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QUARTA-FEIRA, 3 DE MARO DE 2010A dobra Deleuze-Foucaultpor Catarina Pombo Nabais in Cascais, Antnio; Cmara Leme, Jos Luis e Nabais, Nuno (orgs.), Lei, Segurana e Disciplina. Trinta anos depois de Vigiar e Punir de Michel Foucault, Lisboa, CFCUL - Centro de Filosofia das Cincias da Universidade de Lisboa, col. Documenta n. 3, 2009, pp. 71-111.

1. Deleuze leitor de Foucault

Tornou-se um clich considerar as leituras que Deleuze faz de outros pensadores como puras projeces das suas prprias teses. E, de facto, difcil ler, por exemplo, os seus livros sobre Hume, Nietzsche e Kant sem sublinhar a as primeiras formulaes da verso deleuziana do programa do empirismo transcendental. O modo como Deleuze destaca uma dimenso transcendental na teoria da imaginao de Hume, ou como faz aparecer a antropologia poltica da Genealogia da Moral de Nietzsche sobre um fundo de uma teoria kantiana da gnese das faculdades, deixa bem perceber este mtodo de leitura em espelho, onde cada conceito do complicado lxico filosfico do deleuzianismo se vai desenhando segundo um regime de parasitagem, de vampirizao dos universos tericos visitados. Em sentido inverso, h uma imensa rede de conceitos e de decises tericas de Deleuze cuja verdade no se deixa determinar sem retornar s imagens dos autores lidos. Sempre que se tenta explicar as teses mais singulares de Deleuze, como aquelas sobre o plano de imanncia, o virtual, as snteses do tempo, a univocidade do ser, -se imediatamente forado a cair nestes abismos que so o Bergson de Deleuze ou o Espinosa de Deleuze, ou melhor, nesta mise en abme do mtodo deleuziano de contar um livro da filosofia passada como se fosse um livro imaginrio e fingido[1].Imps-se tambm a ideia de que os anos 70, os de colaborao com Flix Guattari, teriam visto interromper os trabalhos sobre autores filosficos, e que era apenas aps Mil Planaltos que Deleuze teria retornado sua paixo pelos grandes textos tericos[2]. verdade que foi apenas em 1981 que Deleuze retomou e aumentou o seu Espinosa de 1971 como Espinosa - Filosofia Prtica. Por outro lado, Foucault publicado em 1986, e A Dobra. Leibniz e o Barroco em 1988. E, uma vez que estes livros so, em certa medida, a verso realizada dos cursos em Paris VIII dos anos 80, dedicados precisamente a Espinosa, Foucault e Leibniz, emerge a falsa evidncia de que os anos 70, os de colaborao intensivo com Flix Guattari, tinham ignorado esse mtodo de collage na histria da filosofia que ele tinha praticado na dcada de 60, e que ele justificara em Diferena e Repetio como dando origem a um Hegel filosoficamente barbudo, um Marx filosoficamente calvo, assim como um Gioconda com bigode[3]. Foi-se impondo a ideia de que Deleuze teria consagrado a dcada de 70 apenas a trabalhos de economia poltica, de sociologia, de lingustica, de literatura, de psicanlise, de biologia, ou seja, a uma mistura vertiginosa de perspectivas visionrias sobre a evoluo do desejo e do capitalismo, sobre os impasses da revoluo, sobre as mquinas de guerra, de onde saram O Anti-dipo, Kafka, e Mil Planaltos.Mas estas duas falsas evidncias a) que Deleuze faz histria da filosofia projectiva e b) que os anos 70 correspondem a um interregno da sua prtica de leitura dos grandes nomes da tradio filosfica - apagam um captulo decisivo da relao de Deleuze com os grandes textos do patrimnio filosfico. Referimo-nos quele captulo da leitura que Deleuze fez de Foucault. Isso aconteceu em dois momentos. O primeiro, em dois estudos publicados na revista Critique na dcada de 70. Embora alterados e aumentados para serem includos em 1986 no livro sobre Foucault, estes estudos foram originalmente publicados respectivamente em 1971 e 1975. O segundo momento, corresponde aos captulos expressamente escritos para o livro sobre Foucault. Eles retomam o fundamental do curso sobre Foucault nos anos de 1985 e 1986.Os primeiros textos, os publicados em Critique e reformulados em 1986 como captulos iniciais do livro Foucault, tm um valor arqueolgico raro. Informam-nos sobre a muito singular recepo por Deleuze de Arqueologia do Saber e de Vigiar e Punir. E esta informao refere-se, de novo, mais do que compreenso luminosa e ao mesmo tempo fraternal destes dois monumentos dos anos 70, ao desenvolvimento do pensamento do prprio Deleuze. Com efeito, tal como em Kafka - Para uma Literatura Menor, tambm os dois primeiros captulos de Foucault so vias de acesso privilegiadas gnese no somente do livro sobre Kafka, mas tambm do livro que desenha o seu territrio conceptual: O Anti-dipo. No difcil indicar em que medida a teoria dos enunciados de Arqueologia do Saber, como descrio destas multiplicidades discursivas no-pessoais que estabelecem relaes extrnsecas com as formaes no discursivas (como instituies, acontecimentos polticos, prticas e processos econmicos), foi um instrumento fundamental na construo de O Anti-dipo. A teoria das snteses de produo, de registo e de consumo que revelam o carcter ao mesmo tempo social, histrico e poltico dos processos desejantes e, por conseguinte, de todos os delrios familiares, seria impossvel sem a ideia de uma saturao do enuncivel a cada poca, onde tudo real no enunciado, e toda a realidade est a manifesta.Com Vigiar e Punir produz-se um impacto semelhante de Foucault sobre Deleuze. Disso d conta o segundo artigo de Critique. Apresentemos esse impacto esquematicamente. A teoria do Poder deste livro de 1975, com todos os novos conceitos como os de dispositivo, diagrama como exposio material das relaes de foras, causa imanente, oferece um dos fundos mais transparentes para acompanhar a anlise que Deleuze e Guattari propem das obras de Kafka. O prprio conceito de agenciamento colectivo de enunciao, a partir do qual uma comunidade menor se ope s mquinas diablicas do Poder, a expresso literria dos diagramas de poder cuja geometria, ao mesmo tempo abstracta e material, Foucault tinha j fundado em Vigiar e Punir. Pode-se portanto dizer que, de uma maneira paralela aos estudos em cincias humanas, s leituras de etologia animal e de biologia que atravessam o fundo de trabalho dos anos 70, a apropriao que ele fez da pragmtica dos enunciados de Foucault, bem como da sua microfsica do Poder disciplinar, tiveram, embora mais secreto, um efeito enorme na obra de Deleuze.Mas, no nos podemos esquecer que o livro sobre Foucault, publicado em 1986, teve uma composio a dois tempos. O primeiro, aquele que j referimos, inclui os artigos sobre Arqueologia do Saber e Vigiar e punir, escritos em 1971 e 1975 para a revista Critique, e constituem a primeira parte, com o ttulo Do Arquivo ao Diagrama. Ali o que est em jogo a pragmtica dos enunciados e a microfsica do Poder sobre os quais se constri o livro de Deleuze e Guattari sobre Kafka. O segundo momento o dos captulos escritos expressamente para este livro aps a morte de Foucault em 1984. Corresponde segunda parte do livro, com o ttulo Topologia: Pensar de outro modo. Deleuze regressa de novo a Aqueologia do Saber e a Vigiar e Punir, e acrescenta a leitura do primeiro volume de Histria da Sexualidade. No entanto, esses trs livros so aqui pensados luz dos dois ltimos volumes da Histria da Sexualidade, publicados por Foucault no ano da sua morte. Deleuze introduz aqui o conceito de dobra do pensamento [plissement de la pense] que inspira o livro sobre Leibniz e o conceito de dobra, e que elabora o horizonte quer da tica do impossvel que se encontra no texto sobre Bartleby, quer da esttica do esgotamento do possvel em redor de textos de Beckett.Respeitemos esta abordagem a dois tempos que Deleuze faz de Foucault. Como introduo leitura de Kafka - Para uma Literatura Menor, reconstituimos os dois primeiros captulos do livro Foucault, dedicados, respectivamente a Arqueologia do Saber e a Vigiar e Punir. Cremos que possvel detectar as linhas primordiais de inspirao da teoria dos agenciamentos colectivos de enunciao, bem como a ideia de Poder como mquina abstracta de desejo.Os captulos que Deleuze dedicou aos dois ltimos volumes de Histria da Sexualidade, sero visitados apenas nos dois ltimos pargrafos deste artigo. Pertencem a uma nova atmosfera no pensamento de Deleuze, aquela que gravita em redor da pergunta da subjectivao como desdobramento da fora sobre si mesma, transformando a microfsica do Poder numa tica do possvel. Este ltimo olhar de Deleuze sobre Foucault deve por conseguinte ser abordado juntamente com o livro que ele como que j preparava: o livro sobre Leibniz.

