica Editora. Nenhuma parte desta publicao poder ser reproduzida, seja por meios mecnicos, eletrnicos, seja via cpia xerogrfica, sem a autorizao prvia da Editora.Revisado conforme o Novo Acordo Ortogrfico.Sumrio apresentaocaptulo 1Alfabetizar e letrar na Educao Infantil: o que isso significa? Ana Carolina Perrusi Brando e Telma Ferraz Lealcaptulo 2Entrando na roda: as histrias na Educao InfantilAna Carolina Perrusi Brando e Ester Calland de Sousa Rosacaptulo 3Brincando, as crianas aprendem a falar e a pensar sobre a lnguaTelma Ferraz Leal e Alexsandro da Silvacaptulo 4Conscincia fonolgica na Educao Infantil: desenvolvimento de habilidades metalingusticas e aprendizado da escrita alfabticaArtur Gomes de Morais e Alexsandro da Silvacaptulo 5Explorando as letras na Educao Infantil Eliana Borges Correia de Albuquerque e Tnia Maria Rios Leitecaptulo 6Ditando e escrevendo: a produo de textos na Educao InfantilFernanda Michelle Pereira Giro e Ana Carolina Perrusi Brando 713 33537393117captulo 7As fichas de atividades de linguagem escrita na Educao InfantilAna Carolina Perrusi Brando e Maria Jaqueline Paes de Carvalhocaptulo 8Projeto Mala de Leitura: aproximando a escola da famlia atravs da circulao de livrosEster Calland de Sousa Rosa e Maria Solange Brandoos autores139165 1857Apresentao consenso nas sociedades contemporneas que ler e escrever constituem um patrimnio cultural que deve ser disponibilizado a todos. Considerando, portanto, que a cultura letrada faz parte do nosso cotidiano, ainda que se apresente com nuances especficas para segmentos diferenciados da populao, entendemos que a leitura e a escrita tambm interessam s crianas, incluindo as menores de seis anos. partindo desse pressuposto que o livro Ler e escrever na Edu-cao Infantil discutindo prticas pedaggicas apresenta ao leitor um conjunto de ensaios voltados a educadores que atuam nessa etapa da Educao Bsica e que buscam refletir sobre o trabalho didtico que desenvolvem na rea de linguagem escrita. Temos constatado que, nesse campo, muitas professoras sentem falta de referenciais mais claros, que orientem sua prtica educativa. Diante desse quadro, ou utilizam os conhecidos exerccios de treino perceptomotor e cpia de letras, a fim de preparar para a alfabetiza-o, ou abandonam qualquer atividade mais sistemtica de leitura e produo escrita por parte dos pequenos. Discordando das duas alternativas, neste livro, argumentamos a favor da possibilidade de 8que crianas menores de seis anos ampliem suas habilidades de uso da linguagem escrita nas situaes de seu cotidiano, bem como comecem a aprender sobre alguns princpios do sistema de escrita alfabtica. Frisamos ainda que essa aprendizagem deve estar em consonncia com os interesses e os desejos infantis, de modo que as situaes de leitura e escrita propostas assegurem s crianas o prazer de agir por meio desses recursos da nossa cultura, sem ferir, ao mesmo tempo, seu direito de aprender brincando. Em sntese, os autores desta coletnea concordam que o espao institucional da Educao Infantil precisa ser orientado por uma in-tencionalidade pedaggica e buscam dar subsdios para que o leitor possa caminhar na direo de novas prticas que integrem, desde cedo, o letramento e a alfabetizao. Sem adotar uma perspectiva comumente chamada de con-teudista nem pretender reduzir o trabalho pedaggico nessa etapa linguagem escrita, no debate nacional sobre o currculo na Edu-cao Infantil, somos favorveis promoo de prticas de leitura e de produo escrita pautadas por objetivos claros de ensino e de aprendizagem, entendendo tal alternativa como uma oportunidade de acesso e insero das crianas na cultura letrada. Nesse sentido, enfatizamos que a opo por esse caminho de-manda que sejam discutidas, do ponto de vista tanto terico quanto das orientaes metodolgicas, opes para uma interveno quali-ficada junto a crianas que frequentam instituies educativas para menores de seis anos. Com base nessa compreenso, os oito captulos oferecem refe-renciais tericos relevantes, dados de