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  • JOHN COTTINGHAM

    ~

    DICIONARIO

    DESCARTES

    Traduo: HELENA MARTINS

    Professora do Departamento de Letras, PUC-Rio

    Reviso tcnica: ETHEL ALVARENGA

    Professora-adjunta de filosofw, IFCS/UFRJ

    Consultoria: RAUL LANDIM

    Professor-titular de filosofw, IFCS/UFRJ

    Jorge Zahar Editor Rio de Janeiro

  • Ttulo original: A Descartes Dictionarv

    Traduo autorizada da primeira edio inglesa publicada em 1993 por Blackwell Publishers. de Oxford. Inglaterra

    Copyright 1993, John Cottingham

    Copyright 1995 da edio em lngua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda. rua Mxico 31 sobreloja

    20031-144 Rio de Janeiro, RJ te!.: (21) 240-0226/ fax: (21) 262-5123

    e-mail: jze@zahar.com.br site: www.zahar.com.br

    Todos os direitos reservados. A reproduo no-autorizada desta publicao, no todo

    ou em parte, constitui violao do copyright. (Lei 5.988)

    Composio: Kraft Produes Grfica~

    CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

    Cottingham, John, 1943-C889d Dicionrio Descartes I John Cottingham; traduo, Helena

    Martins; reviso tcnica, Ethel Alvarenga; consultoria, Raul Landim.- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed .. 1995.

    94-0001

    Traduo de: A Descartes dictionary Inclui bibliografia ISBN: 85-7110-307-0

    I. Descartes. Ren, 1596-1650- Dicionrios. I. Ttulo.

    CDD -194 CDU- I (44)

    Sumrio

    Agradecimentos 6

    Sobre o uso deste livro 7

    Abreviaes 8

    Nota da traduo brasileira 9

    Introduo - Descartes, vida e obra 11

    VERBETES DO DICIONRIO - A-Z 17

    Bibliografia 154

    ndice remissivo 159

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    5

  • AGRADECIMENTOS

    Gostaria de registrar aqui meus sinceros agradecimentos a Enrique Chvez-Arvizo, pela preciosa assistncia editorial no estgio final de compilao deste Dicionrio.

    6

    J. c. University of Reading, Inglaterra

    Junho de 1992

    Sobre o uso deste livro

    A literatura secundria sobre Descartes enorme. Uma vez que quase todos os tpicos includos nos verbetes a seguir j foram objeto de incontveis artigos especializados, quando no de livros inteiros, qualquer tentativa de esgotar a discusso das questes envolvidas estaria fadada ao insucesso. Procurei, aqui, esboar as linhas gerais do pensamento de Descartes, fazendo o possvel para deixar que seus textos falem por si (no escapar aos especialistas, entretanto, o carter resumido e seletivo imposto pela necessidade de conciso). Embora Descartes seja um autor de clareza admirvel, essa mesma qualidade pode tornar-se uma armadilha: termos com sentido primeira vista transparente podem, de fato, envolver conotaes ou pressupostos cuja significao est longe de ser simples e clara; em tais casos, procurei mostrar um pouco do passado intelectual que foi determinante para as idias de Descartes, embora ele alegue ter "comeado de novo". A no ser pelas citaes dessas fontes iniciais, e de alguns escritos de contemporneos ou quase contemporneos de Descartes, evitamos, nos verbetes que se seguem, fazer referncia ao trabalho de comentadores e crticos; na Bibliografia, pode-se encontrar uma seleo dos trabalhos mais importantes nessa literatura secun-dria.

    7

  • Abreviaes

    Utilizaremos neste livro as seguintes abreviaes j convencionais nas referncias a obras de Descartes:

    AT: C. Adam e P. Tannery (orgs.), Oeuvres de Descartes (edio revista, 12 vols., Paris: Vrin/CNRS, 1964-76). As referncias so feitas pelo nmero do volume (em romano) e pela pgina (em arbico).

    CSM: J. Cottingham, R. Stoothoff e D. Murdoch (orgs.), The Philosophical Writings of Descartes (2 vols., Cambridge: Cambridge University Press, 1985). As referncias so feitas pelo nmero do volume (em romano) e pela pgina (em arbico).

    CSMK: Volume 111 do precedente, pelos mesmos tradutores e por Anthony Kenny (Cambridge: Cambridge University Press, 1991). Referncias por nmero da pgina.

    Deve-se observar que, embora as passagens sejam em geral citadas verbatim das tradues em CSM e CSMK, em alguns momentos precisei introduzir algumas modifica-es menores no estilo e na formulao, tendo em vista os propsitos do presente volume.

    Alm das edies mencionadas acima, fazem-se, ocasionalmente, citaes de Princ-pios de filosofia e de As paixes da alma, por referncia aos nmeros das partes e dos artigos, que sero encontrados em qualquer edio e traduo dessas obras.

    Na bibliografia, encontram-se detalhes de todas as outras edies de Descartes e de outras fontes primrias e secundrias.

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    No ta da traduo brasileira

    A traduo do termo mind (mens, em latim) revelou-se problemtica, pois remete a uma questo terminolgica anterior, que importante mencionar aqui.

