gilton mendes rape amazonia

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antropologia do rapé na amazonia

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  • Rap e xamanismoentre grupos indgenas no

    mdio Purus, Amaznia

  • Rap e xamanismoentre grupos indgenas no

    mdio Purus, AmazniaRap e xamanismo

    entre grupos indgenas nomdio Purus, Amaznia

    Universidade Federal do Amazonas, Manaus/AM, Brasil

    Universidade Federal do Amazonas, Manaus/AM, Brasil

    G I L T O N M E N D E S D O S S A N T O S

    G U I L H E R M E H E N R I Q U E S S O A R E S

  • 12 Amazn., Rev. Antropol. (Online) 7 (1): 10-27, 2015

    Mendes dos Santos, G. | Soares, G. H.

    RAP E XAMANISMO ENTRE GRUPOS INDGENAS NO M-DIO PURUS, AMAZNIA

    ResumoFabricado com base no tabaco, o rap ocupa um lugar especial no xama-nismo entre os grupos indgenas do mdio Purus (Amaznia). O texto prope explorar o uso e sentido do rap entre alguns desses grupos, contribuindo assim para descortinar seu papel e tecer algumas conside-raes preliminares acerca das prticas de xamanismo na regio e da re-lao dos indgenas com os vrios seres que habitam os universos descri-tos em suas cosmologias. A proposta realizar um estudo multissituado a partir de dados obtidos em documentos histricos e relatos etnogrfi-cos sobre diferentes grupos que vivem na regio. Mesmo sem um estu-do que aborde de maneira transversal a questo, os dados apresentados apontam para a inevitvel conexo entre o rap e o xamanismo no m-dio Purus e nos ajudam a compreender a pliade de grupos habitantes dessa regio como um sistema em comunicao, apontando para uma etnologia do Purus para alm das diferenas histricas ou etnonmicas.

    Palavras-chave: Rap, xamanismo, grupos indgenas, mdio Purus, Ama-znia

    SNUFF AND SHAMANISM AMONG INIGENOUS GROUPS ALONG THE MIDDLE PURUS, AMAZONIA

    AbstractBased on tobacco, snuff occupies a special place in shamanism among indigenous groups in the middle Purus (Amazon region). The article focuses on the use and meaning of snuff among some of these groups, contributing for the understanding of the snuff s role, and shamanic practices in the region, taking in account the several beings that make part of their cosmologies. The authors present a multisited study based on historical and etnographic sources. The data point to an unavoidable connection between snuff and shamanism in the middle Purus, helping to understand the various indigenous groups as a system in communica-tion, beyond historic or ethnonymic differences.

    Keywords: snuff, xamanism, indigenous peoples, middle Purus, Ama-zonia

  • 13Amazn., Rev. Antropol. (Online) 7 (1): 10-27, 2015

    Rap e xamanismo

    RAP Y CHAMANISMO ENTRE LOS GRUPOS INDGENAS EN EL PURUS MEDIO, AMAZONA

    ResumenConstruido alrededor del tabaco, el rap ocupa un lugar especial en el chamanismo entre los grupos indgenas en el Purus Oriental (Amazo-nas). El texto se propone explorar el uso y significado de rap entre algunos de estos grupos, contribuyendo as a desvelar su papel y hacer algunas observaciones preliminares sobre las prcticas chamnicas de la regin y la relacin de los indgenas con los diferentes seres que habitan los mundos descritos en sus cosmologas. La propuesta es proceder a un estudio multisituado a partir de datos tomados de documentos histri-cos e informes etnogrficos sobre los diferentes grupos que habitan la regin. Incluso sin un estudio que aborde el tema de forma transversal, los datos presentados apuntan a la inevitable conexin entre tabaco y el chamanismo en el medio Purus, y nos ayudan a entender la constelacin de grupos habitantes de esta regin como un sistema de comunicacin, que apunta a una etnologa del Purus ms all de las diferencias histri-cas o etnonmicas.

    Palabras clave: Rap, chamanismo, grupos indgenas, Purus medio, Amaznia

    Endereo do primeiro autor para correspondncia: PPGAS/UFAM - Rua Ferreira Pena, 386, Centro, CEP: 69010-140 Manaus/AM.E-mail: ghsoares24@gmail.com; giltonmendes@terra.com.br

  • 14 Amazn., Rev. Antropol. (Online) 7 (1): 10-27, 2015

    Mendes dos Santos, G. | Soares, G. H.

    INTRODUO

    Alm da acuidade com que alguns via-jantes descreveram o Rio Purus em seus relatos (Ehrenreich 1948[1891], Schultz & Chiara 1955, Steere 1949[1901], Coutinho 1862, Chandless 1949[1864]), o leitor um pouco mais atento, e possivelmente com segundas intenes, vai perceber que os textos tm algo mais em comum: o uso do rap, entre os grupos indgenas, ao menos mencionado de passagem. O contato com esses trabalhos permite antever uma importncia social e cos-molgica do uso deste estimulante que ainda no foi explorada pela literatura antropolgica, pelo menos na regio aqui em tela. Diferente do investimento sobre a im-portncia dos animais nas cosmologias amerndias (Descola 1992, Viveiros de Castro 1996, Fausto, 2002), poucos so os estudos da disciplina sobre a rela-o dos grupos humanos com os ve-getais na Amaznia indgena. Dentre eles, vale destacar o precioso texto de Lvi-Strauss, escrito inicialmente para o Handbook of South American In-dians (1946-1950) e traduzido na Suma Etnolgica Brasileira (1987), sobre a importncia das plantas silvestres co-nhecidas e manejadas pelos ndios do continente que, dentre outras razes, souberam se apropriar de suas proprie-dades fsico-qumicas. Depois de ter feito a ressalva sobre a dificuldade em estabelecer o que seja silvestre e o que seja cultivado no con-texto tropical indgena, Lvi-Strauss menciona o extenso uso dado a tais plantas pelos grupos nativos. No en-

