ensaio sobre as dimensões fílmicas da espacialidade e da

Download Ensaio sobre as dimensões fílmicas da espacialidade e da

Post on 08-Jan-2017

213 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • XIV Coloquio Internacional de Geocrtica

    Las utopas y la construccin de la sociedad del futuro

    Barcelona, 2-7 de mayo de 2016

    PAISAGENS URBANAS E LUGARES UTPICOS NO CINEMA

    BRASILEIRO

    Maria Helena B. V. da Costa Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN-Brasil)

    mhcosta.ufrn@gmail.com

    Paisagens Urbanas e Lugares Utpicos no Cinema Brasileiro (Resumo)

    Apresenta-se aqui uma reflexo terica sobre as utopias e distopias envolvidas na produo

    das imaginaes, visibilidades e espacialidades geogrficas da paisagem urbana e do lugar

    postas em ao pelo aparato cinematogrfico. Discute-se assim sobre uma geografia flmica

    que se constri a partir da paisagem flmica relacionada ao conceito geogrfico de paisagem

    associado ao lugar da distopia. Uma anlise da paisagem urbana e do lugar distpico em

    dois filmes brasileiros contemporneos dirigidos pelo cineasta pernambucano Kleber

    Mendona Filho Recife Frio (2009) e O Som ao Redor (2012) , por fim, apresentada.

    Palavras-chave: paisagem, lugar, utopia, distopia, cinema brasileiro.

    Urban Landscapes and Utopic Places in Brazilian Cinema (Abstract)

    This paper presents an overview on the utopias and dystopias involved in the production of

    imaginations, visibilities and the urban landscapes geographic specialities and place put into

    action by the cinematic apparatus. The discussion evolves around a film geography that is

    built by a filmic landscape related to the geographic concept of landscape that is associated to

    the place of dystopia. An analysis of the representation of the urban landscape and of the

    place of dystopia in two contemporary Brazilian films directed by Kleber Mendona Filho

    Recife Frio (2009) and Neighboring Sounds (2012) is then presented.

    Keywords: landscape, place, utopia, dystopia, brazilian cinema.

    Apresenta-se aqui uma reflexo sobre as utopias envolvidas na produo das imaginaes,

    visibilidades e espacialidades geogrficas da paisagem urbana e do lugar postas em ao pelo

    aparato cinematogrfico, na inteno de discutir sobre uma geografia flmica que se

    constri a partir do que denominamos paisagem flmica. Paisagem esta que est relacionada a

    uma essncia geogrfica que se associa ao lugar da distopia. Primeiramente, apresentamos

    uma discusso sobre o conceito de geografia flmica contextualizado a partir das utopias e

    distopias urbanas concebidas na modernidade e reveladas imageticamente por meio do

    aparato cinematogrfico. Discute-se ainda sobre os novos paradigmas que contriburam para o

    entendimento da associao entre a reflexo geogrfica sobre a paisagem urbana e o lugar

    construdos nos filmes. Ao final, uma anlise da paisagem urbana e do lugar distpico em

    dois filmes brasileiros contemporneos dirigidos pelo cineasta pernambucano Kleber

    Mendona o curta-metragem Recife Frio (2009) e o longa-metragem O Som ao Redor

    (2012) apresentada.

  • XIV Coloquio Internacional de Geocrtica

    Las utopas y la construccin de la sociedad del futuro

    Barcelona, 2-7 de mayo de 2016

    2

    Utopias e distopias nas paisagens geogrficas flmicas

    A paisagem natural, e em seus diversos formatos de representao, deve ser entendida como

    texto diz Duncan (2004). Esta se configura a partir de smbolos e signos institudos como

    prtica cultural de significao participando na construo e transmisso de discursos, valores

    e concepes. Isto , a paisagem uma maneira de ver o mundo1. Na opinio de Cauquelin a

    apresentao da paisagem puramente retrica, est orientada para a persuaso, serve para

    convencer, ou ainda, como pretexto para desenvolvimentos, ela cenrio para um drama ou

    para a evocao de um mito2. Entendida como texto, a paisagem se constitui de uma sintaxe

    prpria e de dispositivos retricos, de figuras de linguagem, e composio de signos; sua

    organizao, como explica Cauquelin, guia e constri o olhar do observador para uma

    narrativa, para um discurso de paisagem especfico utpico ou no , apresentando e

    construindo formas de interpret-la.

    Thomas Morus em sua importante obra A Utopia (1516), deu margem a uma multiplicidade

    de significados para utopia, derivados principalmente da sua etimologia. O substantivo

    utopia derivado do grego topos, que significa lugar e a palavra utopia assume, por vezes,

    um sentido duplicado de lugar: o lugar da felicidade, o lugar que no existe, o no lugar, o

    lugar nenhum, aquele que est no mbito do sonho; que resultado da imaginao; quimrico

    ou fantasioso. utopia, portanto, transcende a realidade, aparece como ruptura da ordem

    existente. cidade utpica, por sua vez, aquela da imaginao, aquela que no pretende

    nem depende da sua realizao. Ento, considera-se como utpica a cidade que no existe,

    aquela que no encontrada em nenhuma parte, que constitui um espao imaginado e nunca

    materializado, que apresenta uma ruptura revoltosa com o mundo circundante3.

