“eu não sou bandido”: agenciamento da enunciação e orientação

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  • ReVEL, v. 9, n. 16, 2011 ISSN 1678-8931 164

    COSTA, Greiciely Cristina Eu no sou bandido: agenciamento da enunciao e orientao argumentativa.

    ReVEL, v. 9, n. 16, 2011. [www.revel.inf.br].

    EU NO SOU BANDIDO: AGENCIAMENTO DA ENUNCIAO E

    ORIENTAO ARGUMENTATIVA

    Greciely Cristina da Costa1

    greciely@gmail.com

    RESUMO: Analisamos, neste artigo, o funcionamento da negao e da designao atravs do enunciado Eu no sou bandido. Observamos a relao de significao instaurada pelo agenciamento enunciativo e o modo como a argumentao orientada em textos de jornais e blogs, alm de um texto retirado do livro Falco-Meninos do Trfico, nos quais o enunciado acontece. A concluso a que chegamos a de que o acontecimento da enunciao, atravessado pela temporalidade, recorta e impe sentidos distintos para este mesmo enunciado. PALAVRAS-CHAVE: Acontecimento e agenciamento enunciativo; orientao argumentativa.

    INTRODUO

    Nosso objetivo neste trabalho analisar, em torno do funcionamento da negao e da

    designao, o enunciado Eu no sou bandido. Interessa-nos investigar a relao de

    significao estabelecida em ambos, no acontecimento da enunciao, a partir do modo como

    se do o agenciamento enunciativo e a orientao argumentativa. Para tanto selecionamos

    textos de jornais e blogs disponveis em pginas da internet, alm de um texto retirado do

    livro Falco Meninos do Trfico, nos quais o enunciado aparece. Em entrevistas, distintos

    sujeitos se defendem mobilizando tal encunciado. Ele acontece a partir de uma forma

    cristalizada, que circula como argumento para diferentes acusaes, em distintas condies

    enunciativas. No entanto, suspeitamos que cada um sustentado diferentemente.

    Como o enunciado Eu no sou bandido acontece como argumento no espao

    enunciativo? Como a designao bandido significa neste espao? Na busca de compreenso

    destes questionamentos partimos da concepo de espao enunciativo como aquele que

    distribui e atribui politicamente as lnguas para seus falantes, no qual lnguas so divididas,

    1 Doutoranda no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL/UNICAMP).

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    redivididas, se misturam, se desfazem, se transformam. Nessa perspectiva, nosso foco refere-

    se diviso de sentidos, ao confronto de sujeitos de linguagem, por isso pretendemos em

    nossa anlise explicitar os lugares de dizer do enunciado em questo intentando observar o

    funcionamento do poltico na lngua.

    1. NEGAO E ARGUMENTAO

    interessante e produtivo investigar a estrutura de negao do enunciado Eu no sou

    bandido. Nega-se ser bandido a partir da insero da negativa no na afirmativa eu sou.

    O procedimento argumentativo se ancora, ento, em uma negao. Com efeito, considerando

    o que desenvolve Ducrot (1987, 1988) sobre a teoria polifnica, em que a negao marca a

    representao de mais de uma perspectiva enunciativa, j vislumbramos o desdobramento de

    mais de um dizer em Eu no sou bandido, uma outra posio distinta do Locutor (L).

    A negao na lngua apresenta a disparidade entre a afirmao e a negao, ou seja, a

    negao envolve ao menos dois enunciadores. De acordo ainda com Ducrot (1987: p. 202) a

    maior parte dos enunciados negativos [...] faz aparecer sua enunciao como o choque de duas

    atitudes antagnicas, uma, positiva, imputada a um enunciador E1, a outra, que a recusa da

    primeira, imputada a E2. Desta forma, teramos na enunciao de Eu no sou bandido o

    desdobramento de dois enunciadores, um afirma: Ele/Voc bandido; e outro refuta essa

    assero, negando: Eu no sou bandido. O enunciado poderia ser, portanto, levando em

    conta o que formula o autor, desmembrado em:

    E1 Ele bandido e/ou Voc bandido

    L Eu no sou bandido

    E2 Eu no sou bandido

    O Locutor, geralmente, concorda e assume o que enuncia o E2, segundo Ducrot

    (idem). Embora, neste caso, uma outra voz incida na negao, na enunciao. De que modo

    essa outra voz (E1), desta vez afirmativa, funciona no enunciado? Como ela intervm e/ou

    (re)configura a orientao argumentativa?

    De acordo com a Semntica do Acontecimento o funcionamento da lngua argumenta,

    ou seja, a argumentao se d pelo funcionamento da lngua no acontecimento da enunciao,

    se contrapondo definio, seguindo Guimares (2008: p. 1,2), de argumentao como:

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    a) um modo lgico de apresentar provas (evidncia dos fatos), b) uma manipulao do locutor sobre os destinatrios (onipotncia do sujeito) c) uma negociao construda abertamente por interlocutores (acordo entre

    locutores).