pesquisa, relatos de situaes concretas vividas em salas de Educao Infantil, alm de sugestes e anlises de atividades para as crianas. Dessa forma, esperamos contribuir para qualificar uma ao pedaggica sistemtica, cada vez mais carregada de intenes, que devem ser bem conhecidas e refletidas pelas professoras que atuam com crianas dessa faixa etria. Tambm importante destacar que, embora as reflexes susci-tadas ao longo deste livro sejam vlidas para professoras da primeira e segunda etapa da Educao Infantil, entendemos que as crianas 9de quatro e cinco anos tero maior possibilidade de participar das atividades de leitura e escrita discutidas aqui. Antes de apresentar cada um dos captulos que compem o livro, vale informar que os autores so todos professores universitrios ou de Educao Infantil, que compartilham princpios sociointeracio-nistas no trabalho docente neste segmento de ensino. Alm disso, lembramos, mais uma vez, a recomendao de que, ao participarem de situaes variadas envolvendo a leitura, a produo de textos e a reflexo sobre a forma escrita da lngua, as crianas estejam inseridas em uma atmosfera prazerosa e significativa para elas, considerando que a brincadeira a principal caracterstica da cultura da infncia. Por fim, os temas aqui tratados vm sendo objeto de debates e refle-xes conduzidos no Centro de Estudos em Educao e Linguagem da Universidade Federal de Pernambuco (CEEL/UFPE), que desde 2004 tem atuado em diversas aes de formao continuada de professores, de produo e anlise de material didtico, entre outras reas. Vamos, agora, apresentao dos captulos.No primeiro, intitulado Alfabetizar e letrar na Educao In-fantil: o que isso significa?, Ana Carolina Perrusi Brando e Telma Ferraz Leal apresentam uma viso geral das alternativas para o trabalho pedaggico com a linguagem escrita na Educao Infantil. Em seguida, argumentam a favor de que as crianas, nessa etapa, co-mecem a aprender alguns princpios do sistema de escrita alfabtica, dando incio ao seu processo de alfabetizao, ao mesmo tempo em que participem de prticas sociais mediadas pela escrita. Para isso, ao final do captulo, as autoras oferecem orientaes para a organizao e planejamento de atividades agrupadas em cinco blocos, explicitando, portanto, o que entendem por alfabetizar e letrar na Educao Infantil.No Captulo 2, Entrando na roda: as histrias na Educao Infantil, Ana Carolina Perrusi Brando e Ester Calland de Sousa Rosa destacam a importncia do encontro entre crianas e profes-soras na roda de histrias e apresentam vrios motivos para que a contao e leitura de histrias seja uma atividade includa na rotina diria das salas de Educao Infantil. As autoras tambm defendem a necessidade de que a professora promova uma boa conversa a 10partir das histrias lidas, fomentando nas crianas uma atitude de busca e construo de sentido na sua interao com textos escritos. Telma Ferraz Leal e Alexsandro da Silva escrevem o Captulo 3, cujo ttulo Brincando, as crianas aprendem a falar e a pensar sobre a lngua. Inicialmente os autores retomam aspectos tericos e gerais sobre os jogos e brincadeiras, destacando sua importncia para a criana. Em seguida, refletem, mais especificamente, sobre as relaes entre a brincadeira e o desenvolvimento da linguagem verbal, por meio dos jogos de encenar, das brincadeiras de ler e dos jogos com palavras. Ao final do captulo, oferecem aos professores algumas ideias sobre como tais brincadeiras podem ocorrer no espao da Educao Infantil.No Captulo 4, Conscincia fonolgica na Educao Infantil: desenvolvimento de habilidades metalingusticas e aprendizado da escrita alfabtica, Artur Gomes de Morais e Alexsandro da Silva abordam um tema ainda pouco conhecido dos professores de Edu-cao Infantil e muitas vezes mal-interpretado como sinnimo de uma proposta de treinamento fonmico. Assim, os autores iniciam o captulo apresentando o conceito de conscincia fonolgica, es-clarecendo a diferena entre esta e a conscincia fonmica. Seguem discutindo as relaes entre as habilidades de anlise