    O ambiente tcnico que constituiu o fim do sculo XIX e incio do sculo XX reflete

    diretamente na diversidade de concepes de cidades utpicas no urbanismo e no cinema.

    nesse momento que surgem as cidades automatizadas, repletas de inovaes tecnolgicas

    advindas, e ao mesmo tempo antecipando respostas s aspiraes de um novo mundo

    constitudo pela tecnologia e pelas inovaes e invenes que se multiplicavam. A prpria

    inveno do cinema aparece nesse contexto de invenes tendo como primeira finalidade

    experimentar novas formas de visualizao do espao: a lanterna mgica, a cronofotografia, o

    panorama, a fotografia, a estereoscopia, o quinetoscpio, e finalmente o cinematgrafo dos

    irmos Lumire de 1895.

    Arquitetos, urbanistas e cineastas despontam ento, como os sujeitos que efetivamente se

    preocupam com a configurao espacial e que apresentam alternativas s diversas

    transformaes pelas quais passam as paisagens urbanas. Estes respondem criando novas

    cidades, novas espacialidades, novas imagens e visibilidades como exaltao, contraponto

    e/ou crtica problemtica que se apresenta na realidade da sua poca. A cidade utpica

    constru da pelo cinema, no um espelho, mas resson ncia; tambm no reflexo,

    confluncia; no captura ou representao, mas inveno4. O cinema converte em imagens

    1 Cosgrove, 1998.

    2 Cauquelin, 2007, p.49.

    3 Paquot, 1999.

    4 Deleuze, 1986.

  • XIV Coloquio Internacional de Geocrtica

    Las utopas y la construccin de la sociedad del futuro

    Barcelona, 2-7 de mayo de 2016

    3

    as ideias e pensamentos sobre as cidades utpicas, as traz para o plano do visvel, e por meio

    da impresso do movimento, as torna contextualmente reais5.

    As propostas utpicas envolvem o universo da introspeco e da imaginao que subverte a

    realidade na qual estas so fabricadas; elas agem em resposta a sentimentos relevantes que

    temos diante das cidades, dos lugares que habitamos e aos quais pertencemos, muitas vezes

    conectadas a caractersticas espaciais de uma maneira bastante precisa. Estas conexes,

    embora imaginrias, acabam contribuindo para a evoluo de novas concepes que podem

    iluminar os caminhos da prtica arquitetnica e do planejamento urbano. As utopias

    reverberam ao longo do tempo e sua herana pode ser identificada e assimilada dentro do

    processo crtico de discusso e concepo da arquitetura e do urbanismo, seja de uma maneira

    concreta, visualmente explcita ou conceitualmente sutil.

    Contudo, o entendimento e a anlise das paisagens utpicas (e dos lugares relacionados a

    estas) no momento atual passa pelo reconhecimento de que a utopia relacionada s paisagens

    urbanas flmicas tm sido contextualizadas, quase sempre, por narrativas que fizeram uso

    constante de uma dicotomia especfica: utopia x distopia. Esse modo de olhar posto pelo

    cinema, concebe a paisagem urbana associada imagem das metrpoles que surgiam nas

    primeiras dcadas do sculo XX se explica no fato de a paisagem urbana se apresentar (seja

    na modernidade e/ou ps-modernidade) como cenrio de complexas relaes sociais

    heterogneas, onde os diferentes valores culturais se justapem no espao e criam uma

    multiplicidade de expectativas sobre este enquanto lugar.

    O filme, enquanto um corpus de imagens oferece um olhar e um lugar no espao s paisagens,

    s geografias urbanas, utpicas ou no, que obviamente, tambm se constituem a partir das

    articulaes imagticas nas quais as conexes entre imagens da paisagem e do lugar

    (concretos e representacionais) passam a constituir um lugar formado tanto de objetividades

    quanto de subjetividades. Por isso, a paisagem urbana, em ambas as dimenses, paisagem e

    lugar sugestivo para conjecturar sobre as conexes existentes entre categorias geogrficas,

    suas estruturas dominantes, e as imaginaes geogrficas que se propem a partir destas.

    O interesse pelo que designo de geografia flmica se justifica no modo como esta possibilita

    alternativas para o processo de reconfigurao da paisagem seja esta real ou da ordem da

    representao atravs de novas visibilidades, ou perspectivas do visvel, postas em ao por

    meio do cinema, que as inserem no plano do sensvel tornando-as parte constitutiva do

    esprito6. Consequentemente, uma geografia cinemtica da paisagem constituinte da forma

    de pensamento simblico que procura ampliar o sentimento e a compreenso do mundo para

    alm da concretude do que designamos de realidade.

    O cinema em