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  • 7/21/2019 Friedman, Milton Metodologia Da Economia Positiva Friedman

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    EDJ(;OES MUL11PUC

    Vol. 1,N! 3, Fevereiro,1981

    John Neville Keynes, em seu adminivel The Scope and Method of Political

    Economy, distingue "uma ciencia positiva ... ( , ) corpo sistematizado de conheci-

    mentos relatlvos ao que e, de uma ciencia normativa, ou reguladora, ... ( , ) corpo

    sistematizado de conhecimentos em que se analisam criterios acerca do que devia

    ser e de uma arte ... ( , ) sistema de regras para a consecuyll'o de urn determinado

    objetivo"; observa que "a confusll'o entre elas e comum e tern sido a fonte de nume-

    rosos erros serios" e lembra a importancia de "reconhecer uma ciencia positiva au-

    tonoma da economia politic a" . ( 1 )

    o presente artigo volta-se principalmente para certos problemas de caratermetodol6gico, manifestos quando se constr6i a "cic~nciapositiva autonoma" recla-

    mada por Keynes, e focaliza, em particular, a questll'o de como proceder a fim de

    decidir se uma hip6tese ou uma teoria deve ser aceita, ainda que provisoriamente,

    como parte do "corpo sistematizado de conhecimentos relativos ao que e". Toda-

    via, a confusll'o deplorada por Keynes ainda se manifesta com frequencia e impede

    notar que a econornia pode ser - e em parte I S - uma ciencia positiva, de modo que

    Acrescentei, no presente artigo, sem alusoes espec{ficas, a maior parte de meu breve "Co-

    mentario", que apareceu em Survey of Contemporary Economics, Vol. II (B.F. Haley, organi-

    zador) (Chicago, Richard D. Irwin, Inc., 1952), pp. 455-57 .

    . Agrade~o, pois muito me ajudaram, os comentarlos e cr{ticas feitos por Dorothy S.

    Brady, Arthur F. Burns e George J.Stigler.

    (1)

    (tondles, Macmillan &Co., 1891), pp. 34-35 e 46.

    Original: "The Methodology of Positive Economics"

    Reprinted from Essays in Positive Economics by Milton Friedman by permission of

    The University of Chicago Press. Copyright 1953by the University of Chicago.Tradu~o: Leonidas Hegenberg.

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    parece oportuno prefaciar 0 artigo, juntando-lhe algumas observa~{'les a prop6sito

    da rela~ao que vige entre econornia positiva e econornia normativa.

    I - A RELA

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    pode vir a ser uma ciencia "objetiva", exatamente como qualquer das ciencias fisi-

    cas. 0 fato de a economia considerat interrela~aes entre seres human os e de 0pes-

    quisador ser ele mesmo (de modo muito mais claro do que acontece nas ciencias fl

    sicas), parte do assunto investigado, geram, como e obvio, dificuldades especiais,

    quando se cogita de alcan~ar objetividade; entretanto, esses fatos tamMm dll'o, aos

    cientistas sociais, certas classes de dados que nll'o estll'o ao dispor dos estudiosos

    que se voltam para as ciencias fisicas. Nem urn nertl outro desses dois itens, porem,

    permite, no meu entender, que se fa~a uma distin~ao basica entre os dois grupos de

    ciencias. ( 1 )

    A economia normativa e a arte da economia, por sua vez, nlio podem ser in-

    dependentes da economia positiva. Qualquer concluslio rela'tiva a diretrizes apoia-se,

    obrigatoriamente, em uma previslio em tomo das conseqiiencias de proceder-se deuma forma e nlio de outra, previslio essa que precisa assentar-se - explicita ou im-

    plicitamente - na economia positiva. Nao existe, e claro, uma rela~ao um-a-um

    entre as conclusaes relativas a diretriJ:es a seguir e as conclusaes da economia positi-

    va; se uma tal rela~lio biunivoca existisse,nlio have ria lugar para uma ciencia norma-

    tiva autonoma. Duas pessoas podem concordar a respeito das conseqiiencias de uma

    legisla~ll'o especifica qualquer. Contudo, uma dessas pessoas pode achar que tais

    conseqiiencias slio desejaveis, inclinando-se, pois, a aceitar a lei, ao passo que a ou-

    tra,julgando inaceitaveis aquelas conseqiiencias, pode deliberar opor-se a ela.