fonolgica e a alfabetizao, analisando resultados de pesquisas realizadas na rea. Por fim, propem alternativas didticas para favorecer o desenvol-vimento da conscincia fonolgica que so bem distintas daquela perspectiva que enfatiza a produo, repetio e memorizao de fonemas pelas crianas.Explorando as letras na Educao Infantil o ttulo do Captulo 5, escrito por Eliana Borges Correia de Albuquerque e Tnia Maria Rios Leite. O texto traz uma reflexo sobre a aprendizagem dos nomes das letras, algo, em geral, muito valorizado pelos pais e comumente trabalhado de forma equivocada em salas de Educao Infantil. Alm de trazerem uma discusso de pesquisas que tratam das relaes entre a alfabetizao e o nome das letras, as autoras analisam diferentes formas de atuao da professora. Assim, confrontam as propostas mecnicas e repetitivas de cpia e repetio do traado das letras 11com outras sugestes bem mais significativas para as crianas. Uma importante discusso sobre os tipos de letras e seus usos na Educao Infantil tambm destacada no captulo.Retomando o foco no eixo do letramento com crianas menores de seis anos, Fernanda Michelle Pereira Giro e Ana Carolina Perrusi Brando assinam o Captulo 6: Ditando e escrevendo: a produo de textos na Educao Infantil. Nesse artigo, as autoras refletem sobre a prtica de produo de textos tanto escritos pelas crianas quanto por elas ditados professora. Uma especial ateno dada reflexo sobre as condies de produo de textos, na tentativa de gerar situaes de escrita claramente definidas e que, sobretudo, inte-ressem s crianas. Ao final do captulo, o relato de uma experincia bem-sucedida vivida pelas autoras trazido para ilustrar essa ideia.As fichas de atividades de escrita na Educao Infantil consti-tuem o tema do Captulo 7, de autoria de Ana Carolina Perrusi Bran-do e Maria Jaqueline Paes de Carvalho. Considerando o crescente espao que as atividades com lpis e papel voltadas para o ensino da linguagem escrita vm ocupando na rotina das crianas pequenas, as autoras apresentam e discutem vrios exemplos das chamadas fichas ou tarefas, de modo a ajudar a professora a elaborar e avaliar essa proposta e inseri-la, caso julgue pertinente, como mais um recurso didtico para seu grupo de crianas.Ester Calland de Sousa Rosa e Maria Solange Brando fecham o livro com o Captulo 8: Projeto Mala de Leitura: aproximando a escola da famlia atravs da circulao de livros. No texto, as autoras apresentam inicialmente o projeto implantado numa escola da rede pblica municipal do Recife e, apoiadas em entrevistas realizadas com professoras e mes de crianas participantes do projeto, refle-tem sobre a prtica de emprstimos de livros para casa na formao de leitores. As autoras defendem que a circulao de livros entre a escola e a casa, alm de propiciar o acesso ao texto literrio, tambm favorece a cooperao dos familiares das crianas no letramento escolar dos pequenos. Como possvel notar nesta breve sntese temtica do livro, em cada um dos captulos destaca-se um dos trs eixos de trabalho 12em alfabetizao e letramento: leitura, produo oral e escrita de textos e reflexo sobre a lngua. Entendemos, portanto, que este conjunto de textos inditos traz uma contribuio para se recolocar as questes da alfabetizao e do letramento na Educao Infantil. Sabemos, ainda, que as ideias aqui defendidas esto longe de serem consensuais, o que, ao nosso ver, constitui outra justificativa para a pertinncia desta obra. A leitura dos captulos deste livro mostra que no estamos diante de uma polmica que orbita em torno de apenas dois polos: por um lado, os que defendem que preciso antecipar o processo de alfabeti-zao (entendida como uma ao perceptomotora para a aquisio de um cdigo) e, por outro, os que entendem que a Educao Infantil no deve se ocupar do ensino da leitura e da escrita, seja de que forma for. O referencial terico sociointeracionista e pesquisas empricas conduzidas sob esse paradigma sustentam a defesa de outra via: a al-fabetizao na perspectiva do letramento uma abordagem possvel