    Para designar a natureza da coisa pensante (res cogitans), Descartes introduziu o termo mens, com a inteno explcita de dissociar esta noo do conceito escolstico de anima ( cf. Meditaes filosficas, Segunda Meditao e Respostas s Segundas e s Quintas Obje-es). Com menor freqncia, Descartes utilizou tambm os termos latinos ratio, intellectus e animus para designar ares cogitans (e cumpre notar que at mesmo o termo anima vez por outra aparece com esse novo sentido no escolstico). Na verso francesa do original latino das Meditaes, feita pelo Duque de Luynes e aprovada por Descartes, a natureza da coisa pensante foi designada pelos termos esprit, entendemeni, raison e, eventualmente, me, sendo importante notar que o termo esprit traduziu o termo mens.

    Duas dificuldades surgem nessa passagem do latim para o francs: em primeiro lugar, como o prprio Descartes faz questo de advertir, o termo esprit tambm poderia trazer a conotao escolstica que deve ser evitada. Em segundo lugar, em textos originalmente escritos em francs, Descartes utiliza esprit em um contexto completamente diferente, na expresso esprits animaux (espritos animais), para designar algo que nada tem a ver com a natureza da coisa pensante. As verses para o portugus, de uma maneira geral, acompanham a terminologia francesa, traduzindo esprit por esprito, tanto nas ocasies que o termo corresponde a mens em latim, quanto nas que corresponde ao primeiro termo da expresso original francesa esprits animaux.

    Seguiremos aqui, entretanto, o princpio adotado por Cottingham (tradutor ingls das obras de Descartes), que traduz mens por mind, reservando quase sempre o termo spirit para a expresso animal spirits (esprits animaux). Traduziremos, ento, mind por mente e spirit por esprito.

    H inconvenientes nessa opo. Em primeiro lugar, no contaremos com o benefcio de uma terminologia em portugus que j se encontra assentada entre os estudiosos e intrpretes de Descartes, e que, em geral, provm de tradues excelentes. Em segundo lugar, h em portugus a possibilidade, aqui bastante indesejvel, de se tomar o termo mente em sua acepo de aparelho psquico humano. O termo mente, no contexto cartesiano, refere-se a algo incorpreo e imaterial, que nem por isso deixa de ser uma realidade- uma substncia to real quanto a substncia extensa, embora com proprieda-des completamente diferentes.

    H. M. e E. A.

    9

  • Introduo Descartes, vida e obra

    "Uma tarefa interminvel, alm do alcance de uma s pessoa" (AT X 157: CSMK 43). Assim, Descartes, ento um jovem de vinte e trs anos, descreveu o intimidante projeto intelectual em que se engajara. Nas trs dcadas subseqentes, at morrer aos cinqenta e trs anos, ele desenvolveu um sistema filosfico e cientfico de um extraordinrio escopo e fora. De uma forma que h muito tempo deixou de ser possvel em nossa era moderna especializada, tentou resolver os grandes problemas estruturais da metafsica e da epistemologia, criou uma teoria geral sobre a natureza e as origens do mundo fsico, elaborou um trabalho detalhado em matemtica pura e aplicada, escreveu tratados em mecnica e em fisiologia, investigou a natureza do homem e as relaes entre a mente e o corpo, e publicou reflexes abrangentes em psicologia e em tica. Talvez nenhum outro sistema filosfico fornea uma concepo to admiravelmente integrada do conhecimento humano como um todo, e talvez nenhum outro autor tenha logrado comunicar suas idias centrais de modo to vvido e direto quanto ele. Ao nos defrontarmos com o sistema cartesiano, contemplamos um quadro magnfico da empreitada cognitiva humana- rico em detalhes, sem deixar de encerrar linhas gerais muito claras e fceis de apreender; acompanhar os argumentos de Descartes ser conduzido a algumas das questes mais fundamentais e desafiadoras em filosofia, muitas das quais subsistem vigorosas ainda hoje.

    comum atribuir a Descartes o ttulo de "pai da filosofia moderna"; o conceito de modernidade , entretanto, escorregadio. bem verdade que, juntamente com outros gigantes da "revoluo" intelectual do sculo XVII, tais como Galileu, Descartes articulou alguns dos pressupostos centrais daquilo que hoje denominamos perfil "cientfico moderno"; ao final da vida ele tinha, se no destrudo, ao menos enfraquecido muitos dos princpios sagrados da tradicional filosofia escolstica medieval. Mas tambm verdade (como iro indicar alguns verbetes deste livro) que seu modo de pensar, especialmente no que concerne metafsica, muitas vezes deixa transparecer o grande dbito que tinha com relao s idias tradicionais, as quais alegava estar suplantando. Revolues no pensamento raramente so instantneas; parte do fascnio envolvido no estudo de Descartes, e de outros grandes filsofos do sculo XVII, o sentido de embate contnuo que emerge, medida que se vo reexaminando sistematicamente as velhas categorias de pensamento. Descartes, consciente de seu valor, apresentava-se como um inovador: "percebi que era necessrio, no curso de minha vida, destruir tudo integralmente e comear de novo,

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  • 2 Introduo

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