jean jacques rousseau--_ciencia_arte

Download Jean jacques rousseau--_ciencia_arte

Post on 05-Aug-2015

178 views

Category:

Documents

1 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

1. 1Jean-Jacques RousseauDiscurso que conquistou o prmio da academia de dijon noano de 1750 sobre esta questo: se o restabelecimento dascincias e das artes contribuiu para purificar os costumes. 2. 2 3. 3APRESENTAONlson Jahr GarciaO Discurso sobre as cincias e as artes lembra um pouco, em seu mtodo e estilo, amaiutica de Scrates. Rousseau faz afirmaes incisivas, mas so poucas. No mais dasvezes ele duvida e formula perguntas. Logo de incio diz:O restabelecimento das cincias e das artes contribuiu para purificar ou para corromperos costumes? Eis o que se trata de examinar. Que partido devo tomar nessa questo?Aquele, senhores, que convm a um homem de bem que nada sabe e que como tal no seestima menos.Assim, apresentando dvidas e formulando questes, Rousseau vai extraindo, como emum parto, a experincia vivida de seus leitores para que cheguem a uma concluso geral.A grande questo : o homem, ao deixar seu estado de natureza, com toda a suaprobidade, honradez, fora e energia para se dedicar s cincias e s artes no teria secorrompido no que possua de mais puro?A resposta cabe, exclusivamente, ao leitor. a maiutica. 4. 4BIOGRAFIA DO AUTORean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra no ano de 1712 e morreu no de 1778.Dotado de excepcionais qualidades de inteligncia e imaginao, foi ele um dos maioresescritores e filsofos do seu tempo. Em suas obras, defende a idia da volta natureza, aexcelncia natural do homem, a necessidade do contrato social para garantir os direitos dacoletividade. Seu estilo, apaixonado e eloqente, tornou-se um dos mais poderososinstrumentos de agitao e propaganda das idias que haviam de constituir, mais tarde, oimenso cabedal terico da Grande Revoluo de 1789-93. Ao lado de Diderot, DAlemberte tantos outros nomes insignes que elevaram, naquela poca, o pensamento cientfico eliterrio da Frana, foi Rousseau um dos mais preciosos colaboradores do movimentoenciclopedista. Das suas numerosas obras, podem citar-se, dentre as mais notveis: Jlia ouA Nova Helosa (1761), romance epistolar, cheio de grande sentimentalidade e amor natureza; O Contrato Social (1762), onde a vida social considerada sobre a base de umcontrato em que cada contratante condiciona sua liberdade ao bem da comunidade,procurando proceder sempre de acordo com as aspiraes da maioria; Emlio ou DaEducao (1762), romance filosfico, no qual, partindo do princpio de que o homem naturalmente bom e m a educao dada pela sociedade, preconiza uma educaonegativa como a melhor, ou antes, como a nica boa; As Confisses, obra publicada apsa morte do autor (1781-1788), e que uma autobiografia sob todos os pontos-de-vistanotvel.O Discurso, aqui editado, escrito em 1749, conquistou o prmio da Academia de Dijon(1750), sobre o tema: Se o restabelecimento das cincias e das artes contribuiu parapurificar os costumes.DISCURSOQUE CONQUISTOU O PRMIO DA ACADEMIA DE DIJON NO ANO DE 1750SOBRE ESTA QUESTO: SE O RESTABELECIMENTO DAS CINCIAS E DASARTES CONTRIBUIU PARA PURIFICAR OS COSTUMES.Barbarus hic ego sum, quia non intelligor illisOvdio, As Tristes, V, elegia, 10, v. 37. 5. 5ue a celebridade? Eis aqui a desgraada obra qual devo a minha. certo queesta pea, que me valeu um prmio e que me fez um nome, quando muito medocre, eouso acrecentar que uma das menores de toda esta coletnea. Que abismo de misriasevitaria o autor, se este primeiro escrito s tivesse sido recebido como o merecia! Mas, erapreciso que um favor inicialmente injusto atrasse sobre mim, aos poucos, um rigor que o ainda mais.ADVERTNCIAis uma das grandes e belas questes que jamais foram agitadas. No se trata,neste discurso, dessas sutilezas metafsicas que invadiram todas as partes da literatura, e dasquais os programas de academia nem sempre esto isentos; trata-se, sim, de uma dessasverdades que se relacionam com a felicidade do gnero humano.Prevejo que dificilmente me perdoaro o partido que ousei tomar. Chocando de frentecom tudo aquilo que desperta, hoje, a admirao dos homens, s posso esperar a censurauniversal; e no por ter sido honrado pela aprovao de alguns sbios que devo contarcom a do pblico: tambm o meu partido est tomado. No me preocupo de agradar nemaos belos espritos nem gente da moda. Em todos os tempos, haver homens feitos paraserem subjugados pelas opinies do seu sculo, do seu pas e da sua sociedade. Isso faz,hoje, o esprito forte e o filsofo que, pela mesma razo, no passasse de um fantico dotempo da Liga. preciso no escrever para tais leitores, quando se quer viver alm de seusculo.Uma palavra ainda, e vou terminar. Contando pouco com a honra que recebi, depois deremeter este discurso eu o refundi e aumentei, a ponto de fazer dele de certa maneira, outraobra. Julgo-me, hoje, obrigado a restabelec-lo no estado em que foi coroado. Acrescenteiapenas algumas notas, deixando duas adies fceis de reconhecer, e que a Academiatalvez no aprovasse. Penso que a eqidade, o respeito e o reconhecimento exigem de mimesta advertncia.DISCURSO SOBRE ESTA QUESTO:CONTRIBUIU O RESTABELECIMENTO DAS CINCIAS E DAS ARTES PARAPURIFICAR OS COSTUMES?Decipimur specie recti (IV).Horcio, Arte Potica, verso 25. 