e desejvel na Educao Infantil. Nesse sentido, o livro ora apresentado pretende contribuir com o planejamento e a organizao do ensino da linguagem escrita a crianas menores de seis anos, mostrando, em cada captulo, alguns caminhos possveis nessa direo. Caminhos certamente j conhecidos por quem trabalha com crianas pequenas, mas que possam favorecer uma reflexo mais sistemtica, que subsidie a prtica docente. Para concluir, entendemos que ao tratar de prticas de leitura e escrita na Educao Infantil no podemos perder de vista o que nos lembra o poeta mato-grossense Manoel de Barros quando afirma: Eu sou a minha imaginao e o meu lpis. [...] O ser letral gosta de fazer imagens para confundir as palavras. Iniciar as crianas, desde cedo, no mundo letrado, aponta para a meta de torn-las cada vez mais capazes de desenvolver sua autoria no campo da escrita, para que se tornem, de fato, seres letrais.As organizadoras13Neste captulo buscamos refletir sobre o papel da Educao In-fantil na ampliao do contato das crianas com o mundo da escrita. Como ser possvel notar, consideramos essencial planejar situaes em que elas vivenciem, nessa etapa da Educao Bsica, prticas de leitura e escrita, sem que isso signifique desconsiderar suas necessi-dades e interesses. Assim, defendemos o espao da linguagem escrita, ao lado das outras tantas linguagens (plstica, corporal, musical, de faz de conta) em que os meninos e meninas podem se expressar e se desenvolver, conforme destaca o educador italiano Malaguzzi (1999). Enfatizamos ainda que ensino no precisa ser uma palavra proibida na Educao Infantil, como pretendem alguns (ver, por exem-plo, Faria, 2005). Ao contrrio, assim como Arce e Martins (2007), entendemos que h muito o que ensinar para as crianas menores de seis anos. Neste sentido, pretendemos apontar, no que se refere escrita, algumas alternativas para um ensino pleno de significado para as crianas e que, portanto, considere suas reaes, o que aprendem, como aprendem e o que lhes interessa aprender. Para atingir o objetivo proposto, discutimos como diferentes concepes sobre a apropriao da leitura e da escrita se articulam e captulo 1Alfabetizar e letrar na Educao Infantil: o que isso significa?Ana Carolina Perrusi BrandoTelma Ferraz Leal14se materializam no trabalho proposto em salas de Educao Infantil. Em seguida, explicitamos as diretrizes pedaggicas para tal ensino com vistas a orientar a professora em seu fazer cotidiano relativo a esse objeto de conhecimento. Finalmente, apresentamos algumas pos-sibilidades de atividades, agrupadas em cinco blocos, especificamente dirigidos para a alfabetizao e letramento na Educao Infantil. A leitura e a escrita na Educao Infantil: alguns percursos No Brasil, at os anos 60 do sculo XX, predominava o discurso da maturidade para a alfabetizao. Em outras palavras, a apren-dizagem da leitura e da escrita resultaria de um amadurecimento de certas habilidades, de modo que o ensino estaria condicionado a esse desabrochar natural que, supostamente, deveria ocorrer em torno dos seis ou sete anos. Acreditava-se, ainda, que a criana no teria qualquer interesse em ler e escrever at essa idade e que tentativas de alfabetiz-la antes disso eram vistas at mesmo como prejudiciais ao seu desenvolvimento, j que as crianas no estariam prontas para essa aprendizagem. Em sntese, a prontido para a alfabetizao significaria, de acor-do com Poppovic e Moraes (1966, p. 5), [...] ter um nvel suficiente, sob determinados aspectos, para iniciar o processo da funo simbli-ca que a leitura e sua transposio grfica, que a escrita. Com base nesse conceito, as autoras propuseram na poca um Programa para o desenvolvimento de funes especficas contendo exerccios que visavam ao trabalho com diferentes aptides e atitudes consideradas prvias aprendizagem da escrita. Conforme enfatizavam as autoras, a finalidade no era entrar no campo da alfabetizao, mas sim dar elementos professora para a elaborao de um programa graduado de exercitao que pusesse as crianas em condies