2 Pragmtica dos enunciados

O conceito de enunciao colectiva que organiza a obra Kafka: para uma literatura menor , em grande medida, consequncia da leitura que Deleuze tinha feito da nova pragmtica dos enunciados proposta por Foucault. Em Arqueologia do Saber, com efeito, o que Deleuze quer sobretudo sublinhar o conceito de enunciado que tinha sido objecto especfico do novo mtodo de arquivista das cincias humanas. A ideia de razo que Foucault tinha descoberto na psiquiatria do sculo XVIII, as imagens do normal e do patolgico que tinham clarificado nas nosografias dos sculos da inveno da clnica, ou as categorias antropolgicas que mostrou na base das cincias humanas, todo este universo de conhecimentos, de classificaes, de categorias, era extrado da leitura dos tratados mdicos, dos relatrios da polcia, das narrativas clnicas, ou mesmo de novelas e peas de teatro. Deleuze quer seguir a justificao que Foucault apresenta do valor de verdade desta camada material do dito. Se se pode relacionar as pginas de Cervantes sobre o delrio de D. Quixote, as linhas finais do Rei Lear de Shakespeare e a descrio da hiptese do gnio maligno de Descartes, porque a, nessa positividade do que foi enunciado, se manifesta uma realidade muito material da razo e da desrazo. Legitimar a epistemologia de Histria da Loucura, de O Nascimento da Clnica e de As Palavras e as Coisas construir a metafsica adequada a esta realidade autnoma dos enunciados que Foucault toma como monumento exaustivo do saber de uma determin