6. 6restabelecimento das cincias e das artes contribuiu para purificar ou paracorromper os costumes? Eis o que se trata de examinar. Que partido devo tomar nessaquesto? Aquele, senhores, que convm a um homem de bem que nada sabe e que como talno se estima menos.Ser difcil, eu o sinto, apropriar o que tenho que dizer ao tribunal em que compareo.Como ter a ousadia de censurar as cincias diante de uma das mais sbias companhias daEuropa, louvar a ignorncia em uma clebre Academia e conciliar o desprezo pelo estudocom o respeito pelos verdadeiros sbios? Vi essas contrariedades e elas me no dissuadiram.No a cincia que eu maltrato, disse eu a mim mesmo, a virtude que defendo diante dehomens virtuosos. A probidade ainda mais cara s pessoas de bem do que a erudio aosdoutos. Que devo, pois, temer? As luzes da assemblia que me escuta? Confesso-o; mas,assim pela constituio do discurso, e no pelo sentimento do orador. Os soberanoseqitativos jamais vacilaram em se condenar nas discusses duvidosas; e a posio maisvantajosa ao bom direito ter de se defender contra uma parte ntegra e esclarecida, juiz nasua prpria causa.A esse motivo que me encoraja, acresce outro que me determina: que, depois de tersustentado, segundo minha luz natural, o partido da vontade, qualquer que seja o meu xito,h um prmio que me no pode faltar: encontr-lo-ei no fundo do meu corao. 7. 7PRIMEIRA PARTEum grande e belo espetculo ver o homem sair, de qualquer maneira, do nada,por seus prprios esforos; dissipar, com as luzes da razo, as trevas nas quais a natureza oenvolvera; elevar-se acima de si mesmo; atirar-se pelo esprito at s regies celestes;percorrer, a passos de gigante, como o sol, a vasta extenso do universo; e, o que ainda maior e mais difcil, entrar de novo dentro de si mesmo para a estudar o homem e conhecersua natureza, seus deveres e seu fim. Todas essas maravilhas so renovadas h poucasgeraes.A Europa cara na barbaria das primeiras idades. Os povos desta parte do mundo, hojeto esclarecida, viviam, h sculos, em um estado pior do que a ignorncia. No sei quealgaravia cientfica, ainda mais desprezvel do que a ignorncia, usurpara o nome do saber eopunha sua volta um obstculo quase invencvel. Era preciso uma revoluo para trazerde novo os homens ao senso comum; ela veio, enfim, do lado de onde menos poderia seresperada.Foi o estpido muulmano, foi o eterno flagelo das letras que as fez renascer entre ns.A queda do trono de Constantino levou para a Itlia os despojos da antiga Grcia. A Frana,por sua vez, se enriqueceu com essas preciosas runas. Em breve, as cincias seguiram asletras: arte de escrever, juntou-se a arte de pensar; gradao que parece estranha e que,talvez, no seja at bastante natural: e comeou-se a sentir a principal vantagem docomrcio das musas, a de tornar os homens mais sociveis, inspirando-lhes o desejo deagradar uns com obras dignas de sua aprovao mtua.O esprito tem suas necessidades, assim como o corpo. So esses os fundamentos dasociedade, constituindo os outros o seu atrativo. Enquanto o governo e as leis promovem asegurana e o bem-estar dos homens na coletividade, as cincias, as letras e as artes, menosdespticas e mais poderosas talvez, estendem guirlandas de flores sobre as cadeias de ferroque eles carregam, sufocam neles o sentimento dessa liberdade original para a qualpareciam ter nascido, fazem-nos amar sua escravido e formam assim os chamados povospoliciados. A necessidade elevou os tronos, as cincias e as artes consolidaram-nos.Poderes da terra, amai os talentos e protegei aqueles que os cultivam.(1) Povos policiados,cultivai-as: felizes escravos, vs lhes deveis esse gosto delicado e fino com que vos irritais;essa doura de carter e essa urbanidade de costumes que, entre vs, tornam o comrcio tosuave e to fcil; em uma palavra, as aparncias de todas as virtudes sem ter nenhuma.Foi por essa espcie de polidez, tanto mais amvel quanto menos afeta mostrar-se, quese distinguiram outrora Atenas e Roma, nos dias to gabados da sua magnificncia e do seubrilho; foi por ela, sem dvida, que o nosso sculo e a nossa nao a ultrapassaram sobretodos os tempos e sobre todos os povos. Um tom filsofo sem pedantismo, maneirasnaturais e contudo corteses, igualmente afastadas da rusticidade tudesca e da pantominaultramontana: eis os frutos do gosto adquirido pelos bons estudos e aperfeioado nocomrcio do mundo. 8. 8Como seria agradvel viver entre ns, se a aparncia fosse sempre a imagem dasdisposies do corao, se a decncia fosse a virtude, se nossas mximas nos servissem deregras, se a verdadeira filosofia fosse inseparvel do ttulo de filsofo! Mas, tantasqualidades muito raramente vo refludas, e a virtude no anda assim com tanta pompa. Ariqueza do ornamento pode anunciar um homem opulento, e sua elegncia um homem degosto: o homem so e robusto reconhecido por outros sinais; sob a vestimenta rstica deum lavrador, e no sob os d