adequadas para enfrentar esse processo (p. 23). Os exerccios propostos eram divididos em trs etapas: (1) os sentidos (a vista, o olfato, o paladar, a audio e o tato), (2) as funes especficas (i.e. noes quantitativas, orientao espacial e temporal e esquema corporal) e (3) o grafismo. As autoras salientavam ainda que: 15O treinamento motor, que est includo em todos os exerc-cios, feito em forma de recorte e colagem na 1 e 2 etapas e com o uso do lpis na 3 etapa. O uso de formas grficas como nmeros e letras no significa uma entrada no campo da escrita, o que seria totalmente prematuro, antes da aquisio da leitura, mas apenas um treinamento motor da movimen-tao direcional certa que a criana necessitar mais tarde (PoPPovic; Moraes, 1966, p. 23).Com base nesses princpios, pode-se concluir que o trabalho na Educao Infantil deveria evitar qualquer contato direto com a leitura e a escrita e se concentrar no estmulo aos chamados pr-requisitos para aprender a ler e escrever, tais como o desenvolvimento de ha-bilidades de coordenao viso-motora, memria visual e auditiva, orientao espacial, articulao adequada de palavras, certo grau de ateno e concentrao, boa alimentao, entre outros. Conforme salienta Ferreiro (1993), essas ideias justificaram a manuteno do pr-escolar, assepticamente isolado da lngua escrita [...], desen-volvendo habilidades prvias que, segundo parece, maturam em contextos alheios lngua escrita (p. 65, grifos da autora). Observa-se que tal concepo sobre a aprendizagem da leitura e da escrita teve um impacto na orientao de polticas pblicas para o atendimento a crianas em pr-escolas nos anos 1970 e 1980 do sculo XX (ver KraMer, 1992), bem como nas atividades realizadas em salas de Educao Infantil por todo o Pas. Porm, j nos anos 1920 e 1930, pesquisadores questionavam essas noes. Vygotsky (1984), por exem-plo, salientava que bem antes dos seis anos as crianas eram capazes de descobrir a funo simblica da escrita e at comear a ler aos quatro anos e meio. Para ele, o problema maior no era a idade em que a criana seria alfabetizada, mas sim o fato de a escrita ser ensinada como uma habilidade motora, e no como uma atividade cultural complexa (p. 133). Assim, criticava o trabalho da maioria das escolas de sua poca, incluindo as propostas de Montessori, por desconsiderarem que a escrita deveria ter significado para as crianas. Ou seja, para Vygostsky, a escrita precisaria ser ensinada como algo relevante para a vida, pois somente dessa forma ela se desenvolveria no como hbito de mo e dedos, mas como uma forma nova e complexa de linguagem (p. 133).16O discurso da prontido tambm foi questionado por profis-sionais da rea de educao que apontavam a baixa qualidade dos exerccios preparatrios: muito repetitivos e vazios de significado para as crianas, alm de obrigarem que elas ficassem presas durante muito tempo a atividades com papel e lpis. Porm, o maior golpe nesse discurso foi o fato de que o fracasso na alfabetizao continuava a ocorrer mesmo com o alto investimento pblico na disseminao de programas que apostavam em numerosos exerccios preparatrios para garantir a maturao almejada para a alfabetizao. Diante desses argumentos, observamos a abertura de pelo menos trs novos caminhos para o trabalho com a linguagem escrita nas salas de Educao Infantil, conforme apresentaremos a seguir.Caminho 1: A obrigao da alfabetizaoSe no h sustentao terica ou emprica para a ideia de pr-requisitos para alfabetizao, por que esperar at os seis ou sete anos para alfabetizar as crianas? Os que adotam esse modo de pensar defendem, portanto, que as crianas concluam a Educao Infantil j dominando certas associaes grafofnicas, copiando letras, palavras e pequenos textos, bem como lendo e escrevendo algumas palavras e frases.Os exerccios preparatrios so, assim, substitudos pelo traba-lho exaustivo com letras, iniciando pelo reconhecimento e escrita de vogais, seguindo-se o trabalho com as consoantes e famlias silbicas. Subjacente a esse tipo de trabalho na Educao Infantil est a