    De que modo Eu no sou bandido acontece e funciona? atravs do desdobramento

    de enunciadores sustentados na negao que podemos explicitar como os lugares de dizer so

    divididos e orientam a argumentatividade.

    2. ALGUNS PRESSUPOSTOS DA SEMNTICA DO ACONTECIMENTO

    Em linhas gerais destacamos fundamentados em Guimares (1987, 2002, 2007) a

    maneira como a enunciao desenvolvida a partir do sentido, do sujeito e da lngua; o modo

    como a temporalidade constitui o acontecimento da enunciao; a maneira como o espao e a

    cena enunciativos constrem e sustentam o agenciamento a partir da diviso de lnguas e de

    enunciadores.

    A Semntica do Acontecimento tem como pressuposto o fato de a lngua e de o sujeito

    se constiturem pelo/no prprio funcionamento da lngua na qual se enuncia algo. O

    acontecimento da enunciao por sua vez se caracteriza pelo funcionamento da lngua. Essa

    enuncia algo e a temporalidade constitui o acontecimento, isto , tanto o sentido quanto o

    sujeito so tomados na/pela temporalidade do acontecimento. Segundo Guimares (2002) a

    temporalidade se configura por um presente que abre em si uma latncia de futuro. A projeo

    de futuro, a futuridade, a possibilidade de intepretao. E mesmo o presente e o futuro

    funcionam por um passado que os faz significar. O presente recorta um memorvel que

    projeta um sentido na futuridade. Nas palavras do autor (2002: p. 12), a temporalidade:

    constitui o seu presente e um depois que abre o lugar dos sentidos, e um passado que no lembrana ou recordao pessoal de fatos anteriores. O passado , no acontecimento, rememorao de enunciaes, ou seja, se d como parte de uma nova temporalizao, tal como latncia de futuro. nesta medida que o acontecimento diferena na sua prpria ordem: o acontecimento sempre uma nova temporalizao, um novo espao de conviviabilidade de tempos, sem a qual no h sentido, no h acontecimento de linguagens, no h enunciao.

    a partir de uma posio materialista que este tipo de semntica se afasta

    terminantemente de concepes que tratam da situao, do tempo cronolgico e do indivduo.

    Para a Semntica do Acontecimento enuncia-se enquanto ser afetado pelo simblico e num

    mundo vivido atravs do simblico (GUIMARES, idem: p. 11). Enuncia-se em espaos

    enunciativos, isto , em espaos de funcionamento de lnguas, politicamente divididos, que

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    atribuem aos falantes papis divergentes e/ou convergentes. Neles os falantes disputam a

    palavra e constituem a cena enunciativa que se caracteriza por constituir modos especficos

    de acesso palavra dadas as relaes entre as figuras da enunciao e as formas lingsticas

    (idem: p.23).

    O agenciamento poltico da enunciao no espao tambm poltico configura a cena

    enunciativa em que se d a distribuio de lugares de dizer. A enunciao se d por

    agenciamentos especficos pelo funcionamento da lngua. Neste embate entre lnguas e

    falantes, prprio dos espaos de enunciao, os falantes so tomados por agenciamentos

    enunciativos. O que se tem no um ato individual de enunciao, mas um agenciamento

    poltico (GUIMARES, 2008: p.03).

    O acontecimento instala a cena enunciativa e cada uma delas tem seu Locutor (L) que

    se desdobra em um lugar social (locutor-x) e em um lugar de dizer, ou seja, em um

    enunciador que apresenta uma perspectiva distinta do Locutor. Em jogo esto, na cena

    enunciativa, aquele que fala e/ou aquele para quem se fala. L o lugar que se representa no

    prprio dizer como origem e ao mesmo tempo representa um lugar social (l-x), como, por

    exemplo, locutor-professor, locutor-jornalista. E ainda, a cena enunciativa produz, a partir da

    diviso do locutor, lugares de dizer, figuras enunciativas do locutor: L, l-x e E. Como

    dissemos o Locutor (com maiscula) apresenta-se como lugar fonte de um dizer. Os lugares

    de dizer so distribudos em enunciadores, que por sua vez se caracterizam como individual,

    universal, genrico e coletivo. Essa diviso implica considerar o modo como na enunciao,

    as vozes enunciativas se configuram no acontecimento. No caso do enunciador-individual a

    enunciao representada pela individualidade, como se fosse independente da histria,

    evidenciando um dizer como acima de todos. O genrico apaga o lugar social. Deste modo

    permite que o dito represente aquilo que todos dizem. O enunciador-universal apresenta o

    Locutor como fora da histria e submetido ao regime do verdadeiro e do falso. E ainda, o

    coletivo expe o dizer de uma certa coletividade como se representasse uma nica voz. Estes

    so modos de o Locutor (L) desconhecer que fala sempre de um lugar social e histrico

    (GUIMARES, 2007: p. 208) e de que o falante uma figura poltica, uma figura da

    enunciao.

    Podemos demonstrar a distribu