    Atrevo,me a dizer, entretanto, que, presentemente, no mundo ocidentale, demodo especifico, nos Estados Unidos da America, as divergencias, entre cidadll'os

    imparciais, sobre as diretrizes economicas, derivam muito mais das diferen~as nas

    previsoes relativas as consequencias economicas de uma a~lio - diferen~as que serll'o

    eliminadas pelo processo da economia positiva - do que de uma fundamental diver-

    sific~ao dos valores. basicos - diversifica~ao em tomo da qual os homens, em Ulti-

    ma analise, so podem lutar. Exemplo claro e nao destituido de importancia eo da

    legisla~ll'o a pro,posito dos sallirios rninimos. Sob a ampla quantidade de argumentos

    em favor e contra essa legisla~ao esta a ideia geral de flxar urn "salario vital" para

    todos - segundo a terminologia ambigua que freqiientemente se usa ao discutir a

    questll'o. As diversas opiniaes assentam-se largamente em uma diferen~a, explicita

    (1)

    A intera~ao entre 0observador e 0processo observado, que e tao marcante caracter{stica dasciencias sociais, possui, a par de urn paralelo obvio, nas ciencias fisicas, uma contraparte mais

    sutil no principio da indetermina~ao, que resulta da intera~ao entre 0processo de mensura~o e

    o fenomeno que se procura medir. Esses dois elementos possuem, ainda, uma contraparte na

    16gica, a saber, 0teorema de Codel, segundo 0quale impossivel construir uma logica abrangen-te e auto""luficiente. Esta em aberto a questao de saber se todos os tIes elementos podem ser

    vistos como formula~es diversas de urn principio de generalidade ainda maior.

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    ou impli~ita, no que conceme a s previsGes. relativas a eficacia desse particular modode alcan~ar 0 objetivo desejado. Quem apoia a lei acredita (preve) que os sahirios

    minimos legais diminuem a pobreza pois elevam os vencimentos de pessoas que re-

    cebem menos do que 0sahirio minima, assim como os vencimentos de algumas pes-

    soas que recebem mais do que esse minimo, sem provocar aumento do mlmero de

    pessoas desempr~gadas ou com empregos piores do que os empregos que teriam sem

    a lei. Quem se op~e a lei acredita (Preve) que os salarios minimos legais aumentam a

    pobreza pois elevam 0mlmero de pessoas desempregadas ou com empregos piores e

    isso contrabalan~a, e muito, qualquer efeito favoravel que a lei poderia ter sobre os

    sahirios de pessoas que viessem a manter seus empregos. Acordo quanta as conse-

    qiiencias economicas de uma lei nao precisa, obrigatoriamente, corresponder a

    completo acordo a respeito da sua desejabilidade, pois

    e perfeitamente possivel

    haver diferen~as remanescentes no que conceme as suas conseqiiencias politicas ou

    sociais. Todavia, existindo acordo em tomo dos objetivos, ter-se-a dado urn largo

    passo em dire~ao ao consenso.

    Diferen~as intimamente associadas, na analise positiva, esta'o nos alicerces de

    concep~~es divergentes a proposito do papel e da posi~ao dos sindicatos e a prop6-

    sito da desejabilidade dos con troles qiretos de pre~os e sallirios e das tarifas. Dife-

    rentes previsoes acerca da importancia das assim chamadas "economias de escala"

    explicam, amplamente, as concep~oes divergentes a respeito da desejabilidade ou da

    necessidade de haver pormenorizada regulamenta~ao govemamental da industria ede haver preferencia pelo socialismo em vez da a~l[o das empresas privadas. Essa

    lista poderia ser indefinidamente prolongada. ( 1 ) Meu juizo de que as principais

    diferen~as em tomo de praticas economicas, no mundo ocidental, SaDdesse genero,

    e , naturalmente, ele mesmo, urn enunciado "positivo", a ser aceito O U rejeitado combase na evidencia empirica.

    ( 1)

    Exemplo de maior complexidade e 0das diretrizes de estabiliza\(ao. A urn primeiro olhar, con-cep~oes divergentes a respeito desse problema parecem refletir diferen~as nos objetivos colima-

    dos. Acredito, porem, que essa prirneira impressao e desnorteadora e que, fundamentalmente, as

    concep~oes divergentes refletem, principalmente, jUlzos diversificados a propOsito da fonte de

    flutua~oes, na atividade economica, e do efeito de uma a~o alternativa, contraciclica. Para

    examinar uma importante considera~o que explica boa parte da controversia, ver "The Effects

    of a Full-Employment Policy on Economic Stabilitiy. A Formal Analysis", infra, pp. 117 -32.

    Urn summo da atual posi~o das concep~oes dos profissionais que examinam 0assunto se en-

    contra em "The Problem of Economic Instability", relatorio de subcomissao do "Committee on

    Public Issues':, da American Economic Association, American Economic Review, XI (setembro

    de 1950),501-38.

    N.T.: nesta e em outras notas, quando 0Autor diz infra, refere-se a trechos que figuram nas

    demais partes (II, III e IV) de seu livro ESSAYS IN POSITIVE ECONOMICS (Chicago Press,1953,edi~ao Phoenix, de 1966),cuja parte I, Introdu~ao, pp. 3-43, esta aqui traduzida.

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    Se meu juizo e valida, isso quer dizer que urn consenso acerca de diretrizes

    "corretas", no campo Economico, depende muito menos do progresso da Econornia

    normativa, propriamente dita, do que do progresso de uma Economia positiva capaz

    de conduzir a conclusoes que sao e merecem ser amplamente acolhidas. Quer dizer,tambem, que uma razao pondenivel para distinguir riitidamente a Econornia positiva

    da normativa e, justamente, a contribu