ideia de que a aquisio da leitura e escrita corresponde aquisio de um cdigo de transcrio do escrito para o oral e vice-versa, bastando criana memorizar as associaes som-grafia para ser alfabetizada. Semelhantemente abordagem dos pr-requisitos, a nfase est no desenvolvimento de habilidades perceptuais e motoras. A diferena que letras e palavras so utilizadas para o treino perceptual e motor, em vez de outros traados, formas ou figuras. O trecho a seguir, extrado de uma observao em uma sala com crianas na ltima etapa da Educao Infantil, sintetiza de forma bastante clara as prticas associadas ao que chamamos aqui de a obrigao da alfabetizao. Vejamos:17Aps conversar informalmente com as crianas, a profes-sora iniciou um trabalho de reviso das vogais e das conso-antes. Ela escreveu no quadro algumas famlias silbicas e palavras formadas por slabas correspondentes a essas famlias ou a outras j trabalhadas, conforme transcrito:Reviso das famlias a e i o uba, be, bi, bo, bu bo lala, le, li, lo, lu da doda, de, di, do, du sa posa, se, si, so, su la tata, te, ti, to, tu pi paai, ei, iu, oi, ui ta tuTia juntou a letrinha a com i formando ai. Prestem aten-o agora! Tia juntou outra letrinha e com i formando ei. Assim por diante. A professora continuou: Olhem, primeiro eu falo as famlias e vocs escutam. Depois vocs vo repetindo cada famlia. Quando vocs no souberem, eu ajudo a pronunciar.Ela comeou dizendo a primeira slaba (ba) para que os alunos continuassem a sequncia: (be, bi, bo, bu). Ao chegar famlia do t, a professora disse: Vocs no estudaram em casa, tm que estudar!. Durante a atividade, as crianas observavam o quadro e repetiam as famlias. Algumas erravam, outras ficavam caladas, poucas sabiam as famlias de modo completo. Depois a professora passou uma tarefa para que os alunos exercitassem as famlias silbicas. A tarefa dizia: Vamos fazer as famlias. Em seguida, apresentou as famlias silbicas do BA, MA, LA, DA e pediu que as crianas copiassem duas vezes as slabas de cada famlia.18Caminho 2: O letramento sem letras! Como relao ao tipo de trabalho descrito anteriormente (que, infelizmente, tem ganhado muito espao na Educao Infantil), vemos o surgimento de outro modo de pensar. Este foi reconhecido como o letramento sem letras,1 caracterizando-se a nfase dada a outros tipos de linguagem na Educao Infantil, como a corporal, a musical, a grfica, entre outras, banindo-se a linguagem escrita do trabalho com crianas pequenas. Nesse tipo de abordagem, portanto, a alfabetizao, de modo contrrio ao que prope o caminho anterior, no concebida como objeto do trabalho educativo, sendo, em ge-ral, tomada como um contedo escolar e, portanto, proibido para crianas da Educao Infantil. Tal concepo , sob nosso ponto de vista, equivocada por vrios motivos, a comear pela perspectiva preconceituosa em relao escola, vista, necessariamente, como o espao da disci-plina rgida, da falta de criatividade, de espontaneidade, lugar que forma alunos passivos por meio de prticas repetitivas, vazias de significado, distantes das suas vidas e dos seus interesses (Bran-do, 2009, p. 105). Em contraposio, a Educao Infantil, vista como um ambiente antiescolar[] em que se respeitam as suas singularidades (das crian-as), em que h espao para a brincadeira e o prazer, para o movimento do seu corpo, para criar e dialogar, local em que se pode experimentar, investigar, expressar sentimentos, construir a identidade e aprender numa atmosfera acolhedora e desafiante (p. 105).Porm, ao olhar ao nosso redor, discordamos tanto da ideia de que a Educao Infantil represente sempre esse ideal descrito quanto da ideia de que toda escola resulte, necessariamente, na formao de crianas apticas e de prticas que desrespeitem a infncia (Brando, 2009). Especificamente, tambm no consideramos que 1 Tal posio tambm reconhecida por Magda Soares em entrevista concedida para a revista Educao, em uma publicao especial, intitulada Guia da Alfabetizao, n. 1, So Paulo: Ed. Segmento, 2010.19um trabalho em direo alfabetizao feito