    tanto, vale sublinhar, a produo antro-polgica sobre a interao gente-planta ou de uma antropologia das plantas, quase toda concentrada nas espcies cultivadas, nos sistemas de cultivo, na construo da paisagem, na agricultura ou na agrobiodiversidade. Podemos comear lembrando o se-minal artigo de Carl Sauer (1987), que traa um rigoroso panorama sobre o cultivo de plantas na Amrica tropical durante o perodo pr-colombiano1. Adepto do difusionismo, o autor tem seu trabalho como uma tentativa de examinar o acervo de plantas cultiva-das como testemunho das origens das culturas americanas e de sua difuso (Sauer 1987: 64). Em seu levantamen-to, arrola cada uma das espcies, apon-tando para seus locais de origem, varia-bilidade, adaptao, disperso, tcnicas de cultivo etc.Importantes estudos foram produzidos por Chernela (1987) e C. Hugh-Jones (1979) no Alto Rio Negro, mostrando tanto o itinerrio social das estacas--sementes quanto a interao simbli-ca e analgica entre o processamento da mandioca e a produo de pessoas. Tambm as pesquisas em ecologia his-trica e cultural conduzidas por Rival (1993) apontam para a imbricao dos mecanismos de coevoluo de plantas e a dinmica da vida social. Os estudos do antroplogo francs Philippe Descola (1989), baseados em sua etnografia sobre a prxis e a ecolo-gia dos Achuar do Equador, evidencia-ram as concepes sociais engendra-das no universo das plantas cultivadas e apontaram ultimamente para uma

  • 15Amazn., Rev. Antropol. (Online) 7 (1): 10-27, 2015

    Rap e xamanismo

    anlise global da prtica de formao da paisagem, em que as reas abertas para o cultivo (jardins) so vistas como uma microfloresta, ao passo que a flores-ta vista como um macrorroado. Ancorados nas descobertas da gentica e da arqueologia, os estudos clssicos em ecologia histrica tm estimulado e alcanado as fronteiras da antropolo-gia, mostrando que ecossistemas ama-znicos so, na verdade, resultado da ao humana que modificou e enrique-ceu suas paisagens, classicamente tidas como naturais ou silvestres, atravs do processo de seleo, propagao e do-mesticao de um sem nmero de es-pcies (Clement 1989, Bale 1989).Os estudos etnogrficos de Kaj rhem (1993) junto aos Makuna do Alto Rio Negro, em territrio colombiano, pri-vilegiam as concepes nativas sobre o reino vegetal, revelando uma perspec-tiva mais que animista do mundo, na qual as plantas tm naturezas diversas, dependendo do ponto de vista de cada animal. Nessa mesma direo aponta Joana Cabral Oliveira (2012), em pes-quisas recentes sobre os Wajpi, que a floresta um ambiente povoado de donos vegetais. A natureza perigosa das plantas ou de seus donos ou habitantes des-crita com bastante nfase pelos Ena-wene-Nawe da Amaznia Meridional. Segundo eles, os seres que residem nas rvores da floresta so ogros gigantes, sempre vidos para atacar e roubar a alma daquelas pessoas que descum-prem as regras sociais (Mendes dos Santos 2001, 2006). tambm o que revela Peter Gow (1987) em um artigo

    pouco conhecido e bastante despreten-sioso sobre a interao dos grupos do Baixo Urubamba com a mata, intitula-do A vida monstruosa das plantas. No texto, o autor aponta para o saber, o poder e o perigo da floresta (monte), lugar de seres malficos, causadores das doenas e da morte, uma verda-deira comunidade de pessoas, com as quais preciso redobrar os cuidados. Em uma instigante passagem da sua tese sobre os Jarawara, Maizza (2009) expe a relao peculiar que esse gru-po mantm com as plantas. Para eles, estas possuem um aspecto fsico e vis-vel na Terra, mas ao mesmo tempo um esprito que mora no Cu. Dessa for-ma, quando os Jarawara enterram uma semente, assim que a planta sai do solo, o seu esprito tambm aparece e espera para ser buscado por outros seres que habitam nas camadas superiores do cosmos. Assim, todas as espcies cul-tivadas por eles tambm so espritos no Cu, chamados de filhos daquele que plantou e filho da espcie a qual pertence. Quando uma pessoa morre, seus filhos, os espritos-das-plantas, vm busc-la na terra, levando-a para viver com eles. Algumas plantas da floresta aparecem de modo muito especial no contexto da Amaznia indgena. So vrios os estudos que mostram o uso e o signi-ficado da Erythroxylum coca, ou simples-mente coca, conhecida como ipadu no Alto Rio Negro e katsupari entre diver-sos povos das bacias do Purus e Juru; da chacrona e o mariri, nome popular das plantas utilizadas na fabricao da bebida bastante conhecida como ayahuasca. Essas plantas so utilizadas,