na Educao Infantil ou na escolaridade obrigatria tenha que incluir exerccios exaus-tivos de memorizao e cpia de letras e famlias silbicas. Nesse sentido, estamos de acordo com Stemmer (2007, p. 136) quando a autora salienta que:Como comumente a aprendizagem da leitura e da escrita no tem sido sequer considerada na educao infantil, o que existe um total desconhecimento do assunto. O resultado mais imediato que os professores diante do evidente inte-resse demonstrado pelas crianas em querer aprender a ler e escrever ficam sem saber o que fazer, e em muitos casos, acabam por reproduzir prticas de ensino a que eles prprios estiveram submetidos em suas experincias escolares, sem, no entanto, terem o conhecimento necessrio para compreender as razes do que fazem e sem subsdio terico algum para alicerar suas prticas. Para no cair nesse erro, defendemos, portanto, a necessidade de falar, sim, na Educao Infantil, sobre escola, ensino, escrita, alfabetizao, buscando, porm, especificar a escola, o ensino e a alfabetizao de que estamos falando. isso que pretendemos fazer nos prximos itens deste captulo. Caminho 3: Ler e escrever com significado na Educao InfantilPode-se dizer que este modo de pensar nega os outros dois ci-tados anteriormente, pois, neste caso, no se quer obrigar a criana a concluir a Educao Infantil alfabetizada ou lendo palavras simples, por meio de exerccios repetitivos de cpia, ditado e leitura de letras, slabas e palavras; por outro lado, tambm no se pretende que ela mergulhe em um mundo que exclui textos, palavras ou letras e que, portanto, no existe na maioria dos quadrantes de nosso pas. Este terceiro caminho , assim, inspirado, por um lado, nas ideias de Ferreiro e Teberosky sobre o processo de alfabetizao, que comearam a ser divulgadas no Brasil, ao final da dcada de 1970, trazendo um grande impacto para as formas de pensar a alfabetizao, 20bem como para a reflexo sobre o prprio papel da Educao Infantil e, por outro lado, na perspectiva sociointeracionista que alerta para a importncia do papel da escola na insero das crianas na cultura escrita desde cedo. Assim, nessa perspectiva, a alfabetizao passa a ser entendida como um longo processo que comea bem antes do ano escolar em que se espera que a criana seja alfabetizada e consiga ler e escrever pequenos textos. Nas palavras de Ferreiro (1993, p. 39), isto significa que [...] no obrigatrio dar aulas de alfabetizao na pr-escola, porm possvel dar mltiplas oportunidades para ver a pro-fessora ler e escrever; para explorar semelhanas e diferenas entre textos escritos; para explorar o espao grfico e distinguir entre desenho e escrita; para perguntar e ser respondido; para tentar copiar ou construir uma escrita; para manifestar sua curiosidade em compreender essas marcas estranhas que os adultos pem nos mais diversos objetos.Ao investigar o que as crianas sabem/pensam sobre a escrita antes de serem alfabetizadas, Ferreiro e colaboradores mostraram que elas formulam hipteses acerca das funes e funcionamento da escrita, queiram ou no os seus professores. Porm, Ferreiro (1993) adverte que as oportunidades de interagir de modo significativo com a escrita no so iguais para todas as crianas. Assim salienta que: H crianas que chegam escola sabendo que a escrita serve para escrever coisas inteligentes, divertidas ou importantes. Essas so as que terminam de alfabetizar-se na escola, mas co-mearam a alfabetizar-se muito antes, atravs da possibilidade de entrar em contato, de interagir com a lngua escrita. (p. 23)Conclui-se, portanto, que na Educao Infantil muito pode ser feito na direo apontada, especialmente, para as crianas que te-riam menos oportunidades de participar de situaes mediadas pela escrita, seja por meio da leitura ou da produo de textos. Assim, concordamos inteiramente com Sol (2003), quando ela afirma que: No se trata de acelerar nada, nem de substituir a tarefa de outras etapas com relao a esse contedo (a leitura); trata-se

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